O que os consumidores dos noticiários recebem é um “discurso infantilizante”. A dificuldade está em que não se pode fazer a contra-informação com um discurso igualmente simplista e emocional. “É preciso desenvolver uma ecologia da informação para descontaminá-la das mentiras que podem ser fatualmente demonstradas”, propõe Ignacio Ramonet.
Luiz Marques
Lula registrou as realizações do governo em cartório, enfatizando na documentação sobretudo as conquistas sociais. Como interpretar o gesto do expoente que se despede da Presidência com 83% (DataFolha, dez/2010) de aprovação na opinião pública? Aprovam o gestor mas não conhecem os feitos da gestão, conquanto 80% (idem) declarem aprovação à mesma ? Por que a necessidade de um certificado cartorial ao final do segundo mandato?
O objetivo foi acautelar-se contra uma modalidade de significação, explorada pela grande mídia, para perpetuar uma marca negativa no governo. Como Lula alertou em uma ocasião, se um estudante daqui a duas décadas fizer uma pesquisa nos noticiários atuais chegará à conclusão de que este é o pior governo da história do Brasil. E o mais corrupto.
O périplo presidencial confrontou o “mito”, na acepção do semiólogo Roland Barthes (Mitologias, SP, Difel, 1975), desconstituindo as “falsas evidências” veiculadas entre 2002 e 2010 para formar as “crenças aceitas pela comunidade” (que respondem pelo parco percentual que considera o governo ruim ou péssimo). A versão mítica da Folha de São Paulo, Estadão, Veja e Jornal Nacional, da Rede Globo, reproduzida por outros veículos, assim, encontrou um contraponto simbólico. Empate técnico, já nos descontos.
Folha de São Paulo
A guerra de posição, que travestiu-se em guerra de movimento no frustrado impeachmentde Lula, não acabou com a vitória da primeira mulher alçada ao Palácio do Planalto. Dia seguinte, quem deveria zelar pela retidão no jornalismo, começou a inventariar as “promessas” que aquela herdaria, omitindo das manchetes o que as matérias revelavam: obras de infraestrutura em andamento, aliás, muitas concluídas. O ápice da manipulação viu-se em um caderno especial que superou as maledicências usuais sobre os oito anos do ex-retirante nordestino (FSP, “Crescimento, avanços sociais e escândalos”, 19/12/2010).
Conforme salientou Paulo Henrique Amorim, no blog Conversa Fiada, a chamada de capa trazia uma ressalva: “Lula entrega país melhor, mas imposto é recorde”. A função do “mas” consistia em adjudicar um predicado pejorativo à marca do governo. O jornal fazia-se passar pela “consciência” da população ao trazer à tona o tema com o qual os conservadores procuram rearticular-se, depois do profundo descrédito em que caiu o modelo gestionário ancorado nas perorações sobre o “Estado mínimo” e os “ajustes fiscais”. Com pertinência, Amorim alertou ainda para a ausência de menções às riquezas do Pré-Sal, garantidas pela substituição do regime de concessão para o de partilha, e à operação de subscrição de ações da Petrobrás, a maior da história do capitalismo. Quanto ultraje sem rigor!
Valeria a pena mencionar o que se desfiou também sobre a política externa pós-FHC, altiva e soberana, um dos muitos sucessos de que pode orgulhar-se o povo brasileiro, enfeixada em letras garrafais com um título depreciativo “Ambição política definiu o tom da diplomacia”. Mais subjetiva, impossível. Lê-se então que “a troica formada pelo presidente Lula, pelo chanceler Celso Amorim e por Marco Aurélio Garcia, assessor do Planalto, mudou a ênfase da política externa brasileira”, o que a família Frias lamenta obviamente.
Estultices
Entre outras estultices, o colunista de plantão atribuiu a alteração de foco à “chegada ao poder do PT, com histórico de desconfiança em relação aos Estados Unidos”. Nenhum pejo em assumir os interesses geopolíticos dos EUA, e nenhuma compreensão sobre a importância da integração latino-americana e o papel estratégico do Mercosul em uma economia globalizada. Não à toa, a cobertura jornalística da recente reunião de cúpula do Mercosul, na trinacional Foz do Iguaçu, foi pífia quando não boicotada. Sem um comentário sobre as políticas acordadas pelo bloco para a criação de um Estatuto de Cidadania, que assegura a livre circulação na região em vez da perseguição aos imigrantes como ocorre no hemisfério Norte. O Sul não entra na pauta dos proprietários da opinião pública.
O “mensalão” é apontado como um divisor de águas da era Lula, dando de barato a sua veracidade ainda por provar-se, mas nada se adita acerca das medidas implantadas pelo governo para combater a corrupção estrutural no aparelho estatal. Não obstante, iniciativas importantes foram tomadas pelo governo no período, como a “transformação da Corregedoria-Geral da União em Controladoria-Geral da União, dando a ela maior autonomia institucional e status de ministério, e a maior autonomia da Polícia Federal na investigação do crime organizado”, sublinha o cientista político Fernando Filgueiras (Carta Capital, 22/12/2010). A ponto de a CGU tornar-se uma referência reconhecida internacionalmente na luta anticorrupção, com sobras de elogios ao governo.
O que os consumidores dos noticiários recebem à guisa de análise e, no caso, balanço do governo, é um “discurso infantilizante”. A dificuldade está em que não se pode fazer a contra-informação com um discurso igualmente simplista e emocional. “É preciso desenvolver uma ecologia da informação para descontaminá-la das mentiras que podem ser fatualmente demonstradas”, propõe o editor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet. Esse é o sentido da ida de Lula até um cartório, a fim de oficializar os volumes que relatam avanços em todas as áreas administrativas: demonstrar com fatos que a engrenagem mistificadora da mídia, afora não divulgar com objetividade e não contextualizar as ações governamentais, escondeu ao longo dos anos a sua repercussão emancipadora na vida social, política, econômica e cultural do Brasil. Ah se meu fusca falasse!
Resgate da palavra
Por outro lado, ao autenticar os sucessos sociais alcançados com a implementação de políticas públicas e controles transparentes sobre o erário, “como nunca antes...”, Lula resgatou a autoridade da palavra em uma sociedade movida pela instantaneidade das imagens. Dinâmica que induz a posicionamentos irrefletidos, ao gosto momentâneo das massas. A dominância das imagens desemboca no que o filósofo Paul Virilio (Página 12, 20/11/2010), ao acusar o culto da velocidade, batizou de “democracia reflexa”: bloqueia o pensamento, o cotejo de argumentos e inviabiliza a interlocução entre pares.
A imagética impactante do espetáculo provoca reações que levam ao eclipse da razão, e não a uma reflexão para fundamentar com juízos autônomos um parecer frente às questões de interesse comum. Lula, ao contrário, lançou mão da escrita para provar o que fez e auxiliar a apreensão consciente por parte dos concidadãos. Como na música, ilustra Virilio, é necessário achar o ritmo certo para participar e fortalecer o processo democrático.
O ritmo frenético das críticas magnificadas pela lente de aumento da mídia empresarial, acompanhadas por fotos ou filmagens que mobilizem estereótipos e preconceitos (tipo mulher fumando charuto), tem sido a regra para minar as bases sociais do governo junto às classes médias. O que vale é a exposição sensacionalista, sem a obrigação de apresentar uma comprovação às acusações e insinuações. O alvo é a reputação dos governantes. Tudo serve de pretexto, do custo de produção da festa de posse ao salário dos guarda-costas. Não é a qualidade das imputações o que importa, é a quantidade.
Repolitizar a política
A enxurrada de suspeições, reiteradas dia após dia, gera um ambiente de desgaste político e moral impedindo o trabalho de discernimento individual e coletivo. A marca, finalidade última da publicidade, é consequência da solapa. Com o que a mídia traça a linha de ataque a ser seguida pelos partidos de oposição. Em lugar de destacar as concepções em disputa sobre o Estado e os projetos propugnados por cada campo político-ideológico para a nação, estimulam-se as avaliações e sensações centradas na moralidade. Nas pegadas dos ultraconservadores estadunidenses dedicam-se à despolitização da política.
É bem verdade que a extensão da banda larga no território nacional, propiciando um acesso mais amplo à internet, ajuda a conter a sabotagem sobre as realizações das administrações progressistas nas distintas esferas federativas, bem como as distorções deliberadas que transformam o significado dos fatos em seu oposto. Especialistas são unânimes em afirmar que a diversificação das fontes informativas retira poder aos monopólios da comunicação, o que não implica minimizar a influência que desfrutam (Venício Lima, Carta Maior, 21/12/2010). De todo modo, as redes globais contribuem para a repolitização da política, tornando-se instrumentos que interagem com os movimentos sociais e estimulam a emergência de novos atores sociais. A entrevista de Lula aos blogueiros já mostrou que existe vida além da mediocridade da imprensa marrom.
Se os movimentos reivindicativos clássicos vinculavam-se às categorias profissionais de trabalhadores, a mobilização que acontece via internet remete a determinados códigos culturais de ideias e valores. O desafio está em fazer da defesa do governo Dilma uma ideia aglutinadora na internet e, da liberdade de expressão, um valor indissociável da luta contra os monopólios da voz e da imagem. A censura ao Wikileaks, que não mereceu contestação dos subsidiários do capital midiático, indica o desprezo do capitalismo com os princípios democráticos e republicanos. Seu apreço restringe-se à acumulação e ao golpismo.
Interação permanente
A intenção da mídia, por ora em marcha lenta, será a de provocar uma crise de identidade no governo. Caberá aos partidos políticos de sustentação da esperança liderada agora por Dilma abrirem-se para uma interação com a juventude, as mulheres, os negros, os social-ambientalistas, os defensores dos direitos humanos. Empreendimento que será potencializado pelos governantes através de espaços dialógicos deliberativos envolvendo os setores sociais organizados. Quanto maior a participação popular, maiores os atrativos para a formação de redes comunicacionais na internet que conjuguem o desejo de transformações profundas na realidade. A internet só é um mural de anúncios para os burocratas.
A reforma tributária e a reforma política, prioridades em 2011, não podem ficar circunscritas às negociações palacianas e aos corredores parlamentares. Ambas mexem com disposições refratárias de peso. Acabar com a regressividade da matriz tributária e taxar as grandes fortunas é essencial à obtenção de recursos financeiros que respaldem a continuidade e o aprofundamento das políticas públicas de distribuição de renda. Instituir o financiamento público de campanha e o voto em lista é limitar a ingerência do poder econômico nas eleições. Tais iniciativas modificariam a cultura política do país, jogando luz sobre os programas partidários e também sobre os laços classistas das agremiações.
Mas não se materializarão sem apoio massivo nas ruas e nas redes. A internet equivale, hoje, ao que foram a fábrica fordista e as portentosas corporações sob hegemonia industrial, ontem. Fazer com que seja uma ferramenta política de solidariedade e de uma militância criativa em favor das mudanças históricas em curso no Brasil e na América Latina, nisso reside a tarefa de todas as mentes e todos os corações comprometidos com a agenda civilizatória que sucedeu a barbárie neoliberal. Lidar com esse novo parâmetro sociotécnico requer uma quebra de hierarquia, uma aceitação da diferença, uma abertura para o mal-entendido que reanima a conversação e descortina horizontes imprevistos. O futuro exige essa descontração política, livre de esquematismos burocráticos.
Marco regulatório
Os responsáveis pela opacidade que encobre os atos políticos da esquerda trocam a liberdade de expressão pela ditadura da ocultação, negando o direito à informação. Urge uma mobilização da sociedade civil (o verdadeiro campo de batalhas da luta de classes) para fazer uma revisão do marco regulatório da organização e exploração dos serviços de telecomunicações e radiodifusão, e coibir a propriedade cruzada dos meios de comunicação.
O passo inicial foi dado com o “Seminário Internacional Comunicações Eletrônicas e Convergências de Mídias”, proposto pela SECOM. A estrada é longa. Para percorrê-la, não basta a vontade política do governo. A própria opinião pública tem de tomar para si essa bandeira, manifestar-se a respeito nos grêmios estudantis, associações comunitárias, assembleias sindicais, etc, para que se converta em uma aspiração geral. A Argentina deu o exemplo, sua experiência deve ser socializada. O que está em jogo é a democracia. Para que Dilma não tenha de repetir o périplo de Lula a um cartório ao final do mandato.
Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
muito importante ter lula ter registrado as conquistas reais do governo. Aqui em barretos fiz
ResponderExcluirtoda documentação com análise de nós petistas
colocando-as nas bibliotecas na cidades de faculdades e universidades na região, para que a nova geração tenha
dados reais para suas pesquisas
abraço