Serra acusa PT de financiar "blogs sujos"; Dilma chama tucano de "patético"
DO RIO
O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, acusou o governo Lula de "financiar blogs sujos para patrulhamento de jornalistas" e usar dinheiro público para custear conferências que propõem a restrição da liberdade de imprensa.
Em resposta, a candidata do PT, Dilma Rousseff, chamou o tucano de "patético", por, segundo ela, um dia criticar Lula e no dia seguinte tentar ligar seu nome ao dele para se beneficiar da popularidade do presidente.
Serra e Dilma participaram, em momentos distintos, do 8º Congresso Brasileiro de Jornais.
O tucano falou por 30 minutos a partir das 13h, e a petista discursou três horas mais tarde por período de tempo semelhante.
A plateia reunia cerca de 800 pessoas entre proprietários e profissionais de imprensa de todo o país.
"BLOGS SUJOS"
Serra disse que o governo federal apoia o cerceamento da liberdade de imprensa e de informação.
"Lula investe diariamente no desequilíbrio do jogo. Boa parte desta estratégia não deixa de ser alimentada por recursos públicos. Boa parte desses blogs sujos são mantidos com recursos dessa TV Brasil, que não foi feita para ter audiência, mas para criar empregos na área de jornalismo e servir de instrumento de poder para um partido."
Para o candidato tucano, o governo Lula tenta intimidar a imprensa de três formas: por via legal, com a realização de conferências que sugerem o controle social sobre a mídia; pela publicidade oficial; e pela intimidação indireta de jornalistas.
Depois de defender a liberdade da imprensa, porém, Serra se recusou a responder perguntas de jornalistas sobre a suposta falta de oposição no Brasil e sobre quais são os blogs sujos a que se referira. "Alguma outra pergunta?", limitou-se a dizer cada uma das três vezes em que foram feitos questionamentos incômodos a ele.
PAZ SOCIAL
Dilma, em entrevista após seu discurso, criticou o que considerou ambiguidade de seu adversário.
"Acho estranho porque, ao mesmo tempo em que o candidato tenta, muitas vezes de forma patética, ligar seu nome ao do presidente Lula, ele fez oposição o tempo todo. Tem dia que ele faz crítica, tem dia que ele quer ligar seu nome ao projeto do presidente Lula. O candidato Serra é assim. O que podemos fazer?"
Dilma tentou evitar responder sobre as críticas ao apoio e financiamento do governo a conferências com propostas supostamente contrárias à liberdade de imprensa.
"Muitas vezes não concordamos com as reivindicações, mas não tememos os movimentos sociais e jamais vamos deixar de escutá-los", afirmou a petista.
Em seu discurso, defendeu a liberdade de expressão e de acesso à informação. "Não há liberdade onde falta informação. Prefiro o barulho da crítica ao silêncio da censura. A paz social não é obtida usando mordaça", disse.
(ANTÔNIO GOIS, ELVIRA LOBATO e PLÍNIO FRAGA)
Presidente da EBC e ministro divulgam notas
DE SÃO PAULO
O ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Franklin Martins, respondeu ontem em nota à acusação de José Serra (PSDB) de que o governo tenta censurar a imprensa. "O candidato do PSDB a presidente da República, José Serra, acusou hoje o governo federal de cercear, constranger e censurar a imprensa. Trata-se de uma acusação grave e descabida, sem qualquer apoio nos fatos", diz o texto.
"A imprensa no Brasil é livre. Ela apura e deixa de apurar o que quer. Publica e deixa de publicar o que deseja. Opina e deixa de opinar sobre o que bem entende. Todos os brasileiros sabem disso", diz a nota.
"Para nós, a liberdade de imprensa é sagrada. O Estado Democrático só existe, consolida-se e se fortalece com uma imprensa livre."
A presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), Tereza Cruvinel, também divulgou nota, em que diz que as declarações de Serra "não correspondem à atuação dos canais públicos da EBC". "[Serra] participou de uma série de entrevistas com presidenciáveis na TV Brasil, confirmando a observância dos princípios de isenção, apartidarismo e isonomia na cobertura", diz a nota.
Mesa discute ataques a jornais críticos
DO RIO
Os jornais subsistirão aos desafios surgidos em razão das novas tecnologias, mas enfrentam hoje ataques ao seu papel de mediador social e dificuldades por serem críticos mesmo a governos com altos índices de sustentação popular.
Essa é a síntese do debate de abertura do 8º Congresso Brasileiros de Jornais, que discutiu o futuro da democracia e o jornalismo, com a participação de Joshua Benton, diretor do Nieman Journalism Lab da Universidade Harvard (EUA); de Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha; e Demétrio Magnoli, sociólogo e colunista de "O Estado de S. Paulo" e "O Globo". A mesa teve mediação de Nelson Sirotsky, diretor-presidente do Grupo RBS.
Benton definiu-se como um otimista a respeito do futuro dos jornais após o surgimento das novas mídias digitais. Demonstrou que a tecnologia aumenta o acesso a dados, de forma mais rápida, permitindo narrativas mais bem contextualizadas e facilitando o jornalismo investigativo.
Ele acredita que as novas mídias são suplementares às formas clássicas, não substituidoras delas.
Magnoli afirmou que a credibilidade dos jornais está associada ao custo de imprimir uma notícia.
"Como publicar na internet tem custo marginalmente zero, a informação não tem valor associado a ela", declarou. Citou o mote do jornal "The New York Times" -todas as notícias que valem a pena ser impressas- para demonstrar o papel de seleção do que é relevante como fator de credibilidade. "Nem toda informação é notícia nem vale o custo de ser impressa."
Otavio Frias Filho iniciou sua participação falando sobre o receio de "erupção de governantes autoritários", que, embora preservando aspectos externos formais da democracia, exercem graus variados de tutela sobre ela.
Citou como exemplos Rússia, Irã, Venezuela, Bolívia e Equador, que vivem ciclo de prosperidade em razão da alta do petróleo.
"A situação brasileira me parece muito diferente desses outros países. Mas eu atribuo, muito menos do que a uma disposição benfazeja do governante de turno, ao fato de que a sociedade brasileira é mais complexa do que as que eu citei, sem nenhum demérito para elas", afirmou.
Para ele, a solidez da democracia no país deve-se à independência dos poderes Judiciário e Legislativo, à ação, "por vezes até agressiva", do Ministério Público e à fiscalização da imprensa.
Frias Filho recorreu ao historiador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) para lembrar os riscos de uma "ditadura da maioria" que possa emparedar minorias e direitos
ANJ terá órgão de autorregulamentação
Entidade anuncia formação de conselho como forma de reiterar compromisso dos jornais com liberdade de expressão
Grupo, a ser oficializado nos próximos meses, terá sete membros e julgará casos que sejam a ele submetidos
Rafael Andrade/Folhapress
A presidente da ANJ, Judith Brito, faz discurso no evento
DO RIO
A ANJ (Associação Nacional de Jornais) anunciou ontem a criação de um conselho de autorregulamentação como forma de reiterar o compromisso da entidade com a liberdade de expressão e com a responsabilidade editorial. O anúncio foi feito na abertura do 8º Congresso Brasileiro de Jornais, que termina hoje, no Windsor Barra Hotel, na zona oeste do Rio.
"Definimos conceitos básicos para o estabelecimento de um conselho de autorregulamentação, composto por sete membros, que julgará casos a ele submetidos", disse a presidente da ANJ, Judith Brito, diretora-superintendente do Grupo Folha.
"Nos próximos meses, nosso compromisso é o de detalhar o regulamento e os procedimentos para que este conselho seja designado e comece a atuar", afirmou.
Judith Brito acredita que até o final do ano o novo conselho esteja em funcionamento. Outros setores contam com entidades semelhantes. A publicidade brasileira, por exemplo, é autorregulada pelo Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária), entidade não-governamental criada em 1978.
"Sabemos que muitos jornais já têm seus códigos de ética. A própria ANJ tem seu código. Agora, trata-se de avançar num modelo que permita debater e avaliar nossos erros, de forma transparente", disse.
Em discurso, a presidente da ANJ lembrou a "decisão histórica" do Supremo Tribunal Federal de, em abril de 2009, acabar com a Lei de Imprensa, definida por ela como "legislação antidemocrática com o objetivo de limitar a circulação de informações e opiniões, impondo um ambiente obscurantista para a sociedade".
"Os jornais não querem se isentar da responsabilidade que obviamente têm em suas funções de informar. Em nenhum momento propusemos impunidade, mas apenas nos defendemos contra a intolerável censura prévia", declarou Judith Brito.
A presidente da ANJ afirmou que a entidade é parceira das escolas de jornalismo, incentivando-as a serem "modelo de qualidade na formação humanística", e disse que as empresas só têm a ganhar com profissionais oriundos das boas escolas.
Mas a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, exigência também derrubada pelo STF, era um "claro embaraço à liberdade de expressão e era natural sua revogação", afirmou.
PUBLICIDADE
Alguns dos debates do congresso discutiram o caminho da publicidade em jornais. A conclusão é que a publicidade em jornais impressos continuará prevalecendo e há espaço para seu crescimento, mas as empresas que produzem conteúdo jornalístico precisam buscar modelos de negócios que viabilizem suas operações em novas mídias digitais.
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