segunda-feira, 25 de outubro de 2010
"Filme do Desassossego" trai obra de Pessoa
"Filme do Desassossego" trai obra de Pessoa
Dirigido por João Botelho, longa adapta, sem sucesso, "Livro do Desassossego", do heterônimo Bernardo Soares
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AO COLAR-SE RADICALMENTE AO TEXTO DE PESSOA, O RESULTADO É UM "PASTICHE" SEM VALOR CINEMATOGRÁFICO AUTÔNOMO
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JOÃO PEREIRA COUTINHO
COLUNISTA DA FOLHA
João Botelho falhou. A ideia era adaptar para cinema o "Livro do Desassossego", de Bernardo Soares/Fernando Pessoa. Mas como adaptar um livro que é, por excelência, o antilivro? Uma longa divagação, feita de fragmentos, pensamentos e até contradições?
O diretor Michael Winterbottom enfrentou um desafio idêntico quando, em 2005, se lançou na odisseia lunática de passar para filme "A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy", de Laurence Sterne (1713-1768), romance fundador da modernidade literária e que podemos incluir na linhagem do "Livro do Desassossego".
O filme de Winterbottom, "A Cock and Bull Story" (uma história inverossímil), não cai na armadilha que devorou Botelho. Winterbottom não tenta ser literal; há um esforço de criação a partir do romance de Sterne que serve apenas para mostrar, com refinado humor, a impossibilidade de adaptar o livro de Sterne.
João Botelho, pelo contrário, tentou ser literal no "Filme do Desassossego", uma forma possível de ser fiel. Mas a literalidade tem os seus perigos. Ao colar-se radicalmente ao texto de Pessoa, o resultado é um "pastiche" sem valor cinematográfico autônomo. É assim que encontramos Bernardo Soares (Cláudio da Silva), o ajudante de guarda-livros de Pessoa, e as suas deambulações por Lisboa.
Botelho foi selecionando passagens do "Livro do Desassossego" e encenando-as com as palavras do poeta.
Aqui reside o primeiro problema: como o livro não tem uma estrutura narrativa clássica, sendo antes fragmentário e aforístico, o filme é uma sucessão de quadros fixos, de uma artificialidade embaraçosa, que atraiçoam a essencial fluidez do texto. No "Livro do Desassossego", a alma de Bernardo Soares é como as nuvens que o encantam e desencantam nos céus de Lisboa: um farrapo que voga pela cidade em mutação permanente.
TEATRALIDADE
Mas a câmera de Botelho não tem a mesma agilidade ou sutileza e o filme resume-se a uma sucessão de "videoclipes poéticos", em que alguns dos mais conhecidos atores portugueses da atualidade se vão apropriando das palavras de Bernardo Soares, debitando-as com forçada teatralidade.
E aqui está o segundo problema: o "Livro do Desassossego" é a mais radical experiência existencial da literatura portuguesa do século 20: uma divagação abissal sobre "a dignidade do tédio" que nos revela uma alma em particular.
Botelho entendeu que essa experiência pessoal poderia ser multiplicada por lábios vários, por "desassossegos" múltiplos, oferecendo uma longa galeria de personagens que fazem suas as palavras de um só.
Existe um momento do filme em que Botelho ironiza essa multiplicação: quando, no cemitério, o mendigo debita palavras que Bernardo Soares reclama como suas. Tivesse João Botelho escutado realmente a indignação de Bernardo Soares nessa sequência, teria percebido como o seu "Filme do Desassossego" é uma traição escusada sobre o intransmissível solipsismo do livro de Fernando Pessoa
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