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sábado, 21 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
Vige, na mídia, a ignorância linguística - blog do nassif -
Vige, na mídia, a ignorância linguística
Enviado por luisnassif, dom, 15/05/2011 - 13:45
Por Weden
O caso da condenação do livro didático (col. Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, de Heloísa Ramos et alii) pelo populismo midiático não é expressão somente de tomada de partido numa suposta querela entre linguistas e gramáticos.
Para esclarecer, chamo de "populismo jornalístico" o hábito próprio a alguns veículos e jornalistas de se acreditarem "justiceiros do povo", autorizando-se a cometerem assassinatos de reputação, a partir de condenações precipitadas sem base legal e/ou científica.
O caso é, sim, a expressão da ignorância linguística em sua versão mais perigosa: a de defesa consciente do preconceito.
Reverberada, acriticamente, por diversos veículos impressos, meios eletrônicos, e mídias de rede – entre portais, e blogs agressivos e leigos – a condenação ao livro, aos autores e ao próprio MEC, partiu de uma leitura pouco atenta e informada do texto da obra, chegando à prática perversa da boataria de difamação.
No Brasil, lidamos com a resistência de uma "prática tradicional e normativa" em ceder, na escola, espaço para a ciência. O que é gravíssimo.
Entre todas as disciplinas escolares com base científica (biologia, física, matemática, história etc.), os estudos de língua materna são os mais atrasados no país. Contribui para isso o fato de que a base científica destes estudos constantemente é alvo de ataques não somente de normativistas, como também e muitas vezes de personagens da mídia. Isso quando não se confundem.
À linguística, cabe trazer conhecimentos sobre a língua.
A gramática não é científica e não tem condições de trazer conhecimentos sobre a língua. Ela traz apenas normas, ou "etiquetas", como já designou o linguista Sírio Possenti.
Ora, não se pode esperar de especialistas em etiqueta social que tragam esclarecimentos sobre fenômenos antropológicos. Seria como esperar um debate sério entre Glória Kalil e Clifford Geertz.
Emparelhar gramática e linguística numa mesma discussão sobre a língua é tão absurdo quanto construir críticas a "teorias antropológicas" a partir de "dicas de etiqueta social".
A gramática deve cumprir seu papel: informar os alunos sobre "aquilo que é norma gramatical". Só isso. Nada a dizer sobre a língua em sua complexidade. Mas a gramática é parte (com alguma importância) e não o todo do saber sobre a língua.
Assim como antropólogos costumam dar algum valor à etiqueta social quando estão em jantares ou apresentações acadêmicas, mas sabem que a cultura não é somente isso; linguistas não desprezam a gramática, mas sua função, entre tantas outras, é alertar que a língua também não é somente isso.
Tudo bem: há quem acredite que indígenas são mal educados por andarem seminus. Mas não podemos levar estes juízos a sério.
O que linguistas tentam esclarecer à sociedade, com base em estudos científicos, aliás, bastante antigos, é que a língua é maior que uma lista de "acertos/erros". Ela é um sistema complexo, atravessado pela história, e por práticas extremamente complexas no corpo social.
Em pleno século XXI, o que alguns gramáticos e alguma mídia tentam dizer é que a língua não é um sistema complexo, não é atravessada pela história, e não é múltipla e maior que regras gramaticais. Convicções do século XVII, diga-se de passagem. Ou, de forma análoga, é como se tentassem convencer-nos de que indígenas são "mal educados" por andarem seminus, condenando e difamando os antropólogos por não concordarem com esta estupidez.
Em síntese: o que os autores do livro fizeram foi alertar aos alunos que o modo como alguns deles falam não é "incorreto linguisticamente", mas apenas "não autorizado gramaticalmente", pois que não existe propriamente língua portuguesa (francesa, espanhola, alemã etc.) certa ou errada.
O que a mídia está fazendo neste momento, em contrapartida, é defender "ardentemente" o preconceito - ato tão grave quanto alguém defender o racismo e o sexismo em nome de "normas de etiqueta
Enviado por luisnassif, dom, 15/05/2011 - 13:45
Por Weden
O caso da condenação do livro didático (col. Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, de Heloísa Ramos et alii) pelo populismo midiático não é expressão somente de tomada de partido numa suposta querela entre linguistas e gramáticos.
Para esclarecer, chamo de "populismo jornalístico" o hábito próprio a alguns veículos e jornalistas de se acreditarem "justiceiros do povo", autorizando-se a cometerem assassinatos de reputação, a partir de condenações precipitadas sem base legal e/ou científica.
O caso é, sim, a expressão da ignorância linguística em sua versão mais perigosa: a de defesa consciente do preconceito.
Reverberada, acriticamente, por diversos veículos impressos, meios eletrônicos, e mídias de rede – entre portais, e blogs agressivos e leigos – a condenação ao livro, aos autores e ao próprio MEC, partiu de uma leitura pouco atenta e informada do texto da obra, chegando à prática perversa da boataria de difamação.
No Brasil, lidamos com a resistência de uma "prática tradicional e normativa" em ceder, na escola, espaço para a ciência. O que é gravíssimo.
Entre todas as disciplinas escolares com base científica (biologia, física, matemática, história etc.), os estudos de língua materna são os mais atrasados no país. Contribui para isso o fato de que a base científica destes estudos constantemente é alvo de ataques não somente de normativistas, como também e muitas vezes de personagens da mídia. Isso quando não se confundem.
À linguística, cabe trazer conhecimentos sobre a língua.
A gramática não é científica e não tem condições de trazer conhecimentos sobre a língua. Ela traz apenas normas, ou "etiquetas", como já designou o linguista Sírio Possenti.
Ora, não se pode esperar de especialistas em etiqueta social que tragam esclarecimentos sobre fenômenos antropológicos. Seria como esperar um debate sério entre Glória Kalil e Clifford Geertz.
Emparelhar gramática e linguística numa mesma discussão sobre a língua é tão absurdo quanto construir críticas a "teorias antropológicas" a partir de "dicas de etiqueta social".
A gramática deve cumprir seu papel: informar os alunos sobre "aquilo que é norma gramatical". Só isso. Nada a dizer sobre a língua em sua complexidade. Mas a gramática é parte (com alguma importância) e não o todo do saber sobre a língua.
Assim como antropólogos costumam dar algum valor à etiqueta social quando estão em jantares ou apresentações acadêmicas, mas sabem que a cultura não é somente isso; linguistas não desprezam a gramática, mas sua função, entre tantas outras, é alertar que a língua também não é somente isso.
Tudo bem: há quem acredite que indígenas são mal educados por andarem seminus. Mas não podemos levar estes juízos a sério.
O que linguistas tentam esclarecer à sociedade, com base em estudos científicos, aliás, bastante antigos, é que a língua é maior que uma lista de "acertos/erros". Ela é um sistema complexo, atravessado pela história, e por práticas extremamente complexas no corpo social.
Em pleno século XXI, o que alguns gramáticos e alguma mídia tentam dizer é que a língua não é um sistema complexo, não é atravessada pela história, e não é múltipla e maior que regras gramaticais. Convicções do século XVII, diga-se de passagem. Ou, de forma análoga, é como se tentassem convencer-nos de que indígenas são "mal educados" por andarem seminus, condenando e difamando os antropólogos por não concordarem com esta estupidez.
Em síntese: o que os autores do livro fizeram foi alertar aos alunos que o modo como alguns deles falam não é "incorreto linguisticamente", mas apenas "não autorizado gramaticalmente", pois que não existe propriamente língua portuguesa (francesa, espanhola, alemã etc.) certa ou errada.
O que a mídia está fazendo neste momento, em contrapartida, é defender "ardentemente" o preconceito - ato tão grave quanto alguém defender o racismo e o sexismo em nome de "normas de etiqueta
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segunda-feira, 28 de março de 2011
vermelho - Linguistas descobrem singularidade no idioma português do Brasil
O português falado no Brasil tem certas propriedades sintáticas que não se encontram no português europeu, nem em outros idiomas. Durante mais de quatro anos, um grupo de pesquisadores se dedicou a analisar o conhecimento já reunido sobre essas propriedades, a fim de discuti-lo sob a perspectiva do mais novo paradigma da pesquisa linguística: o chamado Programa Minimalista.
Concluído no fim de fevereiro, o Projeto Temático Sintaxe gerativa do português brasileiro na entrada do século 21: Minimalismo e Interfaces, financiado pela FAPESP, foi coordenado por Jairo Nunes, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com Nunes, o principal resultado do projeto foi o livro Minimalist Essays on Brazilian Portuguese Syntax (“Ensaios minimalistas sobre a sintaxe do português brasileiro”), lançado em 2009, que reúne dez artigos produzidos por seus participantes.
“O objetivo central do projeto consistiu em capitalizar o conhecimento já adquirido sobre as propriedades sintáticas distintivas do português brasileiro e discuti-lo à luz do Programa Minimalista, descobrindo em que medida essas propriedades podiam ser explicadas na sua interface com outros componentes da gramática”, disse à Agência FAPESP.
O Programa Minimalista foi estabelecido a partir de 1995 pelo linguista Noam Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, derivado da Teoria de Princípios e Parâmetros, formulada pelo mesmo autor na década de 1980 a partir de uma tradição linguística iniciada em meados do século 20.
A Teoria de Princípios e Parâmetros estabeleceu a ideia de que há um componente inato, biologicamente fundamentado, na predisposição humana a aprender uma língua, e que todas as produções linguísticas seguiriam uma “gramática universal”, comum a todos os seres humanos.
“Descobriu-se então que o conhecimento linguístico se organiza em termos de princípios – propriedades invariáveis de todas as línguas – e parâmetros, que são os padrões e opções que codificam feixes dessas propriedades. A tarefa de uma criança que aprende uma língua seria, portanto, estabelecer os valores desses parâmetros”, explicou Nunes.
O Programa Minimalista tem a proposta de não apenas investigar quais são as propriedades da faculdade da linguagem e seu papel na aquisição de uma língua natural, mas também tentar explicar por que a faculdade da linguagem tem exatamente essas e não outras propriedades.
Por estabelecer um fundo comum entre todos os idiomas, o novo paradigma da Teoria de Princípios e Parâmetros, de acordo com Nunes, possibilitou a comparação detalhada entre as línguas mais variadas, em diversos estágios de desenvolvimento.
“Isso desencadeou uma gigantesca explosão de conhecimento no domínio da linguística. Não é nenhum exagero dizer que, a partir da década de 1980, aprendemos mais sobre a língua humana que em todos os séculos anteriores”, afirmou.
De acordo com Nunes, desde então houve uma grande profusão de trabalhos sobre o português brasileiro, que mostraram que a língua falada no Brasil possui uma gramática muito especial em relação ao português europeu e às outras línguas românicas.
“A partir da década de 1980, a pergunta que orientava as pesquisas era: quais são e como se organizam as propriedades das línguas humanas? No Projeto Temático, procuramos redimensionar esse conhecimento acumulado à luz dos novos avanços conquistados pelo Programa Minimalista. A pergunta central passou então a ser: por que as propriedades se organizam da maneira que se observa?”, disse.
Sujeito nulo
Um dos tópicos centrais na discussão feita sobre o português brasileiro, segundo Nunes, é a questão do chamado “sujeito nulo”, conhecido na gramática tradicional como “sujeito oculto”.
“Quando comparado ao sujeito nulo do português europeu, ou das outras línguas românicas, o sujeito nulo do português brasileiro é muito singular. O uso que fazemos do sujeito nulo é mais parecido com as construções infinitivas do inglês, ou as formas subjuntivas das línguas balcânicas, por exemplo”, disse.
O impacto dessa característica singular é muito grande, já que o tipo de sujeito nulo encontrado no português brasileiro simplesmente não deveria existir.
“Na medida em que as nossas pesquisas demonstraram que essa possibilidade teórica existe, propusemos que boa parte do modelo de análise linguística deverá ser reformulada, a fim de incorporar esses dados relativos ao português brasileiro”, disse o professor da FFLCH-USP.
A proposta de reformulação foi reportada no livro Control as movement, publicado em 2010 pela Cambridge Press University, de autoria de Nunes, Cedric Boeckx, da Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), e Norbert Hornstein, da Universidade de Maryland (Estados Unidos).
“Boa parte da discussão procura retomar os dados sobre o sujeito nulo. Mostramos como o modelo teórico terá que ser modificado em função das novas descobertas nesse campo”, afirmou.
Tanto o português brasileiro como o lusitano permitem o sujeito nulo, segundo Nunes. Mas, quando se observam os usos específicos, percebe-se que essa estrutura recebe um sentido bem diferente na língua falada no Brasil. “Uma das hipóteses que levantamos para explicar isso se relaciona com o enfraquecimento da concordância verbal e nominal no português brasileiro”, disse.
A previsão que se fazia antes das descobertas era de que não deveria haver línguas com o sujeito nulo em orações indicativas, com uma série de propriedades associadas com o que chamamos de movimento sintático.
“Imaginava-se que essa seria uma das propriedades universais: nenhuma língua teria esse tipo de sujeito. Mas mostramos que ele é encontrado no português brasileiro. Portanto, não é uma propriedade universal. O novo modelo terá que explicar não apenas a característica do nosso português, mas também precisará explicar por que essa ocorrência é tão rara”, afirmou.
A interpretação da frase “o João acha que a mãe do Pedro disse que vai viajar”, segundo Nunes, é clara para o brasileiro: a mãe é o sujeito de “vai viajar”, que está oculto. “Mas, para as outras línguas, se a frase for construída dessa forma, não fica claro se quem vai viajar é a mãe, o Pedro, ou o João. A interpretação nesse caso é muito difícil para quem não é brasileiro”, apontou.
Por outro lado, na frase “Maria disse que o médico acha que está grávida”, a interpretação para os brasileiros é que se torna difícil. “Soa muito estranho para nós. Dá a impressão de que o médica está grávido. Para o português europeu, não há nenhuma dúvida: quem está grávida é a Maria”, explicou.
Para uma sentença como “o João é difícil de elogiar”, o português brasileiro admite dois significados. Mas no português europeu, o significado está claro: “é difícil elogiar o João”. “Em alguns casos vamos ter mais possibilidades interpretativas no português brasileiro, em outros, no português europeu”, disse Nunes.
Outro tópico explorado no Projeto Temático no tema do sujeito nulo se refere a frases comuns no português brasileiro coloquial, como “eles parecem que vão viajar”.
“Isso é completamente impossível no português europeu. É algo que só se explica pelo que chamamos de ‘movimento’. Mas basta um deslocamento do pronome para que a frase se torne compreensível em Portugal: ‘parece que eles vão viajar’”, disse.
O movimento pode envolver expressões idiomáticas do português brasileiro, configurando um tipo de sentença que se tornaria ainda mais incompreensível em outras línguas.
“Podemos dizer ‘a vaca parece que foi para o brejo’. Isso é impossível em outra língua, ou no português europeu. O sujeito nulo só pode ser usado dessa forma no português brasileiro graças à ação de um feixe de propriedades diferentes”, disse Nunes.
Concluído no fim de fevereiro, o Projeto Temático Sintaxe gerativa do português brasileiro na entrada do século 21: Minimalismo e Interfaces, financiado pela FAPESP, foi coordenado por Jairo Nunes, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com Nunes, o principal resultado do projeto foi o livro Minimalist Essays on Brazilian Portuguese Syntax (“Ensaios minimalistas sobre a sintaxe do português brasileiro”), lançado em 2009, que reúne dez artigos produzidos por seus participantes.
“O objetivo central do projeto consistiu em capitalizar o conhecimento já adquirido sobre as propriedades sintáticas distintivas do português brasileiro e discuti-lo à luz do Programa Minimalista, descobrindo em que medida essas propriedades podiam ser explicadas na sua interface com outros componentes da gramática”, disse à Agência FAPESP.
O Programa Minimalista foi estabelecido a partir de 1995 pelo linguista Noam Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, derivado da Teoria de Princípios e Parâmetros, formulada pelo mesmo autor na década de 1980 a partir de uma tradição linguística iniciada em meados do século 20.
A Teoria de Princípios e Parâmetros estabeleceu a ideia de que há um componente inato, biologicamente fundamentado, na predisposição humana a aprender uma língua, e que todas as produções linguísticas seguiriam uma “gramática universal”, comum a todos os seres humanos.
“Descobriu-se então que o conhecimento linguístico se organiza em termos de princípios – propriedades invariáveis de todas as línguas – e parâmetros, que são os padrões e opções que codificam feixes dessas propriedades. A tarefa de uma criança que aprende uma língua seria, portanto, estabelecer os valores desses parâmetros”, explicou Nunes.
O Programa Minimalista tem a proposta de não apenas investigar quais são as propriedades da faculdade da linguagem e seu papel na aquisição de uma língua natural, mas também tentar explicar por que a faculdade da linguagem tem exatamente essas e não outras propriedades.
Por estabelecer um fundo comum entre todos os idiomas, o novo paradigma da Teoria de Princípios e Parâmetros, de acordo com Nunes, possibilitou a comparação detalhada entre as línguas mais variadas, em diversos estágios de desenvolvimento.
“Isso desencadeou uma gigantesca explosão de conhecimento no domínio da linguística. Não é nenhum exagero dizer que, a partir da década de 1980, aprendemos mais sobre a língua humana que em todos os séculos anteriores”, afirmou.
De acordo com Nunes, desde então houve uma grande profusão de trabalhos sobre o português brasileiro, que mostraram que a língua falada no Brasil possui uma gramática muito especial em relação ao português europeu e às outras línguas românicas.
“A partir da década de 1980, a pergunta que orientava as pesquisas era: quais são e como se organizam as propriedades das línguas humanas? No Projeto Temático, procuramos redimensionar esse conhecimento acumulado à luz dos novos avanços conquistados pelo Programa Minimalista. A pergunta central passou então a ser: por que as propriedades se organizam da maneira que se observa?”, disse.
Sujeito nulo
Um dos tópicos centrais na discussão feita sobre o português brasileiro, segundo Nunes, é a questão do chamado “sujeito nulo”, conhecido na gramática tradicional como “sujeito oculto”.
“Quando comparado ao sujeito nulo do português europeu, ou das outras línguas românicas, o sujeito nulo do português brasileiro é muito singular. O uso que fazemos do sujeito nulo é mais parecido com as construções infinitivas do inglês, ou as formas subjuntivas das línguas balcânicas, por exemplo”, disse.
O impacto dessa característica singular é muito grande, já que o tipo de sujeito nulo encontrado no português brasileiro simplesmente não deveria existir.
“Na medida em que as nossas pesquisas demonstraram que essa possibilidade teórica existe, propusemos que boa parte do modelo de análise linguística deverá ser reformulada, a fim de incorporar esses dados relativos ao português brasileiro”, disse o professor da FFLCH-USP.
A proposta de reformulação foi reportada no livro Control as movement, publicado em 2010 pela Cambridge Press University, de autoria de Nunes, Cedric Boeckx, da Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), e Norbert Hornstein, da Universidade de Maryland (Estados Unidos).
“Boa parte da discussão procura retomar os dados sobre o sujeito nulo. Mostramos como o modelo teórico terá que ser modificado em função das novas descobertas nesse campo”, afirmou.
Tanto o português brasileiro como o lusitano permitem o sujeito nulo, segundo Nunes. Mas, quando se observam os usos específicos, percebe-se que essa estrutura recebe um sentido bem diferente na língua falada no Brasil. “Uma das hipóteses que levantamos para explicar isso se relaciona com o enfraquecimento da concordância verbal e nominal no português brasileiro”, disse.
A previsão que se fazia antes das descobertas era de que não deveria haver línguas com o sujeito nulo em orações indicativas, com uma série de propriedades associadas com o que chamamos de movimento sintático.
“Imaginava-se que essa seria uma das propriedades universais: nenhuma língua teria esse tipo de sujeito. Mas mostramos que ele é encontrado no português brasileiro. Portanto, não é uma propriedade universal. O novo modelo terá que explicar não apenas a característica do nosso português, mas também precisará explicar por que essa ocorrência é tão rara”, afirmou.
A interpretação da frase “o João acha que a mãe do Pedro disse que vai viajar”, segundo Nunes, é clara para o brasileiro: a mãe é o sujeito de “vai viajar”, que está oculto. “Mas, para as outras línguas, se a frase for construída dessa forma, não fica claro se quem vai viajar é a mãe, o Pedro, ou o João. A interpretação nesse caso é muito difícil para quem não é brasileiro”, apontou.
Por outro lado, na frase “Maria disse que o médico acha que está grávida”, a interpretação para os brasileiros é que se torna difícil. “Soa muito estranho para nós. Dá a impressão de que o médica está grávido. Para o português europeu, não há nenhuma dúvida: quem está grávida é a Maria”, explicou.
Para uma sentença como “o João é difícil de elogiar”, o português brasileiro admite dois significados. Mas no português europeu, o significado está claro: “é difícil elogiar o João”. “Em alguns casos vamos ter mais possibilidades interpretativas no português brasileiro, em outros, no português europeu”, disse Nunes.
Outro tópico explorado no Projeto Temático no tema do sujeito nulo se refere a frases comuns no português brasileiro coloquial, como “eles parecem que vão viajar”.
“Isso é completamente impossível no português europeu. É algo que só se explica pelo que chamamos de ‘movimento’. Mas basta um deslocamento do pronome para que a frase se torne compreensível em Portugal: ‘parece que eles vão viajar’”, disse.
O movimento pode envolver expressões idiomáticas do português brasileiro, configurando um tipo de sentença que se tornaria ainda mais incompreensível em outras línguas.
“Podemos dizer ‘a vaca parece que foi para o brejo’. Isso é impossível em outra língua, ou no português europeu. O sujeito nulo só pode ser usado dessa forma no português brasileiro graças à ação de um feixe de propriedades diferentes”, disse Nunes.
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domingo, 27 de fevereiro de 2011
época - linguística,política e poder - lula - Quem disse que Dilma fala pouco?
Compartilhe37 Em seus primeiros 55 dias de mandato, a presidenta falou 38% a mais que Lula, o governante que foi criticado por discursar demais
Ricardo Mendonça
Foram raras as análises sobre as primeiras semanas do novo governo que deixaram de destacar a “discrição”, o “comedimento” e o “recato” da presidenta Dilma Rousseff em relação ao antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do PT. Muitos críticos consideraram um alívio o fim do mandato de um presidente que não saía do palanque e parecia estar constantemente em campanha, falando e palpitando publicamente muito mais do que seria desejável e apropriado para um presidente da República. Por sua moderação nas aparições públicas, Dilma passou a ganhar elogios justamente por falar menos que o ex-presidente.
Com quase 80% de popularidade, fortemente engajado na última campanha presidencial e com uma oferta jamais vista antes de câmeras, microfones e gravadores à disposição, Lula provavelmente foi o governante que mais discursou no período final de mandato desde a proclamação da República, em 1889. No segundo semestre de 2010, era comum a ocorrência de dois ou três pronunciamentos por dia. Em 14 de outubro, uma quinta-feira, Lula chegou a fazer seis discursos seguidos para plateias distintas, possivelmente um recorde para o intervalo de 24 horas.
Um levantamento estatístico sobre as falas públicas de Lula e Dilma nos primeiros 55 dias de governo de cada um, porém, mostra um Lula menos palavroso e uma Dilma mais loquaz. Da posse até a semana passada, quem falou mais, na comparação direta, foi Dilma. E sua vantagem não pode ser considerada pequena. Em quantidade de palavras, ela falou exatamente 38% a mais que o Lula do início de 2003. Em números absolutos, bateu o antecessor com uma vantagem de 10.684 vocábulos.
Esse tipo de levantamento só pode ser feito com esse grau de precisão porque a Secretaria de Imprensa da Presidência divulga em seu site as transcrições de todas as intervenções públicas do ocupante do cargo máximo da nação desde o dia 1º de janeiro de 2003, data da posse de Lula. A conta que hoje dá vantagem a Dilma leva em consideração os discursos lidos e improvisados, pronunciamentos em rede de TV, entrevistas concedidas à imprensa e ao programa de rádio Café com o presidente, agora rebatizado como Café com a presidenta.
Entre a posse e o dia 24 de fevereiro de 2003, Lula fez 17 discursos, deu apenas uma entrevista (uma rápida coletiva ao lado do então presidente da França, Jacques Chirac) e não participou de nenhum programa oficial de rádio (o Café com o presidente só foi criado no fim de 2003). No intervalo equivalente, Dilma fez 16 discursos, mas concedeu seis entrevistas e participou de três Cafés com a presidenta. Mesmo sem os programas de rádio, ela continuaria na frente de Lula, com 8.750 palavras de vantagem.
Se Dilma fala mais que Lula, como surgiu a impressão de uma presidenta calada no Planalto? Para o cientista político Rui Tavares Maluf, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a quem foram apresentados os resultados desse levantamento, a explicação pode estar no conteúdo das falas de cada um. “É possível que a retórica do Lula tenha muito mais impacto midiático que a retórica da Dilma”, diz. “É surpreendente notar que ela discursou mais, mas repare que ela não dá declarações polêmicas, não faz provocações.”
Outra hipótese de Maluf diz respeito ao tamanho simbólico de cada personagem. “Goste-se ou não da figura política, todos são obrigados a admitir que Lula tem uma tremenda história. Ele fundou o PT, perdeu três eleições antes de chegar lá, sempre liderou a oposição. Então é possível que as falas de Lula tenham sido muito mais reproduzidas, repercutidas e analisadas que as falas de Dilma, mesmo as não polêmicas. Parece natural que Lula tenha gerado mais expectativa.”
A medição aritmética dos discursos de Lula e Dilma também permite comparar a frequência de uso de determinados termos nos discursos de cada um. Com isso, é possível identificar diferenças de estilo, expressões que marcam o momento histórico e até mudanças de prioridades. Um dos casos mais evidentes ocorre com a palavra “fome”, muito repetida no discurso de Lula. Levando em consideração a expressão “Fome Zero”, programa de segurança alimentar que recebeu enorme ênfase em 2003, Lula citou esse vocábulo 117 vezes em seus primeiros 55 dias de governo, enquanto Dilma, até agora, só usou “fome” em seis ocasiões. A presidenta, em compensação, vence Lula com folga no uso da palavra “miséria”: 27 a 12.
Há casos de palavras usadas com regularidade por Lula que até agora não apareceram na boca de Dilma – pelo menos nos pronunciamentos oficiais. Desde a posse, ela não fez nenhuma referência à “reforma agrária” ou ao “PT”. O discurso de Lula também era recheado de citações a Deus, com expressões como “graças a Deus” ou “se Deus quiser”. Com Dilma, isso diminuiu.
No sentido inverso, a presidenta recorre mais a “educação”, “saúde”, “saneamento” e “direitos humanos”. A palavra “crack”, repetida 12 vezes por ela, não foi citada nenhuma vez por Lula. Como era de esperar, “mulher” e “mulheres” são mais frequentes agora. E ela também vence Lula no uso de expressões que remetem à ideia de avanço econômico, como “crescimento” e “energia”. O PAC, que não existia em 2003, já apareceu 35 vezes.
Para o cientista político Marcus Figueiredo, as substituições de palavras nos discursos oficiais têm forte relação com a conjuntura política vivida por cada um. “O discurso da fome está superado porque o Bolsa Família resolveu bastante esse problema”, diz. “O mesmo ocorre com a reforma agrária, que era um foco bem mais forte de conflitos nos anos 1990 e início dos anos 2000, mas, de certa forma, foi encaminhada ao longo do governo Lula.”
Em algumas situações, nem a conjuntura ajuda. É o que ocorre com a palavra “meio ambiente”, por exemplo. É difícil imaginar outro tema que tenha conquistado tanto espaço ao longo da última década. Mas nem isso parece ter sido suficiente para que o tema entrasse com força no discurso oficial. Lula falou “meio ambiente” apenas duas vezes no início de seu mandato. Dilma fez três citações. Testes com “Amazônia”, “natureza” ou com a palavra “sustentável” dão resultados parecidos. “Esse é um caso típico de agenda governamental”, diz Figueiredo. “O que aparece no discurso do governante é a agenda do governante, não necessariamente a agenda da sociedade.”
Algumas mudanças são curiosas. Na transição Lula-Dilma, o empresário José Alencar deixou de ser vice-presidente da República, mas agora, vítima do câncer, passou a ser mais lembrado e homenageado nos discursos oficiais. Dilma o citou 16 vezes, seis a mais que Lula. Outra mudança curiosa ocorre com as expressões de tratamento. A palavra “companheiro” e sua variante de gênero, bordão tradicional dos petistas, eram repetidas à exaustão por Lula. Dilma não abandonou o termo, mas tem preferido chamar os outros de “querido” ou “querida”.
Apesar de ter falado mais que Lula no início do mandato, seria exagero dizer que Dilma discursa em demasia. Para o cientista político Fernando Abrucio, colunista de ÉPOCA, a comparação direta só favorece a presidenta hoje porque Lula, no início de 2003, falava muito menos que o necessário. “Ele era criticado por não dar entrevista, lembra? Depois, em 2010, mudou completamente e passou a ser criticado pelo excesso.” Abrucio afirma que em momentos de ajuste fiscal, como o atual, é natural que o governante fale pouco. “Quando Dilma começar a colher resultados de suas políticas, certamente vai falar mais do que fala hoje”, diz. Se a frequência de seus discursos aumentar na mesma proporção do padrão Lula, ela ainda corre o risco de virar a tagarela do Planalto.
Ricardo Mendonça
Foram raras as análises sobre as primeiras semanas do novo governo que deixaram de destacar a “discrição”, o “comedimento” e o “recato” da presidenta Dilma Rousseff em relação ao antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do PT. Muitos críticos consideraram um alívio o fim do mandato de um presidente que não saía do palanque e parecia estar constantemente em campanha, falando e palpitando publicamente muito mais do que seria desejável e apropriado para um presidente da República. Por sua moderação nas aparições públicas, Dilma passou a ganhar elogios justamente por falar menos que o ex-presidente.
Com quase 80% de popularidade, fortemente engajado na última campanha presidencial e com uma oferta jamais vista antes de câmeras, microfones e gravadores à disposição, Lula provavelmente foi o governante que mais discursou no período final de mandato desde a proclamação da República, em 1889. No segundo semestre de 2010, era comum a ocorrência de dois ou três pronunciamentos por dia. Em 14 de outubro, uma quinta-feira, Lula chegou a fazer seis discursos seguidos para plateias distintas, possivelmente um recorde para o intervalo de 24 horas.
Um levantamento estatístico sobre as falas públicas de Lula e Dilma nos primeiros 55 dias de governo de cada um, porém, mostra um Lula menos palavroso e uma Dilma mais loquaz. Da posse até a semana passada, quem falou mais, na comparação direta, foi Dilma. E sua vantagem não pode ser considerada pequena. Em quantidade de palavras, ela falou exatamente 38% a mais que o Lula do início de 2003. Em números absolutos, bateu o antecessor com uma vantagem de 10.684 vocábulos.
Esse tipo de levantamento só pode ser feito com esse grau de precisão porque a Secretaria de Imprensa da Presidência divulga em seu site as transcrições de todas as intervenções públicas do ocupante do cargo máximo da nação desde o dia 1º de janeiro de 2003, data da posse de Lula. A conta que hoje dá vantagem a Dilma leva em consideração os discursos lidos e improvisados, pronunciamentos em rede de TV, entrevistas concedidas à imprensa e ao programa de rádio Café com o presidente, agora rebatizado como Café com a presidenta.
Entre a posse e o dia 24 de fevereiro de 2003, Lula fez 17 discursos, deu apenas uma entrevista (uma rápida coletiva ao lado do então presidente da França, Jacques Chirac) e não participou de nenhum programa oficial de rádio (o Café com o presidente só foi criado no fim de 2003). No intervalo equivalente, Dilma fez 16 discursos, mas concedeu seis entrevistas e participou de três Cafés com a presidenta. Mesmo sem os programas de rádio, ela continuaria na frente de Lula, com 8.750 palavras de vantagem.
Se Dilma fala mais que Lula, como surgiu a impressão de uma presidenta calada no Planalto? Para o cientista político Rui Tavares Maluf, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a quem foram apresentados os resultados desse levantamento, a explicação pode estar no conteúdo das falas de cada um. “É possível que a retórica do Lula tenha muito mais impacto midiático que a retórica da Dilma”, diz. “É surpreendente notar que ela discursou mais, mas repare que ela não dá declarações polêmicas, não faz provocações.”
Outra hipótese de Maluf diz respeito ao tamanho simbólico de cada personagem. “Goste-se ou não da figura política, todos são obrigados a admitir que Lula tem uma tremenda história. Ele fundou o PT, perdeu três eleições antes de chegar lá, sempre liderou a oposição. Então é possível que as falas de Lula tenham sido muito mais reproduzidas, repercutidas e analisadas que as falas de Dilma, mesmo as não polêmicas. Parece natural que Lula tenha gerado mais expectativa.”
A medição aritmética dos discursos de Lula e Dilma também permite comparar a frequência de uso de determinados termos nos discursos de cada um. Com isso, é possível identificar diferenças de estilo, expressões que marcam o momento histórico e até mudanças de prioridades. Um dos casos mais evidentes ocorre com a palavra “fome”, muito repetida no discurso de Lula. Levando em consideração a expressão “Fome Zero”, programa de segurança alimentar que recebeu enorme ênfase em 2003, Lula citou esse vocábulo 117 vezes em seus primeiros 55 dias de governo, enquanto Dilma, até agora, só usou “fome” em seis ocasiões. A presidenta, em compensação, vence Lula com folga no uso da palavra “miséria”: 27 a 12.
Há casos de palavras usadas com regularidade por Lula que até agora não apareceram na boca de Dilma – pelo menos nos pronunciamentos oficiais. Desde a posse, ela não fez nenhuma referência à “reforma agrária” ou ao “PT”. O discurso de Lula também era recheado de citações a Deus, com expressões como “graças a Deus” ou “se Deus quiser”. Com Dilma, isso diminuiu.
No sentido inverso, a presidenta recorre mais a “educação”, “saúde”, “saneamento” e “direitos humanos”. A palavra “crack”, repetida 12 vezes por ela, não foi citada nenhuma vez por Lula. Como era de esperar, “mulher” e “mulheres” são mais frequentes agora. E ela também vence Lula no uso de expressões que remetem à ideia de avanço econômico, como “crescimento” e “energia”. O PAC, que não existia em 2003, já apareceu 35 vezes.
Para o cientista político Marcus Figueiredo, as substituições de palavras nos discursos oficiais têm forte relação com a conjuntura política vivida por cada um. “O discurso da fome está superado porque o Bolsa Família resolveu bastante esse problema”, diz. “O mesmo ocorre com a reforma agrária, que era um foco bem mais forte de conflitos nos anos 1990 e início dos anos 2000, mas, de certa forma, foi encaminhada ao longo do governo Lula.”
Em algumas situações, nem a conjuntura ajuda. É o que ocorre com a palavra “meio ambiente”, por exemplo. É difícil imaginar outro tema que tenha conquistado tanto espaço ao longo da última década. Mas nem isso parece ter sido suficiente para que o tema entrasse com força no discurso oficial. Lula falou “meio ambiente” apenas duas vezes no início de seu mandato. Dilma fez três citações. Testes com “Amazônia”, “natureza” ou com a palavra “sustentável” dão resultados parecidos. “Esse é um caso típico de agenda governamental”, diz Figueiredo. “O que aparece no discurso do governante é a agenda do governante, não necessariamente a agenda da sociedade.”
Algumas mudanças são curiosas. Na transição Lula-Dilma, o empresário José Alencar deixou de ser vice-presidente da República, mas agora, vítima do câncer, passou a ser mais lembrado e homenageado nos discursos oficiais. Dilma o citou 16 vezes, seis a mais que Lula. Outra mudança curiosa ocorre com as expressões de tratamento. A palavra “companheiro” e sua variante de gênero, bordão tradicional dos petistas, eram repetidas à exaustão por Lula. Dilma não abandonou o termo, mas tem preferido chamar os outros de “querido” ou “querida”.
Apesar de ter falado mais que Lula no início do mandato, seria exagero dizer que Dilma discursa em demasia. Para o cientista político Fernando Abrucio, colunista de ÉPOCA, a comparação direta só favorece a presidenta hoje porque Lula, no início de 2003, falava muito menos que o necessário. “Ele era criticado por não dar entrevista, lembra? Depois, em 2010, mudou completamente e passou a ser criticado pelo excesso.” Abrucio afirma que em momentos de ajuste fiscal, como o atual, é natural que o governante fale pouco. “Quando Dilma começar a colher resultados de suas políticas, certamente vai falar mais do que fala hoje”, diz. Se a frequência de seus discursos aumentar na mesma proporção do padrão Lula, ela ainda corre o risco de virar a tagarela do Planalto.
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sábado, 26 de fevereiro de 2011
linguística - Metáforas de crimes influenciam formas de punição
Estudo mostra que associações metafóricas como "besta" e "vírus" mudam a percepção das pessoas sobre uma mesma violência
HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA
Qual a solução para o crime? Pôr mais policiais nas ruas e trancafiar os bandidos ou investir em programas de renda e educação?
Não será surpresa constatar que as respostas das pessoas variam conforme padrões bem conhecidos.
Homens, por exemplo, tendem a ser mais policialescos do que mulheres; pessoas mais à esquerda costumam preferir medidas consideradas preventivas.
Pesquisadores da Universidade Stanford encontraram uma variável mais poderosa que o sexo ou as preferências políticas: as metáforas. A forma como descrevemos a criminalidade faz mais diferença nas respostas do que os demais fatores.
Paul Thibodeau e Lera Boroditsky mostraram num artigo de psicologia publicado esta semana na "PLoS One" que, se o crime é comparado a uma besta selvagem, aumentam as soluções repressivas; se estiver relacionado a um vírus, por exemplo, crescem as preventivas.
A primeira descrição estimula a ideia de caçar e enjaular e, por consequência, adotar leis mais duras. Já a segunda favorece a noção de que as causas reais devem ser buscadas, e a comunidade, inoculada contra o mal.
Por muito tempo, metáforas foram vistas como um floreio linguístico, no máximo um modo engenhoso para explicar conceitos abstratos.
Nos últimos anos, contudo, trabalhos em psicologia e neurociência vinham indicando que nós pensamos através de metáforas.
Autores importantes como George Lakoff chegaram a sustentar que metáforas têm existência física no cérebro.
O que a pesquisa de Thibodeau e Boroditsky mostra de forma empírica é que elas também são capazes de influenciar fortemente a forma como tentamos solucionar problemas complexos.
No experimento principal da dupla, 485 estudantes foram divididos em dois grupos. Cada um deles leu uma de duas versões de um texto sobre o aumento da criminalidade em Addison, uma cidade fictícia. As diferenças eram mínimas.
A primeira variante comparava o crime a uma "besta selvagem". A segunda usava a imagem de um "vírus". Em seguida, vinham dados estatísticos inventados.
Após ler o texto, os pesquisadores perguntaram aos estudantes como o problema poderia ser resolvido. Para 65%, a resposta era na linha do mais policiamento.
Entre os que leram a metáfora da besta, porém, 74% abraçaram a linha repressiva; contra 56% dos que receberam a versão vírus.
Experimentos com outras populações exploraram mais esses achados. Mostraram, por exemplo, que as pessoas não se dão conta do enquadramento metafórico que fazem dos crimes.
A maioria diz que chegou à conclusão que chegou a partir dos dados estatísticos
HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA
Qual a solução para o crime? Pôr mais policiais nas ruas e trancafiar os bandidos ou investir em programas de renda e educação?
Não será surpresa constatar que as respostas das pessoas variam conforme padrões bem conhecidos.
Homens, por exemplo, tendem a ser mais policialescos do que mulheres; pessoas mais à esquerda costumam preferir medidas consideradas preventivas.
Pesquisadores da Universidade Stanford encontraram uma variável mais poderosa que o sexo ou as preferências políticas: as metáforas. A forma como descrevemos a criminalidade faz mais diferença nas respostas do que os demais fatores.
Paul Thibodeau e Lera Boroditsky mostraram num artigo de psicologia publicado esta semana na "PLoS One" que, se o crime é comparado a uma besta selvagem, aumentam as soluções repressivas; se estiver relacionado a um vírus, por exemplo, crescem as preventivas.
A primeira descrição estimula a ideia de caçar e enjaular e, por consequência, adotar leis mais duras. Já a segunda favorece a noção de que as causas reais devem ser buscadas, e a comunidade, inoculada contra o mal.
Por muito tempo, metáforas foram vistas como um floreio linguístico, no máximo um modo engenhoso para explicar conceitos abstratos.
Nos últimos anos, contudo, trabalhos em psicologia e neurociência vinham indicando que nós pensamos através de metáforas.
Autores importantes como George Lakoff chegaram a sustentar que metáforas têm existência física no cérebro.
O que a pesquisa de Thibodeau e Boroditsky mostra de forma empírica é que elas também são capazes de influenciar fortemente a forma como tentamos solucionar problemas complexos.
No experimento principal da dupla, 485 estudantes foram divididos em dois grupos. Cada um deles leu uma de duas versões de um texto sobre o aumento da criminalidade em Addison, uma cidade fictícia. As diferenças eram mínimas.
A primeira variante comparava o crime a uma "besta selvagem". A segunda usava a imagem de um "vírus". Em seguida, vinham dados estatísticos inventados.
Após ler o texto, os pesquisadores perguntaram aos estudantes como o problema poderia ser resolvido. Para 65%, a resposta era na linha do mais policiamento.
Entre os que leram a metáfora da besta, porém, 74% abraçaram a linha repressiva; contra 56% dos que receberam a versão vírus.
Experimentos com outras populações exploraram mais esses achados. Mostraram, por exemplo, que as pessoas não se dão conta do enquadramento metafórico que fazem dos crimes.
A maioria diz que chegou à conclusão que chegou a partir dos dados estatísticos
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Linguagem - Leandro Konder -
qui, 2011-02-17 10:54 — admin
Análise
O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora
17/02/2011
As imagens mostradas na TV e a diversidade dos impactos produzidos pelo levante da população egípcia desmoralizaram subitamente a ideia de que esse tipo de revolta explosiva, que o conservadorismo considerava morto, não deveria ocorrer. Em especial, a direita tentou sustentar o reconhecimento da validade de critérios ditos liberais com a comprovação da drástica impopularidade do presidente do Egito.
Quando a gente vê os debates entre certos políticos descambarem para a grossura, só podemos lamentar isso. Pior, contudo, é a perda de tempo em alguns discursos ocos, reacionários, conservadores e prolixos, que nos é imposta pelas transmissões de rádio e TV, como agora acabamos de verificar na disputa pelas cadeiras de chefes do legislativo.
O que leva os políticos demagógicos a indulgir na malandragem? Cada caso é um caso.
As perguntas se multiplicam e se confundem. O filósofo Tales de Mileto declarava que a filosofia começa com o espanto. Quando nos surpreendemos com o fato de o mundo ser como é, estamos começando a filosofar. Lembremos de Heráclito, Sócrates, Platão e Aristóteles, entre outros.
Depois de Tales de Mileto, outros filósofos elaboraram as suas filosofias, porém não deixaram de reconhecer a importância do espanto filosófico. Um setor da realidade, em especial, mereceu grande atenção. Um interesse particular foi concedido à filosofia da linguagem.
A linguagem tem duas funções básicas. Ela pode ser comunicativa ou expressiva. Como comunicação ela informa a aquele que ouve aquilo que o falante acha que deveria informar. Na pré-história, uma parte sumamente importante da função comunicativa era a função nomeadora.
O mundo estava cheio de coisas e de seres que permaneciam anônimos. Os homens eram desafiados a superar esse anonimato. No mundo, os riscos cresciam e a humanidade se defrontava com animais de grande porte, que podiam acarretar a extinção do gênero humano. Para diminuir os riscos, os indivíduos precisavam se comunicar. Precisavam da linguagem.
A outra função era a da linguagem expressiva, que se desenvolveu depois de algumas conquistas básicas da comunicação. Foi o trabalho que proporcionou ao ser humano contrapor-se à natureza, criando o sujeito.
O trabalho ainda tinha características primitivas. Mas os pontos em que travou sua batalha bastaram para lhe assegurar a sobrevivência. O mundo em que viviam leões, tigres, rinocerontes e outras feras de grande porte parecia inabitável para seres tão frágeis como os homens. No entanto, os homens se impuseram.
Através do desenvolvimento da linguagem, foi possível desenvolver todo um sistema educativo que permitia às comunidades humanas enfrentar animais rudes e, aparentemente, invencíveis.
O que os seres humanos conquistaram na vida prática só foi mantido e aperfeiçoado por meio da linguagem. Quando o indivíduo usava a palavra “leão”, isso não significava nada para a fera, mas podia alertar nossos antepassados e salvar-lhes a vida.
Reconhecido o valor da linguagem, as pessoas passaram a cultivá-la com maior rigor e, eventualmente, com maior prazer (aparecimento da poesia, anterior ao nascimento da prosa).
Trabalhar com as ideias era uma atividade difícil, mas compensadora. Combinadas e articuladas umas com as outras, as ideias compunham os chamados conceitos, que eram composições eficientes, criadas a partir da convicção humana de que o fortalecimento do gênero humano era coletivo antes de ser individual.
A linguagem nos ajuda a montarmos sistemas que atendem às necessidades da nossa segurança e contribui para enfrentarmos as pressões, geralmente silenciosa, dos conservadores, detentores do poder.
Expressar-se corretamente e fazer comunicações, tanto quanto possível, amplas e precisas, é uma forma de participarmos ativamente dos grandes conflitos sociais, ao lado de quem trabalha.
Os trabalhadores constituem a principal força a manifestar sua responsabilidade. O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora. Depois, com os gramáticos.
Por sua ligação com a vida, a linguagem é sempre potencialmente reveladora de alguns problemas (e de algumas propostas de solução para esses problemas).
Análise
O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora
17/02/2011
As imagens mostradas na TV e a diversidade dos impactos produzidos pelo levante da população egípcia desmoralizaram subitamente a ideia de que esse tipo de revolta explosiva, que o conservadorismo considerava morto, não deveria ocorrer. Em especial, a direita tentou sustentar o reconhecimento da validade de critérios ditos liberais com a comprovação da drástica impopularidade do presidente do Egito.
Quando a gente vê os debates entre certos políticos descambarem para a grossura, só podemos lamentar isso. Pior, contudo, é a perda de tempo em alguns discursos ocos, reacionários, conservadores e prolixos, que nos é imposta pelas transmissões de rádio e TV, como agora acabamos de verificar na disputa pelas cadeiras de chefes do legislativo.
O que leva os políticos demagógicos a indulgir na malandragem? Cada caso é um caso.
As perguntas se multiplicam e se confundem. O filósofo Tales de Mileto declarava que a filosofia começa com o espanto. Quando nos surpreendemos com o fato de o mundo ser como é, estamos começando a filosofar. Lembremos de Heráclito, Sócrates, Platão e Aristóteles, entre outros.
Depois de Tales de Mileto, outros filósofos elaboraram as suas filosofias, porém não deixaram de reconhecer a importância do espanto filosófico. Um setor da realidade, em especial, mereceu grande atenção. Um interesse particular foi concedido à filosofia da linguagem.
A linguagem tem duas funções básicas. Ela pode ser comunicativa ou expressiva. Como comunicação ela informa a aquele que ouve aquilo que o falante acha que deveria informar. Na pré-história, uma parte sumamente importante da função comunicativa era a função nomeadora.
O mundo estava cheio de coisas e de seres que permaneciam anônimos. Os homens eram desafiados a superar esse anonimato. No mundo, os riscos cresciam e a humanidade se defrontava com animais de grande porte, que podiam acarretar a extinção do gênero humano. Para diminuir os riscos, os indivíduos precisavam se comunicar. Precisavam da linguagem.
A outra função era a da linguagem expressiva, que se desenvolveu depois de algumas conquistas básicas da comunicação. Foi o trabalho que proporcionou ao ser humano contrapor-se à natureza, criando o sujeito.
O trabalho ainda tinha características primitivas. Mas os pontos em que travou sua batalha bastaram para lhe assegurar a sobrevivência. O mundo em que viviam leões, tigres, rinocerontes e outras feras de grande porte parecia inabitável para seres tão frágeis como os homens. No entanto, os homens se impuseram.
Através do desenvolvimento da linguagem, foi possível desenvolver todo um sistema educativo que permitia às comunidades humanas enfrentar animais rudes e, aparentemente, invencíveis.
O que os seres humanos conquistaram na vida prática só foi mantido e aperfeiçoado por meio da linguagem. Quando o indivíduo usava a palavra “leão”, isso não significava nada para a fera, mas podia alertar nossos antepassados e salvar-lhes a vida.
Reconhecido o valor da linguagem, as pessoas passaram a cultivá-la com maior rigor e, eventualmente, com maior prazer (aparecimento da poesia, anterior ao nascimento da prosa).
Trabalhar com as ideias era uma atividade difícil, mas compensadora. Combinadas e articuladas umas com as outras, as ideias compunham os chamados conceitos, que eram composições eficientes, criadas a partir da convicção humana de que o fortalecimento do gênero humano era coletivo antes de ser individual.
A linguagem nos ajuda a montarmos sistemas que atendem às necessidades da nossa segurança e contribui para enfrentarmos as pressões, geralmente silenciosa, dos conservadores, detentores do poder.
Expressar-se corretamente e fazer comunicações, tanto quanto possível, amplas e precisas, é uma forma de participarmos ativamente dos grandes conflitos sociais, ao lado de quem trabalha.
Os trabalhadores constituem a principal força a manifestar sua responsabilidade. O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora. Depois, com os gramáticos.
Por sua ligação com a vida, a linguagem é sempre potencialmente reveladora de alguns problemas (e de algumas propostas de solução para esses problemas).
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
música - Linguística: Taiguara - "Que as crianças cantem livres!" - PASQUALE CIPRO NETO
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Os muros a que se refere Taiguara são sobretudo os metafóricos muros que separam as trevas da luz
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A ANTOLÓGICA "Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes", de Vinicius de Moraes, começa assim: "A morte chegou pelo interurbano (...). Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva. De repente, não tinha pai. No escuro de minha casa em Los Angeles...".
O diplomata Vinicius de Moraes servia nos Estados Unidos quando seu pai morreu. Se você não conhece essa "Elegia", trate de conhecer. Basta entrar no belíssimo site de Vinicius e ler. E chorar. Chorar muito. Nas artes, Vinicius é um dos meus tantos "pais". Sinto-me "órfão" dele, assim como me sinto órfão de Drummond e de outros tantos.
Na música popular, também tenho os meus "pais", muitos dos quais os leitores conhecem bem. Mas um deles talvez eu tenha citado poucas vezes ao longo dos anos. Refiro-me a Taiguara, que morreu em 14 de fevereiro de 1996, ou seja, há quinze anos. Eu estava em Portugal e, como Vinicius, recebi a notícia fúnebre pelo telefone. Imediatamente me senti, mais uma vez, "órfão" de um poeta sensível e refinado.
Na hora, lembrei-me de uma conversa com um querido amigo dos tempos de colégio, o hoje jornalista Delamar da Cruz, sobre uma cena que presenciamos em nossa adolescência. Em plena Copa de 70, com a ditadura e a lavagem cerebral a mil, a multidão se reunia nas ruas, na praça da Sé ou em frente ao teatro Municipal, para ouvir os jogos. Já havia TV direta, mas não havia telões. Nas ruas, o negócio era mesmo o rádio. Enquanto o jogo não começava, música. E Taiguara, dizendo em sua antológica "Hoje": "Hoje / As minhas mãos enfraquecidas e vazias / Procuram nuas pelas luas, pelas ruas... / Na solidão das noites frias por você (...) Hoje / Homens de aço esperam da ciência / Eu desespero e abraço a tua ausência / Que é o que me resta vivo em minha sorte".
Imagine o contraste entre o frenesi do povo e o sentido da letra de Taiguara... O caro leitor notou como o poeta trabalha o par verbal "esperam/desespero"? Por favor, leia "desespéro" (é verbo). Notou que, em "eu desespero", Taiguara emprega o verbo com o sentido de "perder a esperança"? Na letra, esse verbo pode ser tomado como transitivo indireto, com objeto indireto subentendido ("eu desespero da ciência") ou simplesmente como intransitivo ("eu desespero", com o sentido seco de "perco a esperança").
Taiguara era nobreza pura. Em outra obra-prima, "Maria do Futuro", diz ele: "Nessa rede ela prendeu / Minha dor civil, minha solidão. / Nessa rede eu vi nascer minha liberdade (...) E em cadeias de amor puro / viver guardado / Joga areias do futuro no meu passado". Maravilha! Que beleza a aparente antítese "rede/liberdade"! Que bela noção de liberdade cria o jogo rede/cadeias/areias (do futuro no meu passado)! Bem, para muita gente não é tão fácil assim captar o que é a verdadeira liberdade, sobretudo quando ela vem por imagens poéticas...
Encerro esta lembrança de Taiguara com versos de uma de suas antológicas canções, cujo nome é o título desta coluna: "Vê como um fogo brando funde um ferro duro / Vê como o asfalto é teu jardim se você crê / Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro / Chamando os homens pro seu tempo de viver / E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pôde amar sem dor...".
Os muros a que se refere Taiguara são muitos, mas são sobretudo os metafóricos muros das barreiras que separam as trevas da luz, a mediocridade da criatividade, a teimosia da abertura mental e psíquica, separam a inércia do movimento para a frente, para o novo, para a revisão do velho conceito. Onde estiver, um beijo, caro Taiguara. É isso
Os muros a que se refere Taiguara são sobretudo os metafóricos muros que separam as trevas da luz
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A ANTOLÓGICA "Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes", de Vinicius de Moraes, começa assim: "A morte chegou pelo interurbano (...). Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva. De repente, não tinha pai. No escuro de minha casa em Los Angeles...".
O diplomata Vinicius de Moraes servia nos Estados Unidos quando seu pai morreu. Se você não conhece essa "Elegia", trate de conhecer. Basta entrar no belíssimo site de Vinicius e ler. E chorar. Chorar muito. Nas artes, Vinicius é um dos meus tantos "pais". Sinto-me "órfão" dele, assim como me sinto órfão de Drummond e de outros tantos.
Na música popular, também tenho os meus "pais", muitos dos quais os leitores conhecem bem. Mas um deles talvez eu tenha citado poucas vezes ao longo dos anos. Refiro-me a Taiguara, que morreu em 14 de fevereiro de 1996, ou seja, há quinze anos. Eu estava em Portugal e, como Vinicius, recebi a notícia fúnebre pelo telefone. Imediatamente me senti, mais uma vez, "órfão" de um poeta sensível e refinado.
Na hora, lembrei-me de uma conversa com um querido amigo dos tempos de colégio, o hoje jornalista Delamar da Cruz, sobre uma cena que presenciamos em nossa adolescência. Em plena Copa de 70, com a ditadura e a lavagem cerebral a mil, a multidão se reunia nas ruas, na praça da Sé ou em frente ao teatro Municipal, para ouvir os jogos. Já havia TV direta, mas não havia telões. Nas ruas, o negócio era mesmo o rádio. Enquanto o jogo não começava, música. E Taiguara, dizendo em sua antológica "Hoje": "Hoje / As minhas mãos enfraquecidas e vazias / Procuram nuas pelas luas, pelas ruas... / Na solidão das noites frias por você (...) Hoje / Homens de aço esperam da ciência / Eu desespero e abraço a tua ausência / Que é o que me resta vivo em minha sorte".
Imagine o contraste entre o frenesi do povo e o sentido da letra de Taiguara... O caro leitor notou como o poeta trabalha o par verbal "esperam/desespero"? Por favor, leia "desespéro" (é verbo). Notou que, em "eu desespero", Taiguara emprega o verbo com o sentido de "perder a esperança"? Na letra, esse verbo pode ser tomado como transitivo indireto, com objeto indireto subentendido ("eu desespero da ciência") ou simplesmente como intransitivo ("eu desespero", com o sentido seco de "perco a esperança").
Taiguara era nobreza pura. Em outra obra-prima, "Maria do Futuro", diz ele: "Nessa rede ela prendeu / Minha dor civil, minha solidão. / Nessa rede eu vi nascer minha liberdade (...) E em cadeias de amor puro / viver guardado / Joga areias do futuro no meu passado". Maravilha! Que beleza a aparente antítese "rede/liberdade"! Que bela noção de liberdade cria o jogo rede/cadeias/areias (do futuro no meu passado)! Bem, para muita gente não é tão fácil assim captar o que é a verdadeira liberdade, sobretudo quando ela vem por imagens poéticas...
Encerro esta lembrança de Taiguara com versos de uma de suas antológicas canções, cujo nome é o título desta coluna: "Vê como um fogo brando funde um ferro duro / Vê como o asfalto é teu jardim se você crê / Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro / Chamando os homens pro seu tempo de viver / E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pôde amar sem dor...".
Os muros a que se refere Taiguara são muitos, mas são sobretudo os metafóricos muros das barreiras que separam as trevas da luz, a mediocridade da criatividade, a teimosia da abertura mental e psíquica, separam a inércia do movimento para a frente, para o novo, para a revisão do velho conceito. Onde estiver, um beijo, caro Taiguara. É isso
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línguística - português - A despedida do trema - blog do nassif
A despedida do trema
Enviado por luisnassif, qui, 17/02/2011 - 07:06
Por Webster Franklin
Que beleza de texto!
Ótimo senso de humor pra lidar com fatos
corriqueiros!
Infelizmente, não aparece o nome de quem
o escreveu, recebi por e-mail
Despedida do
TREMA
Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema.Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüiféros, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos.
Mas os tempos
mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora.
Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de
lingüistas grandiloqüentes!
O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o
menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima
dela. Os dois pontos disse que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado
enquanto ele fica em pé.
Até o cedilha
foi a favor da minha expulsão, aquele C que fica se passando por S e nunca
tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico
do I.
Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo
um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as
discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?A
verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K,
o W "Kkk" pra cá, "www" pra lá.
Até o jogo da
velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que
aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus
moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou
"tremendo" de medo. Tudo bem, vou - me embora da língua portuguesa. Foi bom
enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês
sentirão saudades. E não vão agüentar.
Nos vemos nos livros antigos. Saio da
língua para entrar na história.
Adeus,
Trema
Enviado por luisnassif, qui, 17/02/2011 - 07:06
Por Webster Franklin
Que beleza de texto!
Ótimo senso de humor pra lidar com fatos
corriqueiros!
Infelizmente, não aparece o nome de quem
o escreveu, recebi por e-mail
Despedida do
TREMA
Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema.Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüiféros, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos.
Mas os tempos
mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora.
Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de
lingüistas grandiloqüentes!
O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o
menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima
dela. Os dois pontos disse que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado
enquanto ele fica em pé.
Até o cedilha
foi a favor da minha expulsão, aquele C que fica se passando por S e nunca
tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico
do I.
Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo
um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as
discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?A
verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K,
o W "Kkk" pra cá, "www" pra lá.
Até o jogo da
velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que
aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus
moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou
"tremendo" de medo. Tudo bem, vou - me embora da língua portuguesa. Foi bom
enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês
sentirão saudades. E não vão agüentar.
Nos vemos nos livros antigos. Saio da
língua para entrar na história.
Adeus,
Trema
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Linguística - literatura, - Grass na trilha de Grimm
Gênese de um monumento linguístico
RESUMO
Em seu novo romance, Günter Grass mescla sua trajetória pessoal à da Alemanha ao narrar a hercúlea empreitada dos irmãos Grimm: um dicionário que retratasse a língua alemã em seus aspectos filológicos, literários e históricos. Deixado inconcluso por seus idealizadores, o dicionário só foi terminado nos anos 1960.
MARCUS VINICIUS MAZZARI
SE LUTAR COM PALAVRAS, como diz Drummond em célebre poema, é coisa vã, contar a história de tal luta pode não ser inteiramente sem fruto. Eis o que se propõe o Nobel de literatura Günter Grass em seu último livro, "Grimms Wörter" ["Palavras de Grimm"; 360 págs., € 29,80], publicado em agosto de 2010, pouco antes de completar 83 anos.
Günter Grass transporta o leitor para uma época em que livros, como o "Dicionário Grimm", eram produzidos de maneira artesanal. Inspirado por essa tradição, o autor não apenas criou as ilustrações para a edição alemã, mas também escolheu cuidadosamente, com o editor Gerhard Steidl e produtores gráficos, os melhores (e ecologicamente mais avançados) componentes da moderna produção de livros, desde o papel -passando por técnicas de impressão (com tintas de alta qualidade) e encadernação- até a tipologia usada, a fonte Bodoni, criada pelo tipógrafo e impressor italiano Giambattista Bodoni (1740-1813).
ALFABETO Em nove capítulos, organizados por letras do alfabeto, narram-se os esforços dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm em elaborar um grande dicionário da língua alemã, contemplando a origem e etimologia de cada palavra (com frequência, recuando-se ao gótico e ao antigo e médio alto-alemão), a mudança das acepções, assim como suas principais ocorrências na literatura, dos "monumentos linguísticos" da Idade Média até Goethe.
Embora não se trate de uma biografia, a narrativa se inicia com um fato marcante na trajetória dos irmãos: em 1837, o príncipe de Hannover -um dos incontáveis Estados alemães da época- revoga a constituição liberal promulgada três anos antes, e sete professores que lhe haviam prestado juramento realizam um ato de protesto. Entre estes estão os irmãos Grimm, que, como os demais, são despedidos e perdem todos os direitos civis. Jacob, mais veemente no protesto, é ainda expulso do principado e busca asilo no vizinho Estado do Hesse, onde foram coligidos, anos antes, os contos maravilhosos que celebrizaram o nome Grimm (depois os irmãos encontrarão asilo definitivo em Berlim). "Asilo" ("Asyl") figura assim no primeiro capítulo das "Palavras de Grimm" e enseja a Grass enveredar polemicamente pela questão do asilo político na atual Alemanha. Esse capítulo, afinal, é todo ele dedicado ao "A", "o mais nobre e primordial de todos os sons, ressoando plenamente do peito e da garganta, o primeiro som que a criança aprende a articular e que os alfabetos da maioria das línguas colocam com razão em seu início", conforme se lê na abertura do verbete "A", redigido por Jacob em nada menos do que sete colunas!
HISTÓRIA No ócio repentino a que os irmãos se veem condenados, chega a proposta de uma editora de Leipzig para a elaboração de um dicionário. Tem início assim um projeto filológico verdadeiramente monumental, em cujo desenvolvimento se espelharão as vicissitudes da história alemã ao longo de 123 anos. Pois, ao acreditar de início que poderiam concluir o dicionário em cerca de dez anos (e em sete volumes), os irmãos subestimaram fragorosamente o trabalho que tinham pela frente: ao falecer em 1859, Wilhelm dera conta apenas da letra "D"; Jacob, mais disciplinado e dotado de incomum capacidade de trabalho, conseguiu vencer o "A", "B", "C", "E" e avançar bastante no "F", falecendo (1863) em meio à redação do verbete "Frucht", fruto(a).
Dezenas de milhares de fichas com verbetes para as demais letras foram legadas aos sucessores, cujo trabalho virou o século, atravessou a Primeira Guerra, a República de Weimar, os doze anos do nacional-socialismo (quando, evidentemente, foram eliminados do dicionário todos os vestígios judaicos) e ainda -agora de maneira "pan-germânica", isto é, conduzido por filólogos das duas Alemanhas- 15 anos da Guerra Fria, concluindo-se em janeiro de 1961, com a publicação do 32º volume. (Ironicamente, o dicionário concebido também como estímulo cultural para a unificação dos Estados alemães -assim como, no plano material, a implantação de estradas de ferro- consuma-se ao mesmo tempo que se levantava o Muro de Berlim.)
Desse modo, narrar a acidentada gênese do dicionário oferece a Grass o ensejo para revisitar momentos cruciais da história alemã, não só os vividos pelos Grimm (como a revolução de 1848), mas também aqueles com os quais se entrelaça sua própria biografia, marcada pela Juventude Hitlerista e pelo posterior engajamento no movimento social-democrata.
FRUTOS O que, contudo, organiza a imbricação de temporalidades e trajetórias são justamente as letras do alfabeto, como o "A" de "asilo" ou o "B" de três ícones da social-democracia alemã (Bebel, Bernstein e Brandt). É fácil imaginar as dificuldades que tal procedimento impõe a uma tradução, pois se nos casos onomásticos ou de palavras próximas ao latim verifica-se larga coincidência (como "fructus": "fruht", em antigo alto-alemão), na maioria dos vocábulos mobilizados por Grass o tradutor terá de valer-se de artifícios para tentar colher alguns frutos.
O próprio capítulo da letra "F" tem por fulcro palavras como "Forschung", "pesquisa", ou "Freiheit", "liberdade" (o slogan "Freie Fahrt für freie Bürger", "caminho livre para cidadãos livres", é revelador da degradação sofrida pelo conceito de liberdade numa sociedade automobilística), enquanto o do "K" vem comandado, entre outras palavras, por "Krieg", "guerra", cujo significado, já para o tempo dos Grimm e ainda mais para o de Grass, não é preciso enfatizar.
Como nenhum outro livro desse autor, "Palavras de Grimm" se caracteriza por uma profusão de paronomásias, aliterações e assonâncias, que se intensificam nos poemas incrustados nos capítulos. Mestre soberano da língua alemã, Grass constrói a narrativa manipulando ludicamente as letras do alfabeto, e isso mesmo nos trechos em que reconstitui seus violentos embates ideológicos durante as décadas do pós-Guerra. Para não poucos leitores serão essas as passagens mais questionáveis do livro, pois em momento algum o autor parece admitir a possibilidade de não estar com a razão.
DARWIN E GRIMM Por outro lado, mesmo o leitor mais refratário a Grass dificilmente deixará de admirar passagens como a que desdobra, ainda sob o império da letra "F", um encontro fictício entre dois pesquisadores ("Forscher") contemporâneos: o inglês Charles Darwin, que demonstrou a ininterrupta mutação das espécies (sua origem e extinção por seleção natural, a sobrevivência mediante adaptação bem-sucedida), e o alemão Jacob Grimm, que investigou a fundo deslocamentos de sons, perdas e mutações linguísticas, do sânscrito até o alemão moderno.
Ou ainda a reconstituição do belíssimo "Discurso sobre a Velhice" proferido por Jacob na Academia Prussiana em 1860, um "tema que bate secamente à porta, impõe-se e quer ir para o papel, ainda que seja com mão trêmula", e que enseja assim a Grass considerações sobre a própria velhice (e a aproximação da morte). Fichte, Hegel, Herder e outras celebridades aparecem entre os ouvintes, mas a fantasia de Grass se confessa impotente em juntar-lhes Lutero (presente em centenas de citações do dicionário) e o bispo ariano Ulfila, que no século 4º traduziu o Novo Testamento para o gótico, sistematizando esse idioma já extinto.
A narrativa se fecha com outro extraordinário momento visionário, que suspende o tempo (afinal estamos agora na letra "Z", de "Zeit", "tempo") e mescla as temporalidades: transportando-nos para os dias imediatamente anteriores à construção do Muro, Grass fantasia um encontro com os inseparáveis irmãos no parque em que estes, durante os anos berlinenses, costumavam fazer passeios diários. O objetivo ("Ziel") é comunicar-lhes que o dicionário acaba de ser concluído, graças ao esforço final de filólogos de leste e oeste.
Eis, porém, que os Grimm acolhem a notícia com ceticismo e reserva, compenetrados -e aqui se poderia voltar ao verso drummondiano- do que há de vão na luta com as palavras, pois elas mudam continuamente, geram novos sentidos e levam os antigos à extinção: portanto, pondera Jacob, "não há diques suficientemente fortes para a língua", que, como um rio, "vai sempre fluindo e transbordando das margens".
Sobrevém então, única exceção no fluxo das transformações, a imagem da morte, "marco fronteiriço de todo poder, meta final ["Zielpunkt"] de toda aspiração", nas palavras do grande poeta barroco Gryphius, largamente representado no dicionário. Um melancólico acorde final, sem dúvida, mas o que verdadeiramente ressalta dessas "Palavras de Grimm" é a homenagem que o velho Grass rende aos esforços abnegados desses irmãos e -fruto mais belo ainda- a declaração de amor que faz à língua alemã.
Em nove capítulos, organizados por letras do alfabeto, narram-se os esforços dos irmãos Grimm em elaborar um grande dicionário da língua alemã
RESUMO
Em seu novo romance, Günter Grass mescla sua trajetória pessoal à da Alemanha ao narrar a hercúlea empreitada dos irmãos Grimm: um dicionário que retratasse a língua alemã em seus aspectos filológicos, literários e históricos. Deixado inconcluso por seus idealizadores, o dicionário só foi terminado nos anos 1960.
MARCUS VINICIUS MAZZARI
SE LUTAR COM PALAVRAS, como diz Drummond em célebre poema, é coisa vã, contar a história de tal luta pode não ser inteiramente sem fruto. Eis o que se propõe o Nobel de literatura Günter Grass em seu último livro, "Grimms Wörter" ["Palavras de Grimm"; 360 págs., € 29,80], publicado em agosto de 2010, pouco antes de completar 83 anos.
Günter Grass transporta o leitor para uma época em que livros, como o "Dicionário Grimm", eram produzidos de maneira artesanal. Inspirado por essa tradição, o autor não apenas criou as ilustrações para a edição alemã, mas também escolheu cuidadosamente, com o editor Gerhard Steidl e produtores gráficos, os melhores (e ecologicamente mais avançados) componentes da moderna produção de livros, desde o papel -passando por técnicas de impressão (com tintas de alta qualidade) e encadernação- até a tipologia usada, a fonte Bodoni, criada pelo tipógrafo e impressor italiano Giambattista Bodoni (1740-1813).
ALFABETO Em nove capítulos, organizados por letras do alfabeto, narram-se os esforços dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm em elaborar um grande dicionário da língua alemã, contemplando a origem e etimologia de cada palavra (com frequência, recuando-se ao gótico e ao antigo e médio alto-alemão), a mudança das acepções, assim como suas principais ocorrências na literatura, dos "monumentos linguísticos" da Idade Média até Goethe.
Embora não se trate de uma biografia, a narrativa se inicia com um fato marcante na trajetória dos irmãos: em 1837, o príncipe de Hannover -um dos incontáveis Estados alemães da época- revoga a constituição liberal promulgada três anos antes, e sete professores que lhe haviam prestado juramento realizam um ato de protesto. Entre estes estão os irmãos Grimm, que, como os demais, são despedidos e perdem todos os direitos civis. Jacob, mais veemente no protesto, é ainda expulso do principado e busca asilo no vizinho Estado do Hesse, onde foram coligidos, anos antes, os contos maravilhosos que celebrizaram o nome Grimm (depois os irmãos encontrarão asilo definitivo em Berlim). "Asilo" ("Asyl") figura assim no primeiro capítulo das "Palavras de Grimm" e enseja a Grass enveredar polemicamente pela questão do asilo político na atual Alemanha. Esse capítulo, afinal, é todo ele dedicado ao "A", "o mais nobre e primordial de todos os sons, ressoando plenamente do peito e da garganta, o primeiro som que a criança aprende a articular e que os alfabetos da maioria das línguas colocam com razão em seu início", conforme se lê na abertura do verbete "A", redigido por Jacob em nada menos do que sete colunas!
HISTÓRIA No ócio repentino a que os irmãos se veem condenados, chega a proposta de uma editora de Leipzig para a elaboração de um dicionário. Tem início assim um projeto filológico verdadeiramente monumental, em cujo desenvolvimento se espelharão as vicissitudes da história alemã ao longo de 123 anos. Pois, ao acreditar de início que poderiam concluir o dicionário em cerca de dez anos (e em sete volumes), os irmãos subestimaram fragorosamente o trabalho que tinham pela frente: ao falecer em 1859, Wilhelm dera conta apenas da letra "D"; Jacob, mais disciplinado e dotado de incomum capacidade de trabalho, conseguiu vencer o "A", "B", "C", "E" e avançar bastante no "F", falecendo (1863) em meio à redação do verbete "Frucht", fruto(a).
Dezenas de milhares de fichas com verbetes para as demais letras foram legadas aos sucessores, cujo trabalho virou o século, atravessou a Primeira Guerra, a República de Weimar, os doze anos do nacional-socialismo (quando, evidentemente, foram eliminados do dicionário todos os vestígios judaicos) e ainda -agora de maneira "pan-germânica", isto é, conduzido por filólogos das duas Alemanhas- 15 anos da Guerra Fria, concluindo-se em janeiro de 1961, com a publicação do 32º volume. (Ironicamente, o dicionário concebido também como estímulo cultural para a unificação dos Estados alemães -assim como, no plano material, a implantação de estradas de ferro- consuma-se ao mesmo tempo que se levantava o Muro de Berlim.)
Desse modo, narrar a acidentada gênese do dicionário oferece a Grass o ensejo para revisitar momentos cruciais da história alemã, não só os vividos pelos Grimm (como a revolução de 1848), mas também aqueles com os quais se entrelaça sua própria biografia, marcada pela Juventude Hitlerista e pelo posterior engajamento no movimento social-democrata.
FRUTOS O que, contudo, organiza a imbricação de temporalidades e trajetórias são justamente as letras do alfabeto, como o "A" de "asilo" ou o "B" de três ícones da social-democracia alemã (Bebel, Bernstein e Brandt). É fácil imaginar as dificuldades que tal procedimento impõe a uma tradução, pois se nos casos onomásticos ou de palavras próximas ao latim verifica-se larga coincidência (como "fructus": "fruht", em antigo alto-alemão), na maioria dos vocábulos mobilizados por Grass o tradutor terá de valer-se de artifícios para tentar colher alguns frutos.
O próprio capítulo da letra "F" tem por fulcro palavras como "Forschung", "pesquisa", ou "Freiheit", "liberdade" (o slogan "Freie Fahrt für freie Bürger", "caminho livre para cidadãos livres", é revelador da degradação sofrida pelo conceito de liberdade numa sociedade automobilística), enquanto o do "K" vem comandado, entre outras palavras, por "Krieg", "guerra", cujo significado, já para o tempo dos Grimm e ainda mais para o de Grass, não é preciso enfatizar.
Como nenhum outro livro desse autor, "Palavras de Grimm" se caracteriza por uma profusão de paronomásias, aliterações e assonâncias, que se intensificam nos poemas incrustados nos capítulos. Mestre soberano da língua alemã, Grass constrói a narrativa manipulando ludicamente as letras do alfabeto, e isso mesmo nos trechos em que reconstitui seus violentos embates ideológicos durante as décadas do pós-Guerra. Para não poucos leitores serão essas as passagens mais questionáveis do livro, pois em momento algum o autor parece admitir a possibilidade de não estar com a razão.
DARWIN E GRIMM Por outro lado, mesmo o leitor mais refratário a Grass dificilmente deixará de admirar passagens como a que desdobra, ainda sob o império da letra "F", um encontro fictício entre dois pesquisadores ("Forscher") contemporâneos: o inglês Charles Darwin, que demonstrou a ininterrupta mutação das espécies (sua origem e extinção por seleção natural, a sobrevivência mediante adaptação bem-sucedida), e o alemão Jacob Grimm, que investigou a fundo deslocamentos de sons, perdas e mutações linguísticas, do sânscrito até o alemão moderno.
Ou ainda a reconstituição do belíssimo "Discurso sobre a Velhice" proferido por Jacob na Academia Prussiana em 1860, um "tema que bate secamente à porta, impõe-se e quer ir para o papel, ainda que seja com mão trêmula", e que enseja assim a Grass considerações sobre a própria velhice (e a aproximação da morte). Fichte, Hegel, Herder e outras celebridades aparecem entre os ouvintes, mas a fantasia de Grass se confessa impotente em juntar-lhes Lutero (presente em centenas de citações do dicionário) e o bispo ariano Ulfila, que no século 4º traduziu o Novo Testamento para o gótico, sistematizando esse idioma já extinto.
A narrativa se fecha com outro extraordinário momento visionário, que suspende o tempo (afinal estamos agora na letra "Z", de "Zeit", "tempo") e mescla as temporalidades: transportando-nos para os dias imediatamente anteriores à construção do Muro, Grass fantasia um encontro com os inseparáveis irmãos no parque em que estes, durante os anos berlinenses, costumavam fazer passeios diários. O objetivo ("Ziel") é comunicar-lhes que o dicionário acaba de ser concluído, graças ao esforço final de filólogos de leste e oeste.
Eis, porém, que os Grimm acolhem a notícia com ceticismo e reserva, compenetrados -e aqui se poderia voltar ao verso drummondiano- do que há de vão na luta com as palavras, pois elas mudam continuamente, geram novos sentidos e levam os antigos à extinção: portanto, pondera Jacob, "não há diques suficientemente fortes para a língua", que, como um rio, "vai sempre fluindo e transbordando das margens".
Sobrevém então, única exceção no fluxo das transformações, a imagem da morte, "marco fronteiriço de todo poder, meta final ["Zielpunkt"] de toda aspiração", nas palavras do grande poeta barroco Gryphius, largamente representado no dicionário. Um melancólico acorde final, sem dúvida, mas o que verdadeiramente ressalta dessas "Palavras de Grimm" é a homenagem que o velho Grass rende aos esforços abnegados desses irmãos e -fruto mais belo ainda- a declaração de amor que faz à língua alemã.
Em nove capítulos, organizados por letras do alfabeto, narram-se os esforços dos irmãos Grimm em elaborar um grande dicionário da língua alemã
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
ciência - linguística - internet - Nicolelis: não existe imparcialidade científica nem jornalística
O movimento dos Blogueiros Progressistas do Rio Grande do Norte recebeu, na noite desta sexta-feira (28), o neurocientista Miguel Nicolelis, professor da Universidade de Duke (EUA) e co-fundador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lilly Safra. O evento, realizado no auditório da Livraria Siciliano (Shopping Midway Mall), serviu como preparação para o 1º Encontro de Blogueiros Progressistas do RN, marcado para os dias 25, 26 e 27 de março.
Canindé Soares
Nicolelis divertiu-se ao contar sua dificuldade em provar que não era um "fake".
O tema do bate-papo foi “Redes sociais, participação política e desenvolvimento da ciência”. Nicolelis iniciou dizendo que sua participação no evento demonstrava o poder dessas novas formas de comunicação. “Estou no Twitter há apenas 15 dias, mas já estou aqui para falar sobre redes sociais – mesmo sem saber nada sobre isso”, brincou, arrancando risos da plateia.
Em seguida, disse que o título da palestra poderia ser “Eu juro que eu sou eu”, fazendo referência ao debate travado com uma badalada blogueira potiguar, a quem teve que provar que seu recém-criado perfil no Twitter não era um fake.
Nicolelis aproveitou o episódio como gancho para tratar da questão da identidade no contexto das redes sociais. Ele sustentou que o modelo de mundo que conhecemos, bem como nossa identidade, não passa de uma “simulação” do cérebro. Emendou dizendo que a “cultura do ‘eu’ é uma ilusão”.
“Eu me defrontei com essa ilusão ao tentar provar que eu sou eu. Eu me engajei num debate com uma jornalista que foi uma das coisas mais fascinantes. Comecei a falar das minhas opiniões, primeiro sobre a política do RN, mas não funcionou”.
“Pare pra pensar: nós vivemos num mundo em que qualquer um pode ser eu, qualquer um pode assumir qualquer personalidade. O sucesso das redes sociais, em minha opinião de neurocientista, se deve, primeiro, a uma coisa que vou tratar no livro que será lançado no próximo mês. Daqui a algumas centenas de anos não vamos precisar disso aqui, teclado, celular… Nós vamos pensar e nos comunicar, nos amalgamar numa rede conscientemente sem a necessidade dessas coisas pouco eficientes, como os nossos dedos, os teclados… Nós já estamos observando, mesmo com os limites que temos, já vivemos os primórdios de uma sociedade onde a identidade real não faz diferença nenhuma”, discorreu.
O neurocientista destacou que as redes sociais “conseguiram fazer as identidades, às quais a gente se apegou tanto, desaparecerem”. “Você pode assumir o que você sempre quis ser, mas não podia por medo do preconceito. Nós ainda não conseguimos lidar com o fato que as pessoas são de diferentes matizes. As redes têm essa vantagem de permitir que as pessoas possam assumir [suas ideias] livremente”.
Foto: Canindé Soares
Nicolelis defendeu a inexistência da imparcialidade, tanto científica quanto jornalística.
“Não existe isso de imparcialidade”
Após discorrer sobre as redes sociais e a dispersão da identidade, Nicolelis afirmou que a ideia da “imparcialidade”, tanto jornalística quanto científica, não passa de “balela”. “Como neurocientistas, estamos cansados de saber que não existe isso de imparcialidade, como pretendem os jornalistas. Não existe imparcialidade nem jornalística nem científica”.
Para comprovar sua sentença, relembrou a cobertura midiática das eleições presidenciais do ano passado, quando a imprensa tradicional, mesmo se dizendo “imparcial”, se alinhou à candidatura do candidato do PSDB/DEM, o ex-governador de São Paulo José Serra.
“O que aconteceu no Brasil na eleição passada foi a demonstração da falácia de certos meios de imprensa e do partidarismo que invadiu essa opinião dita imparcial. Mas o desmentido só ocorreu nesse lugar capilarizado chamado blogosfera. A guerra da informação foi travada aí. A eleição foi ganha na trincheira da blogosfera, porque os desmentidos eram instantâneos”, comentou.
Nicolelis defendeu que a “teia” – termo que disse preferir usar para se referir às redes sociais – que está se formando no Brasil “é um fenômeno mundial de relevância fundamental”. Para ele, a blogosfera teve um papel de destaque nas eleições de 2010.
“Essa teia já ganhou uma eleição do ponto de vista da informação, já derrotou o exército de uma mídia que tem opinião, mas que exerceu essa opinião sem dizer. Aí é que tá o engodo. A opinião é legítima, mas esconder que tem opinião não é”.
Miguel Nicolelis frisou que outro efeito provocado pelo surgimento dessa teia é o fato de considerar “inevitável a quebra do monopólio do conhecimento, da noticia e do fato”. “Cada um de nós pode ser o propagador de um fato, de uma interpretação do fato”.
Mesmo ressaltando sua condição de neófito, Nicolelis demonstrou entusiasmo com o potencial dessa “teia” desembocar no surgimento de um novo modelo de democracia, em que os indivíduos tenham um novo papel.
“A democracia representativa é muito interessante, mas ela faliu, porque o grande objetivo dos representantes dos indivíduos do planeta é representar a si mesmo. Existe um potencial imenso de uma nova democracia, onde os indivíduos tenham um novo papel, em que possam ser agentes atuantes e definidores da nossa cidadania
Canindé Soares
Nicolelis divertiu-se ao contar sua dificuldade em provar que não era um "fake".
O tema do bate-papo foi “Redes sociais, participação política e desenvolvimento da ciência”. Nicolelis iniciou dizendo que sua participação no evento demonstrava o poder dessas novas formas de comunicação. “Estou no Twitter há apenas 15 dias, mas já estou aqui para falar sobre redes sociais – mesmo sem saber nada sobre isso”, brincou, arrancando risos da plateia.
Em seguida, disse que o título da palestra poderia ser “Eu juro que eu sou eu”, fazendo referência ao debate travado com uma badalada blogueira potiguar, a quem teve que provar que seu recém-criado perfil no Twitter não era um fake.
Nicolelis aproveitou o episódio como gancho para tratar da questão da identidade no contexto das redes sociais. Ele sustentou que o modelo de mundo que conhecemos, bem como nossa identidade, não passa de uma “simulação” do cérebro. Emendou dizendo que a “cultura do ‘eu’ é uma ilusão”.
“Eu me defrontei com essa ilusão ao tentar provar que eu sou eu. Eu me engajei num debate com uma jornalista que foi uma das coisas mais fascinantes. Comecei a falar das minhas opiniões, primeiro sobre a política do RN, mas não funcionou”.
“Pare pra pensar: nós vivemos num mundo em que qualquer um pode ser eu, qualquer um pode assumir qualquer personalidade. O sucesso das redes sociais, em minha opinião de neurocientista, se deve, primeiro, a uma coisa que vou tratar no livro que será lançado no próximo mês. Daqui a algumas centenas de anos não vamos precisar disso aqui, teclado, celular… Nós vamos pensar e nos comunicar, nos amalgamar numa rede conscientemente sem a necessidade dessas coisas pouco eficientes, como os nossos dedos, os teclados… Nós já estamos observando, mesmo com os limites que temos, já vivemos os primórdios de uma sociedade onde a identidade real não faz diferença nenhuma”, discorreu.
O neurocientista destacou que as redes sociais “conseguiram fazer as identidades, às quais a gente se apegou tanto, desaparecerem”. “Você pode assumir o que você sempre quis ser, mas não podia por medo do preconceito. Nós ainda não conseguimos lidar com o fato que as pessoas são de diferentes matizes. As redes têm essa vantagem de permitir que as pessoas possam assumir [suas ideias] livremente”.
Foto: Canindé Soares
Nicolelis defendeu a inexistência da imparcialidade, tanto científica quanto jornalística.
“Não existe isso de imparcialidade”
Após discorrer sobre as redes sociais e a dispersão da identidade, Nicolelis afirmou que a ideia da “imparcialidade”, tanto jornalística quanto científica, não passa de “balela”. “Como neurocientistas, estamos cansados de saber que não existe isso de imparcialidade, como pretendem os jornalistas. Não existe imparcialidade nem jornalística nem científica”.
Para comprovar sua sentença, relembrou a cobertura midiática das eleições presidenciais do ano passado, quando a imprensa tradicional, mesmo se dizendo “imparcial”, se alinhou à candidatura do candidato do PSDB/DEM, o ex-governador de São Paulo José Serra.
“O que aconteceu no Brasil na eleição passada foi a demonstração da falácia de certos meios de imprensa e do partidarismo que invadiu essa opinião dita imparcial. Mas o desmentido só ocorreu nesse lugar capilarizado chamado blogosfera. A guerra da informação foi travada aí. A eleição foi ganha na trincheira da blogosfera, porque os desmentidos eram instantâneos”, comentou.
Nicolelis defendeu que a “teia” – termo que disse preferir usar para se referir às redes sociais – que está se formando no Brasil “é um fenômeno mundial de relevância fundamental”. Para ele, a blogosfera teve um papel de destaque nas eleições de 2010.
“Essa teia já ganhou uma eleição do ponto de vista da informação, já derrotou o exército de uma mídia que tem opinião, mas que exerceu essa opinião sem dizer. Aí é que tá o engodo. A opinião é legítima, mas esconder que tem opinião não é”.
Miguel Nicolelis frisou que outro efeito provocado pelo surgimento dessa teia é o fato de considerar “inevitável a quebra do monopólio do conhecimento, da noticia e do fato”. “Cada um de nós pode ser o propagador de um fato, de uma interpretação do fato”.
Mesmo ressaltando sua condição de neófito, Nicolelis demonstrou entusiasmo com o potencial dessa “teia” desembocar no surgimento de um novo modelo de democracia, em que os indivíduos tenham um novo papel.
“A democracia representativa é muito interessante, mas ela faliu, porque o grande objetivo dos representantes dos indivíduos do planeta é representar a si mesmo. Existe um potencial imenso de uma nova democracia, onde os indivíduos tenham um novo papel, em que possam ser agentes atuantes e definidores da nossa cidadania
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
sp - linguística - Orra meu
Paulistano tem jeito de falar próprio, com influências vindas de todos os cantos, de outros Estados e países
Português se restringia a documentos
MARCELLE SOUZA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Sem muitas portuguesas por perto, boa parte dos primeiros colonos paulistanos casaram com índias.Resultado: os filhos aprendiam uma língua que não era português nem tupi, embora puxasse bem mais para a última.
No século 17, a "língua geral paulista" era, então, muito mais comum do que o português na cidade. Algumas das suas expressões ainda vivem, como cutucar e nhenhenhém.
Tratava-se de uma língua oral. Nos documentos oficiais, utilizava-se uma versão arcaica (e quase nunca bem redigida) do português.
Habilidade com a "língua geral" e o tupi se tornou tão importante que era obrigatória entre os jesuítas -deixando para trás até o latim, considerado dispensável.
Os colonos se habituaram tanto ao tupi que começaram a reclamar quando a captura de índios em regiões próximas a SãoPaulo se esgotou.
É que os bandeirantes começaram a ter de buscar nativos para escravizar em terras mais distantes, onde os índios não falavam tupi.
Em 1680, então, um colono dizia que a sua maior frustração ao ver os seus escravos, provavelmente guaianás, doentes era não poder entender "do que os pobres padecem, porque não há língua que os entenda".
Foram os bandeirantes, aliás, que espalharam a "língua geral" para outros estados, como Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e Paraná, diz Eduardo de Almeida Navarro, professor de tupi da USP.
Não se sabe com certeza, porém, se o "erre" retroflexo dessas regiões -aquele do "não suporrto porrta aberrta"- veio do tupi, nem se foi levado pelos bandeirantes.
De qualquer forma, tanto o interior como a capital paulista iriam receber grandes levas de imigrantes séculos depois, gente que alterou completamente a maneira de se falar o português por aqui.
Bem antes, porém, a "língua geral" já estava condenada. Morreu em 1758, quando o marquês de Pombal, ministro do rei dom José 1º, proibiu ensinar qualquer coisa próxima ao tupi no Brasil, para fortalecer o português.
ENTREOUVIDO EM 1650
Baeapiabapaipó?
"Que índios são esses?" em tupi
Cair um toró
"Tororó" é jorro d’água em tupi
Velha coroca
"velha resmungona", já que "kuruk" é resmungar em tupi
Îandé ruba, Îandé Îara!
"Nosso Pai, Nosso Senhor", escreveu Anchieta em tupi
Ficar com nhenhenhém
Quer dizer "falando sem parar", pois "nhe’eng" é falar em tupi
Cutucar
Vem da palavra "kutuk", que é espetar em tupi
Ir ao Jabaquara
o nome do bairro, em tupi, significa "casa dos índios fugidos"
Treição e maparra
no português arcaico, virou hoje "traição e fingimento"
Paulistanês engloba periferia e inglês
RAPHAEL MARCHIORI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Toda noite em São Paulo as pessoas "colam naquela parada" e sentem uma "vibe na balada". Explicar isso com um dicionário clássico de português seria impossível, mas no "paulistanês" contemporâneo é admitido e até recomendado para determinadas situações.
A criação de expressões que não existem em nenhum outro idioma e a incorporação de termos estrangeiros são cada vez mais frequentes no vocabulário usado aqui.
O falar paulistano clássico, caracterizado pelo "r" vibrante, e o som anasalado, representado por personagens imigrantes italianos das novelas de época, dá espaço para termos surgidos na periferia da cidade ou a incorporação de palavras em inglês .
"O "é nois", por exemplo, ganhou periferias do interior e já deve estar presente em outros Estados", diz Anna Christina Bentes da Silva, sociolinguista da Unicamp.
E não é só na periferia que o "é nois" se difunde. Quem anda por São Paulo, seja no Itaim Paulista, bairro no extremo da zona leste, ou em Moema, na zona sul, uma hora ou outra ouvirá essa expressão e ainda pode ser surpreendido com um convite para um "rolê" com um "mano" para "trocar uma ideia".
A difusão desses termos se dá tanto pela convivência em espaços comuns da cidade como pelas redes sociais na internet. "Hoje em dia você não tem um único falar paulistano, mas vários tipos de fala", diz Anna Christina.
Determinada expressão, por vezes, não tem sua origem na cidade em que ela se popularizou. Mas sua repetição em determinada região valida seu uso e a torna característica da cidade.
Além dessas expressões criadas e incorporadas ao vocabulário, especialistas dizem que o falar paulistano típico se perdeu. Para Ataliba de Castilho, linguista e consultor do Museu da Língua Portuguesa, a razão está no crescimento da metrópole.
"O falar clássico da cidade está submerso no meio das muitas influências que São Paulo recebe, tanto do exterior quanto de outros Estados", diz Castilho.
ENTREOUVIDO EM 2011
BALADA
festa
MANO
amigo
É NÓIS
confirmação de algo - gíria de um grupo social, no caso a periferia
TROCAR IDEIA
conversar - expressão muito usada em São Paulo, mas já difundida por outras cidades e estados
MAGINA
por nada, de nada
Ô MEU
chamamento
VIBE
vibração - expressão usada por jovens de classes sociais mais abastadas
COLAR NAQUELA PARADA
ir a algum lugar - gíria de um grupo social, no caso a periferia
Português se restringia a documentos
MARCELLE SOUZA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Sem muitas portuguesas por perto, boa parte dos primeiros colonos paulistanos casaram com índias.Resultado: os filhos aprendiam uma língua que não era português nem tupi, embora puxasse bem mais para a última.
No século 17, a "língua geral paulista" era, então, muito mais comum do que o português na cidade. Algumas das suas expressões ainda vivem, como cutucar e nhenhenhém.
Tratava-se de uma língua oral. Nos documentos oficiais, utilizava-se uma versão arcaica (e quase nunca bem redigida) do português.
Habilidade com a "língua geral" e o tupi se tornou tão importante que era obrigatória entre os jesuítas -deixando para trás até o latim, considerado dispensável.
Os colonos se habituaram tanto ao tupi que começaram a reclamar quando a captura de índios em regiões próximas a SãoPaulo se esgotou.
É que os bandeirantes começaram a ter de buscar nativos para escravizar em terras mais distantes, onde os índios não falavam tupi.
Em 1680, então, um colono dizia que a sua maior frustração ao ver os seus escravos, provavelmente guaianás, doentes era não poder entender "do que os pobres padecem, porque não há língua que os entenda".
Foram os bandeirantes, aliás, que espalharam a "língua geral" para outros estados, como Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e Paraná, diz Eduardo de Almeida Navarro, professor de tupi da USP.
Não se sabe com certeza, porém, se o "erre" retroflexo dessas regiões -aquele do "não suporrto porrta aberrta"- veio do tupi, nem se foi levado pelos bandeirantes.
De qualquer forma, tanto o interior como a capital paulista iriam receber grandes levas de imigrantes séculos depois, gente que alterou completamente a maneira de se falar o português por aqui.
Bem antes, porém, a "língua geral" já estava condenada. Morreu em 1758, quando o marquês de Pombal, ministro do rei dom José 1º, proibiu ensinar qualquer coisa próxima ao tupi no Brasil, para fortalecer o português.
ENTREOUVIDO EM 1650
Baeapiabapaipó?
"Que índios são esses?" em tupi
Cair um toró
"Tororó" é jorro d’água em tupi
Velha coroca
"velha resmungona", já que "kuruk" é resmungar em tupi
Îandé ruba, Îandé Îara!
"Nosso Pai, Nosso Senhor", escreveu Anchieta em tupi
Ficar com nhenhenhém
Quer dizer "falando sem parar", pois "nhe’eng" é falar em tupi
Cutucar
Vem da palavra "kutuk", que é espetar em tupi
Ir ao Jabaquara
o nome do bairro, em tupi, significa "casa dos índios fugidos"
Treição e maparra
no português arcaico, virou hoje "traição e fingimento"
Paulistanês engloba periferia e inglês
RAPHAEL MARCHIORI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Toda noite em São Paulo as pessoas "colam naquela parada" e sentem uma "vibe na balada". Explicar isso com um dicionário clássico de português seria impossível, mas no "paulistanês" contemporâneo é admitido e até recomendado para determinadas situações.
A criação de expressões que não existem em nenhum outro idioma e a incorporação de termos estrangeiros são cada vez mais frequentes no vocabulário usado aqui.
O falar paulistano clássico, caracterizado pelo "r" vibrante, e o som anasalado, representado por personagens imigrantes italianos das novelas de época, dá espaço para termos surgidos na periferia da cidade ou a incorporação de palavras em inglês .
"O "é nois", por exemplo, ganhou periferias do interior e já deve estar presente em outros Estados", diz Anna Christina Bentes da Silva, sociolinguista da Unicamp.
E não é só na periferia que o "é nois" se difunde. Quem anda por São Paulo, seja no Itaim Paulista, bairro no extremo da zona leste, ou em Moema, na zona sul, uma hora ou outra ouvirá essa expressão e ainda pode ser surpreendido com um convite para um "rolê" com um "mano" para "trocar uma ideia".
A difusão desses termos se dá tanto pela convivência em espaços comuns da cidade como pelas redes sociais na internet. "Hoje em dia você não tem um único falar paulistano, mas vários tipos de fala", diz Anna Christina.
Determinada expressão, por vezes, não tem sua origem na cidade em que ela se popularizou. Mas sua repetição em determinada região valida seu uso e a torna característica da cidade.
Além dessas expressões criadas e incorporadas ao vocabulário, especialistas dizem que o falar paulistano típico se perdeu. Para Ataliba de Castilho, linguista e consultor do Museu da Língua Portuguesa, a razão está no crescimento da metrópole.
"O falar clássico da cidade está submerso no meio das muitas influências que São Paulo recebe, tanto do exterior quanto de outros Estados", diz Castilho.
ENTREOUVIDO EM 2011
BALADA
festa
MANO
amigo
É NÓIS
confirmação de algo - gíria de um grupo social, no caso a periferia
TROCAR IDEIA
conversar - expressão muito usada em São Paulo, mas já difundida por outras cidades e estados
MAGINA
por nada, de nada
Ô MEU
chamamento
VIBE
vibração - expressão usada por jovens de classes sociais mais abastadas
COLAR NAQUELA PARADA
ir a algum lugar - gíria de um grupo social, no caso a periferia
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
dilma - linguística, mídia e poder - Presidenta, sim! - Marcos Bagno
11 de janeiro de 2011 às 10:58h
Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.
Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.
Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.
Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?
Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.
Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília
Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.
Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.
Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.
Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?
Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.
Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília
sábado, 25 de dezembro de 2010
linguística -Marcos Bagno - Preconceito que cala, língua que discrimina
Brasil de Fato
24 de dezembro de 2010 às 15:41h
Marcos Bagno, escritor e linguista brasileiro, deixa à mostra a ideologia de exclusão social e de dominação política pela língua
Por Joana Moncau*
Marcos Bagno, escritor e linguista brasileiro, deixa à mostra a ideologia de exclusão social e de dominação política pela língua, típica das sociedades ocidentais. “Podemos amar e cultivar nossas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias”.
O preconceito linguístico é um preconceito social. Para isso aponta a afiada análise do escritor e linguista Marcos Bagno, brasileiro de Minas Gerais. Autor de mais de 30 livros, entre obras literárias e de divulgação científica, e professor da Universidade de Brasília, atualmente é reconhecido sobretudo por sua militância contra a discriminação social por meio da linguagem. No Brasil, tornou-se referência na luta pela democratização da linguagem e suas ideias têm exercido importante influência nos cursos de Letras e Pedagogia.
A importância de atingir esse meio, segundo ele, é que o combate ao preconceito linguístico passa principalmente pelas práticas escolares: é preciso que os professores se conscientizem e não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação. Preconceito mais antigo que o cristianismo, para Bagno, a língua desde longa data é instrumentalizada pelos poderes oficiais como um mecanismo de controle social. Dialeto e língua, fala correta e incorreta: na entrevista concedida a Desinformémonos, ele desnaturaliza esses conceitos e deixa à mostra a ideologia de exclusão e de dominação política pela língua, tão impregnada nas sociedades ocidentais.
“A língua é um dialeto com exército e marinha”, Max Weinreich
O controle social é feito oficialmente quando um Estado escolhe uma língua ou uma determinada variedade linguística para se tornar a língua oficial. Evidentemente qualquer processo de seleção implica um processo de exclusão. Quando, em um país, existem várias línguas faladas, e uma delas se torna oficial, as demais línguas passam a ser objeto de repressão.
É muito antiga a tradição de distinguir a língua associada ao símbolo de poder dos dialetos. O uso do termo dialeto sempre foi carregado de preconceito racial ou cultural. Nesse emprego, dialeto é associado a uma maneira errada, feia ou má de se falar uma língua. Também é uma maneira de distinguir a língua dos povos civilizados, brancos, das formas supostamente primitivas de falar dos povos selvagens. Essa forma de classificação é tão poderosa que se erradicou no inconsciente da maioria das pessoas, inclusive as que declaram fazer um trabalho politicamente correto.
De fato, a separação entre língua e dialeto é eminentemente política e escapa aos critérios que os linguistas tentam estabelecer para delimitar dita separação. A eleição de um dialeto, ou de uma língua, para ocupar o cargo de língua oficial, renega, no mesmo gesto político, todas as outras variedades de língua de um mesmo território à terrível escuridão do não-ser. A referência do que vem de cima, do poder, das classes dominantes, cria aos falantes das variedades de língua sem prestígio social e cultural um complexo de inferioridade, uma baixo auto-estima linguística, a qual os sociolinguistas catalães chamam de “auto-ódio”.
Falar de uma língua é sempre mover-se no terreno pantanoso das crenças, superstições, ideologia e representações. A Língua é um objeto criado, normatizado, institucionalizado para garantir a unidade política de um Estado sob o mote tradicional: “um país, um povo, uma língua”. Durante muitos séculos, para conseguir a desejada unidade nacional, muitas línguas foram e são emudecidas, muitas populações foram e são massacradas, povos inteiros foram calados e exterminados. No continente americano, temos uma história tristíssima de colonização construída sobre milhares de cadáveres de indígenas que já estavam aqui quando os europeus invadiram suas terras ancestrais e dos africanos escravizados que foram trazidos para cá contra sua vontade.
Não podemos esquecer que o que chamamos de “língua espanhola”, “língua portuguesa”, ou “língua inglesa” tem um rico histórico, não é algo que nasceu naturalmente. Podemos amar e cultivar essas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias.
Breve histórico linguístico da América Latina
A história linguística da América Latina foi e é marcada por muita violência contra as populações não-brancas, em todos os sentidos, dos massacres propriamente ditos, passando pela escravização e chegando aos dias de hoje com a exclusão social e o racismo.
No caso específico das línguas, as potências coloniais (Portugal e Espanha) se empenharam sistematicamente em impor suas línguas. As situações variam de país a país. Na Argentina, por exemplo, depois da independência, o governo traçou um plano explícito de extermínio dos indígenas, a chamada “Conquista do Deserto”, pagando em dinheiro às pessoas que levassem escalpos como prova do assassinato. Com isso, a população indígena da Argentina, principalmente do centro para o sul, desapareceu quase completamente, e com ela suas línguas.
No Peru e na Bolívia, a língua quéchua, que era uma espécie de idioma internacional do império inca, é muito empregada até hoje, havendo mesmo comunidades mais isoladas cujos falantes não sabem falar espanhol.
No Brasil, o trabalho de imposição do português foi muito bem feito, de maneira que é a língua homogênea da população. O extermínio dos índios fez desaparecer centenas de línguas: hoje sobrevivem cerca de 180, mas faladas por muito pouca gente, algumas já em vias de extinção. Durante boa parte do período colonial, a língua mais usada no Brasil foi a chamada “língua geral”, baseada no tupi antigo, que os jesuítas empregaram para catequizar os índios. Com a expulsão dos jesuítas no século XVIII e a proibição do ensino em qualquer língua que não fosse o português, a língua geral desapareceu. É uma pena que não tenhamos uma riqueza linguística como no México, que possui mais de 50 línguas diferentes, sendo que o nahua é falado por cerca de 1 milhão de pessoas. Ainda assim, essas minorias linguísticas no Brasil estão cada vez mais reconhecendo seus direitos e lutando por eles.
Quanto às línguas africanas no Brasil, elas não puderam sobreviver porque os portugueses tomavam cuidado para separar as famílias em lotes diferentes bem como os falantes de uma mesma língua, de modo que fossem obrigados a aprender o português para se comunicar entre si e com os brancos. Mesmo assim, as línguas africanas, sobretudo as do grupo banto, influíram fortemente na formação do português brasileiro, fazendo com que ele se tornasse o que é hoje, uma língua bem diferente do português europeu.
No Paraguai, como não houve expulsão dos jesuítas, a língua geral empregada por eles, o abanheenga (guarani), permanece até hoje como elemento importante da vida dos paraguaios, que são bilíngues em sua maioria: espanhol e guarani.
Falar errado? Para quem?
Também existe uma ideologia linguística que não é oficializada, mas que ao longo do tempo se instaura na sociedade. Em qualquer tipo de comunidade humana sempre existe um grupo que detém o poder e que considera que seu modo de falar é o mais interessante, o mais bonito, é aquele que deve ser preservado e até imposto aos demais.
Nas sociedades ocidentais as línguas oficiais sempre foram objetos de investimento político. As línguas são codificadas pelas gramáticas, pelos dicionários, elas são objetos de pedagogias, são ensinadas. Claro que essa língua que é normatizada nunca corresponde às formas usuais da língua, sempre há uma distância muito grande entre o que as pessoas realmente falam no seu dia-a-dia, na sua vida íntima e comunitária, e a língua oficializada e padronizada.
A questão da língua é a única que une todo o espectro linguístico, ou seja, a pessoa da mais extrema esquerda e da mais extrema direita geralmente concordam, por exemplo, diante da afirmação de que os brasileiros falam português muito mal. É uma ideologia muito antiga, eu digo que é uma religião mais antiga que o cristianismo, porque surgiu entre os gramáticos gregos 300 anos antes de Cristo e se impregnou na nossa cultura ocidental de maneira muito forte.
Entretanto, ao mesmo tempo em que as classes dominantes diziam que era preciso impor o padrão para todo o mundo, elas não permitiam às classes dominadas o acesso a ele. Havia essa contradição, que na verdade não é uma contradição, mas uma estratégia político-ideológica: “Você tem que se comportar assim, mas não vou te ensinar como”. Isso, para as classes dominantes terem, além de outros instrumentos de controle social, também o controle da língua. É o que Pierre Bourdieu chama de a ‘língua legítima’: as classes dominadas reconhecem a língua legitima, mas não a conhecem. Ou seja, elas sabem que existe um modo de falar que é considerado bonito, importante, mas elas não têm acesso a ele.
O preconceito linguístico nas sociedades ocidentais é derivado principalmente das práticas escolares. A escola sempre foi muito autoritária, muitas vezes as pessoas tinham que esquecer a língua que já sabiam e aprender um modelo de língua. Qualquer manifestação fora desse modelo era considerada erro, e a pessoa era reprimida, censurada, ridicularizada.
Outro grande perpetuador da discriminação linguística são os meio de comunicação. Infelizmente, pois eles poderiam ser instrumentos maravilhosos para a democratização das relações linguísticas da sociedade. No Brasil, por serem estreitamente vinculados às classes dominantes e às oligarquias, assumiram o papel de defensores dessa língua portuguesa que supostamente estaria ameaçada. Não interessa se 190 milhões de brasileiros usam uma determinada forma linguística, eles estão todos errados e o que apregoam como certo é aquela forma que está consolidada há séculos. Isso ficou muito evidente durante todas as campanhas presidenciais de que Lula participou. Uma das principais acusações que seus adversários faziam era essa: como um operário sem curso superior, que não sabe falar, vai saber dirigir o país? Mesmo depois de eleito, não cessaram as acusações de que falava errado. A mídia se portava como a preservadora de um padrão linguístico ameaçado inclusive pelo presidente da República.
Nessas sociedades e nessas culturas muito centradas na escrita, o padrão sempre se inspira na escrita literária. Falar como os grandes escritores escreveram é o objetivo místico que as culturas letradas propõem. Como ninguém fala como os grandes escritores escrevem, a população inteira em teoria fala errado, porque esse ideal é praticamente inalcançável.
Entretanto, isso é muito contraditório, porque os ensinos tradicionais de língua dizem que temos que imitar os clássicos, mas ao mesmo tempo somos proibidos de fazer o que os grandes autores fazem, que é a licença poética. Como aprendemos nas escolas, ela é permitida àquele que em teoria sabe tão bem a língua que pode se dar ao luxo de desrespeitar as normas. A diferença entre a licença poética e o erro gramatical é, basicamente, de classe social. Uma pessoa pela sua própria origem social se dá ao direito e tem esse direito reconhecido de falar como quiser, outra, também por sua origem social não tem esse direito.
Cria-se um padrão linguístico muito irreal, muito distante da realidade vivida da língua. É a partir desse confronto entre a maneira de falar das pessoas e essa língua codificada, que surgem esses conflitos linguísticos. A pessoa, ao comparar seu modo de falar com aquilo que aprende na escola ou com o que é codificado, vê a distância que existe entre essas duas entidades e passa a achar que seu modo de falar é feio, é errado.
Qualquer tipo de imposição linguística acaba gerando um efeito contrário que é a auto-rejeição linguística ou a promoção de um preconceito linguístico por parte das camadas sociais dominantes.
Luta contra o preconceito linguístico
Acabar com o preconceito linguístico é uma coisa difícil. É preciso sempre que façamos a distinção entre preconceito e discriminação. O que nós temos que combater é a discriminação, ou seja, quando esse preconceito deixa de ser apenas uma atitude ou um modo de pensar das pessoas e se transforma em práticas sociais.
Primeiro é preciso reconhecer a existência do preconceito linguístico, conhecer os modos como ele se manifesta concretamente como atitudes e práticas sociais, denunciar isso e criar modos de combatê-lo.
Justamente pelo fato de o preconceito linguístico nas sociedades ocidentais ser derivado das práticas escolares, na minha opinião, o grande mecanismo para começar a desfazer o preconceito linguístico, a discriminação linguística, está também na pratica escolar. É muito importante que a escola, em sociedades letradas como a nossa, permita ao aluno esse processo do acesso ao letramento a partir de práticas pedagógicas democratizadoras, em que as variações linguísticas sejam reconhecidas como prática da cultura nacional, que não sejam ridicularizadas. E é claro que isso tem um funcionamento político muito importante, não só na escola, mas em toda a sociedade.
Por isso que no Brasil, eu e um conjunto de outros linguistas e educadores estamos sempre atacando muito o preconceito linguístico e propondo práticas pedagógicas democratizadoras. Que a criança, ao chegar na escola falando uma variedade regional menos próxima do padrão, não seja discriminada. Nosso trabalho atualmente se centra muito na escola, nos materiais didáticos e na formação dos professores de português, para que não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação.
Além disso, vale considerar que, em menos de meio século, a proporção mundial entre a população urbana e a rural ficou muito desigual, com a população mundial muito mais urbanizada. A urbanização implica o contato com formas linguísticas de maior prestigio, na televisão, na escola, na leitura etc. Isso vai implicar também uma espécie de nivelamento linguístico. Embora as variedades linguísticas se mantenham, quanto mais pessoas souberem ler e escrever e tiverem ascensão social, é mais provável que haja um nivelamento linguístico maior.
No caso específico do Brasil, nos últimos oito anos, quase 30 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e com isso vão impor também sua maneira de falar. Outro dado muito importante é que a grande maioria das pessoas que se formam professores (de português, principalmente) vem dessas camadas sociais. Portanto, o professor que está indo para sala de aula já é falante dessas variedades linguísticas que antigamente eram estigmatizadas. Isso vai provocar um grande movimento de valorização dessas variedades menos prestigiadas. Estamos assistindo a um momento muito importante da história sociolinguística do Brasil
24 de dezembro de 2010 às 15:41h
Marcos Bagno, escritor e linguista brasileiro, deixa à mostra a ideologia de exclusão social e de dominação política pela língua
Por Joana Moncau*
Marcos Bagno, escritor e linguista brasileiro, deixa à mostra a ideologia de exclusão social e de dominação política pela língua, típica das sociedades ocidentais. “Podemos amar e cultivar nossas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias”.
O preconceito linguístico é um preconceito social. Para isso aponta a afiada análise do escritor e linguista Marcos Bagno, brasileiro de Minas Gerais. Autor de mais de 30 livros, entre obras literárias e de divulgação científica, e professor da Universidade de Brasília, atualmente é reconhecido sobretudo por sua militância contra a discriminação social por meio da linguagem. No Brasil, tornou-se referência na luta pela democratização da linguagem e suas ideias têm exercido importante influência nos cursos de Letras e Pedagogia.
A importância de atingir esse meio, segundo ele, é que o combate ao preconceito linguístico passa principalmente pelas práticas escolares: é preciso que os professores se conscientizem e não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação. Preconceito mais antigo que o cristianismo, para Bagno, a língua desde longa data é instrumentalizada pelos poderes oficiais como um mecanismo de controle social. Dialeto e língua, fala correta e incorreta: na entrevista concedida a Desinformémonos, ele desnaturaliza esses conceitos e deixa à mostra a ideologia de exclusão e de dominação política pela língua, tão impregnada nas sociedades ocidentais.
“A língua é um dialeto com exército e marinha”, Max Weinreich
O controle social é feito oficialmente quando um Estado escolhe uma língua ou uma determinada variedade linguística para se tornar a língua oficial. Evidentemente qualquer processo de seleção implica um processo de exclusão. Quando, em um país, existem várias línguas faladas, e uma delas se torna oficial, as demais línguas passam a ser objeto de repressão.
É muito antiga a tradição de distinguir a língua associada ao símbolo de poder dos dialetos. O uso do termo dialeto sempre foi carregado de preconceito racial ou cultural. Nesse emprego, dialeto é associado a uma maneira errada, feia ou má de se falar uma língua. Também é uma maneira de distinguir a língua dos povos civilizados, brancos, das formas supostamente primitivas de falar dos povos selvagens. Essa forma de classificação é tão poderosa que se erradicou no inconsciente da maioria das pessoas, inclusive as que declaram fazer um trabalho politicamente correto.
De fato, a separação entre língua e dialeto é eminentemente política e escapa aos critérios que os linguistas tentam estabelecer para delimitar dita separação. A eleição de um dialeto, ou de uma língua, para ocupar o cargo de língua oficial, renega, no mesmo gesto político, todas as outras variedades de língua de um mesmo território à terrível escuridão do não-ser. A referência do que vem de cima, do poder, das classes dominantes, cria aos falantes das variedades de língua sem prestígio social e cultural um complexo de inferioridade, uma baixo auto-estima linguística, a qual os sociolinguistas catalães chamam de “auto-ódio”.
Falar de uma língua é sempre mover-se no terreno pantanoso das crenças, superstições, ideologia e representações. A Língua é um objeto criado, normatizado, institucionalizado para garantir a unidade política de um Estado sob o mote tradicional: “um país, um povo, uma língua”. Durante muitos séculos, para conseguir a desejada unidade nacional, muitas línguas foram e são emudecidas, muitas populações foram e são massacradas, povos inteiros foram calados e exterminados. No continente americano, temos uma história tristíssima de colonização construída sobre milhares de cadáveres de indígenas que já estavam aqui quando os europeus invadiram suas terras ancestrais e dos africanos escravizados que foram trazidos para cá contra sua vontade.
Não podemos esquecer que o que chamamos de “língua espanhola”, “língua portuguesa”, ou “língua inglesa” tem um rico histórico, não é algo que nasceu naturalmente. Podemos amar e cultivar essas línguas, mas sem esquecer o preço altíssimo que muita gente pagou para que elas se implantassem como idiomas nacionais e línguas pátrias.
Breve histórico linguístico da América Latina
A história linguística da América Latina foi e é marcada por muita violência contra as populações não-brancas, em todos os sentidos, dos massacres propriamente ditos, passando pela escravização e chegando aos dias de hoje com a exclusão social e o racismo.
No caso específico das línguas, as potências coloniais (Portugal e Espanha) se empenharam sistematicamente em impor suas línguas. As situações variam de país a país. Na Argentina, por exemplo, depois da independência, o governo traçou um plano explícito de extermínio dos indígenas, a chamada “Conquista do Deserto”, pagando em dinheiro às pessoas que levassem escalpos como prova do assassinato. Com isso, a população indígena da Argentina, principalmente do centro para o sul, desapareceu quase completamente, e com ela suas línguas.
No Peru e na Bolívia, a língua quéchua, que era uma espécie de idioma internacional do império inca, é muito empregada até hoje, havendo mesmo comunidades mais isoladas cujos falantes não sabem falar espanhol.
No Brasil, o trabalho de imposição do português foi muito bem feito, de maneira que é a língua homogênea da população. O extermínio dos índios fez desaparecer centenas de línguas: hoje sobrevivem cerca de 180, mas faladas por muito pouca gente, algumas já em vias de extinção. Durante boa parte do período colonial, a língua mais usada no Brasil foi a chamada “língua geral”, baseada no tupi antigo, que os jesuítas empregaram para catequizar os índios. Com a expulsão dos jesuítas no século XVIII e a proibição do ensino em qualquer língua que não fosse o português, a língua geral desapareceu. É uma pena que não tenhamos uma riqueza linguística como no México, que possui mais de 50 línguas diferentes, sendo que o nahua é falado por cerca de 1 milhão de pessoas. Ainda assim, essas minorias linguísticas no Brasil estão cada vez mais reconhecendo seus direitos e lutando por eles.
Quanto às línguas africanas no Brasil, elas não puderam sobreviver porque os portugueses tomavam cuidado para separar as famílias em lotes diferentes bem como os falantes de uma mesma língua, de modo que fossem obrigados a aprender o português para se comunicar entre si e com os brancos. Mesmo assim, as línguas africanas, sobretudo as do grupo banto, influíram fortemente na formação do português brasileiro, fazendo com que ele se tornasse o que é hoje, uma língua bem diferente do português europeu.
No Paraguai, como não houve expulsão dos jesuítas, a língua geral empregada por eles, o abanheenga (guarani), permanece até hoje como elemento importante da vida dos paraguaios, que são bilíngues em sua maioria: espanhol e guarani.
Falar errado? Para quem?
Também existe uma ideologia linguística que não é oficializada, mas que ao longo do tempo se instaura na sociedade. Em qualquer tipo de comunidade humana sempre existe um grupo que detém o poder e que considera que seu modo de falar é o mais interessante, o mais bonito, é aquele que deve ser preservado e até imposto aos demais.
Nas sociedades ocidentais as línguas oficiais sempre foram objetos de investimento político. As línguas são codificadas pelas gramáticas, pelos dicionários, elas são objetos de pedagogias, são ensinadas. Claro que essa língua que é normatizada nunca corresponde às formas usuais da língua, sempre há uma distância muito grande entre o que as pessoas realmente falam no seu dia-a-dia, na sua vida íntima e comunitária, e a língua oficializada e padronizada.
A questão da língua é a única que une todo o espectro linguístico, ou seja, a pessoa da mais extrema esquerda e da mais extrema direita geralmente concordam, por exemplo, diante da afirmação de que os brasileiros falam português muito mal. É uma ideologia muito antiga, eu digo que é uma religião mais antiga que o cristianismo, porque surgiu entre os gramáticos gregos 300 anos antes de Cristo e se impregnou na nossa cultura ocidental de maneira muito forte.
Entretanto, ao mesmo tempo em que as classes dominantes diziam que era preciso impor o padrão para todo o mundo, elas não permitiam às classes dominadas o acesso a ele. Havia essa contradição, que na verdade não é uma contradição, mas uma estratégia político-ideológica: “Você tem que se comportar assim, mas não vou te ensinar como”. Isso, para as classes dominantes terem, além de outros instrumentos de controle social, também o controle da língua. É o que Pierre Bourdieu chama de a ‘língua legítima’: as classes dominadas reconhecem a língua legitima, mas não a conhecem. Ou seja, elas sabem que existe um modo de falar que é considerado bonito, importante, mas elas não têm acesso a ele.
O preconceito linguístico nas sociedades ocidentais é derivado principalmente das práticas escolares. A escola sempre foi muito autoritária, muitas vezes as pessoas tinham que esquecer a língua que já sabiam e aprender um modelo de língua. Qualquer manifestação fora desse modelo era considerada erro, e a pessoa era reprimida, censurada, ridicularizada.
Outro grande perpetuador da discriminação linguística são os meio de comunicação. Infelizmente, pois eles poderiam ser instrumentos maravilhosos para a democratização das relações linguísticas da sociedade. No Brasil, por serem estreitamente vinculados às classes dominantes e às oligarquias, assumiram o papel de defensores dessa língua portuguesa que supostamente estaria ameaçada. Não interessa se 190 milhões de brasileiros usam uma determinada forma linguística, eles estão todos errados e o que apregoam como certo é aquela forma que está consolidada há séculos. Isso ficou muito evidente durante todas as campanhas presidenciais de que Lula participou. Uma das principais acusações que seus adversários faziam era essa: como um operário sem curso superior, que não sabe falar, vai saber dirigir o país? Mesmo depois de eleito, não cessaram as acusações de que falava errado. A mídia se portava como a preservadora de um padrão linguístico ameaçado inclusive pelo presidente da República.
Nessas sociedades e nessas culturas muito centradas na escrita, o padrão sempre se inspira na escrita literária. Falar como os grandes escritores escreveram é o objetivo místico que as culturas letradas propõem. Como ninguém fala como os grandes escritores escrevem, a população inteira em teoria fala errado, porque esse ideal é praticamente inalcançável.
Entretanto, isso é muito contraditório, porque os ensinos tradicionais de língua dizem que temos que imitar os clássicos, mas ao mesmo tempo somos proibidos de fazer o que os grandes autores fazem, que é a licença poética. Como aprendemos nas escolas, ela é permitida àquele que em teoria sabe tão bem a língua que pode se dar ao luxo de desrespeitar as normas. A diferença entre a licença poética e o erro gramatical é, basicamente, de classe social. Uma pessoa pela sua própria origem social se dá ao direito e tem esse direito reconhecido de falar como quiser, outra, também por sua origem social não tem esse direito.
Cria-se um padrão linguístico muito irreal, muito distante da realidade vivida da língua. É a partir desse confronto entre a maneira de falar das pessoas e essa língua codificada, que surgem esses conflitos linguísticos. A pessoa, ao comparar seu modo de falar com aquilo que aprende na escola ou com o que é codificado, vê a distância que existe entre essas duas entidades e passa a achar que seu modo de falar é feio, é errado.
Qualquer tipo de imposição linguística acaba gerando um efeito contrário que é a auto-rejeição linguística ou a promoção de um preconceito linguístico por parte das camadas sociais dominantes.
Luta contra o preconceito linguístico
Acabar com o preconceito linguístico é uma coisa difícil. É preciso sempre que façamos a distinção entre preconceito e discriminação. O que nós temos que combater é a discriminação, ou seja, quando esse preconceito deixa de ser apenas uma atitude ou um modo de pensar das pessoas e se transforma em práticas sociais.
Primeiro é preciso reconhecer a existência do preconceito linguístico, conhecer os modos como ele se manifesta concretamente como atitudes e práticas sociais, denunciar isso e criar modos de combatê-lo.
Justamente pelo fato de o preconceito linguístico nas sociedades ocidentais ser derivado das práticas escolares, na minha opinião, o grande mecanismo para começar a desfazer o preconceito linguístico, a discriminação linguística, está também na pratica escolar. É muito importante que a escola, em sociedades letradas como a nossa, permita ao aluno esse processo do acesso ao letramento a partir de práticas pedagógicas democratizadoras, em que as variações linguísticas sejam reconhecidas como prática da cultura nacional, que não sejam ridicularizadas. E é claro que isso tem um funcionamento político muito importante, não só na escola, mas em toda a sociedade.
Por isso que no Brasil, eu e um conjunto de outros linguistas e educadores estamos sempre atacando muito o preconceito linguístico e propondo práticas pedagógicas democratizadoras. Que a criança, ao chegar na escola falando uma variedade regional menos próxima do padrão, não seja discriminada. Nosso trabalho atualmente se centra muito na escola, nos materiais didáticos e na formação dos professores de português, para que não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação.
Além disso, vale considerar que, em menos de meio século, a proporção mundial entre a população urbana e a rural ficou muito desigual, com a população mundial muito mais urbanizada. A urbanização implica o contato com formas linguísticas de maior prestigio, na televisão, na escola, na leitura etc. Isso vai implicar também uma espécie de nivelamento linguístico. Embora as variedades linguísticas se mantenham, quanto mais pessoas souberem ler e escrever e tiverem ascensão social, é mais provável que haja um nivelamento linguístico maior.
No caso específico do Brasil, nos últimos oito anos, quase 30 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e com isso vão impor também sua maneira de falar. Outro dado muito importante é que a grande maioria das pessoas que se formam professores (de português, principalmente) vem dessas camadas sociais. Portanto, o professor que está indo para sala de aula já é falante dessas variedades linguísticas que antigamente eram estigmatizadas. Isso vai provocar um grande movimento de valorização dessas variedades menos prestigiadas. Estamos assistindo a um momento muito importante da história sociolinguística do Brasil
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
internet - linguística - O que tiver de ser será
PASQUALE CIPRO NETO
COLUNISTA DA FOLHA
"Delenda Carthago." Era com essa frase que o senador romano Catão terminava seus discursos no Senado.
Que significa essa sentença, que, na verdade, abrevia a forma "Carthago delenda est"? Significa simplesmente "Cartago (inimiga de Roma) deve ser destruída".
"Delenda" é da mesma família de "delere", verbo latino que deu origem, em português, a "delir", de que deriva o adjetivo "delével", cujo antônimo é "indelével", que significa... Significa o quê?
Significa "aquilo que não pode ser apagado, cancelado, destruído", o que nos faz deduzir que "delével" é "o que pode ser apagado, cancelado, destruído". Moral da história: "delir" significa "apagar, cancelar, destruir".
O caro leitor já ligou "delir" a "deletar"? Vamos lá: "deletar" vem do inglês "delete", que por sua vez, vem... Já ligou? Vem de "delere", do latim. Eta volta que as palavras dão! A globalização na língua começou muito antes do que a que está em voga.
Na verdade, o que ocorreu com "deletar", aportuguesamento de "delete", é o aproveitamento do termo com um sentido específico (o da informática), que, depois, foi se expandindo, até chegar a superar o arco semântico que o hoje desusado "delir" teve.
Esse ir e vir das palavras é fato das línguas. O senhor disso tudo, é sempre bom lembrar, é o uso. Se um termo pega, pega e fim; se não pega, não adianta tentar forçar. Os publicitários, por exemplo, querem porque querem impor o tolo termo "share", que se refere à participação nas vendas de um determinado produto no mercado.
Funcional no meio publicitário, o termo é grego puro para o povo. Melhor é deixar de frescura e usar "participação no mercado". Outro da lista dos tolos é "delay", que alguns apresentadores de TV insistem em usar quando o sinal demora para chegar. Em português isso é "atraso" ou "demora" mesmo. E fim.
E a nova engenhoca da informática, o tablet? Ou será "tablete"? Ou "prancheta"? Cá entre nós, "tablete" lembra chocolate, caldo de galinha, medicamento... Vai ser difícil o tal tablet virar "tablete" ou "prancheta" (cujo sentido está muito ligado à atividade de projetistas, desenhistas etc.). Para ser "prancheta", o nome teria de vir acompanhado de um adjetivo ("eletrônica", por exemplo), mas em língua o fator economia é muito forte...
Sinto que o que vai mesmo pegar é "tablet" ("táblet"). E, se pegar, assim será. É isso
Patoá a caminho do nada
RUY CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA
Eu upo, tu upas, ele upa; nós upamos, vós upais, eles upam.
Acabo de conjugar o novíssimo verbo upar -tão novo que talvez nem você o conheça. E, se não conhece, saiba que significa o mesmo que uploadear. O qual, depois de experimentado por uns tempos, foi condenado à morte por ser um destronca-línguas: eu uploadeio, tu uploadais, ele uploadeia; nós uploadeamos, vós uploadeias, eles uploadeiam. Nem os nerds conseguem conjugá-lo.
Tudo isso quer dizer apenas o nosso conhecido "fazer upload", ou "subir", ambos sendo usados há tanto tempo que já estão pedindo para sair. Bem, você sabe como é a língua: na sua necessidade diária de renovação, apodera-se de tudo que lhe passa pela frente -subjuga as palavras aos sentidos que lhe convêm, transforma substantivos em verbos, pinta os canecos e vida que segue. Nós que nos viremos para acompanhá-la.
É assim, por exemplo, que verbos como deletar, clicar, escanear, linkar e printar já saem com tanta naturalidade das bocas mais insuspeitas que não será surpresa se aparecerem nas próximas encarnações do Aurélio e do Houaiss. Não importa que, pelos últimos 500 anos, apagar, ligar, copiar, conectar e imprimir, respectivamente, tenham quebrado perfeitamente o galho.
Mas a língua não quer nem saber -alguém inventa um modismo e ela vai atrás. Hoje em dia, por exemplo, se o time adversário vai cobrar uma falta, os jogadores já não se colocam na barreira -posicionam-se. Ninguém mais ganha um novo amigo -adiciona-o. E nenhum computador é posto para funcionar -é inicializado. As pessoas já falam essas coisas sem pensar -e sem rir.
Admito que dizer touch- screen seja mais rápido e direto do que "tela sensível ao toque" -se você estiver com pressa. Mas que asneira é essa de chamar de cooler (ou fan) o velho ventilador ou ventoinha que evita o supe- raquecimento da caranguejola? E por aí vai. Temo que, em vez de criar uma nova língua, estejamos apenas dispensando a que temos. Esse patoá que, por jequice, cafonice ou macaquice, tem sido usado por aí nunca será inglês -e já está deixando de ser português.
Ah, sim, "tablet". É como batizamos aqui o aparelhinho do iPad -imagine se iríamos chamá-lo de tabuinha, tabuleta ou mesmo tablete, embora seja tudo uma coisa só: uma pequena tábua (à qual aplicamos uma folha ou um bloco de papel) para escrever coisas. Todos vêm do latim "tabula" -tábua, mesa-, que também gerou tabela, tabelião, tablado, tabuada, tabuleiro, távola, e verbos como tabelar, tabular, entabular.
E só agora me ocorre o substituto ideal para "tablet": prancheta. Pode ser eletrônica e cheia de nove-horas, mas, no fundo, não passa disso: uma prancheta. Sorry, folks.
COLUNISTA DA FOLHA
"Delenda Carthago." Era com essa frase que o senador romano Catão terminava seus discursos no Senado.
Que significa essa sentença, que, na verdade, abrevia a forma "Carthago delenda est"? Significa simplesmente "Cartago (inimiga de Roma) deve ser destruída".
"Delenda" é da mesma família de "delere", verbo latino que deu origem, em português, a "delir", de que deriva o adjetivo "delével", cujo antônimo é "indelével", que significa... Significa o quê?
Significa "aquilo que não pode ser apagado, cancelado, destruído", o que nos faz deduzir que "delével" é "o que pode ser apagado, cancelado, destruído". Moral da história: "delir" significa "apagar, cancelar, destruir".
O caro leitor já ligou "delir" a "deletar"? Vamos lá: "deletar" vem do inglês "delete", que por sua vez, vem... Já ligou? Vem de "delere", do latim. Eta volta que as palavras dão! A globalização na língua começou muito antes do que a que está em voga.
Na verdade, o que ocorreu com "deletar", aportuguesamento de "delete", é o aproveitamento do termo com um sentido específico (o da informática), que, depois, foi se expandindo, até chegar a superar o arco semântico que o hoje desusado "delir" teve.
Esse ir e vir das palavras é fato das línguas. O senhor disso tudo, é sempre bom lembrar, é o uso. Se um termo pega, pega e fim; se não pega, não adianta tentar forçar. Os publicitários, por exemplo, querem porque querem impor o tolo termo "share", que se refere à participação nas vendas de um determinado produto no mercado.
Funcional no meio publicitário, o termo é grego puro para o povo. Melhor é deixar de frescura e usar "participação no mercado". Outro da lista dos tolos é "delay", que alguns apresentadores de TV insistem em usar quando o sinal demora para chegar. Em português isso é "atraso" ou "demora" mesmo. E fim.
E a nova engenhoca da informática, o tablet? Ou será "tablete"? Ou "prancheta"? Cá entre nós, "tablete" lembra chocolate, caldo de galinha, medicamento... Vai ser difícil o tal tablet virar "tablete" ou "prancheta" (cujo sentido está muito ligado à atividade de projetistas, desenhistas etc.). Para ser "prancheta", o nome teria de vir acompanhado de um adjetivo ("eletrônica", por exemplo), mas em língua o fator economia é muito forte...
Sinto que o que vai mesmo pegar é "tablet" ("táblet"). E, se pegar, assim será. É isso
Patoá a caminho do nada
RUY CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA
Eu upo, tu upas, ele upa; nós upamos, vós upais, eles upam.
Acabo de conjugar o novíssimo verbo upar -tão novo que talvez nem você o conheça. E, se não conhece, saiba que significa o mesmo que uploadear. O qual, depois de experimentado por uns tempos, foi condenado à morte por ser um destronca-línguas: eu uploadeio, tu uploadais, ele uploadeia; nós uploadeamos, vós uploadeias, eles uploadeiam. Nem os nerds conseguem conjugá-lo.
Tudo isso quer dizer apenas o nosso conhecido "fazer upload", ou "subir", ambos sendo usados há tanto tempo que já estão pedindo para sair. Bem, você sabe como é a língua: na sua necessidade diária de renovação, apodera-se de tudo que lhe passa pela frente -subjuga as palavras aos sentidos que lhe convêm, transforma substantivos em verbos, pinta os canecos e vida que segue. Nós que nos viremos para acompanhá-la.
É assim, por exemplo, que verbos como deletar, clicar, escanear, linkar e printar já saem com tanta naturalidade das bocas mais insuspeitas que não será surpresa se aparecerem nas próximas encarnações do Aurélio e do Houaiss. Não importa que, pelos últimos 500 anos, apagar, ligar, copiar, conectar e imprimir, respectivamente, tenham quebrado perfeitamente o galho.
Mas a língua não quer nem saber -alguém inventa um modismo e ela vai atrás. Hoje em dia, por exemplo, se o time adversário vai cobrar uma falta, os jogadores já não se colocam na barreira -posicionam-se. Ninguém mais ganha um novo amigo -adiciona-o. E nenhum computador é posto para funcionar -é inicializado. As pessoas já falam essas coisas sem pensar -e sem rir.
Admito que dizer touch- screen seja mais rápido e direto do que "tela sensível ao toque" -se você estiver com pressa. Mas que asneira é essa de chamar de cooler (ou fan) o velho ventilador ou ventoinha que evita o supe- raquecimento da caranguejola? E por aí vai. Temo que, em vez de criar uma nova língua, estejamos apenas dispensando a que temos. Esse patoá que, por jequice, cafonice ou macaquice, tem sido usado por aí nunca será inglês -e já está deixando de ser português.
Ah, sim, "tablet". É como batizamos aqui o aparelhinho do iPad -imagine se iríamos chamá-lo de tabuinha, tabuleta ou mesmo tablete, embora seja tudo uma coisa só: uma pequena tábua (à qual aplicamos uma folha ou um bloco de papel) para escrever coisas. Todos vêm do latim "tabula" -tábua, mesa-, que também gerou tabela, tabelião, tablado, tabuada, tabuleiro, távola, e verbos como tabelar, tabular, entabular.
E só agora me ocorre o substituto ideal para "tablet": prancheta. Pode ser eletrônica e cheia de nove-horas, mas, no fundo, não passa disso: uma prancheta. Sorry, folks.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Aulas de linguagem para uma máquina
NYT
Por STEVE LOHR
Poucos desafios na computação parecem maiores que compreender o significado da linguagem. Um motivo disso é que a semântica, o significado das palavras e frases, não depende somente do contexto, mas também do conhecimento prévio que os humanos adquirem ao longo dos anos.
Pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh (Pensilvânia), estão aperfeiçoando um sistema de computador que tenta dominar a semântica aprendendo mais como um ser humano.
"Apesar de todos os avanços na informática, ainda não temos um computador capaz de aprender como as pessoas, de maneira cumulativa, em longo prazo", disse o líder da equipe, Tom M. Mitchell, um cientista da computação e presidente do departamento de aprendizado de máquinas.
O sistema "Never-Ending Language Learning (NELL)" -aprendizado de linguagem sem fim- fez uma demonstração impressionante. Ele escaneia centenas de milhões de páginas da web em busca de padrões de texto, os quais utiliza para aprender fatos -390 mil até hoje, com uma precisão estimada em 87%. Esses fatos são agrupados em categorias semânticas- cidades, times esportivos, atores, plantas e outras 276.
Os fatos são coisas como "San Francisco é uma cidade" e "girassol é uma planta".
NELL é um projeto de um campo que está em ampliação. Muitas dessas iniciativas usam a web como um rico tesouro de textos para reunir descrições formais de conceitos e relações e ajudar os computadores a imitar a compreensão humana.
Por exemplo, a máquina de "resposta a perguntas" da IBM, chamada Watson, demonstra uma notável compreensão semântica em campos como história, literatura e esportes.
A abordagem da Carnegie Mellon se destaca. "O que é excitante e significativo nisto é o aprendizado contínuo, como se NELL exercitasse a curiosidade por conta própria, com pouca ajuda humana", disse Oren Etzioni, cientista da computação da Universidade de Washington.
As potenciais aplicações dos computadores que compreendem linguagem vão de pesquisa inteligente a assistentes pessoais virtuais capazes de responder a perguntas.
Com NELL, os pesquisadores montaram uma base de conhecimento, alimentando cada categoria com dez a 15 exemplos que são verdadeiros.
Então os programas do NELL extraem e classificam frases de texto da web e procuram padrões e correlações. Por exemplo, quando o sistema de computador lê a frase "Pikes Peak", ele estuda a estrutura -duas palavras, cada qual começando com letra maiúscula, e a última palavra é "peak". Essa estrutura por si só poderia significar que "Pikes Peak" é uma montanha. Mas o NELL também vai garimpar diversas vezes frases que rodeiam "Pikes Peak" e frases com palavras semelhantes.
Esse tipo de julgamento matizado tende a confundir os computadores. "Mas um sistema como este funciona melhor se você o obrigar a aprender muitas coisas, centenas ao mesmo tempo", disse o doutor Mitchell.
Por exemplo, a frase de texto "eu galguei XXX" costuma ocorrer com uma montanha. Mas quando NELL lê "eu galguei escadas", aprendeu anteriormente que "escadas" pertence à categoria "parte de edifício". "Ele se corrige quando tem mais informação, conforme aprende mais", explicou.
NELL ainda precisa de ajuda humana. Quando o doutor Mitchell escaneou a categoria "produtos assados" recentemente, notou que no início havia um padrão claro. Mas as coisas se complicaram depois que o classificador de frases de NELL decidiu que "cookies da internet" era um produto assado.
NELL já tinha lido a sentença "eu deletei meus cookies da internet". Por isso, quando leu "eu deletei meus arquivos", decidiu que "arquivos" provavelmente também era um produto assado. "Ele iniciou toda uma avalanche de erros", disse o doutor Mitchell. Ele corrigiu o erro dos cookies da internet e reiniciou a educação de NELL sobre padarias.
Seu ideal, disse Mitchell, é um computador capaz de aprender sem ajuda humana. "Ainda não chegamos lá", disse. "Mas você e eu também não aprendemos isoladamente."
Por STEVE LOHR
Poucos desafios na computação parecem maiores que compreender o significado da linguagem. Um motivo disso é que a semântica, o significado das palavras e frases, não depende somente do contexto, mas também do conhecimento prévio que os humanos adquirem ao longo dos anos.
Pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh (Pensilvânia), estão aperfeiçoando um sistema de computador que tenta dominar a semântica aprendendo mais como um ser humano.
"Apesar de todos os avanços na informática, ainda não temos um computador capaz de aprender como as pessoas, de maneira cumulativa, em longo prazo", disse o líder da equipe, Tom M. Mitchell, um cientista da computação e presidente do departamento de aprendizado de máquinas.
O sistema "Never-Ending Language Learning (NELL)" -aprendizado de linguagem sem fim- fez uma demonstração impressionante. Ele escaneia centenas de milhões de páginas da web em busca de padrões de texto, os quais utiliza para aprender fatos -390 mil até hoje, com uma precisão estimada em 87%. Esses fatos são agrupados em categorias semânticas- cidades, times esportivos, atores, plantas e outras 276.
Os fatos são coisas como "San Francisco é uma cidade" e "girassol é uma planta".
NELL é um projeto de um campo que está em ampliação. Muitas dessas iniciativas usam a web como um rico tesouro de textos para reunir descrições formais de conceitos e relações e ajudar os computadores a imitar a compreensão humana.
Por exemplo, a máquina de "resposta a perguntas" da IBM, chamada Watson, demonstra uma notável compreensão semântica em campos como história, literatura e esportes.
A abordagem da Carnegie Mellon se destaca. "O que é excitante e significativo nisto é o aprendizado contínuo, como se NELL exercitasse a curiosidade por conta própria, com pouca ajuda humana", disse Oren Etzioni, cientista da computação da Universidade de Washington.
As potenciais aplicações dos computadores que compreendem linguagem vão de pesquisa inteligente a assistentes pessoais virtuais capazes de responder a perguntas.
Com NELL, os pesquisadores montaram uma base de conhecimento, alimentando cada categoria com dez a 15 exemplos que são verdadeiros.
Então os programas do NELL extraem e classificam frases de texto da web e procuram padrões e correlações. Por exemplo, quando o sistema de computador lê a frase "Pikes Peak", ele estuda a estrutura -duas palavras, cada qual começando com letra maiúscula, e a última palavra é "peak". Essa estrutura por si só poderia significar que "Pikes Peak" é uma montanha. Mas o NELL também vai garimpar diversas vezes frases que rodeiam "Pikes Peak" e frases com palavras semelhantes.
Esse tipo de julgamento matizado tende a confundir os computadores. "Mas um sistema como este funciona melhor se você o obrigar a aprender muitas coisas, centenas ao mesmo tempo", disse o doutor Mitchell.
Por exemplo, a frase de texto "eu galguei XXX" costuma ocorrer com uma montanha. Mas quando NELL lê "eu galguei escadas", aprendeu anteriormente que "escadas" pertence à categoria "parte de edifício". "Ele se corrige quando tem mais informação, conforme aprende mais", explicou.
NELL ainda precisa de ajuda humana. Quando o doutor Mitchell escaneou a categoria "produtos assados" recentemente, notou que no início havia um padrão claro. Mas as coisas se complicaram depois que o classificador de frases de NELL decidiu que "cookies da internet" era um produto assado.
NELL já tinha lido a sentença "eu deletei meus cookies da internet". Por isso, quando leu "eu deletei meus arquivos", decidiu que "arquivos" provavelmente também era um produto assado. "Ele iniciou toda uma avalanche de erros", disse o doutor Mitchell. Ele corrigiu o erro dos cookies da internet e reiniciou a educação de NELL sobre padarias.
Seu ideal, disse Mitchell, é um computador capaz de aprender sem ajuda humana. "Ainda não chegamos lá", disse. "Mas você e eu também não aprendemos isoladamente."
sábado, 14 de agosto de 2010
terça-feira, 21 de julho de 2009
WITTGENSTEIN: SÓ O ESSENCIAL
“Há mais coisas entre o céu e a Terra do que em toda sua filosofia, Horácio. Hamlet.” Ou Amleto. Que nós, cortesia da tradução de Onestaldo de Pennafort, nos acostumamos a citar e a encenar como “vã filosofia”.
Questões de métrica. E por métrica, Amleto esculhambou o pobre do Horácio que tinha de aguentar todas as frescuras do empombado príncipe dinamarquês.
Há mesmo mais coisas do que toda filosofia que conhecemos ou fingimos conhecer. Wittgenstein é um bom exemplo. Principalmente porque todo mundo continua, séculos depois de sua morte, tentando entender qual era a do, conforme ele insistia em ser chamado, genial austríaco.
Ludwig Wittgenstein abafou aqui nos meios acadêmicos britânicos. Bertrand Russell ficou tão entusiasmado que quase que leva uma porrada feia na cabeça por causa de uma discussão filosófica.
Deve ter sido qualquer argumento falacioso que ele usou em seu célebre Briefe an Ludwig von Ficker (Salzburgo, 1969).
Ou terá sido a sua filosofada mais citada e que até hoje, como toda boa filosofia, dá panos para manga, como só os grandes alfaiates dão.
É, aquela frase. Manjamos. Aquela de que aquilo de que não se podia falar o melhor era manter um silêncio em torno. Não necessariamente respeitoso. Bastava calar a boca. Que em boca fechada não entra peixe.
A outra grande sacada do bom Wittgenstein foi aquela logo no começo do popular Tractatus.
Aquela que, como em toda gloriosa, e não vã, filosofia, vem sempre precedida de uns numerosinhos. Como se isso fosse facilitar a coisa. Então vejamos. O tal do tratado, suas primeiras linhas.
“1.1 O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas. A totalidade, ainda que dos fatos e não das coisas, é apenas aquilo em cuja dependência surge o nome e a concepção ‘o mundo’, e o nome e a concepção surgidas na dependência de algo que não são esse algo, em cuja dependência surgem aquele nome e aquela concepção. Ademais, a totalidade dos fatos é apenas uma, ao passo que tudo aquilo que é o caso são muitos, razão pela qual esta proposição contradiz a anterior, já em si mesma contraditória.”
Como podemos notar, a coisa não é tão complicada assim. Seguindo as indagações preciosas de Wittgenstein, se não podemos dizer blicas sobre o enunciado, botuca, boneco.
E vai daí. Dos fatos no espaço lógico constituírem o mundo à figuração lógica dos fatos ser o pensamento.
O mágico vienense mandou firme brasa nas gentes acostumadas a uma boa discussão na Flip entre Chico Buarque e Milton Hatoum. Entortaria os dois, mais a platéia e qualquer grande dama do mundo irlandês das letras.
Ludwig Wittgenstein, conforme seus enunciados sibilinos (ao menos para mim), também tinha suas horas de deixar que o mundo fosse tudo aquilo que fosse o caso. Feito eu e você.
Regozijei ao ler sobre o homem que, como todos nós, comia, bebia, chutava chapinha, tinhas seus likes e dislikes.
Principalmente quando soube que ele era vidrado em ficção policial barata – pulp fiction, confere? – e, atenção, Betty Hutton e Carmen Miranda. Precisamente. As chamadas “Loura Incendiária” e “Pequena Notável”.
Era mais do que vidrado. Adorava, punha num altar e queimava incenso diante de pôsteres de uma e outra.
Foi o que revelou David Toop, num livro-ensaio-biografia de Wittgenstein. Infelizmente o tal de Toop cai de pau nas duas. Chama-as de duas das mais desagradáveis estrelas a atingirem e afligirem Hollywood.
O mundo pode ser tudo que é o caso. Com uma única exceção. David Toop. Que não vem ao caso, não tem importância, não foi e nem será convidado para a próxima Flip. O caso é esse.
Questões de métrica. E por métrica, Amleto esculhambou o pobre do Horácio que tinha de aguentar todas as frescuras do empombado príncipe dinamarquês.
Há mesmo mais coisas do que toda filosofia que conhecemos ou fingimos conhecer. Wittgenstein é um bom exemplo. Principalmente porque todo mundo continua, séculos depois de sua morte, tentando entender qual era a do, conforme ele insistia em ser chamado, genial austríaco.
Ludwig Wittgenstein abafou aqui nos meios acadêmicos britânicos. Bertrand Russell ficou tão entusiasmado que quase que leva uma porrada feia na cabeça por causa de uma discussão filosófica.
Deve ter sido qualquer argumento falacioso que ele usou em seu célebre Briefe an Ludwig von Ficker (Salzburgo, 1969).
Ou terá sido a sua filosofada mais citada e que até hoje, como toda boa filosofia, dá panos para manga, como só os grandes alfaiates dão.
É, aquela frase. Manjamos. Aquela de que aquilo de que não se podia falar o melhor era manter um silêncio em torno. Não necessariamente respeitoso. Bastava calar a boca. Que em boca fechada não entra peixe.
A outra grande sacada do bom Wittgenstein foi aquela logo no começo do popular Tractatus.
Aquela que, como em toda gloriosa, e não vã, filosofia, vem sempre precedida de uns numerosinhos. Como se isso fosse facilitar a coisa. Então vejamos. O tal do tratado, suas primeiras linhas.
“1.1 O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas. A totalidade, ainda que dos fatos e não das coisas, é apenas aquilo em cuja dependência surge o nome e a concepção ‘o mundo’, e o nome e a concepção surgidas na dependência de algo que não são esse algo, em cuja dependência surgem aquele nome e aquela concepção. Ademais, a totalidade dos fatos é apenas uma, ao passo que tudo aquilo que é o caso são muitos, razão pela qual esta proposição contradiz a anterior, já em si mesma contraditória.”
Como podemos notar, a coisa não é tão complicada assim. Seguindo as indagações preciosas de Wittgenstein, se não podemos dizer blicas sobre o enunciado, botuca, boneco.
E vai daí. Dos fatos no espaço lógico constituírem o mundo à figuração lógica dos fatos ser o pensamento.
O mágico vienense mandou firme brasa nas gentes acostumadas a uma boa discussão na Flip entre Chico Buarque e Milton Hatoum. Entortaria os dois, mais a platéia e qualquer grande dama do mundo irlandês das letras.
Ludwig Wittgenstein, conforme seus enunciados sibilinos (ao menos para mim), também tinha suas horas de deixar que o mundo fosse tudo aquilo que fosse o caso. Feito eu e você.
Regozijei ao ler sobre o homem que, como todos nós, comia, bebia, chutava chapinha, tinhas seus likes e dislikes.
Principalmente quando soube que ele era vidrado em ficção policial barata – pulp fiction, confere? – e, atenção, Betty Hutton e Carmen Miranda. Precisamente. As chamadas “Loura Incendiária” e “Pequena Notável”.
Era mais do que vidrado. Adorava, punha num altar e queimava incenso diante de pôsteres de uma e outra.
Foi o que revelou David Toop, num livro-ensaio-biografia de Wittgenstein. Infelizmente o tal de Toop cai de pau nas duas. Chama-as de duas das mais desagradáveis estrelas a atingirem e afligirem Hollywood.
O mundo pode ser tudo que é o caso. Com uma única exceção. David Toop. Que não vem ao caso, não tem importância, não foi e nem será convidado para a próxima Flip. O caso é esse.
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