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quinta-feira, 24 de março de 2011

blog do nassif - Dez anos sem Milton Santos



Enviado por luisnassif, qui, 24/03/2011 - 09:42
Autor: Silvio Tendler
Por Paulo Kautscher
Sempre com seu sorriso nos lábios e o olhar que revelavam sua clarividência desde o primeiro momento em que começava a se manifestar

No inicio de 2001 entrevistei o professor Milton Santos. A riqueza do depoimento do geógrafo me obrigou a transformá-lo no filme "Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá". Lá pelas tantas o professor critica a "neutralidade" dos analistas econômicos dizendo que eles defendiam os interesses das empresas que serviam.

Dez anos depois o cineasta Charles Ferguson em seu magnífico filme "Inside Job" esmiúça em detalhes a fala de Milton Santos e revela a promiscuidade nos Estados Unidos entre bancos, governo e universidades. Revela a ciranda entre universitários que servem a bancos e empresas financeiras, vão para o governo, enriquecem nesse trajeto, não pagam impostos, escrevem pareceres milionários para governos estrangeiros induzindo a adotarem políticas que favoreçam o sistema financeiro internacional. Quebram aplicadores e fundos de pensão incentivando a investirem em papéis, que já sabiam, com antecedência, micados. E quando são demitidos das instituições financeiras partem com indenizações milionárias. Acertadamente este filme ganhou o Oscar de melhor documentário de 2011.

Na outra ponta da história está o filme "Biutiful" do Mexicano Alezandro Gonzalez Iñarritu, rodado em Barcelona e narra a vida dos fodidos, das vitimas do sistema financeiro internacional: africanos e chineses que vão para a Espanha para escapar da fome e do desemprego e se submetem a condições de vida sub-humanas. O trabalho do ator Javier Bardem rendeu o prêmio de melhor ator do Festival de Cannes de 2010.

São filmes para ninguém botar defeito e desconstroem as perversidades do mundo em que estamos vivendo.

Em discurso recente em Wisconsin, solidário aos trabalhadores que lutam contra novas gatunagens, o colega estadunidense Michael Moore declarou:

"Vou repetir. 400 norte-americanos obscenamente ricos, a maior parte dos quais foram beneficiados no ‘resgate’ de 2008, pago aos bancos, com muitos trilhões de dólares dos contribuintes, têm hoje a mesma quantidade de dinheiro, ações e propriedades que tudo que 155 milhões de norte-americanos conseguiram juntar ao longo da vida, tudo somado. Se dissermos que fomos vítimas de um golpe de estado financeiro, não estamos apenas certos, mas, além disso, também sabemos, no fundo do coração, que estamos certos.

Mas não é fácil dizer isso, e sei por quê. Para nós, admitir que deixamos um pequeno grupo roubar praticamente toda a riqueza que faz andar nossa economia, é o mesmo que admitir que aceitamos, humilhados, a ideia de que, de fato, entregamos sem luta a nossa preciosa democracia à elite endinheirada. Wall Street, os bancos, os 500 da revistaFortune governam hoje essa República – e, até o mês passado, todos nós, o resto, os milhões de norte-americanos, nos sentíamos impotentes, sem saber o que fazer".

E arrematou com maestria e indignação:

"...Falei com o meu coração, sobre os milhões de nossos compatriotas americanos que tiveram suas casas e empregos roubados por uma classe criminosa de milionários e bilionários. Foi na manhã seguinte ao Oscar, na qual o vencedor de melhor documentário por "Inside Job" estava ao microfone e declarou: "Devo começar por salientar que, três anos depois de nossa terrível crise financeira causada por fraude financeira, nem mesmo um único executivo financeiro foi para a cadeia. E isso é errado. "E ele foi aplaudido por dizer isso. (Quando eles pararam de vaiar discursos de Oscar? Droga!)"

Esse ano celebramos os dez anos da morte do professor Milton Santos. Quem quiser ler "Por uma Outra Globalização" do Professor Milton Santos encontrará um diagnóstico perfeito do processo de globalização que gestou as mazelas descritas em "Inside Job" e "Biutiful". Quem quiser reencontrá-lo em "Encontro Com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá", estará celebrando a vida e o pensamento de um dos maiores pensadores do Século 20, capaz de ter antecipado muito do que estamos vivendo hoje. Sempre com seu sorriso nos lábios e o olhar que revelavam sua clarividência desde o primeiro momento em que começava a se manifestar.

Silvio Tendler é cineasta, diretor de Os anos JK, Jango Utopia & barbárie, entre outros documentários.

Crônica originalmente publicada na edição 420 do Brasil de Fato





domingo, 20 de março de 2011

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

cine - O filme Deadline - USA




blog
luisnassif, qua, 29/12/2010 - 10:04
Por René Amaral Junior

Nota Amoral:

Dica de ótimo filme, dos anos 50, onde a mídia entra em combate contra si mesma, 'A hora da Vingança' (DeadLine_USA) e se reavalia no processo!

Deadline – U.S.A., A hora da vingança

Por Natália Izidoro
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Humphrey Bogart, reconhecido ator norte-americano que tem Casablanca dentre seus filmes de maiores sucessos, faz em Deadline – U.S.A. o papel de Ed Hutcheson, editor do jornal diário The Day. Enquanto luta para evitar que o jornal seja vendido, Hutcheson tenta desmascarar um poderoso chefe de crime organizado da cidade, Thomas Rienze.





domingo, 26 de dezembro de 2010

cine Vidas Secas (1/10)

http://www.youtube.com/watch?v=9eDeIKxZ48c&feature=related

cine - Guerra de Canudos - (parte 1/18)

domingo, 12 de dezembro de 2010

CINE LITERATURA - Leminski - Singulares excessos

CRÍTICA

Singulares excessos

A festa linguístico-poética do "Catatau" de Leminski

RESUMO
Ícone da literatura experimental no Brasil, o romance "Catatau", de Paulo Leminski, ganha nova edição e adaptação para o cinema, dirigida por Cao Guimarães. Críticos festejam o lançamento do filme e reiteram a singularidade do livro, tanto do ponto de vista de linguagem como da representação literária do Brasil.

JOSÉ GERALDO COUTO

TINHA UM "CATATAU" no meio do caminho. Tinha, não; tem. Trinta e cinco anos depois de sua erupção, o "romance-ideia" de Paulo Leminski (1944-89) ainda é um corpo estranho a ser devidamente decifrado e assimilado ao organismo da literatura brasileira.
Alheio ao fato de ter morrido há mais de duas décadas, Leminski segue "falando pelos calcanhares", para usar uma expressão bem sua, presente no "Catatau". O livro acaba de ganhar, ao mesmo tempo, sua quarta edição [Iluminuras, 256 págs., R$ 44] e uma elogiada "transcriação" cinematográfica, o filme "Ex Isto", de Cao Guimarães.
Parece que a vocação desse "Catatau" é a de se expandir lentamente em círculos concêntricos, feito as marolas formadas por uma pedra atirada no lago. Mas nada indica que esteja próximo o dia em que as massas haverão de comer esse biscoito fino.
Para o crítico e professor de ?teoria literária na Unicamp Alcir Pécora, a "exuberância vertiginosa" do livro "não o torna fácil de ler". Apesar da crescente fortuna crítica que vem se constituindo em torno da obra, ela ainda é solitária, segundo Pécora. "Eu diria: é ainda mais solitária do que foi à sua época, como gesto decidido em direção ao risco, à experimentação formal, linguística, ao humor da língua, ao problema do sentido e da radicalidade da experiência artística."

DESCARTES Tudo começou com o estalo de um professor de cursinho, durante uma aula sobre a ocupação de Pernambuco pelos holandeses, no século 17: e se o filósofo René Descartes (1596-1650) tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau?
A ideia poderia ter parado por aí, como uma divertida e ociosa especulação, se o tal professor não fosse Paulo Leminski, poeta "de uma imaginação de linguagem e uma cultura literária fenomenais", no dizer de José Miguel Wisnik, professor de literatura na USP, músico e ensaísta.
A primeira versão veio sob a forma de conto, que disputou em 1968 um concurso literário no Paraná e só não venceu por uma trapalhada confessa do júri. Nos sete anos seguintes, Leminski desenvolveu sua fecunda ideia até transformá-la no inclassificável fluxo verbal de "Catatau".
No livro, o entrecho é reduzido ao mínimo: no horto tropical do palácio de Nassau em Olinda, estupefato diante dos estranhos espécimes da fauna e da flora brasileiras, Descartes vê sua lógica oscilar e ruir, seus conceitos derreterem sob o calor, enquanto espera por Krzysztof Arciszewski, militar polonês a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, que lhe deverá "explicar o Brasil".

PERPLEXIDADE Narrado em primeira pessoa pelo próprio René Descartes, o texto testemunha sua perplexidade , ou, nas palavras do próprio Leminski, "o fracasso da lógica cartesiana branca no calor".
"Este mundo é o lugar do desvario, a justa razão aqui delira", queixa-se o filósofo. E um pouco adiante: "Duvido se existo, quem sou eu se este tamanduá existe?". Antes disso, logo na terceira página, ele confessara: "Bestas geradas no mais aceso do fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam de estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos...".
À crise do pensamento corresponde uma crise da linguagem, e as reflexões filosóficas se alternam no texto com citações eruditas, torções de ditados populares e frases feitas e trechos de pura música (ou cacofonia) verbal: aliterações, onomatopeias, trocadilhos, neologismos, aglutinações, mistura de línguas. Esses momentos de "enlouquecimento" do texto em geral são motivados pela entrada em cena do estranho Occam, que o próprio Leminski definia como "o primeiro personagem puramente semiótico, abstrato, da ficção brasileira".
Algumas expressões utilizadas pelos primeiros comentadores dão uma noção da natureza da obra e de seu impacto: "selva de palavras" (Leo Gilson Ribeiro), "rede de signos" (Antonio Risério), "porre verbal" (Ivan da Costa), "leminskíada barrocodélica" (Haroldo de Campos), "floresta sígnica" (Carlos Verçosa).

FILIAÇÃO Para buscar uma filiação literária, ou uma aproximação mínima com o já conhecido, falou-se no parentesco com outras experiências radicais, como o "Finnegans Wake" de James Joyce e as "Galáxias" de Haroldo de Campos. Leminski estaria num cruzamento entre concretismo, poesia marginal e antropofagia, esta última "revisitada como vanguarda pop" (nas palavras de Pécora), à maneira do que faziam os tropicalistas.
Três décadas e meia depois, o que restou da estranheza inicial de "Catatau"? Como é a sua interlocução com a literatura brasileira contemporânea? Com a palavra, os especialistas.
"Não acho que o livro seja ainda um objeto especialmente estranho", diz Pécora. "Compreende-se o seu lugar literário, a sua estrutura formal e o seu propósito básico. Mas ele não foi suficientemente estudado em seus jogos particulares de significação, em seu repertório de invenção, em suas escolhas de elocução."
Wisnik concorda: "Não me parece um livro datado: permanece como um enigma vivo". Paradoxalmente, porém, para o professor "um tipo de aposta como esta ficou mais e mais 'inatual': desde então se busca menos um compromisso total com a literatura, e menos um compromisso total com a linguagem, como nesse romance em que parece não acontecer nada".
Com outros termos, Alcir Pécora vai na mesma linha: "Na prosa contemporânea brasileira, quase tudo é tão acomodado nos parâmetros da representação realista, que o 'Catatau' ainda não faz feio como desafio artístico".

CINEMA O que dizer então do desafio de levar à tela de cinema essa obra irredutível e solitária? Pois foi nessa aventura que o cineasta Cao Guimarães resolveu mergulhar ao aceitar um convite do Itaú Cultural para fazer um filme em torno da literatura de Leminski.
Depois de ler os poemas e parte da fortuna crítica do escritor, Guimarães se deparou finalmente com o "Catatau". "Era uma obra que me seduzia como poucas, mas sem se entregar completamente", diz. Para lê-la, o cineasta inventou um "método de leitura": "Três ou quatro páginas por dia em voz alta e geralmente de pé!".
Mas como filmar um livro praticamente sem enredo e parco em matéria de descrições? "Curiosamente, o que me levou a transcriar o 'Catatau' para o cinema não foi a força de suas imagens (fanopeia, segundo Ezra Pound), mas a força de sua melodia (melopeia) e de sua ideia matriz (logopeia). Um filme não precisa necessariamente ir na direção das imagens, elas podem vir na direção do filme."
O diretor só precisou de um ator para o papel do filósofo, uma pequena equipe técnica "e principalmente criar um processo de imersão, por exemplo uma viagem a determinadas regiões que de uma forma ou de outra tinham algo a ver com o universo do livro".

PAIXÃO O primeiro passo foi contagiar o ator João Miguel (de "Cinema, Aspirinas e Urubus", "Estômago" e "O Céu de Suely") com a paixão pela leminskíada, o que foi feito por meio de leituras a dois, em voz alta.
Sem nenhum compromisso com a cronologia ou com o rigor da reconstituição histórica, Guimarães filmou João Miguel/Descartes imerso na exuberante natureza tropical, no burburinho do Recife atual e, significativamente, em Brasília, talvez o exemplo vivo da tentativa (delirante?) de implantar uma certa ordenação cartesiana no caos dos trópicos.
O resultado é um filme sui generis, que, embora tenha agradado na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, não tem previsão de entrar em circuito comercial. Para o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, professor da Unicamp, "'Ex Isto' é um marco no cinema brasileiro, como foi o cinema de Glauber Rocha, porque é uma obra-prima de uma arte tropical, aquela que expressa à perfeição nossa 'diferença específica' em relação às outras culturas".
Para ele, "Cao Guimarães demonstra ser possível se desinvestir do racionalismo cartesiano e operar uma passagem para um pensamento que dissolve a dicotomia corpo/espírito, afirmar um pensamento incorporado, se se pode dizer assim".
"Achei o filme de uma extraordinária poeticidade", ecoa José Miguel Wisnik. "Ele capta momentos da imaginação poética do livro e os reinventa, como nas cenas e imagens de Descartes em Recife, ou na belíssima passagem da teia de aranha."
Wisnik, porém, sente falta no filme do jogo entre as figuras de Occam e Arciszewski -em resumo, o que vem para confundir e o que vem para explicar, em cujo movimento pendular estaria um dos motores de "Catatau", a "alegoria do embaralhamento da informação e da entropia no texto" .
Em tempo: Arciszewski chega bêbado e não explica nada. O Brasil, como o "Catatau", segue sem explicação.

Tudo começou com o estalo de um professor, durante uma aula sobre a ocupação de Pernambuco pelos holandeses, no século 17: e se o filósofo Renée Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau?

Como filmar um livro sem enredo e parco em matéria de descrições? "Um filme não precisa necessariamente ir na direção das imagens, elas podem vir na direção do filme", diz Guimarães

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

cine - Godard cria perverso jogo de adivinhação e aliena fãs

Em "Film Socialisme", o diretor se transforma em adversário do público

ANDRÉ BARCINSKI
CRÍTICO DA FOLHA

Enquanto cineastas buscam expandir seu púbico e atrair cada vez mais gente para salas de cinema, Jean-Luc Godard faz o inverso: impõe tantas barreiras que o público acaba desistindo.
Há pelo menos meio século, ele tenta libertar o cinema de uma certa ditadura do olhar. Desafiando fórmulas e clichês, abriu os horizontes do cinema e criou uma nova forma de apreciá-lo.
Bem diferente do que fez em "Film Socialisme", seu mais recente filme-ensaio, um perverso jogo de adivinhação em que o público tenta descobrir que diabos o mestre quis dizer. A impressão é que Godard passou de cúmplice a adversário de seu público.
Uma coisa é usar o cinema como plataforma de experimentações estilísticas, o que Godard fez como ninguém. Outra é fazer um filme tão criptografado a ponto de alienar até o fã mais obsessivo.

LEGENDAS À DERIVA
Para dificultar de vez qualquer tipo de compreensão, Godard quis impedir que o filme fosse legendado devidamente em português.
Algumas cópias foram distribuídas com legendas que trazem apenas palavras que condensam o significado das frases e deixam à deriva quem não fala francês.
Mas há também versões com as legendas completas em cartaz. Desde que "Film Socialisme" foi exibido em Cannes, críticos vêm dando diferentes interpretações. Entre os temas abordados por Godard estariam o envelhecimento da Europa, a globalização, uma suposta "invenção de Hollywood" pelos judeus, a questão palestina, entre outros.
Mas a verdade é que o filme é uma coleção de imagens tão fragmentada e desconexa que dá margem a infinitas interpretações. Pense num tema, e eventualmente alguma analogia surgirá.
O filme é dividido em três partes. Na primeira, um navio viaja pelo Mediterrâneo. Alguns passageiros discutem filosofia e história, outros dançam numa discoteca. Até a poetisa punk Patti Smith aparece, com um violão.
Na segunda parte, uma equipe de TV filma o cotidiano de uma família interiorana. Num posto de gasolina, uma menina lê Balzac e uma lhama, isso mesmo, uma lhama fica amarrada a uma bomba de petróleo.
Na última parte, usa imagens de arquivo faroestes americanos, filmes de Charles Chaplin e até "O Encouraçado Potemkin" (1925) para ilustrar temas como a globalização, os confrontos entre israelenses e palestinos e a fome. O filme termina com a frase "Sem comentários".
O único convencional em "Film Socialisme" é o preço do ingresso. Aí, nada de experimentação: é pagar os cobres de sempre para ver a mais nova pirraça de Godard

Cinema de diretor tenta dar conta de mundo fragmentado


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DUAS COISAS MUDARAM: O APEGO SEMPRE CRESCENTE À FUNÇÃO DO CINEASTA COMO HISTORIADOR E O ISOLAMENTO PESSOAL
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Divulgação

Cena de ‘Coisas Assim’, primeira parte de ‘Film Socialisme’

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

A atriz Anne Wyazemsky narra o que ocorreu durante a produção de "A Chinesa". Era 1967 e Jean-Luc Godard não tinha ainda nem metade dos 80 anos que completa hoje. Anne e ele já moravam juntos. E, no apartamento do casal, se davam as filmagens.
Com isso, acontecia de Anne ter uma briga com Godard à noite e, na manhã seguinte, ter de encenar a mesma briga para a câmera, com um ator no lugar do marido.
O exemplo, radical, ilustra a enorme proximidade que Godard estabeleceu entre seus filmes, sua vida pessoal e o momento histórico.
Foi sempre assim, desde o início, pois, embora "Acossado" (1960), filme de estreia, fosse baseado na história de um fora da lei, as semelhanças com o diretor eram muitas: ele também um amante de carros velozes e um rebelde capaz de roubar o caixa dos "Cahiers du Cinéma", a revista onde escrevia, ou de vender às escondidas um livro precioso do avô.
Nos outros filmes da década de 1960, essa proximidade é patente em diversos momentos: o musical "Uma Mulher É uma Mulher" (1961), momento feliz da gravidez de Anna Karina, sua mulher.
A perda do filho, antes do nascimento, determinaria não só o afastamento do casal e as várias tentativas de suicídio (de parte a parte), como a mudança de tom que se pode notar em, por exemplo, "Viver a Vida" (1962) ou ainda em "Alphaville" (1965), este talvez uma última tentativa de reconciliação do casal, embalado nos versos de "Capital da Dor", de Paul Éluard.
No começo dos anos 60, a política já está em "O Pequeno Soldado" (1963), que aborda a guerra de independência da Argélia, ou em em "O Demônio das Onze Horas" (1965), sobre o surgimento da sociedade de consumo. Mais tarde, a ascensão dos grupos esquerdistas surgirá em "A Chinesa".

PROJETO
Todo esse tempo, Godard manteve-se fiel a seu projeto de origem: a criação de um cinema que dê conta de um mundo desestabilizado, fragmentado, inapreensível à narrativa linear.
Não escreve roteiros, para melhor absorver o acaso e os movimentos do instante. Em política, adota progressivamente uma atitude hostil ao gaullismo e à Guerra do Vietnã, que desembocará no esquerdismo em 1968 e, em seguida, na renúncia ao "cinema comercial", no momento em que era uma estrela midiática em escala mundial.
Após anos de desaparecimento, Godard voltou às salas nos anos 1980 e entremeou sucessos e fracassos.
Duas coisas, porém, mudaram: o apego sempre crescente à função do cineasta como historiador, por um lado, e o isolamento pessoal, por outro. Montou na Suíça um estúdio com tudo o que
é necessário para fazer um filme, desde a filmagem até a montagem e a sonorização.
Godard, aos 80, é um gênio bem sozinho

cine - Truffaut - Dor se impõe no bonito retrato da infância feito por Truffaut




CRÍTICO DA FOLHA

Não existe filme sobre a infância e a adolescência tão bonito quanto "Os Incompreendidos" . Ou existe um, sim, o "Zero de Comportamento".
A rigor é como se o mais recente, de François Truffaut, saísse da barriga do ancestral anarquista que Jean Vigo realizou no começo do cinema sonoro.
Mas em Truffaut a dor se impõe (apesar de todo o humor): o filho rejeitado pela mãe, as durezas da escola, os riscos da rua (lugar, apesar disso, de verdade), isso é o que mais chama a atenção na vivência de Doinel.
No entanto, a cada fotograma o filme escande seu prazer de existir, de dar vida aos personagens, de partilhar ruas com eles. Esse é um filme difícil de evitar.
(INÁCIO ARAUJO)

sábado, 27 de novembro de 2010

cine grande otelo





cine - Filme de Griffith de 1916 continua atual no Brasil intolerante



INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Eis um filme a calhar para o Brasil atual: "Intolerância" (Futura, 1h, 12 anos). Não faltará quem torça o nariz: mudo, em preto e branco, do desconhecido D.W. Griffith, que sentido faz?
Bem, para começar, isso que costumamos ver, esse jogo de sensações e sentimentos que se desenvolve na tela, onde parece que uma imagem chama outra, deve quase tudo ao tal Griffith. E esse jogo de imagens distantes que se tocam é que se chama montagem.
Aqui temos quatro histórias paralelas, desenvolvendo-se em várias épocas, em que a ideia de intolerância é central. E por que seria isso tão a propósito no Brasil atual? Olhe para os lados. Para as agressões gratuitas na av. Paulista, para os tons da "batalha de Lobato", para os rancores políticos.
Com efeito, há muitos filmes programados, mas quem quer ver algo realmente atual ficará com "Intolerância", de 1916

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

cine - Woody Allen volta à máquina de acasos

"Você Vai Conhecer o Homem do Seus Sonhos" é nova tentativa de montar o quebra-cabeças da existência


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TRATA-SE DE ENCONTRAR O HOMOGÊNEO E O HETEROGÊNEO: AS PESSOAS MAIS DISPARATADAS QUE ENTRAM EM CENA FAZEM PARTE DE UM MESMO MUNDO
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INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

No Woody Allen mais recente não importa nada se as coisas dão certo ou dão errado. A possibilidade de um ou outro acontecer é que interessa ao nova-iorquino.
Em "Tudo Pode Dar Certo", seu filme imediatamente anterior, tudo dava certo para todo mundo. Mas o diretor não queria dizer que o mundo é um lugar cor-de-rosa. Talvez fosse possível, nas entrelinhas, ler que tudo podia, também, dar muito errado.
"Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos" segue o mesmo princípio: acompanha uma série de vidas próximas umas das outras, as aproximações e distanciamentos, a maneira como se arma o quebra-cabeça que constitui as existências.
Ali está Helena, abandonada pelo marido, que desesperada apoia-se na falsa vidente Cristal (personagem bem hitchcockiano). Mas há também Alfie, o marido, que se apaixona por uma garota de programa tipo "atriz e modelo". E Sally, a filha do casal, que tenta se afirmar no ramo das galerias de arte (e do amor, claro). E ainda seu simpático patrão, Greg, talvez apaixonado.
Como é de seu gosto, para Woody trata-se de encontrar o homogêneo no heterogêneo: as pessoas mais disparatadas que entram em cena fazem, no entanto, parte de um mesmo mundo. O autor talvez se desse melhor se situasse personagens tão nova-iorquinos em Nova York.
Londres quebra o galho (e sempre que vai para lá o cineasta desenvolve temas hitchcockianos). A desvantagem é que os personagens se tornam menos concretos. Como se conhecer intimamente a cidade fosse parte importante do trabalho.

ACASOS
A vantagem, no caso, é que, como "Você Vai Conhecer..." é basicamente uma variante de "Tudo Pode Dar Certo", um filme-espelho, digamos, a mudança de ares acaba ajudando o funcionamento da máquina de acasos que tanto o fascina.
Assim, o fracassado escritor Roy, autor de uma infâmia sem nome, acaba tendo um caminho similar ao do professor de tênis em "Match Point": o de jogar uma grande cartada que vai determinar o rumo de sua vida.
Pode-se sempre acusar Allen de estar fazendo, outra vez, o mesmo filme, com as mesmas ideias. Mas em geral é assim com os bons diretores de cinema. E Woody, mesmo quando faz um filme menor, possui imaginação e humor mais que suficientes para entreter o espectador.

cine,glauber - O condutor do povo é um enviado de Deus-o coletivo é o divino que se individualiza.

Stendhal escreve a vida de uma sociedade revolucionada: Napoleão procura vidas espirituais inferiores à sua em corpos escravizados a Napoleão.

O nacionalismo é a semente que germina no deserto social -os impérios materializam o inconsciente coletivo do povo através de seus patriarcas, que realizam as guerras purificadoras e fortificantes.


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Anotações do cineasta baiano Glauber Rocha encontradas por Celso Amorim no livro "O Império de Napoleão", de Stendhal

terça-feira, 23 de novembro de 2010

cine godard-Gorin - "O excesso de imagens criou uma espécie de cegueira. As pessoas não sabem mais ver.

"O excesso de imagens criou uma espécie de cegueira. As pessoas não sabem mais ver. O cinema digital tem que refletir esse tempo de excessos. Ele traz, em si, uma crítica às próprias imagens",
Jean-Pierre Gorin ex-parceiro de Godard

domingo, 21 de novembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

MÍDIA - Citizen Kane - How to Run a Newspaper

http://www.youtube.com/watch?v=tzhb3U2cONs&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=tzhb3U2cONs

terça-feira, 9 de novembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Buñuel desenha ciúme delirante no paranoico "O Alucinado"



INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Um dia de paranoia. Primeiro passa "O Alucinado" , um precioso Buñuel mexicano sobre o homem que sente pela mulher ciúmes pelo menos delirantes. Não à toa, um fã de carteirinha deste filme de 1953 era Jacques Lacan, o psicanalista francês, cuja tese de doutorado versa, justamente, sobre paranoia.
Na verdade, o caso de Lacan diz respeito a algo mais parecido com o descrito em "Um Tiro para Andy Warhol" (TC Cult, 23h55, 18 anos), de Mary Harron.
O filme começa, também, com uma "história real", a de uma mulher que, tendo escrito um roteiro de cinema para o artista e celebridade produzir e sendo ignorada por ele, decide que o melhor é resolver o caso a bala