Enviado por luisnassif, dom, 01/05/2011 - 10:11
Autor: Sylvain Timsit
Por Paulo Kautscher
1- A estratégia da diversão
Elemento primordial do controle social, a estratégia da diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, graças a um dilúvio contínuo de distrações e informações insignificantes.
A estratégia da diversão é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais nos domínios da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.
"Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por assuntos sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar, voltado para a manjedoura com os outros animais" (extraído de "Armas silenciosas para guerras tranquilas").
2- Criar problemas, depois oferecer soluções
Este método também é denominado "problema-reação-solução". Primeiro cria-se um problema, uma "situação" destinada a suscitar uma certa reação do público, a fim de que seja ele próprio a exigir as medidas que se deseja fazê-lo aceitar. Exemplo: deixar desenvolver-se a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público passe a reivindicar leis de segurança em detrimento da liberdade. Ou ainda: criar uma crise econômica para fazer como um mal necessário o recuo dos direitos sociais e desmantelamento dos serviços públicos.
3- A estratégia do alongamento
Para fazer aceitar uma medida inaceitável, basta aplicá-la progressivamente, de forma gradual, ao longo de 10 anos. Foi deste modo que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante os anos 1980 e 1990. Desemprego maciço, precariedade, flexibilidade, deslocalizações, salários que já não asseguram um rendimento decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas brutalmente.
4- A estratégia do diferimento
Outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como "dolorosa mas necessária", obtendo o acordo do público no presente para uma aplicação no futuro. É sempre mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque a dor não será sofrida de repente. A seguir, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhor amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Finalmente, porque isto dá tempo ao público para se habituar à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.
Exemplo recente: a passagem ao Euro e a perda da soberania monetária e econômica foram aceitas pelos países europeus em 1994-95 para uma aplicação em 2001. Outro exemplo: os acordos multilaterais do FTAA (Free Trade Agreement of the Americas) que os EUA impuseram em 2001 aos países do continente americano ainda reticentes, concedendo uma aplicação diferida para 2005.
5- Dirigir-se ao público como se fossem crianças pequenas
A maior parte da publicidade destinada ao grande público utiliza um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizadores, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um débil mental. Exemplo típico: a campanha da TV francesa pela passagem ao Euro ("os dias euro"). Quanto mais se procura enganar o espectador, mais se adota um tom infantilizante. Por quê?
"Se se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos de idade, então, devido à sugestibilidade, ela terá, com uma certa probabilidade, uma resposta ou uma reação tão destituída de sentido crítico como aquela de uma pessoa de 12 anos". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranquilas" )
6- Apelar antes ao emocional do que à reflexão
Apelar ao emocional é uma técnica clássica para curtocircuitar a análise racional e, portanto, o sentido crítico dos indivíduos. Além disso, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para ali implantar ideias, desejos, medos, impulsos ou comportamentos...
7- Manter o público na ignorância e no disparate
Atuar de modo a que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e a sua escravidão.
"A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser da espécie mais pobre, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores seja e permaneça incompreensível pelas classes inferiores". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranquilas" )
8- Encorajar o público a comprazer-se na mediocridade
Encorajar o público a considerar "natural" o fato de ser idiota, vulgar e inculto...
9- Substituir a revolta pela culpabilidade
Fazer crer ao indivíduo que ele é o único responsável pela sua infelicidade, devido à insuficiência da sua inteligência, das suas capacidades ou dos seus esforços. Assim, ao invés de se revoltar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto-desvaloriza e auto-culpabiliza, o que engendra um estado depressivo que tem como um dos efeitos a inibição da ação. E sem ação, não há alteração!...
10- Conhecer os indivíduos melhor do que eles se conhecem a si próprios
No decurso dos últimos 50 anos, os progressos fulgurantes da ciência cavaram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dirigentes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" chegou a um conhecimento avançado do ser humano, tanto física como psicologicamente. O sistema chegou a conhecer melhor o indivíduo médio do que este se conhece a si próprio. Isto significa que na maioria dos casos o sistema detém um maior controle e um maior poder sobre os indivíduos do que os próprios indivíduos
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segunda-feira, 2 de maio de 2011
sexta-feira, 29 de abril de 2011
O PiG e a elite - conersa afiada - Luiz Carlos Antero
Dantas sempre sorri quando lê o PiG
Saiu no Portal Vermelho, texto de Luiz Carlos Antero:
Excesso de “respeito aos contratos”
Luiz Carlos Antero
Nas colunas anteriores, comentamos a simbiose que define o violento e hostil perfil do império da mídia como síntese da secular tradição conservadora — que na atualidade reúne os traços essenciais do autoritarismo e do padrão neoliberal, nos marcos do regime militar e dos governos FHC. E ainda sobrevive ao controle social.
Em consequência desta simbiose, o império da mídia, é conhecido hoje como PIG (Partido da Imprensa Golpista, ontem e hoje, na precisa definição propalada por Paulo Henrique Amorim).
A censura que parte desta imprensa conheceu no período discricionário — longe de significar, nas diferenças formais, uma contradição antagônica com os generais da ditadura, posto que assimilou o conceito de golpe de Estado — e confirmou, em seus desdobramentos no atual século, que na essência crava uma profunda (e nada sutil) identidade antidemocrática.
Ou seja: dessa fusão de interesses conformou-se a sinistra força política estruturada e instituída na concepção “pós-moderna” da ditadura do grande capital — devidamente equipada para a demolição dos pensamentos divergentes, mas progressivamente debilitada na medida do incremento da participação popular ao processo político. É a velha e truculenta direita em verde oliva, na versão a um só tempo traiçoeira, venenosa e explosiva — que, derrotada em 2010, prepara nova ofensiva.
PIG contra o povo brasileiro
Vivemos no atual momento esta ácida contradição — que sobrevive à impossibilidade dos governos Lula de superar esses (entre outros) traços de um passado histórico a um só tempo remoto e recente. Um limiar que possui sustentação na realidade objetiva, visto que permanecem vigentes os obstáculos estruturais que ocasionaram secularmente a hegemonia das classes conservadoras em nosso País. Mas que foi, em precisos limites, contestado nos últimos anos.
Em setembro de 2010, em plena campanha de Dilma para a Presidência da República, Lula renovou a acidez das críticas ao comitê da mídia golpista e voltou a defender uma nova regulamentação do setor:
“O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada. Muitas vezes, fica explícito no comportamento que eles têm candidato e gostariam que o candidato fosse outro; deveriam assumir categoricamente que têm um candidato e tem um partido. A verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse País — donas de canais de TV, de rádio, jornais, sites e outras mídias (…) que você viaja pelo Brasil e tem duas ou três famílias que são donas dos canais de TV. E os mesmos são donos das rádios e são donos dos jornais”.
Lula defendeu um novo marco regulatório para as telecomunicações no Brasil, citando a Conferência na qual foram discutidas propostas como a criação do Conselho Nacional de Comunicação, um organismo de controle público das mídias, considerada pela mídia golpista como censura. E arrematou: “Ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável”.
Fundamento na mobilização
Com tão firme antecedente, a regulação da mídia requer, nessas condições, algo mais que a determinação política do governo Dilma: a organização e mobilização da sociedade na ampla e vigorosa luta pela superação dos obstáculos reafirmados em 1964 e, após 30 anos, em 1994 — quando se impôs graves danos aos interesses do progresso e dos avanços sociais no Brasil, legando-se graves restrições aos governos iniciados em 2002.
Porque, não obstante a arrojada declaração do então presidente Lula, é indispensável o recurso a um outro conselho com o qual brindou a Presidenta no dia da sua posse: “Nas dificuldades, vá para perto do povo, que é a nossa salvação”.
Entretanto, o próprio Lula saberia que, com toda a confiança no povo brasileiro, faltou-lhe o solo necessário para consolidar determinadas transformações. Todas requeridas na superação dos obstáculos estruturais ao pleno desenvolvimento do Brasil e liquidação das amarras estabelecidas pelas oligarquias em sua vigência macroeconômica — solidamente instaladas no poder de Estado.
Tais vulnerabilidades constavam da “Carta aos Brasileiros”, declinada em plena campanha eleitoral de 2002, nos claros limites de sua iminente relação de governo com o secular poder conservador: “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do País “.
Na conjuntura de 2002, o “respeito contratos” celebrados desde as privatizações, implicaram em seguida na manutenção do balaio de armadilhas neoliberais e na tácita permanência das tratativas do Plano Real — que sacralizaram os ganhos especulativos da ciranda financeira, somadas às remessas pela via das multinacionais concessionárias do serviço público (em especial nas áreas de energia, telefonia e comunicações) para o centro hegemônico do capital financeiro internacional.
Consagrou-se, em tais remessas, a sangria da poupança do nosso povo trabalhador extraída também mediante a exacerbação das tarifas. E, simbolicamente, proporcionou-se uma vida fácil e fagueira para os banqueiros do porte e atuação de Daniel Dantas et caterva. Com o olhar solícito do império da mídia e longe das “obrigações do País”.
Saiu no Portal Vermelho, texto de Luiz Carlos Antero:
Excesso de “respeito aos contratos”
Luiz Carlos Antero
Nas colunas anteriores, comentamos a simbiose que define o violento e hostil perfil do império da mídia como síntese da secular tradição conservadora — que na atualidade reúne os traços essenciais do autoritarismo e do padrão neoliberal, nos marcos do regime militar e dos governos FHC. E ainda sobrevive ao controle social.
Em consequência desta simbiose, o império da mídia, é conhecido hoje como PIG (Partido da Imprensa Golpista, ontem e hoje, na precisa definição propalada por Paulo Henrique Amorim).
A censura que parte desta imprensa conheceu no período discricionário — longe de significar, nas diferenças formais, uma contradição antagônica com os generais da ditadura, posto que assimilou o conceito de golpe de Estado — e confirmou, em seus desdobramentos no atual século, que na essência crava uma profunda (e nada sutil) identidade antidemocrática.
Ou seja: dessa fusão de interesses conformou-se a sinistra força política estruturada e instituída na concepção “pós-moderna” da ditadura do grande capital — devidamente equipada para a demolição dos pensamentos divergentes, mas progressivamente debilitada na medida do incremento da participação popular ao processo político. É a velha e truculenta direita em verde oliva, na versão a um só tempo traiçoeira, venenosa e explosiva — que, derrotada em 2010, prepara nova ofensiva.
PIG contra o povo brasileiro
Vivemos no atual momento esta ácida contradição — que sobrevive à impossibilidade dos governos Lula de superar esses (entre outros) traços de um passado histórico a um só tempo remoto e recente. Um limiar que possui sustentação na realidade objetiva, visto que permanecem vigentes os obstáculos estruturais que ocasionaram secularmente a hegemonia das classes conservadoras em nosso País. Mas que foi, em precisos limites, contestado nos últimos anos.
Em setembro de 2010, em plena campanha de Dilma para a Presidência da República, Lula renovou a acidez das críticas ao comitê da mídia golpista e voltou a defender uma nova regulamentação do setor:
“O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada. Muitas vezes, fica explícito no comportamento que eles têm candidato e gostariam que o candidato fosse outro; deveriam assumir categoricamente que têm um candidato e tem um partido. A verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse País — donas de canais de TV, de rádio, jornais, sites e outras mídias (…) que você viaja pelo Brasil e tem duas ou três famílias que são donas dos canais de TV. E os mesmos são donos das rádios e são donos dos jornais”.
Lula defendeu um novo marco regulatório para as telecomunicações no Brasil, citando a Conferência na qual foram discutidas propostas como a criação do Conselho Nacional de Comunicação, um organismo de controle público das mídias, considerada pela mídia golpista como censura. E arrematou: “Ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável”.
Fundamento na mobilização
Com tão firme antecedente, a regulação da mídia requer, nessas condições, algo mais que a determinação política do governo Dilma: a organização e mobilização da sociedade na ampla e vigorosa luta pela superação dos obstáculos reafirmados em 1964 e, após 30 anos, em 1994 — quando se impôs graves danos aos interesses do progresso e dos avanços sociais no Brasil, legando-se graves restrições aos governos iniciados em 2002.
Porque, não obstante a arrojada declaração do então presidente Lula, é indispensável o recurso a um outro conselho com o qual brindou a Presidenta no dia da sua posse: “Nas dificuldades, vá para perto do povo, que é a nossa salvação”.
Entretanto, o próprio Lula saberia que, com toda a confiança no povo brasileiro, faltou-lhe o solo necessário para consolidar determinadas transformações. Todas requeridas na superação dos obstáculos estruturais ao pleno desenvolvimento do Brasil e liquidação das amarras estabelecidas pelas oligarquias em sua vigência macroeconômica — solidamente instaladas no poder de Estado.
Tais vulnerabilidades constavam da “Carta aos Brasileiros”, declinada em plena campanha eleitoral de 2002, nos claros limites de sua iminente relação de governo com o secular poder conservador: “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do País “.
Na conjuntura de 2002, o “respeito contratos” celebrados desde as privatizações, implicaram em seguida na manutenção do balaio de armadilhas neoliberais e na tácita permanência das tratativas do Plano Real — que sacralizaram os ganhos especulativos da ciranda financeira, somadas às remessas pela via das multinacionais concessionárias do serviço público (em especial nas áreas de energia, telefonia e comunicações) para o centro hegemônico do capital financeiro internacional.
Consagrou-se, em tais remessas, a sangria da poupança do nosso povo trabalhador extraída também mediante a exacerbação das tarifas. E, simbolicamente, proporcionou-se uma vida fácil e fagueira para os banqueiros do porte e atuação de Daniel Dantas et caterva. Com o olhar solícito do império da mídia e longe das “obrigações do País”.
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quarta-feira, 13 de abril de 2011
viomundo - WikiLeaks e o fracasso do jornalismo
WikiLeaks e o fracasso do jornalismo
Tempos extraordinários
10/12/2010, John Pilger, Guardian, UK
Tradução do Coletivo da Vila Vudu
No manual de contraguerrilha do Exército dos EUA, o comandante general David Petraeus descreve a guerra do Afeganistão como “guerra de percepção (…) continuamente conduzida pelos noticiários.” O que interessa não é tanto o dia-a-dia das batalhas contra os Talibã [hoje, os EUA já negociam a paz com os Talibã, os quais, portanto, não foram derrotados, notícia que não se lê em nenhum jornal do Brasil-2011 (NTs)], quando o modo como a aventura é vendida nos EUA, onde “a mídia influencia diretamente a atitude de grupos chaves de opinião”. Ao ler isso, lembrei do general venezuelano que liderou um golpe contra o governo em 2002. “Tínhamos uma arma secreta”, gritava ele. “Temos a mídia, sobretudo a TV. Sem mídia, não se faz coisa alguma”.
Nunca se consumiu tanta energia para garantir que jornalistas obedecessem, que fizessem o que os generais mandam (os generais amigos dos donos de jornais e jornalistas). Hoje, os mecanismos já estão instalados. São “perpétuos”.
E o jornalismo vive de repetir o que digam os mais verborrágicos [no Brasil-2011, o jornalismo, os jornais e os jornalistas não sabem fazer outra coisa além de repetir o hiper verborrágico ex-FHC e atual nada ou fazer plantão em portas de delegacias (NTs)] (…).
Em Chicksands em Bedfordshire, o establishment da guerra psicológica do Ministério da Defesa (Psyops) [no Brasil-2011, são jornalistas-marketeiros tucano/DEM (NTs)] e ‘midia trainers’ devotam-se à tarefa, imersos num jargão global de “dominação da informação”, “ameaças assimétricas” e “ciberameaças”. Partilham premissas que servem também nos métodos de interrogatório que levaram a um inquérito público sobre soldados britânicos torturadores, no Iraque.
A desinformação ‘jornalística’ e a barbárie da guerra colonial [no Brasil, é a desinformação ‘jornalística’ e a barbárie eternamente golpista do PSDB/DEM e seus jornalistas incorporados (NTs)] têm muito em comum.
Claro: só o jargão é novo. Na abertura de meu filme “A guerra que você não vê” [orig. The War You Don't See], há uma referência a uma conversa privada, em tempos de pré-WikiLeaks, em dezembro de 1917, entre David Lloyd George, primeiro-ministro britânico durante boa parte da 1ª Guerra Mundial, e CP Scott, editor do jornal Manchester Guardian. “Se as pessoas soubessem a verdade”, disse o primeiro ministro, “a guerra acabaria amanhã. Evidentemente não sabem. Não podem saber.”
No início daquela 1ª Guerra Mundial, a guerra para “por fim a todas as guerras”, Edward Bernays, amigo e confidente do presidente Woodrow Wilson, cunhou o termo “relações públicas”, como eufemismo para “propaganda” (“palavra que não se podia pronunciar, durante a guerra”). Em seu livro Propaganda (1928), Bernays apresenta as “Relações Públicas” como “governo invisível, que realmente governa o país”, graças à “manipulação inteligente das massas”. Para conseguir manipulá-las, era preciso “criar uma pseudo realidade” e era preciso também “que a imprensa adotasse essa falsa realidade, como real”. (O primeiro monumental sucesso da propaganda & publicidade inventada por Bernays foi ensinar as mulheres a fumar em público. Associou o cigarro à libertação feminina. Seus cartazes mostravam mulheres fumando: “as tochas da liberdade”.)
Durante a guerra do Vietnã, ainda jovem repórter, comecei a ver como a coisa funciona. Na minha primeira viagem, vi o efeito das bombas de napalm em duas vilas; o napalm continua a queimar por baixo da pele; muitas das vítimas eram crianças; havia pedaços de corpos pendurados em galhos de árvores. Os jornais falavam de “tragédias inevitáveis que acontecem em todas as guerras”. Não explicavam por que virtualmente toda a população do Vietnã do Sul corria risco de ser morta pelos “aliados”, os EUA. Termos de Relações Públicas, como “processo de paz” e “dano colateral” viraram tema de conversa em todos os lares norte-americanos. Praticamente nenhum jornalista usa a palavra “invasão”. “Envolvimento” e, mais tarde “conflito” converteram-se num novo vocabulário, segundo o qual a matança de civis nunca passa de “erro trágico”; e ninguém jamais põe em dúvida a boa intenção dos invasores.
Em Saigon, pelas paredes de todas as redações onde trabalhavam os jornalistas correspondentes, viam-se fotos horrendas jamais publicadas e nunca enviadas, porque o objetivo ‘jornalístico’ era não “espetacularizar” a guerra, atormentando ainda mais o público. Além do mais, não eram fotos “isentas”. O massacre de My Lai não foi notícia em 1968, apesar de praticamente todos os jornalistas correspondentes saberem o que acontecera (e também de outros massacres). A notícia chegou aos EUA e ao mundo pelo trabalho de um jornalista independente, Seymour Hersh. A capa de Newsweek dizia: “Tragédia Americana” – como se os norte-americanos fossem as vítimas, ideia que Hollywood aproveitou com entusiasmo, em filmes como The Deer Hunter e Platoon. A guerra era suja e trágica, mas a causa continuava nobre. Pior: os EUA estavam sendo derrotados, por culpa de uma parte da imprensa, irresponsável, hostil, antipatriótica e sem censura.
Por mais que tudo isso fosse falso, essas realidades falseadas e os métodos para falsear a realidade foram as “lições” que aprenderam os que hoje fazem guerra pelo mundo e por parte muito significativa da imprensa. Depois do Vietnã, tornaram-se freqüentes os jornalistas “incorporados” às tropas – e quanto mais incorporados, mas indispensáveis para o prosseguimento das políticas de guerra dos EUA dos dois lados do Atlântico. Com honrosas exceções, foi o que aconteceu nos EUA. Em março de 2003, cerca de 700 jornalistas incorporados, e respectivas equipes técnicas de televisão, acompanharam as tropas dos EUA que invadiram o Iraque. Quem os ouça falar ou leia o que escreviam, terá a impressão de que estavam, outra vez, salvando a Europa da praga nazista. Não se vê o povo do Iraque. John Wayne voltou às salas de jantar dos EUA.
O auge foi a entrada vitoriosa em Bagdá, e as imagens, pela televisão, de multidões que festejavam a derrubada de uma estátua de Saddam Hussein. Por trás da fachada, uma equipe de “agentes ‘psy’” manipulavam os relatórios. Um desses relatórios que ninguém viu, falava de “um circo jornalístico, onde havia mais jornalistas norte-americanos que iraquianos na rua”. Rageh Omaar, que lá estava como correspondente da BBC, noticiou, para todos os principais noticiários de televisão: “As pessoas saiam às ruas para saudar os soldados [norte-americanos] fazendo o V-da-vitória. O que se vê aqui se repete por toda a capital do Iraque”. A notícia do dia, jamais noticiada, era que, em todo o Iraque, começara o massacre, a conquista e a destruição sangrentas de toda a sociedade iraquiana.
No meu filme [The War You Don't See], Omaar fala com franqueza admirável: “Sei que não fiz o que deveria ter feito, como jornalista”, diz ele. “Não protestei, não denunciei o que estava vendo: que ninguém estava noticiando o mal-estar geral, no Iraque”. E lembra que a propaganda militar britânica realmente manipulou toda a cobertura da queda de Basra, cidade que, segundo “BBC News 24”, teria caído “17 vezes”. A cobertura, diz Omaar, “foi uma câmara de eco gigante”.
A magnitude do sofrimento do povo iraquiano, vítima de massacre, não apareceu nos noticiários. À frente do n. 10 em Downing St, na noite da invasão, Andrew Marr, então editor de política da BBC, disse: “Tony Blair previu que seria possível tomar Bagdá sem derramamento de sangue e que, no final, os iraquianos festejariam. Como se vê, acertou as duas previsões” (…). Pedi uma entrevista a Marr, para o filme, mas ele recusou. (…)
Dan Rather, que foi âncora da CBS por 24 anos, não se recusou a falar. “Havia medo, em todas as redações dos EUA”, disse ele. “Todos temiam perder o emprego. Todos temiam ser rotulados como antipatrióticos, ou coisa assim”. Rather diz que a guerra fez dos jornalistas “estenógrafos”; que, se alguém jornalista questionasse o processo de omitir e distorcer os fatos, a invasão do Iraque não teria acontecido. É o que dizem hoje inúmeros jornalistas veteranos que entrevistei para o filme, nos EUA.
Na Grã-Bretanha, David Rose, cujas colunas no Observer tiveram papel importante no processo de associar Saddam Hussein à al-Qaida e ao 11/9, deu-me entrevista corajosa, na qual diz “Não há explicação possível (…) O que aconteceu no Iraque foi crime, crime em larga escala”.
“Se houve crime, os jornalistas foram cúmplices?” – perguntei a ele.
“Foram. Talvez sem saber, ou sem querer, mas foram cúmplices.” (…)
Ninguém imaginava que aconteceria WikiLeaks. Na atual avalanche de documentos oficiais revelados, sobretudo documentos em que se veem as maquinações que levaram à guerra – como a obsessão dos EUA contra o Irã –, pouco se tem falado sobre o fracasso do jornalismo.
Uma das razões pela qual Julian Assange parece despertar tão compacta hostilidade entre os jornalistas empregados de diferentes lobbies – os mesmos que o assessor de imprensa de George Bush chamou certa vez de “cúmplices facilitadores” – é que WikiLeaks é a voz que expõe o fracasso desse jornalismo e desses jornalistas.
Por que a opinião pública teve de esperar que surgisse WikiLeaks, para descobrir quem manda, de fato, até em governos eleitos, e como opera esse poder que não conhece qualquer democratização?
Como revela documento do ministério da Defesa, de 2.000 páginas, os jornalistas mais efetivos são os que o poder considera ‘não incorporados’ ou ‘não conversáveis’ [orig. non clubbable], mas como “ameaça”. (…)
Em meu filme, perguntei a Julian Assange como WikiLeaks lida com as conhecidas draconianas leis de sigilo britânicas. “Bem”, disse ele, “recebemos os documentos sigilosos, nos termos da lei britânica. A lei britânica diz que é crime destruir informação sigilosa. A informação sigilosa nos foi mandada, sem que tivéssemos pedido ou pago por elas. Se não podemos destruir informação sigilosa… só restava publicar tudo.” Vivemos tempos extraordinários.
PS do Viomundo: Notas de tradução incorporadas ao texto pelo pessoal da Vila Vudu.
Tempos extraordinários
10/12/2010, John Pilger, Guardian, UK
Tradução do Coletivo da Vila Vudu
No manual de contraguerrilha do Exército dos EUA, o comandante general David Petraeus descreve a guerra do Afeganistão como “guerra de percepção (…) continuamente conduzida pelos noticiários.” O que interessa não é tanto o dia-a-dia das batalhas contra os Talibã [hoje, os EUA já negociam a paz com os Talibã, os quais, portanto, não foram derrotados, notícia que não se lê em nenhum jornal do Brasil-2011 (NTs)], quando o modo como a aventura é vendida nos EUA, onde “a mídia influencia diretamente a atitude de grupos chaves de opinião”. Ao ler isso, lembrei do general venezuelano que liderou um golpe contra o governo em 2002. “Tínhamos uma arma secreta”, gritava ele. “Temos a mídia, sobretudo a TV. Sem mídia, não se faz coisa alguma”.
Nunca se consumiu tanta energia para garantir que jornalistas obedecessem, que fizessem o que os generais mandam (os generais amigos dos donos de jornais e jornalistas). Hoje, os mecanismos já estão instalados. São “perpétuos”.
E o jornalismo vive de repetir o que digam os mais verborrágicos [no Brasil-2011, o jornalismo, os jornais e os jornalistas não sabem fazer outra coisa além de repetir o hiper verborrágico ex-FHC e atual nada ou fazer plantão em portas de delegacias (NTs)] (…).
Em Chicksands em Bedfordshire, o establishment da guerra psicológica do Ministério da Defesa (Psyops) [no Brasil-2011, são jornalistas-marketeiros tucano/DEM (NTs)] e ‘midia trainers’ devotam-se à tarefa, imersos num jargão global de “dominação da informação”, “ameaças assimétricas” e “ciberameaças”. Partilham premissas que servem também nos métodos de interrogatório que levaram a um inquérito público sobre soldados britânicos torturadores, no Iraque.
A desinformação ‘jornalística’ e a barbárie da guerra colonial [no Brasil, é a desinformação ‘jornalística’ e a barbárie eternamente golpista do PSDB/DEM e seus jornalistas incorporados (NTs)] têm muito em comum.
Claro: só o jargão é novo. Na abertura de meu filme “A guerra que você não vê” [orig. The War You Don't See], há uma referência a uma conversa privada, em tempos de pré-WikiLeaks, em dezembro de 1917, entre David Lloyd George, primeiro-ministro britânico durante boa parte da 1ª Guerra Mundial, e CP Scott, editor do jornal Manchester Guardian. “Se as pessoas soubessem a verdade”, disse o primeiro ministro, “a guerra acabaria amanhã. Evidentemente não sabem. Não podem saber.”
No início daquela 1ª Guerra Mundial, a guerra para “por fim a todas as guerras”, Edward Bernays, amigo e confidente do presidente Woodrow Wilson, cunhou o termo “relações públicas”, como eufemismo para “propaganda” (“palavra que não se podia pronunciar, durante a guerra”). Em seu livro Propaganda (1928), Bernays apresenta as “Relações Públicas” como “governo invisível, que realmente governa o país”, graças à “manipulação inteligente das massas”. Para conseguir manipulá-las, era preciso “criar uma pseudo realidade” e era preciso também “que a imprensa adotasse essa falsa realidade, como real”. (O primeiro monumental sucesso da propaganda & publicidade inventada por Bernays foi ensinar as mulheres a fumar em público. Associou o cigarro à libertação feminina. Seus cartazes mostravam mulheres fumando: “as tochas da liberdade”.)
Durante a guerra do Vietnã, ainda jovem repórter, comecei a ver como a coisa funciona. Na minha primeira viagem, vi o efeito das bombas de napalm em duas vilas; o napalm continua a queimar por baixo da pele; muitas das vítimas eram crianças; havia pedaços de corpos pendurados em galhos de árvores. Os jornais falavam de “tragédias inevitáveis que acontecem em todas as guerras”. Não explicavam por que virtualmente toda a população do Vietnã do Sul corria risco de ser morta pelos “aliados”, os EUA. Termos de Relações Públicas, como “processo de paz” e “dano colateral” viraram tema de conversa em todos os lares norte-americanos. Praticamente nenhum jornalista usa a palavra “invasão”. “Envolvimento” e, mais tarde “conflito” converteram-se num novo vocabulário, segundo o qual a matança de civis nunca passa de “erro trágico”; e ninguém jamais põe em dúvida a boa intenção dos invasores.
Em Saigon, pelas paredes de todas as redações onde trabalhavam os jornalistas correspondentes, viam-se fotos horrendas jamais publicadas e nunca enviadas, porque o objetivo ‘jornalístico’ era não “espetacularizar” a guerra, atormentando ainda mais o público. Além do mais, não eram fotos “isentas”. O massacre de My Lai não foi notícia em 1968, apesar de praticamente todos os jornalistas correspondentes saberem o que acontecera (e também de outros massacres). A notícia chegou aos EUA e ao mundo pelo trabalho de um jornalista independente, Seymour Hersh. A capa de Newsweek dizia: “Tragédia Americana” – como se os norte-americanos fossem as vítimas, ideia que Hollywood aproveitou com entusiasmo, em filmes como The Deer Hunter e Platoon. A guerra era suja e trágica, mas a causa continuava nobre. Pior: os EUA estavam sendo derrotados, por culpa de uma parte da imprensa, irresponsável, hostil, antipatriótica e sem censura.
Por mais que tudo isso fosse falso, essas realidades falseadas e os métodos para falsear a realidade foram as “lições” que aprenderam os que hoje fazem guerra pelo mundo e por parte muito significativa da imprensa. Depois do Vietnã, tornaram-se freqüentes os jornalistas “incorporados” às tropas – e quanto mais incorporados, mas indispensáveis para o prosseguimento das políticas de guerra dos EUA dos dois lados do Atlântico. Com honrosas exceções, foi o que aconteceu nos EUA. Em março de 2003, cerca de 700 jornalistas incorporados, e respectivas equipes técnicas de televisão, acompanharam as tropas dos EUA que invadiram o Iraque. Quem os ouça falar ou leia o que escreviam, terá a impressão de que estavam, outra vez, salvando a Europa da praga nazista. Não se vê o povo do Iraque. John Wayne voltou às salas de jantar dos EUA.
O auge foi a entrada vitoriosa em Bagdá, e as imagens, pela televisão, de multidões que festejavam a derrubada de uma estátua de Saddam Hussein. Por trás da fachada, uma equipe de “agentes ‘psy’” manipulavam os relatórios. Um desses relatórios que ninguém viu, falava de “um circo jornalístico, onde havia mais jornalistas norte-americanos que iraquianos na rua”. Rageh Omaar, que lá estava como correspondente da BBC, noticiou, para todos os principais noticiários de televisão: “As pessoas saiam às ruas para saudar os soldados [norte-americanos] fazendo o V-da-vitória. O que se vê aqui se repete por toda a capital do Iraque”. A notícia do dia, jamais noticiada, era que, em todo o Iraque, começara o massacre, a conquista e a destruição sangrentas de toda a sociedade iraquiana.
No meu filme [The War You Don't See], Omaar fala com franqueza admirável: “Sei que não fiz o que deveria ter feito, como jornalista”, diz ele. “Não protestei, não denunciei o que estava vendo: que ninguém estava noticiando o mal-estar geral, no Iraque”. E lembra que a propaganda militar britânica realmente manipulou toda a cobertura da queda de Basra, cidade que, segundo “BBC News 24”, teria caído “17 vezes”. A cobertura, diz Omaar, “foi uma câmara de eco gigante”.
A magnitude do sofrimento do povo iraquiano, vítima de massacre, não apareceu nos noticiários. À frente do n. 10 em Downing St, na noite da invasão, Andrew Marr, então editor de política da BBC, disse: “Tony Blair previu que seria possível tomar Bagdá sem derramamento de sangue e que, no final, os iraquianos festejariam. Como se vê, acertou as duas previsões” (…). Pedi uma entrevista a Marr, para o filme, mas ele recusou. (…)
Dan Rather, que foi âncora da CBS por 24 anos, não se recusou a falar. “Havia medo, em todas as redações dos EUA”, disse ele. “Todos temiam perder o emprego. Todos temiam ser rotulados como antipatrióticos, ou coisa assim”. Rather diz que a guerra fez dos jornalistas “estenógrafos”; que, se alguém jornalista questionasse o processo de omitir e distorcer os fatos, a invasão do Iraque não teria acontecido. É o que dizem hoje inúmeros jornalistas veteranos que entrevistei para o filme, nos EUA.
Na Grã-Bretanha, David Rose, cujas colunas no Observer tiveram papel importante no processo de associar Saddam Hussein à al-Qaida e ao 11/9, deu-me entrevista corajosa, na qual diz “Não há explicação possível (…) O que aconteceu no Iraque foi crime, crime em larga escala”.
“Se houve crime, os jornalistas foram cúmplices?” – perguntei a ele.
“Foram. Talvez sem saber, ou sem querer, mas foram cúmplices.” (…)
Ninguém imaginava que aconteceria WikiLeaks. Na atual avalanche de documentos oficiais revelados, sobretudo documentos em que se veem as maquinações que levaram à guerra – como a obsessão dos EUA contra o Irã –, pouco se tem falado sobre o fracasso do jornalismo.
Uma das razões pela qual Julian Assange parece despertar tão compacta hostilidade entre os jornalistas empregados de diferentes lobbies – os mesmos que o assessor de imprensa de George Bush chamou certa vez de “cúmplices facilitadores” – é que WikiLeaks é a voz que expõe o fracasso desse jornalismo e desses jornalistas.
Por que a opinião pública teve de esperar que surgisse WikiLeaks, para descobrir quem manda, de fato, até em governos eleitos, e como opera esse poder que não conhece qualquer democratização?
Como revela documento do ministério da Defesa, de 2.000 páginas, os jornalistas mais efetivos são os que o poder considera ‘não incorporados’ ou ‘não conversáveis’ [orig. non clubbable], mas como “ameaça”. (…)
Em meu filme, perguntei a Julian Assange como WikiLeaks lida com as conhecidas draconianas leis de sigilo britânicas. “Bem”, disse ele, “recebemos os documentos sigilosos, nos termos da lei britânica. A lei britânica diz que é crime destruir informação sigilosa. A informação sigilosa nos foi mandada, sem que tivéssemos pedido ou pago por elas. Se não podemos destruir informação sigilosa… só restava publicar tudo.” Vivemos tempos extraordinários.
PS do Viomundo: Notas de tradução incorporadas ao texto pelo pessoal da Vila Vudu.
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quarta-feira, 2 de março de 2011
mídia - internet e poder - Privacidade agora é mercadoria - observatório da imprensa
Por Julia Angwin e Emily Steel em 2/3/2011
Reproduzido do Valor Econômico, 1/3/2011; título original “Privacidade torna-se uma nova mercadoria da internet”, intertítulos do OI
À medida que o monitoramento secreto de usuários da internet se torna mais agressivo e abrangente, pequenas empresas iniciantes e gigantes da tecnologia começaram a oferecer um novo produto: privacidade.
Companhias como a Microsoft Corp., a McAfee Inc. – e até mesmo algumas das próprias empresas de monitoramento – passaram a oferecer novas maneiras de proteger as pessoas da bisbilhotagem on-line. Algumas estão até indo além e começando a pagar às pessoas uma comissão toda vez que seus detalhes pessoais são usados por empresas de marketing.
"Os dados se tornaram um novo tipo de moeda", diz Shane Green, diretor-presidente da empresa iniciante Personal Inc., sediada em Washington, que captou recentemente US$ 7,6 milhões para criar uma firma voltada a ajudar as pessoas a lucrar com o fornecimento de seus dados pessoais para anunciantes on-line.
A série de reportagens do Wall Street Journal chamada "O que eles sabem", sobre o monitoramento na internet, expôs uma rede em rápido crescimento de centenas de empresas que coletam dados altamente pessoais sobre as pessoas na internet – suas atividades on-line, opiniões políticas, preocupações com a saúde, hábitos de compras, situação financeira e, em alguns caos, até seus nomes – para alimentar a indústria americana de propaganda on-line, avaliada em US$ 26 bilhões.
Sites de relacionamento
Nos primeiros nove meses do ano passado, os gastos com propaganda na internet subiram quase 14%, enquanto a indústria publicitária geral cresceu apenas 6%, segundo dados da PriceWaterhouseCoopers LLP e da Kantar Media, subsidiária da WPP PLC.
O investidor imobiliário londrino Giles Sequeira é uma das pessoas que estão testando esse novo mercado: ele começou recentemente a vender seus dados pessoais. "Não tenho paranoia com privacidade", diz ele. Mas à medida que aprendeu mais sobre o assunto, diz, ficou mais preocupado com a maneira como seus dados estavam sendo usados.
As pessoas "não têm ideia de onde isso vai parar", diz ele.
Assim, em dezembro, Sequeira se tornou um dos primeiros clientes da novata Allow Ltd., sediada em Londres, que se oferece para vender os dados pessoais dos usuários com autorização deles e lhes dá 70% da receita. Sequeira diz que já recebeu um pagamento de 5,56 libras esterlinas (R$ 14,87) por permitir que a Allow informe a uma administradora de cartão de crédito que ele está buscando um novo cartão.
"Eu não emprestaria meu carro a um estranho" de graça, diz Sequeira, "então por que faria isso com meus dados pessoais?"
No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em janeiro, executivos e acadêmicos se reuniram para discutir como tornar dados pessoais uma "classe de ativos", dando às pessoas o direito de solicitar que terceiros os administrem ou os vendam.
"Estamos tentando transferir o foco da pura privacidade para o que chamamos de direitos de propriedade", diz Michele Luzi, diretor da consultoria Bain & Co., que comandou a discussão em Davos.
A Allow, a empresa que pagou Sequeira, é apenas uma entre dezenas de novas firmas que almejam lucrar com o nascente mercado de dados privados. Várias prometem pagar às pessoas uma comissão com a venda de seus dados. Outras oferecem produtos gratuitos que bloqueiam o acompanhamento on-line, na esperança de depois vender aos usuários outros serviços – como endereços de e-mail ou números de telefone descartáveis, que dificultam o monitoramento pessoal. Ainda há as que vendem serviços como o de remoção do seu nome de bancos de dados de marketing.
"Os empreendedores sentem que há uma oportunidade", diz Satya Patel, investidor de capital de risco da Battery Ventures, que liderou um grupo de investidores que aplicou US$ 8 milhões em junho numa empresa iniciante chamada SafetyWeb, que ajuda os pais a monitorar as atividades dos filhos em sites de relacionamento social, e está lançando também um novo serviço de proteção da privacidade para adultos chamado myID.com.
Novas iniciativas
No setor de monitoramento on-line, pouco regulamentado, um grande teste da sobrevivência do novo mercado de dados pessoais é se ele vai conseguir calar o coro crescente de críticos que exigem mais fiscalização governamental. Políticos americanos apresentaram este mês no Congresso dois projetos de lei defendendo a privacidade e, em dezembro, o governo do presidente Barack Obama sugeriu a criação de uma "carta de direitos" de privacidade on-line. A FTC, agência americana de defesa do consumidor, quer criar uma lista de bloqueio do monitoramento inspirada no mesmo mecanismo que já bloqueia chamadas de telemarketing.
O setor está se movimentando em várias frentes para reagir às sugestões de maior regulamentação. A Microsoft apoiou semana passada o sistema de bloqueio do monitoramento. A gigante americana do software também pretende incluir uma ferramenta poderosa de proteção contra o monitoramento na próxima versão de seu navegador da internet, o Internet Explorer 9, revertendo decisão anterior de retirar tal recurso.
A própria indústria de publicidade on-line está lançando novos serviços de proteção da privacidade, na esperança de impedir a regulamentação. A maioria permite que os usuários bloqueiem os anúncios personalizados, embora geralmente não impeçam o monitoramento.
O mercado de privacidade já passou por turbulências antes, durante a bolha das empresas pontocom, em 2000, quando o monitoramento on-line estava nascendo. Na época surgiu uma série de empresas de internet voltadas a proteger as pessoas do monitoramento na internet, mas poucas sobreviveram devido à falta de interesse das pessoas.
Até 2008, era tão difícil vender esse tipo de proteção que o empreendedor Rob Shavell diz que evitava usar a palavra quando tentava atrair investidores para sua empresa, a Abine Inc., que bloqueia o monitoramento on-line. Hoje em dia, diz ele, a Abine voltou a citar "privacidade" e já recebeu mais de 30 demonstrações espontâneas de interesse dos investidores nos últimos seis meses.
Em junho, outra empresa, a TRUSTe, captou US$ 12 milhões de capital de risco para expandir seus serviços de proteção da privacidade na internet. Ao mesmo tempo, a Reputation.com Inc. captou US$ 15 milhões e triplicou seus investimentos em novas iniciativas de privacidade, como um serviço que retira o nome das pessoas de banco de dados on-line e uma ferramenta que permite criptografar atualizações do Facebook.
***
Monitoramento on-line atrai capital de risco
Scott Thurm, do The Wall Street Journal # reproduzido do Valor Econômico, 1/3/2011
Os investidores de capital de risco estão despejando dinheiro em empresas de publicidade e de monitoramento on-line, apesar das preocupações do público com violações da privacidade e possíveis restrições governamentais.
Só nos últimos três meses, as firmas de monitoramento Lotame Solutions Inc. e Media6Degrees Inc., bem como a eXelate Media Ltd., a [x + 1] Inc. e a Turn Inc. receberam novos investimentos de firmas de capital de risco proeminentes. Em vários dias em janeiro a Millenial Media e a Tapjoy Inc., que distribuem propaganda para smartphones, informaram ter captado mais de US$ 20 milhões cada.
"É um mercado gigantesco e está crescendo", diz Chris Fralic, um sócio-gerente da First Round Capital, considerada uma das firmas de capital de risco que mais investiu em monitoramento de pessoas na internet. "Percebemos muita coisa se solidificando nesses espaços."
A First Round, uma empresa fundada há seis anos que investe principalmente em firmas recém-criadas, já aplicou na 33Across Inc., que analisa perfis em redes de relacionamento social, e na Demdex Inc., que se gaba de contar com um "banco de dados comportamentais" de perfis de usuários.
Empresas iniciantes
Desde 2007, as firmas de capital de risco investiram juntas US$ 4,7 bilhões em 356 empresas de publicidade on-line, segundo a Dow Jones VentureSource, uma firma de pesquisa de mercado da News Corp., dona do Wall Street Journal. O total de aplicações como essas aumentou 29% ano passado, para mais de US$ 1,1 bilhão, embora tenham continuado abaixo do recorde de outros anos. Só a First Round já fez 30 investimentos desde 2007, segundo a VentureSource.
O clima para investimento em firmas de propaganda on-line está "superaquecido", diz Terence Kawaja, banqueiro de investimentos da Luma Partners LLC. O diagrama produzido por ele sobre o setor, que classifica cerca de 250 firmas em 23 nichos, se tornou um guia para investidores. É inevitável que o setor passe por uma sacudida, diz Kawaja. "Quando a música para, nem todo mundo tem cadeira."
O entusiasmo dos investidores de capital de risco ocorre ao mesmo tempo em que crescem as preocupações com a privacidade das pessoas e o governo americano adota os primeiros passos para regulamentar a propaganda na internet.
Os capitalistas de risco dizem que não se sentem desmotivados. "Isso não está prejudicando nossa vontade de investir ativamente" na publicidade on-line, diz Randall Glein, diretor-gerente da DFJ Growth Fund, parte da rede de empresas da Draper Fisher Jurvetson. Os fundos da DFJ já realizaram 29 investimentos em empresas iniciantes de propaganda on-line, menos apenas que a First Round, segundo dados da VentureSource.
Os investidores se dizem atraídos pelo mercado de publicidade na internet, calculado em US$ 26 bilhões por ano, e suas perspectivas de crescimento. Os americanos gastam com a internet hoje em dia 28% do tempo dedicado a meios de comunicação, mas a internet recebe apenas 13% dos gastos com publicidade, segundo Mary Meeker, ex-analista do Morgan Stanley que agora é sócia da firma de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers.
Outro fator: as empresas iniciantes de publicidade on-line não demandam muitos recursos, disse Kawaja. "Dá para investir US$ 5 milhões e ver se o negócio funciona", diz ele. "Se ela der certo, [a empresa] pode receber mais recursos."
Fórmulas matemáticas
A maioria das novas empresas que atraem investimentos almeja ligar os operadores de sites a anunciantes que querem faturar com a capacidade da internet de oferecer anúncios personalizados ao usuário. As empresas de publicidade on-line estão concorrendo para encontrar maneiras melhores de identificar usuários de internet com mais probabilidade de reagir a um anúncio.
"Eles estão tentando encontrar fatias cada vez melhores de dados sobre as pessoas", disse Nick Sturiale, sócio da Jafco Ventures, que tem evitado o setor. "Os anunciantes querem comprar pessoas, (...) não páginas [da web]."
Isso impulsionou uma disputa ferrenha entre as empresas iniciantes por matemáticos que saibam organizar os dados sobre o comportamento on-line das pessoas e usar isso para gerar mais receita. Alguns desses matemáticos trocaram Wall Street pelo mundo da propaganda.
Ari Buchalter, diretor operacional da firma de propaganda digital MediaMath Inc., tem doutorado em astrofísica e já comandou um fundo de hedge que baseava suas aplicações em fórmulas matemáticas. O diretor-presidente da empresa, Joe Zawadzki, já foi banqueiro de investimentos.
Respeito à própria intimidade
Por Roberto Soares Garcia em 1/3/2011
Reproduzido da seção "Tendências/Debates" da Folha de S.Paulo, 27/2/2011; intertítulo do OI
A falta de recato com a própria intimidade, revelada sem pejo em algumas páginas da internet, nas telas do Big Brother e nas traseiras de automóveis, onde se veem grudadas figurinhas representativas da composição da família proprietária, constitui, em um primeiro olhar, exercício de direito à auto-exposição. Pondero, para a reflexão do leitor, que o abuso desse direito à imagem escancarada poderá levar à supressão do direito fundamental à privacidade, abrindo espaço para a ditadura do monitoramento oficial ilimitado. A perda de espaço destinado à intimidade, como se lembram os que leram 1984, é característica de regimes autoritários.
Sociedades democráticas prezam os direitos de minorias, em especial o direito da menor minoria possível, que é o indivíduo. Não foi por acaso que, pós-ditadura, a Constituição destinou seu dispositivo mais extenso à tutela de direitos individuais: o artigo 5º tem 78 incisos e diz, ao fim, que o rol não é exaustivo, o que confere a todos nós proteção contra o Estado, que não pode atentar contra a intimidade do cidadão, bisbilhotando, sem autorização judicial, sua movimentação bancária ou suas comunicações telefônicas; se o fizer, o indivíduo pode recorrer ao Judiciário para resguardar seus direitos.
O descuido poderá ser fatal
É, contudo, no exagerado exercício individual do direito de abrir mão da privacidade que mora o problema. Se considero normal informar ao estranho que vai à traseira do meu carro que somos cinco em casa, como poderei exigir da loja da esquina a manutenção em segredo do cadastro que lá preenchi? Por que o fiscal do Imposto de Renda deveria se privar de vasculhar minha conta corrente se tuíto a todos os que me "seguem" o quanto gastei no final de ano em determinado shopping? Como sustentar que a polícia não pode ouvir minhas conversas telefônicas se divulgo detalhadamente todos os meus pecados, fotografados ou filmados, no Orkut?
Em resumo: se não velo pelo que me é próprio, pela minha intimidade, por que o Estado estaria obrigado a velar? A resposta, por ora, está na vigência da lei, que me autoriza a divulgar meus segredos e veda ao Estado acesso indiscriminado à minha intimidade. Mas a legitimidade da lei está no eco que seus comandos encontram na sociedade. Se a norma visa proteger o que o indivíduo não se importa mais em perder, a vida da tutela ao direito será curta. Ao abrir reiteradamente mão do resguardo da intimidade como vetor de vida, o cidadão, sem perceber, leva a sociedade para um modelo autoritário, em que o indivíduo e a privacidade não importam.
Já que, por definição, se descartam intervenções que substituam o próprio cidadão nas decisões sobre sua intimidade, a solução está no alerta para que, em nossas condutas, cada um preze um pouco mais por sua privacidade. Esse cuidado responsável e voluntário não trará prejuízo. Já o descuido poderá ser fatal até para a democracia!
Reproduzido do Valor Econômico, 1/3/2011; título original “Privacidade torna-se uma nova mercadoria da internet”, intertítulos do OI
À medida que o monitoramento secreto de usuários da internet se torna mais agressivo e abrangente, pequenas empresas iniciantes e gigantes da tecnologia começaram a oferecer um novo produto: privacidade.
Companhias como a Microsoft Corp., a McAfee Inc. – e até mesmo algumas das próprias empresas de monitoramento – passaram a oferecer novas maneiras de proteger as pessoas da bisbilhotagem on-line. Algumas estão até indo além e começando a pagar às pessoas uma comissão toda vez que seus detalhes pessoais são usados por empresas de marketing.
"Os dados se tornaram um novo tipo de moeda", diz Shane Green, diretor-presidente da empresa iniciante Personal Inc., sediada em Washington, que captou recentemente US$ 7,6 milhões para criar uma firma voltada a ajudar as pessoas a lucrar com o fornecimento de seus dados pessoais para anunciantes on-line.
A série de reportagens do Wall Street Journal chamada "O que eles sabem", sobre o monitoramento na internet, expôs uma rede em rápido crescimento de centenas de empresas que coletam dados altamente pessoais sobre as pessoas na internet – suas atividades on-line, opiniões políticas, preocupações com a saúde, hábitos de compras, situação financeira e, em alguns caos, até seus nomes – para alimentar a indústria americana de propaganda on-line, avaliada em US$ 26 bilhões.
Sites de relacionamento
Nos primeiros nove meses do ano passado, os gastos com propaganda na internet subiram quase 14%, enquanto a indústria publicitária geral cresceu apenas 6%, segundo dados da PriceWaterhouseCoopers LLP e da Kantar Media, subsidiária da WPP PLC.
O investidor imobiliário londrino Giles Sequeira é uma das pessoas que estão testando esse novo mercado: ele começou recentemente a vender seus dados pessoais. "Não tenho paranoia com privacidade", diz ele. Mas à medida que aprendeu mais sobre o assunto, diz, ficou mais preocupado com a maneira como seus dados estavam sendo usados.
As pessoas "não têm ideia de onde isso vai parar", diz ele.
Assim, em dezembro, Sequeira se tornou um dos primeiros clientes da novata Allow Ltd., sediada em Londres, que se oferece para vender os dados pessoais dos usuários com autorização deles e lhes dá 70% da receita. Sequeira diz que já recebeu um pagamento de 5,56 libras esterlinas (R$ 14,87) por permitir que a Allow informe a uma administradora de cartão de crédito que ele está buscando um novo cartão.
"Eu não emprestaria meu carro a um estranho" de graça, diz Sequeira, "então por que faria isso com meus dados pessoais?"
No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em janeiro, executivos e acadêmicos se reuniram para discutir como tornar dados pessoais uma "classe de ativos", dando às pessoas o direito de solicitar que terceiros os administrem ou os vendam.
"Estamos tentando transferir o foco da pura privacidade para o que chamamos de direitos de propriedade", diz Michele Luzi, diretor da consultoria Bain & Co., que comandou a discussão em Davos.
A Allow, a empresa que pagou Sequeira, é apenas uma entre dezenas de novas firmas que almejam lucrar com o nascente mercado de dados privados. Várias prometem pagar às pessoas uma comissão com a venda de seus dados. Outras oferecem produtos gratuitos que bloqueiam o acompanhamento on-line, na esperança de depois vender aos usuários outros serviços – como endereços de e-mail ou números de telefone descartáveis, que dificultam o monitoramento pessoal. Ainda há as que vendem serviços como o de remoção do seu nome de bancos de dados de marketing.
"Os empreendedores sentem que há uma oportunidade", diz Satya Patel, investidor de capital de risco da Battery Ventures, que liderou um grupo de investidores que aplicou US$ 8 milhões em junho numa empresa iniciante chamada SafetyWeb, que ajuda os pais a monitorar as atividades dos filhos em sites de relacionamento social, e está lançando também um novo serviço de proteção da privacidade para adultos chamado myID.com.
Novas iniciativas
No setor de monitoramento on-line, pouco regulamentado, um grande teste da sobrevivência do novo mercado de dados pessoais é se ele vai conseguir calar o coro crescente de críticos que exigem mais fiscalização governamental. Políticos americanos apresentaram este mês no Congresso dois projetos de lei defendendo a privacidade e, em dezembro, o governo do presidente Barack Obama sugeriu a criação de uma "carta de direitos" de privacidade on-line. A FTC, agência americana de defesa do consumidor, quer criar uma lista de bloqueio do monitoramento inspirada no mesmo mecanismo que já bloqueia chamadas de telemarketing.
O setor está se movimentando em várias frentes para reagir às sugestões de maior regulamentação. A Microsoft apoiou semana passada o sistema de bloqueio do monitoramento. A gigante americana do software também pretende incluir uma ferramenta poderosa de proteção contra o monitoramento na próxima versão de seu navegador da internet, o Internet Explorer 9, revertendo decisão anterior de retirar tal recurso.
A própria indústria de publicidade on-line está lançando novos serviços de proteção da privacidade, na esperança de impedir a regulamentação. A maioria permite que os usuários bloqueiem os anúncios personalizados, embora geralmente não impeçam o monitoramento.
O mercado de privacidade já passou por turbulências antes, durante a bolha das empresas pontocom, em 2000, quando o monitoramento on-line estava nascendo. Na época surgiu uma série de empresas de internet voltadas a proteger as pessoas do monitoramento na internet, mas poucas sobreviveram devido à falta de interesse das pessoas.
Até 2008, era tão difícil vender esse tipo de proteção que o empreendedor Rob Shavell diz que evitava usar a palavra quando tentava atrair investidores para sua empresa, a Abine Inc., que bloqueia o monitoramento on-line. Hoje em dia, diz ele, a Abine voltou a citar "privacidade" e já recebeu mais de 30 demonstrações espontâneas de interesse dos investidores nos últimos seis meses.
Em junho, outra empresa, a TRUSTe, captou US$ 12 milhões de capital de risco para expandir seus serviços de proteção da privacidade na internet. Ao mesmo tempo, a Reputation.com Inc. captou US$ 15 milhões e triplicou seus investimentos em novas iniciativas de privacidade, como um serviço que retira o nome das pessoas de banco de dados on-line e uma ferramenta que permite criptografar atualizações do Facebook.
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Monitoramento on-line atrai capital de risco
Scott Thurm, do The Wall Street Journal # reproduzido do Valor Econômico, 1/3/2011
Os investidores de capital de risco estão despejando dinheiro em empresas de publicidade e de monitoramento on-line, apesar das preocupações do público com violações da privacidade e possíveis restrições governamentais.
Só nos últimos três meses, as firmas de monitoramento Lotame Solutions Inc. e Media6Degrees Inc., bem como a eXelate Media Ltd., a [x + 1] Inc. e a Turn Inc. receberam novos investimentos de firmas de capital de risco proeminentes. Em vários dias em janeiro a Millenial Media e a Tapjoy Inc., que distribuem propaganda para smartphones, informaram ter captado mais de US$ 20 milhões cada.
"É um mercado gigantesco e está crescendo", diz Chris Fralic, um sócio-gerente da First Round Capital, considerada uma das firmas de capital de risco que mais investiu em monitoramento de pessoas na internet. "Percebemos muita coisa se solidificando nesses espaços."
A First Round, uma empresa fundada há seis anos que investe principalmente em firmas recém-criadas, já aplicou na 33Across Inc., que analisa perfis em redes de relacionamento social, e na Demdex Inc., que se gaba de contar com um "banco de dados comportamentais" de perfis de usuários.
Empresas iniciantes
Desde 2007, as firmas de capital de risco investiram juntas US$ 4,7 bilhões em 356 empresas de publicidade on-line, segundo a Dow Jones VentureSource, uma firma de pesquisa de mercado da News Corp., dona do Wall Street Journal. O total de aplicações como essas aumentou 29% ano passado, para mais de US$ 1,1 bilhão, embora tenham continuado abaixo do recorde de outros anos. Só a First Round já fez 30 investimentos desde 2007, segundo a VentureSource.
O clima para investimento em firmas de propaganda on-line está "superaquecido", diz Terence Kawaja, banqueiro de investimentos da Luma Partners LLC. O diagrama produzido por ele sobre o setor, que classifica cerca de 250 firmas em 23 nichos, se tornou um guia para investidores. É inevitável que o setor passe por uma sacudida, diz Kawaja. "Quando a música para, nem todo mundo tem cadeira."
O entusiasmo dos investidores de capital de risco ocorre ao mesmo tempo em que crescem as preocupações com a privacidade das pessoas e o governo americano adota os primeiros passos para regulamentar a propaganda na internet.
Os capitalistas de risco dizem que não se sentem desmotivados. "Isso não está prejudicando nossa vontade de investir ativamente" na publicidade on-line, diz Randall Glein, diretor-gerente da DFJ Growth Fund, parte da rede de empresas da Draper Fisher Jurvetson. Os fundos da DFJ já realizaram 29 investimentos em empresas iniciantes de propaganda on-line, menos apenas que a First Round, segundo dados da VentureSource.
Os investidores se dizem atraídos pelo mercado de publicidade na internet, calculado em US$ 26 bilhões por ano, e suas perspectivas de crescimento. Os americanos gastam com a internet hoje em dia 28% do tempo dedicado a meios de comunicação, mas a internet recebe apenas 13% dos gastos com publicidade, segundo Mary Meeker, ex-analista do Morgan Stanley que agora é sócia da firma de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers.
Outro fator: as empresas iniciantes de publicidade on-line não demandam muitos recursos, disse Kawaja. "Dá para investir US$ 5 milhões e ver se o negócio funciona", diz ele. "Se ela der certo, [a empresa] pode receber mais recursos."
Fórmulas matemáticas
A maioria das novas empresas que atraem investimentos almeja ligar os operadores de sites a anunciantes que querem faturar com a capacidade da internet de oferecer anúncios personalizados ao usuário. As empresas de publicidade on-line estão concorrendo para encontrar maneiras melhores de identificar usuários de internet com mais probabilidade de reagir a um anúncio.
"Eles estão tentando encontrar fatias cada vez melhores de dados sobre as pessoas", disse Nick Sturiale, sócio da Jafco Ventures, que tem evitado o setor. "Os anunciantes querem comprar pessoas, (...) não páginas [da web]."
Isso impulsionou uma disputa ferrenha entre as empresas iniciantes por matemáticos que saibam organizar os dados sobre o comportamento on-line das pessoas e usar isso para gerar mais receita. Alguns desses matemáticos trocaram Wall Street pelo mundo da propaganda.
Ari Buchalter, diretor operacional da firma de propaganda digital MediaMath Inc., tem doutorado em astrofísica e já comandou um fundo de hedge que baseava suas aplicações em fórmulas matemáticas. O diretor-presidente da empresa, Joe Zawadzki, já foi banqueiro de investimentos.
Respeito à própria intimidade
Por Roberto Soares Garcia em 1/3/2011
Reproduzido da seção "Tendências/Debates" da Folha de S.Paulo, 27/2/2011; intertítulo do OI
A falta de recato com a própria intimidade, revelada sem pejo em algumas páginas da internet, nas telas do Big Brother e nas traseiras de automóveis, onde se veem grudadas figurinhas representativas da composição da família proprietária, constitui, em um primeiro olhar, exercício de direito à auto-exposição. Pondero, para a reflexão do leitor, que o abuso desse direito à imagem escancarada poderá levar à supressão do direito fundamental à privacidade, abrindo espaço para a ditadura do monitoramento oficial ilimitado. A perda de espaço destinado à intimidade, como se lembram os que leram 1984, é característica de regimes autoritários.
Sociedades democráticas prezam os direitos de minorias, em especial o direito da menor minoria possível, que é o indivíduo. Não foi por acaso que, pós-ditadura, a Constituição destinou seu dispositivo mais extenso à tutela de direitos individuais: o artigo 5º tem 78 incisos e diz, ao fim, que o rol não é exaustivo, o que confere a todos nós proteção contra o Estado, que não pode atentar contra a intimidade do cidadão, bisbilhotando, sem autorização judicial, sua movimentação bancária ou suas comunicações telefônicas; se o fizer, o indivíduo pode recorrer ao Judiciário para resguardar seus direitos.
O descuido poderá ser fatal
É, contudo, no exagerado exercício individual do direito de abrir mão da privacidade que mora o problema. Se considero normal informar ao estranho que vai à traseira do meu carro que somos cinco em casa, como poderei exigir da loja da esquina a manutenção em segredo do cadastro que lá preenchi? Por que o fiscal do Imposto de Renda deveria se privar de vasculhar minha conta corrente se tuíto a todos os que me "seguem" o quanto gastei no final de ano em determinado shopping? Como sustentar que a polícia não pode ouvir minhas conversas telefônicas se divulgo detalhadamente todos os meus pecados, fotografados ou filmados, no Orkut?
Em resumo: se não velo pelo que me é próprio, pela minha intimidade, por que o Estado estaria obrigado a velar? A resposta, por ora, está na vigência da lei, que me autoriza a divulgar meus segredos e veda ao Estado acesso indiscriminado à minha intimidade. Mas a legitimidade da lei está no eco que seus comandos encontram na sociedade. Se a norma visa proteger o que o indivíduo não se importa mais em perder, a vida da tutela ao direito será curta. Ao abrir reiteradamente mão do resguardo da intimidade como vetor de vida, o cidadão, sem perceber, leva a sociedade para um modelo autoritário, em que o indivíduo e a privacidade não importam.
Já que, por definição, se descartam intervenções que substituam o próprio cidadão nas decisões sobre sua intimidade, a solução está no alerta para que, em nossas condutas, cada um preze um pouco mais por sua privacidade. Esse cuidado responsável e voluntário não trará prejuízo. Já o descuido poderá ser fatal até para a democracia!
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sábado, 26 de fevereiro de 2011
mídia,tv e poder - Paulo Bernardo defende novo modelo de fiscalização para rádios e TVs
Jacson Segundo - Observatório do Direito à Comunicação
22.02.2011
Em entrevista ao programa É Notícia, da Rede TV!, transmitido na madrugada de segunda-feira (21), o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, deu mais algumas informações sobre o conteúdo do projeto de revisão do marco regulatório que está sendo preparado pelo governo. Uma delas é diz respeito à mudança na fiscalização dos meios de comunicação que está sendo planejada.
O ministro voltou a defender que acredita ser importante que existam duas agências de regulação no setor. Uma para os serviços de telecomunicações e outra para a regulação de rádios e TVs, incluindo seus conteúdos. A primeira continuaria sendo a Anatel e a segunda, uma nova. Essa poderia ser criada a partir da Agência Nacional de Cinema (Ancine), hoje vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), que continuaria existindo, mas cumprindo a função de fomento à produção de audiovisual apenas.
A nova agência fiscalizaria se as emissoras estão cumprindo os preceitos constitucionais em relação aos conteúdos. Coibiria, por exemplo, divulgação de conteúdos racistas e outras violações de direitos humanos previstas em lei. Além disso, verificaria o cumprimento de limite de publicidade nas televisões (25%) e de programas jornalísticos (5%), entre outras possíveis funções.
Modelo
Mas quem nesta agência faria a avaliação dos conteúdos? Para Paulo Bernardo, isso seria feito por um conselho indicado pelo Governo Federal e pelo Congresso. “O melhor critério é o que existe hoje. O presidente indica um conselheiro que é aprovado pelo Senado. Não vão ser os jornais que vão escolher os conselheiros evidentemente”, afirmou o ministro.
Este modelo defendido pelo ministro é o que existe na Anatel. Seu Conselho Diretor é composto por cinco membros indicados pelo presidente, após aprovação do Senado. Eles têm mandato de cinco anos, com vencimento sequencial. Substitui-se um conselheiro por ano. O presidente do Conselho é o presidente da Agência, função atualmente ocupada pelo embaixador Ronaldo Sardenberg.
O ministro chegou a exemplificar como seria a aplicação de penalidade em caso de abusos de um concessionário de TV. “Você vai receber uma multa, a televisão provavelmente vai ter que colocar uma tarja dizendo que aquilo foi considerado inadequado”, explicou.
Sociedade civil
Na visão de Paulo Bernardo, esse conselho da nova agência não seria ocupado por representantes da sociedade civil (empresários ou não). “A agência tem que ter estabilidade, desvinculação de interesses econômicos, político-partidários. Se a presidente não tem legitimidade pra indicar (os conselheiros), quem tem?”, opinou. No entanto, ele também não descartou que os conselheiros sejam eleitos. “Se alguém propuser outra forma, pode ser”, relevou.
Mesmo sem definições sobre a questão, Paulo Bernardo foi enfático em afirmar a importância de uma regulação externa nos meios de radiodifusão. “Se o setor de mídia quisesse, poderia ter feito uma autoregulação. Só que nunca fez”, criticou ele, defendendo também que a ação do Ministério Público não tem sido suficiente para coibir os desvios de conduta dos concessionários de rádio e TV.
22.02.2011
Em entrevista ao programa É Notícia, da Rede TV!, transmitido na madrugada de segunda-feira (21), o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, deu mais algumas informações sobre o conteúdo do projeto de revisão do marco regulatório que está sendo preparado pelo governo. Uma delas é diz respeito à mudança na fiscalização dos meios de comunicação que está sendo planejada.
O ministro voltou a defender que acredita ser importante que existam duas agências de regulação no setor. Uma para os serviços de telecomunicações e outra para a regulação de rádios e TVs, incluindo seus conteúdos. A primeira continuaria sendo a Anatel e a segunda, uma nova. Essa poderia ser criada a partir da Agência Nacional de Cinema (Ancine), hoje vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), que continuaria existindo, mas cumprindo a função de fomento à produção de audiovisual apenas.
A nova agência fiscalizaria se as emissoras estão cumprindo os preceitos constitucionais em relação aos conteúdos. Coibiria, por exemplo, divulgação de conteúdos racistas e outras violações de direitos humanos previstas em lei. Além disso, verificaria o cumprimento de limite de publicidade nas televisões (25%) e de programas jornalísticos (5%), entre outras possíveis funções.
Modelo
Mas quem nesta agência faria a avaliação dos conteúdos? Para Paulo Bernardo, isso seria feito por um conselho indicado pelo Governo Federal e pelo Congresso. “O melhor critério é o que existe hoje. O presidente indica um conselheiro que é aprovado pelo Senado. Não vão ser os jornais que vão escolher os conselheiros evidentemente”, afirmou o ministro.
Este modelo defendido pelo ministro é o que existe na Anatel. Seu Conselho Diretor é composto por cinco membros indicados pelo presidente, após aprovação do Senado. Eles têm mandato de cinco anos, com vencimento sequencial. Substitui-se um conselheiro por ano. O presidente do Conselho é o presidente da Agência, função atualmente ocupada pelo embaixador Ronaldo Sardenberg.
O ministro chegou a exemplificar como seria a aplicação de penalidade em caso de abusos de um concessionário de TV. “Você vai receber uma multa, a televisão provavelmente vai ter que colocar uma tarja dizendo que aquilo foi considerado inadequado”, explicou.
Sociedade civil
Na visão de Paulo Bernardo, esse conselho da nova agência não seria ocupado por representantes da sociedade civil (empresários ou não). “A agência tem que ter estabilidade, desvinculação de interesses econômicos, político-partidários. Se a presidente não tem legitimidade pra indicar (os conselheiros), quem tem?”, opinou. No entanto, ele também não descartou que os conselheiros sejam eleitos. “Se alguém propuser outra forma, pode ser”, relevou.
Mesmo sem definições sobre a questão, Paulo Bernardo foi enfático em afirmar a importância de uma regulação externa nos meios de radiodifusão. “Se o setor de mídia quisesse, poderia ter feito uma autoregulação. Só que nunca fez”, criticou ele, defendendo também que a ação do Ministério Público não tem sido suficiente para coibir os desvios de conduta dos concessionários de rádio e TV.
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
futebol - midia tv e poder - escrevinhador- O Clube dos Treze, o “moleque” espertalhão e o exemplo argentino
publicada quarta-feira, 23/02/2011 às 20:06 e atualizada quarta-feira, 23/02/2011 às 20:06
por Rodrigo Vianna
Acabo de voltar da Argentina. Passei dias agradáveis em Buenos Aires. Sábado, fim da tarde. Depois de uma longa jornada de caminhadas por Palermo e Barrio Norte, parei com minha mulher num café. Na tela: Newell´s x Lanús. Só o garçon e eu parecíamos interessados na partida. O time de Rosário faturou, com um gol no finzinho: 2 a 1.
Cheguei ao hotel às 10 da noite, e liguei a TV. Já havia outro jogo, ao vivo, na tela: Racing versus Boca. Jogaço. O Racing (time pelo qual tenho simpatia, sabe-se lá porque – era o time do coração de Kirchner, e ele morreu do coração…) jogava melhor. Mas o Boca fez um a zero no contra-ataque, e segurou o resultado.
Acompanhei só o primeiro tempo (até porque me esperava um belo bife de chorizo com purê de papas). No intervalo, entrou propaganda institucional do governo argentino: “obras na província de Chubut”. Anúncio curto. Fiquei esperando a propaganda privada. E nada. O sinal voltou ao estádio para os comentários e melhores momentos (os locutores argentinos são impagáveis, com aqueles ternos anos 70, com um lencinho pendurado do bolso). Novo intervalo: de novo, anúncio institucional do governo… E só então lembrei: na Argentina, os direitos de transmissão do futebol foram comprados pela TV pública!!! Mais um capítulo da briga entre Cristina Kirchner e as TVs privadas.
Nesse caso, parece que o público saiu em vantagem. Há jogos em horários variados: sábado à tarde, à noite. Domingo à tarde e à noite. Tudo pela TV aberta. Dizem-me que, antes do Estado entrar na parada, os jogos passavam só pela TV a cabo (agradeço se alguém trouxer informações mais detalhadas sobre isso…) Não sei se os horários já eram assim quando a transmissão estava nas mãos das TVs particulares. Não vou mais longe nos comentários, porque não conheço os detalhes das negociações na Argentina.
Mas claro que lembrei disso tudo quando voltei a São Paulo e dei de cara com essa barafunda no Clube dos 13.
O Corinthians, meu time do coração, acaba de se desfiliar do Clube dos 13. Andres Sanchez, com aquela cara de espertalhão mexicano de filme “B”, foi chamado de “moleque” e “advogado da Globo” pela direção do Clube dos 13.
Pra quem não acompanha a confusão: pela primeira vez, a Globo corria o risco de perder a transmissão do futebol. É que, até hoje, a Globo sempre teve direito de “cobrir” a proposta apresentada por qualquer concorrente. Dessa vez, seria diferente: envelopes fechados seriam apresentados com as propostas. Para transmitir jogos na TV aberta, o lance mínimo seria 500 milhões de reais. Direitos da TV fechada, internet e pay-per-view (quando o telespectador paga pra ter direito a transmissão de jogos específicos): tudo isso seria negociado à parte.
A Globo corria risco sério. Alguns clubes alegavam que, mesmo com valor um pouco menor, valeria a pena aceitar a proposta da Globo, por causa do “tradição” da emissora, da “capilaridade da rede” (a Globo, de fato, tem uma rede bem montada e estruturada em todo o país). O Clube dos Treze, então, estabeleceu uma cláusula razoável: para vencer a Globo, os concorrentes teriam que oferecer ao menos 10% mais do que a emissora da família Marinho. Mas as ofertas seriam feitas no escuro, sem privilégios.
Se a Record oferecesse 650 milhões de reais e a Globo 600 milhões, a transmissão ficaria com a Globo. Mas se a Record oferecesse 800 milhões e a Globo 600 milhões de reais, aí a emissora de Edir Macedo ganharia a disputa.
A situação não era confortável para a TV Globo. Teria que jogar, e tentar ganhar “na bola”. Sem ajuda do juiz. O que fez o Andrez Sanches? Tirou o time de campo. Agiu sozinho? Não. Com ele estariam saindo do Clube dos 13 Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. Grêmio também poderia seguir esse caminho.
Ou seja: o Clube dos 13 (que, apesar do nome, representa duas dezenas de clubes) está em decomposição. E ele é que tem o direito de negociar as transmissões em nome dos clubes.
A barafunda está criada! Os cinco ou seis dissidentes vão negociar à parte com a Globo? E se os outros fecharem com a Record?
Como disse um jornalista amigo meu: aos 44 do segundo tempo, o jogo estava zero a zero. Pênalti pra Record. Aí alguém apaga a luz do estádio. “Alguém”! Quem seria? Andres apagou a luz sozinho?
Os espertalhões mexicanos normalmente atuam em parceria com um sócio rico do outro lado da fronteira.
Andres conseguiu (será?) o estádio para o Corinthians. A CBF (que é parceira da Globo, e não se dá tão bem com a atual dioreção don Clube dos 13) tirou o Morumbi da Copa. Retaliação contra o São Paulo F. C. O time do Morumbi não aceita cartas marcadas na negociação. Queria entregar os direitos a quem pagasse mais. Seria a decisão “capitalista”.
Mas o Brasil é terra de “capitalistas de araque”. Capitalismo sem concorrência.
A Globo perdeu o direito às Olimpíadas porque lá vale o óbvio: quem paga mais leva. No futebol brasileiro, valem os arranjos dos poderosos de outros tempos com os espertalhões fajutos.
O futebol é algo tão sério para o brasileiro que o governo federal deveria intervir nessa história. Intervir, não: “arbitrar”. Já que a concorrência não vale, deixemos o Estado cuidar disso.
Não digo que precisemos imitar a Argentina, com jogos transmitidos pela TV pública. Mas que tal a TV pública brasileira entrar na disputa, montar um pacote razoável de horários, e depois vender cada horário para uma emissora privada?
Seria o fim do monopólio. E o fim dos espertalhões.
Mas quem acredita nisso…
O mais provável é que se estabeleça a confusão. Isso a 3 anos da Copa.
==
P.S.:
- aqui um link com mais informações sobre o esquema de transmissão na Argentina.
-e aqui um trecho esclarecedor do mesmo text, publicado no site “Futebol Portenho”
Até meados de 2009 o grupo Clarín, em parceria com a TyC Sports detinham o monopólio do campeonato nacional. O canal TSC possuía exclusividade, obrigando os hinchas a pagarem duplamente para ver futebol nacional (pelo pacote de TV a cabo, e pelo canal). Mesmo assim não havia garantia de ver o jogo do seu time, já que nem todos os jogos eram transmitidos.
E havia mais. Além das partidas, ver os gols também não era tarefa simples. Os detentores dos direitos só liberavam os veículos para mostrarem qualquer imagem das partidas após a exibição do programa “Futbol de Primera”, no canal 13 (do grupo Clarín). Como o programa só passava nas noites de domingo, era só aí que os gols eram vistos pelos que não pagavam duplamente (eram apenas 800 mil assinantes, em um país de 40 milhões de habitantes).
por Rodrigo Vianna
Acabo de voltar da Argentina. Passei dias agradáveis em Buenos Aires. Sábado, fim da tarde. Depois de uma longa jornada de caminhadas por Palermo e Barrio Norte, parei com minha mulher num café. Na tela: Newell´s x Lanús. Só o garçon e eu parecíamos interessados na partida. O time de Rosário faturou, com um gol no finzinho: 2 a 1.
Cheguei ao hotel às 10 da noite, e liguei a TV. Já havia outro jogo, ao vivo, na tela: Racing versus Boca. Jogaço. O Racing (time pelo qual tenho simpatia, sabe-se lá porque – era o time do coração de Kirchner, e ele morreu do coração…) jogava melhor. Mas o Boca fez um a zero no contra-ataque, e segurou o resultado.
Acompanhei só o primeiro tempo (até porque me esperava um belo bife de chorizo com purê de papas). No intervalo, entrou propaganda institucional do governo argentino: “obras na província de Chubut”. Anúncio curto. Fiquei esperando a propaganda privada. E nada. O sinal voltou ao estádio para os comentários e melhores momentos (os locutores argentinos são impagáveis, com aqueles ternos anos 70, com um lencinho pendurado do bolso). Novo intervalo: de novo, anúncio institucional do governo… E só então lembrei: na Argentina, os direitos de transmissão do futebol foram comprados pela TV pública!!! Mais um capítulo da briga entre Cristina Kirchner e as TVs privadas.
Nesse caso, parece que o público saiu em vantagem. Há jogos em horários variados: sábado à tarde, à noite. Domingo à tarde e à noite. Tudo pela TV aberta. Dizem-me que, antes do Estado entrar na parada, os jogos passavam só pela TV a cabo (agradeço se alguém trouxer informações mais detalhadas sobre isso…) Não sei se os horários já eram assim quando a transmissão estava nas mãos das TVs particulares. Não vou mais longe nos comentários, porque não conheço os detalhes das negociações na Argentina.
Mas claro que lembrei disso tudo quando voltei a São Paulo e dei de cara com essa barafunda no Clube dos 13.
O Corinthians, meu time do coração, acaba de se desfiliar do Clube dos 13. Andres Sanchez, com aquela cara de espertalhão mexicano de filme “B”, foi chamado de “moleque” e “advogado da Globo” pela direção do Clube dos 13.
Pra quem não acompanha a confusão: pela primeira vez, a Globo corria o risco de perder a transmissão do futebol. É que, até hoje, a Globo sempre teve direito de “cobrir” a proposta apresentada por qualquer concorrente. Dessa vez, seria diferente: envelopes fechados seriam apresentados com as propostas. Para transmitir jogos na TV aberta, o lance mínimo seria 500 milhões de reais. Direitos da TV fechada, internet e pay-per-view (quando o telespectador paga pra ter direito a transmissão de jogos específicos): tudo isso seria negociado à parte.
A Globo corria risco sério. Alguns clubes alegavam que, mesmo com valor um pouco menor, valeria a pena aceitar a proposta da Globo, por causa do “tradição” da emissora, da “capilaridade da rede” (a Globo, de fato, tem uma rede bem montada e estruturada em todo o país). O Clube dos Treze, então, estabeleceu uma cláusula razoável: para vencer a Globo, os concorrentes teriam que oferecer ao menos 10% mais do que a emissora da família Marinho. Mas as ofertas seriam feitas no escuro, sem privilégios.
Se a Record oferecesse 650 milhões de reais e a Globo 600 milhões, a transmissão ficaria com a Globo. Mas se a Record oferecesse 800 milhões e a Globo 600 milhões de reais, aí a emissora de Edir Macedo ganharia a disputa.
A situação não era confortável para a TV Globo. Teria que jogar, e tentar ganhar “na bola”. Sem ajuda do juiz. O que fez o Andrez Sanches? Tirou o time de campo. Agiu sozinho? Não. Com ele estariam saindo do Clube dos 13 Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. Grêmio também poderia seguir esse caminho.
Ou seja: o Clube dos 13 (que, apesar do nome, representa duas dezenas de clubes) está em decomposição. E ele é que tem o direito de negociar as transmissões em nome dos clubes.
A barafunda está criada! Os cinco ou seis dissidentes vão negociar à parte com a Globo? E se os outros fecharem com a Record?
Como disse um jornalista amigo meu: aos 44 do segundo tempo, o jogo estava zero a zero. Pênalti pra Record. Aí alguém apaga a luz do estádio. “Alguém”! Quem seria? Andres apagou a luz sozinho?
Os espertalhões mexicanos normalmente atuam em parceria com um sócio rico do outro lado da fronteira.
Andres conseguiu (será?) o estádio para o Corinthians. A CBF (que é parceira da Globo, e não se dá tão bem com a atual dioreção don Clube dos 13) tirou o Morumbi da Copa. Retaliação contra o São Paulo F. C. O time do Morumbi não aceita cartas marcadas na negociação. Queria entregar os direitos a quem pagasse mais. Seria a decisão “capitalista”.
Mas o Brasil é terra de “capitalistas de araque”. Capitalismo sem concorrência.
A Globo perdeu o direito às Olimpíadas porque lá vale o óbvio: quem paga mais leva. No futebol brasileiro, valem os arranjos dos poderosos de outros tempos com os espertalhões fajutos.
O futebol é algo tão sério para o brasileiro que o governo federal deveria intervir nessa história. Intervir, não: “arbitrar”. Já que a concorrência não vale, deixemos o Estado cuidar disso.
Não digo que precisemos imitar a Argentina, com jogos transmitidos pela TV pública. Mas que tal a TV pública brasileira entrar na disputa, montar um pacote razoável de horários, e depois vender cada horário para uma emissora privada?
Seria o fim do monopólio. E o fim dos espertalhões.
Mas quem acredita nisso…
O mais provável é que se estabeleça a confusão. Isso a 3 anos da Copa.
==
P.S.:
- aqui um link com mais informações sobre o esquema de transmissão na Argentina.
-e aqui um trecho esclarecedor do mesmo text, publicado no site “Futebol Portenho”
Até meados de 2009 o grupo Clarín, em parceria com a TyC Sports detinham o monopólio do campeonato nacional. O canal TSC possuía exclusividade, obrigando os hinchas a pagarem duplamente para ver futebol nacional (pelo pacote de TV a cabo, e pelo canal). Mesmo assim não havia garantia de ver o jogo do seu time, já que nem todos os jogos eram transmitidos.
E havia mais. Além das partidas, ver os gols também não era tarefa simples. Os detentores dos direitos só liberavam os veículos para mostrarem qualquer imagem das partidas após a exibição do programa “Futbol de Primera”, no canal 13 (do grupo Clarín). Como o programa só passava nas noites de domingo, era só aí que os gols eram vistos pelos que não pagavam duplamente (eram apenas 800 mil assinantes, em um país de 40 milhões de habitantes).
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