sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um editorial vergonhoso - DA FOLHA

FAVRE
Para certos assuntos prefiro ler, ouvir, me informar e refletir bem antes de emitir uma opinião. Em momentos como o atual, as vésperas de uma eleição, os riscos de manipulações e provocações são centuplicados.

Opinar é ate certo ponto difícil, particularmente quando o tema envolve necessária investigação, provas e observâncias aos princípios do direito.

Resumindo: prudência e caldo de galinha deveria ser a norma. É a minha, em todo caso.

Não quero porem deixar passar em branco, antes mesmo de opinar sobre o recente escândalo que levou a demissão de Erenice Guerra, o editorial de hoje da Folha SP.

Ele começa fazendo uma afirmação, “Demissão de Erenice Guerra alimenta suspeitas sobre a montagem de um balcão de negócios no ex-ministério da candidata Dilma Rousseff”. Afirmação com a qual se pode concordar ou não. Mas que o caso “alimenta suspeitas”, mesmo se o principal acusador é um indivíduo recentemente saído de prisão por receptor de carga roubada e outros delitos (ver embaixo), é um direito que qualquer um têm e o jornal que publicou as denúncias mais ainda.

Não se pode negar que o jornal evoque “suspeitas” dirigidas ao caso, que envolve a saída de Erenice Guerra da Casa Civil. Naturalmente esperasse nesse caso que o jornal exija uma apuração rigorosa por parte dos órgãos pertinentes. É o que um jornal sério faria perante a existência de “suspeitas”.

Mas eis que o editorial, inicialmente coberto pelo consagrado “Segundo os autores da denúncia…”, abandona abruptamente o seu enunciado e passa a opinar como se o caso tivesse passado em julgado.

“O episódio não deixa dúvida quanto à crescente promiscuidade, no atual governo, entre interesses públicos e privados. Oito anos de incrustação petista na máquina pública foram suficientes para promover, além do conhecido loteamento fisiológico, a partidarização sem precedentes do Estado brasileiro”.

As “suspeitas” do começo do editorial, poucas linhas a frente já “não deixa dúvida”. A Folha procura confortar uma tese preestabelecida por ela mesma e julgasse apta a condenar. O episódio aparece assim, como um pretexto para o jornal.

O editorial alimenta a postura de muitos observadores da política nacional que “suspeitam” uma colusão entre o noticiário de alguns setores da mídia e a campanha da oposição e seu candidato José Serra. A tentação é grande de concluir, após leitura do editorial, que o mesmo “não deixa dúvida quanto a crescente promiscuidade” entre certos veículos de comunicação e um candidato empenhado no jogo sujo (termos utilizados pelo jornal espanhol El País) para tentar adiar sua derrota para o segundo turno.

Pelo respeito que tenho pela história da Folha de SP, prefiro me ater a criticar esse posicionamento tendencioso do editorial, deixando aos leitores avaliar a existência da promiscuidade acima evocada.

Luis Favre

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