domingo, 19 de setembro de 2010

Achar emprego está mais fácil no País. Tempo médio de procura é o menor em 12 anos

Marcelo Rehder – O Estado de S.Paulo
Nos últimos cinco anos, nunca pareceu tão fácil para o brasileiro achar um emprego como agora. Sondagem conjuntural da Fundação Getúlio Vargas (FGV), feita mensalmente em mais de 2 mil domicílios de sete das principais capitais no País, mostra que 10,9% dos entrevistados acham que hoje é fácil encontrar um emprego.

É o maior índice já registrado desde que a pesquisa começou a ser feita, em setembro de 2005. Em dezembro de 2006, por exemplo, esse número era de apenas 0,3%.

Na outra ponta, a fatia dos brasileiros que consideram difícil encontrar emprego bateu nos níveis mais baixos da série. Em agosto, data da pesquisa mais recente, o número chegou a 52,2% dos entrevistados. Há um ano, estava em 71,8%, depois de ter atingido o pico de 88,1% em setembro de 2006.

“O resultado é incrível”, diz o coordenador de sondagens conjunturais da FGV, Aloisio Campelo Júnior. “Em cinco anos, o resultado que a gente obtém com a mesma pergunta mudou radicalmente.”

O mercado aquecido é reflexo da continuidade do crescimento econômico, diz o economista. Desde 2003, quando teve fim a chamada era do “voo de galinha”, marcada por sucessão de períodos de crescimento econômico baixo e de crescimento mais elevado, o único evento que segurou um pouco o ritmo de expansão do emprego foi a recente crise financeira mundial.

“O que a gente vê agora é um cenário, tanto na cabeça de empresários como de consumidores, de continuidade do crescimento”, comenta Campelo Júnior. “Uma empresa que está com o quadro de pessoal ajustado, e que vislumbra nos próximos anos um crescimento sustentado de 4% ou 5% ao ano, em média, promove novas rodadas de contratações, de maneira sistemática.”

Nessas condições, o vento muda a favor do trabalhador. Diante da crescente demanda por mão de obra, que em alguns setores chega a superar a oferta de profissionais qualificados, prospera o número de trabalhadores que mudam frequentemente de emprego para ter salários cada vez mais altos.

O faturista Marco Antonio de Moraes, de 29 anos, faz parte desse time. Recentemente, ele trocou o posto que ocupou durante quatro anos em uma indústria do setor do plástico em Holambra, no interior paulista, por outro em uma distribuidora de combustíveis instalada na vizinha cidade de Paulínia.

Além de cumprir uma jornada menor, Moraes passou a ganhar mais. “Meu salário registrado em carteira era de R$ 1.047, o que somada às frequentes horas extras beirava R$ 1.500″, conta o faturista. “Aqui, entrei ganhando R$ 1.180, mas tenho 30% de adicional de periculosidade, o que já eleva o meu salário para onde estava.”

Moraes hoje embolsa cerca de R$ 2,8 mil por mês, contando os benefícios que ele não tinha no emprego anterior, como vale-transporte, vale-alimentação e cesta básica. “Fui convidado, fiz a entrevista, vi que era mais interessante e mudei de emprego”, resume o trabalhador.

Liberdade. O empresário Paulo Francini, diretor do departamento de pesquisas e estudos econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), diz achar “ótimo” a situação criada pela forte demanda da atividade econômica por trabalhadores.

“Essa liberdade no mercado de trabalho é muito boa de ser exercida”, diz o empresário. “Imagina o sujeito ficar patinando durante anos num mesmo lugar, frustrado por não ter aumento de salário nem perspectiva de mudança, e de repente poder dar saltos qualitativos.”

Tempo médio de procura é o menor em 12 anos
Desempregados da Grande São Paulo levam em média oito meses para achar vaga, segundo pesquisa Dieese

O Estado de S.Paulo
O crescimento econômico e a disputa por mão de obra fizeram o tempo médio de procura por emprego cair para os patamares mais baixos dos últimos 12 anos. Em julho, os desempregados da Grande São Paulo demoravam em média oito meses procurando um novo posto de trabalho, uma semana a mais do que gastavam em maio de 1998.

Os dados são da pesquisa mensal de emprego e desemprego da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Em relação a julho de 2008, quando o País ainda não sentia os efeitos da crise financeira mundial, a redução do tempo médio de procura por trabalho foi de dois meses.

“Quanto maior for o nível de qualificação do desempregado, menor é o tempo de procura”, diz o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio.

O crescimento acelerado do volume de novas vagas teve impacto duplo na rotatividade no emprego.

“Uma parte da rotatividade passou a ser por iniciativa do trabalhador que procura um emprego melhor”, explica o diretor do Dieese. “Há também aquela rotatividade que a empresa fazia no passado, demitindo para contratar trabalhador com menor salário, que tende a diminuir.”

Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que, entre janeiro e julho, a taxa de rotatividade do trabalho na indústria brasileira cresceu 16,7% (de 2,94% para 3,43%). Já o salário médio no setor praticamente ficou estabilizado em R$ 919,19.

“Isso foi influenciado pelo movimento dos próprios trabalhadores em busca de empregos com remuneração superior entre firmas do mesmo setor de atividade”, avalia o presidente do Ipea, Márcio Pochmann.

Boa parte das mudanças de emprego se deve à oferta de benefícios. É o caso do técnico em eletrotécnica Roberto Carlos Martins, de 45 anos, de Araçatuba, no interior paulista. Há duas semanas, ele saiu de uma usina de álcool e açúcar e foi trabalhar em outra da mesma região e na mesma função.

O salário também é o mesmo, mas os benefícios são maiores. “Eu pagava um preço elevado na alimentação, em torno de R$ 74 por mês, e agora não vai chegar a R$ 8″, conta o trabalhador. “A PLR (Participação nos Lucros e Resultados) é bem maior, equivalente a quase dois salários contra só meio”, acrescenta.

Além de passar a ter a cobertura de um plano de saúde mais completo, Martins ainda recebeu a promessa de 25% de aumento salarial para breve.

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