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segunda-feira, 4 de abril de 2011

brasil de fato - O cômico - leandro konder -

qua, 2011-03-30 15:07 — admin
Análise
E como estamos nós, brasileiros contemporâneos, no nível de nossa expressão cômica?

30/03/2011



Leandro Konder



A tragédia, por mais dolorosa que sejam suas consequências, pode ser aperfeiçoada e sempre reinterpretada pelos homens. Com o drama e outros gêneros aparecem procedimentos análogos. A comedia, entretanto, cria situações embaraçosas para os que pretendem explicá-la.

O paradoxo está presente desde o momento em que a comedia nasce. Os antigos gregos encenavam peças de conteúdo religioso e os atores, no ritual grego antigo, deviam usar máscaras. Constatou-se, então, que as máscaras e os rituais faziam rir, tornavam-se cômicos.

Enquanto a tragédia emocionava fortemente os espectadores, predominava na plateia a imobilidade. Os deuses gregos cobravam seriedade de seus fiéis; as comedias se enriqueciam esteticamente comentando o que se passava no mundo prático dos gregos, isto é, aquilo que os espectadores sérios desprezavam.

Os manuais de literatura costumam lembrar em especial um autor de comedias que arrancava gargalhadas da plateia: Aristófanes. Nós, no século 21, dispomos de uns poucos exemplares de comedias escritas pelo brilhante autor. Infelizmente, o que os fazia rir não tem o mesmo efeito que tinha sobre esses nossos longínquos antepassados (quarenta e quatro séculos!).

O que fazia rir os gregos de Aristófanes arranca de nós, no máximo um sorriso. Mesmo desgastada, porém, a sociedade ateniense era fustigada pelo espírito gozador, pelo espírito sarcástico do escritor.

E como estamos nós, brasileiros contemporâneos, no nível de nossa expressão cômica? Temos autores magníficos dedicados a nos fazer rir, tanto das classes dominantes e mundinho dos ricos, como de nós mesmos, de nossos medos e inseguranças.

E temos, sobretudo, um grupo brilhante de autores talentosos, e mesmo geniais, como – já no século 19, - o magnífico e sinuoso Machado de Assis, que nos estimula, não tanto ao riso, mas ao sorriso. No final desse mesmo século, a população curtia o humor parnasiano, cujo expoente era, talvez, Emilio de Menezes.

No século 20, tivemos o refinado prazer de rir das piadas do Barão de Itararé, de Stanislau Ponte Preta, de Millor Fernandes e da moçada de Casseta e Planeta. Os palcos do Rio e de São Paulo estão vivos, habitados por profissionais da área do teatro, capazes de investir na encenação de comédias.

Um velho campo de exercício do humor está na área das críticas ao governo. Alguns governantes tiveram a habilidade de transformar piadas contra o governo em manifestações de humor inócuo: o caso clássico de Getúlio Vargas. Já no trem que traria de volta ao Rio, Getúlio foi acompanhado pelo então interventor de Minas Gerais, Benedito Valadares. Benedito, querendo ser gentil, despediu-se: “Adeus, ilustre partinte”. O então presidente respondeu: ”Adeus insigne... ficante”!

O senso da comicidade continua vivo na cultura brasileira. Nela se produz atualmente uma considerável quantidade de trocadilhos, de “grossura funcional”, de observações sarcásticas, contra tudo e contra todos, porém a favor da liberdade.

Millor Fernandes, por exemplo, prossegue sua implacável guerra contra a burrice: “Não devemos resistir às tentações. Elas podem não voltar”. Ou então: “Viver é desenhar sem borracha”.

Nos anos 1930, a escritora Eugenia Álvaro Moreyra dirigia uma pequena clínica de serviço social, quando a polícia irrompeu no ambiente a procura de subversivos. O truculento delegado que chefiava a operação, interpelou-a, ao ver uma seringa de injeção sendo aquecida: “O que é isso?” Eugenia, inabalável em sua polidez esclareceu: “É remédio contra sífilis. O delegado está servido?”

Apesar da aparente confusão, havia na primeira metade do século 20 alguns elementos que o humor logo aproveitaria. Entre eles, os críticos notaram que se destacava a produção do cômico. A classe dominante mantinha uma linha clara de defesa dos seus privilégios e de repulsa ao humor que se aproximava de critérios “populares”.



Leandro Konder é colunista semanal do Brasil de Fato.

Publicado originalmente na edição 420 do Brasil de Fato

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Linguagem - Leandro Konder -

qui, 2011-02-17 10:54 — admin
Análise
O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora

17/02/2011



As imagens mostradas na TV e a diversidade dos impactos produzidos pelo levante da população egípcia desmoralizaram subitamente a ideia de que esse tipo de revolta explosiva, que o conservadorismo considerava morto, não deveria ocorrer. Em especial, a direita tentou sustentar o reconhecimento da validade de critérios ditos liberais com a comprovação da drástica impopularidade do presidente do Egito.
Quando a gente vê os debates entre certos políticos descambarem para a grossura, só podemos lamentar isso. Pior, contudo, é a perda de tempo em alguns discursos ocos, reacionários, conservadores e prolixos, que nos é imposta pelas transmissões de rádio e TV, como agora acabamos de verificar na disputa pelas cadeiras de chefes do legislativo.
O que leva os políticos demagógicos a indulgir na malandragem? Cada caso é um caso.
As perguntas se multiplicam e se confundem. O filósofo Tales de Mileto declarava que a filosofia começa com o espanto. Quando nos surpreendemos com o fato de o mundo ser como é, estamos começando a filosofar. Lembremos de Heráclito, Sócrates, Platão e Aristóteles, entre outros.
Depois de Tales de Mileto, outros filósofos elaboraram as suas filosofias, porém não deixaram de reconhecer a importância do espanto filosófico. Um setor da realidade, em especial, mereceu grande atenção. Um interesse particular foi concedido à filosofia da linguagem.
A linguagem tem duas funções básicas. Ela pode ser comunicativa ou expressiva. Como comunicação ela informa a aquele que ouve aquilo que o falante acha que deveria informar. Na pré-história, uma parte sumamente importante da função comunicativa era a função nomeadora.
O mundo estava cheio de coisas e de seres que permaneciam anônimos. Os homens eram desafiados a superar esse anonimato. No mundo, os riscos cresciam e a humanidade se defrontava com animais de grande porte, que podiam acarretar a extinção do gênero humano. Para diminuir os riscos, os indivíduos precisavam se comunicar. Precisavam da linguagem.
A outra função era a da linguagem expressiva, que se desenvolveu depois de algumas conquistas básicas da comunicação. Foi o trabalho que proporcionou ao ser humano contrapor-se à natureza, criando o sujeito.
O trabalho ainda tinha características primitivas. Mas os pontos em que travou sua batalha bastaram para lhe assegurar a sobrevivência. O mundo em que viviam leões, tigres, rinocerontes e outras feras de grande porte parecia inabitável para seres tão frágeis como os homens. No entanto, os homens se impuseram.
Através do desenvolvimento da linguagem, foi possível desenvolver todo um sistema educativo que permitia às comunidades humanas enfrentar animais rudes e, aparentemente, invencíveis.
O que os seres humanos conquistaram na vida prática só foi mantido e aperfeiçoado por meio da linguagem. Quando o indivíduo usava a palavra “leão”, isso não significava nada para a fera, mas podia alertar nossos antepassados e salvar-lhes a vida.
Reconhecido o valor da linguagem, as pessoas passaram a cultivá-la com maior rigor e, eventualmente, com maior prazer (aparecimento da poesia, anterior ao nascimento da prosa).
Trabalhar com as ideias era uma atividade difícil, mas compensadora. Combinadas e articuladas umas com as outras, as ideias compunham os chamados conceitos, que eram composições eficientes, criadas a partir da convicção humana de que o fortalecimento do gênero humano era coletivo antes de ser individual.
A linguagem nos ajuda a montarmos sistemas que atendem às necessidades da nossa segurança e contribui para enfrentarmos as pressões, geralmente silenciosa, dos conservadores, detentores do poder.
Expressar-se corretamente e fazer comunicações, tanto quanto possível, amplas e precisas, é uma forma de participarmos ativamente dos grandes conflitos sociais, ao lado de quem trabalha.
Os trabalhadores constituem a principal força a manifestar sua responsabilidade. O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora. Depois, com os gramáticos.
Por sua ligação com a vida, a linguagem é sempre potencialmente reveladora de alguns problemas (e de algumas propostas de solução para esses problemas).