segunda-feira, 6 de setembro de 2010

'Oposição está descolada do Brasil real', diz Eduardo Campos

Governador mais bem avaliado do país, segundo o Datafolha, e com uma reeleição consagradora quase certa em Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) desconversa sobre suas pretensões nacionais para os próximos anos.

Em entrevista à Folha, entretanto, fala como liderança nacional. Analisa os erros dos adversários dele e do presidente Lula, chama a oposição para um diálogo mais sereno após a eleição e aponta suas articulações com o presidente para criar uma "frente ampla" de aliados.

Onde a oposição errou?
Isso é uma avaliação muito mais para eles próprios fazerem depois da eleição do que para a gente fazer a 30 dias da eleição. Prefiro ver onde é que nós acertamos. Acertamos a pauta do povo: o Brasil voltar a crescer, cuidar de escola, desenvolvimento, voltar a fazer muitas obras, as transformações que podemos ver no nosso dia a dia. Entre a pauta do debate político formal e a pauta da sociedade existe uma distância enorme. Nós deixamos o debate formal do Brasil oficial e fomos para o debate do Brasil real. O Brasil da construção da cidadania, da oportunidade, do resgate da autoestima do nosso povo. Desmontar fábricas de desigualdades espalhadas pelo país afora. E ter clareza de que tem muitas ainda, de que te muita coisa para ser feita,muita transformação. Fizeram o debate do Brasil oficial, enquanto nós fomos debater o Brasil real. Essa foi a grande diferença. O Lula é um brasileiro muito mais do país real do que do país oficial. O debate oficial não chegou nas comunidades, nas universidades, nos bairros da periferia de São Paulo, do Rio, do Paraná, de Pernambuco. Essa pauta ficou lá em Brasília. Ela enche páginas e páginas de jornais, blogs, fatos e fatos, madrugadas de debates na televisão. Mas não são o assunto da vida brasileira, da enorme maioria dos brasileiros.

O sr. acha essa a única pauta cabível? Por que a mídia...
Não é a mídia, não. Os políticos vão à mídia. Porque você abre o jornal tem uma página de ciência e tecnologia, tem uma página de opinião sobre temas importantes, uma que fala de esportes, outra de cotidiano urbano. Tem debates muito interessantes. Agora, os políticos estão nesses debates? Estão lá em três ou quatro páginas, levando aos repórteres do seu jornal, e de outros jornais e outros blogs, muitas vezes assuntos que não são os que interessam à sociedade. O cara passa 15 dias, 30 dias, porque a PEC tal, porque a MP não sei o quê. A escolha da pauta para fazer a oposição e o debate político, os temas escolhidos pela oposição foram temas que não colaram na vida real. Porque, se tivessem colado, o resultado seria outro.

Jarbas construiu uma aliança que parecia forte, governou por oito anos, foi bem avaliado e, a se confirmarem as pesquisas, sofrerá uma derrota fragorosa para o sr. no primeiro turno. Como em quatro anos a oposição virou pó?
As pessoas dizem que vêm o nosso governo na vida delas, no emprego, na segurança, nas UPAs, nos hospitais novos, nas escolas, no desenvolvimento das regiões. O sertão hoje, tem cidade no sertão central de Pernambuco --região que pelo IBGE perdia população pela migração-- temos as maiores obras. A situação de emprego: você paga os dez maiores resultados do último Caged estão lá na região de Salgueiro. Canal, ferrovia, rodovia, escola técnica, universidade, Minha Casa, Minha Vida, 40 mil cisternas sendo construídas.
Aí as pessoas vêm a escola dos seus filhos chegando banda larga, as aulas sendo dadas com o professorado com equipamentos para dar aulas interativas, com seu laptop com cinco programas educativas. Bibliotecas que funcionam, laboratórios que funcionam.
Essa mudança, o ambiente da economia, a chegada ao consumo, a possibilidade de um crédito, de empreender. Isso se junta de um lado e, de outro, uma fala descolada da realidade. Como é que você pode fazer oposição se você não se mistura à realidade para ver exatamente onde é que o governo que está aí está falhando. Se você não compreende isso, [é difícil] até para você propor que é possível fazer melhor e mostrar como é possível fazer melhor. Essa é que a questão.
Temos uma geração que interage. A minha geração é diferente da geração dos meus filhos, que já altera, vai jogar no videogame e muda as camisas, muda os jogadores do time. Os nossos joguinhos antes a gente não tinha esse poder de mudar, de fazer, de interagir, de criticar. Esses meninos estão efetivamente noutra, não são passivos.

Há na campanha de Jarbas um discurso semelhante ao da oposição nacional, de que o seu governo se beneficia das bases lançadas há muitos anos, por governos anteriores, como no caso de Suape.
Suape é um projeto de 30 anos. Quando fez 30 anos, dei uma medalha a cada governador, prestei uma homenagem a todos os ex-governadores, os vivos e às famílias dos que já tinham morrido. Agora, em 30 anos de Suape, investiram R$ 500 milhões lá; em 3,8 anos, investimos R$ 1,2 bilhão. Isso é um fato. Eu torço que amanhã, depois do nosso segundo mandato, possa vir um outro governador e possa fazer em quatro anos R$ 3 bilhões.
No tempo de preparar a mão de obra, a principal escola técnica de Pernambuco, que era a segunda do Brasil, a primeira do Nordeste, o Etepan, tinha sido fechada. Nós reabrimos, abrimos mais sete, conseguimos mais seis, contratamos agora mais 11, chegamos para o sistema S quantas vagas vocês têm pra qualificar. As pessoas sabem que consideramos que preparar o Estado não é só preparar a infra, é preparar as pessoas, preparar as empresas. E o povo sabe que fazer é nossa obrigação. Não precisa oposição ou situação ficar dizendo o que foi feito ou não foi feito --o povo sabe. Se em 2006, o povo achasse que estava tudo bem, que não precisava mudar nada, eu não teria sido eleito governador da forma que já fui eleito em 2006, com 65% dos votos. Quando o povo nos escolheu é porque queria mudanças, e essas mudanças nós cuidamos de fazer. Passei 3,8 anos e não me referia a nenhum adversário político, não falei hora nenhuma sobre eles, não cuidei da vida deles, não tratei de ficar reclamando da situação, falando mal do que encontrei. O povo já tinha dito que não estava bem. Essa forma de fazer política ajudou a unir Pernambuco. Hoje tenho muitas pessoas que nunca votaram no nosso conjunto e que estão fazendo nossa campanha. Muitas pessoas que no passado votaram em dr. Arraes, depois passaram a votar em Jarbas e hoje votam com a gente. Estamos juntando muitas pessoas, e Pernambuco está mais feliz vendo a política sendo feito assim do que sendo feita da forma muitas vezes azeda com que foi feita a política em Pernambuco.

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