sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Somos andando - mídia e poder - Imprensa monta armadilha da comparação

Já repararam como agora qualquer ato do governo é alvo de comparação com o governo anterior? Dilma visita as cidades atingidas pelas chuvas no Rio e imediatamente alguém diz que Lula demorou mais tempo para fazer o mesmo. Dilma fala menos, Dilma lê jornais, Dilma é pontual… Sempre que houver alguma diferença na forma de agir entre Lula e Dilma – e deverá haver muitas -, suscitará comparações.

Uma bela armadilha. Representantes de um mesmo projeto, Lula e Dilma podem divergir quanto a métodos de ação, o que gerará as comparações, mas não quanto a objetivos e prioridades gerais. Não quanto à necessidade de se promover um crescimento com distribuição de renda. Ou seja, ambos partilham de uma mesma visão de mundo e de política.

Mas isso, para setores da imprensa, pouco importa. Vale comparar os pequenos fatos. Não vale questionar se há uma política de moradia aliada à discussão ambiental e de planejamento urbano eficiente – e não estou afirmando que há. Vale apenas dizer se o ato simbólico de um foi mais ou menos forte que o do outro. Como fez, por exemplo, Eliane Catanhêde, que não podia simplesmente elogiar a ágil visita de Dilma aos municípios atingidos pelas enchentes no Rio de Janeiro sem aproveitar a ocasião para criticar Lula.

E é inevitável. A cada comparação, um dos dois dança. A cada comparação, sempre sobra uma crítica para o PT. Porque se um fez mais certo, é consequência natural que outro tenha feito mais errado – ou menos de acordo com a cartilha conservadora, em muitos casos.

Esse mostra-se, então, um bom expediente: comparar sempre. Só parece um tanto estranho por que Lula não era comparado ao antecessor com a mesma frequência. Poder-se-ia dizer, talvez, que o medo era de procurar uma coisa e encontrar outra? Talvez a grande imprensa não quisesse admitir as diferenças para melhor que a transição de FHC para Lula trouxe.

E cabe ainda uma outra reflexão. Na comparação entre Lula e Dilma, por mais que Dilma não seja o sonhado por Folhas, Estados, Globos e afins, é “melhor” que o ex-presidente, que, além de muito popular – e portanto mais difícil de enfrentar -, é um operário sem formação formal. Quando Dilma é apresentada como uma opção melhor que Lula por conta da roupa que veste, das palavras gramaticalmente corretas que diz ou por conta de pequenos gestos, o que se revela é um preconceito de classe. A elite não pode admitir que um político sem Ensino Superior adote uma postura altiva. Denegri-lo é parte de uma estratégia de auto-preservação, de um setor da sociedade que procura manter pessoas em posições diferentes, através de critérios artificiais de diferenciação, como a classe social.

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