Enviado por luisnassif, sab, 25/09/2010 - 10:02
Não dá para analisar o desastre da campanha do José Serra sem se debruçar sobre o papel da velha mídia. Montou-se um pacto em 2005, com apoio integral da velha mídia. Mas nem o candidato - nem o guru FHC - ofereceu ideias. Deixou-se a velha mídia solta,. E aí ela levou o cabresto aos dentes e fez a única coisa que sabe fazer: demonização de adversários e o discurso primário do "anti" - no caso, o antilulismo.
Dentre todos os "ideólogos" desse período, nenhum é mais representativo que Merval Pereira. É abismante sua incapacidade de analisar processos econômico-sociais, políticos, para construir uma crítica minimamente sofisticada. Não é à toa que , para variar seu estoque de slogans, a velha mídia precise recorrer obsessivamente a pensadores do naipe de Marco Antonio Villa, Demétrio Magnolli e quetais.
Mas renovar slogans, não idéias. Penso que até análises de tucanos históricos - como Bolívar Lamounier, Roberto Da Matta, Gianotti - são consideradas complexas demais para serem compreendidas e traduzidas pelos neo-intelectuais da velha mídia. Longe da sofisticação de Roberto Campos, dos estudos de Boris Fausto e outros, o neoconservadorismo brasileiro conseguiu atingir níveis de banalização à altura do anticomunismo dos anos 70.
Na entrevista, o que Merval faz é meramente alinhar todos os chavões antilula disseminados nos últimos anos, sem a menor capacidade de juntá-los em um todo lógico, em um raciocínio sistêmico. Só bordões e bordões, um check-list de bordões sem um pingo de análise, conhecimento histórico ou social.
O Fome Zero era um projeto de "reforma estrutural do Estado", diz ele, contrapondo ao Bolsa Família, que é "um programa para manter a dominação do governo sobre esse povo necessitado". Logo, Patrus Ananias é figura central para a construção desse modelo lulista. É risível a defesa que ele, direitista sem nenhum verniz, faz do Fome Zero, como um "projeto muito mais voltado para a esquerda". É uma miscelânea total, em que faz um apanhado de todas as críticas fáceis, à esquerda, à direita, o que vier eu traço, junta numa batedeira e tira uma gosma conceitual que não dá liga. Nem FHC e Serra ousam criticar o conceito por trás do Bolsa Família - pelo contrário, fazem questão de disputar sua paternidade.
Sua descrição sobre a recuperação de Lula pós-mensalão é de uma superficialidade de causar inveja a contadores de histórias infantis. Lula estava morto, aí o PSDB resolveu deixar sangrar, aí a coisa virou, aí Lula foi em frente, aí viu que tinha repaldo popular. É o máximo que consegue teorizar em cima de um fenômeno político - o da quase morte e ressurreição de Lula - que ainda intrigará por décadas historiadores e cientistas sociais.
Sobre o Lula pós-presidência, disse que não mais fará carreira internacional porque, "depois da crise com o Irã", esse projeto furou um pouco. Meu Deus! O mundo em transformações estruturais, os emergentes assumindo um novo protagonismo, a ordem mundial se esfacelando, abrindo espaço para novos arranjos, a diplomacia brasileira ousando caminhos nunca antes navegados (o que abre margem para discussões sólidas contra ou a favor dessa prospecção do novo) e Lula emergindo como uma das lideranças globais. E Merval dizendo que vai mudar porque a imprensa brasileira decretou que a incursão no Irã afetou a imagem do Lula. Faltou informar o Le Monde, Financial Times, El Pais, BBC.
A maneira como ele prevê a próxima crise política entre Dilma e Lula é o fecho à altura de uma entrevista exemplar: Lula vai querer permanecer atuando, vai querer escolher ministros, vai querer interferir. Isso previsivelmente provocará uma crise política. E ele não sabe como Dilma e o PT irão reagir.
Pelo nível da entrevista, esse é o menor dos pontos que Merval desconhece sobre política, país e sobre seu personagem predileto: Lula
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