Há quase 30 anos, em entrevista que me concedeu, Alceu Amoroso Lima profetizava que o século 21 seria o da redenção das mulheres e dos negros
Publicado em 12/11/2010
A previsão do escritor e pensador, também conhecido como Tristão de Ataíde, era a de que os dois grandes preconceitos históricos, o do racismo contra os africanos e seus descendentes no mundo, e o dos homens contra as mulheres, seriam vencidos no século que se iniciou há uma década. A eleição de Dilma Rousseff é emblemática, como todos estão apontando, por ser a primeira vez que uma mulher chega à chefia do Estado e do governo no Brasil. Nossa época está rompendo com muitos dos tabus históricos. O preconceito contra os negros e mestiços foi quebrado no país que se notabilizara pelo apartheid até 50 anos antes, os Estados Unidos – com a eleição de Obama –, isso sem falar no caso da África do Sul, onde a situação era ainda mais abominável, porque se tratava da odiosa opressão de minoria branca contra a imensa maioria negra.
A eleição de Dilma era esperada. Não há governos perfeitos, mas existem aqueles em que os saldos são positivos. O grande segredo de Lula é a sua autenticidade. Seu mérito foi o de, ao chegar ao poder, não esquecer a origem, ainda que obrigado a conviver com representantes das elites econômicas e sociais do país. Tais eram (e ainda continuam sendo) as desigualdades sociais históricas, que Lula percebeu ser necessário contar com o consumo dos mais pobres, a fim de ampliar o mercado interno. Por mais discreta que tenha sido a redistribuição de renda, ela teve efeito multiplicador sobre a economia. O desemprego chegou aos menores níveis históricos no Brasil.
Outro importantíssimo resultado da eleição é o do equilíbrio continental. Mesmo tendo perdido o seu grande orientador, Néstor Kirchner, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, tem todas as condições para manter excelente relacionamento com Dilma, assegurando o entendimento entre as duas nações mais poderosas da América do Sul, no caminho para a unidade continental. Seja mantendo o chanceler Celso Amorim, seja nomeando para o seu lugar homens da mesma visão de mundo (como é o caso de Samuel Pinheiro Guimarães), Dilma deve manter a forte presença de nosso país no mundo.
Mais importante do que a eleição de Dilma, com todos os seus méritos, é a conclusão clara e objetiva de que o povo brasileiro aprovou as grandes mudanças realizadas nos últimos oito anos. Não só aprovou as medidas de caráter interno, na ação econômica, como a nova postura de independência do país no mundo. Chico Buarque de Hollanda a resumiu bem ao dizer que, durante o governo anterior, o Brasil falava grosso com o Uruguai e o Paraguai, e falava mansinho com os Estados Unidos. Hoje o tom de voz é o mesmo, seja com Washington, seja com Assunção.
Quando o candidato José Serra prometeu mudar a política externa brasileira, perdeu milhões de votos. Os brasileiros decidiram, definitivamente, desmentir Nelson Rodrigues, que nos atribuía o complexo de vira-latas. E deram uma resposta varonil a Fernando Henrique Cardoso, que nos considerava um povo de caipiras e de deslumbrados com o mundo desenvolvido. Deslumbrado com as luzes do mundo é ele. A experiência demonstra que, ao associar-se aos países emergentes, e abandonar o alinhamento automático com os Estados Unidos e a União Europeia, o Brasil fez com que os países desenvolvidos nos vissem com outros olhos e nos tratassem com o respeito que nos negavam.
Outra lição eleitoral é a de que o povo brasileiro não engoliu as canhestras explicações para a privatização do patrimônio público, de responsabilidade do governo anterior. As mesmas razões que levaram os mineiros a votar no nacionalista Itamar fizeram com que votassem agora contra Serra. Os mineiros não perdoam a entrega da Vale do Rio Doce. E se riem do argumento de que hoje a empresa paga mais impostos, quando antes, além dos impostos, os dividendos eram do Brasil. A vitória de Dilma é um avanço definitivo no processo de real independência do Brasil
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Mauro Santayana - Touraine elogia FHC e desdenha o Brasil
Por A sociologia costuma amparar-se na abstração: vale-se de elementos estatísticos e da generalização dos comportamentos humanos. Seu pecado, já apontado por estudiosos, é o de, no exame dos fenômenos políticos, abandonar o fundamento ético das sociedades estatais, que é o da legitimidade do poder – como bem lembrou o filósofo alemão Manfred Riedel.
O sociólogo Alain Touraine é dos mais respeitados intelectuais contemporâneos, e se especializou na América Latina, ainda que conheça bem a realidade europeia e, cela va sans dire, a de seu próprio país. Prefere, sem embargo, a nossa modesta situação histórica à da Grande França, de que é cidadão. Esse, aliás, é um costume muito francês. Recordo-me de haver assistido a uma conferência de Régis Debray em Havana, em 1966, na qual o jornalista – que se considera filósofo – propunha “estratégia revolucionária para a América Latina”. Um jovem comunista cubano perguntou-lhe sobre o que proporia como estratégia revolucionária na França. Debray, que fizera recente viagem de alguns meses ao nosso continente, como jornalista, e a serviço da revista Revolution, ligada aos chineses, disse que não entendia bem a situação da França. O jovem levou o auditório às gargalhadas, ao indagar ao conferencista, que nascera em Paris, e ali vivera toda a sua vida, por que não entendia da política francesa tanto quanto da América Latina, se passara tão pouco tempo entre nós.
Não é bem o caso de Touraine. Mas é curioso que tenha vindo ao Brasil, a fim de participar de um seminário técnico sobre planejamento urbano, patrocinado pela Emplasa, uma empresa estatal do governo paulista, a fim de tratar da “decadência das sociedades ocidentais”.
São surpreendentes as declarações que fez aos jornais, porque elas revelam algumas contradições. Ao expor dúvida quanto ao nosso futuro, sob a presidência de Dilma Rousseff, afirma que, em oito anos de governo, “Fernando Henrique construiu as instituições”, como se o Brasil fosse um vazio institucional antes de 1995. O que Fernando Henrique fez foi exatamente destruir a Constituição de 1988, e a Constituição é a primeira das instituições republicanas. Ele se entregou, com entusiasmo, à globalização que, segundo o mesmo Touraine, significa “o fim da sociedade”, e só resta “o mercado puro”. O sociólogo brasileiro desmoralizou, ainda mais, o Parlamento, ao cooptá-lo a fim de estabelecer a reeleição, e desmantelar o sistema cautelar de proteção aos bens nacionais, ao “privatizar” as empresas estratégicas do Estado, doando-as aos escolhidos. O ex-presidente manipulou a opinião pública, mediante os expedientes que se conhecem, nem todos honrados e ainda que nem todos espúrios, como são os meios de comunicação social, os intelectuais “orgânicos” ou solitários, e os centros acadêmicos. Disse ainda Touraine, em observação óbvia, que a Europa se tem dedicado, nos últimos 20 anos, a eliminar “significados”. E dá o exemplo: o desenvolvimento industrial foi eliminado pelo mercado financeiro, substituído pelo sistema de “o dinheiro pelo dinheiro”. Nessa particular eliminação de significado, como sabemos, o governo de Fernando Henrique foi perfeito.
Consideramos deselegante – e ofensiva – a sua afirmação de que o sistema político brasileiro “é horrível, corrupto”. A corrupção, que estamos combatendo, não é endemia brasileira, mas doença universal. Como outros costumes, esse também veio da Europa. Ele conhece muito bem isso, na França do passado – como no caso do Canal do Panamá – e na França sob o governo de Sarkozy.
Se o grande intelectual francês dedicasse ao exame do seu governo o mesmo interesse que dedica ao Brasil, na certa seria mais cético em relação ao seu país, do que com respeito ao nosso. É a modesta sugestão que podemos fazer à sua excepcional inteligência.
O sociólogo Alain Touraine é dos mais respeitados intelectuais contemporâneos, e se especializou na América Latina, ainda que conheça bem a realidade europeia e, cela va sans dire, a de seu próprio país. Prefere, sem embargo, a nossa modesta situação histórica à da Grande França, de que é cidadão. Esse, aliás, é um costume muito francês. Recordo-me de haver assistido a uma conferência de Régis Debray em Havana, em 1966, na qual o jornalista – que se considera filósofo – propunha “estratégia revolucionária para a América Latina”. Um jovem comunista cubano perguntou-lhe sobre o que proporia como estratégia revolucionária na França. Debray, que fizera recente viagem de alguns meses ao nosso continente, como jornalista, e a serviço da revista Revolution, ligada aos chineses, disse que não entendia bem a situação da França. O jovem levou o auditório às gargalhadas, ao indagar ao conferencista, que nascera em Paris, e ali vivera toda a sua vida, por que não entendia da política francesa tanto quanto da América Latina, se passara tão pouco tempo entre nós.
Não é bem o caso de Touraine. Mas é curioso que tenha vindo ao Brasil, a fim de participar de um seminário técnico sobre planejamento urbano, patrocinado pela Emplasa, uma empresa estatal do governo paulista, a fim de tratar da “decadência das sociedades ocidentais”.
São surpreendentes as declarações que fez aos jornais, porque elas revelam algumas contradições. Ao expor dúvida quanto ao nosso futuro, sob a presidência de Dilma Rousseff, afirma que, em oito anos de governo, “Fernando Henrique construiu as instituições”, como se o Brasil fosse um vazio institucional antes de 1995. O que Fernando Henrique fez foi exatamente destruir a Constituição de 1988, e a Constituição é a primeira das instituições republicanas. Ele se entregou, com entusiasmo, à globalização que, segundo o mesmo Touraine, significa “o fim da sociedade”, e só resta “o mercado puro”. O sociólogo brasileiro desmoralizou, ainda mais, o Parlamento, ao cooptá-lo a fim de estabelecer a reeleição, e desmantelar o sistema cautelar de proteção aos bens nacionais, ao “privatizar” as empresas estratégicas do Estado, doando-as aos escolhidos. O ex-presidente manipulou a opinião pública, mediante os expedientes que se conhecem, nem todos honrados e ainda que nem todos espúrios, como são os meios de comunicação social, os intelectuais “orgânicos” ou solitários, e os centros acadêmicos. Disse ainda Touraine, em observação óbvia, que a Europa se tem dedicado, nos últimos 20 anos, a eliminar “significados”. E dá o exemplo: o desenvolvimento industrial foi eliminado pelo mercado financeiro, substituído pelo sistema de “o dinheiro pelo dinheiro”. Nessa particular eliminação de significado, como sabemos, o governo de Fernando Henrique foi perfeito.
Consideramos deselegante – e ofensiva – a sua afirmação de que o sistema político brasileiro “é horrível, corrupto”. A corrupção, que estamos combatendo, não é endemia brasileira, mas doença universal. Como outros costumes, esse também veio da Europa. Ele conhece muito bem isso, na França do passado – como no caso do Canal do Panamá – e na França sob o governo de Sarkozy.
Se o grande intelectual francês dedicasse ao exame do seu governo o mesmo interesse que dedica ao Brasil, na certa seria mais cético em relação ao seu país, do que com respeito ao nosso. É a modesta sugestão que podemos fazer à sua excepcional inteligência.
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