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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

observatório da imprensa - mídia e internet - Pensata sobre as novas funções do jornalismo na era digital - Carlos Castilho

em 2/1/2011 às 18:39:57



Há semanas eu encontrei um amigo meu, professor de jornalismo, e ele me puxou de lado para dizer: “Poxa, cada vez que leio teus posts eu fico mais confuso sobre o papel futuro do jornalismo”. Talvez esta tenha sido a observação sobre temas publicados neste blog que mais me surpreendeu nos últimos anos.

Na verdade eu ainda não tinha me dado conta plenamente do efeito causado por reflexões feitas no Código a propósito da mudança no contexto atual do exercício do jornalismo. De fato, quanto mais a gente pensa mais se dá conta de que, se por um lado assistimos a crise de uma forma de encarar e exercer a atividade jornalística, por outro já é possível vislumbrar um novo perfil profissional, que nada tem a ver com o atual.

Até agora, a visão predominante partia do princípio de que o jornalismo é uma atividade destinada a produzir notícias e informações capazes de ajudar o cidadão a exercer seus direitos e participar do convívio social. Trata-se de uma visão quase funcionalista, em que o cidadão era também tratado como um consumidor de bens e serviços.

Está claro que a ferramenta deixou de ser útil aos propósitos pretendidos e a percepção do jornalismo foi distorcida por conta da preocupação industrial e mercantilista das indústrias da comunicação responsáveis pela produção de jornais, revistas, rádio, TV e também portais noticiosos na Web.

Mas agora começa a ganhar contornos mais nítidos uma nova perspectiva para o jornalismo e uma nova função para a notícia. O jornalista deixa de ser um operário na linha de produção de conteúdos informativos para tornar-se um contextualizador de dados, fatos e processos, bem como um treinador, ou consultor, de pessoas interessadas em participar da mega-arena noticiosa criada pela World Wide Web.

Tudo isso porque a notícia e a informação deixaram de ser uma commodity negociada pela imprensa em troca de anúncios pagos, para se transformar no impulso inicial de um processo que passa pela formação de comunidades, capital social e, no fim da linha, pelo desenvolvimento sócioeconomico sustentável. A coisa é complicada, portanto vamos por partes.

A informação funciona como gatilho para a formação de comunidades quando uma ou mais pessoas trazem para o grupo uma notícia que os demais membros ignoram. É sabido que as pessoas se agrupam para obter alguma vantagem. E, geralmente, é a informação que torna esta vantagem atrativa para a maioria da comunidade ou rede.

Inicia-se aí um ciclo de troca de informações que gera o desenvolvimento de redes de contatos, que são causa e efeito da criação de um clima de confiança mútua que, por sua vez leva a reciprocidade de gestos e condutas. Estes fatores são considerados essenciais na formação do capital social numa comunidade.

Este processo já é bem conhecido dos psicólogos e sociólogos. O que ainda não foi suficientemente discutido e estudado é o papel do jornalismo nesse novo contexto. O maior obstáculo é a resistência de muitos profissionais em arriscar um mergulho nesta realidade criada pelas conseqüências sociais da avalancha informativa gerada pela Web.

Mas já dá para vislumbrar que o jornalismo passa a ter uma função muito mais relevante do que a atual, onde ele é um coadjuvante na produção industrial de notícias. Alguns desafios já são imediatos como, por exemplo, a identificação das notícias que têm maior potencial de gerar comunidades sociais, sejam elas presenciais ou virtuais.

Anita Blanchard, pesquisadora da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, descobriu que notícias sobre educação de filhos e sobre membros da comunidade foram as que mais motivaram as pessoas a entrar em redes sociais virtuais na cidade de Charlotte, também na Carolina do Norte.

Os interesses e motivações variam de comunidade para comunidade e também com o contexto histórico de cada uma delas, abrindo um campo de trabalho totalmente novo para o jornalismo. Já não se trata mais de usar o interesse dos leitores pela notícia para alimentar o fluxo de caixa de anunciantes, mas de direcionar este mesmo interesse para a formação de capital social.

Muitos perguntarão: sim, e daí, como o jornalista vai sobreviver? Ninguém tem ainda a resposta, razão pela qual é impossível apresentar essa nova alternativa como uma solução imediata e definitiva. Mas não há mais muitas dúvidas de que a busca da saída está nesta direção. Meu amigo não é o único perplexo com as mudanças.

P.S. Aproveito esta primeira postagem do ano para expressar o meu desejo de que em 2011, a gente consiga ampliar a pequena comunidade de pessoas criada em torno deste blog. Um abraço a todos vocês.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

MÍDIA & MERCADO Profissão prostituída - OBSERVATÓRIO DA IMPREN

Por Paula Araújo em 4/1/2011


Onde foi parar o jornalismo romântico, idealizador, comprometido com a verdade, com o povo? Onde está o profissionalismo, a ética? Até que ponto os diretores e proprietários dos meios de comunicação vão vender seus profissionais, tornando-se verdadeiros "cafetões" da imprensa?

Pode parecer um tanto pesado, mas não é. Essa é a realidade na qual vivem milhares de jornalistas no Brasil. Ao chegarem às redações cumprem uma única rotina: atender aos interesses comerciais e financeiros da grande empresa/imprensa. E não adianta vir com aquele papo de que publicidade é diferente de jornalismo porque não cola.

Cada vez mais, os veículos estão tirando o prazer do verdadeiro jornalista em exercer a profissão, aquela com a aplicação dos valores e ideias aprendidos nos livros, nas palestras, nos cursos, na faculdade... Aliás, faculdade, hoje em dia, é algo totalmente desnecessário para a função. O ponto a que quero chegar e o que tenho observado é que o jornalismo, infelizmente, se transformou em um exercício desvalorizado. O profissional trabalha muito mais que as horas estabelecidas, não recebe adicionais por isso, exerce mais de uma função (além de jornalista, é publicitário, marqueteiro, assessor de comunicação e de imprensa, redator, editor, recepcionista, secretário e por aí vai) e, o pior de tudo, tem que se render às cobranças e vendas comerciais de anunciantes e diretores sem visão, que acreditam estar fazendo o melhor negócio.

Analisar a nossa própria postura

É decepcionante ver isso acontecer. Sinceramente, não sei dizer qual a saída ou a resposta para esta situação. Por isso, fica aqui um apelo, um pedido de ajuda à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) ou outra instituição que possa olha por nossa classe e nos resguardar, nos dar respaldo para lutarmos pelos nossos direitos, inclusive os de negar a prostituição do nosso trabalho, que deveria ser mais valorizado e visto como um serviço à população, não como mais um novo produto no mercado.

Talvez isso seja culpa da própria mídia, ou de profissionais despreparados e desqualificados (volta a questão da exigência do diploma). Apontar o responsável não é tarefa fácil, mas com a criminalização do verdadeiro jornalismo vejo muitas pessoas querendo seguir carreira para serem artistas, e não apresentadores, para serem famosas, e não porta-vozes da sociedade.

Antes de analisarmos a conduta de um veículo, vamos analisar a nossa própria postura diante da nossa tão honrada profissão (ou pelo menos deveria ser honrada).

Não à prostituição do jornalismo!

política e poder - O poder de influência da mídia - Washington Araújo - Observatório da Imprensa

A cultura de massa que temos está umbilicalmente conectada com a pauta apresentada instante a instante em algum dos veículos de comunicação em massa. Nada lhe escapa e, por isso mesmo, enorme é sua responsabilidade na criação da geração-consumo que temos "em nós" e também "diante de nós". Tendo como cenário as mudanças climáticas, a degradação ambiental e os extremos corrosivos da riqueza e da pobreza, a transformação de uma cultura de consumismo irrestrito para uma cultura de sustentabilidade ganhou força em grande parte graças aos esforços das organizações da sociedade civil e agências governamentais no mundo inteiro. A par com essas forças, e mesmo permeando-as, temos o poder de influência e onipresença da mídia.

Existem situações-limite em que não é lícito ser espectador de espetáculo nefasto que nós mesmos produzimos. Alardear a desgraceira toda, desnudar os mecanismos de poder envolvidos no debate para se criar políticas públicas de alcance mundial e, acima de tudo, alertar que o futuro é hoje, são tarefas que os meios de comunicação não podem e não têm a quem delegar.

O estágio de "aldeamento"

Além das políticas de informação e tecnologias "verdes", a transformação que precisamos realizar vai exigir um exame sério da nossa compreensão acerca da natureza humana e dos "esquemas culturais" seguidos por instituições do governo, por empresários da área de educação e dos meios de comunicação ao redor do mundo. Perguntas sobre o que é natural precisam ser reexaminadas criticamente. A questão do consumo e da produção sustentável deverá ser considerada no contexto mais amplo de uma ordem social cambaleante que se caracteriza pela competição, violência, conflito e insegurança da qual ela própria é parte.

Os meios de comunicação poderiam considerar promover tais mudanças visando a um consumo e produção sustentáveis, algo que implicitamente nos levará a desafiar normas e valores culturais que têm promovido o consumismo a todo o custo. Concepções subjacentes deverão ser examinadas. Estas questões incluem concepções da natureza humana, do desenvolvimento (e da natureza do progresso e da prosperidade); das causas das recentes crises econômicas, dos processos de desenvolvimento tecnológico, dos meios e dos fins dos processos educativos. Uma tarefa gigantesca? Sim, mas não maior que o poder de mobilização e influência que os meios de comunicação em massa detêm, na medida em que o planeta chegou ao estágio atual de "aldeamento", ou seja, o planeta mostrou ser pequeno, ao alcance de uns poucos cliques na internet, ao alcance de imagens replicadas por satélites estrategicamente localizados.

Tempo de avançar

O alargamento das fronteiras da informação alargou também nossas visões do mundo e vestiu velhas palavras com novos e desafiados significados. A palavra "estrangeiro", quando utilizada nos anos 1950 – portanto, há bem pouco tempo –, trazia consigo sentidos de reserva, suspeita, medo e tudo porque nossos sentidos não estavam acostumados a ver nossos semelhantes residentes em outros continentes com aquelas nossas características humanas, plausíveis, reais. Hoje, a palavra "estrangeiro" perdeu as garras, depôs pretensos tentáculos venenosos e assim do nada deixou de nos causar emoções negativas. "Estrangeiro" passa a ser apenas mais uma palavra desdentada que não mais aponta para os demais como nossos dessemelhantes. E não ouviremos mais nos telejornais que tal evento "aconteceu no estrangeiro". É tudo Terra, é tudo azul, é tudo aquele pálido ponto azul perdido na imensidão do espaço. Há décadas "no estrangeiro" deixou de compor manchete em jornais. Isso se deu graças ao avanço dos meios de comunicação.

Estará a mídia, a grande mídia, preparada para promover novos conceitos de cidadania mundial, de paz internacional, de apreço e defesa dos nossos esgotáveis recursos naturais? Estarão os profissionais da comunicação desarmados o suficiente para municiar o inevitável debate sobre temas que afetam a todos, como a segurança mundial, os meios para a produção de melhores condições de vida a populações historicamente massacradas, massas anônimas da humanidade que somente entram no futuro pela porta dos fundos?

É vital que os meios de comunicação revejam sua missão, seus objetivos e se pautem por cima. Que não vejam apenas os dias que correm, mas que lancem o olhar sobre os próximos 20, 30, 50 anos. É tempo de aprendermos uns com os outros, de expressarmos perspectivas e experiências e avançarmos coletivamente rumo à construção de uma sociedade justa e sustentável. Isso tudo transcende esquerda e direita. Isso tudo abomina a partidarização política dos meios de comunicação.

Contradição paralisante

A questão da natureza humana tem um lugar importante no discurso sobre o consumo e produção sustentáveis, uma vez que nos leva a reexaminar, em níveis mais profundos, quem somos e qual nosso propósito na vida. A experiência humana é essencialmente de natureza espiritual: ela está enraizada na realidade interna, ou o que alguns chamam de "alma", que todos nós partilhamos em comum. A cultura do consumismo, no entanto, tende a reduzir os seres humanos a meros concorrentes, em consumidores insaciáveis de mercadorias e objetos freneticamente alvos de manipulação do mercado.

É comum aceitarmos como se certa fosse a noção de que deparamos com um conflito insolúvel entre o que as pessoas realmente querem (ou seja, para consumir mais) e o que a humanidade precisa (ou seja, um acesso equitativo aos recursos).

Como, então, poderemos resolver a contradição paralisante que, por um lado, desejamos um mundo de paz e prosperidade, enquanto, por outro lado, grande parte da teoria econômica e psicológica retrata seres humanos como meros escravos de seus desejos egoísticos?

"Sonhos impossíveis"

As faculdades necessárias para construir um mundo mais justo e uma ordem social sustentável são aquelas de sempre, estas mesmas que podem atribuir nobreza ao caráter humano: moderação, justiça, amor, motivos sinceros, serviço ao bem comum. Ora, tão antigas quanto elas, essas palavras vêm sendo julgadas ao longo dos séculos como ideais ingênuos. Sim, pensar grande, abarcar a espécie humana em um pensamento maior de fraternidade vem sendo rotulado como perda de tempo, ingenuidade rematada. Como se devesse merecer nossa atenção, ocupar nossos milhões de neurônios apenas aquelas questões mais comezinhas e que falem diretamente ao nosso bem-estar individual, à nossa "felicidade" pessoal. E, nada mais ridículo que isso, uma visão castradora do muito de bom e de belo e de justo que poderia ser nosso. E de todos nós.

Mas sei que devo insistir em um ponto: justiça, moderação, serviço altruístico à nossa espécie são algumas das qualidades necessárias para superar os traços de egoísmo, ganância, apatia e violência que no mais das vezes são fomentadas pelo mercado com as bênçãos de forças políticas que asseguram a vigência dos atuais padrões insustentáveis de consumo e produção.

A vida, não nos iludamos, é muito mais que arenga política, que escaramuças entre PT e PSDB. É tempo de entendermos a brisa que sopra nesta frase de Clarice Lispector: "O que alarga a vida de uma pessoa são os sonhos impossíveis."

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

história - MÍDIA EM 2003 - A crise como palavra-síntese

Muniz Sodré (*)

Crise é a palavra-síntese para o que se passou com a imprensa no ano de 2003. O aspecto mais evidente, e de imediato mais preocupante, é o econômico, que tem suscitado especulações sobre uma possível injeção financeira por parte do Estado (o BNDES, mais concretamente) como tentativa de salvar a mídia nacional de uma completa derrocada. Toda esta questão foi bastante comentada por diversos analistas aqui mesmo no Observatório da Imprensa, em especial por Alberto Dines. A entrevista recente do dono da Folha de S. Paulo, Octavio Frias de Oliveira, ao boletim noticioso da AOL, trouxe mais algum molho para as discussões: na opinião do experiente empresário, 40 anos à frente de seu jornal, o que o governo quer mesmo é ver "a mídia de joelhos".

Quando faltam os meios de que dependem empresários e profissionais para manter em padrões razoáveis uma atividade qualquer, é difícil aceitar reflexões que não digam respeito ao imediato do problema, que é dinheiro, em termos claros e simples. Por isso, comentários e análises tendem a focalizar a dimensão econômica, que ademais dá ensejo a que se façam conexões bastante viáveis entre o enorme endividamento dos jornais e as indecisões macroeconômicas que vêm marcando gigantes do Primeiro Mundo, como Estados Unidos, Alemanha e Japão. A entrevista de Octavio Frias de Oliveira de certo modo pontuou sinteticamente as abordagens dessa natureza que apareceram ao longo do ano.

Entretanto, impõe-se a discussão de outros aspectos da crise, nem sempre considerados. Para começar, não custa lembrar que toda crise, por mais dolorosa ou inquietante que seja, traz consigo a gravidade de uma crítica (descriminar, criticar são verbos que compõem a história semântica dessa palavra) e a reivindicação implícita de uma "clínica", que é a atitude de cuidado por parte de quem se debruça responsavelmente sobre o problema. Historicamente, a imprensa cívica tem servido como "arma" da crítica contra o poder e seus desmandos, mas sempre tímida quando se trata de fazer a crítica radical dessa arma, isto é, de rever a fundo os seus próprios pressupostos. A crítica jornalística de sua própria atividade oscila entre aspectos técnicos e éticos. Dos primeiros, cuidam as eventuais reformas estéticas e tecnológicas; dos segundos se ocupam, além do público vigilante, os próprios profissionais, política e moralmente empenhados.

"Complicado" para todos

Essa louvável oscilação recalca, no entanto, umas quantas questões que, por permanecerem intocadas, acabam dando a impressão de eternidade da imprensa tal e qual existe. Procurando ser mais claro: a imprensa tal como a conhecemos é uma formulação histórica que pode muito bem ser datada, isto é, ser atravessada por imperativos de princípio, meio e fim. Não à toa, os pensadores desta nossa modernidade tardia, ou Baixa Modernidade (expressão preferida por Eduardo Portella), têm-se esmerado na reflexão sobre o "fim" de coisas – a idéia de homem universal, a política representativa, a arte etc. Toda e qualquer experiência é espreitada por uma finitude latente em suas próprias raízes.

É, assim, bastante viável a hipótese de que a imprensa possa estar atravessando, além das dificuldades financeiras que sempre caracterizaram em maior ou menor grau esse tipo de atividade, uma crise de finitude. Isto não quer dizer que a imprensa vá acabar, pelo contrário, ela nos parece mais necessária do que nunca. Mas é possível que essa crise seja a de "saturação" de uma forma (conceito favorito do sociólogo Gurvitch para dar conta da obsolescência de certas formas sociais), ainda por demais vinculada à produção oitocentista de discursos. A esfera pública alargou-se tecnicamente, por meio da televisão e da informática, mas só tem feito encolher-se em termos de participação cívica, a mesma que sempre requereu um jornalismo politicamente forte. Diferenças de opinião editorialística à parte, os jornais parecem-se muito uns com os outros, como se a pauta fosse feita por jornalistas para jornalistas. Ao mesmo tempo, cada vez mais a matéria jornalística configura-se mero suporte publicitário para a venda de serviços, sejam de anunciantes, sejam da própria empresa jornalística.

O fato é que a televisão e a internet sob a égide do mercado de consumo não substituem, do ponto de vista do interesse da responsabilidade coletiva, a imprensa que se constituiu pós-Revolução Francesa. Na citada entrevista do proprietário da Folha, quando perguntado sobre o fenômeno das pseudonotícias na mídia, ele praticamente descarta o interesse de se examinar o assunto a propósito da televisão. Hesita, não sabe bem o que deve dizer e conclui com algo como "é complicado..." E ele tem razão: a mídia eletrônica é outra coisa, a menos que se esteja no Oriente Médio, onde a rede de TV al-Jazira, precisamente no vazio de uma imprensa estiolada, parece desempenhar um papel político importante para os árabes.

Mas a palavra "complicado", em suas diferentes acepções semânticas, vale para todos. Desta crise não se sairá facilmente. Ainda que um "Promídia" governamental possa vir em socorro dos desvalidos, a crise continuará a se fazer presente, demandando muito mais do que dinheiro. Reflexão e coragem são os nomes da falta.

(*) Jornalista, professor da UFRJ

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MÍDIA - A reinvenção e o veneno

OI
Washington Araújo em 24/11/2010


E pensar que o noticiário dos jornais diários mudou completamente em 30 dias! As grandes apostas dos diários em 22/10/2010 eram feitas em cima do caso da bolinha de papel que havia "quicado" na calva de José Serra. O SBT e a Globo travavam sua disputa com os poucos elementos da verdade: foi uma bolinha inofensiva ou esta teria sido apenas o primeiro objeto arremessado contra o então candidato tucano? O trololó da quebra de sigilo fiscal de Verônica Serra e mais 3.999 cidadãos brasileiros ainda reverberava com indícios de que quem estava por trás de tudo era o jornalista mineiro Amaury Junior. A peregrinação de Dilma Rousseff e José Serra por templos religiosos aparecia com menor força. O personagem escaldado Paulo Preto continuava naquele lusco-fusco: merece freqüentar capas de jornais ou não? E o mais que tínhamos eram as pesquisas intenção de voto no segundo turno. Todas dando vantagem de Dilma variando de 10 a 12 pontos sobre Serra.

É impressionante a capacidade de envelhecimento que as notícias têm. Os jornais, porque estou aqui mais focado nestes, parecem clínicas pediátricas que na eternidade de 24 horas se transformam em robustas clínicas geriátricas. Os eventos pautados pela imprensa escrita no mês passado parecem coisas muitas antigas, datadas demais, passadas em excesso, meros esperneios inúteis e toda sorte de energia gasta para manter acesa a chama do jornalismo. E para isso, sem rodeios, se utiliza cada vez mais óleo da pior qualidade.

Dito popular

O jornalismo precisa se reinventar todo dia. Buscar forças não se sabe bem onde para continuar avante. Como toda profissão que seja digna a um ser humano, o jornalismo precisa de doses diárias de utopia. Não a utopia representada por "meros devaneios tolos a nos torturar". Nem a utopia que abarca amontoado de piedosas intenções. Penso na utopia de fazermos um jornalismo melhor, veraz, contundente na medida, correto e, também, sem segundas nem terceiras intenções, sem agendas sequestradas de grupos secretos como os Iluminati.

Utopia que se preze é aquela que nunca se realiza. Está sempre pendurada no horizonte. E fica no horizonte para termos certeza de que nunca a alcançaremos. E quanto mais nos aproximamos da utopia mais ela recua. Avançamos quatro passos ela recua quatro passos. Mas ainda assim a utopia tem sua serventia. Ela serve unicamente para nos fazer caminhar.

O jornalismo deve nos fazer crer que é possível viver para além da infâmia, dos escusos jogos de interesse. E nos alertar para quando estivermos prestes a confundir o destino com o tempo presente. Sem a dose de utopia diária fica quase impossível manter essa certeza de que amanhã o mundo pode ser bem diferente do que é hoje. Em uma época marcada pelo "vale quanto pesa", falar em utopia parece ser o absoluto nonsense. É que há que se transformar a utopia em ações esculpidas na realidade nossa de cada dia. E voltamos a pensar sobre o destino de irmãos siameses a atar os fins e os meios.

Estava em meio a tais pensamentos quando, num estalo, pensei sobre as relações dos meios de comunicação com aqueles por ela eleitos como "desafetos". Refiro-me mais recentemente à cruzada da revista Veja para menosprezar, ridicularizar o cantor e compositor Chico Buarque. E tudo por causa de Prêmio Jabuti. E tudo porque a imprensa parece desconhecer o que há muito reza o ditado popular: "Todo mundo sabe que jabuti não sobe em árvore. Se lá está é porque alguém o colocou". Este Observatório publicou excelentes textos sobre o tema (ver "A política dos prêmios literários", "Quem garfou quem" e "É grave mas ninguém dá bola").

"Cansaço e irritação"

Comecemos pelo começo, já nos ensinava Heidegger. Chico Buarque é tímido e sempre foi tímido. Assume que não tem medo de público. Ao contrário, sente pânico. E de onde vem esse mal-estar logo que o artista sobe ao palco? É que Chico sabe que ali, naquele buraco negro que é a boca de cena, estará à frente de centenas, milhares de pessoas. E sofre com isso. Em suas palavras: "A gente é visto sem ver. Terrível".

Para um tímido de carteirinha, com crachá e tudo, deve ser no mínimo desagradável ficar sabendo que a revista da Abril não lhe perdoa o sucesso. Como dizia Tom Jobim, velho amigo e grande parceiro de Chico, "se existe uma coisa que o brasileiro não perdoa, esta é o sucesso". Afinal, em que grama a imagem, a obra e a vida de Chico Buarque seria aumentada – ou diminuída – por haver sido contemplado com o Prêmio Jabuti? Longe de ser privilegiado ao receber um prêmio, seja de música ou de literatura, outra constatação evidente é que é bem mais plausível que Chico agregue valor ao prêmio que o contrário.

Não seria obrigação de jornalistas minimamente informados beber do senso comum e dar conta de que Chico é hiperfacetado, pode ser apreciado como cantor, compositor, roteirista e teatrólogo ou então como escritor e pensador? Chico nem reivindica qualquer aprovação, selo de qualidade ou beneplácito dessa ou de outra imprensa. A timidez buarquiana deixa evidente que se existe algo que ele recusa é o tal rótulo da unanimidade. Não precisa ser unanimidade – até porque a palavra ficou amaldiçoada depois de andar de braços dados com a burrice, segundo a verve de Nelson Rodrigues.

A verdade é que o irmão de Raízes do Brasil – sim, porque falam que livro é como filho e seu pai Sérgio Buarque de Hollanda simplesmente brindou nossa cultura com esta obra – trafega na cultura brasileira com passe livre, 24 horas ao dia, 365 dias ao ano, sendo festejado nos papos da Zona Sul carioca e também nas quadras das escolas de samba dos morros dessa cidade. Não à toa foi referido por Dona Zica como "Chico Buarque de Mangueira". Sua vida, sua música, seus livros, suas peças, tudo isso foi tema do samba enredo da Estação Primeira de Mangueira em 1998.

Chico não contava 30 anos de idade quando Veja, em sua edição de 2 de maio de 1973, já o adotara como declarado desafeto. O título de alentada "reportagem" era muito claro: "Brasileiro, batuqueiro, encrenqueiro". Destaquei o seguinte:

"Os variados personagens interpretados nos últimos meses por Chico Buarque são, pela intensidade com que atingem o público, necessariamente contraditórios. Muitos de seus admiradores preferem ainda o Chico outros tempos, menos elaborado, feliz com sua Joana debaixo do braço, carregadinha de amor. Para um reitor em Minas, suas palavras nada tinham de talentosas ou corajosas, classificando-as publicamente como a expressão de um bêbado e um imoral. Os censores, talvez excessivamente exasperados por alguns casos isolados, não lhe dão tréguas. Assim, cinco anos depois de ter escrito e vomitado a peça ‘Roda Viva’, onde manifestava seu cansaço e irritação pelo fato de ser um ídolo do qual todos tudo esperam, ele está mais uma vez numa roda-viva de trabalho, receios e angústias..."

Importância relativa

Muitos são os colunistas de Veja que se dedicam com afinco ao esporte de açoitar o filho de Memélia. Diogo Mainardi em sua crônica "Edna entendeu tudo", de 11/7/2009, escreveu que...

"Edna O’Brien conheceu ‘Chico’ uma semana atrás, na Flip, em Paraty. Depois de participar de um debate, ela foi arrastada a um encontro entre Chico Buarque e Milton Hatoum. O que ela afirmou, assim que conseguiu escapar do encontro? Que Chico Buarque era uma fraude, que ela se espantou com sua empáfia e com seu desconhecimento literário, e que se espantou mais ainda com sua facilidade para enganar a plateia da Flip."

Em 19/10/2010 a coluna de Augusto Nunes anotava a mais importante frase de um artista brasileiro pronunciada ao longo da campanha eleitoral de 2010. Tem a assinatura de Chico e ele a pronunciou no lotado Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, quando centenas de artistas declararam apoio a Dilama Rousseff: "O Brasil é um país que é ouvido em toda parte porque fala de igual para igual com todos. Não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai". O colunista agregava de sua lavra essas pérolas de urbanidade:

"Chico Buarque, ao declarar apoio a Dilma Rousseff, reforçando a suspeita de que o cérebro é dividido em compartimentos estanques, o que permite que convivam na mesma cabeça, por exemplo, um inimigo de ditaduras militares, um admirador de ditadores latino-americanos, um compositor genial e uma besta quadrada em política."

Para alguém que compôs coisas como "Deus lhe pague", "Rita", "Pedro Pedreiro", "Quem te viu, quem te vê", "Brejo da Cruz", "Olhos nos olhos", "Beatriz", "Paratodos" e levando em conta a exuberante produção poética (e literária) desse parceiro contumaz de Tom Jobim, Vinícius de Morais, Rui Guerra, Francis Hime e Edu Lobo, a revista precisará consumir ainda algumas toneladas de tinta e papel para começar – quem sabe? – a ficar na altura de seu antagonista e, se algum dia for conseguido o intento, dar início ao debate. Mas, então, sem saber o que será, restará apenas desalento com todo sentimento investido por Chico na construção de uma gota d’água.

Quantos aos jabutis, é bom que se diga que este jabuti-caçula faz companhia a outros dois ganhos pelo mesmo Chico. Para quem enfrentou um Maracanãzinho lotado – em outubro de 1968 – vaiando sua "Sabiá" na ilustre companhia de seu "maestro soberano", o sr. Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, qual seria mesmo a importância de um jabuti?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

MÍDIA E HISTÓRIA- MERCADO E LIBERDADE - A privatização da censura

OI
Venício A. de Lima em 7/9/2004


O artigo 220 do capítulo sobre a Comunicação Social de nossa Constituição não poderia ser mais claro: "É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística". O que não está totalmente esclarecido é de onde parte a censura. Quem são os censores?

Não há dúvida de que a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa têm suas histórias vinculadas à chamada liberdade negativa (negative freedom), isto é, à liberdade de indivíduos ou grupos de indivíduos de expressar suas opiniões sem interferência externa. Na sua origem essas liberdades se referiam à ausência de restrições exercidas pelo poder absolutista, autoritário, não-democrático. Foi contra esse poder que se insurgiram alguns dos clássicos do liberalismo que continuam até hoje sendo invocados quando o tema reaparece na agenda pública, sobretudo John Milton (1608-1674) e John Stuart Mill (1806-1873).

Muita coisa mudou desde os tempos em que os indivíduos se reuniam face a face nas suas aldeias e pequenas comunidades para discutir e decidir sobre seus problemas comuns e em que "imprensa" (press) significava o direito individual de imprimir. O desenvolvimento tecnológico e a conformação dos sistemas econômicos fizeram com que as sociedades se tornassem mais complexas e grande parte da comunicação humana fosse, aos poucos, sendo intermediada por tecnologias (mídias) e instituições (empresas privadas) que estão longe de ser meros condutores neutros através dos quais a informação circula livremente.

Hoje, essas empresas de mídia – que pretendem representar a cada um de nós – se constituem, elas próprias, em importantes e poderosos atores, tanto econômicos quanto políticos, mas, sobretudo, como atores determinantes na construção da opinião pública em todo o mundo.

O exemplo europeu

Não é segredo para ninguém que a "indústria das comunicações", apesar de crises financeiras localizadas, se transformou em um dos principais negócios das últimas décadas. E exemplo de concentração da propriedade no mundo globalizado ("sinergia", na linguagem dos CEOs), reduzida a alguns megagrupos privados que tendem cada vez mais a controlar o que vemos, ouvimos e lemos. Basta olhar ao redor de nós mesmos: uns poucos grupos familiares-empresariais, alguns já associados a megagrupos multinacionais, praticamente controlam as comunicações no Brasil.

Pois bem. Será que essa nova realidade histórica altera a concepção de "liberdade negativa" em relação apenas ao poder do Estado, referida às liberdades de expressão e de imprensa, que teve sua origem nas sociedades européias do século 17? Será que a concentração da propriedade privada dos meios de comunicação tem alguma interferência na liberdade de expressão, na pluralidade de fontes e na diversidade de conteúdos, pilares da democracia representativa liberal?

Em vários países da União Européia a resposta é definitivamente "sim". Na Alemanha, na Espanha e em Portugal, as Constituições nacionais, além de impedir a censura estatal, trazem também provisões para que o Estado a) garanta a existência de uma imprensa livre e diversa; ou b) impeça a concentração da propriedade; ou c) garanta acesso a todos os grupos sociais e políticos e assegure a diversidade na mídia.

Evidência ignorada

Por outro lado, desde a década de 1970, o chamado PICA-Index (Press Independence and Critical Ability) incluiu entre seus indicadores as "restrições econômicas" para a aferição da liberdade de imprensa. Por "restrições econômicas" são entendidas as conseqüências da concentração da propriedade ou de problemas que decorram da instabilidade econômica das empresas jornalísticas. O próprio Press Freedom Survey, publicado anualmente pela Freedom House americana, trabalha com uma definição de liberdade de imprensa que inclui variáveis econômicas. Vale dizer, considera que restrições à liberdade de imprensa podem decorrer de outros fatores que não exclusivamente a interferência do Estado.

Enquanto isso, entre nós, "o mercado" continua absoluto como única forma admitida pela indústria das comunicações como critério e medida das liberdades de expressão e de imprensa. Qualquer alusão à necessidade de algum tipo de regulação democrática do setor, feita por quem quer que seja, será liminarmente estigmatizada como autoritarismo, stalinismo, totalitarismo.

Quase 20 anos depois do fim da ditadura, em plena democracia, continuamos a ignorar, no Brasil, a evidência de que, junto com outras atividades anteriormente consideradas como exclusivas do Estado, a censura também está sendo privatizada

DITADURA - Fruto da tortura deve ser repudiado

Por Mauro Malin em 23/11/2010


Estão cobertos de razão, no caso dos documentos da ditadura sobre a atuação política de Dilma Rousseff, os que impugnam liminarmente tudo que foi obtido sob tortura. Ora, como podem os jornalistas construir reportagens com base no que ficou registrado judicialmente após a militante presa ter sido submetida a torturas? O Estado de S.Paulo, na edição de sábado (20/11), abordou o assunto com propriedade. Tanto na reportagem de Tatiana Fávaro como no comentário de Marcelo Godoy, o contexto em que foi produzida a papelada é colocado em relevo. A Folha de S.Paulo e o Globo, entretanto, tomaram ao pé da letra o legado dos esbirros.

Os três jornais, infelizmente, valorizam o fato de que a torturada tenha revelado isso ou aquilo. Cobrar de um torturado que se mantenha em silêncio (isso era chamado "ter bom comportamento") foi expediente stalinista inaugurado no Brasil pelo PCB.

Muito anos atrás, fiz na França um trabalho universitário sobre a política do Partido Comunista Italiano. Não encontrei, na considerável literatura compulsada, nenhuma "cobrança" em relação a "comportamento" de torturados. Nem na Itália, nem na França, nem em qualquer outro lugar onde agiram a Gestapo e outros organismos de repressão política. Lembro-me de ter comentado várias vezes o assunto com meu amigo Armenio Guedes, veterano dirigente comunista, e ter obtido sempre a mesma resposta: "Depois da guerra, ninguém na Europa se mostrou interessado em discutir quem falou ou não falou sob tortura. Isso não faz sentido."

Lição para as atuais e futuras gerações

A tortura, escreveu um sobrevivente da Gestapo e de Auschwitz, Jean Améry, "é o mais horrível evento que um ser humano pode reter na memória". Quando, portanto, jornais transcrevem "revelações" escritas por algozes, descem aos porões enlameados que eram o universo de eleição dos torturadores.

Em relação ao que Dilma Rousseff possa ter feito ou deixado de fazer ao longo de sua militância, remeto a tópico que escrevi em agosto sobre reportagem da revista Época. Chama-se "Revista ignora a anistia".

O melhor aproveitamento que pode ser dado à documentação sobre Dilma Rousseff é usá-la para denunciar a tortura ‒ ainda em pleno uso contra "presos comuns" ‒ e a repressão política. Essa é a lição que precisa ficar para as atuais e futuras gerações de brasileiros.

MÍDIA E HISTÓRIA - Alberto Dines - Pacto Globofolha e o pacto de silêncio

Foram todos pegos de surpresa mas a reação pareceu ensaiada. No dia seguinte ao anúncio da parceria Marinho/Frias (5/10/99), os jornais comportaram-se como se estivessem combinados. Os dois parceiros registraram-na com igual discrição na primeira página e os demais em páginas internas. Exatamente nos mesmos termos – houve release? – como se fosse a coisa mais natural do mundo.

No final de semana a reação dos semanários foi igualmente álgida, curados dos surtos de dramatização. Inclusive na Veja, da Abril, que, no caso, ficou como marido (ou mulher) enganada.

Não fosse a participação de Luís Fernando Levy no Observatório da Imprensa na TV (5/10/99), parecia que a inesperada parceria entre os arquirivais não tinha a intenção de destruir a Gazeta Mercantil [veja o compacto no programa na página principal desta edição, na estação Observatório na TV].

Quinze dias depois, o pacto de silêncio permanece intacto. Seja nos recantos opinionísticos das nossas folhas ou nas tribunas do Congresso. Como se nada tivesse acontecido. Como se a verve e o senso crítico tivessem subitamente evaporado. Como se o processo mediático-político não tivesse recebido um golpe.

A exceção coube à Ombudsman da Folha, Renata Lo Prete, por meio de uma peça serena e vigilante. Plena de bravura, conhecendo-se as suscetibilidades da casa [veja texto abaixo].

Outra exceção, esta caricata, de autoria do marqueteiro de plantão no Jornal do Brasil (9/10/99): num patuá semi-compreensível, a exemplar demonstração do espírito acrítico que domina alguns empresários do ramo.

O pacto de silêncio não é casual. É prova de uma compactuação mais ampla. Comprovação do clima de conspiração e intimidação que doravante vai envolver os movimentos empresariais da imprensa brasileira. Fusões e incorporações em qualquer área podem ser apregoadas, debatidas e contestadas. Menos na mídia.

Os donos da verdade não querem transparência e muito menos controvérsia. Nesta área, justamente a da informação em benefício do interesse público, vai imperar o segredo

MÍDIA E HISTÓRIA - Alberto Dines - A chocante parceria Globo-Folha

Mais do que isso, preocupante.

A mais grave ameaça sobre a imprensa brasileira desde os tempos da ditadura.

Pela primeira vez surge nítido e recortado o fantasma do poder econômico.

Apesar da promessa dos 150 novos postos de trabalho nas redações.

Apesar da promessa de investimentos de 50 milhões de dólares.

O novo jornal de economia de negócios anunciado na segunda-feira no Rio por João Roberto Marinho e Luís Frias concentra ainda mais a super-concentrada mídia brasileira.

Quando a Folha dizia por intermédio de seu Diretor de Redação (aliás, ausente da solenidade embora seu nome constasse do convite) que O Globo fazia "jornalismo chapa branca", isso era bom para todos. Quando O Globo respondia chamando a Folha de "arrogante e irresponsável", também era muito bom para todas as partes.

Exibiam, além da falta de compostura, uma polarização salutar, uma diversidade de opiniões saneadora. Apesar das agressões, a democracia saía fortalecida. Agora, os dois grupos são sócios num terceiro negócio.

Sócios não brigam, sócios tendem a se entender.

Acabou a guerra, mas a paz que se prenuncia é tenebrosa.

O cidadão comum será o grande prejudicado. E os homens de negócio, se ganharem algo com o novo veículo, será pouco, pouquíssimo, comparado com os prejuízos que este Tratado de Tordesilhas, amaciante e sufocador, causará à sociedade brasileira.

Chama a atenção que o acordo tenha sido anunciado antes que seja aprovada a emenda que altera o artigo 222 da Constituição, que corre célere na Câmara. Alterada nossa Carta, a Gazeta Mercantil poderia perfeitamente convocar sócios estrangeiros ou capitalizar-se normalmente por meio da adesão de pessoas jurídicas.

Fica evidente que a nova associação visa canibalizar a Gazeta Mercantil. Não é avanço, é massacre, retrocesso.

Os 150 novos postos de trabalho serão preenchidos com o pessoal que será dispensado dos cadernos de economia do Globo e da Folha. Ou da Gazeta Mercantil.

Chama a atenção também que a Editora Abril, parceira estratégica e política do Grupo Folha, tenha sido informada meia hora antes do anúncio oficial por um jornalista de outro veículo que desejava confirmação da notícia. (Folha e Abril são sócios fifty-fifty no provedor Universo Online.) Isso na esfera dos comuns mortais tem um nome: traição.

A Folha, que se assume publicamente como baluarte contra o neoliberalismo e o capitalismo selvagem, joga pesado quando se trata de sua ambição hegemônica. Sua pregação em favor de uma sociedade equilibrada vale tanto quanto os compromissos morais que assume e rasga. Suas cruzadas, à luz do que acaba de armar, estão arquivadas.

Estamos assistindo a um dos piores momentos da história da imprensa brasileira. A instituição-modelo despojou-se voluntariamente da fantasia para apresentar-se como uma vestal hipócrita, mesquinha e vil.

mídia - Alberto Dines - SERGIO MOTTA & FRANKLIN MARTINS,Quem é o mais radical

Por em 23/11/2010



A História como piada: a telenovela da regulação da mídia deve ganhar lances sensacionais (ou patéticos, depende de quem a observa) quando se examinar com a devida atenção um projeto de lei preparado em segredo há 12 anos pelo homem forte do governo de Fernando Henrique Cardoso, seu amigo e confidente, o então ministro das Comunicações Sergio Motta.

Segredo? Em termos: na edição nº 76, de 5/10/1999, este Observatório da Imprensa comentou a quinta versão da Lei de Comunicação Eletrônica de Massa, produzida por Motta, e também a sexta versão do documento, chancelada por um de seus sucessores no ministério, Pimenta da Veiga. O material fundamentou-se em um vasto arsenal de análises e contestações encabeçado por um estudo pormenorizado de Guilherme Canela de Souza Godoi e contribuições de estudiosos ímpares como o falecido Daniel Herz, o professor Murilo Cesar Ramos, o pesquisador Gustavo Gindre e o senador Pedro Simon. Veja os links abaixo:

** A lei (secreta) de Sérgio Motta – G.C.S.G.

** A íntegra da quinta versão

** A versão Pimenta da Veiga – G.C.S.G.

** O sonho possível – G.G.

** Consulta pública para elaborar a nova Lei de Comunicação Eletrônica de Massa – G.C.S.G.

** Lei de Comunicação Eletrônica de Massa. Que massa??? – G.C.S.G.

Sergio Motta não conseguiu terminar o seu revolucionário projeto, morreu em 1998, foi sucedido por Luiz Carlos Mendonça de Barros e, em seguida, pelo deputado federal e ex-líder do governo, Pimenta da Veiga, autor de uma nova e desastrosa versão destinada à cesta do lixo. À época, corria que fora redigida pelos consultores da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).


Sem comoção



A mídia acostumou-se a classificar como radical o jornalista Franklin Martins, atual ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Todas as suas iniciativas são imediatamente carimbadas como atentados à liberdade de imprensa e logo rejeitadas.

Nossa mídia tem memória curta ou simplesmente ignora quem foi o Serjão, Sergio Motta, um trator que nada fazia pela metade. A Lei de Comunicação Eletrônica de Massa concebida por ele não era radical, era revolucionária: criava uma agência reguladora, impedia a propriedade cruzada de mídia eletrônica, interferia no vicioso sistema de concessões de radiodifusão, cuidava do conteúdo da programação, criava mecanismos para proteger os assinantes da TV paga, forçava o funcionamento do Conselho de Comunicação Social e facilitava a sobrevivência da TV Pública facultando-lhe o direito de veicular publicidade comercial.

Evidentemente não previu o extraordinário crescimento da internet nem contou com o atual estágio de desenvolvimento da telefonia móvel. Convergência de conteúdos era uma noção desconhecida. O projeto era holístico, como se dizia à época, integral. Ambicioso, audacioso e, sobretudo, estatizante. Tão estatizante que o petista e democrata Daniel Herz chegou a reclamar do excesso de prerrogativas oferecidas ao Executivo.

Esta incursão na história recente carrega evidentemente algumas doses de ironia. O projeto foi recebido com absoluta naturalidade, não causou alvoroço nem comoção, não foi bombardeado pela mídia. Ao contrário, algumas matérias da Folha de S.Paulo foram até simpáticas à iniciativa do governo porque àquela altura – antes da assinatura do Tratado de Tordesilhas entre os grupos Folha e Globo – o jornal dos Frias freqüentemente se atritava com a Vênus Platinada dos Marinho. O que era extremamente salutar em matéria de oxigenação (ver, neste OI, "A chocante parceria Globo-Folha" e "Pacto Globofolha e o pacto do silêncio")


Viés conservador



Gozação à parte, é imperioso reverter o clima fanático que está comprometendo a discussão sobre regulação da mídia. Esta inclemência e intransigência numa questão que afeta diretamente o bem-estar da população é simplesmente inadmissível. O rancor que se irradia deste debate é extremamente tóxico, e se não for atalhado pode se espalhar.

Este confronto precisa ser urgentemente despolitizado porque coloca no mesmo lado um governo taxado de neoliberal e outro, indevidamente classificado como autoritário.

A sociedade brasileira é conservadora, mas também está cansada de ser abusada pelos mercados. É, às vezes, indisciplinada, mas quer sentir-se segura e por isso gosta de regulamentos, precisa deles. Seus valores são geralmente pequeno-burgueses, mundanos, mas também é sedenta de cultura e seriedade.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

MÍDIA - Como desconstruir um erro?

Por Luciano Martins Costa em 18/11/2010

Comentário para o programa radiofônico do OI, 18/11/2010

Os três jornais considerados de circulação nacional, que representam a mais tradicional imprensa brasileira, trazem nas edições de quinta-feira (18/11) reportagens sobre os assassinatos do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral José Guilherme Villela, de sua mulher e da empregada Francisca Nascimento da Silva, ocorridos em 28 de agosto de 2009. A novidade é que a polícia apresentou novo suspeito, um ex-zelador do edifício onde morava a família, em Brasília, que confessou o crime.

O problema a ser observado é que a imprensa já havia "comprado" uma versão anterior da polícia, que acusava a filha do casal, Adriana Villela, de haver encomendado o assassinato.

Leonardo Campos Alves, ex-zelador do edifício onde residia o ex-ministro do TSE, foi preso em uma cidade de Minas Gerais. Declarou que entrou no apartamento do casal, com um comparsa, para roubar dinheiro e jóias, três meses após ter perdido o emprego. Decidiu matar o magistrado para não ser reconhecido e também para se vingar de supostos maus tratos que havia recebido dele. Depois, quando a mulher do ex-ministro entrou no apartamento, aceitaram jóias e dinheiro e também a esfaquearam. Na saída, os dois foram vistos pela empregada e também a mataram para não serem denunciados.

Danos morais

A nova versão, apresentada pelos jornais na quinta-feira (17), é a terceira em 14 meses, mas aquela que foi mais explorada pela imprensa era a que acusava Adriana Villela de haver contratado assassinos para eliminar os pais e se beneficiar de um seguro de vida.

Desde o assassinato, dez suspeitos foram presos, entre eles a filha das vítimas. Uma delegada e um agente da polícia foram afastados e estão sendo investigados por forjar provas para incriminar inocentes e alguns dos presos disseram ter sido torturados para confessar o crime.

A história lembra o caso da Escola Base, ocorrido em março de 1994, quando a imprensa nacional em peso, na esteira de uma reportagem da TV Globo, acusou os donos de uma escola infantil de São Paulo e outras cinco pessoas de cometer abusos contra crianças.

O governo paulista, a TV Globo e outras empresas de comunicação foram condenados a pagar indenização por danos morais, mas os recursos arrastam o processo na Justiça.

O caso de Brasília reacende a questão: até que ponto a imprensa pode confiar em informações da polícia?

"Comprando" qualquer coisa

Um dos acusados no caso da Escola Base, o americano Richard Pedicini, se dedica a acompanhar o noticiário sobre casos de pedofilia no Brasil e afirmou recentemente, durante um evento em São Paulo, que as injustiças continuam a acontecer e que os jornalistas seguem "comprando" tudo que a polícia vende.

Na ocasião, Pedicini passou nove dias na cadeia, sob ameaça de outros presos, acusado de ser a "conexão internacional" de uma suposta rede de pedofilia. Tudo resultado da irresponsabilidade e da fantasia de um delegado chamado Edélcio Lemos.

O estopim do caso foi o Jornal Nacional do dia 28 de março de 1994. As manchetes mais escandalosas ficaram por conta do Notícias Populares, jornal pertencente ao Grupo Folhas, e entre as revistas IstoÉ foi a que mais se dedicou ao assunto. O único veículo que escapou da histeria provocada pelo delegado foi o Diário Popular, jornal centenário que posteriormente foi adquirido e fechado pelo Grupo Globo. E foi justamente o único que tinha um repórter no local quando a polícia invadiu a casa dos donos da escola.

O então diretor do Diário Popular, Jorge de Miranda Jordão, enxergou muitas contradições e inconsistências onde todos os outros jornais viam um crime escabroso. Durante os três meses em que o resto da imprensa explorou intensamente o caso, Miranda Jordão manteve o Diário Popular fora do assunto.

A confissão de um dos assassinos do casal Villela e sua empregada pode revelar que a imprensa não aprendeu com o caso da Escola Base. Se de fato for comprovado que os criminosos agiram por conta própria, como ficam as acusações contra a filha do casal, de ter sido mandante do crime? Depois de impregnada no imaginário público, como recuperar a imagem de uma pessoa acusada de mandar matar os próprios pais, na eventualidade de ser comprovada sua inocência?

A imprensa precisa reaprender a fazer jornalismo investigativo e deixar de confiar cegamente nas autoridades policiais.

MÍDIA - LEY DE MEDIOS - Enquanto isso, no país vizinho...

OI
Liana de Vargas Nunes Coll em 16/11/2010

Reproduzido da revista O Viés, 7/11/2010; título original "E no vizinho..."

O Senado argentino votou há mais de um ano, mas a decisão continua rendendo análises e discussões. É de 9 de outubro de 2009 a sanção e a aprovação da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, substituta da lei de imprensa constituída e aplicada nos anos de ditadura militar. Popularmente conhecida como Ley de Medios, mexeu com o humor dos grandes monopólios do país. Por estes e pela oposição, é acusada de ser resultado de uma rixa entre o Clarín, principal conglomerado comunicacional da Argentina, e o governo Kirchner. Para grande parte da sociedade, profissionais reconhecidos do meio e por expertos em regimes democráticos, é o início da quebra de grupos hegemônicos em detrimento de uma comunicação mais pluralizada.

A lei foi apresentada publicamente em março do ano passado. Desde lá, sofreu algumas alterações, propostas pelos fóruns de debate criados para discussão dos artigos. Em agosto, houve a apresentação ao Congresso Nacional, que não tardou em aprová-la. Em outubro, por 44 votos a 24, a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual estava pronta para entrar em vigor. Muitos aplausos de um lado. Vaias de outro. Enquanto setores de movimentos sociais e de civis realizavam ato de aprovação à lei nas ruas, os donos dos maiores conglomerados de comunicação ferviam. Em seus canais, veiculavam acusações de tentativa de censura. Falavam de restrição de liberdade e de ataque à democracia. Exaltados. A lei significaria uma redução de seus poderes.

Vice vota contra governo

O principal alvo ao governo tem base no contexto de princípios do ano de 2008, quando se formou uma grave crise entre ruralistas e o governo Cristina Kirchner. A decisão de aumento na alíquota de impostos sobre produtos agrícolas exportados gerou uma onde de protestos, encabeçados pelos grandes produtores rurais. Cortes de estradas bloquearam a contenção do abastecimento de alimentos à capital. Somou-se aos ruralistas grande parte da população que, ao ser bombardeada com o que mídia chamou de "confisco" (mesmo que a palavra não fosse apropriada e causasse informações dúbias) sobre os produtores agrícolas, tomou partido do grande setor rural.

O aumento, que de acordo com o governo visava a incentivar pequenos produtores e reverter uma parte do enorme lucro dos grandes em investimento no Estado, foi suspenso em julho do mesmo ano. Vitória para os ruralistas. A votação no Senado terminou em 37 a 36. Empatados em 36 a 36, coube ao vice-presidente e também presidente do Senado, Julio Cobos, o voto de minerva. Cobos decidiu pela suspensão da medida. Desde então, ele e Cristina mantêm uma quase não-relação. Ela pede a renúncia do vice e ele, que antes de entrar na chapa da presidente era de partido oposicionista, resiste no cargo.

Uma pluralização da mídia

A posição que tomou o Clarín, nessa época, define a atual briga entre o governo e a empresa. No governo de Nestor Kirchner, as concessões para canais televisivos e radiofônicos do grupo foram renovadas por 10 anos. Entretanto, a posição que tomou o Clarín quando a crise dos ruralistas ocorreu foi claramente de ataque ao governo e defesa dos grandes produtores. Por esse motivo, opositores e grandes empresas de comunicação, dizem que a criação da Ley de Medios mais é uma punição ao Clarín. Esses setores acusam o governo de castrador da liberdade de expressão e de imprensa. É verdade que os Kirchner não mantém uma relação harmônica com a imprensa, porém, quando a equipe do Clarín e outros meios resolveram por termos e posições sem embasamento e justificativa alguns, jogou-se na lama qualquer tentativa de relação respeitosa.

A esse panorama de desavenças soma-se a eleição legislativa, prestes a ocorrer na época. A intimidação da imprensa, principal aliada da oposição ao kirchnerismo, seria outro motivo para a criação da lei.

Pesam-se todos esses fatos, mas na realidade todos eles parecem uma procura por motivos que embasem o reclame dos grandes monopólios. Quando se perceberam ameaçados (perderiam um mimo histórico), começaram a ligar fatos que, mesmo contundentes em alguns sentidos, não significam muito perto da mudança que a nova lei significa na democracia da Argentina. A Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual mexeu com os grandes monopólios midiáticos ao iniciar um processo que, inversamente do que os contrariados afirmam, começa uma pluralização dos meios.

Os artigos mais relevantes

O conteúdo da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual comporta 166 artigos. Os mais relevantes, por motivo de mudança e diferenciação quanto ao antigo regulamento são:

** A diminuição do número de serviços abertos de rádio e televisão mantidos por um só dono, seja ele físico ou jurídico: de 24, passa a ser 10 o máximo permitido (sendo que no máximo três podem estar na mesma localidade), além de que um só grupo empresarial não pode possuir mais de 35% de controle de mercado local;

** A proibição de que uma empresa com canal aberto tenha canal a cabo em uma mesma localidade;

** A inserção de entidades sem fins lucrativos nos meios comunicacionais. Antes ONG’s, movimentos sociais e escolas, por exemplo, eram proibidos de manterem um serviço radiofônico ou televisivo. Antes, era exigido o fim lucrativo, agora tal setor fica com 33% dos meios radiodifusores;

** A garantia de um canal de rádio FM, um de rádio AM e um canal televisivo terrestre para povos originários, em seu lugar de assentamento;

** A criação de uma comissão mista (civis, profissionais e governantes), que será responsável pela análise de conteúdos dos meios radiodifusores e pela vistoria do cumprimento das novas leis;

** A difusão de, ao menos, oito filmes nacionais em cada canal ao longo de um ano.

O poder da sociedade

A Lei está em vigor desde setembro deste ano, quando foi publicada no Diário da União. O artigo 161 é o que mais provoca os conglomerados. Diz ele que as adequações à nova lei devem ser realizadas no prazo máximo de um ano. Isso significa que já está em andamento a contagem regressiva para retirarem-se do posto de detentores hegemônicos da informação.

Em abril deste ano, protestos de profissionais e estudantes de comunicação uniram-se a reclames de membros de grupos comunitários, de povos originários, das Mães e Avós da Praça de Maio, de militantes obreiros e de outros setores, além de civis. Aproximadamente 20 quadras de pessoas que compuseram a caminhada pelas ruas de Buenos Aires. Quando chegaram em frente ao Tribunal Superior de Justiça, pediram que a Lei de de Serviços de Comunicação Audiovisual entrasse em vigência.

Seguiram outros dias de reivindicações, as quais eram organizadas principalmente pelas redes sociais da web. O fato mostrou o quanto a questão mídia tem se tornado debate entre a sociedade em geral. Setores da população que antes não discutiam o tema começam a tomar consciência dos perigos da concentração da informação em monopólios.

Depois das agitações, foram mais alguns meses até a publicação da Ley de Medios no Diário da União. Em setembro de 2010 ela entra em vigor, iniciando a contagem regressiva de um ano para a adequação às novas regras. A dúvida, entretanto, é como os conglomerados aceitarão abrir mão do poder que têm. Já respingam algumas certezas, dentre as quais a mais evidente é: antes de se adequarem, lutarão judicialmente alegando mil e um motivos para frear a lei. Atualmente, cinco juízes dão lugar a contestações realizadas pelo grupo Clarín e pelo grupo Vila-Manzano. Ambos alegam que a lei vai contra a liberdade de imprensa.

Entre batalhas e mais batalhas, pode-se dizer que o primeiro passo para uma mudança significativa na desconcentração dos meios já foi dado. À parte de opiniões sobre os motivos que levaram à criação da lei, há a lei, a qual expertos em comunicação julgam ter um grande mérito. É normal haver resistência por parte de uma porcentagem que sempre teve nas mãos o controle majoritário dos canais de mediação entre sociedade e esfera pública. Acostumada em influenciar a opinião pública, na verdade teme o poder que deve ter a sociedade se não coada por seus filtros.

E o que tem a ver com o Brasil?

No Brasil, a maior parte dos canais de comunicação também é controlada por grandes empresas. Rede Globo é a principal delas. Mudam os nomes e os contextos, mas a situação assemelha-se muito. São ricos empresários possuindo, nas mãos, dezenas de meios de informação. Canais televisivos e radiofônicos, revistas, jornais, livros. O debate sobre a inserção de setores minoritários nos meios já é realizado, mas na prática, na lei, ainda não há mudanças. Aliás, atualmente não temos lei de imprensa. Em 2009 foi derrubada por uma votação no Supremo Tribunal Federal. Para ações envolvendo jornalistas, juízes baseiam-se na Constituição e nos códigos civil e penal.

A revogação da lei não mudou muito o cenário brasileiro. Entretanto, a criação de uma nova, atualizada com as demandas de inclusão de setores excluídos e com regulação das novas tecnologias é um tema a ser discutido. No Brasil, assim como na Argentina, também é necessário um primeiro passo para a desconcentração dos detentores da informação. É preciso coragem, pois a decisão pode causar ataques dos grandes e, bem se sabe, as estratégias de comunicação das vozes hegemônicas são ainda aceitas absorvidas por grande parcela da sociedade.

Direito à informação é um dos passos para uma democracia. Informação plural, onde todos possam comunicar suas demandas. Podemos olhar para os hermanos e aproveitar o que se te feito de positivo nesse sentido. Argentina, Brasil e outros países latino-americanos têm passado por fatos históricos nas últimas décadas. Poderia ser um bom contexto para o Brasil dar um passo no sentido da pluralização das vozes em pauta.

ARGENTINA - A guerra da mídia

Por Mariana Camarotti, de Buenos Aires em 16/11/2010

Reproduzido da revista Retrato do Brasil nº 40, novembro de 2010

Para ganhar cada vez mais poder na Argentina, a presidente Cristina Kirchner segue a cartilha do marido e antecessor, Néstor Kirchner: criar inimigos e vencê-los. A estratégia já havia dividido o país, mas agora o casal radicalizou com ataques aos meios de comunicação e com a tentativa de levar à prisão os diretores dos dois principais jornais do país, Clarín e La Nación.

O governo entrou com ação no Tribunal Federal, em 21 de setembro, acusando os empresários de serem "participantes necessários" da tortura e da extorsão de Lidia Papaleo. Ela é viúva de David Graiver, ex-proprietário da fábrica de papel "Papel Prensa", a mais importante do país. Lidia teria sido forçada a vender a fábrica durante a última ditadura militar argentina. Após a morte de Graiver em um misterioso acidente de avião no México, em agosto de 1976, a empresa foi adquirida pelos dois jornais e pelo governo do general Jorge Videla, autor de um golpe em março daquele ano. Assim, o diretor-executivo do Grupo Clarín, Hector Magnetto, a diretora do jornal Clarín, Ernestina Herrera de Noble, e o diretor do La Nación, Bartolomé Mitre, são acusados de "apropriação ilegal" da empresa.

A denúncia afirma, além disso, que teria havido "cuidadosa preparação mediática", pelo Clarín e La Nación, para obter "controle da imprensa escrita em todo o território nacional". No mesmo processo, Videla e seu ministro da Economia, José Martinez de Hoz, são acusados de autoria e coautoria dos crimes alegados contra Lidia Papaleo. Videla e Martinez de Hoz já haviam sido presos por crime de direitos humanos. A acusação se baseia no depoimento da viúva, incluído na ação. Em uma declaração, Lidia diz: "Todo o horror que foi minha vida depois do meu sequestro é indescritível, pela série de perversões, vexações e tormentos a que fui submetida. (...) Prefiro ver os olhos e a cara dos meus torturadores do que ver os olhos de Magnetto no momento em que me ameaçava para que eu assinasse."

"Para qualquer inimigo político se inventa um crime contra a humanidade"

A ação pede inquirição imediata dos diretores dos jornais, sob pena de prisão. Em entrevista ao Financial Times londrino, Magnetto acusou o governo de vingança pessoal e de que estaria se aproveitando da questão dos direitos humanos. Em outra ocasião, disse que o governo é "capaz de tudo". "Agora querem inventar um delito contra a humanidade pela compra de uma empresa oferecida pelos seus donos."

Para apresentar o processo ao país, pela TV, Cristina reuniu seu grupo político, de ministros a sindicalistas, na Quinta de Olivos, a residência presidencial. Ao lado de Lidia, fez um discurso aguçado, como é de costume. Tocando em um tema ainda hoje sensível na Argentina – há 30 mil mortos e desaparecidos da última ditadura (1976-1983) –, a presidente buscou dividir a população e levantou um caso cheio de contradições. "Tivemos que nos envolver não para controlar ninguém, mas sim, para que [os jornais] deixem de controlar os argentinos."

Depois do pronunciamento da presidente, Osvaldo Papaleo, irmão da viúva, confirmou que houve tortura e extorsão para forçar a venda da Papel Prensa. Mas Isidoro Graiver, irmão do ex-proprietário, desmentiu essa versão. Em nota nos jornais, afirma que foi sequestrado e levado, em 15 de março de 1977, a um centro de detenção clandestino, onde Lidia já estava presa. "O contrato definitivo da venda das ações que possuíamos na Papel Prensa foi assinado em 2 de novembro de 1976", diz ele. "A simples comparação das datas me exime de qualquer comentário."

Também em nota pública, María Sol, filha de Lidia e David Graiver, disse que soube das acusações pelos jornais; que há três anos não se relaciona com a família da mãe e que não se envolverá no caso. Outro personagem, o ex-promotor Julio Strassera, diz que Lidia Papaleo – que ele conheceu durante o processo de julgamento dos governos militares, em 1985 – jamais mencionou qualquer vínculo entre a venda da fábrica e as torturas. "Para qualquer inimigo político se inventa um crime contra a humanidade, ou uma relação com a ditadura", disparou.

Acabar com os monopólios

Os empresários Magnetto e Mitre apresentaram à Justiça documentos que confirmariam a legalidade da compra da fábrica e se disponibilizaram a participar da investigação. Mas isso tudo é apenas metade da tensão. Além da ofensiva legal, com acusações dessa gravidade, Cristina também enviou ao Congresso um projeto de lei para regulamentar a venda de papel-jornal no país, declarando que era produto de interesse nacional. O governo argumenta que existe um monopólio no setor que permitiria que os principais acionistas da Papel Prensa – Clarín e La Nación – inflacionassem o mercado e controlassem os demais jornais. O projeto de lei também prevê a intervenção e o controle estatal na empresa.

Ao mesmo tempo, Cristina abriu fogo contra a Corte Suprema, denunciando parcialidade em julgamentos e favorecimento de interesses particulares. Também acusa juízes da Corte de manter encontros com diretores do Clarín. Após pareceres recentes desfavoráveis, reclamou da demora em decisões sensíveis para o kirchnerismo. Num caso, a Corte manteve, por medida cautelar, a concessão da provedora de internet Fibertel, pertencente ao Grupo Clarín. Noutro caso, restituiu o procurador da província de Santa Cruz, Eduardo Sosa, afastado por Néstor Kirchner quando era governador. Também mantém em análise a intervenção estatal na Papel Prensa e os amplos poderes outorgados pelo Legislativo ao Executivo, interditados por recurso. Em outubro, a Corte manteve a suspensão, concedida em primeira instância, do artigo 161 da Lei de Meios Audiovisuais. Com isso, o máximo tribunal acata a apelação do Grupo Clarín e deixa paralisado o ponto-chave da norma, que ordenava que meios de comunicação vendessem várias de suas empresas em um prazo máximo de um ano.

Agora, a Justiça tem até dois anos para encerrar o processo – prazo ao final do qual haverá um novo presidente. A lei foi enviada pelo governo e aprovada no Congresso em outubro de 2009, por ampla maioria. O governo argumenta que busca democratizar os meios de comunicação e acabar com os monopólios. A lei é ampla. Cria uma quota máxima de participação acionária nas empresas de comunicação e autoriza o Estado a administrar, operar, desenvolver e explorar os serviços de radiodifusão sonora e televisiva.

Reestatização de setores privatizados

O texto tem como objetivo modificar concessões e, claramente, reduzir o poder do Grupo Clarín, que atua em todo o país e é dono de jornais, rádios, revistas, editoras, agências de notícias, canais de televisão aberta e a cabo, provedores de internet, empresas de TV por assinatura, gráficas, produtoras de televisão, sites, geradoras de conteúdos online e empresas de exposições, feiras e eventos. O grupo é o maior acionista da Papel Prensa.

No campo político, Cristina e Néstor Kirchner responsabilizam o Clarín, por exemplo, pela perda das eleições legislativas de 2009. Kirchner foi o segundo deputado mais votado, mas perdeu poder e espaço no Congresso e no Partido Justicialista/Peronista (PJ), do qual era presidente. O modelo de construção e enraizamento de poder adotado pelos Kirchner costuma ser comparado com o apoio dos muito pobres ao ex-presidente Juan Perón, ou com o radicalismo e o populismo do venezuelano Hugo Chávez. Mas o que se vê hoje na Argentina não encontra precedentes em sua história, explica o diretor do Instituto de Planejamento Estratégico, Jorge Castro. Nem tem semelhanças no continente. "É um fenômeno próprio da Argentina, que termina por isolar o país internacionalmente."

Néstor governou o país de 2003 a 2007 e, depois de passar o cargo à mulher, governou nos bastidores. Era claramente candidato a reassumir a presidência, concorrendo às eleições de 2011. Era também secretário da União de Nações Sul-americanas (Unasul), posição que lhe dava enorme projeção política. Para Castro, ele era o eixo do sistema político argentino. "Considerava o conflito com oClarín sua principal bandeira e condição essencial para uma vitória nas eleições presidenciais." Néstor sabia que era preciso superar o morno apoio da população, pois chegou à Casa Rosada com apenas 23% dos votos – o ex-presidente e atual senador Carlos Menem, também peronista, terminou o primeiro turno na frente, mas abandonou a disputa. "Havia um esvaziamento de poder e era preciso ganhar espaço", diz Castro. "A estratégia vinha dando certo. O problema é quando se perde, e foi isso que aconteceu, há dois anos, na ofensiva de Cristina contra o setor agropecuário."

O casal já havia enfrentado as Forças Armadas, anulando as leis que anistiavam os militares acusados de tortura e reabrindo os processos por crime contra a humanidade. Houve apoio imediato da sociedade e de organizações de direitos humanos. O governo também reestatizou os Correios, a empresa nacional de água e saneamento, a companhia aérea Aerolineas e todo o setor de pensões e aposentadorias – setores privatizados nos anos Menem, sob denúncias de fraude, na época.

Apenas 18,4% acreditam na versão do governo

Com isso, engordou-se a receita pública, mas os recursos não estariam sendo usados como imagina parte muito importante dos empresários, que reclamam da falta de fomento ao crescimento do setor e de crédito para investimento. O governo alega que o agronegócio inflaciona o preço dos alimentos, principalmente o da carne, importantíssima no cardápio argentino. Isso dito, aumentou o imposto sobre a exportação por decreto, restringiu as vendas externas e tabelou os preços internos. A sociedade foi às ruas fazer panelaços, a favor e contra. O país quase parou, num clima de tensão. O governo, então, cedeu e trocou o decreto por projeto de lei enviado ao Congresso. Em votação histórica, entrando pela madrugada, o próprio vice-presidente – e presidente do Congresso, Júlio Cobos, do partido União Cívica Radical (UCR) – desempatou, votando contra o imposto. Cobos tornou-se um novo adversário do governo e virtual candidato às próximas eleições.

Depois disso, o casal começou a perder força política e apoio dos argentinos. Mas foi em frente. A Corte Suprema teve 40% do seu orçamento para 2011 cortado. Trata-se de um ponto crucial, diz o diretor do Centro de Estudos União para a Nova Maioria, o analista político Rosendo Fraga. "A escalada da briga com a Corte gera o conflito institucional mais grave desde o restabelecimento da democracia, em 1983." Para ele, o modelo kirchnerista, nesse e em outros casos, se parece ao de Hugo Chávez. Há semelhança também na querela com os meios de comunicação e no manejo e controle das ruas por militantes. Para o analista, o conflito é um traço de personalidade dos Kirchner, mais do que uma ideologia. Na campanha à presidência, devido à sua forte personalidade, Cristina tinha alto nível de rejeição.

Na época, analistas avaliavam que, mesmo com a bonança econômica e uma votação de 43,9%, ela teria dificuldades para aprovar leis no Congresso e manter respaldo popular. Por isso, ela muitas vezes recorreu a decretos, driblando o Legislativo. Agora, no avanço contra o Clarín e La Nación, apenas 18,4% acreditam na versão do governo. Grande parte acha que a família Graiver diz a verdade. Mais da metade dos argentinos pensa que o objetivo é controlar a imprensa.

O direito de não saber as verdadeiras identidades

A imagem positiva do casal caiu de 35% para 30%. Além disso, uniu a oposição mais uma vez. "Estamos juntos e consideramos que o relatório é uma mentira inventada", disse a presidente da Coalizão Cívica, a deputada federal Elisa Carrió. Uma das maiores adversárias dos Kirchner, Elisa diz que "eles estão decididos a suprimir a imprensa e perseguir os opositores. Nós estamos dispostos a defender a imprensa livre e crítica". Deputado federal do PJ dissidente, o empresário Francisco de Narvaez disse que o Executivo tenta calar a boca dos que pensam diferente dele. "Existe um limite e o kirchnerismo avançou sobre a propriedade privada e sobre a liberdade de imprensa." O ex-chefe de gabinete de Néstor e Cristina, Alberto Fernández, não aprova as críticas à Corte Suprema durante atos políticos. "Isso não é bom para a qualidade institucional da Argentina."

Entretanto, o governo mantém amizade com o secretário da Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), Hugo Moyano. É dele que a Casa Rosada lança mão sempre que precisa de alguma grande mobilização. Agora, por exemplo, os caminhoneiros bloquearam a saída da gráfica para impedir que os jornais circulem. No confronto com o agronegócio, um conjunto variado de trabalhadores tomou o centro de Buenos Aires em uma grande caminhada de apoio ao governo. Há disputa com a imprensa em vários países, mas na Argentina a tensão é bem maior. O canal de televisão do Clarín, o principal do país, já perdeu a exclusividade da transmissão de futebol.

E em maio passado o governo conseguiu que a polícia desse uma batida de busca e apreensão na casa da família de Ernestina Herrera de Noble, diretora do Clarín. A ação envolve a denúncia de que os filhos adotivos da empresária seriam dois dos muitos filhos de desaparecidos – alega-se que muitas crianças foram roubadas dos pais nos porões da ditadura e distribuídas entre as famílias de aliados do regime. Na batida contra os Herrera de Noble, os dois filhos adotivos, hoje com mais de 30 anos, foram obrigados a entregar as suas roupas para análise de DNA. A ação é apoiada pela organização Avós da Praça de Maio, que já identificou 102 filhos de desaparecidos – muitos devolvidos às verdadeiras famílias.

Ernestina admitiu em 2003 que Marcela e Felipe podem ser filhos de desaparecidos, mas nega saber a origem deles. Ambos defendem o direito de não saber suas verdadeiras identidades e em comunicado pediram ao governo e às Avós que não digam o que eles têm que fazer.

Querela deve esquentar ainda mais

A tensão com os meios de comunicação é mudança recente na política argentina. Néstor teve apoio da imprensa, em seu mandato, e Cristina só o perdeu depois de enfrentar o agronegócio. Daí em diante, a imprensa começou a reclamar que era pressionada pela Casa Rosada através das quotas de publicidade oficial distribuídas às diversas mídias. A disputa ganhou os microfones oficiais, as manchetes dos jornais e os programas de televisão. Virou tema de programas de humor uma pergunta feita por Néstor em um discurso: "¿Qué te pasa, Clarín, estás nervioso?" (O que você tem, Clarín, está nervoso?).

Daqui até as eleições, a querela entre o kirchnerismo e os principais meios de comunicação deve esquentar ainda mais. O rumo da política argentina dependerá, em parte, das decisões que a Corte Suprema tomar. E também de a oposição saber ou não capitalizar esse conflito para ganhar espaço na campanha presidencial.

MURDOCH vs. NYT - Briga de cachorro grande na mídia de NY

Por Gilberto Scofield Jr. em 16/11/2010

Reproduzido de O Globo, 14/11/2010

Poucas brigas empresariais e midiáticas vêm sendo acompanhadas com tanta atenção pelo mundo executivo (e não executivo) americano (e não americano) do que a travada entre o magnata australiano das comunicações Rupert Murdoch, 79 anos, dono do império de mídia News Corp., e Arthur Sulzberger Jr., 59 anos, presidente da New York Times Company. Do ponto de vista econômico, trata-se de uma batalha desproporcional.

Afinal, a News Corp. é um conglomerado global – composto pelo estúdio 20th Century Fox, a TV Fox, o canal National Geographic, uma fatia da empresa de TV por assinatura Sky, os jornais britânicos The Sun e The Times e o americano New York Post, entre outros – cujo faturamento, até setembro deste ano, chegou a US$ 33 bilhões. Já o grupo New York Times Company – dono dos jornais The New York Times, The Boston Globe, International Herald Tribune e do site About.com, entre outros – faturou no ano passado US$ 2,4 bilhões.

Os executivos da Fox costumam brincar que o estúdio ganhou apenas com o filme Avatar, em 2009, tudo o que o grupo New York Times faturou no mesmo ano. No entanto, desde que Murdoch comprou em julho de 2007, por US$ 5 bilhões, o grupo Dow Jones da família Bancroft (dona da empresa por 105 anos) – e seu carro-chefe, o jornal de economia e negócios The Wall Street Journal –, o magnata vem se dedicando ao que ele mesmo definiu como "guerra pelo posto de rei da mídia em Nova York". Para tanto, segundo reportagem da revista Vanity Fair, teria injetado US$ 80 milhões de receitas obtidas com seus negócios em TV e cinema no Journal, com o objetivo declarado de "esmagar o Times".

Para magnata, Sulzberger é fraco, diz escritor

Em seu melhor estilo provocador, Murdoch não perde um segundo para humilhar Sulzberger – que assumiu o comando do jornal em 1992, a quinta geração da família Ochs Sulzberger, há dois séculos no leme do diário.

Em março, num artigo no suplemento de fim de semana do Journal sobre homens com traços femininos, Murdoch estampou na capa uma foto do sorriso de Sulzberger. Um mês depois, quando o Journal lançou a sua nova editoria, a Grande Nova York, para competir diretamente com o noticiário local do Times, Murdoch mandou Sulzberger "arrumar o que fazer".

– Ele (Murdoch) acha que Sulzberger é fraco, uma garotinha. O "Jovem Arthur" era frequentemente o assunto durante as muitas horas em que conversei com Murdoch quando estava escrevendo sua biografia. Sulzberger era, para Murdoch, um saco de pancadas. Ele até o imitava de forma a sugerir uma certa falta de masculinidade – conta Michael Wolff.

Desde que herdou de seu pai o seu primeiro jornal em Adelaide, na Austrália, ainda em 1952, Murdoch é conhecido por mirar no líder de mercado e não poupar esforços para roubar o posto. Foi assim também na mídia impressa inglesa, com a audiência da TV de notícias a cabo americana (a Fox News tem em média mais telespectadores que a CNN) e, agora, em Nova York, uma cidade que dita comportamento e atitudes ao mundo e se norteia claramente pelo que lê nas páginas do New York Times.

Circulação do Journal é maior do que a do Times

Enquanto Murdoch ataca ampliando o noticiário econômico do Journal com seções de esporte, mais entretenimento e notícias locais – ele promete em breve um suplemento de livros para concorrer com o New York Review of Books –, Sulzberger se defende com o que o Times faz de melhor: reportagens investigativas premiadas e artigos de comportamento que farejam novas tendências, especialmente no inovador mundo digital.

– Murdoch usa uma estratégia arriscada porque o Journal é conhecido internacionalmente pela excelência de sua cobertura econômica – diz Lawrence J. Parnell, professor da Universidade George Washington e especialista em comunicação pública e privada. – Enquanto isso, o Times é um jornal de metrópole, com boa cobertura econômica, mas de perfil diverso do Journal. A guerra de negócios, que envereda pelo lado pessoal, é por uma supremacia na mídia que extrapola a influência em Nova York e entra pelo mundo digital, já que o consumo de notícias segue um caminho não tradicional.

Por ora, Murdoch vem ganhando em circulação. Nos dias de semana, enquanto a circulação do Times é um pouco inferior a um milhão de exemplares (houve queda média de 6% no primeiro semestre), a do Journal é um pouco acima de dois milhões (uma pequena alta de 0,5%). Nos fins de semana, o Times atinge uma tiragem de 1,35 milhão. Em faturamento, os anúncios não pipocaram no Wall Street Journal como Murdoch esperava. Mas quem precisa de recursos de publicidade com um império da comunicação e TVs tão lucrativas? Sulzberger, pelo contrário, vem lutando contra a perda de receitas do Times que migram para a internet. A ponto de, em janeiro de 2009, o milionário mexicano Carlos Slim ter emprestado US$ 250 milhões ao grupo.

Sulzberger vem declarando que não se sente ameaçado. "A retórica anti-Times de Murdoch não repercute com nossos anunciantes, não repercute com nossos leitores e, muito francamente, não repercute com o público americano", disse ele à Vanity Fair

MÍDIA - Jornalismo tribal

Por Lúcia Guimarães, de Nova York em 16/11/2010

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 15/11/2010; intertítulos do OI

Se eu revelasse aqui os meus candidatos preferidos na última eleição, o leitor mudaria de opinião sobre as minhas opiniões? O voto é secreto e a curiosidade, legítima.

A suspensão de um famoso âncora da TV a cabo americana provocou uma discussão acalorada na última semana: jornalista deve sair do armário e soltar a franga de suas cores políticas? Há uma nova geração de consumidores de notícias que não espera separação entre reportagem e opinião.

O pecado: o colérico Keith Olbermann, da MSNBC, fez contribuições financeiras para as campanhas de candidatos do Partido Democrata, logo depois de entrevistar os mesmos candidatos no seu programa, e não notificou a direção da empresa. O castigo: suspensão indefinida, sem remuneração.

Depois de apenas duas noites e uma campanha de protesto pela mídia social, Olbermann estava de volta vociferando em close up. Atenção, dicionaristas, para a evolução do conceito de "indefinido".

Clube ideológico

A punição decorativa de um jornalista cujo programa diário, Countdown (Contagem Regressiva), é uma versão do telejornal em esteroides, consumiu horas de conversa no ar em torno da pergunta: jornalista é gente?

No Countdown, Olbermann faz o papel do liberal indignado e seu material, mais do que os fatos, são os malfeitores da direita. Ele exibe animações histriônicas de políticos conservadores, uma seleção da "pior pessoa no mundo" e outros besteirois. Seu estilo é bombástico, às vezes beira a histeria. Ele é também o mais assistido âncora da MSNBC, uma espécie de anti-Fox do cabo americano. A Fox é a casa de Rupert Murdoch, que abriga o rebanho da poderosa direita caricatural, responsável por parte do sucesso dos republicanos mais conservadores na eleição de 2 de novembro: Rush Limbaugh, Bill O’Reilly, Sarah Palin, Newt Gingrich e elenco.

O problema é que a parente da MSNBC é a velha NBC e seu departamento de jornalismo tentou aplicar regras de ética tradicional aos funcionários de sua prima opinativa.

Professores de escolas de comunicação argumentaram que a mídia digital, por ter permitido que qualquer pessoa com acesso à tecnologia transmita notícia e opinião, já forçou a redefinição do conceito de imparcialidade. Quem passou por uma escola de jornalismo sabe que a objetividade é uma bússola ética e não uma tentativa de virar eunuco. Mas um elemento fundamental da objetividade é a coleta de fatos e a velocidade da mídia digital atropela, torna difícil esta etapa.

Um exemplo gritante aconteceu antes de Barack Obama visitar a Índia. A mídia conservadora americana repetiu inúmeras vezes a informação absurda, divulgada por um blogueiro indiano, de que a viagem de Obama à Índia estava custando ao contribuinte americano US$ 200 milhões por dia. Nem a guerra no Afeganistão custa tanto.

No jornalismo pré-digital, divulgar esse rumor num telejornal poderia dar demissão. Leonard Downie, o ex-editor que herdou a direção do Washington Post do lendário Ben Bradlee, decidiu comportar-se como um monge quando assumiu o cargo. Simplesmente parou de votar. Há quem critique sua postura como hipocrisia. Por que não abrir o jogo, para começo de conversa? Embora a capacidade de analisar e formar opinião sejam requisitos do trabalho de um jornalista inteligente, a ideia de que observar fatos com a carteirinha do clube ideológico confere honestidade à cobertura é uma proposta perigosa.

Aparência real

O gênio de Rupert Murdoch foi identificar o novo ambiente e montar uma operação de mídia que, na definição precisa do comediante Jon Stewart, "tirou a legitimidade da autoridade editorial, enquanto exerce tremenda autoridade editorial".

Não é à toa que Stewart é o "jornalista" com maior credibilidade nos Estados Unidos no momento. Quando os jornalistas se tornam histriônicos, os comediantes começam a ser levados a sério. Afinal, eles têm uma equipe de redatores de dar inveja a qualquer redação de jornalismo e sua mensagem é mais refinada.

A decisão de suspender Keith Olbermann deixou a MSNBC parecendo um queijo suíço. Ao montar uma programação de cabo baseada em opinião à esquerda do espectro político americano, o canal seguiu a tendência em vigor: dizer ao público o que ele quer ouvir. Todos somos intransigentes com os que discordam de nós e lenientes com os que reforçam nossas opiniões. Mas, ao embarcar neste comércio lucrativo, as empresas de mídia não podem se esconder sob a argumentação furada de que as regras de imparcialidade continuam em vigor.

A solução não é fazer jornalistas confessarem se são de direita, centro ou esquerda. Se a tecnologia redefiniu o que o público identifica como jornalismo, o desafio é redefinir os atores da profissão. E o uso da palavra ator é proposital. Um panfletário como Olbermann não deveria ancorar a cobertura na noite da eleição, como fez, antes de ser suspenso.

Sim, uma das funções do jornalismo é puxar a cortina que esconde a aparência real do Mágico de Oz. Mas o que acontece hoje é uma "afeganização" do jornalismo. A tecnologia permite que o público se isole em tribos e a mídia foi atrás: ofereceu o jornalismo tribal.

Mídia alimenta imaginário da violência

OI

Por Mauro Malin em 16/11/2010


O professor de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Andrelino Campos vê na atuação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) fluminenses não apenas um instrumento de combate à violência, mas também de reordenamento do solo urbano. E lamenta que o foco da mídia se concentre na questão do tráfico de drogas e suas consequências, porque a mídia robustece assim o imaginário da violência, socialmente tão importante quanto a violência propriamente dita.

Andrelino Campos é autor do livro Do Quilombo à Favela – A Produção do "Espaço Criminalizado" no Rio de Janeiro, publicado em 2005. Ele dá como exemplo de imaginário de violência inflado o Jardim Catarina, considerado um dos bairros mais violentos do município de São Gonçalo, no Grande Rio. "Alguns pontos são destacados, ganham a atenção da imprensa, e qualquer evento passa a ser visto como tributário do tráfico. Na verdade, só uma parte da violência é decorrente do tráfico de drogas. Quanto se começa a mostrar muito determinada coisa, podemos ter certeza de que outras coisas, muito relevantes, ficarão escondidas", desconfia.

E exemplifica:

"A cocaína faz parte do ambiente no Rio de Janeiro, mas não é um ponto central na favela. Existem vários outros fatores geradores de violência. A violência na escola, por exemplo, tem sido noticiada. O fato é que até algum tempo atrás as famílias tinham maior controle sobre as crianças. Hoje, as crianças chegam da escola e ficam sozinhas. Crescem sem controle nenhum. E, pior, muitos chegam à adolescência e à idade adulta sem qualquer tipo de formação."

Fora de foco

Na lista de fatos ou fenômenos que não são devidamente percebidos porque o foco da mídia está muito voltado para o "combate" ao tráfico, Campos cita uma forma de corrupção associada ao Bolsa Família: "Há crianças que não frequentam a escola, mas os pais corrompem diretores para evitar que isso chegue ao conhecimento de quem é responsável por fiscalizar o cumprimento dos compromissos que habilitam ao benefício".

A degradação de padrões morais se apresenta em várias modalidades. Segundo Campos, em São Gonçalo algumas famílias descobriram como ganhar dinheiro de professores. "Ameaçam ir ao Ministério Público ou a uma delegacia de polícia denunciar o professor por agressão ou assédio contra aluno. Cobram do professor, cujo salário, dando aula em duas ou três escolas, está na casa dos R$ 2 mil, R$ 500 para não fazer isso. Em alguns casos, o professor acaba preso."

A questão do ensino, em si, também não merece da mídia a atenção necessária, diz o professor da Uerj:

"Os professores são recém-formados, nas escolas se colocam vinte, trinta alunos em cubículos. As escolas acabam servindo para muitas outras coisas que não a educação: comer, dormir, jogar bola. Servem até para ensinar. Não é de estranhar que haja tanta violência nelas."

Escola é síntese da sociedade

"A escola está violenta, mas ela é uma síntese da sociedade", diz o professor. "Recebe pessoas que vêm da sociedade e as devolve para ela. Como se sabe, em muitas escolas os alunos marcam sua filiação a uma das organizações criminosas do Rio pela escolha de um boné de determinada cor. Os garotos assumem uma cor, sem mesmo saber por quê."

Não estaria havendo uma deficiência nas pautas da imprensa? Para Campos, não: "A mídia é direcionada. Tem interesse em dizer algumas coisas e não outras. Dirige a cobertura para a violência e a ação da polícia".

"A violência tem muito do imaginário", afirma o professor. "As pessoas passam a enxergar as coisas a partir desse discurso. Quem vive no lugar apontado como violento reconhece o problema, mas não com a intensidade que lhe é atribuída. Para eu tornar um lugar violento, basta colocá-lo na mídia. O imaginário da violência potencializa os fatos."

Como assim?

"Se, quando ocorre um evento violento, ele é noticiado e depois o caso e o local saem do noticiário, não existe a potencialização. Mas em alguns casos, sobretudo quando acontece algo muito violento, um lugar é associado com a violência durante um longo período. Como no caso do assassinato do menino João Hélio [Fernandes Vieites, nascido em 2000; durante assalto ao carro da mãe em Oswaldo Cruz, Zona Norte, em 2007, ficou preso pelo cinco de segurança do lado de fora e foi arrastado por centenas de metros quando os ladrões levaram o carro]. Se a cobertura se prolonga, sempre haverá alguém que leia o caso como novo. O jornal administra o assunto em doses homeopáticas, até que ele se exaura completamente, ou melhor, seja cortado por outro evento. O jornal faz, na dimensão do tempo, uma conexão do local com eventos violentos que não corresponde à vida real."

Segundo Campos, a cidade toda é pontilhada de eventos, mas o tratamento dado na mídia é seletivo. "O assassinato de Artur Sendas [2008], um empresário importante", exemplifica, "ocorreu em Ipanema. Mas Ipanema não perdurou no noticiário como lugar de violência. Há outras coisas para se falar de Ipanema, coisas positivas. O assunto só retornou à mídia quando houve o julgamento do assassino."

Outra faceta da dimensão temporal é a ligação que se faz entre fatos ocorridos em momentos distintos. O professor da Uerj aponta:

"A mídia falada, por exemplo, quando relata um fato novo, sempre vai buscar referência em algum fato antigo. Há uma invasão policial no Morro dos Macacos, virá como referência a derrubada de um helicóptero da polícia ocorrida lá, fato gravíssimo, não há dúvida, mas sem conexão com a invasão que está sendo noticiada."

Cidade e território

O professor faz uma distinção entre cidade e território. "Copacabana, Ipanema, Madureira são parte da cidade. A Serrinha, o Vidigal, a Cidade de Deus são territórios. Território é um recorte espacial onde pré-existe uma hierarquia e o conflito é constante." Há fatos violentos na cidade, mas a polícia não invade os lugares da cidade. "Quem vive em favela pode ser invadido a qualquer momento, porque território é um lugar de luta", constata.

A associação entre a dimensão espacial e o imaginário opera porque "ninguém vive cem por cento da cidade. Cada um conhece alguns bairros e algumas pessoas", diz Campos. "Como a capacidade de circular é extremamente restrita, cada pessoa conhece os lugares onde estuda ou trabalha, mora, frequenta bares, se diverte etc. O resto vem do imaginário."

A imagem que os habitantes têm da cidade é, portanto, fornecida pela mídia. Mais uma razão para o professor da Uerj condenar a atenção quase obsessiva dada à questão da segurança pública. Para exemplificar por que acha que deveriam ser enfocadas também outras questões, como a do reordenamento urbano, ele menciona um texto seu de 1997 no qual mostrou que, em aparente paradoxo, as áreas envolvidas no Favela-Bairro, programa criado em 1994 pelo então prefeito César Maia, começaram, depois de uma valorização inicial, a perder valor, porque os investimentos nesses lugares foram pontuais e não contínuos."Como a violência foi exacerbada nos últimos dez a quinze anos, houve uma depreciação do solo urbano nesses locais", aponta Campos.

O que Copa e Olimpíada podem – ou não – trazer

Com as intervenções atuais ‒ presença de UPPs e obras de urbanização, teleféricos, etc. haverá, como no caso do Favela-Bairro, valorização no primeiro momento. E o desdobramento do processo poderá ser bem diferente.

"Se for regularizada a posse dos lotes, o mercado imobiliário poderá comprar terras e fazer seus próprios investimentos", diz Campos. "Estamos no limiar de dois projetos imensos: a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Imagine-se o que, nessa situação muito especial, poderá ser feito numa área como o Vidigal, por exemplo."

Para o professor, o Rio tem a possibilidade de ser visto como modelo, a exemplo do que aconteceu com Barcelona depois da Olimpíada de 1992. "A partir de 2014-2016, o que se fizer aqui pode se irradiar para todo o país e para o mundo", afirma.

Apesar de levantar essa hipótese, ele é cético quanto à possibilidade de que a realização dos dois grandes eventos se traduza em melhorias reais para a população do Rio de Janeiro. "O Pan-Americano veio, acabou, a cidade permaneceu a mesma. Acredito que com a Olimpíada a imagem poderá se modificar, algumas estratégias de sobrevivência serão criadas, mas isso não vai alterar muito a vida das pessoas. Continuará havendo assaltos, com mais ou menos violência, mortes. As favelas e outros lugares subalternos continuarão sendo territórios, onde viver é uma arte e morrer violentamente é consequência do contexto."

MÍDIA - JORNALISMO & CREDIBILIDADE - O boato nosso de cada dia - Muniz Sodré

OI
em 16/11/2010


"Quando as pessoas deixam de acreditar em alguma coisa, o risco não é de que passem a acreditar em nada, e sim, de que acreditem em qualquer coisa." A reflexão de G.K. Chesterton (1874-1936), escritor e poeta, pode servir para lançar alguma luz sobre o estado atual da nossa comunicação pública. Com esta expressão, designamos não apenas a mídia (o complexo de jornais, revistas, rádios, TVs e internet), mas também a comunicação oral e quotidiana nas instituições que, bem ou mal, repercutem os temas dominantes no espaço público.

Normalmente, o aspecto da comunicação oral é deixado de lado pela observação crítica da mídia. Primeiro porque, sem a permanência da escrita, o que se diz é fugaz, não se presta à comprovação; segundo porque ali é o lugar próprio ao boato que, como bem se sabe, é um conjunto de "bolhas" desinformativas, infladas por maledicência, temores e interesses às vezes inconfessáveis. La Bruyère, famoso moralista francês do século 17, dizia que "o contrário dos boatos que correm costuma ser a verdade".

Por que, então, trazer o velho boato ao moderno tópico da mídia?

Uma hipótese viável como resposta traz à baila a frase de Chesterton. É que, em nossa plena modernidade, os públicos firmaram com a imprensa informativa um pacto de credibilidade. A ela caberia garantir não apenas a livre expressão, mas também a publicização da verdade oculta nos desvãos do Poder. Não uma publicidade qualquer, e sim, uma versão abalizada sobre os arcana imperii, isto é, os segredos do mando. A imprensa seria, portanto, a antítese do que La Bruyère chamava de rumeur, o boato.

"Qualquer coisa"

Por isso, a imprensa se investe modernamente do direito moral de narrar, inerente a toda e qualquer testemunha de um fato. Testemunho, em grego clássico, é histor – daí, história. Acreditamos numa história porque foi testemunhada, senão diretamente ao menos por uma mediação confiável, a cargo do jornalismo.

Acontece que, de algum modo, o pacto de credibilidade tem sido abalado pelo funcionamento da mídia, palavra algo abstrusa, mas que vale como conceito da ampliação da velha imprensa por meio de novas tecnologias da informação, entretenimento e mercado. Não acreditamos necessariamente naquilo que nos diverte ou nos faz rir. Simplesmente, rimos.

Aí mora o risco atual da mídia junto aos seus públicos. Se nela deixamos de acreditar, poderemos, como diz Chesterton, acreditar em qualquer coisa. "Qualquer", adjetivo e pronome indefinidos, implica neutralidade quanto às qualificações de uma coisa ou de alguém. O "qualquer" é sem atributos nem valores. Quando aceitamos "qualquer coisa" – pouco importa o que nos apareça –, estamos dentro da lógica do indefinido.

Redes sociais

É assim com a informação sem critérios coletivos consensuais para selecionarmos a coisa em que acreditamos. É o que pode acontecer quando perdemos a confiança na mediação histórica da imprensa. Muita tinta e muitos bytes já se gastaram em análises dessa crise de credibilidade, que atinge desde as referências mundiais (o New York Times, por exemplo) até as regionais.

E não se trata apenas de texto: as suposições quanto à verdade referencial da própria imagem costumam ser abaladas pelas tecnologias digitais. Os diagnósticos neste sentido tornam-se correntes. Assim é que o artista e pesquisador britânico David Hockney, em entrevista ao jornal The Daily Telegraph, sustentou que a fotografia pode estar "perdendo o crédito como espelho da verdade". Citando uma contrafação do Daily Mirror (o tabloide havia publicado na capa uma foto em que um suposto soldado inglês urinava no rosto de um prisioneiro iraquiano, mas depois se descobriu que era uma montagem), ele afirmou: "Nós não sabemos mais como olhar para uma foto". O coeficiente de inverdade da fotografia aumenta com a imagem digital, a tal ponto que "daqui a algum tempo, vai ser impossível acreditar no que estamos vendo nos jornais".

O fenômeno é mundial – não é aqui o caso de ser exaustivo quanto a exemplos. Trata-se, sim, de olhar ao redor, na paisagem nacional, e tentar ver o que está acontecendo na "coligação" implícita da mídia corporativa com as chamadas redes sociais na internet. Eticamente, é parecido com certas coligações partidárias: vale tudo.

Discussão pública

A diferença é que a coligação midiática ocorre sem que os envolvidos disso se deem grande conta. Fala-se de "mídias complementares" sem perceber que as regras de produção de veracidade valem apenas para um campo técnico (o do jornalismo) com limites traçados, ao longo dos tempos, por sutis negociações discursivas entre os sistemas profissionais e seus públicos. Sem esse jogo semiótico, entram em cena a mentira e o boato.

O fenômeno recrudesceu com a última campanha eleitoral para a presidência da República. Ao tomar partido (o que não é um horror, afinal os jornais podem espelhar as preferências das frações de classe social que os sustentam), a mídia hegemônica confundiu frequentemente fato com opinião e boato. Assimilou acriticamente os "rumores" da rede eletrônica, e esta, por sua vez, perdeu limites e freios. Nela, qualquer montagem, qualquer mentira pode ser respaldada por milhares de "acessos".

Obviamente, pode-se fazer o mesmo com versões contrárias. Mas não se consegue instaurar o contraditório da democracia porque o boato predomina pela força sedutora do imaginário, é mais "virótico" do que a comunicação do fato.

Ora, o socius é cimentado pela confiança. Sem isto não se governa, nem há vida social inteligente. Talvez se deva refletir com mais seriedade sobre a sugestões correntes quanto a uma discussão pública e responsável sobre o funcionamento da nossa mídia.