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terça-feira, 8 de março de 2011

MUNDO DIGITAL - A internet como força mítica - Marcelo Gleiser -observatório da imprensa

em 8/3/2011

Reproduzido da Folha de S.Paulo, 6/3/2011; intertítulo do OI

O mundo, e em particular o Oriente Médio e o norte da África, está em polvorosa. Na Tunísia, no Egito e, agora, na Líbia, uma enorme mobilização social está levando a mudanças políticas dramáticas.

Cientistas políticos de naipes diversos preveem que essas ações marcam o começo de uma profunda transformação mundial, não apenas localizada no sul e leste do Mediterrâneo: uma democratização global, uma nova ordem, talvez semelhante em parte às revoluções que varreram a Europa em 1848.

A mobilização parte, principalmente, de jovens que vivem nas autocracias seculares de países muçulmanos -desempregados apesar de um bom nível educacional, desesperançados- que decidiram, corajosamente, redefinir seu destino com suas próprias mãos.

É bem verdade que o desfecho das manifestações nesses países, e possivelmente em outros (como Bahrein e Iêmen), permanece incerto. Por outro lado, o desejo de derrubar tiranos que estão no poder por décadas em regimes brutais está crescendo irreversivelmente e não será abafado pela violência.

Uma mobilização transnacional dessa grandeza seria inimaginável dez, ou mesmo cinco, anos atrás. Por trás das manifestações, unindo os descontentes, está a internet, em particular os programas de interação social Facebook e Twitter.

Jovens do mundo inteiro, de Bali à Rússia, do Quênia à Jordânia, trocam informações e criam alianças usando meios totalmente novos.

Resultados duradouros

Uma mensagem de texto tem precedência sobre um telefonema; uma mensagem no Twitter resume uma atividade ou um grito de ação comunitária; uma página no Facebook define valores sociais, laços familiares, grupos religiosos, esportivos, políticos, unindo pessoas, ganhando uma estatura mítica.

Penso na Grécia Antiga e no poder mítico da poesia de Homero, autor dos poemas épicos A Odisseia e A Ilíada, obras que definiam, em grande parte, o que significava ser grego em torno do século 7º a. C., quando a "Grécia" se espalhava em forma de ferradura desde o sul da Itália até o norte da África.

A poesia de Homero distinguia os valores de um povo, criando um senso de identidade. "Sou grego, pois Homero é meu bardo." Mitos unem povos, e os programas de interação social têm hoje uma força mítica.

Ser jovem é saber como participar no Twitter e no Facebook, é entender o novo código de conduta digital e segui-lo. Quando surgiu o rádio e, depois, a TV, muita gente achou que seria o fim da civilização. O mesmo com a internet e suas mídias sociais.

Na rede, a liberdade pode ser virtual, mas tem gosto de real. E aqueles que sentem o seu gosto, que veem a importância de pensar criticamente sobre a sociedade e a possibilidade de manifestar posições contrárias ao regime sem ser morto ou preso não querem ter as asas cortadas.

Ninguém poderia ter previsto que a invenção do Eniac, o primeiro computador eletrônico, de 1946, levaria ao PC, à internet, ao Facebook. Uma vez que uma ideia toma corpo, ela se espalha de formas imprevisíveis, redefinindo o possível.

Que a luta desses milhões de pessoas leve a resultados concretos e duradouros. Também querem contribuir na criação da nova ordem mundial. E têm todo o direito de buscar esse objetivo.

PLANETA BLOG
Os grandes aliados do jornalismo 2.0

Por Cleyton Carlos Torres em 8/3/2011


O jornalismo está vivendo um momento ímpar em sua existência. Toda aquela era digital em que se discutia o papel da imprensa finalmente está entre nós. O jornalismo já passou, ainda passa e irá passar por muitas modificações e impactos imputados pelo frenético mundo digital e suas novas formas de consumir conteúdo. Para muitos pesquisadores e profissionais da comunicação, o jornalismo, em si, nunca sofreu qualquer ameaça quanto à sua importância para com a sociedade. Para outros, tal profissão iria desaparecer porque com a era 2.0 o mundo todo começaria a produzir informação por conta própria e não mais haveria a necessidade de se manter redações ou profissionais altamente qualificados.

Porém, como é passível de observação, o jornalismo não acabou e não acabará. Sua função para com uma civilização moderna é tão essencial quanto comida ou água. Talvez essa seja uma afirmação que desagrade a muitos, mas não é de hoje que se pesquisa o homem como um ser informívoro, ávido por informação, necessitando dela tanto quanto de outras fontes de energia para o corpo humano.

Por outro lado, a farta oferta de conteúdo distribuído na rede tem deixado muito segmentos atônitos quanto ao que fazer com tanta informação. Primeiramente deve-se deixar bem claro que o número de pessoas que realmente produz na web é baixíssimo, pois a maioria dos usuários apenas replica informações geradas por outros. Outra coisa importante que deve ser destacada é quanto à qualidade do que é produzido, pois sabemos que há muita inutilidade e futilidade sendo compartilhada na rede mundial de computadores.

Filtro de conteúdo

Entretanto, mesmo separando o conteúdo sem qualidade do conteúdo verdadeiramente jornalístico, ainda temos uma grande gama de notícias, links, fotos, áudios, vídeos e reportagens sendo disseminados o tempo todo pelos usuários da chamada web 2.0 através das redes sociais. Quem, então, conseguirá agregar e filtrar tanto conteúdo?

É exatamente nessa hora que entram os blogs. Diversos especialistas do ramo digital e jornalístico estão apontando essa mídia como uma potencial ferramenta agregadora de informação de qualidade. Seus gerenciadores seriam capazes de direcionar o público para fontes e informações realmente relevantes, já que nem todos os usuários acessam, necessariamente, a página de um veículo jornalístico. Os blogs trabalhariam, então, como verdadeiros filtros de conteúdo, cada qual com seu ramo específico de atuação, atuando, muitas vezes, como portais que selecionariam as informações relevantes e com uma linguagem mais apropriada para com os usuários, já que tais ferramentais são, em grande parte, gerenciadas por usuários comuns, e não por redações com características mais "empresariais".

Se na era 2.0 a máxima é "você é o que você compartilha", não há nada mais apropriado do que uma mídia controlada por usuários produtores de informação para filtrar o conteúdo que muitas vezes é gerado pelos próprios internautas. Quem apostou no fim precoce dos blogs errou. Quem está apostando no fim dos blogs frente aos avanços das redes sociais possivelmente também irá errar. Os blogs, mais do que nunca, estão demonstrando, de uma maneira totalmente 2.0 de compartilhamento, por que vieram para ficar.

Palpites e previsões

Grande parte do que se discute nas mídias sociais é oriundo das mídias tradicionais. Mas também é verdade que alguns blogs estão até mesmo pautando a imprensa comum devido à qualidade que estão apresentando. Outros, no entanto, estão se demonstrando tão eficientes na organização desse conteúdo descontrolado que entra na web que estão sendo alvos de contratações e aquisições por grandes portais, como ocorreu com o blog colaborativo Huffington Post, abocanhado pela gigante AOL por 527 milhões de reais.

Com isso, cuidado quando forem, mais uma vez, exterminar o jornalismo e aniquilar os blogs. A aquisição do Huffington Post demonstra que a AOL quer se tornar referência no jornalismo online e está apostando nos blogs para isso. Isso se chama jornalismo 2.0 aliado com ferramentas 2.0. No mais, só temas palpites e previsões 2.0 recheadas de um preconceito 1.0 nada convincente.

MÍDIAS E REDES SOCIAIS - Trocas simbólicas escapam a controles - observatório da imprensa

Por José Henrique P. e Silva em 8/3/2011


Nas últimas semanas, e no contexto das revoltas populares no mundo árabe, surgiram inúmeros comentários apontando para uma estreita relação entre tais revoltas e as novas mídias sociais (Google, Facebook, Twitter etc.). Alguma relação, por certo, deve haver, mas não necessariamente de causa e consequência, como se ouviram vozes afirmando que "o Twitter e o Facebook fizeram a revolução". É um assunto delicado e merece sempre cautela, pois se para alguns estas novas tecnologias são bem vindas, para outros elas estariam carregadas de "ideologia".

Para se desenvolver como espécie, o homem teve no seu trabalho e em suas ferramentas grandes aliados que permitiram sua mais rápida evolução. Foi o uso que deu a certos elementos da natureza, transformando-os em ferramentas, que lhe impulsionou o desenvolvimento. Na comunicação social me parece que ocorre algo parecido. Nossas trocas simbólicas, excetuando a relação face-a-face, sempre estiveram permeadas por algum ambiente tecnológico, por mais simples que fosse, até que alcançássemos o estágio mais atual das novas mídias de comunicação, como o Facebook, o Twitter e outros espaços sociais eletrônicos. É na utilização dessas mídias que encontramos sempre novas oportunidades de conversação e interação simbólica.

De alguma forma, então, as mídias são ao mesmo tempo espaços e ferramentas nas quais e a partir das quais o social se comunica, se percebe e atua. Quando falamos da política, a questão se torna ainda mais evidente, mas não menos controversa. Afinal, na esfera pública de discussão, a centralidade que a mídia ocupa a tem transformado não só em um espaço de discussão política, mas em um ator político relevante.

Facilidade de intercâmbio de ideias

Ora, é dessa forma, então, que novas mídias sociais atuam como espaço e ferramentas que permitem a organização e a comunicação de pensamentos e de pessoas de uma maneira talvez um pouco mais eficiente e rápida, independente do conteúdo das formas simbólicas aí trocadas. É dessa forma que imaginamos que discriminar as novas tecnologias, portanto, seria o mesmo que tentar discriminar a circulação de pensamentos e ideias e frear o debate político.

Sabemos que é tentadora, para países "desacostumados" com a democracia e com o conflito de ideias, a restrição ao acesso a determinadas tecnologias de comunicação, sempre sob o pretexto de se tornarem veículos de "propaganda ideológica". Isto por certo ocorre em canais de TV, rádio, jornal impresso, enfim. Mas o que algumas mídias sociais trazem de novidade é que esta possibilidade é muito menor, pois as trocas simbólicas são muito mais intensas e escapam a muitos controles.

É nesse sentido, me parece, que as novas mídias sociais podem atuar, no espaço da política, como um espaço e, ao mesmo tempo, uma ferramenta, onde a circulação de ideias é maior, possivelmente mais livre. As mídias sociais possuem, por enquanto, essa capacidade de oferecer um retrato mais apurado (embora ainda não tão representativo) das relações sociais e seus desejos e conflitos. As mídias sociais, então, possibilitam uma maior facilidade de intercâmbio de ideias e, portanto, maior possibilidade de organização para um determinado fim político, mostram o pulsar da sociedade em circulação. Querer freá-las é querer frear o pulsar da sociedade. Não dá, ou pelo menos deve-se resistir a essas tentações.

"Encontro" e de "resistência"

Onde estaria, então, a relação entre as revoltas e as novas mídias digitais? Acredito que, enquanto espaço e ferramentas, as novas mídias sociais possibilitam, em certo aspecto, o "revigoramento do demos", ou seja, facilitam o "encontro" entre as pessoas e a discussão entre suas ideias para a definição de finalidades e objetivos a serem alcançados. Elas não eliminam a "praça pública real", nem a substituem, mas são o seu bastidor, o lugar onde a encenação ainda está sendo preparada para, no momento seguinte, ocupar a praça real, onde os gritos ecoam, os aplausos surgem e o sangue é derramado. Nesse sentido, não acredito na existência de uma "revolução virtual", mas em novas tecnologias que, se bem utilizadas, podem aquecer aquilo que estava adormecido.

Mas é claro que esta é somente uma das utilidades destas ferramentas, pois elas também podem servir amplamente a vários tipos de alienação. Afinal, uma ferramenta só adquire significado quando utilizada pelo homem, e pode ser utilizada de várias formas. A forma como vamos utilizá-la, portanto, é que vai definir seu significado. Talvez, em alguns países árabes, com seus excessos de restrição às liberdades, no momento atual as novas mídias sociais tenham adquirido um significado de maior possibilidade de "encontro" e de "resistência". Nada mais que isso... Ou tudo isso




REDES SOCIAIS

A arte da imparcialidade jornalística

Por Emanuelle Najjar em 8/3/2011


Esta semana, li algo muito interessante no site Comunique-se a respeito do Twitter e do exercício do jornalismo. Não falava na rede social como gerador de pautas, mas sim, sobre seus pequenos dilemas éticos, maiores que seus 140 caracteres. A grande pergunta era: O que você diria no Twitter se não fosse jornalista?

Ok, leitor. Talvez você não seja mesmo jornalista, mas pense nos casos famosos de demissões que aconteceram devido à livre expressão no Twitter. Lembra de Felipe Milanez? Ele era editor da revista National Geographic e foi demitido por criticar matéria da revista Veja, que faz parte justamente do Grupo Abril, seu empregador. Diante disso, pense no que significa uma opinião diante do mito da imparcialidade.

Embora leigos possam imaginar que jornalistas possuem poderes e privilégios sobre os demais seres da raça humana a verdade é que há limitações impostas em vários níveis, válidas não somente durante as horas de trabalho. Estou falando de supostas obrigações em tempo integral: de dilemas éticos por agir em prol da liberdade de outros enquanto no fundo sacrificamos a nossa.

É, eu sei. Foi extremo, mas, como o mito envolvendo imparcialidade na visão popular não admite meio termo, creio que escrever desta forma seja o mais cabível. A verdade é que nem sempre podemos pressionar a tecla "Enter". Geralmente, as consequências são maiores que o habitual.

Uma arte que tem seu preço

Bom, talvez você não leia o trabalho realizado pelo Comunique-se para ter alguma ideia do que se trata, mas saiba que estou falando de coisas simples: críticas às prefeituras, empresas e instituições. Coisas que todo cidadão faz sem grandes medos, mas da qual abrimos mão em prol seja lá do emprego que paga nossas contas ou pela ideia de que o silêncio é pouco a pagar para fazer parte do que julgam ser o quarto poder.

Com isso os dedos que pouco antes despejaram palavras furiosamente na tela do computador são obrigados a recuar. Hesitantes, ao pensar nas prováveis respostas, nos resultados de um ato tido como simples. Apertar um botão deveria ser banal, um gesto quase automático. Porém as atribuições e cobranças acabam por pesar nos ombros, tornando aquele gesto breve algo complexo e cheio de significados. No fim, os dedos rumam para a tecla oposta, apagando o que acabou de escrever, ritmado por pensamentos que variam entre revolta e conformismo, dependendo do grau de idealismo do cérebro que o comanda.

É: a tal da imparcialidade é uma arte que tem lá o seu preço...