Mostrando postagens com marcador musica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador musica. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
música - Linguística: Taiguara - "Que as crianças cantem livres!" - PASQUALE CIPRO NETO
--------------------------------------------------------------------------------
Os muros a que se refere Taiguara são sobretudo os metafóricos muros que separam as trevas da luz
--------------------------------------------------------------------------------
A ANTOLÓGICA "Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes", de Vinicius de Moraes, começa assim: "A morte chegou pelo interurbano (...). Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva. De repente, não tinha pai. No escuro de minha casa em Los Angeles...".
O diplomata Vinicius de Moraes servia nos Estados Unidos quando seu pai morreu. Se você não conhece essa "Elegia", trate de conhecer. Basta entrar no belíssimo site de Vinicius e ler. E chorar. Chorar muito. Nas artes, Vinicius é um dos meus tantos "pais". Sinto-me "órfão" dele, assim como me sinto órfão de Drummond e de outros tantos.
Na música popular, também tenho os meus "pais", muitos dos quais os leitores conhecem bem. Mas um deles talvez eu tenha citado poucas vezes ao longo dos anos. Refiro-me a Taiguara, que morreu em 14 de fevereiro de 1996, ou seja, há quinze anos. Eu estava em Portugal e, como Vinicius, recebi a notícia fúnebre pelo telefone. Imediatamente me senti, mais uma vez, "órfão" de um poeta sensível e refinado.
Na hora, lembrei-me de uma conversa com um querido amigo dos tempos de colégio, o hoje jornalista Delamar da Cruz, sobre uma cena que presenciamos em nossa adolescência. Em plena Copa de 70, com a ditadura e a lavagem cerebral a mil, a multidão se reunia nas ruas, na praça da Sé ou em frente ao teatro Municipal, para ouvir os jogos. Já havia TV direta, mas não havia telões. Nas ruas, o negócio era mesmo o rádio. Enquanto o jogo não começava, música. E Taiguara, dizendo em sua antológica "Hoje": "Hoje / As minhas mãos enfraquecidas e vazias / Procuram nuas pelas luas, pelas ruas... / Na solidão das noites frias por você (...) Hoje / Homens de aço esperam da ciência / Eu desespero e abraço a tua ausência / Que é o que me resta vivo em minha sorte".
Imagine o contraste entre o frenesi do povo e o sentido da letra de Taiguara... O caro leitor notou como o poeta trabalha o par verbal "esperam/desespero"? Por favor, leia "desespéro" (é verbo). Notou que, em "eu desespero", Taiguara emprega o verbo com o sentido de "perder a esperança"? Na letra, esse verbo pode ser tomado como transitivo indireto, com objeto indireto subentendido ("eu desespero da ciência") ou simplesmente como intransitivo ("eu desespero", com o sentido seco de "perco a esperança").
Taiguara era nobreza pura. Em outra obra-prima, "Maria do Futuro", diz ele: "Nessa rede ela prendeu / Minha dor civil, minha solidão. / Nessa rede eu vi nascer minha liberdade (...) E em cadeias de amor puro / viver guardado / Joga areias do futuro no meu passado". Maravilha! Que beleza a aparente antítese "rede/liberdade"! Que bela noção de liberdade cria o jogo rede/cadeias/areias (do futuro no meu passado)! Bem, para muita gente não é tão fácil assim captar o que é a verdadeira liberdade, sobretudo quando ela vem por imagens poéticas...
Encerro esta lembrança de Taiguara com versos de uma de suas antológicas canções, cujo nome é o título desta coluna: "Vê como um fogo brando funde um ferro duro / Vê como o asfalto é teu jardim se você crê / Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro / Chamando os homens pro seu tempo de viver / E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pôde amar sem dor...".
Os muros a que se refere Taiguara são muitos, mas são sobretudo os metafóricos muros das barreiras que separam as trevas da luz, a mediocridade da criatividade, a teimosia da abertura mental e psíquica, separam a inércia do movimento para a frente, para o novo, para a revisão do velho conceito. Onde estiver, um beijo, caro Taiguara. É isso
Os muros a que se refere Taiguara são sobretudo os metafóricos muros que separam as trevas da luz
--------------------------------------------------------------------------------
A ANTOLÓGICA "Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes", de Vinicius de Moraes, começa assim: "A morte chegou pelo interurbano (...). Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva. De repente, não tinha pai. No escuro de minha casa em Los Angeles...".
O diplomata Vinicius de Moraes servia nos Estados Unidos quando seu pai morreu. Se você não conhece essa "Elegia", trate de conhecer. Basta entrar no belíssimo site de Vinicius e ler. E chorar. Chorar muito. Nas artes, Vinicius é um dos meus tantos "pais". Sinto-me "órfão" dele, assim como me sinto órfão de Drummond e de outros tantos.
Na música popular, também tenho os meus "pais", muitos dos quais os leitores conhecem bem. Mas um deles talvez eu tenha citado poucas vezes ao longo dos anos. Refiro-me a Taiguara, que morreu em 14 de fevereiro de 1996, ou seja, há quinze anos. Eu estava em Portugal e, como Vinicius, recebi a notícia fúnebre pelo telefone. Imediatamente me senti, mais uma vez, "órfão" de um poeta sensível e refinado.
Na hora, lembrei-me de uma conversa com um querido amigo dos tempos de colégio, o hoje jornalista Delamar da Cruz, sobre uma cena que presenciamos em nossa adolescência. Em plena Copa de 70, com a ditadura e a lavagem cerebral a mil, a multidão se reunia nas ruas, na praça da Sé ou em frente ao teatro Municipal, para ouvir os jogos. Já havia TV direta, mas não havia telões. Nas ruas, o negócio era mesmo o rádio. Enquanto o jogo não começava, música. E Taiguara, dizendo em sua antológica "Hoje": "Hoje / As minhas mãos enfraquecidas e vazias / Procuram nuas pelas luas, pelas ruas... / Na solidão das noites frias por você (...) Hoje / Homens de aço esperam da ciência / Eu desespero e abraço a tua ausência / Que é o que me resta vivo em minha sorte".
Imagine o contraste entre o frenesi do povo e o sentido da letra de Taiguara... O caro leitor notou como o poeta trabalha o par verbal "esperam/desespero"? Por favor, leia "desespéro" (é verbo). Notou que, em "eu desespero", Taiguara emprega o verbo com o sentido de "perder a esperança"? Na letra, esse verbo pode ser tomado como transitivo indireto, com objeto indireto subentendido ("eu desespero da ciência") ou simplesmente como intransitivo ("eu desespero", com o sentido seco de "perco a esperança").
Taiguara era nobreza pura. Em outra obra-prima, "Maria do Futuro", diz ele: "Nessa rede ela prendeu / Minha dor civil, minha solidão. / Nessa rede eu vi nascer minha liberdade (...) E em cadeias de amor puro / viver guardado / Joga areias do futuro no meu passado". Maravilha! Que beleza a aparente antítese "rede/liberdade"! Que bela noção de liberdade cria o jogo rede/cadeias/areias (do futuro no meu passado)! Bem, para muita gente não é tão fácil assim captar o que é a verdadeira liberdade, sobretudo quando ela vem por imagens poéticas...
Encerro esta lembrança de Taiguara com versos de uma de suas antológicas canções, cujo nome é o título desta coluna: "Vê como um fogo brando funde um ferro duro / Vê como o asfalto é teu jardim se você crê / Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro / Chamando os homens pro seu tempo de viver / E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pôde amar sem dor...".
Os muros a que se refere Taiguara são muitos, mas são sobretudo os metafóricos muros das barreiras que separam as trevas da luz, a mediocridade da criatividade, a teimosia da abertura mental e psíquica, separam a inércia do movimento para a frente, para o novo, para a revisão do velho conceito. Onde estiver, um beijo, caro Taiguara. É isso
Marcadores:
Linguística,
musica,
psquale cipro neto,
taiguara
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
música e humor - Jararaca e Ratinho - O Sapo no Saco
http://www.youtube.com/watch?v=mvj51PiJMME&feature=player_embedded
domingo, 19 de dezembro de 2010
música - MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS - LUA Um mito do sertão - MUNIZ SODRÉ
Feira de Santana, 1954
MUNIZ SODRÉ
A MEMÓRIA É USINA de história, mas também de mitos. Não raro, ambos convivem, como me ocorreu ao dar um pequeno depoimento sobre Humberto Teixeira, o grande parceiro de Luiz Gonzaga, para o documentário "O homem que engarrafava nuvens". Na verdade, jamais vi em vida Humberto Teixeira, mas o associei ao grande "Lua", artista histórico e mítico de minha infância no interior baiano. Seu concerto para uma plateia de vaqueiros e feirantes no Campo do Gado é uma das mais vivas lembranças que guardo.
De fato, como apagar os traços de um concerto do rei do baião da memória de um menino do interior nordestino, enlevado por música, num tempo ainda sem TV e seus derivativos, sem a popularização do disco de 33 rpm, que revitalizaria a indústria da canção?
A cidade era Feira de Santana, a segunda maior da Bahia, e no começo dos anos 50 ainda fazia jus à alcunha de "Boca do Sertão". Situada a pouco mais de cem quilômetros de Salvador, Feira é a grande porta de entrada para o mundo sertanejo. Naquela época, ainda ocupava parte do centro e adjacências a grande feira de gado e alimentos, que recriava toda segunda-feira a atmosfera do sertão. Cantadores e camelôs de produtos miraculosos misturavam-se a vaqueiros, roceiros, fazendeiros, criadores de gado e vendedores de quase tudo que se possa imaginar de comestível no sertão.
Em épocas de estio inclemente, não era raro ver os caminhões de "paus de arara", como se alcunhavam os viventes tangidos pela seca rumo a São Paulo, parados à margem do mercado, famélicos, sem tostão para um beiju de mandioca sequer. Olhavam, olhavam, às vezes nostalgicamente, para os vaqueiros garbosos em seus gibões e chapéus de couro, facão na cintura e rebenque na mão, em cima de cavalos mais bem alimentados que os ginetes.
Quem sabia de vaqueiros, sabia, para além das aparências, da vida dura que levavam, da sua espantosa capacidade de sobreviver nas condições mais adversas da caatinga: parecia não haver seca nem fome que os matasse. No Campo de Gado, tangendo a boiada, faziam o espetáculo para os meninos que, escondidos dos pais, corriam atrás de bezerros e de bodes.
Luiz Gonzaga deixava siderada a gente do sertão. Só muito depois se saberia (e talvez ainda hoje nem se saiba) que o grande "Lua" inventou aquela coisa toda, os seus ritmos, no Rio de Janeiro, mais precisamente na Lapa, onde durante muito tempo cantou sambas e boleros. Pernambucano de Exu, ele parecia ter o dom do movimento que os cultos afrobrasileiros atribuem a quem carrega essa divindade na cabeça. Juntamente com Humberto Teixeira, cearense, político e intelectual apaixonado pelo Brasil, recriou musicalmente a atmosfera do sertão.
A canção gonzaguiana é um dialeto do imaginário nordestino, assim como o "jorjamadês" é a fala de uma Bahia imaginária.
Imaginário, veja-se bem, e não mentira, porque se tratava de recriação. O zabumba, o fole das sanfonas e os passos entrecortados dos forrós são reais; real era a existência de um baião originário ("no Ceará, os cegos pediam esmola em ritmo de baião", dizia Teixeira); sempre foi real a inclemência das secas; mas realmente feliz era o vaqueiro na hora do aboio. O Polígono das Secas era, sim, o Polígono do Baião. Teixeira e Gonzaga fizeram disso tudo uma literatura cantada, que ainda hoje é engenho de emoções. "Asa Branca", obra-prima, é uma das veredas que levam ao Grande Sertão.
Eu teria 12 anos, por aí. Gonzaga, aos quarenta e poucos, estava no auge. Nunca me esqueci do concerto (eterno patrocínio do Colírio Moura Brasil) no Campo do Gado. Era noite de céu brilhante. Enluarado, Gonzaga subiu ao palanque, com chapéu de couro cru e três estrelas na aba da frente, gibão de couro, alpercatas e sanfona prateada dependurada no pescoço. O grito de louvação do povo, longo, em uníssono, fez vibrar o madeirame do palco. Como esquecer?
O aboio do grande "Lua" faz vibrar a alma nordestina, mas é toda a cultura brasileira que o inscreve na história como mito
MUNIZ SODRÉ
A MEMÓRIA É USINA de história, mas também de mitos. Não raro, ambos convivem, como me ocorreu ao dar um pequeno depoimento sobre Humberto Teixeira, o grande parceiro de Luiz Gonzaga, para o documentário "O homem que engarrafava nuvens". Na verdade, jamais vi em vida Humberto Teixeira, mas o associei ao grande "Lua", artista histórico e mítico de minha infância no interior baiano. Seu concerto para uma plateia de vaqueiros e feirantes no Campo do Gado é uma das mais vivas lembranças que guardo.
De fato, como apagar os traços de um concerto do rei do baião da memória de um menino do interior nordestino, enlevado por música, num tempo ainda sem TV e seus derivativos, sem a popularização do disco de 33 rpm, que revitalizaria a indústria da canção?
A cidade era Feira de Santana, a segunda maior da Bahia, e no começo dos anos 50 ainda fazia jus à alcunha de "Boca do Sertão". Situada a pouco mais de cem quilômetros de Salvador, Feira é a grande porta de entrada para o mundo sertanejo. Naquela época, ainda ocupava parte do centro e adjacências a grande feira de gado e alimentos, que recriava toda segunda-feira a atmosfera do sertão. Cantadores e camelôs de produtos miraculosos misturavam-se a vaqueiros, roceiros, fazendeiros, criadores de gado e vendedores de quase tudo que se possa imaginar de comestível no sertão.
Em épocas de estio inclemente, não era raro ver os caminhões de "paus de arara", como se alcunhavam os viventes tangidos pela seca rumo a São Paulo, parados à margem do mercado, famélicos, sem tostão para um beiju de mandioca sequer. Olhavam, olhavam, às vezes nostalgicamente, para os vaqueiros garbosos em seus gibões e chapéus de couro, facão na cintura e rebenque na mão, em cima de cavalos mais bem alimentados que os ginetes.
Quem sabia de vaqueiros, sabia, para além das aparências, da vida dura que levavam, da sua espantosa capacidade de sobreviver nas condições mais adversas da caatinga: parecia não haver seca nem fome que os matasse. No Campo de Gado, tangendo a boiada, faziam o espetáculo para os meninos que, escondidos dos pais, corriam atrás de bezerros e de bodes.
Luiz Gonzaga deixava siderada a gente do sertão. Só muito depois se saberia (e talvez ainda hoje nem se saiba) que o grande "Lua" inventou aquela coisa toda, os seus ritmos, no Rio de Janeiro, mais precisamente na Lapa, onde durante muito tempo cantou sambas e boleros. Pernambucano de Exu, ele parecia ter o dom do movimento que os cultos afrobrasileiros atribuem a quem carrega essa divindade na cabeça. Juntamente com Humberto Teixeira, cearense, político e intelectual apaixonado pelo Brasil, recriou musicalmente a atmosfera do sertão.
A canção gonzaguiana é um dialeto do imaginário nordestino, assim como o "jorjamadês" é a fala de uma Bahia imaginária.
Imaginário, veja-se bem, e não mentira, porque se tratava de recriação. O zabumba, o fole das sanfonas e os passos entrecortados dos forrós são reais; real era a existência de um baião originário ("no Ceará, os cegos pediam esmola em ritmo de baião", dizia Teixeira); sempre foi real a inclemência das secas; mas realmente feliz era o vaqueiro na hora do aboio. O Polígono das Secas era, sim, o Polígono do Baião. Teixeira e Gonzaga fizeram disso tudo uma literatura cantada, que ainda hoje é engenho de emoções. "Asa Branca", obra-prima, é uma das veredas que levam ao Grande Sertão.
Eu teria 12 anos, por aí. Gonzaga, aos quarenta e poucos, estava no auge. Nunca me esqueci do concerto (eterno patrocínio do Colírio Moura Brasil) no Campo do Gado. Era noite de céu brilhante. Enluarado, Gonzaga subiu ao palanque, com chapéu de couro cru e três estrelas na aba da frente, gibão de couro, alpercatas e sanfona prateada dependurada no pescoço. O grito de louvação do povo, longo, em uníssono, fez vibrar o madeirame do palco. Como esquecer?
O aboio do grande "Lua" faz vibrar a alma nordestina, mas é toda a cultura brasileira que o inscreve na história como mito
sábado, 4 de dezembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
MÚSICA-POESIA - Itamar Assumpção - O intérprete do não
Pedro Alexandre Sanches
CARTACAPITAL
20 de novembro de 2010 às 7:00h
Caixa de CDs relembra a trajetória de Itamar Assumpção, um compositor em luta contra a morte
Anteontem na UTI foi me visitar a morte/ mesmo sedado senti seu bafo no meu cangote/ de susto quase morri/ deu pânico, quase entrei em choque. O homem que escreveu esses versos não está mais aqui. Itamar Assumpção morreu em 2003, aos 53 anos, e deixou muitas músicas inéditas. Grande parte delas rondava a morte, um tema que ele transformou em música durante toda a vida, e não apenas nos três sofridos anos em que conviveu com um câncer no intestino.
Em 1998, antes de descobrir a doença, avisava, cantando versos do poeta para-naense Paulo Leminski (1944-1989): Um homem com uma dor/ é muito mais elegante/ (…) sofrer vai ser a minha última obra. Apresentada em shows de um Itamar em fase agônica, Anteontem (Melô da UTI) é uma das (irônicas, sarcásticas) canções que ele não lançou em vida e vêm agora se somar como apêndices à monumental Caixa Preta, íntegra de sua obra fonográfica bancada pelo Selo Sesc e coordenada por sua viúva, Elizena Brigo de Assumpção, e pelas duas filhas do casal, Serena e Anelis.
Dor Elegante, o autoaviso de 1998, integrava o último trabalho original completo lançado sob direção do próprio autor, o disco-trocadilho Preto Brás – Por que que eu não pensei nisso antes. O grupo de 29 gravações inéditas acrescidas como esboços de “última obra” à Caixa Preta constitui uma trilogia Preto Brás, mais ou menos como planejava Itamar, antes de adoecer.
Preto Brás II – Maldito Vírgula foi pós-produzido por Beto Villares, que elaborou arranjos e intervenções heterodoxas sobre registros voz e violão, por vezes precários, deixados pelo autor. Villares trouxe para o disco as vozes simbólicas, embora não tenham trabalhado diretamente com Itamar, de Seu Jorge, BNegão, Arnaldo Antunes e Elza Soares. Essa entoa uma canção tipicamente “itamariana”, chamada… Elza Soares. Elza canta que my soul is black/ meu sangue é quente e encerra o volume em catarse sobrenatural, caindo em choro livre e explicitado. “Tô chorando, cara!”, resfolega, sob aplausos dos colegas de estúdio.
Parceiro de vida inteira de Itamar, Paulo Lepetit encarrega-se da produção e dos arranjos de Preto Brás III – Devia ser proibido, que se inicia por Anteontem (Melô da UTI) e acaba com Os Incomodados Que Se Mudem: Quem compõe um Preto Brás incomoda muita gente/ quem compõe dois Preto Brás incomoda muito mais/ quem compõe dois Preto Brás não há Cristo que aguente/ o cão vem com três tridentes, quer bater de frente/ com quem compõe três Preto Brás.
Alinhado com o imaginário orgânico do parceiro, Lepetit convoca para seu volume os auxílios de Arrigo Barnabé, coidealizador com Itamar da chamada vanguarda paulista dos anos 1980, e de Ney Matogrosso, Naná Vasconcelos e Zélia Duncan, três dos poucos artistas da família MPB que valorizaram seu primo paulista desgarrado antes que ele morresse (outros apoiadores circunstanciais foram Rita Lee, Tom Zé e Cássia Eller).
Itamar sempre foi pródigo em prestar homenagens à tradição à qual julgava pertencer (e pertencia de fato, com honras e méritos, nervos e neurônios). Em versos, citou explícita e abundantemente seus ídolos, de Cartola a Cascatinha & Inhana (na inédita Ir pra Berlim, rima Tom Jobim com tamborim, além de Lou Reed com Daúde e “duvide”). Em 1995, gravou um disco inteiro em tributo ao sambista mineiro e impuro (logo, marginal) Ataulfo Alves. No show Às Próprias Custas S.A. (1982), cantou sambas de Adoniran Barbosa e Geraldo Pereira, tropicália de Jards Macalé e Waly Salomão e iê-iê-iê do “negro gato” Getúlio Cortes.
Dessa fase, a Caixa Preta recupera do ineditismo uma gravação vibrante de Não Vou Ficar, de Tim Maia, lançada em 1969 por Roberto Carlos. O samba, a black music brasileira e Roberto Carlos integravam o patrimônio genético de Itamar Assumpção, nascido no interior paulista de Tietê e consumado artista na adolescência e juventude vividas entre Arapongas, Londrina (PR) e São Paulo. Sambamos de Tudo: Funk, soul, blues, jazz, rock-and-roll, suingou em Quem É Cover de Quem? (1993), homenagem (irônica, sarcástica) a seu antecessor e duplo carioca, Luiz Melodia.
Há evidentes tons de colagem na conclusão póstuma da trilogia, e é possível adivinhar que Itamar cumpriria as normas e desaprovaria a intervenção, já que controle total e liderança absoluta da própria obra foram para ele objetos de obsessão, talvez de loucura. Podendo pirar/ eu posso esperar/ podendo morrer, que me importa?, cantou em Me Basta, na única trilogia que arrematou sob controle, o ultrafeminino Bicho de 7 Cabeças (1993-1994). Concebido por ele e executado pelas Orquídeas do Brasil, uma banda formada por oito (e mais) mulheres, Bicho de 7 Cabeças antecipou o Brasil das décadas seguintes e fez-se o maior projeto político-musical do final de século no País, algo que pouquíssima gente percebeu (ou quis admitir).
Esse cara é louco/ mora na Penha, São Paulo, zona leste/ dizem que eu sou pirex/ mas pirex não sou, não/ não dou rolê de Rolex, durex/ não sou relax/ relax não é fax, não, diz Pirex, da trilogia não concluída e só agora revelada. Uma de suas marcas distintivas foram versos como esses, de tez simbolista – ou concretista, como diriam tropicalistas enciumados das parecenças entre eles e seu (não) discípulo.
“Existe uma forte identidade, por exemplo, no aspecto da interpretação, do violão forte e da negritude, entre o Macalé, o Itamar e eu. (…) Isso é uma história negra. Aí somos todos idênticos, somos todos dessa linhagem”, afirmou Gilberto Gil, quando era ministro da Cultura e Itamar já tinha morrido, num depoimento incluído em Preto Brás – O livro de canções e histórias de Itamar Assumpção (Ediouro, 2006).
A poesia acurada e repleta de rimas inesperadas firmou-se a partir de 1985, quando o artista passou a conviver com o casal curitibano Alice Ruiz-Paulo Leminski. Alice se tornaria parceira constante e inspirada, inclusive nos versos da mortífera Milágrimas (1994): A cada milágrimas sai um milagre.
Antes, Itamar andara abrindo picadas a facão. Dependera da figura mítica do Nego Dito para emplacar, em 1980, ao conceber seu primeiro álbum, Beleléu Leléu Eu, após quase uma década de labuta em festivais interioranos. Obedecendo ao cânone-cárcere do mito da (boa) malandragem, o alter ego Benedito João dos Santos Silva Beleléu, “vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavel” era violento, ameaçador: Apaguei um no Paraná/ (…) arranco o rabo do satã/ (…) se chamar polícia eu vou cortar tua cara/ vou retalhá-la, canalha, com navalha.
Responsável pelo sucesso inicial, o personagem abandidado foi executado ao vivo na tela da Rede Globo, no festival MPB Shell 82, por sua irmã e quase-sósia, Denise Assunção: Silêncio no tribunal/ olha a camisa de força/ redobrem a vigilância/ hoje aqui você é nosso réu/ comporte-se bem, entendeu?/ (…) cala a boca, fique quieto/ nem um pio, mais respeito no local/ preparem a carapuça/ ponham o capuz na cabeça.
Não foi às paradas de sucesso, e esse desejo permaneceu expresso para sempre em sua música. Já cantei no galinheiro/ cantei numa procissão/ cantei em ponto de terreiro/ agora eu quero cantar na televisão, avisava em Prezadíssimos Ouvintes, na abertura de Sampa Midnight – Isso Não Vai Ficar Assim (1985). Já sob a influência de Leminski e Alice Ruiz, Itamar se metamorfosea-va. Entre o sim e o não existe um vão, testava em Chavão Abre Porta Grande, preocupado em reconhecer que quem não vive tem medo da morte.
Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!! era o título de seu primeiro (e espetacular) disco não independente, editado pela hoje extinta Continental. Ali, Nego Dito se convertia em Zé Pelintra, meio demônio, meio anjo, que aparta briga feia/ (…) resolve impossível demanda/ (…) e seu cavalo sou eu. No absurdamente musical Bicho de 7 Cabeças, Itamar tentava emular à sua maneira (ou seja, afogado em gotas de mágoa e soterrado por toneladas de poesia) as modas musicais do momento, em Lambuzada de Dendê (em referência à axé music) e Onda Sertaneja.
O desejo de explodir o corroia, até porque seu rumo era diametralmente outro. Cobiçava descobrir “com quantos não se faz um sim” (em Vou Tirar Você do Dicionário, 1993), mas seu tempo o obrigava a continuar sendo um intérprete-cantor do não – e da morte. Na sala, numa fruteira/ a natureza está morta/ laranjas, maçãs e peras, bananas, figos de cera/ decoram a noite torta, desferia Noite Torta (1993).
A resistência à opressão e aos preconceitos foi firme, mas rudimentar em Itamar. Apareceu cedo, em forma de Batuque (1982), e foi à posteridade, como Cabelo Duro, do inacabado disco Isso Vai Dar Repercussão, com o pernambucano Naná Vasconcelos, iniciado em 2002 e só editado após sua morte. Eu tenho cabelo duro/ mas não o miolo mole/ sou afro-brasileiro puro/ é mulata minha prole/ não vivo em cima do muro/ da canga meu som me abole.
Citando “bichos e bichas” em mais de uma canção, Itamar estabeleceu forte coligação com a música brasileira feminina, fosse pelas célebres vocalistas dos discos iniciais, pela formação das Orquídeas ou pelo (des)encontro negrofeminino de Noite Torta, vocalizada pela parceira sul-matogrossense Tetê Espíndola: Na pia a louça suja me lembra a roupa suja no tanque que a vida é. Morto no dia dos namorados de 2003, Itamar Assumpção abdicou do governo Lula e não assistiu à chegada de Dilma Rousseff ao poder.
O homem inventou o e-mail porque não consegue ser inteiro, canta, depois de morto, em Devaneio. Ou, como dispara a Morte (interpretada por Elke Maravilha nos últimos shows) em Anteontem (Melô da UTI): Além de servir de mote/ vou ajudá-lo a assumir de vez o seu lado pop/ então é só decidir/ se morte é mote pra funk ou xote. O homem que escreveu estes versos ainda está aqui.
Pedro Alexandre Sanches
CARTACAPITAL
20 de novembro de 2010 às 7:00h
Caixa de CDs relembra a trajetória de Itamar Assumpção, um compositor em luta contra a morte
Anteontem na UTI foi me visitar a morte/ mesmo sedado senti seu bafo no meu cangote/ de susto quase morri/ deu pânico, quase entrei em choque. O homem que escreveu esses versos não está mais aqui. Itamar Assumpção morreu em 2003, aos 53 anos, e deixou muitas músicas inéditas. Grande parte delas rondava a morte, um tema que ele transformou em música durante toda a vida, e não apenas nos três sofridos anos em que conviveu com um câncer no intestino.
Em 1998, antes de descobrir a doença, avisava, cantando versos do poeta para-naense Paulo Leminski (1944-1989): Um homem com uma dor/ é muito mais elegante/ (…) sofrer vai ser a minha última obra. Apresentada em shows de um Itamar em fase agônica, Anteontem (Melô da UTI) é uma das (irônicas, sarcásticas) canções que ele não lançou em vida e vêm agora se somar como apêndices à monumental Caixa Preta, íntegra de sua obra fonográfica bancada pelo Selo Sesc e coordenada por sua viúva, Elizena Brigo de Assumpção, e pelas duas filhas do casal, Serena e Anelis.
Dor Elegante, o autoaviso de 1998, integrava o último trabalho original completo lançado sob direção do próprio autor, o disco-trocadilho Preto Brás – Por que que eu não pensei nisso antes. O grupo de 29 gravações inéditas acrescidas como esboços de “última obra” à Caixa Preta constitui uma trilogia Preto Brás, mais ou menos como planejava Itamar, antes de adoecer.
Preto Brás II – Maldito Vírgula foi pós-produzido por Beto Villares, que elaborou arranjos e intervenções heterodoxas sobre registros voz e violão, por vezes precários, deixados pelo autor. Villares trouxe para o disco as vozes simbólicas, embora não tenham trabalhado diretamente com Itamar, de Seu Jorge, BNegão, Arnaldo Antunes e Elza Soares. Essa entoa uma canção tipicamente “itamariana”, chamada… Elza Soares. Elza canta que my soul is black/ meu sangue é quente e encerra o volume em catarse sobrenatural, caindo em choro livre e explicitado. “Tô chorando, cara!”, resfolega, sob aplausos dos colegas de estúdio.
Parceiro de vida inteira de Itamar, Paulo Lepetit encarrega-se da produção e dos arranjos de Preto Brás III – Devia ser proibido, que se inicia por Anteontem (Melô da UTI) e acaba com Os Incomodados Que Se Mudem: Quem compõe um Preto Brás incomoda muita gente/ quem compõe dois Preto Brás incomoda muito mais/ quem compõe dois Preto Brás não há Cristo que aguente/ o cão vem com três tridentes, quer bater de frente/ com quem compõe três Preto Brás.
Alinhado com o imaginário orgânico do parceiro, Lepetit convoca para seu volume os auxílios de Arrigo Barnabé, coidealizador com Itamar da chamada vanguarda paulista dos anos 1980, e de Ney Matogrosso, Naná Vasconcelos e Zélia Duncan, três dos poucos artistas da família MPB que valorizaram seu primo paulista desgarrado antes que ele morresse (outros apoiadores circunstanciais foram Rita Lee, Tom Zé e Cássia Eller).
Itamar sempre foi pródigo em prestar homenagens à tradição à qual julgava pertencer (e pertencia de fato, com honras e méritos, nervos e neurônios). Em versos, citou explícita e abundantemente seus ídolos, de Cartola a Cascatinha & Inhana (na inédita Ir pra Berlim, rima Tom Jobim com tamborim, além de Lou Reed com Daúde e “duvide”). Em 1995, gravou um disco inteiro em tributo ao sambista mineiro e impuro (logo, marginal) Ataulfo Alves. No show Às Próprias Custas S.A. (1982), cantou sambas de Adoniran Barbosa e Geraldo Pereira, tropicália de Jards Macalé e Waly Salomão e iê-iê-iê do “negro gato” Getúlio Cortes.
Dessa fase, a Caixa Preta recupera do ineditismo uma gravação vibrante de Não Vou Ficar, de Tim Maia, lançada em 1969 por Roberto Carlos. O samba, a black music brasileira e Roberto Carlos integravam o patrimônio genético de Itamar Assumpção, nascido no interior paulista de Tietê e consumado artista na adolescência e juventude vividas entre Arapongas, Londrina (PR) e São Paulo. Sambamos de Tudo: Funk, soul, blues, jazz, rock-and-roll, suingou em Quem É Cover de Quem? (1993), homenagem (irônica, sarcástica) a seu antecessor e duplo carioca, Luiz Melodia.
Há evidentes tons de colagem na conclusão póstuma da trilogia, e é possível adivinhar que Itamar cumpriria as normas e desaprovaria a intervenção, já que controle total e liderança absoluta da própria obra foram para ele objetos de obsessão, talvez de loucura. Podendo pirar/ eu posso esperar/ podendo morrer, que me importa?, cantou em Me Basta, na única trilogia que arrematou sob controle, o ultrafeminino Bicho de 7 Cabeças (1993-1994). Concebido por ele e executado pelas Orquídeas do Brasil, uma banda formada por oito (e mais) mulheres, Bicho de 7 Cabeças antecipou o Brasil das décadas seguintes e fez-se o maior projeto político-musical do final de século no País, algo que pouquíssima gente percebeu (ou quis admitir).
Esse cara é louco/ mora na Penha, São Paulo, zona leste/ dizem que eu sou pirex/ mas pirex não sou, não/ não dou rolê de Rolex, durex/ não sou relax/ relax não é fax, não, diz Pirex, da trilogia não concluída e só agora revelada. Uma de suas marcas distintivas foram versos como esses, de tez simbolista – ou concretista, como diriam tropicalistas enciumados das parecenças entre eles e seu (não) discípulo.
“Existe uma forte identidade, por exemplo, no aspecto da interpretação, do violão forte e da negritude, entre o Macalé, o Itamar e eu. (…) Isso é uma história negra. Aí somos todos idênticos, somos todos dessa linhagem”, afirmou Gilberto Gil, quando era ministro da Cultura e Itamar já tinha morrido, num depoimento incluído em Preto Brás – O livro de canções e histórias de Itamar Assumpção (Ediouro, 2006).
A poesia acurada e repleta de rimas inesperadas firmou-se a partir de 1985, quando o artista passou a conviver com o casal curitibano Alice Ruiz-Paulo Leminski. Alice se tornaria parceira constante e inspirada, inclusive nos versos da mortífera Milágrimas (1994): A cada milágrimas sai um milagre.
Antes, Itamar andara abrindo picadas a facão. Dependera da figura mítica do Nego Dito para emplacar, em 1980, ao conceber seu primeiro álbum, Beleléu Leléu Eu, após quase uma década de labuta em festivais interioranos. Obedecendo ao cânone-cárcere do mito da (boa) malandragem, o alter ego Benedito João dos Santos Silva Beleléu, “vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavel” era violento, ameaçador: Apaguei um no Paraná/ (…) arranco o rabo do satã/ (…) se chamar polícia eu vou cortar tua cara/ vou retalhá-la, canalha, com navalha.
Responsável pelo sucesso inicial, o personagem abandidado foi executado ao vivo na tela da Rede Globo, no festival MPB Shell 82, por sua irmã e quase-sósia, Denise Assunção: Silêncio no tribunal/ olha a camisa de força/ redobrem a vigilância/ hoje aqui você é nosso réu/ comporte-se bem, entendeu?/ (…) cala a boca, fique quieto/ nem um pio, mais respeito no local/ preparem a carapuça/ ponham o capuz na cabeça.
Não foi às paradas de sucesso, e esse desejo permaneceu expresso para sempre em sua música. Já cantei no galinheiro/ cantei numa procissão/ cantei em ponto de terreiro/ agora eu quero cantar na televisão, avisava em Prezadíssimos Ouvintes, na abertura de Sampa Midnight – Isso Não Vai Ficar Assim (1985). Já sob a influência de Leminski e Alice Ruiz, Itamar se metamorfosea-va. Entre o sim e o não existe um vão, testava em Chavão Abre Porta Grande, preocupado em reconhecer que quem não vive tem medo da morte.
Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!! era o título de seu primeiro (e espetacular) disco não independente, editado pela hoje extinta Continental. Ali, Nego Dito se convertia em Zé Pelintra, meio demônio, meio anjo, que aparta briga feia/ (…) resolve impossível demanda/ (…) e seu cavalo sou eu. No absurdamente musical Bicho de 7 Cabeças, Itamar tentava emular à sua maneira (ou seja, afogado em gotas de mágoa e soterrado por toneladas de poesia) as modas musicais do momento, em Lambuzada de Dendê (em referência à axé music) e Onda Sertaneja.
O desejo de explodir o corroia, até porque seu rumo era diametralmente outro. Cobiçava descobrir “com quantos não se faz um sim” (em Vou Tirar Você do Dicionário, 1993), mas seu tempo o obrigava a continuar sendo um intérprete-cantor do não – e da morte. Na sala, numa fruteira/ a natureza está morta/ laranjas, maçãs e peras, bananas, figos de cera/ decoram a noite torta, desferia Noite Torta (1993).
A resistência à opressão e aos preconceitos foi firme, mas rudimentar em Itamar. Apareceu cedo, em forma de Batuque (1982), e foi à posteridade, como Cabelo Duro, do inacabado disco Isso Vai Dar Repercussão, com o pernambucano Naná Vasconcelos, iniciado em 2002 e só editado após sua morte. Eu tenho cabelo duro/ mas não o miolo mole/ sou afro-brasileiro puro/ é mulata minha prole/ não vivo em cima do muro/ da canga meu som me abole.
Citando “bichos e bichas” em mais de uma canção, Itamar estabeleceu forte coligação com a música brasileira feminina, fosse pelas célebres vocalistas dos discos iniciais, pela formação das Orquídeas ou pelo (des)encontro negrofeminino de Noite Torta, vocalizada pela parceira sul-matogrossense Tetê Espíndola: Na pia a louça suja me lembra a roupa suja no tanque que a vida é. Morto no dia dos namorados de 2003, Itamar Assumpção abdicou do governo Lula e não assistiu à chegada de Dilma Rousseff ao poder.
O homem inventou o e-mail porque não consegue ser inteiro, canta, depois de morto, em Devaneio. Ou, como dispara a Morte (interpretada por Elke Maravilha nos últimos shows) em Anteontem (Melô da UTI): Além de servir de mote/ vou ajudá-lo a assumir de vez o seu lado pop/ então é só decidir/ se morte é mote pra funk ou xote. O homem que escreveu estes versos ainda está aqui.
Pedro Alexandre Sanches
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
"Loki - Arnaldo Baptista" expõe trajetória do líder dos Mutantes
"Loki - Arnaldo Baptista" expõe trajetória do líder dos Mutantes
Canal Brasil, 16h30, livre. O documentário registra a trajetória do artista, que hoje se dedica mais à pintura.
A cinebiografia alterna imagens de arquivo, músicas e depoimentos do próprio Baptista e de Tom Zé, Lobão, Nelson Motta, Gilberto Gil, entre outras pessoas que conviveram com ele.
O diretor Paulo Henrique Fontenelle reconstrói a infância de Arnaldo Baptista, a criação dos Mutantes, o casamento com Rita Lee e a carreira solo do baixista, cantor e pianista. Baptista recebe a equipe na casa em que vive, em Minas Gerais.
O filme foi premiado pelo público no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo em 2008
terça-feira, 16 de novembro de 2010
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Assinar:
Postagens (Atom)