sábado, 25 de setembro de 2010

Me diga - como acabou assim?

É a dúvida dos tucanos às vésperas daquela que pode ser a maior derrota da história do partido. O PSDB avalia onde errou e busca um caminho para a reconstrução

ISTO É

Se as pesquisas de intenção de voto para presidente da República forem confirmadas nas urnas no domingo 3, o candidato do PSDB, José Serra, sairá da disputa eleitoral bem menor do que entrou. Em dois meses de campanha – e pouco mais de 40 dias de horário eleitoral gratuito – os institutos de pesquisa indicam que o tucano perdeu mais de 15 milhões de eleitores. Em 30 de junho, um dia antes do início oficial da campanha, Serra aparecia empatado com Dilma Rousseff, com 35% das intenções de voto, segundo o Ibope. Na pesquisa de 17 de setembro, Serra equilibra-se em 25%, enquanto sua concorrente é a preferida por mais de 50% dos eleitores. Para os especialistas em eleições, o bom momento econômico e a alta popularidade do presidente Lula não são suficientes para explicar como os tucanos conseguiram perder quase 190 mil votos por dia, desde o início oficial da corrida pelo Planalto. “O PSDB não se preparou para o pós-Lula”, diz o cientista político Marcos Figueiredo, diretor do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj). “Foram muitos os erros. Um papel vexatório”, afirma o sociólogo Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise. “O Serra não soube e não sabe o que falar para o eleitor”, diz.

Reservadamente, os tucanos começaram a juntar os cacos da campanha e já catalogam a sucessão de erros cometidos nessa corrida eleitoral para analisar o porquê de Serra sucumbir novamente diante do PT e de Lula. Para a cúpula da legenda, três problemas graves foram identificados: uma malfadada política de alianças, na qual o PSDB não conseguiu ampliar suas composições; o mau tratamento dispensado aos antigos parceiros, como a atabalhoada escolha do vice ; além, é claro, da própria escolha de Serra como o candidato do partido. Nos últimos dias essa tem sido a principal justificativa ouvida no ninho tucano para explicar o desastre que se avizinha. O cientista político Alberto Carlos Almeida faz coro aos que atribuem à escolha de Serra o começo da derrota. “O erro foi ele ser candidato. Serra faz parte de uma elite política antiga e prepotente.”


Serra tentou ser oposição, depois afirmou que daria continuidade ao governo Lula e
por fim garantiu que seria a solução para uma crise econômica que só ele vê

Sem uma bandeira definida e despencando nas pesquisas, Serra já na largada da campanha imprimiu a marca do terror. Como a estratégia não funcionou, ele partiu para um ataque esquizofrênico como se tivesse perdido o próprio eixo. Em entrevista na quarta-feira 22, Serra afirmou ser a única “alternativa a esse estado de crise absoluta”. Porém, o tucano esqueceu de explicar que o Brasil não está em crise. Ele foi além. Na mesma entrevista, o tucano declarou que “o País passa por um processo de desindustrialização.” Também aqui, trata-se de uma afirmação sem nexo com a realidade, já que as indústrias estão investindo e crescendo. Mais do que isso, a cada dia novas empresas estão surgindo. “O Serra está fazendo tudo errado”, entende o cientista político Gaudêncio Torquato. “Ele está atirando para tudo que é lado, mas isso não surte efeito”, diz Torquato. Para Marcos Figueiredo, diretor do Iuperj, “os erros de Serra são fruto da falta de compreensão política da população brasileira do pós-Lula”.

Na reta final da corrida eleitoral, ao que tudo indica, Serra abandonou de vez o que ele próprio admitia como sua principal qualidade: ter nervos de aço para enfrentar a campanha. O tucano partiu para um populismo escrachado e equivocado ao prometer um pacote de bondades sociais para tentar conquistar o eleitorado de baixa renda e os aposentados. Ele prometeu, primeiro, um salário mínimo de R$ 600, depois anunciou que iria ampliar em dois milhões o número de beneficiários e instituir a décima terceira parcela do Bolsa Família. Por fim, propagandeou que assim que chegar ao Palácio do Planalto irá reajustar em 10% o salário dos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Quando questionado de onde ele tiraria o dinheiro para viabilizar tantas promessas, uma vez que o orçamento de 2011 já está aprovado, Serra tergiversa e diz que o valor da previdência no Orçamento da União para o próximo ano está subestimado. “Existem muitas gorduras”, avalia o candidato.



A pergunta que fica é se Serra está simplesmente blefando. Pode ser, já que suas propostas gerariam custo de mais de R$ 50 bilhões aos cofres públicos. Só os gastos com aposentadorias e pensões, atualmente estimados em R$ 278 bilhões, teriam um impacto de mais de R$ 27 bilhões nos cofres da Previdência. “Ele está fazendo um leilão de propostas. Essa é a prova do desespero total, uma campanha sem pé nem cabeça”, diz o cientista político Marcos Figueiredo. Entre os aliados já há quem critique a campanha publicamente. “Cometemos erros primatas e não primários”, explica o ex-senador Guilherme Palmeira (DEM-AL). “Passamos oito anos de governo Lula feito baratas tontas. Ora puxando o saco do governo, ora batendo a esmo”, avalia o ex-senador. À Istoé, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sentenciou: “A campanha de Serra não está sintonizada com o Brasil.”

Diante desse quadro fica uma pergunta: para onde vai Serra, aos 68 anos? Os caciques paulistas do PSDB já vislumbram que o tucano poderá disputar a Prefeitura de São Paulo, em 2012. Enquanto isso, outras lideranças nacionais da legenda, como Aécio Neves, Tasso Jeiressati e Sérgio Guerra começam a articular o que eles vêm chamando de refundação do partido. “O PSDB precisará passar por um processo de renovação”, disse o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) a menos de duas semanas das eleições. Com os paulistas enfraquecidos, o novo núcleo duro do PSDB planeja um partido mais crítico e aguerrido, capaz de ampliar suas alianças e ficar menos atrelado ao conservadorismo dos Democratas.



Postado por Luis Favre
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Tags: 2010, José Serra, PSDB, Tucanos
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Capitalização da Petrobrás: as razões do sucesso


Presidente Lula participou da cerimônia de abertura da oferta de ações da Petrobras – Vanessa Carvalho, News Free, AE







Análise: Edmar Luiz Fagundes de Almeida – O Estado de S.Paulo
O debate eleitoral em vigor no Brasil tornou pouco claro para a população em geral a relevância e as consequências do recente processo de capitalização da Petrobrás.

O calor do debate eleitoral levou as discussões para alguns temas controversos da operação de capitalização, que não necessariamente eram os mais importantes para determinar o sucesso ou o fracasso da mesma.

O debate em torno da capitalização da Petrobrás foi dominado por duas questões principais: I) as consequências de um eventual aumento da participação do Estado brasileiro no capital da Petrobrás; e II) o nível de transparência quanto aos critérios de definição do preço do barril do petróleo.

As vozes críticas ao processo de capitalização sustentaram até o fim que uma elevação da participação do governo no capital da Petrobrás iria contribuir para piorar o nível da governança corporativa, com o aumento da interferência política na empresa.

Ao mesmo tempo, o governo estaria comprando essa maior participação mais barato que os acionistas minoritários. Isto ocorre porque o governo estaria pagando sua parte das ações com 5 bilhões de barris de petróleo avaliados arbitrariamente a US$8,51, um preço acima daquele que seria preço considerado justo.

Como explicar o inegável sucesso da operação de capitalização da Petrobrás? As razões certamente passam longe das questões debatidas acima. Inicialmente, é importante ressaltar que as descobertas de petróleo da área do pré-sal fizeram do Brasil a principal área de expansão da indústria petrolífera mundial fora da OPEP.

Ao mesmo tempo em que a Petrobrás tem uma posição privilegiada no pré-sal, as empresas internacionais de petróleo de capital aberto, que disputam com a Petrobrás os recursos dos investidores, vêm enfrentando muitas dificuldades para terem acesso a reservas de petróleo em condições econômicas aceitáveis.

Por essa razão, não está fácil encontrar uma empresa de petróleo para investir com um bom prognóstico de crescimento da produção de petróleo.

O contexto atual do mercado financeiro mundial, caracterizado por baixo nível da taxa de juros e um fraco desempenho das economias centrais também contribuiu muito para o sucesso da operação. Neste contexto, os grandes fundos de investimento internacionais não encontram boas opções de investimentos no mercado de capital dos países centrais.

O País é visto como uma excelente oportunidade quando comparado com as outras opções. No Brasil, certamente um dos negócios mais promissores a médio e longo prazo é a Petrobrás.

Dado o exposto acima, os investidores foram pragmáticos e aceitaram o risco do negócio. Esses investidores estão apostando que a boa governança corporativa da empresa não vai alterar significativamente porque o governo agora reforça um controle acionário que já detinha.

Da mesma forma, estão calculando que o importante não é o preço dos 5 bilhões de barris de petróleo da cessão onerosa, mas é sim o baixo preço dos mais de 20 bilhões de barris do pré-sal que continuaram no regime de concessão atual.

PROFESSOR DO GRUPO DE ECONOMIA DA ENERGIA DO INSTITUTO DE ECONOMIA DA UFRJ

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Tags: capitalização, Edmar Luiz Fagundes de Almeida, Petrobras, petróleo, pré-sal
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FHC jogou a toalha

Desfrutando do gostoso cardápio do restaurante Carlota, de Higienopolis, o ex-presidente conversou longamente com o correspondente do Financial Times. O artigo esta hoje no jornal inglês.
Antes de concluir o ágape, “Cardoso começou a falar sobre as eleições em 3 de outubro. mas quando mencionei – escreve o jornalista inglês- seu próprio partido, a frustração tomou conta pela primeira vez [no jantar]. ‘A oposição errou. Permitimos a mitificação do Lula. mas Lula não é um revolucionário. Saiu da classe trabalhadora e age como se fizesse parte da velha elite conservadora’. Sugiro que já percebemos quem ganhará as eleições, previstas para três semanas e meia depois de nosso almoço. ‘Sim’ admite ele – Dilma Rousseff, a candidata designada por Lula para seu PT’”.

“Cardoso starts to talk about the election on October 3. But when he mentions his own party, frustration enters his voice for the first time. “The opposition got it wrong. We allowed the mythification of Lula. But Lula is no revolutionary. He rose from the working class and behaves as if he’s part of the old conservative elite.”

I suggest we already know who will win the election, still three and a half weeks away at our lunch. “Yes,” he admits – Dilma Rousseff, Lula’s anointed candidate from his Workers Party”.

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Como o eleitor vai escolher

O brasileiro está mais pragmático e deve definir o voto pensando no que está acontecendo no seu dia a dia. A experiência dos candidatos pesa cada vez menos
Claudio Dantas Sequeira – ISTOÉ





O eleitor brasileiro sempre votou com o bolso e o coração. Mais maduro e pragmático do que antes, contudo, é provável que desta vez a razão prevaleça. Pesquisas apontam que, com a economia estabilizada e o desemprego em queda, temas como saúde e segurança passaram ao topo das preocupações do cidadão. Os debates, a opinião de familiares e amigos, assim como notícias jornalísticas e o trabalho dos partidos e seus cabos eleitorais também influenciam na escolha, mas em menor grau. “O voto, mesmo sendo individual, reflete uma complexa combinação de anseios e constatações”, diz o presidente do Datafolha, o sociólogo Mauro Paulino.

Uma pesquisa do Vox Populi aponta ainda que, dentre as qualidades que o eleitor sempre procura num político, a honestidade está em primeiro lugar. Ela é seguida da capacidade em entender os problemas do povo, ter condições de resolver esses problemas e ideias novas para o Brasil. Em último lugar no ranking de características está a experiência administrativa e política, que pelo visto saiu de moda. “Se aquele que não tinha curso superior e ‘nunca tinha sido nada’ deu tão mais certo que um dos mais ilustres intelectuais de sua geração, o problema é o critério”, diz o diretor do instituto, Marcos Coimbra.



Para o cientista político Ricardo Guedes, presidente do Instituto Sensus, a honestidade que o eleitor exige do candidato tem mais relação com o cumprimento das promessas de campanha do que com a corrupção. “Se um candidato diz que vai construir centenas de escolas e outro promete uma dezena de hospitais, o eleitor quer que ele cumpra isso”, afirma. Dessa forma, é válido que as campanhas mostrem seus candidatos vinculados a realizações passadas e projetem o que é possível fazer no futuro. O presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisas Sociais (IBPS), cientista político Geraldo Tadeu, diz que há muito mais por trás da decisão do voto do que pretende o maniqueísmo político. “O eleitor busca credibilidade. Ele vota em quem confia”, diz. Talvez por isso as recentes denúncias influenciaram tão pouco no desempenho de Dilma Rousseff nas pesquisas eleitorais.

Acrescenta-se a isso o próprio amadurecimento do eleitor em relação ao processo político. Com a banalização das denúncias, o brasileiro está mais cético e só aceita vínculos diretos e provas contundentes, não apenas ilações eleitoreiras. “Pode-se dizer que, depois do vídeo mostrando o governador José Roberto Arruda recebendo dinheiro, o eleitor não aceita menos do que isso como prova de corrupção”, observa Geraldo Tadeu. Já Ricardo Guedes destaca que na cabeça do eleitor denúncias de última hora podem soar como tentativa desesperada do concorrente. “O eleitor pode achar que estão querendo demonizar seu candidato de propósito”, afirma. Seguindo essa lógica, qualquer denúncia passa pelo crivo de três critérios fundamentais: tem que ser verídica, comprovada publicamente e o eleitor tem de estar disposto a aceitá-la. Além disso, como a história eleitoral recente demonstra, o eleitorado brasileiro parece pouco disposto a aceitar o jogo baixo, especialmente a troca de acusações e agressões.




É claro que a percepção do eleitor em relação ao candidato muitas vezes é influenciada por uma boa estratégia de comunicação e marketing. Isso se revela de forma mais forte na corrida para a Presidência e para os governos estaduais, em que os candidatos tendem a ficar bem mais expostos. Nesse sentido, candidatos já conhecidos pelo público e com uma imagem consolidada saem na frente. Obviamente, também podem ter problemas quando ostentam um índice alto de rejeição. “Desconstruir uma imagem é muito mais difícil do que construí-la do zero”, afirma a diretora-executiva do Ibope, Márcia Cavallari. Ela cita a disputa entre Dilma Rousseff e José Serra como modelo. “Enquanto o Serra tinha um alto recall com grande rejeição, a Dilma era uma página em branco para a maioria dos brasileiros. Acabou sendo uma vantagem para ela, especialmente tendo Lula como fiador de sua candidatura”, comenta.

Para Márcia, o eleitor faz um cálculo político-eleitoral. Calibra seu voto combinando interesses pessoais com os da sociedade em que ele está diretamente inserido. Mas isso não vale para todo tipo de eleição, por assim dizer. Os critérios para a escolha de deputados federais tendem a ser bem mais difusos do que os utilizados para cargos do Executivo. Inclusive, essa decisão normalmente se dá às vésperas do dia da votação, depois que o eleitor já definiu seu voto para presidente, governador e senadores. Quais os critérios, por exemplo, que levam um milhão de eleitores a querer votar no comediante Tiririca? “É o voto de protesto, o cacareco. O problema é que o eleitor muitas vezes não sabe que a eleição de uma celebridade dessas acaba puxando outras pessoas que ele nem imagina”, diz Márcia.



Esses problemas são consequência do próprio processo eleitoral. O pouco tempo na tevê e a cobertura jornalística focada na campanha para presidente e governadores acaba espremendo os candidatos proporcionais. Para chamar a atenção, eles acabam apelando para a irreverência ou até para o ridículo, o que ajuda a fixar sua imagem. Fora isso, o eleitor escolhe seu deputado ou senador baseado na indicação do candidato presidencial ou do governador. E, se ainda assim ele não encontra alguém ideal, acaba depositando seu voto na legenda. Não por afinidade, mas por conveniência. “No Brasil, a identidade partidária é baixíssima. Como na prática, direita e esquerda se misturam, e não há muita diferença nas bandeiras levantadas pelos partidos e por seus candidatos, o eleitor age no automático”, diz Geraldo Tadeu, do IBPS.

Postado por Luis Favre
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Tags: continuidade, eleições, motivações eleitorais, pesquisas
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A onda vermelha

De cima a baixo no País, o eleitor apoia a continuidade e tende a garantir uma quase inédita maioria governista no Congresso
Octávio Costa e Sérgio Pardellas – ISTOÉ

SEM PARAR
Eleitores de todas as classes sociais
mostram desejo de continuidade

Na esteira da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência, uma onda vermelha está tomando conta do País. No início da corrida eleitoral, essa imagem foi cunhada pelos estrategistas da campanha do PT para motivar a militância. Mas, agora, tornou-se realidade. As pesquisas de opinião revelam a supremacia dos candidatos governistas na maioria dos Estados, o que poderá garantir a um eventual governo Dilma ampla maioria na Câmara e no Senado. Surfando numa maré mais favorável do que aquela que levou o ex-metalúrgico Lula ao Palácio do Planalto em 2002, os candidatos da base aliada aos governos estaduais lideram as eleições em 19 das 27 unidades da Federação. Na disputa pelas cadeiras do Senado, a onda vermelha é tão volumosa que deverá eleger 58 dos 81 representantes e deixar sem mandato quadros históricos da oposição. Na Câmara, os partidos governistas devem conquistar 401 dos 513 assentos.
“Acho que vamos assistir a uma vitória esmagadora dos partidos da coalizão do governo”, prevê o presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social, Geraldo Monteiro.

MAIORIA
Sólido apoio no Congresso pode facilitar a aprovação
das reformas estruturais de que o País necessita


Não bastasse a liderança em 21 Estados, Dilma está na frente de José Serra (PSDB) em locais em que Lula foi derrotado pela oposição em 2006. Apesar da oscilação registrada na última semana, a ex-ministra está perto da vitória em antigos redutos oposicionistas como São Paulo, Santa Catarina e Paraná. Na maioria dos Estados em que ela lidera as pesquisas, os candidatos que apoia também estão na dianteira. Bons exemplos são o Rio de Janeiro e a Bahia, onde os governadores Sérgio Cabral (PMDB) e Jaques Wagner (PT) são favoritos para se reeleger no primeiro turno. Como exceções aparecem Minas Gerais, com Antonio Anastasia (PSDB) na liderança, e São Paulo, onde Geraldo Alckmin (PSDB) supera Aloizio Mercadante (PT). No Paraná, a onda vermelha já proporcionou uma grande virada. As últimas pesquisas mostram que o tucano Beto Richa, antes favorito ao governo, perdeu o primeiro lugar para Osmar Dias (PDT). Reviravoltas também têm ocorrido na disputa para o Senado. Até então cotado para uma das vagas do Rio, Cesar Maia (DEM) foi ultrapassado pelo ex-prefeito de Nova Iguaçu Lind­berg Farias (PT). No Amazonas, Arthur Virgílio perdeu o segundo lugar para Vanessa Grazziotin (PCdoB). Em Pernambuco, Marco Maciel (DEM), segundo colocado atrás de Humberto Costa (PT), foi ultrapassado por Armando Monteiro Neto (PTB).

A inédita sintonia fina entre Executivo e Legislativo, a partir de 2011, trará benefícios para o Brasil. Caso se confirme a sólida maioria no Congresso do possível futuro governo Dilma Rous­seff, o Brasil terá finalmente a chance de aprovar as mudanças estruturais que se fazem necessárias há anos, como as reformas política e tributária. “A agenda congressual a partir do ano que vem exigirá a votação das reformas. Com maioria no Legislativo e vontade política, será possível avançar nessas questões”, afirma David Fleischer, cientista político da UnB. Outro aspecto importante é a possibilidade da formação de uma concertação política, composta por partidos aliados chancelados pelo desejo popular. Desde a redemocratização do País, os governos construíram suas maiorias pelas artes do fisiologismo e das políticas do toma-lá-dá-cá, numa espécie de balcão de negócios em pleno Congresso. Nesse novo cenário, queiram ou não, deputados e senadores serão levados a participar de uma ação conjunta, na qual é de esperar que os objetivos políticos se sobreponham à visão patrimonialista do mandato.


APOIO
Participação de Lula na campanha
de Dilma incomodou a oposição

Há quem afirme que a concentração de poder nas mãos do Executivo, com o Legislativo dócil à vontade do Planalto, pode permitir uma recaída autoritária. O temor não se justifica. Não há ambiente no Brasil para esse tipo de surto. As instituições são sólidas e democráticas, e não há espaço para mudanças constitucionais em benefício de um partido, como aconteceu na história do México, onde o PRI controlou a vida política por 71 anos, graças ao domínio da máquina pública. “O que aconteceu no México foi muito diferente. O PRI chegou ao poder quando a economia mexicana, a sociedade e os políticos eram muito rudimentares e eles forjaram instituições para guiar o desenvolvimento em todas as áreas. Já o PT emergiu no momento em que a economia e as instituições já estavam consolidadas”, compara o brasilianista Peter Hakim, presidente do Interamerican Dialog.


MINORIA
No Largo de São Francisco (SP), menos de 100
pessoas lançam o manifesto

Contrariando todas as evidências, intelectuais e setores da elite, em São Paulo divulgaram, na semana passada, um manifesto em defesa da democracia e da liberdade de expressão. Um dia depois, o Clube Militar, no Rio de Janeiro, instituição marcada pelo apoio ao antigo regime de exceção que infernizou o País por 20 anos, promovia um inusitado painel de debates para discutir também supostos riscos à democracia no País. Tanto o documento do grupo de intelectuais quanto os debates dos militares ficaram a um passo de questionar a própria legitimidade da eleição de Dilma, em razão da participação do presidente Lula na campanha. Ambos não levaram em conta que a legitimidade brota das urnas. Embora o eleitor manifeste maciçamente sua intenção de votar pela continuidade das políticas oficiais, a opinião pública não vem sendo espelhada na ação de alguns agentes do processo político. O que parece ter sido esquecido no manifesto oposicionista de tendências golpistas é que a democracia é exercida pelo voto.

EQUÍVOCO
Um manifesto oportunista tentou passar a mensagem de que
há uma ameaça à democracia. Esqueceu que a legitimidade vem pelo voto

O temor de uma vaga autoritária por parte do governo é deslocado da realidade. Não reflete o momento que o Brasil vive. Não há sinais concretos de que o presidente Lula tenha atentado contra a liberdade de imprensa. Ele vem fazendo apenas críticas pontuais, direito que não pode ser negado a qualquer cidadão, muito menos ao presidente. De resto, desde a luta contra a ditadura, Lula mostrou-se defensor intransigente das liberdades democráticas. “É incrível como as pessoas ficam empurrando o Lula para o chavismo, quando ele tem permanentemente se recusado a cruzar essa fronteira”, rebate o ex-ministro Delfim Netto, com a ironia de sempre. Delfim tem razão. A não ser que o observador da cena nacional, assustado com a onda vermelha, queira ver chifre em cabeça de cavalo.

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