sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Krugman: “O país está dando certo e deixa como lição o fato de que não se deve seguir consensos”


“A era Lula, que acaba agora, não foi um paraíso, mas a economia cresceu muito bem, houve grande investimento na redução da pobreza, a inflação e a situação fiscal estão controladas e o mercado doméstico se fortaleceu. O que mais se deve esperar de um país?”


Câmbio e déficit ainda não devem preocupar o Brasil, diz Krugman

João Villaverde – Valor Econômico
Quando um país começa a aparecer nas capas das revistas internacionais é sinal que ele vai ter problemas. A constatação é de Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia de 2009, em visita ao Brasil, ontem. O fenômeno, que Krugman chama de “a sina das capas de revistas”, ocorreu nos anos 1990 com o México, os países do Leste Asiático e a Argentina – todos os países sofreram com crises econômicas provocadas por déficits nas transações correntes pouco depois de obtido o reconhecimento da mídia internacional. “Esse não é o caso do Brasil. Vocês são muito mais maduros”, diz Krugman.

O economista americano é doutor pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e professor da Universidade de Princeton, ambas nos Estados Unidos, ficou apenas um dia em solo brasileiro. Viajou na terça-feira à noite, tendo publicado em seu blog no “The New York Times” uma nota, pouco antes, destacando que “a dívida externa brasileira era muito elevada nos anos 1980, e que as coisas definitivamente melhoraram muito desde então”. Ele participou de fórum promovido pela IBM em São Paulo e à tarde embarcou de volta aos Estados Unidos. “Andei estudando muito o Brasil do ano passado para cá”, disse.

Para Krugman, a valorização do real e o consequente aumento do déficit em conta corrente brasileiro não se constituem em uma preocupação. “Era o que se esperava acontecer, é até compreensível que o câmbio esteja tão valorizado, uma vez que os países ricos estão em grave recessão e o Brasil tem ótimas perspectivas econômicas”, afirmou.

As discussões recentes na área econômica do governo quanto a uma possível desvalorização cambial para frear a ampliação do endividamento nas transações correntes, para Krugman, devem ser colocadas em perspectiva. “Todos os países querem ter superávits nas contas correntes e todos falam em desvalorizar suas moedas para isso. Só que se todos desvalorizarem não muda nada. Fico desapontado com países como a China, que poderiam incorrer em pequenos déficits correntes, mas não o fazem.”

Nos 12 meses terminados em julho, segundo números do Banco Central, o país acumulou déficit equivalente a 2,24% do Produto Interno Bruto (PIB). Embora divergentes quanto à utilidade do endividamento externo, economistas de diferentes matizes ideológicas concordam que o déficit nas contas correntes costuma ser financiável até níveis entre 3,5% e 4% como proporção do PIB. Ligado à corrente heterodoxa, Krugman não vê problemas quanto à ampliação do déficit corrente no Brasil, mas avalia que “as coisas podem mudar caso cresça a 6% ou 7% do PIB”, algo que ele considera improvável.

“O Brasil parece ter uma demanda doméstica forte o suficiente para bancar um déficit corrente de 4% do PIB de maneira sustentável. Muitos países cresceram por vários anos com déficits parecidos, como os EUA e a Austrália”, disse.

Por outro lado, vaticina ele, não se deve deixar a valorização cambial persistir por muitos anos. De dezembro de 2008, auge da crise econômica mundial, até ontem, o real acumulou valorização de 36% em comparação com o dólar. “Se deixar apreciar desta forma por muito tempo”, diz Krugman, “haverá desemprego num ponto em que nem cortes nas taxas de juros serão capazes de reverter”. Esse processo foi denominado de “armadilha para as exportações”, uma vez que a valorização cambial reduz a remuneração das empresas que vendem seus produtos no exterior.

O prêmio Nobel de Economia elogiou o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro. “A era Lula, que acaba agora, não foi um paraíso, mas a economia cresceu muito bem, houve grande investimento na redução da pobreza, a inflação e a situação fiscal estão controladas e o mercado doméstico se fortaleceu”, elencou Krugman, que perguntou em seguida: “O que mais se deve esperar de um país?”

Para o economista, o Brasil “encontrou” uma terceira via, que não está presa ao modelo do Consenso de Washington, praticado em larga escala na América Latina nos anos 1990, mas também não segue os padrões de países como China ou Venezuela, onde o Estado é o protagonista. “O país está dando certo e deixa como lição o fato de que não se deve seguir consensos”, disse.

O cenário pós-2010 não está livre de desafios, no entanto. A situação dos países ricos, tendo Estados Unidos e os da União Europeia à frente, pode piorar, caracterizando uma crise em forma de “W”, o que poderia reduzir o ímpeto do crescimento brasileiro. Ao mesmo tempo, a economia chinesa pode desacelerar e, com isso, levar o Brasil junto, uma vez que é a elevada demanda chinesa a commodities brasileiras que tem sustentado, segundo Krugman, boa parte do ingresso de dólares no país. “Mas, ainda assim, com o mercado interno construído pelo Brasil, é possível continuar crescendo em torno de 5% ao ano mesmo com um mundo mais fraco”, afirmou

VISÃO DA FSP


País pode ter período longo de expansão, diz Krugman

Folha SP



Para economista, educação é empecilho

DE SÃO PAULO

“Os números do Brasil ainda não mostram uma decolagem dramática em termos de crescimento. Mas o “zum-zum-zum” sobre o Brasil é muito positivo. E eu levaria o “zum-zum-zum” a sério.”
A frase é de Paul Krugman, um dos mais respeitados economistas do mundo, e ganhador do Prêmio Nobel.
Em entrevista a jornalistas brasileiros ontem, Krugman demonstrou otimismo em relação ao Brasil e mencionou a redução da desigualdade de renda no país como sinal “muito promissor”.
Krugman afirmou que o Brasil tem chance de entrar em um período prolongado de alto crescimento se melhorar a qualidade de seu sistema educacional.
O economista acredita que, por enquanto, a valorização do real não seja uma ameaça ao crescimento. Questionado sobre declarações dele feitas em 2009 que refletiam preocupação com a trajetória cambial no Brasil, fez uma brincadeira.
“No ano passado, eu estava insuficientemente pessimista sobre as perspectivas dos países da OCDE [organização que reúne em sua maioria países desenvolvidos]“, disse o economista, que deu uma palestra a executivos da IBM ontem.
Essa não foi a única piada sinalizando que seu otimismo em relação ao Brasil se explica ao menos parcialmente por sua visão negativa em relação aos países ricos.
“Sob uma perspectiva dos EUA, o Brasil não enfrenta desafios”, brincou o colunista do “New York Times”.
Para Krugman, a valorização do real é consequência de boas perspectivas para investimentos no Brasil em comparação com as oferecidas pelos países ricos, onde as taxas de juros estão muito baixas, e do cenário econômico positivo brasileiro.
Mas, acrescentou ele, há um limite para a valorização do real e o consequente aumento do deficit em conta-corrente do Brasil. Hoje, esse deficit está acima de 2% do PIB (Produto Interno Bruto).
“O Brasil parece ter suficiente demanda doméstica para sustentar um deficit em conta-corrente de 3%, 4% do PIB. Mas, se isso aumentar para 5%, 6% ou 7%, talvez leve a questionamentos.” (EF)


Krugman não crê que câmbio seja um problema
Ricardo Leopoldo – O Estado de S.Paulo
Ao contrário do que declarou há cerca de um ano, o Prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, não acredita que a valorização do câmbio hoje seja um problema para a economia do Brasil. “Se o déficit de transações correntes atingir 3% a 4% do PIB, tudo bem. O quadro fica preocupante quando esse indicador fica bem maior, algo perto de 6% a 7% do PIB.” Perguntado pela Agência Estado o que o fez mudar de opinião, respondeu com certa ironia: “É que naquela época eu não estava suficientemente pessimista sobre a economia mundial como estou hoje”.

Em palestra ontem, em São Paulo, Krugman disse que a valorização cambial seria nefasta para a economia brasileira se estivesse enquadrada em um dos três cenários: altíssimo endividamento do governo e de empresas em dólares; o que qualificou como “armadilha de liquidez para exportações”; e o ingresso muito grande de recursos internacionais que propiciasse uma onda de investimentos em ativos, como imóveis.

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