Enviado por luisnassif, sex, 20/05/2011 - 20:30
Autor: Edson Joanni
Dez formas distintas de manipulação midiática Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação” através da mídia. Em seu livro “Armas Silenciosas para Guerras Tranquilas”, ele faz referência a esse escrito.
Por Yohandry [20.05.2011 12h05]
Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação” através da mídia. Em seu livro “Armas Silenciosas para Guerras Tranqüilas”, ele faz referência a esse escrito em seu decálogo das “Estratégias de Manipulação”.
1 – A Estratégia da Distração.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças que são decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, economia, psicologia, neurobiologia ou cibernética.
“Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais” (citação do texto ‘Armas Silenciosas para Guerras Tranquilas’).
2 – Criar problemas e depois oferecer soluções.
Este método também se denomina “Problema-Reação-Solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que seja este quem exija medidas que se deseja fazer com que aceitem. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja quem demande leis de segurança e políticas de cerceamento da liberdade.
Ou também: criar uma crise econômica para fazer com que aceitem como males necessários o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
3 – A Estratégia da Gradualidade.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, com conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira as condições sócio-econômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990.
Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego massivo, salários que já não asseguram rendas decentes, tantas mudanças que provocariam uma revolução se fossem aplicadas de uma vez só.
4 – A Estratégia de Diferir.
Outra maneira de fazer com que se aceite uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato.
Primeiro porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para se acostumar com a idéia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.
5 – Dirigir-se ao público como a criaturas de pouca idade.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criatura de pouca idade ou um deficiente mental.
Quanto mais se pretende enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por que? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.
6 – Utilizar o aspecto emocional muito mais que a reflexão.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto-curcuito na análise racional, e, finalmente, no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.
7 – Manter o público na ignorância e na mediocridade.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância planejada entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser alcançada para as classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.
8 – Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.
Promover a crença do público de que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.
9 – Reforçar a auto-culpabilidade.
Fazer crer ao indivíduo que somente ele é culpado por sua própria desgraça devido à insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, em vez de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se menospreza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição da ação do indivíduo. E sem ação não há revolução!
10 – Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.
No decurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência geraram uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles que possuem e utilizam as elites dominantes.
Graças à biologia, à neurobiologia e a psicologia aplicada, o “sistema” desfrutou de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicológica. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que este conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.
Noam Chomsky. Filósofo, ativista, autor e analista político estadunidense. É professor emérito de Lingüística no MIT e uma das figuras mais destacadas desta ciência no século XX. Reconhecido na comunidade científica e acadêmica por seus importantes trabalhos em teoria lingüística e ciência cognitiva.
Publicado por Rebelíon. Foto por http://www.flickr.com/photos/soctech/.
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sábado, 21 de maio de 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Discutindo a nova mídia - blog do luisnassif
seg, 16/05/2011 - 13:17
No IV Congresso Latino Americano de Opinião Pública da WAPOR, Belo Horizonte, um dos trabalhos mais consistentes sobre a Blogosfera e os novos meios de comunicação foi "Eleições 2010: internet em alta, mídia de massa em baixa?" de Anderson Ortiz, Mestrando em Novas Tecnologias da Comunicação – PPGCOM/Uerj, professor das Faculdades Integradas Helio Alonso.
A ação política da velha mídia
O primeiro passo do trabalho foi tentar identificar a atuação política da mídia. A análise constatou que:
a) a atuação mais ativa dos meios de comunicação em sistemas avançados de mídia como o brasileiro é um fenômeno presente em democracias liberais;
b) um padrão de discurso e cobertura de matriz norte-americana exerce forte influência em sociedades com tal alinhamento;
c) este padrão alia desenvolvimento comercial, entretenimento, profissionalização do político, antagonismo entre políticos e jornalistas, resultando em cinismo e apatia da opinião publica em relação à vida política;
contemporaneamente a televisão ocupa papel de destaque como um dos mais influentes meios de comunicação para a área política;
e) o papel da imprensa deve ser vigiar o poder público sendo, portanto, exagerado esperar que atue como definidora da agenda pública política aprofundada.
O trabalho constata que o escândalo é o limite máximo da cobertura jornalística. É dentro desse modelo, basicamente influenciado pela mídia norte-americana, que se desenvolvem os valores midiáticos, dentre os quais o autor destaca:
O paradigma comercial como fator de proliferação de meios massivos; a abordagem dos assuntos sob um viés editorial voltado para o entretenimento; a adequação da figura do político e dos eventos públicos para a cobertura midiática dos assuntos; um antagonismo crescente entre jornalistas e políticos; cinismo recorrente do público em relação à política graças à visão dos jornalistas que prevalece nos enquadramentos dados pelos conteúdos.
Durante as eleições, é quase impossível à mídia discutir temas relevantes ou apontar os melhores candidatos, porque sua posição é a de "captar o fato novo, aquilo que é fora do comum e pode ser retratado na linguagem de cada meio sob seus aspectos e enfoques sensacionalistas".
Essas constatações são de estudiosos estrangeiros e não enfocam especificamente as situações em que a mídia passa a se comportar como partido político.
O circuito do espetáculo midiático-político
A mídia define uma agenda voltada para o espetáculo e candidatos e partidos se esforçam para atende-la atuando de maneira dramatizada ou espetacular. O que define a cobertura são as necessidades dos meios de comunicação, não o interesse público.
Ponto interessante do trabalho é a descrição de mecanismos que levam ao processo de formação da opinião da massa.
Segundo Noelle-Neumann (1972) "os meios de comunicação de massa participam na formação da opinião pública à medida que dão ao indivíduo uma idéia do que pensa o restante da coletividade sobre um dado tema. Este interesse em conhecer e se adequar ao sistema de valores socialmente aceitos faz com que o indivíduo corrobore suas crenças, mude seu pensamento para se adaptar ao grupo, ou simplesmente se exima de emitir sua real opinião (conceito da espiral do silêncio). Tal comportamento parte da premissa de que o indivíduo tenta evitar divergências que possam isolá-lo da coletividade".
Reside aí a maior parte do poder mais pernicioso da mídia. Alias, um outro trabalho apresentado durante o Congresso mostrou como a mídia tradicional sufocou a Última Hora em 1964. Bastava insinuar que abrigava comunistas para imediatamente provocar uma retração dos anunciantes. Esse foi o mesmo principio do macartismo e do movimento midiático brasileiro nos últimos anos.
Cria-se uma “denúncia” qualquer do adversário, dentro do modelo de assassinato de reputação e, com isso, inibe-se as relações especialmente com segundo e terceiro escalaão de empresas;
A regulação na Internet
Outro bom momento do trabalho é o da classificação dos internautas, em relação ao modelo de regulação da Internet, a discussão sobre a democracia digital.
Há duas correntes que se antagonizam ao falar sobre a democracia digital procurando responder se este meio de comunicação pode condicionar um novo modelo de participação (Zittel, 2004). Para os ‘ciberotimistas’, a popularização da base de equipamentos conectados, a entrada maciça de parcelas cada vez maiores dos estratos sociais, a possibilidade de comunicação descentralizada do modelo tradicional ‘um-todos’, passando para modelos ‘um-muitos’ ou ‘um-poucos’ e a interação com pessoas em diferentes pontos do globo de uma maneira fácil e conveniente são argumentos que mostram que uma nova esfera social se forma em torno do aparato tecnológico da internet. Na corrente oposta, cientistas políticos percebem esta e-democracia mais como uma forma de reforçar velhas estruturas da política tradicional do que transformar o fazer político.
Já a corrente “democrata-participacionista” preceitua que a internet é um espaço para colocar o cidadão como um elemento atuante nas decisões políticas. As questões colocadas em evidência são a participação e o engajamento (...). Graças ao poder da comunicação direta e equilibrada em rede, diminui a necessidade de mediação do elemento político e demais gatekeepers (órgãos do poder público, partidos políticos, empresas, entidades de representação, imprensa) na relação entre sociedade e Estado.
Mas há quem coloque em duvida essa democracia.
Segundo Gomes (2008) "ao contrário de uma participação ampliada da sociedade civil, o que se constata é que o público médio apresenta baixo interesse pelos assuntos políticos e nota-se um predomínio de atores sociais já relacionados à política fora da rede de computadores que utilizam o espaço como mais uma ferramenta do fazer político tradicional.
Há dúvidas também em relação ao tema democracia direta.
Autores como Zittel registram três níveis de democracia digital.
A dimensão jurisdicional baseia-se na probabilidade de as decisões serem tomadas coletivamente ou por um ator social autônomo, daí decorrendo que o novo meio digital aumenta os laços sociais e o engajamento cívico, um campo que se auto-regula com novos tipos de comunidades virtuais.
Na dimensão decisional, preceitua-se que este espaço pode se transformar num foro apropriado para decisões diretas da opinião pública.
Graças à dimensão representacional, tem-se que a distância entre o cidadão comum e as instituições representativas pode diminuir graças à internet.
A Internet apresenta vantagens obvias: a superação dos limites de tempo e espaço para participação política; quantidade e armazenamento de informações on-line sempre à disposição; comodidade, conforto e conveniência para acessar informações; facilidade e extensão de acesso; baixo controle e poucos filtros como parte da própria natureza do meio.
A topologia das redes sociais
Mas quais são os gatilhos que despertam a atitude engajada? A pauta é dada pela velha mídia. A blogosfera “reenquadra” a matéria (re-framing) sob um viés contestador.
O objeto de disputa no ativismo digital vai ser a informação. O campo opositor, portanto, é a própria mídia tradicional, sendo o desafio maior do ciberativismo obter êxito em reverter o fluxo da comunicação pautando a mídia estabelecida para um enquadramento diferente consoante os interesses daquele grupo.
A partir daí, forma-se a seguinte corrente:
a) os blogs se abastecem do material produzido pelos meios tradicionais, ampliando ou replicando a cobertura de veículos;
b) o fluxo de passagem da produção ainda se dá mais no sentido dos meios tradicionais migrando seu conteúdo para internet;
c) Na apropriação dos conteúdos, veículos tradicionais conferem maior credibilidade ao autor, tanto para apoiar quanto para refutar.
Em relação à topologia das redes sociais, a divisão é entre as redes igualitárias (aquelas em que todos os ‘nós’ ali presentes têm o mesmo número de conexões), redes mundos pequenos (cujas conexões mostram que há a existência de poucos graus de separação entre as pessoas na formação de famílias de grupos) e redes sem escalas (que postula a existência de ‘nós’ mais centrais na rede, mais fortes que outros e atuando como mediadores e multiplicadores).
Há também uma vasta conceituação sobre a maneira como as redes se interligam e as notícias se propagam.
Os conteúdos começam nas redes com capital relacional forte. No caso de “grupos sociais de capital cognitivo” (sociologuês para definir grupos em que há conteúdo mais denso), como os blogs políticos, a discussão fica limitada a grupos mais localizados e restritos, com maior grau de interesse pelo assunto abordado.
O trabalho divide as comunidades da Internet em ‘emergentes’, ‘associativas’ ou ‘híbridas’.
As “emergentes” baseiam-se nas interações recíprocas dos autores
No caso dos weblogs ligados à política, ou simplesmente blogs2, constata-se que a autoridade na produção de conteúdo inicia na figura de seus colunistas. Dali se dá o processo de difusão de informações para outras redes, quando outros participantes se abastecem de fatos e os replicam para outros ‘nós’.
A reputação é um aspecto importante neste jogo de apropriação e é corroborada pela garantia institucional de um veículo também presente em outros meios de comunicação offline. Há de se observar, portanto, o papel que o veículo desempenha em relação ao autor do blog como uma garantia prévia de credibilidade da fonte.
O trabalho minimiza a extensão dos grupos políticos que se degladiam na Internet. Em geral as discussões políticas ficam restritas a grupos de militantes, sem alcançar públicos maiores.
No IV Congresso Latino Americano de Opinião Pública da WAPOR, Belo Horizonte, um dos trabalhos mais consistentes sobre a Blogosfera e os novos meios de comunicação foi "Eleições 2010: internet em alta, mídia de massa em baixa?" de Anderson Ortiz, Mestrando em Novas Tecnologias da Comunicação – PPGCOM/Uerj, professor das Faculdades Integradas Helio Alonso.
A ação política da velha mídia
O primeiro passo do trabalho foi tentar identificar a atuação política da mídia. A análise constatou que:
a) a atuação mais ativa dos meios de comunicação em sistemas avançados de mídia como o brasileiro é um fenômeno presente em democracias liberais;
b) um padrão de discurso e cobertura de matriz norte-americana exerce forte influência em sociedades com tal alinhamento;
c) este padrão alia desenvolvimento comercial, entretenimento, profissionalização do político, antagonismo entre políticos e jornalistas, resultando em cinismo e apatia da opinião publica em relação à vida política;
contemporaneamente a televisão ocupa papel de destaque como um dos mais influentes meios de comunicação para a área política;
e) o papel da imprensa deve ser vigiar o poder público sendo, portanto, exagerado esperar que atue como definidora da agenda pública política aprofundada.
O trabalho constata que o escândalo é o limite máximo da cobertura jornalística. É dentro desse modelo, basicamente influenciado pela mídia norte-americana, que se desenvolvem os valores midiáticos, dentre os quais o autor destaca:
O paradigma comercial como fator de proliferação de meios massivos; a abordagem dos assuntos sob um viés editorial voltado para o entretenimento; a adequação da figura do político e dos eventos públicos para a cobertura midiática dos assuntos; um antagonismo crescente entre jornalistas e políticos; cinismo recorrente do público em relação à política graças à visão dos jornalistas que prevalece nos enquadramentos dados pelos conteúdos.
Durante as eleições, é quase impossível à mídia discutir temas relevantes ou apontar os melhores candidatos, porque sua posição é a de "captar o fato novo, aquilo que é fora do comum e pode ser retratado na linguagem de cada meio sob seus aspectos e enfoques sensacionalistas".
Essas constatações são de estudiosos estrangeiros e não enfocam especificamente as situações em que a mídia passa a se comportar como partido político.
O circuito do espetáculo midiático-político
A mídia define uma agenda voltada para o espetáculo e candidatos e partidos se esforçam para atende-la atuando de maneira dramatizada ou espetacular. O que define a cobertura são as necessidades dos meios de comunicação, não o interesse público.
Ponto interessante do trabalho é a descrição de mecanismos que levam ao processo de formação da opinião da massa.
Segundo Noelle-Neumann (1972) "os meios de comunicação de massa participam na formação da opinião pública à medida que dão ao indivíduo uma idéia do que pensa o restante da coletividade sobre um dado tema. Este interesse em conhecer e se adequar ao sistema de valores socialmente aceitos faz com que o indivíduo corrobore suas crenças, mude seu pensamento para se adaptar ao grupo, ou simplesmente se exima de emitir sua real opinião (conceito da espiral do silêncio). Tal comportamento parte da premissa de que o indivíduo tenta evitar divergências que possam isolá-lo da coletividade".
Reside aí a maior parte do poder mais pernicioso da mídia. Alias, um outro trabalho apresentado durante o Congresso mostrou como a mídia tradicional sufocou a Última Hora em 1964. Bastava insinuar que abrigava comunistas para imediatamente provocar uma retração dos anunciantes. Esse foi o mesmo principio do macartismo e do movimento midiático brasileiro nos últimos anos.
Cria-se uma “denúncia” qualquer do adversário, dentro do modelo de assassinato de reputação e, com isso, inibe-se as relações especialmente com segundo e terceiro escalaão de empresas;
A regulação na Internet
Outro bom momento do trabalho é o da classificação dos internautas, em relação ao modelo de regulação da Internet, a discussão sobre a democracia digital.
Há duas correntes que se antagonizam ao falar sobre a democracia digital procurando responder se este meio de comunicação pode condicionar um novo modelo de participação (Zittel, 2004). Para os ‘ciberotimistas’, a popularização da base de equipamentos conectados, a entrada maciça de parcelas cada vez maiores dos estratos sociais, a possibilidade de comunicação descentralizada do modelo tradicional ‘um-todos’, passando para modelos ‘um-muitos’ ou ‘um-poucos’ e a interação com pessoas em diferentes pontos do globo de uma maneira fácil e conveniente são argumentos que mostram que uma nova esfera social se forma em torno do aparato tecnológico da internet. Na corrente oposta, cientistas políticos percebem esta e-democracia mais como uma forma de reforçar velhas estruturas da política tradicional do que transformar o fazer político.
Já a corrente “democrata-participacionista” preceitua que a internet é um espaço para colocar o cidadão como um elemento atuante nas decisões políticas. As questões colocadas em evidência são a participação e o engajamento (...). Graças ao poder da comunicação direta e equilibrada em rede, diminui a necessidade de mediação do elemento político e demais gatekeepers (órgãos do poder público, partidos políticos, empresas, entidades de representação, imprensa) na relação entre sociedade e Estado.
Mas há quem coloque em duvida essa democracia.
Segundo Gomes (2008) "ao contrário de uma participação ampliada da sociedade civil, o que se constata é que o público médio apresenta baixo interesse pelos assuntos políticos e nota-se um predomínio de atores sociais já relacionados à política fora da rede de computadores que utilizam o espaço como mais uma ferramenta do fazer político tradicional.
Há dúvidas também em relação ao tema democracia direta.
Autores como Zittel registram três níveis de democracia digital.
A dimensão jurisdicional baseia-se na probabilidade de as decisões serem tomadas coletivamente ou por um ator social autônomo, daí decorrendo que o novo meio digital aumenta os laços sociais e o engajamento cívico, um campo que se auto-regula com novos tipos de comunidades virtuais.
Na dimensão decisional, preceitua-se que este espaço pode se transformar num foro apropriado para decisões diretas da opinião pública.
Graças à dimensão representacional, tem-se que a distância entre o cidadão comum e as instituições representativas pode diminuir graças à internet.
A Internet apresenta vantagens obvias: a superação dos limites de tempo e espaço para participação política; quantidade e armazenamento de informações on-line sempre à disposição; comodidade, conforto e conveniência para acessar informações; facilidade e extensão de acesso; baixo controle e poucos filtros como parte da própria natureza do meio.
A topologia das redes sociais
Mas quais são os gatilhos que despertam a atitude engajada? A pauta é dada pela velha mídia. A blogosfera “reenquadra” a matéria (re-framing) sob um viés contestador.
O objeto de disputa no ativismo digital vai ser a informação. O campo opositor, portanto, é a própria mídia tradicional, sendo o desafio maior do ciberativismo obter êxito em reverter o fluxo da comunicação pautando a mídia estabelecida para um enquadramento diferente consoante os interesses daquele grupo.
A partir daí, forma-se a seguinte corrente:
a) os blogs se abastecem do material produzido pelos meios tradicionais, ampliando ou replicando a cobertura de veículos;
b) o fluxo de passagem da produção ainda se dá mais no sentido dos meios tradicionais migrando seu conteúdo para internet;
c) Na apropriação dos conteúdos, veículos tradicionais conferem maior credibilidade ao autor, tanto para apoiar quanto para refutar.
Em relação à topologia das redes sociais, a divisão é entre as redes igualitárias (aquelas em que todos os ‘nós’ ali presentes têm o mesmo número de conexões), redes mundos pequenos (cujas conexões mostram que há a existência de poucos graus de separação entre as pessoas na formação de famílias de grupos) e redes sem escalas (que postula a existência de ‘nós’ mais centrais na rede, mais fortes que outros e atuando como mediadores e multiplicadores).
Há também uma vasta conceituação sobre a maneira como as redes se interligam e as notícias se propagam.
Os conteúdos começam nas redes com capital relacional forte. No caso de “grupos sociais de capital cognitivo” (sociologuês para definir grupos em que há conteúdo mais denso), como os blogs políticos, a discussão fica limitada a grupos mais localizados e restritos, com maior grau de interesse pelo assunto abordado.
O trabalho divide as comunidades da Internet em ‘emergentes’, ‘associativas’ ou ‘híbridas’.
As “emergentes” baseiam-se nas interações recíprocas dos autores
No caso dos weblogs ligados à política, ou simplesmente blogs2, constata-se que a autoridade na produção de conteúdo inicia na figura de seus colunistas. Dali se dá o processo de difusão de informações para outras redes, quando outros participantes se abastecem de fatos e os replicam para outros ‘nós’.
A reputação é um aspecto importante neste jogo de apropriação e é corroborada pela garantia institucional de um veículo também presente em outros meios de comunicação offline. Há de se observar, portanto, o papel que o veículo desempenha em relação ao autor do blog como uma garantia prévia de credibilidade da fonte.
O trabalho minimiza a extensão dos grupos políticos que se degladiam na Internet. Em geral as discussões políticas ficam restritas a grupos de militantes, sem alcançar públicos maiores.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011
As novas mídias e o jogo político - nassif -
Enviado por luisnassif, seg, 09/05/2011 - 08:00
Coluna Econômica
Na sexta-feira passada participei da sessão de encerramento do IV Congresso Latino Americano de Opinião Pública da Wapor, um encontro que reuniu especialistas em pesquisas de opinião do continente, tanto da área acadêmica quanto dos institutos de pesquisa.
As novas mídias entraram definitivamente na agenda do setor, por sua capacidade de interferir em eleições. Esse processo ficou claro nas eleições de Obama. De seu lado, foi auxiliado por uma multidão de blogueiros e voluntários. Na outra ponta, alvo de uma campanha de baixíssimo nível, valendo-se de redes sociais e blogs, apontando-o como terrorista, muçulmano etc.
***
Alguns pensadores defendem a tese de que a blogosfera é por demais caótica para conseguir interferir no jogo político. Em geral se aferram a um retrato atual do setor, incapazes de entender o processo futuro.
A blogosfera é como uma imensa assembleia pública dos primórdios da democracia grega, uma imensa sala onde todos se manifestam.
Desde o advento da indústria da comunicação, o jogo da opinião pública ficou restrita à opinião que passava pelos grandes jornais centrais de cada país. Ficavam de fora desse jogo as cidades e cidadãos do interior, setores da economia, movimentos sociais, pequenas empresas etc.
****
A blogosfera é um caos – que em determinado momento encontrará várias formas de organização. A diferença é que todas as manifestações, ruídos, militâncias se dão na mesma plataforma tecnológica. Essa é a diferença fundamental.
Sem Internet, a opinião pública é captada ou através de pesquisas de opinião estáticas, ou através do filtro do jornal.
Com a Internet, o jogo é outro. Todas as opiniões são bites na rede. Todas as informações estão disponíveis para modernas ferramentas de gestão do conhecimento, seja RSS (sistema que permite receber automaticamente notícias de um site ou blog), cokpits (formas aprimoradas de organizar informações).
***
O primeiro bloqueio à informação – sua publicização – é removido. Cada vez mais será possível buscar informações dos locais mais distantes, dos setores mais esquecidos.
***
Espalhadas pela rede, as informações assumem inicialmente um aspecto caótico. Gradativamente surgirão os hubs, os agregadores, que buscarão informações e darão tratamento jornalístico às notícias.
Haverá implicações em todas as áreas.
Por exemplo, na política econômica, atualmente o único setor ouvido é o dos economistas de mercado, com fácil acesso às editorias econômicas dos grandes jornais de São Paulo e Rio.
Gradativamente setores da indústria, de serviços, sindicatos, cidades do interior, disponibilizarão dados na rede, acessíveis a analistas, pesquisadores, veículos de informação, autoridades econômicas etc.
***
As eleições do ano passado, além disso, mostraram a importância do contraponto permitido pela Internet, especialmente em períodos em que não há contraponto na grande mídia.
Mesmo em fase incipiente, o espaço proporcionado pela Internet já modificou a história da mídia.
Coluna Econômica
Na sexta-feira passada participei da sessão de encerramento do IV Congresso Latino Americano de Opinião Pública da Wapor, um encontro que reuniu especialistas em pesquisas de opinião do continente, tanto da área acadêmica quanto dos institutos de pesquisa.
As novas mídias entraram definitivamente na agenda do setor, por sua capacidade de interferir em eleições. Esse processo ficou claro nas eleições de Obama. De seu lado, foi auxiliado por uma multidão de blogueiros e voluntários. Na outra ponta, alvo de uma campanha de baixíssimo nível, valendo-se de redes sociais e blogs, apontando-o como terrorista, muçulmano etc.
***
Alguns pensadores defendem a tese de que a blogosfera é por demais caótica para conseguir interferir no jogo político. Em geral se aferram a um retrato atual do setor, incapazes de entender o processo futuro.
A blogosfera é como uma imensa assembleia pública dos primórdios da democracia grega, uma imensa sala onde todos se manifestam.
Desde o advento da indústria da comunicação, o jogo da opinião pública ficou restrita à opinião que passava pelos grandes jornais centrais de cada país. Ficavam de fora desse jogo as cidades e cidadãos do interior, setores da economia, movimentos sociais, pequenas empresas etc.
****
A blogosfera é um caos – que em determinado momento encontrará várias formas de organização. A diferença é que todas as manifestações, ruídos, militâncias se dão na mesma plataforma tecnológica. Essa é a diferença fundamental.
Sem Internet, a opinião pública é captada ou através de pesquisas de opinião estáticas, ou através do filtro do jornal.
Com a Internet, o jogo é outro. Todas as opiniões são bites na rede. Todas as informações estão disponíveis para modernas ferramentas de gestão do conhecimento, seja RSS (sistema que permite receber automaticamente notícias de um site ou blog), cokpits (formas aprimoradas de organizar informações).
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O primeiro bloqueio à informação – sua publicização – é removido. Cada vez mais será possível buscar informações dos locais mais distantes, dos setores mais esquecidos.
***
Espalhadas pela rede, as informações assumem inicialmente um aspecto caótico. Gradativamente surgirão os hubs, os agregadores, que buscarão informações e darão tratamento jornalístico às notícias.
Haverá implicações em todas as áreas.
Por exemplo, na política econômica, atualmente o único setor ouvido é o dos economistas de mercado, com fácil acesso às editorias econômicas dos grandes jornais de São Paulo e Rio.
Gradativamente setores da indústria, de serviços, sindicatos, cidades do interior, disponibilizarão dados na rede, acessíveis a analistas, pesquisadores, veículos de informação, autoridades econômicas etc.
***
As eleições do ano passado, além disso, mostraram a importância do contraponto permitido pela Internet, especialmente em períodos em que não há contraponto na grande mídia.
Mesmo em fase incipiente, o espaço proporcionado pela Internet já modificou a história da mídia.
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sexta-feira, 6 de maio de 2011
Sarney: a mídia e os partidos - blog do nassif -
Enviado por luisnassif, qui, 05/05/2011 - 15:37
Por Edson Joanni
"SirNey" e os donos do "Pudêr"
Da Folha.com
Sarney diz que mídia enfraquece o poder dos partidos políticos
GABRIELA GUERREIRO
Em seminário do PMDB que discutiu nesta quinta-feira estratégias de comunicação política, o senador José Sarney (PMDB-AP) disse que a mídia enfraquece os poderes dos partidos políticos no Brasil. Segundo Sarney, os políticos precisam criar mecanismos para que não percam sua "legitimidade" diante da atuação da imprensa.
"O Congresso depois de um mês, dois, três, começa a ser contestado. Os deputados não sabem porque foram eleitos e o eleitor não sabe mais que elegeu o deputado. A partir daí, a mídia e seus instrumentos entram e dizem: não, nós passamos a representar o povo. Esse é o grande desafio do mundo atual, da classe política."
Sarney disse que todos os políticos se queixam da imprensa, mas precisam fazer a "sua parte" ao defender que a liberdade de expressão sirva à democracia sem "desvirtuá-la".
Apesar das críticas, Sarney disse ser contrário a instrumentos de controle da imprensa brasileira. "Até o tempo corrige os equívocos que a mídia corrige. Talvez eu tenha sido o presidente mais criticado da história do Brasil, mas nunca ninguém viu da minha parte nenhuma reação violenta contra isso."
O peemedebista afirmou que a imprensa, as ONGs e a própria sociedade civil tiram "nacos" da atividade política --o que enfraquece os partidos e o Congresso.
"Nós precisamos disputar esse espaço de saber quem representa a opinião pública", afirmou.
O PMDB organizou seminário para discutir novas estratégias de mídia com a presença de marqueteiros americanos responsáveis pela campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos.
O vice-presidente Michel Temer disse que os peemedebistas precisam melhorar sua estratégia de comunicação para que a sociedade conheça as ações do partido.
"Quando você realiza as coisas e não consegue transmiti-la ao grande público, a imagem geral que se tem do partido muitas vezes é negativa. O que o partido faz não chega ao grande público", afirmou.
Para o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), os políticos precisam interagir com a sociedade para que sua representação não "caduque". "O nosso problema é como o PMDB, o maior partido do Brasil, dialoga com a sociedade. Cada vez mais a sociedade demanda informações que a mídia tradicional não é capaz de atender."
Por Edson Joanni
"SirNey" e os donos do "Pudêr"
Da Folha.com
Sarney diz que mídia enfraquece o poder dos partidos políticos
GABRIELA GUERREIRO
Em seminário do PMDB que discutiu nesta quinta-feira estratégias de comunicação política, o senador José Sarney (PMDB-AP) disse que a mídia enfraquece os poderes dos partidos políticos no Brasil. Segundo Sarney, os políticos precisam criar mecanismos para que não percam sua "legitimidade" diante da atuação da imprensa.
"O Congresso depois de um mês, dois, três, começa a ser contestado. Os deputados não sabem porque foram eleitos e o eleitor não sabe mais que elegeu o deputado. A partir daí, a mídia e seus instrumentos entram e dizem: não, nós passamos a representar o povo. Esse é o grande desafio do mundo atual, da classe política."
Sarney disse que todos os políticos se queixam da imprensa, mas precisam fazer a "sua parte" ao defender que a liberdade de expressão sirva à democracia sem "desvirtuá-la".
Apesar das críticas, Sarney disse ser contrário a instrumentos de controle da imprensa brasileira. "Até o tempo corrige os equívocos que a mídia corrige. Talvez eu tenha sido o presidente mais criticado da história do Brasil, mas nunca ninguém viu da minha parte nenhuma reação violenta contra isso."
O peemedebista afirmou que a imprensa, as ONGs e a própria sociedade civil tiram "nacos" da atividade política --o que enfraquece os partidos e o Congresso.
"Nós precisamos disputar esse espaço de saber quem representa a opinião pública", afirmou.
O PMDB organizou seminário para discutir novas estratégias de mídia com a presença de marqueteiros americanos responsáveis pela campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos.
O vice-presidente Michel Temer disse que os peemedebistas precisam melhorar sua estratégia de comunicação para que a sociedade conheça as ações do partido.
"Quando você realiza as coisas e não consegue transmiti-la ao grande público, a imagem geral que se tem do partido muitas vezes é negativa. O que o partido faz não chega ao grande público", afirmou.
Para o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), os políticos precisam interagir com a sociedade para que sua representação não "caduque". "O nosso problema é como o PMDB, o maior partido do Brasil, dialoga com a sociedade. Cada vez mais a sociedade demanda informações que a mídia tradicional não é capaz de atender."
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segunda-feira, 2 de maio de 2011
blog do nassif - Técnicas para a manipulação da opinião pública
Enviado por luisnassif, dom, 01/05/2011 - 10:11
Autor: Sylvain Timsit
Por Paulo Kautscher
1- A estratégia da diversão
Elemento primordial do controle social, a estratégia da diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, graças a um dilúvio contínuo de distrações e informações insignificantes.
A estratégia da diversão é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais nos domínios da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.
"Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por assuntos sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar, voltado para a manjedoura com os outros animais" (extraído de "Armas silenciosas para guerras tranquilas").
2- Criar problemas, depois oferecer soluções
Este método também é denominado "problema-reação-solução". Primeiro cria-se um problema, uma "situação" destinada a suscitar uma certa reação do público, a fim de que seja ele próprio a exigir as medidas que se deseja fazê-lo aceitar. Exemplo: deixar desenvolver-se a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público passe a reivindicar leis de segurança em detrimento da liberdade. Ou ainda: criar uma crise econômica para fazer como um mal necessário o recuo dos direitos sociais e desmantelamento dos serviços públicos.
3- A estratégia do alongamento
Para fazer aceitar uma medida inaceitável, basta aplicá-la progressivamente, de forma gradual, ao longo de 10 anos. Foi deste modo que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante os anos 1980 e 1990. Desemprego maciço, precariedade, flexibilidade, deslocalizações, salários que já não asseguram um rendimento decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas brutalmente.
4- A estratégia do diferimento
Outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como "dolorosa mas necessária", obtendo o acordo do público no presente para uma aplicação no futuro. É sempre mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque a dor não será sofrida de repente. A seguir, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhor amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Finalmente, porque isto dá tempo ao público para se habituar à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.
Exemplo recente: a passagem ao Euro e a perda da soberania monetária e econômica foram aceitas pelos países europeus em 1994-95 para uma aplicação em 2001. Outro exemplo: os acordos multilaterais do FTAA (Free Trade Agreement of the Americas) que os EUA impuseram em 2001 aos países do continente americano ainda reticentes, concedendo uma aplicação diferida para 2005.
5- Dirigir-se ao público como se fossem crianças pequenas
A maior parte da publicidade destinada ao grande público utiliza um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizadores, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um débil mental. Exemplo típico: a campanha da TV francesa pela passagem ao Euro ("os dias euro"). Quanto mais se procura enganar o espectador, mais se adota um tom infantilizante. Por quê?
"Se se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos de idade, então, devido à sugestibilidade, ela terá, com uma certa probabilidade, uma resposta ou uma reação tão destituída de sentido crítico como aquela de uma pessoa de 12 anos". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranquilas" )
6- Apelar antes ao emocional do que à reflexão
Apelar ao emocional é uma técnica clássica para curtocircuitar a análise racional e, portanto, o sentido crítico dos indivíduos. Além disso, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para ali implantar ideias, desejos, medos, impulsos ou comportamentos...
7- Manter o público na ignorância e no disparate
Atuar de modo a que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e a sua escravidão.
"A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser da espécie mais pobre, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores seja e permaneça incompreensível pelas classes inferiores". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranquilas" )
8- Encorajar o público a comprazer-se na mediocridade
Encorajar o público a considerar "natural" o fato de ser idiota, vulgar e inculto...
9- Substituir a revolta pela culpabilidade
Fazer crer ao indivíduo que ele é o único responsável pela sua infelicidade, devido à insuficiência da sua inteligência, das suas capacidades ou dos seus esforços. Assim, ao invés de se revoltar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto-desvaloriza e auto-culpabiliza, o que engendra um estado depressivo que tem como um dos efeitos a inibição da ação. E sem ação, não há alteração!...
10- Conhecer os indivíduos melhor do que eles se conhecem a si próprios
No decurso dos últimos 50 anos, os progressos fulgurantes da ciência cavaram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dirigentes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" chegou a um conhecimento avançado do ser humano, tanto física como psicologicamente. O sistema chegou a conhecer melhor o indivíduo médio do que este se conhece a si próprio. Isto significa que na maioria dos casos o sistema detém um maior controle e um maior poder sobre os indivíduos do que os próprios indivíduos
Autor: Sylvain Timsit
Por Paulo Kautscher
1- A estratégia da diversão
Elemento primordial do controle social, a estratégia da diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, graças a um dilúvio contínuo de distrações e informações insignificantes.
A estratégia da diversão é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais nos domínios da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.
"Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por assuntos sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar, voltado para a manjedoura com os outros animais" (extraído de "Armas silenciosas para guerras tranquilas").
2- Criar problemas, depois oferecer soluções
Este método também é denominado "problema-reação-solução". Primeiro cria-se um problema, uma "situação" destinada a suscitar uma certa reação do público, a fim de que seja ele próprio a exigir as medidas que se deseja fazê-lo aceitar. Exemplo: deixar desenvolver-se a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público passe a reivindicar leis de segurança em detrimento da liberdade. Ou ainda: criar uma crise econômica para fazer como um mal necessário o recuo dos direitos sociais e desmantelamento dos serviços públicos.
3- A estratégia do alongamento
Para fazer aceitar uma medida inaceitável, basta aplicá-la progressivamente, de forma gradual, ao longo de 10 anos. Foi deste modo que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante os anos 1980 e 1990. Desemprego maciço, precariedade, flexibilidade, deslocalizações, salários que já não asseguram um rendimento decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas brutalmente.
4- A estratégia do diferimento
Outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como "dolorosa mas necessária", obtendo o acordo do público no presente para uma aplicação no futuro. É sempre mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque a dor não será sofrida de repente. A seguir, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhor amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Finalmente, porque isto dá tempo ao público para se habituar à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.
Exemplo recente: a passagem ao Euro e a perda da soberania monetária e econômica foram aceitas pelos países europeus em 1994-95 para uma aplicação em 2001. Outro exemplo: os acordos multilaterais do FTAA (Free Trade Agreement of the Americas) que os EUA impuseram em 2001 aos países do continente americano ainda reticentes, concedendo uma aplicação diferida para 2005.
5- Dirigir-se ao público como se fossem crianças pequenas
A maior parte da publicidade destinada ao grande público utiliza um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizadores, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um débil mental. Exemplo típico: a campanha da TV francesa pela passagem ao Euro ("os dias euro"). Quanto mais se procura enganar o espectador, mais se adota um tom infantilizante. Por quê?
"Se se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos de idade, então, devido à sugestibilidade, ela terá, com uma certa probabilidade, uma resposta ou uma reação tão destituída de sentido crítico como aquela de uma pessoa de 12 anos". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranquilas" )
6- Apelar antes ao emocional do que à reflexão
Apelar ao emocional é uma técnica clássica para curtocircuitar a análise racional e, portanto, o sentido crítico dos indivíduos. Além disso, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para ali implantar ideias, desejos, medos, impulsos ou comportamentos...
7- Manter o público na ignorância e no disparate
Atuar de modo a que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e a sua escravidão.
"A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser da espécie mais pobre, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores seja e permaneça incompreensível pelas classes inferiores". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranquilas" )
8- Encorajar o público a comprazer-se na mediocridade
Encorajar o público a considerar "natural" o fato de ser idiota, vulgar e inculto...
9- Substituir a revolta pela culpabilidade
Fazer crer ao indivíduo que ele é o único responsável pela sua infelicidade, devido à insuficiência da sua inteligência, das suas capacidades ou dos seus esforços. Assim, ao invés de se revoltar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto-desvaloriza e auto-culpabiliza, o que engendra um estado depressivo que tem como um dos efeitos a inibição da ação. E sem ação, não há alteração!...
10- Conhecer os indivíduos melhor do que eles se conhecem a si próprios
No decurso dos últimos 50 anos, os progressos fulgurantes da ciência cavaram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dirigentes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" chegou a um conhecimento avançado do ser humano, tanto física como psicologicamente. O sistema chegou a conhecer melhor o indivíduo médio do que este se conhece a si próprio. Isto significa que na maioria dos casos o sistema detém um maior controle e um maior poder sobre os indivíduos do que os próprios indivíduos
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sábado, 23 de abril de 2011
blog do nassif - Lições machistas, de Veríssimo
Lições machistas, de Veríssimo
Enviado por luisnassif, sab, 23/04/2011 - 10:46
Por Romanelli
provocação barata ..afrimação sem pé nem cabeça ..achismo conjectural travestido de ciência institucional
assim não ..assim não dá graça falarmos de economia
conta outra zé? ..se não sabe, então eu conto, ..ou melhor, repasso
DESABAFO DE UM BOM MARIDO
Luís Fernando Veríssimo
Minha esposa e eu sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.
--------------------------------------------
Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica.
Então ela disse: 'Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar'.
Daí comprei pra ela uma cadeira elétrica.
------------------------------------------
Eu me casei com a 'Sra. Certa'. Só não sabia que o primeiro nome dela era 'Sempre'..
----------------------------------------
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: 'O que tem na TV?' E eu disse 'Poeira'.
----------------------------------------
No começo Deus criou o mundo e descansou.
Então, Ele criou o homem e descansou.
Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo tiveram mais descanso.
-----------------------------------------
Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes, o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.. Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer..
Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dente e lhe entreguei..
'- Quando você terminar de cortar a grama,' eu disse, 'você pode também varrer a calçada.'
Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida'.
------------------------------------------
'O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido...
Enviado por luisnassif, sab, 23/04/2011 - 10:46
Por Romanelli
provocação barata ..afrimação sem pé nem cabeça ..achismo conjectural travestido de ciência institucional
assim não ..assim não dá graça falarmos de economia
conta outra zé? ..se não sabe, então eu conto, ..ou melhor, repasso
DESABAFO DE UM BOM MARIDO
Luís Fernando Veríssimo
Minha esposa e eu sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.
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Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica.
Então ela disse: 'Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar'.
Daí comprei pra ela uma cadeira elétrica.
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Eu me casei com a 'Sra. Certa'. Só não sabia que o primeiro nome dela era 'Sempre'..
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Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: 'O que tem na TV?' E eu disse 'Poeira'.
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No começo Deus criou o mundo e descansou.
Então, Ele criou o homem e descansou.
Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo tiveram mais descanso.
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Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes, o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.. Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer..
Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dente e lhe entreguei..
'- Quando você terminar de cortar a grama,' eu disse, 'você pode também varrer a calçada.'
Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida'.
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'O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido...
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terça-feira, 19 de abril de 2011
A crise do jornalismo investigativo nos EUA - blog do nassif
29/11/2010 - 09:19
Por raquel_
Por falar em jornalismo investigativo, a Piauí de setembro lançou uma matéria falando sobre a crise deles no EUA:
Da piauí
Caro, trabalhoso, chato
O jornalismo investigativo americano luta para sobreviver
Bianca Vianna
Steve Coll trabalhou mais de vinte anos no Washington Post. Foi repórter, editor, correspondente internacional e diretor de redação do jornal. Tem seis livros publicados, ganhou dois prêmios Pulitzer e escreve sobre segurança nacional na revista The New Yorker. Com seu rosto redondo e um resto de franja ruiva que resiste à calvície, aos 52 anos Coll parece um menino envelhecido. “Se estivesse começando agora, escolheria outra profissão”, disse ele, desanimado, folheando uma piauí na sala de reuniões da New American Foundation, da qual é presidente. “O tipo de jornalismo que fiz a vida toda, com reportagens investigativas longas, de estilo narrativo, acabou.”
Foi outro dia mesmo – na segunda metade do século XX – que o jornalismo investigativo americano viveu sua época de glória. Em 1969, o repórter Seymour Hersh publicou em mais de trinta jornais uma reportagem sobre o acobertamento do massacre de centenas de civis por soldados americanos na aldeia de My Lai, no Vietnã.
Dois anos depois, o New York Times publicou os “papéis do Pentágono”, uma série de reportagens sobre um estudo secreto do próprio governo que demonstrava a impossibilidade de ganhar a guerra do Vietnã.
Em 1972, por fim, Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres policiais do Washington Post, descobriram que a Casa Branca colocara escutas ilegais na sede do Partido Democrata, no edifício Watergate, na capital americana. A investigação levou dois anos, e mostrou que Richard Nixon não só ordenara o crime como tentara escondê-lo da Justiça, o que provocou a renúncia do presidente, em 1974.
Woodward e Bernstein, com alguma ajuda de Robert Redford e Dustin Hoffman, que os retrataram bonitos e charmosos em Todos os Homens do Presidente, tornaram o jornalismo investigativo uma atividade glamorosa. As escolas de jornalismo encheram-se de jovens querendo derrubar presidentes.
São reportagens como essas que, segundo Steve Coll, podem estar em vias de extinção nos Estados Unidos. O motor da crise está na internet, que alterou tanto a maneira como a imprensa escrita obtém lucro quanto os hábitos de leitores e anunciantes.
O início da crise remonta a 1995, quando Craig Newmark começou a enviar para uma lista de endereços eletrônicos um boletim gratuito com informações sobre eventos sociais em São Francisco, cidade para onde se mudara recentemente e na qual não tinha muitos amigos. A iniciativa resultou na craigslist.org, hoje o maior site de anúncios classificados do mundo, com 20 bilhões de page views por mês, mais de 50 milhões de usuários só nos Estados Unidos e versões em setenta países (no Brasil, ele existe em nove capitais).
O site da Craigslist, feio e funcional, lembra as velhas seções de classificados que veio a substituir. Cobra-se apenas por determinados tipos de anúncios, em algumas cidades. Corretores de imóveis em Nova York têm de pagar. Já os de Des Moines, capital do Iowa, anunciam de graça. Nas dezoito maiores cidades americanas, são cobrados os classificados de empregos e as ofertas de serviços, e nas outras não.
A Craigslist tem uma receita anual estimada em pouco mais de 100 milhões de dólares – quase nada, quando se pensa no estrago que ela causou. Até o surgimento do site, os grandes jornais americanos financiavam 80% de suas operações com classificados e anúncios. Apenas 20% vinham de assinaturas e da venda em bancas. Os classificados garantiam a sobrevivência dos jornais não só pelo seu peso na receita, mas também pela pulverização que representavam. Junto com os anúncios do comércio local, eles garantiam o equilíbrio das contas, caso o jornal perdesse um ou outro anunciante de grande porte.
É por isso que Steve Coll acha uma falácia debater se os leitores devem ou não sustentar os jornais pagando pela leitura on-line. “Leitor nunca sustentou jornal. Eram os classificados e os anunciantes que o faziam”, ele disse. E tanto um como o outro foram atraídos para a internet.
Nos grandes jornais, os anunciantes pagavam caro pelo acesso a um público enorme, variado e disperso. Ou seja, desperdiçavam dinheiro para atingir leitores que nunca comprariam suas mercadorias. A internet resolveu o problema. Casando resultados de buscas, histórico de compras e informações colocadas pelos próprios consumidores em sites de relacionamento, é possível acercar-se com precisão do público-alvo. O retorno é maior e o custo dos anúncios é menor.
Além da derrota econômica para a internet, os jornais também foram vencidos na batalha, por assim dizer, ideológica. Mais precisamente: eles se renderam. Renderam-se à premissa, alardeada pelos conglomerados on-line, de que tudo na internet deve ser acessível e gratuito. Com isso, o trabalho de jornalistas como Steve Coll passou a ser distribuído de graça e reproduzido por toda a rede. Parte dos leitores migrou do papel para os sites de notícias.
A crise se instalou. A companhia que controla o Los Angeles Times e outros jornais tradicionais, como o Chicago Tribune, pediu concordata. O Washington Post, cuja margem de lucro caiu 25% nos últimos cinco anos, sobrevive subsidiado pela Kaplan, empresa de materiais didáticos pertencente ao mesmo grupo. O New York Times, com uma queda de 50% na margem de lucro, foi obrigado a tomar um empréstimo a juros altos do bilionário mexicano Carlos Slim. A revista semanal Newsweek, que no ano passado perdeu 30 milhões de dólares, foi vendida para o milionário Sidney Harman por 1 dólar (mais as dívidas). A circulação da mídia impressa caiu 30% em um par de anos. Calcula-se que 26 mil jornalistas tenham perdido o emprego desde 2008. As áreas que mais sofreram foram o jornalismo investigativo e a cobertura internacional.
Nesse cenário devastado apareceu, no improvável papel de herói, o casal de velhinhos Marion e Herb Sandler. Hoje chegando aos 80 anos de idade, os Sandler começaram a fazer fortuna em 1963, com a criação da Golden West Financial Corporation. O negócio cresceu e se tornou o World Savings Bank. Em 2006, logo antes da crise financeira, o casal o vendeu para o banco Wachovia. Dos 2,4 bilhões de dólares que receberam na transação, 1,4 bilhão foi destinado à pequena fundação que haviam criado anos antes. O aporte pôs a Fundação Sandler entre as trinta maiores dos Estados Unidos.
Os Sandler começaram a financiar pesquisas de doenças parasitárias e criaram um programa de estudo da asma, doença da qual Marion sofre. Doaram mais de 30 milhões de dólares para a organização de direitos humanos Human Rights Watch. Fundaram um centro de estudos, em Washington, dirigido por John Podesta, ex-chefe de gabinete de Bill Clinton. E decidiram bancar um projeto de jornalismo sem fins lucrativos.
O casal distribui dinheiro de um modo singular. Em vez de receber propostas, como ocorre com a maioria das fundações americanas, são eles que saem atrás das melhores pessoas das áreas para as quais querem fazer doações. Os beneficiários são surpreendidos por um telefonema oferecendo financiamento para seus projetos. Mas a Fundação Sandler esquadrinha a vida dos escolhidos como se fossem candidatos a emprego na Casa Branca. Colegas e ex-colegas recebem telefonemas em busca de informação, e toda a vida profissional dos possíveis favorecidos passa pelo crivo do casal.
Foi assim que chegaram a Paul Steiger, o diretor de redação do Wall Street Journal. Os Sandler queriam saber em quais áreas do jornalismo seu dinheiro poderia fazer diferença. Ouviram de Steiger que o jornalismo investigativo é o ramo mais importante para o funcionamento de uma democracia – e o que mais está em risco. O casal, que havia conversado com outros jornalistas, disse-lhe então que queria montar uma redação que se dedicasse exclusivamente a reportagens investigativas. Seria uma redação bem paga, que trabalharia em liberdade e não buscaria o lucro. A única condição do casal foi que Steiger fosse o editor-chefe.
Investigações jornalísticas são trabalhosas, caras, demandam tempo e nem sempre rendem reportagens publicáveis. Pode se passar meses escarafunchando um assunto e não conseguir material suficiente. A maioria exige viagens e algumas requerem mais de um repórter trabalhando em tempo integral. Também costumam ser bem mais longas do que as matérias comuns, o que, no mundo do Twitter, lhes reduz o número de leitores em potencial.
Reportagens de Steve Coll para a New Yorker, por exemplo, ocupam de quinze a vinte páginas da revista e custam mais de 100 mil dólares. “Dependendo da dificuldade de acesso e das condições do lugar”, disse Coll, “30 mil vão só para cobrir as despesas de deslocamento.” Como os países sobre os quais ele costuma escrever são Iraque, Paquistão e Afeganistão, a essas despesas somam-se os custos com segurança e apólices de seguro contra sequestros. Paul Steiger conhece esse risco. Ele chefiava a redação do Wall Street Journal em 2002, quando o repórter Daniel Pearl foi sequestrado e morto pela Al Qaeda depois de cinco semanas de cativeiro no Paquistão.
Gerry Marzorati, editor-chefe da New York Times Magazine, a revista dominical do Times, lembrou-se das guerras que cobriu na América Central, nos anos 80: “Os rebeldes precisavam da imprensa para divulgar sua luta. Não nos viam como inimigos. Era raro um repórter ser ferido. Com 200 dólares dava para se hospedar por um mês no InterContinental em San Salvador e a gente ainda ganhava um arroz com feijão que não era nada mau.”
Em janeiro de 2008, Paul Steiger e os Sandler fundaram a Pro Publica, no 23º andar de um prédio na ponta sul de Manhattan, a cinco minutos da Bolsa de Valores e em frente à famosa escultura do touro de Wall Street. O aluguel estava barato porque o lugar pertencia a uma corretora de valores que acabara de quebrar.
A redação é decorada com discrição, toda em tons de bege, com muita luz natural e amplas vistas da cidade. O ambiente é sóbrio. Os chefes usam gravata. Os outros se vestem com discrição. Todos falam baixo e mal tiram os olhos de seus monitores Apple. As baias não têm decoração pessoal, nada de retratos ou pôsteres, nenhum bonequinho ou desenho de criança.
Quando foi procurado pelos Sandler, Steiger se aproximava dos 65 anos, idade de aposentadoria compulsória no Wall Street Journal. A Pro Publica lhe deu a oportunidade de recomeçar do zero, numa versão para o século xxi da carreira que teve no século xx. Seu entusiasmo é o de um novato, em contraste com o ceticismo de Steve Coll, mas idêntico ao redator-chefe Steve Engelberg. Outro veterano, Engelberg costuma dizer, em suas muitas aparições públicas para falar do empreendimento, que esse é o melhor emprego que já teve na vida.
A Fundação Sandler doou 30 milhões de dólares para sustentar os três primeiros anos da Pro Publica. A cada final de ano o financiamento pode ser renovado por mais doze meses, de tal forma que, se a fonte secar, a redação terá sempre dois anos para buscar novos patrocinadores. Até agora, a renovação aconteceu como previsto. O dinheiro está garantido até pelo menos 2013.
A Pro Publica só faz reportagens investigativas. Nas palavras de Susan White, uma das quatro editoras, dali “só sai notícia ruim”. São 32 pessoas que investigam governo, instituições, indivíduos e empresas. Além da redação em Nova York, há uma sucursal em Washington, com quatro pessoas. As reportagens podem levar semanas, meses ou anos para ficar prontas. Dinheiro não é problema.
Ao abrir as portas, há dois anos, sem pôr um anúncio, Steiger recebeu 1 400 currículos de gente querendo trabalhar lá. Para Mike Webb, o diretor de comunicações, o número colossal de candidatos “revela mais sobre a situação do jornalismo americano do que sobre a nossa redação”. Com o orçamento anual de 10 milhões de dólares, Steiger não teve dificuldade em montar uma equipe de primeira, composta de jornalistas do Wall Street Journal, New York Times, Washington Post e outras publicações da grande imprensa. Há oito vencedores do Pulitzer na equipe. Há também jornalistas jovens, com experiência em internet.
A Pro Publica não trabalha com voluntários nem freelancers na apuração e redação de matérias. Os repórteres são todos contratados em regime de dedicação exclusiva e recebem salários que equivalem aos da grande imprensa. Segundo Philip Gourevitch, repórter da New Yorker, a Pro Publica “é uma redação de verdade, chefiada por um jornalista de verdade, com repórteres de verdade. A única coisa que eles não têm de fazer é administrar um jornal”.
A organização mantém um site no qual se define como uma “redação independente e sem fins lucrativos dedicada a servir o público”. As reportagens estão sempre disponíveis ali. Mas, para obter maior repercussão, a prioridade é publicá-las em parceria com jornais, revistas, sites de notícias e redes de rádio e televisão. A missão da Pro Publica, segundo Mike Webb, é publicar matérias com “força moral, apurar casos de abuso de poder e desmando por parte de indivíduos, governo e instituições públicas ou privadas, como hospitais, escolas, universidades ou a polícia”.
Em maio passado, a Pro Publica ganhou seu primeiro Pulitzer. A reportagem premiada teve como tema as decisões tomadas por médicos de um hospital de Nova Orleans nos dias imediatamente posteriores à passagem do furacão Katrina. Assinada por Sheri Fink e publicada na revista do New York Times, a matéria levou dois anos para ser apurada, escrita e editada. Nesse período, a repórter se dedicou exclusivamente ao assunto, sem publicar mais nada. O custo total das quase 13 mil palavras publicadas sobre os médicos de Nova Orleans ficou em cerca de 350 mil dólares, a maior parte bancada pela Pro Publica.
Em sua sala no novo edifício do New York Times, projetado pelo arquiteto italiano Renzo Piano, Gerry Marzorati, editor da revista dominical, explicou: “Matérias investigativas tratam de assuntos delicados, requerem checagem cuidadosa de todos os fatos e de todas as fontes. Tudo passa pelos advogados, o que aumenta o custo. Hoje, são poucas as organizações jornalísticas capazes de arcar com um projeto assim.”
Nos Estados Unidos, todas as reportagens e artigos que lidam com fatos polêmicos passam por avaliação jurídica, como precaução contra processos. O New York Times tem uma equipe própria de advogados para cuidar disso. Na Pro Publica, essa é a área de Dick Tofel, advogado e administrador da redação. A reportagem de Sheri Fink foi submetida aos advogados das duas publicações.
Marzorati refez o histórico da matéria: “Sheri nos havia oferecido a matéria antes até de começar a escrevê-la. Não aceitamos porque não a conhecíamos e ela não era repórter de revista. Meses depois, Steve Engelberg, que eu conhecia dos muitos anos dele no New York Times, me falou de novo da matéria. Com esse aval, foi mais fácil aceitar uma reportagem produzida por outra redação que não a nossa. Como a Pro Publica não tem editores de revista, levamos quase um ano na edição, que foi feita em conjunto.”
Em quase três anos de existência, a Pro Publica fez parcerias com todos os grandes jornais americanos e com muitos dos pequenos e médios, como o Times-Picayune, de Nova Orleans, e o Miami Herald. Suas matérias são veiculadas em sites de notícias como o Politico, o Huffington Post e o Daily Beast. E em programas de televisão de grande audiência, como o 60 Minutes, da cbs, e o 20/20, da abc. A CNN também leva ao ar reportagens da Pro Publica.
Um parceiro estratégico é a National Public Radio, a npr, que tem mais de 20 milhões de ouvintes. A Pro Publica colabora regularmente com vários programas da emissora. Um deles é o This American Life, que foi escolhido para trabalhar em conjunto numa reportagem sobre um hedge fund predatório chamado Magnetar. Antes da crise de 2008, o fundo ganhou muito dinheiro especulando, ou manipulando, o mercado de hipotecas de risco.
This American Life é semanal. Apresenta sempre um tema ilustrado por duas ou três histórias reais, contadas com rigor jornalístico mas também com muito humor. Jake Bernstein e Jesse Eisinger, repórteres da Pro Publica acostumados à linguagem seca e direta das seções de economia, passaram sete meses investigando o Magnetar. Contribuíram com o programa dando entrevistas e explicações sobre o complexo mundo dos derivativos. A equipe do This American Life cuidou de tornar o assunto palatável aos seus mais de 6 milhões de ouvintes mensais. Bernstein e Eisinger, que nunca haviam trabalhado com rádio, viram sua matéria inspirar uma canção, intitulada Apostando contra o sonho americano, baseada no tema do musical Os Produtores. Em forma escrita, austera e sem música, a reportagem saiu também no site da Pro Publica.
Jesse Eisinger, que tem trinta e poucos anos e trabalhara com Steiger no Wall Street Journal, acha que a parceria com a equipe irreverente e talentosa do This American Life foi das melhores experiências de sua carreira. Num café próximo à redação, ele contou que quando Steiger o convidou para a Pro Publica, não teve dúvidas em aceitar.
Ele era repórter da revista financeira Portfolio, que estava prestes a fechar, e tinha boas propostas de emprego da Reuters e da Bloomberg. Na Pro Publica, o salário era um pouco menor. Mas Eisinger contava com a indenização que receberia da Portfolio. E, sobretudo, queria mudar o rumo da sua vida profissional. “Eu escrevia colunas sobre como os ricos podem ganhar ainda mais dinheiro”, disse. “Queria algo novo, e ainda não havia tido muitas oportunidades de fazer jornalismo investigativo.”
Eisinger se entusiasma com a Pro Publica: “Ao contrário do que acontece num grande jornal, onde há sempre muitas editorias, aqui todos seguem a mesma direção, com os mesmos objetivos. Temos apoio da chefia para perseguir matérias longas e complicadas pelo tempo que for necessário e não há pressão para escrever ‘o que vende’. Na grande imprensa os repórteres normalmente competem não pela melhor matéria, mas pela matéria de capa. Isso não existe aqui. Além do quê, no Wall Street Journal ninguém nunca transformou uma matéria minha num musical...”
A editora Susan White, que ocupa uma sala com vista para a Broadway é uma californiana de catálogo, cheia de energia. De cabelos curtos e claros, porte de quem pratica esportes, ela fala rápido e se empolga com facilidade. É outra entusiasta do modelo não comercial da Pro Publica.
White explicou que, para garantir a repercussão das reportagens, a redação se une ao veículo que considera mais adequado a cada matéria. “Descobrimos que um senador do Havaí usava sua influência para obter dinheiro do tarp, um programa do governo federal de auxílio às instituições financeiras, e favorecer um banco do qual era acionista”, disse. Foi feita uma parceria com o Washington Post antes de a série de reportagens ser escrita.
O repórter da Pro Publica estava familiarizado com a burocracia do tarp, contou Susan White, enquanto o repórter do Post conhecia tanto o congressista, que ele já vinha investigando havia um tempo, como o funcionamento do Congresso: “Os dois apuraram e escreveram juntos, e, como sempre, programamos a primeira matéria para sair no mesmo dia no nosso site e no jornal. Assim ninguém fura ninguém.”
Nesse caso, cada veículo cobriu os custos da sua parte da investigação. Mas há situações em que o jornal ou revista recebe a matéria de graça. Ainda assim, explicou Susan White, não se trata necessariamente do texto definitivo: “Nosso parceiro pode sugerir mudanças por questões de espaço e para adequá-lo aos seus leitores. Não vemos nenhum problema nisso.” A iniciativa, porém, é sempre da Pro Publica. “Sempre começamos uma apuração sozinhos e avançamos nela até ter certeza de que dá matéria”, disse. Só então é proposta a parceria.
Susan White veio do jornal San Diego Union-Tribune, que passa por dificuldades. A imprensa regional é a maior vítima da crise. Muitos jornais fecharam ou cortaram drasticamente os custos, a ponto de quase não terem mais as notícias locais. O senador democrata Chris Dodd disse em agosto à New Yorker: “Antigamente, havia onze repórteres de jornais de Connecticut cobrindo as minhas atividades todos os dias. Hoje não há nenhum.” Para Susan White, os jornais regionais “cometem suicídio” ao incentivar os repórteres a escrever “o mesmo tipo de matéria curta e superficial” que caracteriza a internet e a televisão.
Gerry Marzorati, do New York Times, concorda, e identifica um risco ainda maior. “A elite intelectual nunca teve tanta informação de qualidade à disposição”, disse. “Todos os grandes jornais e revistas do mundo estão on-line e vão sobreviver. O drama é o desaparecimento da mídia local, pois isso significa que a classe média perdeu as fontes de informação qualificadas. Antes, todo mundo via o noticiário principal da televisão, e lia na Time ou na Newsweek a versão resumida do que saía nos veículos mais sofisticados – isso além de ler sempre os jornais locais. Hoje o que a classe média consome são as notícias policiais, as fofocas da tv aberta e a gritaria partidária dos canais a cabo. É muito difícil governar com seriedade um país com uma população desinformada.”
Visitando a redação do New York Times, não se acredita que o jornal esteja em crise. É preciso um esforço para lembrar que a construção do novo edifício deixou a empresa tão endividada que em 2009, dois anos depois da inauguração, foi necessário vender o imóvel e arrendar do novo proprietário os 21 andares ocupados pelo jornal. O Times tem a opção, se tudo der certo, de recomprá-lo em 2019 por 25 milhões acima do preço de venda. Até lá, o prédio com o famoso nome em letras góticas na fachada, não pertence ao New York Times.
A redação – uma área aberta tomada por baias amplas, com acabamento em madeira – é dominada por duas escadarias vermelhas que levam a um mezanino, com balaustrada da mesma cor, no qual está instalada a editoria de cultura. As salas de reunião do primeiro escalão lembram o salão de comando de emergência da Casa Branca em filmes-catástrofe: uma mesa comprida e imponente, monitores em todas as paredes e o que mais se imaginar de parafernália high-tech de comunicação.
A sensação é de uma empresa de tecnologia ultramoderna, mas sem nerds ou espécimes da jeunesse dorée do Vale do Silício. Nada de funcionários de patinete pelos corredores. Quase não se ouve conversa. Os repórteres usam fones e falam baixo. Marzorati gosta muito do edifício, que acha bonito e funcional. O ambiente combina bem com suas ambições para o jornal: “No futuro, o New York Times será um site que terá também uma versão impressa.”
Os chefes da Pro Publica insistem em dizer que sua empreitada não é um modelo a ser seguido, e muito menos a solução para os problemas da imprensa. Não há como substituir com filantropia aquilo que, no jornalismo tradicional, é uma mercadoria. Uma redação como a do New York Times, com 1 150 pessoas e 26 sucursais internacionais, consome 200 milhões de dólares por ano. Não há fundação que aguente. A operação tem que ser lucrativa.
A ideia de uma redação não comercial que colabore com os veículos tradicionais não foi inventada pela Pro Publica. Ela é a base, há duas décadas, do Center for Public Integrity, o CPI. Ele foi criado por Charles Lewis, que o dirigiu por quinze anos e hoje é professor da American University, em Washington. Lewis é um fundador compulsivo de redações sem fins lucrativos. Desde 1989, já foram quatro. O CPI, além de produzir jornalismo, é o que os americanos chamam de watchdog group, um grupo que monitora instituições de interesse público. Com esse fim, o centro produz relatórios e livros sobre suas pesquisas. Tudo é publicado no site.
Sua sede fica a dois quarteirões da New American Foundation de Steve Coll, numa região coalhada de lobistas. A redação tem 35 repórteres e pesquisadores, quatro editores, um checador e um advogado. Um subprojeto do Centro é o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, uma rede de mais de 100 jornalistas em cinquenta países (entre eles, o Brasil), que é mobilizada para coletar informação para as investigações.
O CPI administra um orçamento de 5 milhões de dólares por ano, doados por mais de cinquenta fundações, empresas e indivíduos. Segundo Bill Buzenberg, o diretor executivo, é um esquema que garante não só o futuro do centro, mas também sua independência. Se perder alguns desses financiadores, não fecha as portas.
Uma das críticas mais comuns à Pro Publica, ao contrário, está no fato de seus recursos virem praticamente de uma só fonte. Isso daria poder demais aos Sandler, e colocaria em risco a continuidade do projeto caso desistam de cacifá-lo. Paul Steiger vem tentando diversificar o financiamento, mas, como parte do patamar de 10 milhões de dólares por ano, não é fácil achar quem queira contribuir. Assim mesmo, a Pro Publica acaba de receber uma doação de 1 milhão de dólares da Fundação Knight, dinheiro que seria uma bênção para qualquer outra organização. Para a dos Sandler, não faz nem cócegas.
A diversificação, tornando a Pro Publica independente da boa vontade dos filantropos, é necessária também para manter a credibilidade do projeto, que até aqui está diretamente associada à escolha de Steiger como editor-chefe. Ele é respeitado no metiê, à direita e à esquerda do espectro ideológico. Ninguém imagina que aceitaria dirigir uma redação ativista, empenhada em defender as causas preferidas do patrocinador. O que vai acontecer quando se aposentar é outra história. Por enquanto, Steiger está a mil, sem dar nenhum sinal de que é hora de parar.
Bill Buzenberg, diretor executivo do CPI desde 2007, é outro que está animadíssimo, apesar de ter mais de 60 anos. Ele fez carreira na chamada “mídia pública”, aquela que recebe alguma verba do governo e as isenções fiscais a que têm direito instituições como museus e universidades. O grosso do financiamento, no entanto, vem de fundações e doações de particulares e do público.
Buzenberg passou três anos na BBC em Londres e foi vice-presidente de notícias da npr. Grandalhão, meio desengonçado e de pele bem branca, em qualquer praia do Rio seria reconhecido a quilômetros como gringo. Sua sala é entupida de livros e papéis. Ao se levantar da mesa e se dirigir até o pequeno sofá, ele tropeça na pilha de folhetos que estava no caminho. Quando começa a falar do trabalho vai quase num fôlego só. De vez em quando se levanta para pegar material sobre o que está contando. Os visitantes saem carregados de folhetos, apostilas e livros, não só sobre o CPI, mas sobre os males do tabaco, o problema do estupro nas universidades americanas, o peso dos lobistas no funcionamento do Legislativo e por aí vai.
O diretor executivo do CPI não para de ter ideias de novas investigações, novas parcerias e novas formas de conseguir dinheiro. Até dessa última função ele gosta: “Descobri quando estava na npr que eu adorava sair atrás de financiadores. E por que não? São pessoas interessantes, que acham o nosso trabalho importante e querem nos dar dinheiro. Tem coisa melhor?” Quando finalmente decide respirar, ele diz: “Eu adoro o meu trabalho.”
A redação do CPI, barulhenta e movimentada, parece com ele. Os repórteres são mais jovens do que os da Pro Publica, vestem-se de maneira mais informal, decoram as baias com objetos pessoais e pregam avisos de feiras de produtos orgânicos e shows de música pela sala. Parece mais a sede de uma ong. Mas ninguém trabalha de graça, e os salários são semelhantes aos da Pro Publica. O jornalismo que se produz ali é tido pela imprensa tradicional como confiável e de alta qualidade. Além de colaborar com todos os grandes jornais, revistas e redes de rádio e televisão, o CPI se associa também a veículos estrangeiros, como o jornal The Guardian e a BBC.
O CPI e a Pro Publica são de longe as redações não comerciais mais bem financiadas. O orçamento das outras varia de 100 mil a 1 milhão de dólares. Jesse Eisinger, repórter financeiro da Pro Publica, acha que as redações menores, as locais, vão todas fechar, mas não só por falta de financiamento. Há outro motivo: a falta de leitores. “A verdade é que jornalismo investigativo não é popular nem entre anunciantes, nem entre leitores,” disse. Só raramente aparece um assunto empolgante como Watergate ou Abu Ghraib. Em geral, são temas que as pessoas preferem ignorar.
“É um jornalismo difícil de fazer e chato de ler,” disse Eisinger. Num jornal ou revista, a reportagem investigativa vem na sequência de notícias sobre esportes, estilo, cultura, moda, política. Bem ou mal, o leitor acaba dando uma olhada em tudo. Já no site da Pro Publica ou do CPI todas as matérias são graves, consequentes. O estilo tende ao árido.
Susan White, a editora da Pro Publica, explica: “Steve Engelberg, nosso diretor de redação, gosta que todos os fatos importantes estejam nos primeiros parágrafos, descritos de forma clara. Não há espaço para estilos pessoais. Nossa missão é chamar a atenção para problemas que precisam ser resolvidos. Damos toda a informação necessária para quem quiser resolvê-los.” A Pro Publica está tentando aumentar o tráfego em seu site para não depender tanto dos parceiros. Até agora, não teve muito sucesso. Força moral não costuma ser um grande chamariz de público.
A imprensa americana começou a esboçar uma reação. Os jornais que ainda têm dinheiro estão investindo pesado em seus sites. O New York Times cobrará pelo acesso on-line a partir de janeiro de 2011. A empresa estima que o nytimes.com perderá 20 milhões dos seus atuais 22 milhões de leitores quando a cobrança for instituída. O Times de Londres fechou seu site aos não pagantes em julho. O jornal não revela números, mas calcula-se que tenha perdido entre 80% e 90% dos leitores on-line.
O Wall Street Journal e o Financial Times sempre cobraram e continuarão a fazê-lo. Para eles, funciona. Não só não perdem leitores, como até ganham dinheiro com assinaturas on-line. Como diz Clay Shirky, professor da New York University, informação sobre finanças é o único tipo de informação que o leitor faz questão de não dividir com ninguém.
Outra solução aventada, mas ainda não levada à prática, é o modelo de jornal sem fins lucrativos do britânico The Guardian. Há até um projeto de lei em tramitação no Congresso americano que viabilizaria a transição. O Guardian, fundado em 1821, pertence desde 1936 ao Scott Trust, fundado pela família Scott para garantir seu financiamento em caráter perpétuo. A família abriu mão da propriedade do jornal e pôs quase toda a fortuna no fundo que o financia. O dinheiro é usado para sustentar o Guardian nos períodos de vacas magras. Nos de vacas gordas, o lucro é integralmente reinvestido. Ultimamente, as vacas andam magérrimas.
O editor-chefe Alan Rusbridger costuma dizer que os donos de jornais acham muito interessante o modelo do Guardian – mas só até descobrirem que deixam de ser donos dos jornais. Grande defensor do acesso gratuito à informação, ele acha que tornar o jornalismo mais caro vai na contramão da história, num momento em que, graças à internet, a sociedade se torna mais aberta e colaborativa. O guardian.co.uk é o segundo site de jornal em inglês mais lido do mundo, logo atrás do New York Times. Um terço dos leitores está nos Estados Unidos. Rusbridger não pretende cobrar pelo acesso.
Para Steve Coll, o lado positivo da crise foi ter desencadeado o debate sobre mídia pública. Entre os países ricos, os Estados Unidos estão entre os que menos gastam com ela: 1,35 dólar per capita ao ano, contra 25 dólares no Canadá e na Alemanha, 60 no Japão, 80 no Reino Unido e mais de 100 na Dinamarca. Coll, Buzenberg e agora também o presidente da Universidade Columbia, Lee Bollinger – que defendeu a ideia num artigo no Wall Street Journal –, acham que há margem para que o governo americano invista muito mais sem comprometer a independência dos órgãos de comunicação.
A BBC é o exemplo de jornalismo de qualidade mais citado pelos que defendem ajuda governamental. Seu financiamento vem do governo britânico e da “licença de tv”, imposto que todos os moradores do Reino Unido pagam para ter direito a um televisor em casa. Fora do setor filantrópico, no entanto, essa solução não é muito popular. Philip Gourevitch, o repórter da New Yorker, diz: “Não tenho nada contra mídia pública nem contra jornalismo sem fins lucrativos, mas prefiro acreditar que meu trabalho ainda possa dar lucro.”
Um dos poucos consensos é que a era do jornal de papel está próxima do fim. Daí que a grande esperança sejam os dispositivos eletrônicos como o iPad e o Kindle. Mathias Döpfner, presidente da Axel Springer, conglomerado alemão que controla mais de 170 jornais e revistas em 36 países, disse numa entrevista a Charlie Rose que todo publisher deveria, uma vez por dia, rezar em agradecimento a Steve Jobs, por ele ter salvado o negócio.
Nem todos se mostram tão entusiasmados, mas o raciocínio que embasa a reação de Döpfner vem se generalizando. É o seguinte: pode ser muito difícil convencer o leitor a gastar dinheiro com o site de jornal que ele acessa de graça há dez anos. No entanto, é considerado natural pagar por serviços móveis, como sms, ringtones, chamadas de voz e caixa postal. Os aplicativos disponíveis no iPhone provam que o consumidor não se incomoda em pagar por novos serviços que lhe pareçam importantes. A esperança é que incluam nessa categoria os seus jornais e revistas prediletos
Por raquel_
Por falar em jornalismo investigativo, a Piauí de setembro lançou uma matéria falando sobre a crise deles no EUA:
Da piauí
Caro, trabalhoso, chato
O jornalismo investigativo americano luta para sobreviver
Bianca Vianna
Steve Coll trabalhou mais de vinte anos no Washington Post. Foi repórter, editor, correspondente internacional e diretor de redação do jornal. Tem seis livros publicados, ganhou dois prêmios Pulitzer e escreve sobre segurança nacional na revista The New Yorker. Com seu rosto redondo e um resto de franja ruiva que resiste à calvície, aos 52 anos Coll parece um menino envelhecido. “Se estivesse começando agora, escolheria outra profissão”, disse ele, desanimado, folheando uma piauí na sala de reuniões da New American Foundation, da qual é presidente. “O tipo de jornalismo que fiz a vida toda, com reportagens investigativas longas, de estilo narrativo, acabou.”
Foi outro dia mesmo – na segunda metade do século XX – que o jornalismo investigativo americano viveu sua época de glória. Em 1969, o repórter Seymour Hersh publicou em mais de trinta jornais uma reportagem sobre o acobertamento do massacre de centenas de civis por soldados americanos na aldeia de My Lai, no Vietnã.
Dois anos depois, o New York Times publicou os “papéis do Pentágono”, uma série de reportagens sobre um estudo secreto do próprio governo que demonstrava a impossibilidade de ganhar a guerra do Vietnã.
Em 1972, por fim, Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres policiais do Washington Post, descobriram que a Casa Branca colocara escutas ilegais na sede do Partido Democrata, no edifício Watergate, na capital americana. A investigação levou dois anos, e mostrou que Richard Nixon não só ordenara o crime como tentara escondê-lo da Justiça, o que provocou a renúncia do presidente, em 1974.
Woodward e Bernstein, com alguma ajuda de Robert Redford e Dustin Hoffman, que os retrataram bonitos e charmosos em Todos os Homens do Presidente, tornaram o jornalismo investigativo uma atividade glamorosa. As escolas de jornalismo encheram-se de jovens querendo derrubar presidentes.
São reportagens como essas que, segundo Steve Coll, podem estar em vias de extinção nos Estados Unidos. O motor da crise está na internet, que alterou tanto a maneira como a imprensa escrita obtém lucro quanto os hábitos de leitores e anunciantes.
O início da crise remonta a 1995, quando Craig Newmark começou a enviar para uma lista de endereços eletrônicos um boletim gratuito com informações sobre eventos sociais em São Francisco, cidade para onde se mudara recentemente e na qual não tinha muitos amigos. A iniciativa resultou na craigslist.org, hoje o maior site de anúncios classificados do mundo, com 20 bilhões de page views por mês, mais de 50 milhões de usuários só nos Estados Unidos e versões em setenta países (no Brasil, ele existe em nove capitais).
O site da Craigslist, feio e funcional, lembra as velhas seções de classificados que veio a substituir. Cobra-se apenas por determinados tipos de anúncios, em algumas cidades. Corretores de imóveis em Nova York têm de pagar. Já os de Des Moines, capital do Iowa, anunciam de graça. Nas dezoito maiores cidades americanas, são cobrados os classificados de empregos e as ofertas de serviços, e nas outras não.
A Craigslist tem uma receita anual estimada em pouco mais de 100 milhões de dólares – quase nada, quando se pensa no estrago que ela causou. Até o surgimento do site, os grandes jornais americanos financiavam 80% de suas operações com classificados e anúncios. Apenas 20% vinham de assinaturas e da venda em bancas. Os classificados garantiam a sobrevivência dos jornais não só pelo seu peso na receita, mas também pela pulverização que representavam. Junto com os anúncios do comércio local, eles garantiam o equilíbrio das contas, caso o jornal perdesse um ou outro anunciante de grande porte.
É por isso que Steve Coll acha uma falácia debater se os leitores devem ou não sustentar os jornais pagando pela leitura on-line. “Leitor nunca sustentou jornal. Eram os classificados e os anunciantes que o faziam”, ele disse. E tanto um como o outro foram atraídos para a internet.
Nos grandes jornais, os anunciantes pagavam caro pelo acesso a um público enorme, variado e disperso. Ou seja, desperdiçavam dinheiro para atingir leitores que nunca comprariam suas mercadorias. A internet resolveu o problema. Casando resultados de buscas, histórico de compras e informações colocadas pelos próprios consumidores em sites de relacionamento, é possível acercar-se com precisão do público-alvo. O retorno é maior e o custo dos anúncios é menor.
Além da derrota econômica para a internet, os jornais também foram vencidos na batalha, por assim dizer, ideológica. Mais precisamente: eles se renderam. Renderam-se à premissa, alardeada pelos conglomerados on-line, de que tudo na internet deve ser acessível e gratuito. Com isso, o trabalho de jornalistas como Steve Coll passou a ser distribuído de graça e reproduzido por toda a rede. Parte dos leitores migrou do papel para os sites de notícias.
A crise se instalou. A companhia que controla o Los Angeles Times e outros jornais tradicionais, como o Chicago Tribune, pediu concordata. O Washington Post, cuja margem de lucro caiu 25% nos últimos cinco anos, sobrevive subsidiado pela Kaplan, empresa de materiais didáticos pertencente ao mesmo grupo. O New York Times, com uma queda de 50% na margem de lucro, foi obrigado a tomar um empréstimo a juros altos do bilionário mexicano Carlos Slim. A revista semanal Newsweek, que no ano passado perdeu 30 milhões de dólares, foi vendida para o milionário Sidney Harman por 1 dólar (mais as dívidas). A circulação da mídia impressa caiu 30% em um par de anos. Calcula-se que 26 mil jornalistas tenham perdido o emprego desde 2008. As áreas que mais sofreram foram o jornalismo investigativo e a cobertura internacional.
Nesse cenário devastado apareceu, no improvável papel de herói, o casal de velhinhos Marion e Herb Sandler. Hoje chegando aos 80 anos de idade, os Sandler começaram a fazer fortuna em 1963, com a criação da Golden West Financial Corporation. O negócio cresceu e se tornou o World Savings Bank. Em 2006, logo antes da crise financeira, o casal o vendeu para o banco Wachovia. Dos 2,4 bilhões de dólares que receberam na transação, 1,4 bilhão foi destinado à pequena fundação que haviam criado anos antes. O aporte pôs a Fundação Sandler entre as trinta maiores dos Estados Unidos.
Os Sandler começaram a financiar pesquisas de doenças parasitárias e criaram um programa de estudo da asma, doença da qual Marion sofre. Doaram mais de 30 milhões de dólares para a organização de direitos humanos Human Rights Watch. Fundaram um centro de estudos, em Washington, dirigido por John Podesta, ex-chefe de gabinete de Bill Clinton. E decidiram bancar um projeto de jornalismo sem fins lucrativos.
O casal distribui dinheiro de um modo singular. Em vez de receber propostas, como ocorre com a maioria das fundações americanas, são eles que saem atrás das melhores pessoas das áreas para as quais querem fazer doações. Os beneficiários são surpreendidos por um telefonema oferecendo financiamento para seus projetos. Mas a Fundação Sandler esquadrinha a vida dos escolhidos como se fossem candidatos a emprego na Casa Branca. Colegas e ex-colegas recebem telefonemas em busca de informação, e toda a vida profissional dos possíveis favorecidos passa pelo crivo do casal.
Foi assim que chegaram a Paul Steiger, o diretor de redação do Wall Street Journal. Os Sandler queriam saber em quais áreas do jornalismo seu dinheiro poderia fazer diferença. Ouviram de Steiger que o jornalismo investigativo é o ramo mais importante para o funcionamento de uma democracia – e o que mais está em risco. O casal, que havia conversado com outros jornalistas, disse-lhe então que queria montar uma redação que se dedicasse exclusivamente a reportagens investigativas. Seria uma redação bem paga, que trabalharia em liberdade e não buscaria o lucro. A única condição do casal foi que Steiger fosse o editor-chefe.
Investigações jornalísticas são trabalhosas, caras, demandam tempo e nem sempre rendem reportagens publicáveis. Pode se passar meses escarafunchando um assunto e não conseguir material suficiente. A maioria exige viagens e algumas requerem mais de um repórter trabalhando em tempo integral. Também costumam ser bem mais longas do que as matérias comuns, o que, no mundo do Twitter, lhes reduz o número de leitores em potencial.
Reportagens de Steve Coll para a New Yorker, por exemplo, ocupam de quinze a vinte páginas da revista e custam mais de 100 mil dólares. “Dependendo da dificuldade de acesso e das condições do lugar”, disse Coll, “30 mil vão só para cobrir as despesas de deslocamento.” Como os países sobre os quais ele costuma escrever são Iraque, Paquistão e Afeganistão, a essas despesas somam-se os custos com segurança e apólices de seguro contra sequestros. Paul Steiger conhece esse risco. Ele chefiava a redação do Wall Street Journal em 2002, quando o repórter Daniel Pearl foi sequestrado e morto pela Al Qaeda depois de cinco semanas de cativeiro no Paquistão.
Gerry Marzorati, editor-chefe da New York Times Magazine, a revista dominical do Times, lembrou-se das guerras que cobriu na América Central, nos anos 80: “Os rebeldes precisavam da imprensa para divulgar sua luta. Não nos viam como inimigos. Era raro um repórter ser ferido. Com 200 dólares dava para se hospedar por um mês no InterContinental em San Salvador e a gente ainda ganhava um arroz com feijão que não era nada mau.”
Em janeiro de 2008, Paul Steiger e os Sandler fundaram a Pro Publica, no 23º andar de um prédio na ponta sul de Manhattan, a cinco minutos da Bolsa de Valores e em frente à famosa escultura do touro de Wall Street. O aluguel estava barato porque o lugar pertencia a uma corretora de valores que acabara de quebrar.
A redação é decorada com discrição, toda em tons de bege, com muita luz natural e amplas vistas da cidade. O ambiente é sóbrio. Os chefes usam gravata. Os outros se vestem com discrição. Todos falam baixo e mal tiram os olhos de seus monitores Apple. As baias não têm decoração pessoal, nada de retratos ou pôsteres, nenhum bonequinho ou desenho de criança.
Quando foi procurado pelos Sandler, Steiger se aproximava dos 65 anos, idade de aposentadoria compulsória no Wall Street Journal. A Pro Publica lhe deu a oportunidade de recomeçar do zero, numa versão para o século xxi da carreira que teve no século xx. Seu entusiasmo é o de um novato, em contraste com o ceticismo de Steve Coll, mas idêntico ao redator-chefe Steve Engelberg. Outro veterano, Engelberg costuma dizer, em suas muitas aparições públicas para falar do empreendimento, que esse é o melhor emprego que já teve na vida.
A Fundação Sandler doou 30 milhões de dólares para sustentar os três primeiros anos da Pro Publica. A cada final de ano o financiamento pode ser renovado por mais doze meses, de tal forma que, se a fonte secar, a redação terá sempre dois anos para buscar novos patrocinadores. Até agora, a renovação aconteceu como previsto. O dinheiro está garantido até pelo menos 2013.
A Pro Publica só faz reportagens investigativas. Nas palavras de Susan White, uma das quatro editoras, dali “só sai notícia ruim”. São 32 pessoas que investigam governo, instituições, indivíduos e empresas. Além da redação em Nova York, há uma sucursal em Washington, com quatro pessoas. As reportagens podem levar semanas, meses ou anos para ficar prontas. Dinheiro não é problema.
Ao abrir as portas, há dois anos, sem pôr um anúncio, Steiger recebeu 1 400 currículos de gente querendo trabalhar lá. Para Mike Webb, o diretor de comunicações, o número colossal de candidatos “revela mais sobre a situação do jornalismo americano do que sobre a nossa redação”. Com o orçamento anual de 10 milhões de dólares, Steiger não teve dificuldade em montar uma equipe de primeira, composta de jornalistas do Wall Street Journal, New York Times, Washington Post e outras publicações da grande imprensa. Há oito vencedores do Pulitzer na equipe. Há também jornalistas jovens, com experiência em internet.
A Pro Publica não trabalha com voluntários nem freelancers na apuração e redação de matérias. Os repórteres são todos contratados em regime de dedicação exclusiva e recebem salários que equivalem aos da grande imprensa. Segundo Philip Gourevitch, repórter da New Yorker, a Pro Publica “é uma redação de verdade, chefiada por um jornalista de verdade, com repórteres de verdade. A única coisa que eles não têm de fazer é administrar um jornal”.
A organização mantém um site no qual se define como uma “redação independente e sem fins lucrativos dedicada a servir o público”. As reportagens estão sempre disponíveis ali. Mas, para obter maior repercussão, a prioridade é publicá-las em parceria com jornais, revistas, sites de notícias e redes de rádio e televisão. A missão da Pro Publica, segundo Mike Webb, é publicar matérias com “força moral, apurar casos de abuso de poder e desmando por parte de indivíduos, governo e instituições públicas ou privadas, como hospitais, escolas, universidades ou a polícia”.
Em maio passado, a Pro Publica ganhou seu primeiro Pulitzer. A reportagem premiada teve como tema as decisões tomadas por médicos de um hospital de Nova Orleans nos dias imediatamente posteriores à passagem do furacão Katrina. Assinada por Sheri Fink e publicada na revista do New York Times, a matéria levou dois anos para ser apurada, escrita e editada. Nesse período, a repórter se dedicou exclusivamente ao assunto, sem publicar mais nada. O custo total das quase 13 mil palavras publicadas sobre os médicos de Nova Orleans ficou em cerca de 350 mil dólares, a maior parte bancada pela Pro Publica.
Em sua sala no novo edifício do New York Times, projetado pelo arquiteto italiano Renzo Piano, Gerry Marzorati, editor da revista dominical, explicou: “Matérias investigativas tratam de assuntos delicados, requerem checagem cuidadosa de todos os fatos e de todas as fontes. Tudo passa pelos advogados, o que aumenta o custo. Hoje, são poucas as organizações jornalísticas capazes de arcar com um projeto assim.”
Nos Estados Unidos, todas as reportagens e artigos que lidam com fatos polêmicos passam por avaliação jurídica, como precaução contra processos. O New York Times tem uma equipe própria de advogados para cuidar disso. Na Pro Publica, essa é a área de Dick Tofel, advogado e administrador da redação. A reportagem de Sheri Fink foi submetida aos advogados das duas publicações.
Marzorati refez o histórico da matéria: “Sheri nos havia oferecido a matéria antes até de começar a escrevê-la. Não aceitamos porque não a conhecíamos e ela não era repórter de revista. Meses depois, Steve Engelberg, que eu conhecia dos muitos anos dele no New York Times, me falou de novo da matéria. Com esse aval, foi mais fácil aceitar uma reportagem produzida por outra redação que não a nossa. Como a Pro Publica não tem editores de revista, levamos quase um ano na edição, que foi feita em conjunto.”
Em quase três anos de existência, a Pro Publica fez parcerias com todos os grandes jornais americanos e com muitos dos pequenos e médios, como o Times-Picayune, de Nova Orleans, e o Miami Herald. Suas matérias são veiculadas em sites de notícias como o Politico, o Huffington Post e o Daily Beast. E em programas de televisão de grande audiência, como o 60 Minutes, da cbs, e o 20/20, da abc. A CNN também leva ao ar reportagens da Pro Publica.
Um parceiro estratégico é a National Public Radio, a npr, que tem mais de 20 milhões de ouvintes. A Pro Publica colabora regularmente com vários programas da emissora. Um deles é o This American Life, que foi escolhido para trabalhar em conjunto numa reportagem sobre um hedge fund predatório chamado Magnetar. Antes da crise de 2008, o fundo ganhou muito dinheiro especulando, ou manipulando, o mercado de hipotecas de risco.
This American Life é semanal. Apresenta sempre um tema ilustrado por duas ou três histórias reais, contadas com rigor jornalístico mas também com muito humor. Jake Bernstein e Jesse Eisinger, repórteres da Pro Publica acostumados à linguagem seca e direta das seções de economia, passaram sete meses investigando o Magnetar. Contribuíram com o programa dando entrevistas e explicações sobre o complexo mundo dos derivativos. A equipe do This American Life cuidou de tornar o assunto palatável aos seus mais de 6 milhões de ouvintes mensais. Bernstein e Eisinger, que nunca haviam trabalhado com rádio, viram sua matéria inspirar uma canção, intitulada Apostando contra o sonho americano, baseada no tema do musical Os Produtores. Em forma escrita, austera e sem música, a reportagem saiu também no site da Pro Publica.
Jesse Eisinger, que tem trinta e poucos anos e trabalhara com Steiger no Wall Street Journal, acha que a parceria com a equipe irreverente e talentosa do This American Life foi das melhores experiências de sua carreira. Num café próximo à redação, ele contou que quando Steiger o convidou para a Pro Publica, não teve dúvidas em aceitar.
Ele era repórter da revista financeira Portfolio, que estava prestes a fechar, e tinha boas propostas de emprego da Reuters e da Bloomberg. Na Pro Publica, o salário era um pouco menor. Mas Eisinger contava com a indenização que receberia da Portfolio. E, sobretudo, queria mudar o rumo da sua vida profissional. “Eu escrevia colunas sobre como os ricos podem ganhar ainda mais dinheiro”, disse. “Queria algo novo, e ainda não havia tido muitas oportunidades de fazer jornalismo investigativo.”
Eisinger se entusiasma com a Pro Publica: “Ao contrário do que acontece num grande jornal, onde há sempre muitas editorias, aqui todos seguem a mesma direção, com os mesmos objetivos. Temos apoio da chefia para perseguir matérias longas e complicadas pelo tempo que for necessário e não há pressão para escrever ‘o que vende’. Na grande imprensa os repórteres normalmente competem não pela melhor matéria, mas pela matéria de capa. Isso não existe aqui. Além do quê, no Wall Street Journal ninguém nunca transformou uma matéria minha num musical...”
A editora Susan White, que ocupa uma sala com vista para a Broadway é uma californiana de catálogo, cheia de energia. De cabelos curtos e claros, porte de quem pratica esportes, ela fala rápido e se empolga com facilidade. É outra entusiasta do modelo não comercial da Pro Publica.
White explicou que, para garantir a repercussão das reportagens, a redação se une ao veículo que considera mais adequado a cada matéria. “Descobrimos que um senador do Havaí usava sua influência para obter dinheiro do tarp, um programa do governo federal de auxílio às instituições financeiras, e favorecer um banco do qual era acionista”, disse. Foi feita uma parceria com o Washington Post antes de a série de reportagens ser escrita.
O repórter da Pro Publica estava familiarizado com a burocracia do tarp, contou Susan White, enquanto o repórter do Post conhecia tanto o congressista, que ele já vinha investigando havia um tempo, como o funcionamento do Congresso: “Os dois apuraram e escreveram juntos, e, como sempre, programamos a primeira matéria para sair no mesmo dia no nosso site e no jornal. Assim ninguém fura ninguém.”
Nesse caso, cada veículo cobriu os custos da sua parte da investigação. Mas há situações em que o jornal ou revista recebe a matéria de graça. Ainda assim, explicou Susan White, não se trata necessariamente do texto definitivo: “Nosso parceiro pode sugerir mudanças por questões de espaço e para adequá-lo aos seus leitores. Não vemos nenhum problema nisso.” A iniciativa, porém, é sempre da Pro Publica. “Sempre começamos uma apuração sozinhos e avançamos nela até ter certeza de que dá matéria”, disse. Só então é proposta a parceria.
Susan White veio do jornal San Diego Union-Tribune, que passa por dificuldades. A imprensa regional é a maior vítima da crise. Muitos jornais fecharam ou cortaram drasticamente os custos, a ponto de quase não terem mais as notícias locais. O senador democrata Chris Dodd disse em agosto à New Yorker: “Antigamente, havia onze repórteres de jornais de Connecticut cobrindo as minhas atividades todos os dias. Hoje não há nenhum.” Para Susan White, os jornais regionais “cometem suicídio” ao incentivar os repórteres a escrever “o mesmo tipo de matéria curta e superficial” que caracteriza a internet e a televisão.
Gerry Marzorati, do New York Times, concorda, e identifica um risco ainda maior. “A elite intelectual nunca teve tanta informação de qualidade à disposição”, disse. “Todos os grandes jornais e revistas do mundo estão on-line e vão sobreviver. O drama é o desaparecimento da mídia local, pois isso significa que a classe média perdeu as fontes de informação qualificadas. Antes, todo mundo via o noticiário principal da televisão, e lia na Time ou na Newsweek a versão resumida do que saía nos veículos mais sofisticados – isso além de ler sempre os jornais locais. Hoje o que a classe média consome são as notícias policiais, as fofocas da tv aberta e a gritaria partidária dos canais a cabo. É muito difícil governar com seriedade um país com uma população desinformada.”
Visitando a redação do New York Times, não se acredita que o jornal esteja em crise. É preciso um esforço para lembrar que a construção do novo edifício deixou a empresa tão endividada que em 2009, dois anos depois da inauguração, foi necessário vender o imóvel e arrendar do novo proprietário os 21 andares ocupados pelo jornal. O Times tem a opção, se tudo der certo, de recomprá-lo em 2019 por 25 milhões acima do preço de venda. Até lá, o prédio com o famoso nome em letras góticas na fachada, não pertence ao New York Times.
A redação – uma área aberta tomada por baias amplas, com acabamento em madeira – é dominada por duas escadarias vermelhas que levam a um mezanino, com balaustrada da mesma cor, no qual está instalada a editoria de cultura. As salas de reunião do primeiro escalão lembram o salão de comando de emergência da Casa Branca em filmes-catástrofe: uma mesa comprida e imponente, monitores em todas as paredes e o que mais se imaginar de parafernália high-tech de comunicação.
A sensação é de uma empresa de tecnologia ultramoderna, mas sem nerds ou espécimes da jeunesse dorée do Vale do Silício. Nada de funcionários de patinete pelos corredores. Quase não se ouve conversa. Os repórteres usam fones e falam baixo. Marzorati gosta muito do edifício, que acha bonito e funcional. O ambiente combina bem com suas ambições para o jornal: “No futuro, o New York Times será um site que terá também uma versão impressa.”
Os chefes da Pro Publica insistem em dizer que sua empreitada não é um modelo a ser seguido, e muito menos a solução para os problemas da imprensa. Não há como substituir com filantropia aquilo que, no jornalismo tradicional, é uma mercadoria. Uma redação como a do New York Times, com 1 150 pessoas e 26 sucursais internacionais, consome 200 milhões de dólares por ano. Não há fundação que aguente. A operação tem que ser lucrativa.
A ideia de uma redação não comercial que colabore com os veículos tradicionais não foi inventada pela Pro Publica. Ela é a base, há duas décadas, do Center for Public Integrity, o CPI. Ele foi criado por Charles Lewis, que o dirigiu por quinze anos e hoje é professor da American University, em Washington. Lewis é um fundador compulsivo de redações sem fins lucrativos. Desde 1989, já foram quatro. O CPI, além de produzir jornalismo, é o que os americanos chamam de watchdog group, um grupo que monitora instituições de interesse público. Com esse fim, o centro produz relatórios e livros sobre suas pesquisas. Tudo é publicado no site.
Sua sede fica a dois quarteirões da New American Foundation de Steve Coll, numa região coalhada de lobistas. A redação tem 35 repórteres e pesquisadores, quatro editores, um checador e um advogado. Um subprojeto do Centro é o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, uma rede de mais de 100 jornalistas em cinquenta países (entre eles, o Brasil), que é mobilizada para coletar informação para as investigações.
O CPI administra um orçamento de 5 milhões de dólares por ano, doados por mais de cinquenta fundações, empresas e indivíduos. Segundo Bill Buzenberg, o diretor executivo, é um esquema que garante não só o futuro do centro, mas também sua independência. Se perder alguns desses financiadores, não fecha as portas.
Uma das críticas mais comuns à Pro Publica, ao contrário, está no fato de seus recursos virem praticamente de uma só fonte. Isso daria poder demais aos Sandler, e colocaria em risco a continuidade do projeto caso desistam de cacifá-lo. Paul Steiger vem tentando diversificar o financiamento, mas, como parte do patamar de 10 milhões de dólares por ano, não é fácil achar quem queira contribuir. Assim mesmo, a Pro Publica acaba de receber uma doação de 1 milhão de dólares da Fundação Knight, dinheiro que seria uma bênção para qualquer outra organização. Para a dos Sandler, não faz nem cócegas.
A diversificação, tornando a Pro Publica independente da boa vontade dos filantropos, é necessária também para manter a credibilidade do projeto, que até aqui está diretamente associada à escolha de Steiger como editor-chefe. Ele é respeitado no metiê, à direita e à esquerda do espectro ideológico. Ninguém imagina que aceitaria dirigir uma redação ativista, empenhada em defender as causas preferidas do patrocinador. O que vai acontecer quando se aposentar é outra história. Por enquanto, Steiger está a mil, sem dar nenhum sinal de que é hora de parar.
Bill Buzenberg, diretor executivo do CPI desde 2007, é outro que está animadíssimo, apesar de ter mais de 60 anos. Ele fez carreira na chamada “mídia pública”, aquela que recebe alguma verba do governo e as isenções fiscais a que têm direito instituições como museus e universidades. O grosso do financiamento, no entanto, vem de fundações e doações de particulares e do público.
Buzenberg passou três anos na BBC em Londres e foi vice-presidente de notícias da npr. Grandalhão, meio desengonçado e de pele bem branca, em qualquer praia do Rio seria reconhecido a quilômetros como gringo. Sua sala é entupida de livros e papéis. Ao se levantar da mesa e se dirigir até o pequeno sofá, ele tropeça na pilha de folhetos que estava no caminho. Quando começa a falar do trabalho vai quase num fôlego só. De vez em quando se levanta para pegar material sobre o que está contando. Os visitantes saem carregados de folhetos, apostilas e livros, não só sobre o CPI, mas sobre os males do tabaco, o problema do estupro nas universidades americanas, o peso dos lobistas no funcionamento do Legislativo e por aí vai.
O diretor executivo do CPI não para de ter ideias de novas investigações, novas parcerias e novas formas de conseguir dinheiro. Até dessa última função ele gosta: “Descobri quando estava na npr que eu adorava sair atrás de financiadores. E por que não? São pessoas interessantes, que acham o nosso trabalho importante e querem nos dar dinheiro. Tem coisa melhor?” Quando finalmente decide respirar, ele diz: “Eu adoro o meu trabalho.”
A redação do CPI, barulhenta e movimentada, parece com ele. Os repórteres são mais jovens do que os da Pro Publica, vestem-se de maneira mais informal, decoram as baias com objetos pessoais e pregam avisos de feiras de produtos orgânicos e shows de música pela sala. Parece mais a sede de uma ong. Mas ninguém trabalha de graça, e os salários são semelhantes aos da Pro Publica. O jornalismo que se produz ali é tido pela imprensa tradicional como confiável e de alta qualidade. Além de colaborar com todos os grandes jornais, revistas e redes de rádio e televisão, o CPI se associa também a veículos estrangeiros, como o jornal The Guardian e a BBC.
O CPI e a Pro Publica são de longe as redações não comerciais mais bem financiadas. O orçamento das outras varia de 100 mil a 1 milhão de dólares. Jesse Eisinger, repórter financeiro da Pro Publica, acha que as redações menores, as locais, vão todas fechar, mas não só por falta de financiamento. Há outro motivo: a falta de leitores. “A verdade é que jornalismo investigativo não é popular nem entre anunciantes, nem entre leitores,” disse. Só raramente aparece um assunto empolgante como Watergate ou Abu Ghraib. Em geral, são temas que as pessoas preferem ignorar.
“É um jornalismo difícil de fazer e chato de ler,” disse Eisinger. Num jornal ou revista, a reportagem investigativa vem na sequência de notícias sobre esportes, estilo, cultura, moda, política. Bem ou mal, o leitor acaba dando uma olhada em tudo. Já no site da Pro Publica ou do CPI todas as matérias são graves, consequentes. O estilo tende ao árido.
Susan White, a editora da Pro Publica, explica: “Steve Engelberg, nosso diretor de redação, gosta que todos os fatos importantes estejam nos primeiros parágrafos, descritos de forma clara. Não há espaço para estilos pessoais. Nossa missão é chamar a atenção para problemas que precisam ser resolvidos. Damos toda a informação necessária para quem quiser resolvê-los.” A Pro Publica está tentando aumentar o tráfego em seu site para não depender tanto dos parceiros. Até agora, não teve muito sucesso. Força moral não costuma ser um grande chamariz de público.
A imprensa americana começou a esboçar uma reação. Os jornais que ainda têm dinheiro estão investindo pesado em seus sites. O New York Times cobrará pelo acesso on-line a partir de janeiro de 2011. A empresa estima que o nytimes.com perderá 20 milhões dos seus atuais 22 milhões de leitores quando a cobrança for instituída. O Times de Londres fechou seu site aos não pagantes em julho. O jornal não revela números, mas calcula-se que tenha perdido entre 80% e 90% dos leitores on-line.
O Wall Street Journal e o Financial Times sempre cobraram e continuarão a fazê-lo. Para eles, funciona. Não só não perdem leitores, como até ganham dinheiro com assinaturas on-line. Como diz Clay Shirky, professor da New York University, informação sobre finanças é o único tipo de informação que o leitor faz questão de não dividir com ninguém.
Outra solução aventada, mas ainda não levada à prática, é o modelo de jornal sem fins lucrativos do britânico The Guardian. Há até um projeto de lei em tramitação no Congresso americano que viabilizaria a transição. O Guardian, fundado em 1821, pertence desde 1936 ao Scott Trust, fundado pela família Scott para garantir seu financiamento em caráter perpétuo. A família abriu mão da propriedade do jornal e pôs quase toda a fortuna no fundo que o financia. O dinheiro é usado para sustentar o Guardian nos períodos de vacas magras. Nos de vacas gordas, o lucro é integralmente reinvestido. Ultimamente, as vacas andam magérrimas.
O editor-chefe Alan Rusbridger costuma dizer que os donos de jornais acham muito interessante o modelo do Guardian – mas só até descobrirem que deixam de ser donos dos jornais. Grande defensor do acesso gratuito à informação, ele acha que tornar o jornalismo mais caro vai na contramão da história, num momento em que, graças à internet, a sociedade se torna mais aberta e colaborativa. O guardian.co.uk é o segundo site de jornal em inglês mais lido do mundo, logo atrás do New York Times. Um terço dos leitores está nos Estados Unidos. Rusbridger não pretende cobrar pelo acesso.
Para Steve Coll, o lado positivo da crise foi ter desencadeado o debate sobre mídia pública. Entre os países ricos, os Estados Unidos estão entre os que menos gastam com ela: 1,35 dólar per capita ao ano, contra 25 dólares no Canadá e na Alemanha, 60 no Japão, 80 no Reino Unido e mais de 100 na Dinamarca. Coll, Buzenberg e agora também o presidente da Universidade Columbia, Lee Bollinger – que defendeu a ideia num artigo no Wall Street Journal –, acham que há margem para que o governo americano invista muito mais sem comprometer a independência dos órgãos de comunicação.
A BBC é o exemplo de jornalismo de qualidade mais citado pelos que defendem ajuda governamental. Seu financiamento vem do governo britânico e da “licença de tv”, imposto que todos os moradores do Reino Unido pagam para ter direito a um televisor em casa. Fora do setor filantrópico, no entanto, essa solução não é muito popular. Philip Gourevitch, o repórter da New Yorker, diz: “Não tenho nada contra mídia pública nem contra jornalismo sem fins lucrativos, mas prefiro acreditar que meu trabalho ainda possa dar lucro.”
Um dos poucos consensos é que a era do jornal de papel está próxima do fim. Daí que a grande esperança sejam os dispositivos eletrônicos como o iPad e o Kindle. Mathias Döpfner, presidente da Axel Springer, conglomerado alemão que controla mais de 170 jornais e revistas em 36 países, disse numa entrevista a Charlie Rose que todo publisher deveria, uma vez por dia, rezar em agradecimento a Steve Jobs, por ele ter salvado o negócio.
Nem todos se mostram tão entusiasmados, mas o raciocínio que embasa a reação de Döpfner vem se generalizando. É o seguinte: pode ser muito difícil convencer o leitor a gastar dinheiro com o site de jornal que ele acessa de graça há dez anos. No entanto, é considerado natural pagar por serviços móveis, como sms, ringtones, chamadas de voz e caixa postal. Os aplicativos disponíveis no iPhone provam que o consumidor não se incomoda em pagar por novos serviços que lhe pareçam importantes. A esperança é que incluam nessa categoria os seus jornais e revistas prediletos
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domingo, 17 de abril de 2011
Para entender o ataque do Estadão - nassif -
Para entender o ataque do Estadão
Enviado por luisnassif, sab, 16/04/2011 - 09:09
Post de 12/02/2011
Nos tempos em que os Mesquita dirigiam o Estadão, seria impensável engavetar grandes matérias de escândalo.
Desde que assumiu a direção editorial do jornal, Ricardo Gandour vem atropelando um a um os princípios jornalísticos que fizeram do Estadão um jornal respeitado inclusive pelos adversários. O jornal era intransigente até demais em suas convicções, mas jamais brigava com os fatos ou abría mão das grandes matérias jornalísticas.
O histórico de Gandour inclui a demissão de Maria Rita Khel, a escandalização de fatos normais ou banais para atingir jornalistas que ele considerava adversários. E a censura - inédita no caso do Estadão - a grandes reportagens.
A matéria abaixo foi escrita em 24 de setembro de 2009. Era um furo jornalístico dos maiores: as investigações da Polícia Federal mostrando que um dossiê divulgado por Diogo Mainardi na Veja era (mais uma vez) falso e fruto de jogadas de lobbies. Como se recorda, durante semanas o falso dossiê foi apresentado como fruto de investigações da PF, com ampla repercussão nos jornais, no Jornal Nacional. Sabia-se que havia grandes interesses financeiros por trás, jogadas de lobistas pesados.
O Estadão deu a primeira matéria sobre a falsificação. Pelo visto, o repórter tinha o fio da meada para uma reportagem candidata a Esso.
Houve claro veto da direção do jornal à continuidade da matéria - já que não se leu mais nenhuma linha sobre o assunto. Ou irá se supor que o repórter abriu mão do seu furo. Gandour atropelou o jornalismo e princípios consagrados de atuação da família Mesquita.
Polícia acusa agente de criar falso dossiê - versaoimpressa - Estadao.com.br
O material tinha como alvo Victor de Souza irmão do ministro Franklin
24 de setembro de 2009 | 0h 00
Marcelo Auler, RIO - O Estadao de S.Paulo
O agente federal aposentado Wilson Ferreira Pinna, lotado na Agência Nacional de Petróleo (ANP), foi apontado pela Polícia Federal como o autor do falso dossiê contra o diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do ministro da Comunicação Social, Franklin Martins.
O material acusou Victor de Souza de aumentar os royalties das prefeituras que contratavam a empresa Análise Consultoria, que ele tem em sociedade com a mulher, Joseana Seabra. Pinna foi denunciado na 2ª Vara Federal Criminal do Rio pelos crimes de interceptação telefônica ilegal e quebra de sigilo fiscal dos irmãos de Vitor, inclusive do ministro.
Após a revista Veja divulgar o dossiê em abril, o Ministério Público Federal constatou que o documento não estava no inquérito da Delegacia Fazendária, que apura corrupção nos repasses de royalties. A inexistência do dossiê levou o superintendente da PF no Rio, Angelo Gioia, a abrir novo inquérito.
Em maio, a PF descobriu um pendrive com o falso dossiê, as declarações de renda obtidas ilegalmente e as transcrições de gravações telefônicas. Não se sabe quem recebeu o pendrive, mas os policiais identificaram Pinna como o autor.
Por meio de representação à juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal , onde tramita o inquérito, foi pedida a prisão do agente, além de busca e apreensão na sua casa e na ANP.
O pedido foi para as mãos do juiz Rodolfo Kronemberg Hartmann, da 2ª Vara Federal, que não analisou o caso, provocando um conflito de competência. Tudo parou até 15 de julho, quando o Tribunal Regional Federal (TRF) decidiu que a competência é da 2ª Vara. Após negar pedido de prisão, Hartmann intimou Pinna a apresentar sua defesa, antes de decidir se aceita a denúncia.
Ontem, procurado pelo Estado, Pinna reclamou da divulgação do caso por conta do segredo de Justiça e depois se apegou na rejeição do pedido de prisão para se defender. Vitor repetiu o que falou na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados: "Quero justiça, saber quem fez essa investigação criminosa, a mando de quem, quem pagou e com qual objetivo."
Para entender o ataque do Estadão - 2
Enviado por luisnassif, sab, 16/04/2011 - 09:12
Histórias de um grande jornalista
de 08/02/2011
História 1
Ruyzito Mesquita, acionista mas sem participação editorial no Estadão, planejou uma coleção de cinco volumes sobre sustentabilidade. Apresentou à Secretaria da Educação de São Paulo. A coleção foi aprovada para o sistema de compras de livros didáticos.
Nesse ínterim, Paulo Renato de Souza foi indicado Secretário da Educação. Depois do episódio do Bradesco - um email com um artigo que ele submetia à apreciação do presidente do banco - Paulo Renato havia perdido espaço na Folha e tornou-se articulista do Estadão. Indicado Secretário, seria normal que pedisse demissão da função. Não o fez, obrigando Ruy Mesquita, pai, a demiti-lo.
O troco veio em seguida: a Secretaria voltou atrás e rejeitou a coleção de Ruyzito.
José Serra foi informado da retaliação, mas nada fez. Mesmo não gostando de Serra - por seu hábito de pedir cabeça de jornalistas - o velho Ruy manteve-se firme na mesma linha do Estadão de apoio à sua candidatura.
História 2
Nos anos 70, o ex-deputado (cassado) e correspondente do Estadão em Londres, Hermano Alves, escreveu uma série de matérias que descontentou profundamente Ruy Mesquita, então dirigindo o Jornal da Tarde. Não foi proibido de continuar. Apenas diariamente Dr. Ruy fazia um editorial rebatendo os artigos de Hermano - mas indicando a página do artigo para os leitores.
Nas últimas eleições, quando Maria Rita Khel foi demitida por Ricardo Gandour, dr. Ruy virou o bicho. Chamou o rapaz na sua sala e lhe deu uma espinafrada que ecoou pelos corredores do jornal
- 3
Enviado por luisnassif, dom, 17/04/2011 - 09:03
O Desenho da Mídia, de 23/03/2011
A pesquisa da CDN sobre os hábitos de leituras dos executivos brasileiros consolida percepções já antigas sobre o tema.
Considere-se que os executivos eram o público preferencial dos jornais, provavelmente os mais habituados às colunas dos jornais - daí talvez a preferência por blogs. Considere-se também que, pela pesquisa, continuam sendo majoritariamente leitores de jornais.
A pesquisa comprova algumas análises que já publiquei aqui e acrescenta ingredientes novos à discussão midiática.
Tempos atrás escrevi que, dos grupos da velha mídia, sobreviveriam as Organizações Globo e a Folha, através da UOL; que o Estadão era um grupo à venda; e que a Abril não conseguiria se colocar nesse novo mundo virtual.
Como a blogosfera é um universo múltiplo, distribuído, obviamente não dá para tratar da mesma maneira que um portal ou um jornal. É um grande bolo, mas dividido por milhares de blogs. E muitos desses blogs estão ancorados em portais jornalísticos.
Na pesquisa, alguns pontos chamam a atenção:
1.O predomínio dos portais variados sobre os portais exclusivamente jornalísticos. UOL (42%) e Terra (36%) se destacam vindo, a seguir, o iG (19%), acima do G1 (17%), mesmo este contando com o aparato de vídeo das Organizações Globo. Até a era Caio Túlio o iG encostava no Terra, na disputa pelo segundo lugar, mas por audiência total. Como a pesquisa, agora, é com executivos atrás de notícias, não sei se reflete a audiência total dos portais.
2.A pesquisa consagra a visão pioneira de Luiz Frias, quando convenceu o pai a apostar na UOL. A consolidação se deu em cima de uma série de operações habilidosas, da compra da parte da Abril à associação com a Portugal Telecom, a maneira como resolveu seus problemas com o ICMS paulista e a operação de IPO conduzida pelo Banco Pactual, o desenvolvimento de tecnologia própria. Em meio ao terremoto da última década, manteve o barco à tona e consolidou a posição de liderança. Ele e Rodrigo Mesquita, do Estadão, são os herdeiros que melhor entenderam os novos tempos.
3.Um capítulo curioso é o caso Nizan Guanaes. Quando lançou o iG, escrevi algumas vezes que o modelo de negócios (em cima da internet gratuita) não se sustentaria, porque baseado em uma distorção – o pagamento pelas teles aos portais que redirecionassem o tráfego para elas. De fato, não se sustentou. Mas Nizan estava certo em apostar em um modelo que dependesse de publicidade. Acontece que o iG surgiu muito antes da publicidade chegar maciçamente à internet. Foi salvo por manobras envolvendo controladores e sócios, mas se consolidou no terceiro lugar. Roberto Campos tinha uma maneira de definir erros estratégicos: quando se começa muito depois ou quando se começa muito antes. Nizan viu. O problema é que foi muito antes.
4.Chama atenção a total inexpressividade do Portal do Estadão – que não aparece sequer na pesquisa. Já a Agência Estado tem a leitura de apenas 2% dos executivos, justamente seu público-alvo. O grupo jogou tudo no Portal. É dos mais completos, com melhor conteúdo. Mas perdeu-se provavelmente na organização do conteúdo, que acabou reproduzindo, em um espaço que deveria ser organizado e hierarquizado, a própria desorganização e horizontalização da Internet. Sequer há separações claras sobre a ordem cronológica de entrada das notícias no portal. Não há uma porta de entrada simplificada, que permita visualizar todo o conteúdo. A própria versão online da Folha impressa, simplesinha, sem nenhuma firula, permite com dois cliques saber de todo conteúdo do jornal. No Estadão, é impossível.
5.Apesar do pesado investimento no seu Portal, Veja sequer aparece com 1% de indicações. A Abril perdeu o barco lá atrás, quando se desfez da BOL e, depois, da TVA. Está fora do jogo.
6.Com pouco tempo no ar, o R7 – embora ainda em pequenos 3% - suplantou a Agência Estado junto ao público-alvo da Agência.
7.Embora o jornal tenha passado por uma crise que quase liquidou com sua circulação, o site de O Dia ainda tem 2% de audiência dos executivos. Aliás, foi dos pioneiros, com alta qualidade inicial. Infelizmente a morte do Ary Carvalho interrompeu o planejamento para dar o upgrade ao jornal.
O caso Estadão
É curiosa a saga do Estadão.
Quando começou a era da informação online, foi dos primeiros a entender os novos tempos. Está certo, que à custa do pioneiro Dinheiro Vivo, que foi a primeira empresa a lançar serviços online. Na época, Rodrigo Mesquita convenceu a família a comprar o sistema de transmissão da Broadcast e contratou praticamente toda a minha equipe. Depois disso, fez um trabalho de gente grande na consolidação da Agência.
Quando sobreveio a crise do grupo, as disputas internas acabaram levando de roldão todos os membros da família que trabalhavam na empresa. E com isso o grupo perdeu sua cabeça estratégica.
Como o único setor dinâmico do grupo era a Agência, na impossibilidade de manter Rodrigo o Conselho decidiu promover seu segundo homem, Sandro Vaia. Só que Sandro tinha funções operacionais. Nunca foi estrategista dos novos tempos, nem chefe de redação dos velhos tempos.
Depois, resolveu trazer alguém de fora, Ricardo Gandour, com carreira bem sucedida no Publifolha. Em vez de coloca-lo para tocar novos negócios, como um publisher clássico, conferiu-se a ele a direção de conteúdo de todo o grupo. E seu perfil não é de jornalista de redação.
Com isso o jornal entrou na fase de maior ebulição da mídia brasileira, com o terremoto editorial acabando com a estratificação de leitura, sem um desenho claro de conteúdo.
A linha política foi mantida pela tradição da família Mesquita e da marca Estadão. Mas Gandour trouxe para dentro do jornal o vezo da Opus Dei (essa informação é de colegas ligados à própria família Mesquita, não de críticos do jornal), de instrumentalizar a cobertura. Manipulou manchetes, criou falsos escândalos, repercutiu as maluquices da Veja, cometeu ataques contra colegas, entrou no pool de mídia que se formou a partir de 2005. E, com isso, perdeu a oportunidade de firmar o jornal como alternativa de informação objetiva – embora ainda seja o jornalisticamente mais sólido dos veículos da velha mídia.
Agora, o Estadão está no seguinte dilema.
O jornalão está zero a zero – não gera mais lucros para financiar as novas plataformas; a rádio é superavitária mas de pequena expressão (embora o movimento de associação à ESPN seja promissor); a Agência Estado continua sendo a parte mais rentável.
Mas a grande aposta, o Portal, não vingou
Enviado por luisnassif, sab, 16/04/2011 - 09:09
Post de 12/02/2011
Nos tempos em que os Mesquita dirigiam o Estadão, seria impensável engavetar grandes matérias de escândalo.
Desde que assumiu a direção editorial do jornal, Ricardo Gandour vem atropelando um a um os princípios jornalísticos que fizeram do Estadão um jornal respeitado inclusive pelos adversários. O jornal era intransigente até demais em suas convicções, mas jamais brigava com os fatos ou abría mão das grandes matérias jornalísticas.
O histórico de Gandour inclui a demissão de Maria Rita Khel, a escandalização de fatos normais ou banais para atingir jornalistas que ele considerava adversários. E a censura - inédita no caso do Estadão - a grandes reportagens.
A matéria abaixo foi escrita em 24 de setembro de 2009. Era um furo jornalístico dos maiores: as investigações da Polícia Federal mostrando que um dossiê divulgado por Diogo Mainardi na Veja era (mais uma vez) falso e fruto de jogadas de lobbies. Como se recorda, durante semanas o falso dossiê foi apresentado como fruto de investigações da PF, com ampla repercussão nos jornais, no Jornal Nacional. Sabia-se que havia grandes interesses financeiros por trás, jogadas de lobistas pesados.
O Estadão deu a primeira matéria sobre a falsificação. Pelo visto, o repórter tinha o fio da meada para uma reportagem candidata a Esso.
Houve claro veto da direção do jornal à continuidade da matéria - já que não se leu mais nenhuma linha sobre o assunto. Ou irá se supor que o repórter abriu mão do seu furo. Gandour atropelou o jornalismo e princípios consagrados de atuação da família Mesquita.
Polícia acusa agente de criar falso dossiê - versaoimpressa - Estadao.com.br
O material tinha como alvo Victor de Souza irmão do ministro Franklin
24 de setembro de 2009 | 0h 00
Marcelo Auler, RIO - O Estadao de S.Paulo
O agente federal aposentado Wilson Ferreira Pinna, lotado na Agência Nacional de Petróleo (ANP), foi apontado pela Polícia Federal como o autor do falso dossiê contra o diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do ministro da Comunicação Social, Franklin Martins.
O material acusou Victor de Souza de aumentar os royalties das prefeituras que contratavam a empresa Análise Consultoria, que ele tem em sociedade com a mulher, Joseana Seabra. Pinna foi denunciado na 2ª Vara Federal Criminal do Rio pelos crimes de interceptação telefônica ilegal e quebra de sigilo fiscal dos irmãos de Vitor, inclusive do ministro.
Após a revista Veja divulgar o dossiê em abril, o Ministério Público Federal constatou que o documento não estava no inquérito da Delegacia Fazendária, que apura corrupção nos repasses de royalties. A inexistência do dossiê levou o superintendente da PF no Rio, Angelo Gioia, a abrir novo inquérito.
Em maio, a PF descobriu um pendrive com o falso dossiê, as declarações de renda obtidas ilegalmente e as transcrições de gravações telefônicas. Não se sabe quem recebeu o pendrive, mas os policiais identificaram Pinna como o autor.
Por meio de representação à juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal , onde tramita o inquérito, foi pedida a prisão do agente, além de busca e apreensão na sua casa e na ANP.
O pedido foi para as mãos do juiz Rodolfo Kronemberg Hartmann, da 2ª Vara Federal, que não analisou o caso, provocando um conflito de competência. Tudo parou até 15 de julho, quando o Tribunal Regional Federal (TRF) decidiu que a competência é da 2ª Vara. Após negar pedido de prisão, Hartmann intimou Pinna a apresentar sua defesa, antes de decidir se aceita a denúncia.
Ontem, procurado pelo Estado, Pinna reclamou da divulgação do caso por conta do segredo de Justiça e depois se apegou na rejeição do pedido de prisão para se defender. Vitor repetiu o que falou na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados: "Quero justiça, saber quem fez essa investigação criminosa, a mando de quem, quem pagou e com qual objetivo."
Para entender o ataque do Estadão - 2
Enviado por luisnassif, sab, 16/04/2011 - 09:12
Histórias de um grande jornalista
de 08/02/2011
História 1
Ruyzito Mesquita, acionista mas sem participação editorial no Estadão, planejou uma coleção de cinco volumes sobre sustentabilidade. Apresentou à Secretaria da Educação de São Paulo. A coleção foi aprovada para o sistema de compras de livros didáticos.
Nesse ínterim, Paulo Renato de Souza foi indicado Secretário da Educação. Depois do episódio do Bradesco - um email com um artigo que ele submetia à apreciação do presidente do banco - Paulo Renato havia perdido espaço na Folha e tornou-se articulista do Estadão. Indicado Secretário, seria normal que pedisse demissão da função. Não o fez, obrigando Ruy Mesquita, pai, a demiti-lo.
O troco veio em seguida: a Secretaria voltou atrás e rejeitou a coleção de Ruyzito.
José Serra foi informado da retaliação, mas nada fez. Mesmo não gostando de Serra - por seu hábito de pedir cabeça de jornalistas - o velho Ruy manteve-se firme na mesma linha do Estadão de apoio à sua candidatura.
História 2
Nos anos 70, o ex-deputado (cassado) e correspondente do Estadão em Londres, Hermano Alves, escreveu uma série de matérias que descontentou profundamente Ruy Mesquita, então dirigindo o Jornal da Tarde. Não foi proibido de continuar. Apenas diariamente Dr. Ruy fazia um editorial rebatendo os artigos de Hermano - mas indicando a página do artigo para os leitores.
Nas últimas eleições, quando Maria Rita Khel foi demitida por Ricardo Gandour, dr. Ruy virou o bicho. Chamou o rapaz na sua sala e lhe deu uma espinafrada que ecoou pelos corredores do jornal
- 3
Enviado por luisnassif, dom, 17/04/2011 - 09:03
O Desenho da Mídia, de 23/03/2011
A pesquisa da CDN sobre os hábitos de leituras dos executivos brasileiros consolida percepções já antigas sobre o tema.
Considere-se que os executivos eram o público preferencial dos jornais, provavelmente os mais habituados às colunas dos jornais - daí talvez a preferência por blogs. Considere-se também que, pela pesquisa, continuam sendo majoritariamente leitores de jornais.
A pesquisa comprova algumas análises que já publiquei aqui e acrescenta ingredientes novos à discussão midiática.
Tempos atrás escrevi que, dos grupos da velha mídia, sobreviveriam as Organizações Globo e a Folha, através da UOL; que o Estadão era um grupo à venda; e que a Abril não conseguiria se colocar nesse novo mundo virtual.
Como a blogosfera é um universo múltiplo, distribuído, obviamente não dá para tratar da mesma maneira que um portal ou um jornal. É um grande bolo, mas dividido por milhares de blogs. E muitos desses blogs estão ancorados em portais jornalísticos.
Na pesquisa, alguns pontos chamam a atenção:
1.O predomínio dos portais variados sobre os portais exclusivamente jornalísticos. UOL (42%) e Terra (36%) se destacam vindo, a seguir, o iG (19%), acima do G1 (17%), mesmo este contando com o aparato de vídeo das Organizações Globo. Até a era Caio Túlio o iG encostava no Terra, na disputa pelo segundo lugar, mas por audiência total. Como a pesquisa, agora, é com executivos atrás de notícias, não sei se reflete a audiência total dos portais.
2.A pesquisa consagra a visão pioneira de Luiz Frias, quando convenceu o pai a apostar na UOL. A consolidação se deu em cima de uma série de operações habilidosas, da compra da parte da Abril à associação com a Portugal Telecom, a maneira como resolveu seus problemas com o ICMS paulista e a operação de IPO conduzida pelo Banco Pactual, o desenvolvimento de tecnologia própria. Em meio ao terremoto da última década, manteve o barco à tona e consolidou a posição de liderança. Ele e Rodrigo Mesquita, do Estadão, são os herdeiros que melhor entenderam os novos tempos.
3.Um capítulo curioso é o caso Nizan Guanaes. Quando lançou o iG, escrevi algumas vezes que o modelo de negócios (em cima da internet gratuita) não se sustentaria, porque baseado em uma distorção – o pagamento pelas teles aos portais que redirecionassem o tráfego para elas. De fato, não se sustentou. Mas Nizan estava certo em apostar em um modelo que dependesse de publicidade. Acontece que o iG surgiu muito antes da publicidade chegar maciçamente à internet. Foi salvo por manobras envolvendo controladores e sócios, mas se consolidou no terceiro lugar. Roberto Campos tinha uma maneira de definir erros estratégicos: quando se começa muito depois ou quando se começa muito antes. Nizan viu. O problema é que foi muito antes.
4.Chama atenção a total inexpressividade do Portal do Estadão – que não aparece sequer na pesquisa. Já a Agência Estado tem a leitura de apenas 2% dos executivos, justamente seu público-alvo. O grupo jogou tudo no Portal. É dos mais completos, com melhor conteúdo. Mas perdeu-se provavelmente na organização do conteúdo, que acabou reproduzindo, em um espaço que deveria ser organizado e hierarquizado, a própria desorganização e horizontalização da Internet. Sequer há separações claras sobre a ordem cronológica de entrada das notícias no portal. Não há uma porta de entrada simplificada, que permita visualizar todo o conteúdo. A própria versão online da Folha impressa, simplesinha, sem nenhuma firula, permite com dois cliques saber de todo conteúdo do jornal. No Estadão, é impossível.
5.Apesar do pesado investimento no seu Portal, Veja sequer aparece com 1% de indicações. A Abril perdeu o barco lá atrás, quando se desfez da BOL e, depois, da TVA. Está fora do jogo.
6.Com pouco tempo no ar, o R7 – embora ainda em pequenos 3% - suplantou a Agência Estado junto ao público-alvo da Agência.
7.Embora o jornal tenha passado por uma crise que quase liquidou com sua circulação, o site de O Dia ainda tem 2% de audiência dos executivos. Aliás, foi dos pioneiros, com alta qualidade inicial. Infelizmente a morte do Ary Carvalho interrompeu o planejamento para dar o upgrade ao jornal.
O caso Estadão
É curiosa a saga do Estadão.
Quando começou a era da informação online, foi dos primeiros a entender os novos tempos. Está certo, que à custa do pioneiro Dinheiro Vivo, que foi a primeira empresa a lançar serviços online. Na época, Rodrigo Mesquita convenceu a família a comprar o sistema de transmissão da Broadcast e contratou praticamente toda a minha equipe. Depois disso, fez um trabalho de gente grande na consolidação da Agência.
Quando sobreveio a crise do grupo, as disputas internas acabaram levando de roldão todos os membros da família que trabalhavam na empresa. E com isso o grupo perdeu sua cabeça estratégica.
Como o único setor dinâmico do grupo era a Agência, na impossibilidade de manter Rodrigo o Conselho decidiu promover seu segundo homem, Sandro Vaia. Só que Sandro tinha funções operacionais. Nunca foi estrategista dos novos tempos, nem chefe de redação dos velhos tempos.
Depois, resolveu trazer alguém de fora, Ricardo Gandour, com carreira bem sucedida no Publifolha. Em vez de coloca-lo para tocar novos negócios, como um publisher clássico, conferiu-se a ele a direção de conteúdo de todo o grupo. E seu perfil não é de jornalista de redação.
Com isso o jornal entrou na fase de maior ebulição da mídia brasileira, com o terremoto editorial acabando com a estratificação de leitura, sem um desenho claro de conteúdo.
A linha política foi mantida pela tradição da família Mesquita e da marca Estadão. Mas Gandour trouxe para dentro do jornal o vezo da Opus Dei (essa informação é de colegas ligados à própria família Mesquita, não de críticos do jornal), de instrumentalizar a cobertura. Manipulou manchetes, criou falsos escândalos, repercutiu as maluquices da Veja, cometeu ataques contra colegas, entrou no pool de mídia que se formou a partir de 2005. E, com isso, perdeu a oportunidade de firmar o jornal como alternativa de informação objetiva – embora ainda seja o jornalisticamente mais sólido dos veículos da velha mídia.
Agora, o Estadão está no seguinte dilema.
O jornalão está zero a zero – não gera mais lucros para financiar as novas plataformas; a rádio é superavitária mas de pequena expressão (embora o movimento de associação à ESPN seja promissor); a Agência Estado continua sendo a parte mais rentável.
Mas a grande aposta, o Portal, não vingou
segunda-feira, 4 de abril de 2011
delfim neto - cartacapital - blog do nassif - O papel regenerador das urnas
Enviado por luisnassif, dom, 03/04/2011 - 09:39
Por Webster Franklin
Da Carta Capital
A urna sempre corrige
Delfim Netto 2 de abril de 2011 às 16:01h
A economia de mercado não foi inventada. Ela é produto de um processo que começou há 150 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o resto da Terra. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais. É esse caminho da “humanização” do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial; que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços; e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) sua expectativa de vida ao nascer, de 35 para 70 anos.
É claro que essa organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas “necessidades”: a civilização sempre exige mais civilização… Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as opções construídas por cérebros peregrinos que imaginaram construir a “sociedade perfeita”, habitada pelo “homem perfeito”, fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres…
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para “explicá-las”. Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que esclarece bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela “economia de mercado” só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercida pelos que têm iniciativa e os benefícios de suas “inovações” podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado Indutor com mãos leves e amigável com relação a eles.
Certamente, isso explica melhor do que as “funções de produção” o fenomenal desenvolvimento da China a partir de 1978 e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado Indutor que: 1. Respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado. 2. Libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar mais oportunidades de progresso à mão de obra. 3. Garantisse que cada um poderia se apropriar dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na República Russa, onde o governo promete remover o “entulho” que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores tecnológicos de ponta do país. Diante da necessidade imposta pelo resultado das eleições de 2012, Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada. A nova “meta” é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar 50 bilhões de dólares de ativos (inativos) que estão nas mãos do Estado (vender até mesmo os hotéis e times de futebol); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB); estimular a abertura de novos investimentos diminuindo a burocracia; diminuir a dependência do setor energético, com fontes alternativas ao petróleo; proteger com tarifas e estimular, com subsídios, os setores automotivos e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo.
Para quem ainda tem dúvida de que é fundamental o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros), basta observar os movimentos de Barack Obama também diante da ameaça das urnas, buscando apressadamente a reaproximação com o setor real da economia americana. Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos do sistema financeiro internacional que produziram a crise, sob as vistas complacentes das autoridades monetárias, à custa de 17 milhões de desempregados que ganhavam a vida honestamente. Como os EUA já deviam saber, a URNA corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes com algum atraso, mas antes tarde…
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-urna-sempre-corrige
isnassif, dom, 03/04/2011 - 09:39
Por Webster Franklin
Da Carta Capital
A urna sempre corrige
Delfim Netto 2 de abril de 2011 às 16:01h
A economia de mercado não foi inventada. Ela é produto de um processo que começou há 150 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o resto da Terra. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais. É esse caminho da “humanização” do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial; que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços; e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) sua expectativa de vida ao nascer, de 35 para 70 anos.
É claro que essa organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas “necessidades”: a civilização sempre exige mais civilização… Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as opções construídas por cérebros peregrinos que imaginaram construir a “sociedade perfeita”, habitada pelo “homem perfeito”, fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres…
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para “explicá-las”. Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que esclarece bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela “economia de mercado” só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercida pelos que têm iniciativa e os benefícios de suas “inovações” podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado Indutor com mãos leves e amigável com relação a eles.
Certamente, isso explica melhor do que as “funções de produção” o fenomenal desenvolvimento da China a partir de 1978 e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado Indutor que: 1. Respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado. 2. Libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar mais oportunidades de progresso à mão de obra. 3. Garantisse que cada um poderia se apropriar dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na República Russa, onde o governo promete remover o “entulho” que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores tecnológicos de ponta do país. Diante da necessidade imposta pelo resultado das eleições de 2012, Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada. A nova “meta” é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar 50 bilhões de dólares de ativos (inativos) que estão nas mãos do Estado (vender até mesmo os hotéis e times de futebol); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB); estimular a abertura de novos investimentos diminuindo a burocracia; diminuir a dependência do setor energético, com fontes alternativas ao petróleo; proteger com tarifas e estimular, com subsídios, os setores automotivos e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo.
Para quem ainda tem dúvida de que é fundamental o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros), basta observar os movimentos de Barack Obama também diante da ameaça das urnas, buscando apressadamente a reaproximação com o setor real da economia americana. Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos do sistema financeiro internacional que produziram a crise, sob as vistas complacentes das autoridades monetárias, à custa de 17 milhões de desempregados que ganhavam a vida honestamente. Como os EUA já deviam saber, a URNA corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes com algum atraso, mas antes tarde…
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-urna-sempre-corrige
Por Webster Franklin
Da Carta Capital
A urna sempre corrige
Delfim Netto 2 de abril de 2011 às 16:01h
A economia de mercado não foi inventada. Ela é produto de um processo que começou há 150 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o resto da Terra. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais. É esse caminho da “humanização” do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial; que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços; e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) sua expectativa de vida ao nascer, de 35 para 70 anos.
É claro que essa organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas “necessidades”: a civilização sempre exige mais civilização… Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as opções construídas por cérebros peregrinos que imaginaram construir a “sociedade perfeita”, habitada pelo “homem perfeito”, fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres…
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para “explicá-las”. Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que esclarece bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela “economia de mercado” só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercida pelos que têm iniciativa e os benefícios de suas “inovações” podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado Indutor com mãos leves e amigável com relação a eles.
Certamente, isso explica melhor do que as “funções de produção” o fenomenal desenvolvimento da China a partir de 1978 e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado Indutor que: 1. Respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado. 2. Libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar mais oportunidades de progresso à mão de obra. 3. Garantisse que cada um poderia se apropriar dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na República Russa, onde o governo promete remover o “entulho” que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores tecnológicos de ponta do país. Diante da necessidade imposta pelo resultado das eleições de 2012, Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada. A nova “meta” é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar 50 bilhões de dólares de ativos (inativos) que estão nas mãos do Estado (vender até mesmo os hotéis e times de futebol); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB); estimular a abertura de novos investimentos diminuindo a burocracia; diminuir a dependência do setor energético, com fontes alternativas ao petróleo; proteger com tarifas e estimular, com subsídios, os setores automotivos e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo.
Para quem ainda tem dúvida de que é fundamental o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros), basta observar os movimentos de Barack Obama também diante da ameaça das urnas, buscando apressadamente a reaproximação com o setor real da economia americana. Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos do sistema financeiro internacional que produziram a crise, sob as vistas complacentes das autoridades monetárias, à custa de 17 milhões de desempregados que ganhavam a vida honestamente. Como os EUA já deviam saber, a URNA corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes com algum atraso, mas antes tarde…
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-urna-sempre-corrige
isnassif, dom, 03/04/2011 - 09:39
Por Webster Franklin
Da Carta Capital
A urna sempre corrige
Delfim Netto 2 de abril de 2011 às 16:01h
A economia de mercado não foi inventada. Ela é produto de um processo que começou há 150 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o resto da Terra. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais. É esse caminho da “humanização” do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial; que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços; e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) sua expectativa de vida ao nascer, de 35 para 70 anos.
É claro que essa organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas “necessidades”: a civilização sempre exige mais civilização… Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as opções construídas por cérebros peregrinos que imaginaram construir a “sociedade perfeita”, habitada pelo “homem perfeito”, fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres…
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para “explicá-las”. Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que esclarece bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela “economia de mercado” só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercida pelos que têm iniciativa e os benefícios de suas “inovações” podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado Indutor com mãos leves e amigável com relação a eles.
Certamente, isso explica melhor do que as “funções de produção” o fenomenal desenvolvimento da China a partir de 1978 e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado Indutor que: 1. Respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado. 2. Libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar mais oportunidades de progresso à mão de obra. 3. Garantisse que cada um poderia se apropriar dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na República Russa, onde o governo promete remover o “entulho” que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores tecnológicos de ponta do país. Diante da necessidade imposta pelo resultado das eleições de 2012, Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada. A nova “meta” é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar 50 bilhões de dólares de ativos (inativos) que estão nas mãos do Estado (vender até mesmo os hotéis e times de futebol); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB); estimular a abertura de novos investimentos diminuindo a burocracia; diminuir a dependência do setor energético, com fontes alternativas ao petróleo; proteger com tarifas e estimular, com subsídios, os setores automotivos e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo.
Para quem ainda tem dúvida de que é fundamental o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros), basta observar os movimentos de Barack Obama também diante da ameaça das urnas, buscando apressadamente a reaproximação com o setor real da economia americana. Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos do sistema financeiro internacional que produziram a crise, sob as vistas complacentes das autoridades monetárias, à custa de 17 milhões de desempregados que ganhavam a vida honestamente. Como os EUA já deviam saber, a URNA corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes com algum atraso, mas antes tarde…
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
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Blog de luisnassif - Mídia, negócios e poder. Na Argentina
Enviado por luisnassif, dom, 03/04/2011 - 10:06
Folha de S.Paulo - Negócios estão na origem da crise dos Kirchner com diário - 03/04/2011
Negócios estão na origem da crise dos Kirchner com diário
Amistosa durante o governo de Néstor, relação mudou quando jornal apoiou produtores rurais contra Cristina
Até 2007, Casa Rosada havia apoiado expansão do grupo na TV a cabo; para jornalista, disputa não tem "bonzinhos"
DE BUENOS AIRES
Antes de se tornarem inimigos, o governo Kirchner e o Grupo Clarín tiveram uma amistosa e lucrativa relação, a ponto de a Casa Rosada apoiar a expansão dos negócios do conglomerado no mercado de TV paga.
Hoje, o que o governo considera uma briga ideológica virou motivo de preocupação pela falta de liberdade de imprensa na Argentina.
No final do seu mandato, em dezembro de 2007, o próprio ex-presidente Néstor Kirchner, morto em outubro de 2010, assinou a fusão das empresas Multicanal e Cablevisión. A operação deu ao Grupo Clarín a liderança no mercado de TV a cabo.
Em 2008, já com Cristina na Presidência, houve uma crise entre o governo e produtores rurais por causa da alta de impostos.
Nessa época o Grupo Clarín, antes simpático à Casa Rosada, mudou sua posição editorial e criticou o governo. A guerra estava detonada.
O kirchnerismo se sentiu traído pelo conglomerado e começou a elaborar lei contra o monopólio da mídia.
O Grupo Clarín seria o principal afetado pela legislação, que visava regular o setor de rádio e TV, limitando a participação de empresas privadas nesses mercados. Aprovada em 2009, a lei ainda não entrou em vigor porque é contestada na Justiça.
"Kirchner percebeu que o Clarín não seria seu sócio e começou a brigar contra o grupo", diz Luis Majul, autor do livro "O Dono", em que narra os negócios "públicos e privados" do ex-presidente.
Antes da crise no campo, destaca Majul, houve uma pequena tensão: o governo freou a tentativa do grupo de entrar no mercado das telecomunicações com pacotes "triple play" (internet, telefone e TV a cabo).
SEM BONZINHOS
"O governo prometera aprovar a operação, mas depois recuou porque o Clarín ficaria com um poder muito grande", afirma o jornalista, que trabalha num novo livro sobre a relação entre Néstor Kirchner e Héctor Magnetto, um dos acionistas do grupo.
O "Clarín" nega que os negócios tenham influenciado a mudança editorial em relação ao casal Kirchner.
"Não há bonzinhos nessa briga", diz o jornalista Jorge Lanata, um dos nomes mais odiados pela Casa Rosada. "O Clarín não é oficialista, é "clarinista". O grupo sempre dependeu do governo para os seus negócios", afirma.
Um dos fundadores do "Página 12", jornal que hoje é partidário do kirchnerismo, Lanata está fora do jornalismo diário, trabalhando atualmente na produção de um documentário.
"É impossível fazer jornalismo na Argentina. Se hoje é o "Clarín" que não pode circular, amanhã posso ser eu."
Na tentativa de sufocar o Clarín, o governo levou à Justiça questionamentos sobre as empresas e as relações familiares de Ernestina Noble, dona do conglomerado.
Além de pedir o cancelamento da fusão entre Multicanal e Cablevisión, a Casa Rosada afirma que os herdeiros de Noble (adotados por ela em 1976) são filhos biológicos de militantes de esquerda mortos na ditadura.
(LUCAS FERRAZ)
Folha de S.Paulo - Negócios estão na origem da crise dos Kirchner com diário - 03/04/2011
Negócios estão na origem da crise dos Kirchner com diário
Amistosa durante o governo de Néstor, relação mudou quando jornal apoiou produtores rurais contra Cristina
Até 2007, Casa Rosada havia apoiado expansão do grupo na TV a cabo; para jornalista, disputa não tem "bonzinhos"
DE BUENOS AIRES
Antes de se tornarem inimigos, o governo Kirchner e o Grupo Clarín tiveram uma amistosa e lucrativa relação, a ponto de a Casa Rosada apoiar a expansão dos negócios do conglomerado no mercado de TV paga.
Hoje, o que o governo considera uma briga ideológica virou motivo de preocupação pela falta de liberdade de imprensa na Argentina.
No final do seu mandato, em dezembro de 2007, o próprio ex-presidente Néstor Kirchner, morto em outubro de 2010, assinou a fusão das empresas Multicanal e Cablevisión. A operação deu ao Grupo Clarín a liderança no mercado de TV a cabo.
Em 2008, já com Cristina na Presidência, houve uma crise entre o governo e produtores rurais por causa da alta de impostos.
Nessa época o Grupo Clarín, antes simpático à Casa Rosada, mudou sua posição editorial e criticou o governo. A guerra estava detonada.
O kirchnerismo se sentiu traído pelo conglomerado e começou a elaborar lei contra o monopólio da mídia.
O Grupo Clarín seria o principal afetado pela legislação, que visava regular o setor de rádio e TV, limitando a participação de empresas privadas nesses mercados. Aprovada em 2009, a lei ainda não entrou em vigor porque é contestada na Justiça.
"Kirchner percebeu que o Clarín não seria seu sócio e começou a brigar contra o grupo", diz Luis Majul, autor do livro "O Dono", em que narra os negócios "públicos e privados" do ex-presidente.
Antes da crise no campo, destaca Majul, houve uma pequena tensão: o governo freou a tentativa do grupo de entrar no mercado das telecomunicações com pacotes "triple play" (internet, telefone e TV a cabo).
SEM BONZINHOS
"O governo prometera aprovar a operação, mas depois recuou porque o Clarín ficaria com um poder muito grande", afirma o jornalista, que trabalha num novo livro sobre a relação entre Néstor Kirchner e Héctor Magnetto, um dos acionistas do grupo.
O "Clarín" nega que os negócios tenham influenciado a mudança editorial em relação ao casal Kirchner.
"Não há bonzinhos nessa briga", diz o jornalista Jorge Lanata, um dos nomes mais odiados pela Casa Rosada. "O Clarín não é oficialista, é "clarinista". O grupo sempre dependeu do governo para os seus negócios", afirma.
Um dos fundadores do "Página 12", jornal que hoje é partidário do kirchnerismo, Lanata está fora do jornalismo diário, trabalhando atualmente na produção de um documentário.
"É impossível fazer jornalismo na Argentina. Se hoje é o "Clarín" que não pode circular, amanhã posso ser eu."
Na tentativa de sufocar o Clarín, o governo levou à Justiça questionamentos sobre as empresas e as relações familiares de Ernestina Noble, dona do conglomerado.
Além de pedir o cancelamento da fusão entre Multicanal e Cablevisión, a Casa Rosada afirma que os herdeiros de Noble (adotados por ela em 1976) são filhos biológicos de militantes de esquerda mortos na ditadura.
(LUCAS FERRAZ)
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A demissão da repórter que twitou - blog do nassif
Enviado por luisnassif, dom, 03/04/2011 - 23:51
Por Marco St.
O caso da demissão de 2 jornalistas da Folha
Do blog da Carol Rocha (jornalista demitida)
A coluna de hoje da ombudsman da Folha de S.Paulo é sobre uma troca de tuítes entre dois jornalistas da empresa - aliás, ex-jornalistas da empresa. A "repórter do Agora", neste caso, sou eu. O diálogo, de três frases, segue abaixo, no texto da própria Suzana Singer - e ao contrário do que alguns disseram, não foi apagado; continua lá no twitter.Abaixo seguem também, em ordem, a coluna publicada hoje, o email que enviei para a Suzana na quinta-feira, após a minha demissão e, em seguida, a resposta dela.E cada um que tire suas conclusões.A minha conclusão é a seguinte: os jornais subestimam a inteligência dos leitores. Para a ombudsman, não é bom lembrar os leitores que o jornal erra. Também não é bom admitir, em público, que o jornal que briga e exige liberdade de expressão pratica censura interna. Além do meu caso, quem não se lembra do Falha de S.Paulo?
Eu ainda não perdi a esperança de encontrar um dia numa redação um editor corajoso como o Ricardo Noblat, que teve a honestidade de manchetar um "erramos" no Correio Braziliense (e levou o Prêmio Esso por isso).COLUNA DE HOJE#prontofalei
A BLOGOSFERA dá a qualquer um a chance de divulgar o que passa pela sua cabeça a todo momento. No jornalismo, sem o filtro da edição, essa modernidade tem sido uma fonte de problemas. Na quarta-feira passada, após o anúncio da morte de José Alencar, havia no Twitter:
Repórter da Folha: "Nunca um obituário esteve tão pronto. É só apertar o botão."
Repórter do Agora: "Mas na Folha.com nada ainda... esqueceram de apertar o botão. rs" (risos)
Repórter da Folha: "Ah sim, a melhor orientação ever. O último a dar qualquer morte. É o preço por um erro gravíssimo."
Um diálogo ruim, de todos os pontos de vista. É insensível jogar na cara do leitor que há obituários prontos à espera do momento de publicação. Não faz sentido um jornalista criticar, publicamente, um site da mesma empresa. E não deixa de ser desagradável lembrar um problema recente -a divulgação errada, pela Folha.com, da morte do senador Romeu Tuma.
Em janeiro, um fotógrafo colaborador do "Agora", que cobria as eleições para presidente do Palmeiras, escreveu: "Enquanto os porcos não se decidem poderiam mandar mais lanchinhos e refrigerante para a imprensa que assiste ao jogo do Timão na sala de imprensa". A reação foi rápida e violenta: ele apanhou de seguranças do time.
É difícil convencer jornalistas de que suas contas no Twitter, Facebook ou Orkut não podem ser encaradas apenas como pessoais. O repórter é seguido, curtido, recomendado, também como um representante do lugar em que trabalha.
Em um comunicado de 2009, que merece ser atualizado, a chefia da Redação lembrava que todos devem seguir os princípios do projeto editorial quando estiverem on-line.
Seria bom esmiuçar isso. Jornalista não pode declarar voto político, xingar artistas, amaldiçoar o time de futebol rival, bater boca com leitores, expressar preconceito nem tentar obter vantagem pessoal (reclamar, por exemplo, do mau atendimento num restaurante para que saibam que ele é da imprensa).
É muito limitante, mas o repórter precisa considerar que amanhã poderá ser cobrado por uma opinião "inocente". Em um plantão, alguém de Esporte pode ser designado para entrevistar determinado político. E se ele tiver postado, dias antes, que o sujeito é um "corrupto contumaz"?
Quem mais luta pela liberdade de expressão precisa restringir a própria para não perder a razão.
EMAIL ENVIADO PARA A OMBUDSMAN, NA QUINTA-FEIRAOi, Suzana. Tudo bem?
Sou a repórter do Agora que você citou na crítica interna de ontem.
Escrevo porque gostaria de entender melhor qual foi a sua interpretação sobre a troca de mensagens no twitter? O que havia de tão nocivo ao jornal naquilo?
Até o Comunique-se fez matéria sobre o fato da Folha.com ter demorado tanto a dar a notícia da morte do Alencar.
Você não acha hipocrisia o jornal negar _ou censurar comentário sobre o tema_ que depois da notícia errada sobre a morte do Tuma, os cuidados foram redobrados? Nada mais natural.
Mais hipocrisia ainda é um jornal que zela tanto pela liberdade de expressão, que diz não admitir qualquer tipo de censura, praticar a mesma censura contra seus funcionários. Me lembro que o manual de redação diz alguma coisa como "somos abertos a críticas". Sério? Não conheço ninguém que tenha criticado a Folha e não tenha sofrido represália.
Estou sendo bem honesta quando digo que não entendi o que pode ter de tão grave naquelas três postagens, para culminar com a minha demissão e também do meu amigo, Alec. As mensagens não tiveram repercussão nenhuma, com exceção da sua crítica. Ninguém retuitou, nenhum leitor se sentiu ofendido. Nada. Diferente de outros casos de twitter que culminaram em demissão (diretor da Locaweb xingando o clube que a empresa patrocina, o fotógrafo do Agora sendo agredido no Palmeiras, a estagiária de direito que xingou nordestinos etc).
Preciso compreender isso até porque acho o trabalho de ombudsman muito importante, fundamental, aliás, nessa época de jornalismo com a credibilidade tão discutível. Minha mãe foi uma das primeiras ombudsmans do país, numa época em quase nenhuma empresa tinha a função. Ela não é jornalista - ela foi ombudsman por mais de 10 anos numa grande empresa de segurança privada. E eu tenho muita admiração pela função, independentemente do setor no qual ela é praticada.
Além disso, sou casada com um jornalista, com mais de 20 anos de profissão que, além de ainda ser atuante em redação, também é professor de faculdade de comunicação. Em casa sempre discutimos muito sobre todas as teorias do jornalismo, os meandros da profissão, o que se ensina em sala e o que se faz de verdade na redação. E nem ele conseguiu enxergar motivos para essas mensagens culminarem numa crítica tão dura e em demissão. Talvez valesse uma advertência, uma orientação do jornal. Afinal, em que parte da balança entram os serviços prestados, as horas de dedicação a essa redação? Será que um comentário daquele desqualifica totalmente o profissional?
E nessa história toda, me veio à mente um trecho de um livro muito bom do Eugênio Bucci, quando ele tinha um outro discurso diferente do que ele prega hoje, e que podia ser alvo da sua reflexão enquanto crítica do jornal. O livro chama-se Sobre Ética e Imprensa. No capítulo 2, intitulado "A síndrome da auto-suficiência ética", ele tenta explicar por que a imprensa gosta tanto de discutir a ética dos outros, mas não discute a sua. "É como se a imprensa proclamasse: minha função é informar o público, mas os meus valores não estão em discussão, os meus métodos não são da conta de mais ninguém _ eles são bons, corretos e justos por definição."
A imprensa gasta todo o seu tempo apontando, criticando e denunciando tudo e todos para não ter que discutir e justificar as suas próprias falhas
Por Marco St.
O caso da demissão de 2 jornalistas da Folha
Do blog da Carol Rocha (jornalista demitida)
A coluna de hoje da ombudsman da Folha de S.Paulo é sobre uma troca de tuítes entre dois jornalistas da empresa - aliás, ex-jornalistas da empresa. A "repórter do Agora", neste caso, sou eu. O diálogo, de três frases, segue abaixo, no texto da própria Suzana Singer - e ao contrário do que alguns disseram, não foi apagado; continua lá no twitter.Abaixo seguem também, em ordem, a coluna publicada hoje, o email que enviei para a Suzana na quinta-feira, após a minha demissão e, em seguida, a resposta dela.E cada um que tire suas conclusões.A minha conclusão é a seguinte: os jornais subestimam a inteligência dos leitores. Para a ombudsman, não é bom lembrar os leitores que o jornal erra. Também não é bom admitir, em público, que o jornal que briga e exige liberdade de expressão pratica censura interna. Além do meu caso, quem não se lembra do Falha de S.Paulo?
Eu ainda não perdi a esperança de encontrar um dia numa redação um editor corajoso como o Ricardo Noblat, que teve a honestidade de manchetar um "erramos" no Correio Braziliense (e levou o Prêmio Esso por isso).COLUNA DE HOJE#prontofalei
A BLOGOSFERA dá a qualquer um a chance de divulgar o que passa pela sua cabeça a todo momento. No jornalismo, sem o filtro da edição, essa modernidade tem sido uma fonte de problemas. Na quarta-feira passada, após o anúncio da morte de José Alencar, havia no Twitter:
Repórter da Folha: "Nunca um obituário esteve tão pronto. É só apertar o botão."
Repórter do Agora: "Mas na Folha.com nada ainda... esqueceram de apertar o botão. rs" (risos)
Repórter da Folha: "Ah sim, a melhor orientação ever. O último a dar qualquer morte. É o preço por um erro gravíssimo."
Um diálogo ruim, de todos os pontos de vista. É insensível jogar na cara do leitor que há obituários prontos à espera do momento de publicação. Não faz sentido um jornalista criticar, publicamente, um site da mesma empresa. E não deixa de ser desagradável lembrar um problema recente -a divulgação errada, pela Folha.com, da morte do senador Romeu Tuma.
Em janeiro, um fotógrafo colaborador do "Agora", que cobria as eleições para presidente do Palmeiras, escreveu: "Enquanto os porcos não se decidem poderiam mandar mais lanchinhos e refrigerante para a imprensa que assiste ao jogo do Timão na sala de imprensa". A reação foi rápida e violenta: ele apanhou de seguranças do time.
É difícil convencer jornalistas de que suas contas no Twitter, Facebook ou Orkut não podem ser encaradas apenas como pessoais. O repórter é seguido, curtido, recomendado, também como um representante do lugar em que trabalha.
Em um comunicado de 2009, que merece ser atualizado, a chefia da Redação lembrava que todos devem seguir os princípios do projeto editorial quando estiverem on-line.
Seria bom esmiuçar isso. Jornalista não pode declarar voto político, xingar artistas, amaldiçoar o time de futebol rival, bater boca com leitores, expressar preconceito nem tentar obter vantagem pessoal (reclamar, por exemplo, do mau atendimento num restaurante para que saibam que ele é da imprensa).
É muito limitante, mas o repórter precisa considerar que amanhã poderá ser cobrado por uma opinião "inocente". Em um plantão, alguém de Esporte pode ser designado para entrevistar determinado político. E se ele tiver postado, dias antes, que o sujeito é um "corrupto contumaz"?
Quem mais luta pela liberdade de expressão precisa restringir a própria para não perder a razão.
EMAIL ENVIADO PARA A OMBUDSMAN, NA QUINTA-FEIRAOi, Suzana. Tudo bem?
Sou a repórter do Agora que você citou na crítica interna de ontem.
Escrevo porque gostaria de entender melhor qual foi a sua interpretação sobre a troca de mensagens no twitter? O que havia de tão nocivo ao jornal naquilo?
Até o Comunique-se fez matéria sobre o fato da Folha.com ter demorado tanto a dar a notícia da morte do Alencar.
Você não acha hipocrisia o jornal negar _ou censurar comentário sobre o tema_ que depois da notícia errada sobre a morte do Tuma, os cuidados foram redobrados? Nada mais natural.
Mais hipocrisia ainda é um jornal que zela tanto pela liberdade de expressão, que diz não admitir qualquer tipo de censura, praticar a mesma censura contra seus funcionários. Me lembro que o manual de redação diz alguma coisa como "somos abertos a críticas". Sério? Não conheço ninguém que tenha criticado a Folha e não tenha sofrido represália.
Estou sendo bem honesta quando digo que não entendi o que pode ter de tão grave naquelas três postagens, para culminar com a minha demissão e também do meu amigo, Alec. As mensagens não tiveram repercussão nenhuma, com exceção da sua crítica. Ninguém retuitou, nenhum leitor se sentiu ofendido. Nada. Diferente de outros casos de twitter que culminaram em demissão (diretor da Locaweb xingando o clube que a empresa patrocina, o fotógrafo do Agora sendo agredido no Palmeiras, a estagiária de direito que xingou nordestinos etc).
Preciso compreender isso até porque acho o trabalho de ombudsman muito importante, fundamental, aliás, nessa época de jornalismo com a credibilidade tão discutível. Minha mãe foi uma das primeiras ombudsmans do país, numa época em quase nenhuma empresa tinha a função. Ela não é jornalista - ela foi ombudsman por mais de 10 anos numa grande empresa de segurança privada. E eu tenho muita admiração pela função, independentemente do setor no qual ela é praticada.
Além disso, sou casada com um jornalista, com mais de 20 anos de profissão que, além de ainda ser atuante em redação, também é professor de faculdade de comunicação. Em casa sempre discutimos muito sobre todas as teorias do jornalismo, os meandros da profissão, o que se ensina em sala e o que se faz de verdade na redação. E nem ele conseguiu enxergar motivos para essas mensagens culminarem numa crítica tão dura e em demissão. Talvez valesse uma advertência, uma orientação do jornal. Afinal, em que parte da balança entram os serviços prestados, as horas de dedicação a essa redação? Será que um comentário daquele desqualifica totalmente o profissional?
E nessa história toda, me veio à mente um trecho de um livro muito bom do Eugênio Bucci, quando ele tinha um outro discurso diferente do que ele prega hoje, e que podia ser alvo da sua reflexão enquanto crítica do jornal. O livro chama-se Sobre Ética e Imprensa. No capítulo 2, intitulado "A síndrome da auto-suficiência ética", ele tenta explicar por que a imprensa gosta tanto de discutir a ética dos outros, mas não discute a sua. "É como se a imprensa proclamasse: minha função é informar o público, mas os meus valores não estão em discussão, os meus métodos não são da conta de mais ninguém _ eles são bons, corretos e justos por definição."
A imprensa gasta todo o seu tempo apontando, criticando e denunciando tudo e todos para não ter que discutir e justificar as suas próprias falhas
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terça-feira, 29 de março de 2011
A homenagem a Lula em Lisboa - blog luisnassif
ter, 29/03/2011 - 06:51
Por Webster Franklin
Brasil: Presidente e ex-chefe de Estado no nosso País
Lula homenageado em Lisboa e Coimbra
Na cerimónia de doutoramento honoris causa, o ex-presidente brasileiro receberá um anel de ouro, símbolo do seu compromisso com a Universidade de Coimbra
Lula homenageado em Lisboa e Coimbra
O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva vai receber hoje na Assembleia da República, em Lisboa, o Prémio Norte-Sul, atribuído pelo Centro Norte-Sul do Conselho da Europa. A homenagem, que Lula receberá ao lado de Louise Arbour, presidente do International Crisis Group, a outra galardoada, antecederá outra importante distinção, a de doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra.
Por: Domingos G. Serrinha, Correspondente Brasil
O Prémio Norte-Sul distingue anualmente personalidades que, pela sua acção e exemplo, contribuem para a promoção da solidariedade e interdependência mundiais. Lula foi escolhido este ano, segundo o Centro Norte-Sul, pelo dinamismo que imprimiu às relações Sul-Sul e por ter conduzido uma política externa apostada em promover à escala mundial a luta contra a pobreza, o desenvolvimento económico e a igualdade social.
Amanhã, Lula receberá em Coimbra o doutoramento honoris causa pela Faculdade de Direito, uma honra que, há anos, seria inimaginável para um operário pobre e pouco instruído. Um dos símbolos dessa ligação definitiva que Lula passará a ter com uma das mais antigas universidades europeias é um anel de ouro português. Criado pelo joalheiro António Cruz, o anel, maior do que o usual para estes casos, tem 13 gramas de ouro e um rubi cor de sangue de pombo, remetendo para as insígnias vermelhas do Direito.
A seu lado, amanhã, Lula terá outra mulher que faz história no mundo, a actual presidente do Brasil. Dilma Rousseff efectua uma visita de três dias a Portugal, a convite do homólogo Cavaco Silva. A presidente visita hoje, a título particular, a Universidade Coimbra, estando também presente amanhã na cerimónia de doutoramento do seu antecessor. De regresso a Lisboa, Dilma encontra-se com o presidente da República e com o primeiro-ministro José Sócrates
Por Webster Franklin
Brasil: Presidente e ex-chefe de Estado no nosso País
Lula homenageado em Lisboa e Coimbra
Na cerimónia de doutoramento honoris causa, o ex-presidente brasileiro receberá um anel de ouro, símbolo do seu compromisso com a Universidade de Coimbra
Lula homenageado em Lisboa e Coimbra
O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva vai receber hoje na Assembleia da República, em Lisboa, o Prémio Norte-Sul, atribuído pelo Centro Norte-Sul do Conselho da Europa. A homenagem, que Lula receberá ao lado de Louise Arbour, presidente do International Crisis Group, a outra galardoada, antecederá outra importante distinção, a de doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra.
Por: Domingos G. Serrinha, Correspondente Brasil
O Prémio Norte-Sul distingue anualmente personalidades que, pela sua acção e exemplo, contribuem para a promoção da solidariedade e interdependência mundiais. Lula foi escolhido este ano, segundo o Centro Norte-Sul, pelo dinamismo que imprimiu às relações Sul-Sul e por ter conduzido uma política externa apostada em promover à escala mundial a luta contra a pobreza, o desenvolvimento económico e a igualdade social.
Amanhã, Lula receberá em Coimbra o doutoramento honoris causa pela Faculdade de Direito, uma honra que, há anos, seria inimaginável para um operário pobre e pouco instruído. Um dos símbolos dessa ligação definitiva que Lula passará a ter com uma das mais antigas universidades europeias é um anel de ouro português. Criado pelo joalheiro António Cruz, o anel, maior do que o usual para estes casos, tem 13 gramas de ouro e um rubi cor de sangue de pombo, remetendo para as insígnias vermelhas do Direito.
A seu lado, amanhã, Lula terá outra mulher que faz história no mundo, a actual presidente do Brasil. Dilma Rousseff efectua uma visita de três dias a Portugal, a convite do homólogo Cavaco Silva. A presidente visita hoje, a título particular, a Universidade Coimbra, estando também presente amanhã na cerimónia de doutoramento do seu antecessor. De regresso a Lisboa, Dilma encontra-se com o presidente da República e com o primeiro-ministro José Sócrates
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