Enviado por luisnassif, seg, 09/05/2011 - 08:00
Coluna Econômica
Na sexta-feira passada participei da sessão de encerramento do IV Congresso Latino Americano de Opinião Pública da Wapor, um encontro que reuniu especialistas em pesquisas de opinião do continente, tanto da área acadêmica quanto dos institutos de pesquisa.
As novas mídias entraram definitivamente na agenda do setor, por sua capacidade de interferir em eleições. Esse processo ficou claro nas eleições de Obama. De seu lado, foi auxiliado por uma multidão de blogueiros e voluntários. Na outra ponta, alvo de uma campanha de baixíssimo nível, valendo-se de redes sociais e blogs, apontando-o como terrorista, muçulmano etc.
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Alguns pensadores defendem a tese de que a blogosfera é por demais caótica para conseguir interferir no jogo político. Em geral se aferram a um retrato atual do setor, incapazes de entender o processo futuro.
A blogosfera é como uma imensa assembleia pública dos primórdios da democracia grega, uma imensa sala onde todos se manifestam.
Desde o advento da indústria da comunicação, o jogo da opinião pública ficou restrita à opinião que passava pelos grandes jornais centrais de cada país. Ficavam de fora desse jogo as cidades e cidadãos do interior, setores da economia, movimentos sociais, pequenas empresas etc.
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A blogosfera é um caos – que em determinado momento encontrará várias formas de organização. A diferença é que todas as manifestações, ruídos, militâncias se dão na mesma plataforma tecnológica. Essa é a diferença fundamental.
Sem Internet, a opinião pública é captada ou através de pesquisas de opinião estáticas, ou através do filtro do jornal.
Com a Internet, o jogo é outro. Todas as opiniões são bites na rede. Todas as informações estão disponíveis para modernas ferramentas de gestão do conhecimento, seja RSS (sistema que permite receber automaticamente notícias de um site ou blog), cokpits (formas aprimoradas de organizar informações).
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O primeiro bloqueio à informação – sua publicização – é removido. Cada vez mais será possível buscar informações dos locais mais distantes, dos setores mais esquecidos.
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Espalhadas pela rede, as informações assumem inicialmente um aspecto caótico. Gradativamente surgirão os hubs, os agregadores, que buscarão informações e darão tratamento jornalístico às notícias.
Haverá implicações em todas as áreas.
Por exemplo, na política econômica, atualmente o único setor ouvido é o dos economistas de mercado, com fácil acesso às editorias econômicas dos grandes jornais de São Paulo e Rio.
Gradativamente setores da indústria, de serviços, sindicatos, cidades do interior, disponibilizarão dados na rede, acessíveis a analistas, pesquisadores, veículos de informação, autoridades econômicas etc.
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As eleições do ano passado, além disso, mostraram a importância do contraponto permitido pela Internet, especialmente em períodos em que não há contraponto na grande mídia.
Mesmo em fase incipiente, o espaço proporcionado pela Internet já modificou a história da mídia.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011
quarta-feira, 23 de março de 2011
blog do miro - Sérgio Amadeu - Internet é direito humano à comunicação
Reproduzo entrevista de Sérgio Amadeu, concecida ao blog de José Dirceu:
A defesa de uma Internet livre e combativa é um dos principais pontos da entrevista de Sérgio Amadeu da Silveira, um dos grandes nomes na luta nacional pela inclusão digital e software livre no país, e para quem "Internet é um direito humano à comunicação".
Amadeu expõe temas na ordem do dia do universo digital como o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL), a pressão do mercado e das operadoras de Telecom e a lei de copyright - esta última, o estopim que colocou o Ministério da Cultura (MinC) recentemente no centro de grandes polêmicas.
Defensor de leis que garantam a liberdade e a democracia no ciberespaço, o sociólogo explica seu posicionamento contra a retirada da licença Creative Commons do portal do MinC, na sua visão, uma medida nefasta e adotada em prol dos interesses da indústria de copyright. Segundo Amadeu, vivemos uma nova era, marcada pela substituição da economia da escassez (material) pela do conhecimento (imaterial), com base na troca de informações, no compartilhamento e nos relacionamentos.
Ex-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Amadeu acumula vasta experiência com telecentros e gestão pública. O sociólogo explica que a Internet é uma rede de controle e aponta os principais desafios em termos de privacidade e abuso desta em jogo na rede. Também alerta para a importância do software livre e a urgente necessidade de investimentos no setor para darmos um verdadeiro salto tecnológico no país.
Qual sua avaliação sobre o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) do governo federal?
Na minha avaliação, o PNBL está completamente atrasado. Nós temos uma mudança na economia mundial em que as questões mais relevantes estão em torno de bens simbólicos, serviços, atividades imateriais. As questões chave hoje são informacionais. Precisamos ter a infraestrutura dessa economia informacional - e ela não é estrada de rodagem, mas estradas de bits, de dados. A cobertura de Banda Larga é fundamental para que possamos ter várias atividades nesta área. Não ter isso no ritmo que estamos vendo no mundo, é muito grave.
O PNBL no final da gestão do presidente Lula tinha pressupostos muito importantes reconhecidos pelo governo. O primeiro deles é que o mercado fracassou em construir essa infraestrutura. Ninguém impediu a Telefônica de levar banda larga para o Piauí, Roraima ou periferia de São Paulo, mas ela não foi levada. Por quê? Porque o modelo de negócios que nasce da privatização é voraz demais. Esses grupos que chegaram no Brasil não têm interesse em investir, mas em obter remuneração rapidamente. Não sei quais os fatores preponderantes, mas o retrato da realidade é que a banda larga é concentrada em alguns segmentos. Ainda há milhares de cidades em que ela não chega.
Na eleição do ano que vem haverá candidatos a prefeito dizendo “olha, eu darei empregos para a cidade”. Empregos industriais? Não vão trazer, porque o empresário não vai instalar uma fábrica numa cidade longe de logística e de matéria prima. Mas o que esse prefeito pode levar? Se houver um nível de ensino bom no município e se ele tiver as vias de alta velocidade chegando, poderá construir call centers em cidades que nunca os tiveram, por exemplo.
Além disso, você pode ter uma empresa de programação em qualquer lugar do planeta. Ela não precisa mais estar fisicamente do seu lado para passar instruções, há videoconferências etc. O que precisa é de uma rede que passa muitos dados num único segundo. Essa é a ideia da Banda Larga. No Brasil temos banda estreita sobrando, mas precisamos de banda larga.
Por que não temos ainda?
Qual é a jogada? A banda larga precisa enfrentar o mercado com regulação, não só via Anatel. Vários países do mundo montam empresas para competir com as privadas. O PNBL tem um efeito inicial muito positivo neste sentido, mas eu não o vi escrito em lugar nenhum. E não estou falando de um plano trivial.
Além disso, o mundo inteiro está trabalhando com velocidades superiores a 2 Mb. Isso não é um capricho. Cada vez mais as aplicações da internet são pensadas para vídeo, som e imagem. Uma página hoje tem muito mais do que 100kb. Se você tiver uma transferência de dados por segundo pequena, a página da internet demora para abrir. E você começa a ter várias coisas para 2 Mb. Há um bloco de países, que inclui Portugal, com 40 Mb. E um outro bloco - e nem vamos querer nos equiparar - que inclui Finlândia, Coréia e Noruega que chega a 100 Mb por segundo. O plano de banda larga no Brasil, na minha opinião, é para atender os interesses das operadoras. Em que sentido? Nossa velocidade mínima é 2 Mb. Daqui a dois anos, podemos chegar à conclusão que construímos estradas de duas pistas e precisávamos de oito... Isso é preocupante.
O governo tem um argumento que sinceramente não me convence. Eles dizem assim: “nós queremos 512kb, metade de um mega, puro ou de verdade”. Na verdade, no Brasil, a situação é a seguinte: você assina um contrato com a operadora para receber 2Mb. Mas, é como se você fosse a um supermercado comprar uma garrafa de Coca-Cola e recebesse apenas 10% ou 20% da bebida. Só que no caso desta garrafa, você vai no Procom e denuncia a treta. No caso das operadoras não. Eles dizem “tecnicamente nós estamos certos”.
A O2, empresa do Grupo Telefônica na Inglaterra, vende 20 Mb ao equivalente a R$ 20,00. Aqui no Brasil, a banda popular era de ¼ de 1 Mb a R$ 29,90 sem impostos. Caríssimo. Eu queria entender o que esses caras fazem. Nós não podemos titubear agora. Se o PNBL empacar, nós temos pouco tempo. Aqui funciona assim porque a Anatel não cumpre o seu papel. O Judiciário precisa ser informado para dar decisões contra as operadoras. Se eu pago 1 Mb, eu tenho que receber 1 Mb a qualquer hora do dia.
Fui uma vez à hidrelétrica de Itaipu. O técnico me explicou que uma das piores coisas para eles são os períodos de Copa do Mundo. Após acabar os jogos, as pessoas vão tomar banho e o pico de consumo sobe muito. Eles, portanto, precisam regular a distribuição de energia, estar lá de plantão ou a rede cai. Mas a luz não oscila toda hora, ela é estável, por mais que nós a utilizemos a mais durante alguns períodos do dia. Já o técnico da operadora de banda larga diz: “acima de hora tal não pode baixar vídeo”. Ele fala exatamente o que as operadoras querem, mas isso é um absurdo. Eu não posso pagar uma das bandas largas ou uma das conexões mais caras do mundo e a operadora ainda me dizer em que hora eu posso acessar a rede, ou o que vou acessar.
Para viabilizar esse PNBL, o governo precisa contar com a sociedade civil, com as entidades que estão descobrindo que ela é uma infraestrutura essencial até para a defesa dos seus direitos. Acesso à Internet é um direito humano à comunicação, consolidado em vários lugares do mundo. Se o governo está ciente disso deve saber que o setor de Telecom é um dos mais criticados pela sociedade. As empresas não dão conta do recado. O governo tem que aproveitar esta situação e investir nisso. Vai gastar dinheiro no PAC nas estradas e não vamos gastar na infraestrutura da banda larga?
Qual será o papel da Telebrás no PNBL?
No Brasil não tem um documento que eu baixe com tudo consolidado. Se tem, não é público, mas a Telebrás deveria fazer a competição com essas operadoras que cobram caro. Priorizá-la, inclusive.
Que era a ideia original...
Espero que seja, era a ideia inicial e correta do presidente da Telebrás Rogério Santana, fazer competição. Começa nas áreas em que a banda larga não chega, mas depois, eu quero alguém fustigando, também, lá em Perdizes (bairro paulistano). Se eu pago caro e minha Internet rápida tem instabilidade, eles estão se intrometendo na minha banda. O ideal é ter uma empresa pública ou qualquer outra que faça um preço menor, com uma qualidade maior. Isso é competição.
Qual a reação das operadoras em relação ao PNBL?
Elas estão entrando na Justiça contra o Plano, pedindo redução de impostos. O problema é que mesmo que você dê impostos zero para essas operadoras, elas continuam com a tarifa mais cara do mundo. Retire para você ver. Aliás, da telefonia não vou nem comentar essa retirada de impostos...
Outra coisa que as operadoras divulgam como grande sucesso é o celular. Mas tomem cuidado com essa coisa fácil. Vá ver como o povo usa o celular: pré-pago, R$ 5,00! 80% ou mais gastam R$ 5,00 por mês porque é muito caro. Isso explica porque aqui o SMS não é tão popular como em outros países. Ele é um dos mais caros do mundo, supera a Venezuela e Argentina. O que está acontecendo no Brasil? Juro que não sei. É um modelo de negócio? Porque isso não decorre de condições tecnológicas. O Brasi é um país tecnologicamente apto. O fato é que as operadoras têm poder e força. No Congresso, ainda têm menos que a bancada dos ruralistas - ainda bem - mas daqui a pouco farão como esses setores fizeram, terão um grande número de deputados lá e aí o governo não mandará mais nada no setor.
A banda larga está crescendo quanto?
Não tenho o número preciso, mas deve ser quase 30% em uma base pequena. Está crescendo porque todos estão interessados e sabem que a rede é vital para tudo hoje. É aquilo que o teórico Manuel Castells dizia: estarão na rede países que não teriam nenhum interesse em estar nela. Mas, para a elite econômica em geral não dá mais para fazer nada sem estar na rede. E eu diria, não só a elite econômica. Há coisas imprescindíveis pelas quais somos todos obrigados a estar conectados.
Quais as medidas necessárias para ampliar a inclusão digital no Brasil?
O crucial é o PNBL com uma tarifa de fato barata, que não chegue a R$10,00; e estabilidade na rede, que a operadora dê uma quantidade de bits por segundo.
Para isso precisamos de investimentos na infraestrutura.
Sim, públicos e privados. Banda larga é vital e temos que acelerar o PNBL. Se abrir uma competição feroz nessa área, a gente força a mudança dessa estrutura. Sem competição, as operadoras não vão mudar. Temos que estabelecer uma competição com esses oligopólios aqui no Brasil, porque pelo modelo particular da privatização, esses grupos acham que nosso país é o festival do caqui. Consideram que não precisam investir, dar qualidade, nem estabilidade. Eles dizem que em 2014, nós teremos banda larga em 80% das cidades. OK, mais quais são as cidades? Primeiro, eu quero ver no papel. Enquanto for percentual, eu sinceramente não acredito.
Segundo, nós precisamos apoiar o fenômeno das lan houses que são de pequenos empresários. Eles precisam de recursos e financiamento. É como boteco na periferia. Isso deve ser feito muito fortemente. Há ações em relação às lan houses, mas elas patinam muito e são pouco efetivas. Terceiro, o setor público nas áreas mais deprimidas economicamente precisa cumprir seu papel e abrir telecentros com Internet gratuita.
E, uma quarta questão é incentivar as cidades a abrir o sinal ou a distribuí-lo, mesmo que gratuitamente. A cidade de Quissamâ (RJ) tinha 90 computadores. Aí o prefeito abriu o sinal gratuito para munícipes que pagam IPTU. Resultado: o número saltou para 1.080 computadores no ano. Hoje você compra computador com mais facilidade. O que é caro é ter uma máquina de escrever não conectada. Os cidadãos precisam estar conectados com o mundo. A conexão é tudo. As cidades precisam ser incentivadas a dar sinal gratuito e os prefeitos a distribuí-los. Isso pode ser feito se a Telebrás lhes der um ponto de banda larga e eles receberem uma quantidade de bits que possam distribuir.
Quanto mais usuários estiverem na rede, mais você diminui a largura da banda, porque fica todo mundo lá. Se o prefeito recebe e abre o sinal, ele estimula empresas que atuam na região a venderem sinal de maior velocidade e com maior estabilidade. Ele pode criar um padrão: "essa banda básica eu dou. Quer melhor, compre". Assim, nós teremos seriedade na estrutura.
E o software livre, Sérgio, tem avançado? Qual a porcentagem hoje?
Tem se consolidado cada vez mais na infraestrutura - softwares embarcados e softwares utilizados por outros setores que não são propriamente ditos de TI (tecnologia da informação). Tem avançado, também, no universo das redes. Na web, cresceu muito e vai crescer mais.
Tem que arrumar gente boa para ser administradora de rede Linux porque hoje faltam profissionais no mercado. Se este profissional sabe bem Linux, tem emprego. Já, se ele sabe bem Windows é diferente, há limitações no controle da própria rede. O profissional de Linux precisa de um conhecimento de TI em um grau maior, porque ele tem que dominar aquele software. Então, nesses segmentos avançou muito.
No segmento de desktop, também. O Brasil é um dos poucos países em que os planos de inclusão digital públicos - quase 70% - são com software livre e por causa das ações do governo. Há grande uso de desktop em aplicativos. No sistema operacional, ele avançou menos, porque é onde tem mais amarração e mais dificuldade de migração. Por outro lado, as tecnologias da informação de acesso a Internet estão indo para o caminho da mobilidade – dos celulares, outros...
Já temos softwares como o Android que é livre. Mas, há um recorte complicado: cada vez mais essas empresas de aparelhos móveis querem fidelizar completamente o seu cliente. Chamou-me muito a atenção quando a Petrobras fez o lançamento da oferta pública de ações que a transformou na 4ª maior empresa do planeta. Fui ver quem estava acima e a 2ª maior era a Apple. Acima da Petrobras! É brincadeira? A Apple deu um salto e passou todo mundo na curva da tecnologia da mobilidade. É uma empresa super proprietária.
Gostaria também de chamar atenção para um outro fato. Quando o Julian Assange, fundador do Wikileaks, começou a ter problemas, e ainda nem tinha sido julgado, as contas dele e do site foram simplesmente deletadas, anuladas no Visa, Mastercard, América Express, PayPal. Eu te pergunto: como isso foi possível? Ele ainda estava sendo acusado. Isso não é visto em nenhum Estado de Direito! Até em caso de traficante, lavagem de dinheiro, a polícia congela os recursos, mas não anula a conta. E cancelaram as contas do Julian! No Facebook, cancelaram o perfil de pessoas que o ajudavam no Wikileaks. Isso foi possível porque partiu de empresas sediadas nos EUA sob a legislação americana e sujeitas às pressões dos agentes de Estado americano, que todos sabemos, não são leves.
A moçada do grupo Anonymus protestou em favor de Julian e armou um ataque que tirou por duas tardes, as compras eletrônicas desses cartões. Como? Usaram o expediente de fazer várias requisições de serviços impossíveis de serem atendidos. Fizeram em apoio à causa do Wikileaks. Não invadiram computador nenhum, mas fizeram o chamado DDoS, uma negação de serviço em que você faz muita requisição, aumenta as solicitações sobre um computador, ele não agüenta e cai.
Em consequência, o então senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG, relator de leis na área de informática), defendeu: “por causa disso temos que ter a Lei”. E eu retruquei, "é exatamente por causa disso que sou contra a Lei". No século XIX o direito de greve era considerado violência, não era legal, porque onde já se viu um peão parar... “E o meu direito de lucrar?” Mas vejam o que aconteceu com o Assange, os caras anularam as contas, a dele e a do seu site!!! Como dizem os advogados, “ao arrepio da lei”.
O que é o software livre? Seu autor permite você copiar, estudar, distribuir as alterações, desde que o trabalho continue coletivo e aberto. Você não pode fechar o conhecimento ou pegar um trabalho coletivo, como fez o Steve Jobs, e fechá-lo com uma interface proprietária. Não pode fazer isso com o Linux, porque a nossa licença nos permitiria processar quem quisesse fechar um conhecimento que precisa continuar aberto. Nós temos que defender aquela ideia de que a liberdade não dá em árvore.
Como está a expansão do software livre no mundo?
Avança no mundo inteiro, mas temos poucas pesquisas e poucos dados. Uma pena, mas isso vai mudar. Temos pesquisas em curso e é preciso que o Comitê (do governo) Gestor da Internet, junto com seu órgão de assessoramento e pesquisas, faça levantamentos sobre código aberto, código fonte, a importância de padrões abertos. Sou conselheiro do Comitê Gestor representando a sociedade civil e vou defender isso. Acho possível obter apoio dos demais conselheiros, inclusive do governo, a esta proposta.
Os dados impressionam, temos 260 mil códigos fontes e um deles é do Linux. São 2,5 milhões de desenvolvedores. Não é um coisa pequena. Esses códigos - texto que um programador escreveu e o outro sabe e pode ler para desenvolvê-lo - estão abertos.
Na realidade, há um confronto hoje na sociedade da informação entre os que acham que o conhecimento gera mais valor social e econômico se estiver distribuído e os que defendem o contrário. A Wikipédia, por exemplo, queimou capital. O que é isso? O trabalho colaborativo permitiu o surgimento de uma Enciclopédia que empresa alguma poderá fazer. O pessoal vai e colabora. Só colaborador ativo nos EUA tem 35 mil; no Brasil, 1.800. Você soma todos os colaboradores do mundo e dá uma empresa gigantesca. A maioria é gente que colabora anonimamente. Vá montar uma Enciclopédia mundial generalista em várias línguas. Você não vai conseguir. Nesse sentido é que queima capital.
Em outros lugares, o software livre é incorporado por grandes empresas. Houve uma licitação da Caixa Econômica Federal (CEF) e a IBM entrou na competição. Uma competição que não era brincadeira, todo mundo olhando e a missão era estabilizar uma máquina de alto processamento. Pois bem, a IBM caiu fora na primeira rodada e os meninos ganharam usando software livre. Claro que a IBM é gigantesca, mas as condições de se trabalhar com o conhecimento se alteram no modelo aberto. É isso o que muitos do PT, comunistas e socialistas espanhóis e históricos não entendem. Eles são a favor da socialização dos meios de produção, mas não querem a socialização do conhecimento, o que eu acho muito engraçado.
Como você analisa a retirada da licença do Creative Commons (CC) do Ministério da Cultura?
É preciso destacar a importância da licença. Se eu pegar uma foto do teu blog e não tiver uma licença, estou violando copyright. Mas, pela lei brasileira, isso não é claro. Posso usar a foto? Posso cortar? Eu preciso de uma segurança jurídica. O CC é um movimento mundial de flexibilização das duras leis de copyright em função dos interesses da indústria de intermediação, afetada pela expansão da Internet.
Aquilo que a ministra Ana de Hollanda disse de que “não há distribuição de cultura sem direito” é uma bobagem. Esta ideia foi importante para montar uma indústria cultural. Mas o que Walt Disney fez? Ele pegou os contos populares da literatura dos irmãos Grimm e os adocicou. Ninguém gostaria da Branca de Neve dos irmãos Grimm. O próprio Mickey Mouse imitando cantor de jazz é uma cópia do filme “O cantor de jazz”. Ele remixou.
A base da cultura é o domínio público. O que ele fez foi importante, mas hoje tudo isso é proibido pela lei. Não bastasse isso, o Ministério da Cultura ampliou a proteção da obra. Proteção de quê? O que eles chamam de “proteção”, eu chamo de cerceamento. Ampliaram o cerceamento de 70 anos para 95, após a morte do autor. Por quê? O Mickey Mouse iria cair em domínio público e todos poderiam usá-lo ou remixá-lo. Então, os estúdio Disney, seguindo na contramão do mestre Walt - que já morreu - ampliaram o tempo de "proteção" à obra.
No Brasil nós cerceamos 70 anos. Gostaria de saber qual autor a ministra Ana de Hollanda quer incentivar já que ele morreu há 70 anos! Talvez seja a lógica de divulgar o defunto-autor, uma nova linha machadiana... Toda essa legislação de copyright que ela defende não tem sustentação. Ela acaba defendendo só as corporações. Não é à toa que a ministra tira o símbolo do CC e diz “tirei apenas o símbolo de uma licença americana”. É uma ofensa à nossa inteligência. Ana de Hollanda devia entrar no site da Al Jazeera – que não me parece ter nada a ver com os EUA – e ver o que está escrito ali. Eles licenciaram seus conteúdos em CC.
Neste aspecto, a política da ministra Ana de Hollanda é nefasta. Não conheço a ministra, ela pode ser legal, gente boa, mas neste aspecto é nefasto. Não a ministra, mas a política dela. Os argumentos que ela traz são do ECAD. Eu os conheço, fui a vários debates deles. A mesma escolinha: dizem que o CC é entidade americana e tal... Na realidade, esse tipo de argumento quer manter o copyright duro e até expandido por mais tempo. E a lei do copyright precisa de uma reforma em outros pontos. Mas, o que a ministra faz? Diz “vou convocar especialistas”. Nega, assim, todo o trabalho que a gente fez, aberto, com todo mundo em todas áreas. Ela quer trazer os especialistas dela. É um desrespeito dela para com a sociedade civil organizada que trabalhou nessa reforma.
Mas, tudo bem. Ela não quer encaminhar ao Congresso o projeto de reformas da lei copyright. E aí, ela é aplaudida por quem? Associação Internacional de Propriedade Intelectual! Composta pelos sete grandes da indústria de intermediação norte-americana. Eles fazem um elogio claro à ministra. Quer dizer, quem é nacionalista nessa história da reforma? Ela está com a indústria de Hollywood que persegue meninos... 28 mil jovens estão sendo processados por partilharem arquivos digitais. Aqui no Brasil, não avançaram para cima dessa meninada porque o governo do presidente Lula foi contra. Agora, mudou nessa área. E isso me preocupa muito.
Quando alguém faz um vídeo e coloca CC, este selo diz exatamente o que é permitido fazer, se pode vender ou não, aliás, há vários tipos de CC. E eu posso fazer de tudo desde que respeite a licença. Acho que ela está sendo apoiada por segmentos que são contra o compartilhamento. O PT precisa tomar uma decisão. Na questão do PNBL, no ano passado, quando houve um certo atrito com o ministro Hélio Costa, o presidente Lula tomou uma decisão. Foi para o lado da Telebrás e enquadrou as teles. Não teve embate porque o ministro (Hélio Costa) era aliado a esta política. Aliás, o presidente Lula lançou o blog do Planalto com CC.
A pergunta é: a presidente Dilma vai fazer o quê? Não tem nenhum embate, ninguém está perguntando agora, mas vai gerar um problema, porque a ministra pode mudar a política, revertê-la. Há quem diga que “é um exagero, a ministra (Ana de Hollanda) mal chegou”. Não é. A ministra chegou dando um sinal claro: vai reverter a política de compartilhamento, porque para ela domínio público não é importante. O importante é a proteção do autor. Esse é o discurso dela. E nós sabemos que ela está falando da indústria do copyright. Infelizmente, escolheram uma ministra que vem na contramão do que havíamos feito no governo Lula. As pessoas dizem que nada disso é importante. Como não é importante? É a política que consolidou o Brasil no plano cultural mundial como um país avançado.
Você pode dizer “o MinC está defendendo os artistas, os criadores...” Não, está defendendo a indústria de intermediação. Espero que esse retrocesso sirva pra gente afirmar a política avançada de compartilhamento de conhecimento. Eu não gosto da postura da ministra em relação ao mundo digital. Não sei qual é a política dela porque, por enquanto, ela só desmontou.
Qual a sua visão ou sugestão para uma Lei de Direitos Autorais na Internet?
Nós temos que abrir espaço para uma ideia muito importante. A maioria da humanidade nunca viveu de propriedade, mas de relacionamento. A Internet permite o relacionamento. Quando o escritor Paulo Coelho libera todo o conteúdo dele na rede, ele diz: “eu quero que todo mundo pegue porque eu vivo de relacionamento. O meu dinheiro vem da minha relação." Então, nós temos que abrir espaços para vários modelos de negócios, incentivar várias tentativas, coisas diferentes que estejam tipicamente naquilo que é compreensível no bem material.
Estou falando de uma economia de troca que não tem escassez. É uma outra economia. É preciso encontrar outras formas de universalizar esta nova economia digital. Esse pessoal não quer reconhecer isso. É o pessoal do lampião de gás que quer impedir o avanço da energia elétrica. Por que o MinC não abre um edital para os músicos fazerem um grande portal de música com licenças permissivas de uso? E que este portal seja tão grande que todos possam ir lá toda hora? Audiência grande dá dinheiro, todos sabem. Na rede, dinheiro é relação. Por que não outros modos de preservar o direito autoral?
Até parece que a maior parte do nosso faturamento na área é como nos EUA, onde as receitas vêm de copyright e patente. Claro que não é. Pega os escritores, o pessoal que vive de copyright não chega a 100... Na verdade, é pouco mais de meia dúzia. Os grandes Mário de Andrade, Carlos Drummond, Machado de Assis não viviam de direito autoral, eram todos funcionários públicos. Esta é a realidade. Estão falando de um negócio que não existe. Nossos modelos podem ser encontrados se você entender que a cultura sempre foi maior do que o mercado; e que a maior parte das pessoas, mesmo os artistas, não vive de propriedade, mas de relacionamento - do artista com quem o admira. O que as redes permitem? Mais relacionamento. O que a ministra quer fazer? Reduzir o relacionamento.
Existe algum tipo de controle da Internet que atinja a privacidade das pessoas? Corremos algum risco de censura?
O senso comum acha que a Internet é uma selva, um antro da perdição. A Internet é uma rede cibernética de controle de comunicação. Se você pegar a antena da TV Globo analógica, você não sabe se tem um ou cem mil assistindo a determinado programa. Para saber, eles contratam o IBOPE que tem um esquema de amostragem domiciliar. Na Internet, não funciona assim. Ela é uma rede de controle exatamente porque nela não se navega em hipótese alguma sem o número de IP. Toda vez que eu abro um site, seja do PT ou de um outro que eu nunca vi, da Turquia, eu faço uma requisição para este site. Coloco o endereço dele e peço um pedido de informação que vai até a máquina que hospeda o site e traz a informação para que eu possa acessá-lo. Então, para devolver essa informação, ela tem que te localizar, ou você não abre o que pediu. A Internet já é uma rede de controle, e quanto mais distribuída, mais tecnicamente controlada.
Aí, os espertos dizem: “não, eu quero identificação das pessoas”, ou seja, vincular o IP ao nome de uma pessoa. Na hora em que você faz o cadastro e vincula a pessoa ao número de IP, essa pessoa está registrada em várias máquinas pelo caminho. Agora, não se navega sem deixar um rastro digital. Transformar este controle técnico em controle político é muito simples. Hoje, a Internet tem um antídoto: o anonimato. E não estou dizendo anonimato de expressão, mas de navegação. É como andar na rua. Você anda na rua sem obrigatoriedade de identificação. O Ministério da Saúde, por exemplo, pode contratar uma empresa para saber todo mundo que está divulgando um remédio X, dizendo que ele é legal, quando na realidade é ilegal.
Então, é uma rede de extremo controle. Se não cuidarmos da defesa das liberdades, do funcionamento que a rede teve até então baseada no anonimato civil, estaremos criando uma sociedade de hipercontrole que não é correto. Há, também, outra polêmica econômica envolvida nisso. Nos EUA, a Comcast, empresa de TV a cabo que oferece conexão de Internet, ganhou o direito de precificar diferentemente os pacotes de informação que passam na Internet. Ela violou o principio de neutralidade na rede.
Na Internet, a informação não navega em estado puro. Há pacotes de informações, como se fossem contêiners de um navio. Esses pacotes ou datagramas (como são chamados) navegam com um IP de origem que indica de onde veio, para onde vai e qual a aplicação (se é texto, e-mail, imagem etc). A informação, portanto, é transferida no sinal que passa pela rede de uma operadora. Mas o que está acontecendo? A operadora diz: “como eu controlo o cabo em que passa esse sinal elétrico, o vídeo come muito a minha banda, então, quem quiser usar vídeo terá que pagar mais caro”.
Eles querem transformar a Internet em uma grande rede de TV a cabo, na qual você tem pacotes. Para usar o Youtube paga X, baixar música Y... Só que isso fere a seguinte ideia: quem controla a infraestrutura tem que ser neutro em relação às outras camadas lógicas da Internet. O caso é grave. Durante a eleição do presidente Barack Obama, o Pearl Jeam mudou a música do Pink Floyd dizendo para o Bush "deixe o mundo em paz", mas a rede da AT&T cortou o som durante a transmissão do show. Eles têm como cortar. Agora, se é o Estado que corta chamam de censura. Mas, quando é uma rede privada transnacional chama o quê?
É preciso dizer o que pode e o que não pode na Internet. Censura a gente fala de uma situação política e todos sabem que o corte do cabo foi censura, mas eles dizem que não é. Então, por motivos econômicos, políticos e culturais, as empresas querem quebrar a neutralidade na rede, arvorar-se do direito de dizer o que você pode ou não pode fazer. Veja que loucura! A rede é transnacional, os cabos perpassam os países, como controlar isso ? São redes de empresas privadas que fazem o que querem.
Por que estamos brigando? Estamos brigando para que cada país aprove leis e garanta o princípio da neutralidade, o que é uma tarefa hercúlea. No Brasil, no ano passado, foi feito um projeto de lei extremamente inovador, que contou com a contribuição de todos pela rede. O Ministério da Justiça fez um processo inovador, esperamos agora que o atual ministro José Eduardo Martins Cardozo mande o projeto do Marco Civil da Internet (a regulamentação da Internet no Brasil) para o Congresso Nacional.
O projeto vem com força da sociedade civil e nós vamos debatê-lo, inclusive, com as operadoras que vão querer a garantia do princípio de mercado na Internet. Elas dizem “a Internet é um mercado”. Não é! A Internet não se guia por critérios de mercado. Quem se guia por eles são as operadoras, os negócios que têm dentro da Internet. No ciberespaço não existia discriminação de pacotes, todos os pacotes e todos datagramas eram iguais perante a lei. Não é mais, porque o controlador da infraestrutura descobriu que pode controlar o fluxo. Então, por fatores econômicos e políticos, estamos num momento muito grave da vida/história da Internet.
Quais os desafios que a tecnologia coloca para o nosso país hoje e para onde caminham os avanços?
Do ponto de vista tecnológico, nós precisamos incentivar os criadores e remixadores de tecnologia. Não faremos isso sem estimular as comunidades de código aberto. Precisamos dar muita força a elas. Aquilo que o Gilberto Gil fez no MinC com os pontos de cultura, nós precisamos fazer agora com a tecnologia. O velho economista, da velha guarda do mundo industrial, não concebe que a tecnologia seja feita fora da firma. Mas, isso não existe mais. Eles ainda pensam na tecnologia dentro da firma ou com os sinais do mercado.
É preciso trazer a ebulição tecnológica e científica para essa meninada que está criando. Para o Brasil dar o salto tecnológico, temos que pegar a próxima curva e não vamos criar isso do além. Ciência se cria em cima de ciência. Tecnologia em cima de tecnologia. Hoje, o nosso grande desafio é transformar o Brasil em um país inventor e criador de tecnologia, principalmente da informação, que está em todas as áreas - medicina, biologia, nanotecnologia.
A defesa de uma Internet livre e combativa é um dos principais pontos da entrevista de Sérgio Amadeu da Silveira, um dos grandes nomes na luta nacional pela inclusão digital e software livre no país, e para quem "Internet é um direito humano à comunicação".
Amadeu expõe temas na ordem do dia do universo digital como o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL), a pressão do mercado e das operadoras de Telecom e a lei de copyright - esta última, o estopim que colocou o Ministério da Cultura (MinC) recentemente no centro de grandes polêmicas.
Defensor de leis que garantam a liberdade e a democracia no ciberespaço, o sociólogo explica seu posicionamento contra a retirada da licença Creative Commons do portal do MinC, na sua visão, uma medida nefasta e adotada em prol dos interesses da indústria de copyright. Segundo Amadeu, vivemos uma nova era, marcada pela substituição da economia da escassez (material) pela do conhecimento (imaterial), com base na troca de informações, no compartilhamento e nos relacionamentos.
Ex-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Amadeu acumula vasta experiência com telecentros e gestão pública. O sociólogo explica que a Internet é uma rede de controle e aponta os principais desafios em termos de privacidade e abuso desta em jogo na rede. Também alerta para a importância do software livre e a urgente necessidade de investimentos no setor para darmos um verdadeiro salto tecnológico no país.
Qual sua avaliação sobre o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) do governo federal?
Na minha avaliação, o PNBL está completamente atrasado. Nós temos uma mudança na economia mundial em que as questões mais relevantes estão em torno de bens simbólicos, serviços, atividades imateriais. As questões chave hoje são informacionais. Precisamos ter a infraestrutura dessa economia informacional - e ela não é estrada de rodagem, mas estradas de bits, de dados. A cobertura de Banda Larga é fundamental para que possamos ter várias atividades nesta área. Não ter isso no ritmo que estamos vendo no mundo, é muito grave.
O PNBL no final da gestão do presidente Lula tinha pressupostos muito importantes reconhecidos pelo governo. O primeiro deles é que o mercado fracassou em construir essa infraestrutura. Ninguém impediu a Telefônica de levar banda larga para o Piauí, Roraima ou periferia de São Paulo, mas ela não foi levada. Por quê? Porque o modelo de negócios que nasce da privatização é voraz demais. Esses grupos que chegaram no Brasil não têm interesse em investir, mas em obter remuneração rapidamente. Não sei quais os fatores preponderantes, mas o retrato da realidade é que a banda larga é concentrada em alguns segmentos. Ainda há milhares de cidades em que ela não chega.
Na eleição do ano que vem haverá candidatos a prefeito dizendo “olha, eu darei empregos para a cidade”. Empregos industriais? Não vão trazer, porque o empresário não vai instalar uma fábrica numa cidade longe de logística e de matéria prima. Mas o que esse prefeito pode levar? Se houver um nível de ensino bom no município e se ele tiver as vias de alta velocidade chegando, poderá construir call centers em cidades que nunca os tiveram, por exemplo.
Além disso, você pode ter uma empresa de programação em qualquer lugar do planeta. Ela não precisa mais estar fisicamente do seu lado para passar instruções, há videoconferências etc. O que precisa é de uma rede que passa muitos dados num único segundo. Essa é a ideia da Banda Larga. No Brasil temos banda estreita sobrando, mas precisamos de banda larga.
Por que não temos ainda?
Qual é a jogada? A banda larga precisa enfrentar o mercado com regulação, não só via Anatel. Vários países do mundo montam empresas para competir com as privadas. O PNBL tem um efeito inicial muito positivo neste sentido, mas eu não o vi escrito em lugar nenhum. E não estou falando de um plano trivial.
Além disso, o mundo inteiro está trabalhando com velocidades superiores a 2 Mb. Isso não é um capricho. Cada vez mais as aplicações da internet são pensadas para vídeo, som e imagem. Uma página hoje tem muito mais do que 100kb. Se você tiver uma transferência de dados por segundo pequena, a página da internet demora para abrir. E você começa a ter várias coisas para 2 Mb. Há um bloco de países, que inclui Portugal, com 40 Mb. E um outro bloco - e nem vamos querer nos equiparar - que inclui Finlândia, Coréia e Noruega que chega a 100 Mb por segundo. O plano de banda larga no Brasil, na minha opinião, é para atender os interesses das operadoras. Em que sentido? Nossa velocidade mínima é 2 Mb. Daqui a dois anos, podemos chegar à conclusão que construímos estradas de duas pistas e precisávamos de oito... Isso é preocupante.
O governo tem um argumento que sinceramente não me convence. Eles dizem assim: “nós queremos 512kb, metade de um mega, puro ou de verdade”. Na verdade, no Brasil, a situação é a seguinte: você assina um contrato com a operadora para receber 2Mb. Mas, é como se você fosse a um supermercado comprar uma garrafa de Coca-Cola e recebesse apenas 10% ou 20% da bebida. Só que no caso desta garrafa, você vai no Procom e denuncia a treta. No caso das operadoras não. Eles dizem “tecnicamente nós estamos certos”.
A O2, empresa do Grupo Telefônica na Inglaterra, vende 20 Mb ao equivalente a R$ 20,00. Aqui no Brasil, a banda popular era de ¼ de 1 Mb a R$ 29,90 sem impostos. Caríssimo. Eu queria entender o que esses caras fazem. Nós não podemos titubear agora. Se o PNBL empacar, nós temos pouco tempo. Aqui funciona assim porque a Anatel não cumpre o seu papel. O Judiciário precisa ser informado para dar decisões contra as operadoras. Se eu pago 1 Mb, eu tenho que receber 1 Mb a qualquer hora do dia.
Fui uma vez à hidrelétrica de Itaipu. O técnico me explicou que uma das piores coisas para eles são os períodos de Copa do Mundo. Após acabar os jogos, as pessoas vão tomar banho e o pico de consumo sobe muito. Eles, portanto, precisam regular a distribuição de energia, estar lá de plantão ou a rede cai. Mas a luz não oscila toda hora, ela é estável, por mais que nós a utilizemos a mais durante alguns períodos do dia. Já o técnico da operadora de banda larga diz: “acima de hora tal não pode baixar vídeo”. Ele fala exatamente o que as operadoras querem, mas isso é um absurdo. Eu não posso pagar uma das bandas largas ou uma das conexões mais caras do mundo e a operadora ainda me dizer em que hora eu posso acessar a rede, ou o que vou acessar.
Para viabilizar esse PNBL, o governo precisa contar com a sociedade civil, com as entidades que estão descobrindo que ela é uma infraestrutura essencial até para a defesa dos seus direitos. Acesso à Internet é um direito humano à comunicação, consolidado em vários lugares do mundo. Se o governo está ciente disso deve saber que o setor de Telecom é um dos mais criticados pela sociedade. As empresas não dão conta do recado. O governo tem que aproveitar esta situação e investir nisso. Vai gastar dinheiro no PAC nas estradas e não vamos gastar na infraestrutura da banda larga?
Qual será o papel da Telebrás no PNBL?
No Brasil não tem um documento que eu baixe com tudo consolidado. Se tem, não é público, mas a Telebrás deveria fazer a competição com essas operadoras que cobram caro. Priorizá-la, inclusive.
Que era a ideia original...
Espero que seja, era a ideia inicial e correta do presidente da Telebrás Rogério Santana, fazer competição. Começa nas áreas em que a banda larga não chega, mas depois, eu quero alguém fustigando, também, lá em Perdizes (bairro paulistano). Se eu pago caro e minha Internet rápida tem instabilidade, eles estão se intrometendo na minha banda. O ideal é ter uma empresa pública ou qualquer outra que faça um preço menor, com uma qualidade maior. Isso é competição.
Qual a reação das operadoras em relação ao PNBL?
Elas estão entrando na Justiça contra o Plano, pedindo redução de impostos. O problema é que mesmo que você dê impostos zero para essas operadoras, elas continuam com a tarifa mais cara do mundo. Retire para você ver. Aliás, da telefonia não vou nem comentar essa retirada de impostos...
Outra coisa que as operadoras divulgam como grande sucesso é o celular. Mas tomem cuidado com essa coisa fácil. Vá ver como o povo usa o celular: pré-pago, R$ 5,00! 80% ou mais gastam R$ 5,00 por mês porque é muito caro. Isso explica porque aqui o SMS não é tão popular como em outros países. Ele é um dos mais caros do mundo, supera a Venezuela e Argentina. O que está acontecendo no Brasil? Juro que não sei. É um modelo de negócio? Porque isso não decorre de condições tecnológicas. O Brasi é um país tecnologicamente apto. O fato é que as operadoras têm poder e força. No Congresso, ainda têm menos que a bancada dos ruralistas - ainda bem - mas daqui a pouco farão como esses setores fizeram, terão um grande número de deputados lá e aí o governo não mandará mais nada no setor.
A banda larga está crescendo quanto?
Não tenho o número preciso, mas deve ser quase 30% em uma base pequena. Está crescendo porque todos estão interessados e sabem que a rede é vital para tudo hoje. É aquilo que o teórico Manuel Castells dizia: estarão na rede países que não teriam nenhum interesse em estar nela. Mas, para a elite econômica em geral não dá mais para fazer nada sem estar na rede. E eu diria, não só a elite econômica. Há coisas imprescindíveis pelas quais somos todos obrigados a estar conectados.
Quais as medidas necessárias para ampliar a inclusão digital no Brasil?
O crucial é o PNBL com uma tarifa de fato barata, que não chegue a R$10,00; e estabilidade na rede, que a operadora dê uma quantidade de bits por segundo.
Para isso precisamos de investimentos na infraestrutura.
Sim, públicos e privados. Banda larga é vital e temos que acelerar o PNBL. Se abrir uma competição feroz nessa área, a gente força a mudança dessa estrutura. Sem competição, as operadoras não vão mudar. Temos que estabelecer uma competição com esses oligopólios aqui no Brasil, porque pelo modelo particular da privatização, esses grupos acham que nosso país é o festival do caqui. Consideram que não precisam investir, dar qualidade, nem estabilidade. Eles dizem que em 2014, nós teremos banda larga em 80% das cidades. OK, mais quais são as cidades? Primeiro, eu quero ver no papel. Enquanto for percentual, eu sinceramente não acredito.
Segundo, nós precisamos apoiar o fenômeno das lan houses que são de pequenos empresários. Eles precisam de recursos e financiamento. É como boteco na periferia. Isso deve ser feito muito fortemente. Há ações em relação às lan houses, mas elas patinam muito e são pouco efetivas. Terceiro, o setor público nas áreas mais deprimidas economicamente precisa cumprir seu papel e abrir telecentros com Internet gratuita.
E, uma quarta questão é incentivar as cidades a abrir o sinal ou a distribuí-lo, mesmo que gratuitamente. A cidade de Quissamâ (RJ) tinha 90 computadores. Aí o prefeito abriu o sinal gratuito para munícipes que pagam IPTU. Resultado: o número saltou para 1.080 computadores no ano. Hoje você compra computador com mais facilidade. O que é caro é ter uma máquina de escrever não conectada. Os cidadãos precisam estar conectados com o mundo. A conexão é tudo. As cidades precisam ser incentivadas a dar sinal gratuito e os prefeitos a distribuí-los. Isso pode ser feito se a Telebrás lhes der um ponto de banda larga e eles receberem uma quantidade de bits que possam distribuir.
Quanto mais usuários estiverem na rede, mais você diminui a largura da banda, porque fica todo mundo lá. Se o prefeito recebe e abre o sinal, ele estimula empresas que atuam na região a venderem sinal de maior velocidade e com maior estabilidade. Ele pode criar um padrão: "essa banda básica eu dou. Quer melhor, compre". Assim, nós teremos seriedade na estrutura.
E o software livre, Sérgio, tem avançado? Qual a porcentagem hoje?
Tem se consolidado cada vez mais na infraestrutura - softwares embarcados e softwares utilizados por outros setores que não são propriamente ditos de TI (tecnologia da informação). Tem avançado, também, no universo das redes. Na web, cresceu muito e vai crescer mais.
Tem que arrumar gente boa para ser administradora de rede Linux porque hoje faltam profissionais no mercado. Se este profissional sabe bem Linux, tem emprego. Já, se ele sabe bem Windows é diferente, há limitações no controle da própria rede. O profissional de Linux precisa de um conhecimento de TI em um grau maior, porque ele tem que dominar aquele software. Então, nesses segmentos avançou muito.
No segmento de desktop, também. O Brasil é um dos poucos países em que os planos de inclusão digital públicos - quase 70% - são com software livre e por causa das ações do governo. Há grande uso de desktop em aplicativos. No sistema operacional, ele avançou menos, porque é onde tem mais amarração e mais dificuldade de migração. Por outro lado, as tecnologias da informação de acesso a Internet estão indo para o caminho da mobilidade – dos celulares, outros...
Já temos softwares como o Android que é livre. Mas, há um recorte complicado: cada vez mais essas empresas de aparelhos móveis querem fidelizar completamente o seu cliente. Chamou-me muito a atenção quando a Petrobras fez o lançamento da oferta pública de ações que a transformou na 4ª maior empresa do planeta. Fui ver quem estava acima e a 2ª maior era a Apple. Acima da Petrobras! É brincadeira? A Apple deu um salto e passou todo mundo na curva da tecnologia da mobilidade. É uma empresa super proprietária.
Gostaria também de chamar atenção para um outro fato. Quando o Julian Assange, fundador do Wikileaks, começou a ter problemas, e ainda nem tinha sido julgado, as contas dele e do site foram simplesmente deletadas, anuladas no Visa, Mastercard, América Express, PayPal. Eu te pergunto: como isso foi possível? Ele ainda estava sendo acusado. Isso não é visto em nenhum Estado de Direito! Até em caso de traficante, lavagem de dinheiro, a polícia congela os recursos, mas não anula a conta. E cancelaram as contas do Julian! No Facebook, cancelaram o perfil de pessoas que o ajudavam no Wikileaks. Isso foi possível porque partiu de empresas sediadas nos EUA sob a legislação americana e sujeitas às pressões dos agentes de Estado americano, que todos sabemos, não são leves.
A moçada do grupo Anonymus protestou em favor de Julian e armou um ataque que tirou por duas tardes, as compras eletrônicas desses cartões. Como? Usaram o expediente de fazer várias requisições de serviços impossíveis de serem atendidos. Fizeram em apoio à causa do Wikileaks. Não invadiram computador nenhum, mas fizeram o chamado DDoS, uma negação de serviço em que você faz muita requisição, aumenta as solicitações sobre um computador, ele não agüenta e cai.
Em consequência, o então senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG, relator de leis na área de informática), defendeu: “por causa disso temos que ter a Lei”. E eu retruquei, "é exatamente por causa disso que sou contra a Lei". No século XIX o direito de greve era considerado violência, não era legal, porque onde já se viu um peão parar... “E o meu direito de lucrar?” Mas vejam o que aconteceu com o Assange, os caras anularam as contas, a dele e a do seu site!!! Como dizem os advogados, “ao arrepio da lei”.
O que é o software livre? Seu autor permite você copiar, estudar, distribuir as alterações, desde que o trabalho continue coletivo e aberto. Você não pode fechar o conhecimento ou pegar um trabalho coletivo, como fez o Steve Jobs, e fechá-lo com uma interface proprietária. Não pode fazer isso com o Linux, porque a nossa licença nos permitiria processar quem quisesse fechar um conhecimento que precisa continuar aberto. Nós temos que defender aquela ideia de que a liberdade não dá em árvore.
Como está a expansão do software livre no mundo?
Avança no mundo inteiro, mas temos poucas pesquisas e poucos dados. Uma pena, mas isso vai mudar. Temos pesquisas em curso e é preciso que o Comitê (do governo) Gestor da Internet, junto com seu órgão de assessoramento e pesquisas, faça levantamentos sobre código aberto, código fonte, a importância de padrões abertos. Sou conselheiro do Comitê Gestor representando a sociedade civil e vou defender isso. Acho possível obter apoio dos demais conselheiros, inclusive do governo, a esta proposta.
Os dados impressionam, temos 260 mil códigos fontes e um deles é do Linux. São 2,5 milhões de desenvolvedores. Não é um coisa pequena. Esses códigos - texto que um programador escreveu e o outro sabe e pode ler para desenvolvê-lo - estão abertos.
Na realidade, há um confronto hoje na sociedade da informação entre os que acham que o conhecimento gera mais valor social e econômico se estiver distribuído e os que defendem o contrário. A Wikipédia, por exemplo, queimou capital. O que é isso? O trabalho colaborativo permitiu o surgimento de uma Enciclopédia que empresa alguma poderá fazer. O pessoal vai e colabora. Só colaborador ativo nos EUA tem 35 mil; no Brasil, 1.800. Você soma todos os colaboradores do mundo e dá uma empresa gigantesca. A maioria é gente que colabora anonimamente. Vá montar uma Enciclopédia mundial generalista em várias línguas. Você não vai conseguir. Nesse sentido é que queima capital.
Em outros lugares, o software livre é incorporado por grandes empresas. Houve uma licitação da Caixa Econômica Federal (CEF) e a IBM entrou na competição. Uma competição que não era brincadeira, todo mundo olhando e a missão era estabilizar uma máquina de alto processamento. Pois bem, a IBM caiu fora na primeira rodada e os meninos ganharam usando software livre. Claro que a IBM é gigantesca, mas as condições de se trabalhar com o conhecimento se alteram no modelo aberto. É isso o que muitos do PT, comunistas e socialistas espanhóis e históricos não entendem. Eles são a favor da socialização dos meios de produção, mas não querem a socialização do conhecimento, o que eu acho muito engraçado.
Como você analisa a retirada da licença do Creative Commons (CC) do Ministério da Cultura?
É preciso destacar a importância da licença. Se eu pegar uma foto do teu blog e não tiver uma licença, estou violando copyright. Mas, pela lei brasileira, isso não é claro. Posso usar a foto? Posso cortar? Eu preciso de uma segurança jurídica. O CC é um movimento mundial de flexibilização das duras leis de copyright em função dos interesses da indústria de intermediação, afetada pela expansão da Internet.
Aquilo que a ministra Ana de Hollanda disse de que “não há distribuição de cultura sem direito” é uma bobagem. Esta ideia foi importante para montar uma indústria cultural. Mas o que Walt Disney fez? Ele pegou os contos populares da literatura dos irmãos Grimm e os adocicou. Ninguém gostaria da Branca de Neve dos irmãos Grimm. O próprio Mickey Mouse imitando cantor de jazz é uma cópia do filme “O cantor de jazz”. Ele remixou.
A base da cultura é o domínio público. O que ele fez foi importante, mas hoje tudo isso é proibido pela lei. Não bastasse isso, o Ministério da Cultura ampliou a proteção da obra. Proteção de quê? O que eles chamam de “proteção”, eu chamo de cerceamento. Ampliaram o cerceamento de 70 anos para 95, após a morte do autor. Por quê? O Mickey Mouse iria cair em domínio público e todos poderiam usá-lo ou remixá-lo. Então, os estúdio Disney, seguindo na contramão do mestre Walt - que já morreu - ampliaram o tempo de "proteção" à obra.
No Brasil nós cerceamos 70 anos. Gostaria de saber qual autor a ministra Ana de Hollanda quer incentivar já que ele morreu há 70 anos! Talvez seja a lógica de divulgar o defunto-autor, uma nova linha machadiana... Toda essa legislação de copyright que ela defende não tem sustentação. Ela acaba defendendo só as corporações. Não é à toa que a ministra tira o símbolo do CC e diz “tirei apenas o símbolo de uma licença americana”. É uma ofensa à nossa inteligência. Ana de Hollanda devia entrar no site da Al Jazeera – que não me parece ter nada a ver com os EUA – e ver o que está escrito ali. Eles licenciaram seus conteúdos em CC.
Neste aspecto, a política da ministra Ana de Hollanda é nefasta. Não conheço a ministra, ela pode ser legal, gente boa, mas neste aspecto é nefasto. Não a ministra, mas a política dela. Os argumentos que ela traz são do ECAD. Eu os conheço, fui a vários debates deles. A mesma escolinha: dizem que o CC é entidade americana e tal... Na realidade, esse tipo de argumento quer manter o copyright duro e até expandido por mais tempo. E a lei do copyright precisa de uma reforma em outros pontos. Mas, o que a ministra faz? Diz “vou convocar especialistas”. Nega, assim, todo o trabalho que a gente fez, aberto, com todo mundo em todas áreas. Ela quer trazer os especialistas dela. É um desrespeito dela para com a sociedade civil organizada que trabalhou nessa reforma.
Mas, tudo bem. Ela não quer encaminhar ao Congresso o projeto de reformas da lei copyright. E aí, ela é aplaudida por quem? Associação Internacional de Propriedade Intelectual! Composta pelos sete grandes da indústria de intermediação norte-americana. Eles fazem um elogio claro à ministra. Quer dizer, quem é nacionalista nessa história da reforma? Ela está com a indústria de Hollywood que persegue meninos... 28 mil jovens estão sendo processados por partilharem arquivos digitais. Aqui no Brasil, não avançaram para cima dessa meninada porque o governo do presidente Lula foi contra. Agora, mudou nessa área. E isso me preocupa muito.
Quando alguém faz um vídeo e coloca CC, este selo diz exatamente o que é permitido fazer, se pode vender ou não, aliás, há vários tipos de CC. E eu posso fazer de tudo desde que respeite a licença. Acho que ela está sendo apoiada por segmentos que são contra o compartilhamento. O PT precisa tomar uma decisão. Na questão do PNBL, no ano passado, quando houve um certo atrito com o ministro Hélio Costa, o presidente Lula tomou uma decisão. Foi para o lado da Telebrás e enquadrou as teles. Não teve embate porque o ministro (Hélio Costa) era aliado a esta política. Aliás, o presidente Lula lançou o blog do Planalto com CC.
A pergunta é: a presidente Dilma vai fazer o quê? Não tem nenhum embate, ninguém está perguntando agora, mas vai gerar um problema, porque a ministra pode mudar a política, revertê-la. Há quem diga que “é um exagero, a ministra (Ana de Hollanda) mal chegou”. Não é. A ministra chegou dando um sinal claro: vai reverter a política de compartilhamento, porque para ela domínio público não é importante. O importante é a proteção do autor. Esse é o discurso dela. E nós sabemos que ela está falando da indústria do copyright. Infelizmente, escolheram uma ministra que vem na contramão do que havíamos feito no governo Lula. As pessoas dizem que nada disso é importante. Como não é importante? É a política que consolidou o Brasil no plano cultural mundial como um país avançado.
Você pode dizer “o MinC está defendendo os artistas, os criadores...” Não, está defendendo a indústria de intermediação. Espero que esse retrocesso sirva pra gente afirmar a política avançada de compartilhamento de conhecimento. Eu não gosto da postura da ministra em relação ao mundo digital. Não sei qual é a política dela porque, por enquanto, ela só desmontou.
Qual a sua visão ou sugestão para uma Lei de Direitos Autorais na Internet?
Nós temos que abrir espaço para uma ideia muito importante. A maioria da humanidade nunca viveu de propriedade, mas de relacionamento. A Internet permite o relacionamento. Quando o escritor Paulo Coelho libera todo o conteúdo dele na rede, ele diz: “eu quero que todo mundo pegue porque eu vivo de relacionamento. O meu dinheiro vem da minha relação." Então, nós temos que abrir espaços para vários modelos de negócios, incentivar várias tentativas, coisas diferentes que estejam tipicamente naquilo que é compreensível no bem material.
Estou falando de uma economia de troca que não tem escassez. É uma outra economia. É preciso encontrar outras formas de universalizar esta nova economia digital. Esse pessoal não quer reconhecer isso. É o pessoal do lampião de gás que quer impedir o avanço da energia elétrica. Por que o MinC não abre um edital para os músicos fazerem um grande portal de música com licenças permissivas de uso? E que este portal seja tão grande que todos possam ir lá toda hora? Audiência grande dá dinheiro, todos sabem. Na rede, dinheiro é relação. Por que não outros modos de preservar o direito autoral?
Até parece que a maior parte do nosso faturamento na área é como nos EUA, onde as receitas vêm de copyright e patente. Claro que não é. Pega os escritores, o pessoal que vive de copyright não chega a 100... Na verdade, é pouco mais de meia dúzia. Os grandes Mário de Andrade, Carlos Drummond, Machado de Assis não viviam de direito autoral, eram todos funcionários públicos. Esta é a realidade. Estão falando de um negócio que não existe. Nossos modelos podem ser encontrados se você entender que a cultura sempre foi maior do que o mercado; e que a maior parte das pessoas, mesmo os artistas, não vive de propriedade, mas de relacionamento - do artista com quem o admira. O que as redes permitem? Mais relacionamento. O que a ministra quer fazer? Reduzir o relacionamento.
Existe algum tipo de controle da Internet que atinja a privacidade das pessoas? Corremos algum risco de censura?
O senso comum acha que a Internet é uma selva, um antro da perdição. A Internet é uma rede cibernética de controle de comunicação. Se você pegar a antena da TV Globo analógica, você não sabe se tem um ou cem mil assistindo a determinado programa. Para saber, eles contratam o IBOPE que tem um esquema de amostragem domiciliar. Na Internet, não funciona assim. Ela é uma rede de controle exatamente porque nela não se navega em hipótese alguma sem o número de IP. Toda vez que eu abro um site, seja do PT ou de um outro que eu nunca vi, da Turquia, eu faço uma requisição para este site. Coloco o endereço dele e peço um pedido de informação que vai até a máquina que hospeda o site e traz a informação para que eu possa acessá-lo. Então, para devolver essa informação, ela tem que te localizar, ou você não abre o que pediu. A Internet já é uma rede de controle, e quanto mais distribuída, mais tecnicamente controlada.
Aí, os espertos dizem: “não, eu quero identificação das pessoas”, ou seja, vincular o IP ao nome de uma pessoa. Na hora em que você faz o cadastro e vincula a pessoa ao número de IP, essa pessoa está registrada em várias máquinas pelo caminho. Agora, não se navega sem deixar um rastro digital. Transformar este controle técnico em controle político é muito simples. Hoje, a Internet tem um antídoto: o anonimato. E não estou dizendo anonimato de expressão, mas de navegação. É como andar na rua. Você anda na rua sem obrigatoriedade de identificação. O Ministério da Saúde, por exemplo, pode contratar uma empresa para saber todo mundo que está divulgando um remédio X, dizendo que ele é legal, quando na realidade é ilegal.
Então, é uma rede de extremo controle. Se não cuidarmos da defesa das liberdades, do funcionamento que a rede teve até então baseada no anonimato civil, estaremos criando uma sociedade de hipercontrole que não é correto. Há, também, outra polêmica econômica envolvida nisso. Nos EUA, a Comcast, empresa de TV a cabo que oferece conexão de Internet, ganhou o direito de precificar diferentemente os pacotes de informação que passam na Internet. Ela violou o principio de neutralidade na rede.
Na Internet, a informação não navega em estado puro. Há pacotes de informações, como se fossem contêiners de um navio. Esses pacotes ou datagramas (como são chamados) navegam com um IP de origem que indica de onde veio, para onde vai e qual a aplicação (se é texto, e-mail, imagem etc). A informação, portanto, é transferida no sinal que passa pela rede de uma operadora. Mas o que está acontecendo? A operadora diz: “como eu controlo o cabo em que passa esse sinal elétrico, o vídeo come muito a minha banda, então, quem quiser usar vídeo terá que pagar mais caro”.
Eles querem transformar a Internet em uma grande rede de TV a cabo, na qual você tem pacotes. Para usar o Youtube paga X, baixar música Y... Só que isso fere a seguinte ideia: quem controla a infraestrutura tem que ser neutro em relação às outras camadas lógicas da Internet. O caso é grave. Durante a eleição do presidente Barack Obama, o Pearl Jeam mudou a música do Pink Floyd dizendo para o Bush "deixe o mundo em paz", mas a rede da AT&T cortou o som durante a transmissão do show. Eles têm como cortar. Agora, se é o Estado que corta chamam de censura. Mas, quando é uma rede privada transnacional chama o quê?
É preciso dizer o que pode e o que não pode na Internet. Censura a gente fala de uma situação política e todos sabem que o corte do cabo foi censura, mas eles dizem que não é. Então, por motivos econômicos, políticos e culturais, as empresas querem quebrar a neutralidade na rede, arvorar-se do direito de dizer o que você pode ou não pode fazer. Veja que loucura! A rede é transnacional, os cabos perpassam os países, como controlar isso ? São redes de empresas privadas que fazem o que querem.
Por que estamos brigando? Estamos brigando para que cada país aprove leis e garanta o princípio da neutralidade, o que é uma tarefa hercúlea. No Brasil, no ano passado, foi feito um projeto de lei extremamente inovador, que contou com a contribuição de todos pela rede. O Ministério da Justiça fez um processo inovador, esperamos agora que o atual ministro José Eduardo Martins Cardozo mande o projeto do Marco Civil da Internet (a regulamentação da Internet no Brasil) para o Congresso Nacional.
O projeto vem com força da sociedade civil e nós vamos debatê-lo, inclusive, com as operadoras que vão querer a garantia do princípio de mercado na Internet. Elas dizem “a Internet é um mercado”. Não é! A Internet não se guia por critérios de mercado. Quem se guia por eles são as operadoras, os negócios que têm dentro da Internet. No ciberespaço não existia discriminação de pacotes, todos os pacotes e todos datagramas eram iguais perante a lei. Não é mais, porque o controlador da infraestrutura descobriu que pode controlar o fluxo. Então, por fatores econômicos e políticos, estamos num momento muito grave da vida/história da Internet.
Quais os desafios que a tecnologia coloca para o nosso país hoje e para onde caminham os avanços?
Do ponto de vista tecnológico, nós precisamos incentivar os criadores e remixadores de tecnologia. Não faremos isso sem estimular as comunidades de código aberto. Precisamos dar muita força a elas. Aquilo que o Gilberto Gil fez no MinC com os pontos de cultura, nós precisamos fazer agora com a tecnologia. O velho economista, da velha guarda do mundo industrial, não concebe que a tecnologia seja feita fora da firma. Mas, isso não existe mais. Eles ainda pensam na tecnologia dentro da firma ou com os sinais do mercado.
É preciso trazer a ebulição tecnológica e científica para essa meninada que está criando. Para o Brasil dar o salto tecnológico, temos que pegar a próxima curva e não vamos criar isso do além. Ciência se cria em cima de ciência. Tecnologia em cima de tecnologia. Hoje, o nosso grande desafio é transformar o Brasil em um país inventor e criador de tecnologia, principalmente da informação, que está em todas as áreas - medicina, biologia, nanotecnologia.
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domingo, 13 de março de 2011
O poder da internet: fatos x versões - Venício A. de Lima - CARTAMAIOR -
Embora seja mais fácil e simpático estabelecer, sem mais, uma relação de causalidade direta entre as novas TICs e a derrubada, por exemplo, do velho ditador egípcio, talvez seja prudente não precipitar conclusões.
Venício Lima
Os últimos acontecimentos políticos no norte da África constituem ocasião singular para observação do papel da mídia no mundo contemporâneo. Da nova e da velha mídia.
Embora seja mais fácil e simpático estabelecer, sem mais, uma relação de causalidade direta entre as novas TICs e a derrubada, por exemplo, do velho ditador egípcio, talvez seja prudente não precipitar conclusões.
A palavra do especialista
Quando esteve no Brasil, a convite do Centro Ruth Cardoso, aquele que muitos consideram a maior autoridade mundial da chamada “sociedade-rede”, Manuel Castells, em entrevista à Folha de São Paulo conduzida dentro do controvertido enquadramento de “decepção com o papel da internet no processo eleitoral brasileiro”, declarou às vésperas do primeiro turno das eleições de 2010:
“O Brasil segue uma dinâmica assistencialista em que da política se esperam subsídios e favores, mais do que políticas. A situação econômica do país melhorou consideravelmente. (...) A renovação do sistema político exige que as pessoas queiram uma mudança, e isso normalmente ocorre quando existem crises. A internet serve para amplificar e articular os movimentos autônomos da sociedade. Ora, se essa sociedade não quer mudar, a internet servirá para que não mude” [grifo meu; cf. http://www1.folha.uol.com.br/poder/801906-se-um-pais-nao-quer-mudar-nao-e-a-internet-que-ira-muda-lo-diz-sociologo-espanhol.shtml].
Recentemente, diante das manifestações populares na Tunísia e no Egypto, perguntado se estava surpreso pela mobilização social, Castells respondeu:
“Na verdade não. No meu livro ‘Comunicação e Poder’, dediquei muitas paginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreiras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente. As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas” [grifo meu; cf. http://www.outraspalavras.net/2011/03/01/castells-sobre-internet-e-insurreicao-e-so-o-comeco/ ].
Embora se referindo a situações radicalmente distintas, Castells indica que as TICs – redes sociais, celulares e outros – não causam os movimentos sociais mas funcionam como “condição necessária” para a ampliação e articulação deles. E, por óbvio, é necessário que as TICs estejam suficientemente (?) difundidas na sociedade em questão, seja ela o Brasil ou a Tunísia.
A velha mídia
Por outro lado, comentando depoimento da Secretaria de Estado Hillary Clinton no Comitê de Política Externa do Senado dos Estados Unidos, no dia 2 de março, no qual ela afirmou que os EUA estavam perdendo a “guerra da informação” (sic) para a rede Al Jazeera, o jornalista político escocês-estadunidense Alexander Cockburn, um dos editores do jornal CounterPunch, lembrou:
“(...) há uma florescente pequena indústria da internet que afirma que a derrubada de Mubarak ocorreu por cortesia do comando Twitter-Facebook dos EUA. O New York Times publicou numerosos artigos sobre o papel do Twitter e do Facebook enquanto ignora ou vilipendia ao mesmo tempo Julian Assange e Wikileaks. Por certo, em qualquer discussão sobre o papel da internet na convocação dos levantes no Oriente Médio, deveria se dar o maior crédito ao Wikileaks. Mas Wikileaks, junto com Twitter e Facebook, tornam-se quase insignificantes em comparação com o papel exercido pela Al Jazeera. Milhões de árabes não podem tuitar e não estão familiarizados com o Facebook. Mas a maioria vê televisão, o que significa que todos assistem à Al Jazeera, a qual detonou o “artefato explosivo improvisado” que estourou sob a Autoridade Palestina, a saber, o conjunto de documentos conhecidos como Palestine Papers” [cf. http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17511 ].
Para Hillary e para Cockburn a “guerra da informação” continua sendo travada e disputada, de fato, no território da velha televisão.
Ainda Gramsci
Todas essas considerações são apenas para repetir a cautela que tenho reiterado em relação às interpretações que atribuem, sem mais, poderes mágicos e revolucionários às novas TICs.
Nos “Cadernos de Cárcere” quando Antonio Gramsci (1891-1937) comenta sobre a "crise de autoridade" (Selections of the Prison Notebooks; International Publishers, New York, 1971; págs. 275-276), embora, por óbvio, as circunstâncias fossem outras e seja necessária uma pequena adaptação no texto, penso que se aplica ao nosso momento histórico a idéia de que "o velho está morrendo e o novo apenas acaba de nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece" (a frase original correta é: "A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece").
Um pouco de cautela talvez não nos leve a conclusões precipitadas sobre o real poder das novas TICs. E, mais importante, evite erros graves na avaliação e na formulação de políticas públicas para as comunicações.
Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.
Venício Lima
Os últimos acontecimentos políticos no norte da África constituem ocasião singular para observação do papel da mídia no mundo contemporâneo. Da nova e da velha mídia.
Embora seja mais fácil e simpático estabelecer, sem mais, uma relação de causalidade direta entre as novas TICs e a derrubada, por exemplo, do velho ditador egípcio, talvez seja prudente não precipitar conclusões.
A palavra do especialista
Quando esteve no Brasil, a convite do Centro Ruth Cardoso, aquele que muitos consideram a maior autoridade mundial da chamada “sociedade-rede”, Manuel Castells, em entrevista à Folha de São Paulo conduzida dentro do controvertido enquadramento de “decepção com o papel da internet no processo eleitoral brasileiro”, declarou às vésperas do primeiro turno das eleições de 2010:
“O Brasil segue uma dinâmica assistencialista em que da política se esperam subsídios e favores, mais do que políticas. A situação econômica do país melhorou consideravelmente. (...) A renovação do sistema político exige que as pessoas queiram uma mudança, e isso normalmente ocorre quando existem crises. A internet serve para amplificar e articular os movimentos autônomos da sociedade. Ora, se essa sociedade não quer mudar, a internet servirá para que não mude” [grifo meu; cf. http://www1.folha.uol.com.br/poder/801906-se-um-pais-nao-quer-mudar-nao-e-a-internet-que-ira-muda-lo-diz-sociologo-espanhol.shtml].
Recentemente, diante das manifestações populares na Tunísia e no Egypto, perguntado se estava surpreso pela mobilização social, Castells respondeu:
“Na verdade não. No meu livro ‘Comunicação e Poder’, dediquei muitas paginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreiras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente. As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas” [grifo meu; cf. http://www.outraspalavras.net/2011/03/01/castells-sobre-internet-e-insurreicao-e-so-o-comeco/ ].
Embora se referindo a situações radicalmente distintas, Castells indica que as TICs – redes sociais, celulares e outros – não causam os movimentos sociais mas funcionam como “condição necessária” para a ampliação e articulação deles. E, por óbvio, é necessário que as TICs estejam suficientemente (?) difundidas na sociedade em questão, seja ela o Brasil ou a Tunísia.
A velha mídia
Por outro lado, comentando depoimento da Secretaria de Estado Hillary Clinton no Comitê de Política Externa do Senado dos Estados Unidos, no dia 2 de março, no qual ela afirmou que os EUA estavam perdendo a “guerra da informação” (sic) para a rede Al Jazeera, o jornalista político escocês-estadunidense Alexander Cockburn, um dos editores do jornal CounterPunch, lembrou:
“(...) há uma florescente pequena indústria da internet que afirma que a derrubada de Mubarak ocorreu por cortesia do comando Twitter-Facebook dos EUA. O New York Times publicou numerosos artigos sobre o papel do Twitter e do Facebook enquanto ignora ou vilipendia ao mesmo tempo Julian Assange e Wikileaks. Por certo, em qualquer discussão sobre o papel da internet na convocação dos levantes no Oriente Médio, deveria se dar o maior crédito ao Wikileaks. Mas Wikileaks, junto com Twitter e Facebook, tornam-se quase insignificantes em comparação com o papel exercido pela Al Jazeera. Milhões de árabes não podem tuitar e não estão familiarizados com o Facebook. Mas a maioria vê televisão, o que significa que todos assistem à Al Jazeera, a qual detonou o “artefato explosivo improvisado” que estourou sob a Autoridade Palestina, a saber, o conjunto de documentos conhecidos como Palestine Papers” [cf. http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17511 ].
Para Hillary e para Cockburn a “guerra da informação” continua sendo travada e disputada, de fato, no território da velha televisão.
Ainda Gramsci
Todas essas considerações são apenas para repetir a cautela que tenho reiterado em relação às interpretações que atribuem, sem mais, poderes mágicos e revolucionários às novas TICs.
Nos “Cadernos de Cárcere” quando Antonio Gramsci (1891-1937) comenta sobre a "crise de autoridade" (Selections of the Prison Notebooks; International Publishers, New York, 1971; págs. 275-276), embora, por óbvio, as circunstâncias fossem outras e seja necessária uma pequena adaptação no texto, penso que se aplica ao nosso momento histórico a idéia de que "o velho está morrendo e o novo apenas acaba de nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece" (a frase original correta é: "A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece").
Um pouco de cautela talvez não nos leve a conclusões precipitadas sobre o real poder das novas TICs. E, mais importante, evite erros graves na avaliação e na formulação de políticas públicas para as comunicações.
Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.
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internet e poder - MANUEL CASTELLS - A era das wikirrevoluções- observatório da imprensa
Por Jordi Rovira em 8/3/2011
Reproduzido da IHU – Instituto Humanitas Unisinos, 2/3/2011; intertítulos do OI
Os meios de comunicação passaram semanas centrando sua atenção na Tunísia no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi terminaram em poucos dias com a ditadura de Ben Ali e, na sequência, como peças enfileiradas de dominó, com a "presidência" de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrein e Omã.
Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial – em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Ante esse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sob o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação ao seu alcance.
A entrevista foi concedida a Jordi Rovira, publicada no portal da Universitad Oberta de Catalunya e reproduzida pelo sítio Outras Palavras, 01-03-2011. A tradução é de Cauê Ameni.
***
Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países, em sua mobilização?
Manuel Castells – Na verdade, não. No meu livro Comunicação e Poder dediquei muitas páginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreiras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente. As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de "auto-comunicação de massas".
Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como consequência lógica, ainda de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?
M.C. – As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade. E talvez a mais importante das muitas transformações que a internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.
Uma predisposição ideológica
A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõe de acesso à internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha – usando suas próprias palavras, entre "conectados" e "desconectados" – ainda maior que a que se dá nos países desenvolvidos?
M.C. – O dado já está antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à internet – se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%. Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana esta conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas um número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos e pudessem derrotar o ditador.
A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa hoje em dia e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.
Cohn Bendit era símbolo, não um líder
Até que ponto o poder dispõe de ferramentas necessárias para sufocar as insurreições promovidas desde a rede?
M.C. – Não as tem. No Egito, inclusive, tentaram desconectar toda a rede e não conseguiram. Houve mil formas, incluindo conexões fixas de telefone a número no exterior, que transformavam automaticamente as mensagens em tweets e fax no país. E o custo econômico e funcional da desconexão da internet é tão alto que tiveram que restaurá-la rapidamente.
Hoje em dia, um apagão da rede é como um elétrico. Ben Ali não caiu tão rápido, houve um mês de manifestações e massacres. O Irã não pode se desconectar a rede: os manifestantes estiveram sempre comunicando-se e expondo suas ações em vídeos no YouTube. A diferença é que ali, politicamente, o regime teve força para reprimir selvagemente sem que interviesse o exército. Porém as sementes da rebelião estão plantadas e os jovens iranianos, 70% da população, estão agora maciçamente contra o regime. É questão de tempo.
A mobilização popular através dos meios digitais criou heróis da cibernética no Egito – como Weal Ghonim, o jovem executivo do Google. Que papel podem desempenhar esses novos lideres no futuro de seus países?
M.C. – O importante das "wikirrevoluções" (as que se auto-geram e se auto-organizam) é que as lideranças não contam, são puros símbolos. Símbolos que não mandam nada, pois ninguém os obedeceria e eles tampouco tentariam impor-se. Pode ser que, uma vez institucionalizada, a revolução coopte se algumas destas pessoas como símbolos de mudanças – ainda que eu duvide muito que Ghonim queira ser político. Cohn Bendit era também um símbolo, não um líder. Foi estudante e amigo meu em 68. Ele era um autêntico anarquista: rechaçava as decisões dos líderes e utilizava seu carisma (foi o primeiro a ser reprimido) para ajudar a mobilização espontânea. Walesa foi diferente, um vaticanista do aparato sindical. Por isso, tornou-se político rapidamente. Cohn Bendit tardou muito mais e ainda assim é, fundamentalmente um verde, que mantém valores de respeito às origens dos movimentos sociais.
72% dos chineses apoiam o governo
A aliança entre meios de comunicação convencional e novas tecnologias é o caminho a seguir no futuro para enfrentar com êxito os grandes desafios?
M.C. – Os grande meios de comunicação não têm escolha. Ou se aliam com a internet e com o jornalismo cidadão, ou irão se marginalizando e tornando-se economicamente insustentáveis. Mas hoje, essa aliança ainda é decisiva para a mudança social. Sem Al Jazira não teria havido revolução na Tunísia.
Em um artigo intitulado "Comunicação e Revolução", você recordou que em 5 de fevereiro a China havia proibido a palavra Egito na internet. Acredita que existem condições para que possa ocorrer, no gigante asiático, um movimento popular parecido com o que está percorrendo o mundo árabe?
M.C. – Não, porque 72% dos chineses apoiam seu governo. A classe média urbana, sobretudo os jovens, estão muito ocupados enriquecendo-se. Os verdadeiros problemas do campesinato e operários – ou seja, os verdadeiros problemas sociais da China – encontram se muito longe. O governo resguarda-se demais porque a censura antagoniza muita gente que não está realmente contra o regime. Na China, a democracia não é, hoje, um problema para a maioria das pessoas, diferente do que ocorria na Tunísia e no Egito.
Os EUA consideram prioritária a ciberguerra
Esse novo tipo de comunicação, globalizada, atomizada e que se nutre da colaboração de milhões de usuários, pode chegar a transformar nossa maneira de entender a comunicação interpessoal? Ou é apenas uma ferramenta potente a mais à nossa disposição?
M.C. – Já transformou. Ninguém que está inserido diariamente nas rede sociais (este é o caso de 700 dos 1,2 milhões de usuários) segue sendo a mesma pessoa. Mas não é um mundo esotérico: há uma inter-relação online/off-line. Como esta comunicação mudou, e muda a cada dia, é uma questão que se deve responder por meio de investigação acadêmica, não através de especialistas em fofocas. E por isso empreendemos o Projeto Internet Catalunha na UOC.
Podemos dizer que os ciber-ataques serão a guerra do futuro?
M.C. – Na realidade, esta guerra já faz parte do presente. Os Estados Unidos consideram prioritária a ciberguerra. Destinaram a este tema um orçamento dez vezes maior que todos os demais países juntos. Na Espanha, as Forças Armadas também estão se equipando rapidamente na mesma direção. A internet é o espaço do poder e da felicidade, da paz e da guerra. É o espaço social do nosso mundo, um lugar híbrido, construído na interface entre a experiência direta e a mediada pela comunicação e, sobretudo, pela comunicação na internet.
Reproduzido da IHU – Instituto Humanitas Unisinos, 2/3/2011; intertítulos do OI
Os meios de comunicação passaram semanas centrando sua atenção na Tunísia no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi terminaram em poucos dias com a ditadura de Ben Ali e, na sequência, como peças enfileiradas de dominó, com a "presidência" de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrein e Omã.
Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial – em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Ante esse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sob o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação ao seu alcance.
A entrevista foi concedida a Jordi Rovira, publicada no portal da Universitad Oberta de Catalunya e reproduzida pelo sítio Outras Palavras, 01-03-2011. A tradução é de Cauê Ameni.
***
Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países, em sua mobilização?
Manuel Castells – Na verdade, não. No meu livro Comunicação e Poder dediquei muitas páginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreiras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente. As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de "auto-comunicação de massas".
Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como consequência lógica, ainda de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?
M.C. – As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade. E talvez a mais importante das muitas transformações que a internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.
Uma predisposição ideológica
A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõe de acesso à internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha – usando suas próprias palavras, entre "conectados" e "desconectados" – ainda maior que a que se dá nos países desenvolvidos?
M.C. – O dado já está antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à internet – se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%. Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana esta conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas um número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos e pudessem derrotar o ditador.
A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa hoje em dia e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.
Cohn Bendit era símbolo, não um líder
Até que ponto o poder dispõe de ferramentas necessárias para sufocar as insurreições promovidas desde a rede?
M.C. – Não as tem. No Egito, inclusive, tentaram desconectar toda a rede e não conseguiram. Houve mil formas, incluindo conexões fixas de telefone a número no exterior, que transformavam automaticamente as mensagens em tweets e fax no país. E o custo econômico e funcional da desconexão da internet é tão alto que tiveram que restaurá-la rapidamente.
Hoje em dia, um apagão da rede é como um elétrico. Ben Ali não caiu tão rápido, houve um mês de manifestações e massacres. O Irã não pode se desconectar a rede: os manifestantes estiveram sempre comunicando-se e expondo suas ações em vídeos no YouTube. A diferença é que ali, politicamente, o regime teve força para reprimir selvagemente sem que interviesse o exército. Porém as sementes da rebelião estão plantadas e os jovens iranianos, 70% da população, estão agora maciçamente contra o regime. É questão de tempo.
A mobilização popular através dos meios digitais criou heróis da cibernética no Egito – como Weal Ghonim, o jovem executivo do Google. Que papel podem desempenhar esses novos lideres no futuro de seus países?
M.C. – O importante das "wikirrevoluções" (as que se auto-geram e se auto-organizam) é que as lideranças não contam, são puros símbolos. Símbolos que não mandam nada, pois ninguém os obedeceria e eles tampouco tentariam impor-se. Pode ser que, uma vez institucionalizada, a revolução coopte se algumas destas pessoas como símbolos de mudanças – ainda que eu duvide muito que Ghonim queira ser político. Cohn Bendit era também um símbolo, não um líder. Foi estudante e amigo meu em 68. Ele era um autêntico anarquista: rechaçava as decisões dos líderes e utilizava seu carisma (foi o primeiro a ser reprimido) para ajudar a mobilização espontânea. Walesa foi diferente, um vaticanista do aparato sindical. Por isso, tornou-se político rapidamente. Cohn Bendit tardou muito mais e ainda assim é, fundamentalmente um verde, que mantém valores de respeito às origens dos movimentos sociais.
72% dos chineses apoiam o governo
A aliança entre meios de comunicação convencional e novas tecnologias é o caminho a seguir no futuro para enfrentar com êxito os grandes desafios?
M.C. – Os grande meios de comunicação não têm escolha. Ou se aliam com a internet e com o jornalismo cidadão, ou irão se marginalizando e tornando-se economicamente insustentáveis. Mas hoje, essa aliança ainda é decisiva para a mudança social. Sem Al Jazira não teria havido revolução na Tunísia.
Em um artigo intitulado "Comunicação e Revolução", você recordou que em 5 de fevereiro a China havia proibido a palavra Egito na internet. Acredita que existem condições para que possa ocorrer, no gigante asiático, um movimento popular parecido com o que está percorrendo o mundo árabe?
M.C. – Não, porque 72% dos chineses apoiam seu governo. A classe média urbana, sobretudo os jovens, estão muito ocupados enriquecendo-se. Os verdadeiros problemas do campesinato e operários – ou seja, os verdadeiros problemas sociais da China – encontram se muito longe. O governo resguarda-se demais porque a censura antagoniza muita gente que não está realmente contra o regime. Na China, a democracia não é, hoje, um problema para a maioria das pessoas, diferente do que ocorria na Tunísia e no Egito.
Os EUA consideram prioritária a ciberguerra
Esse novo tipo de comunicação, globalizada, atomizada e que se nutre da colaboração de milhões de usuários, pode chegar a transformar nossa maneira de entender a comunicação interpessoal? Ou é apenas uma ferramenta potente a mais à nossa disposição?
M.C. – Já transformou. Ninguém que está inserido diariamente nas rede sociais (este é o caso de 700 dos 1,2 milhões de usuários) segue sendo a mesma pessoa. Mas não é um mundo esotérico: há uma inter-relação online/off-line. Como esta comunicação mudou, e muda a cada dia, é uma questão que se deve responder por meio de investigação acadêmica, não através de especialistas em fofocas. E por isso empreendemos o Projeto Internet Catalunha na UOC.
Podemos dizer que os ciber-ataques serão a guerra do futuro?
M.C. – Na realidade, esta guerra já faz parte do presente. Os Estados Unidos consideram prioritária a ciberguerra. Destinaram a este tema um orçamento dez vezes maior que todos os demais países juntos. Na Espanha, as Forças Armadas também estão se equipando rapidamente na mesma direção. A internet é o espaço do poder e da felicidade, da paz e da guerra. É o espaço social do nosso mundo, um lugar híbrido, construído na interface entre a experiência direta e a mediada pela comunicação e, sobretudo, pela comunicação na internet.
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observatório da imprensa
quarta-feira, 2 de março de 2011
internet - O mundo em rede- observatório da imprensa
Por Fábio Barbosa em 1/3/2011
Reproduzido da seção "Tendências/Debates" da Folha de S.Paulo, 27/2/2011; intertítulo do OI
A interdependência veio para ficar e já está alterando, há algum tempo, a relação entre os países. Tendências como os fluxos migratórios, problemas ambientais e crises financeiras têm passado por cima das fronteiras, demonstrando até pouco respeito à independência de cada país. Uma crise num mercado se alastra rapidamente para outro e, portanto, aumenta a necessidade de coordenação entre os países. Acordos financeiros globais são negociados em Basileia, acordos ambientais, em Kyoto e em Copenhague, e negociações sobre fluxos migratórios são tratadas entre blocos econômicos, quando não através de (frustradas e frustrantes) construções de muros.
A independência de um país para definir o destino dentro dos seus domínios está sendo cada vez mais abalada pela interdependência que se sobrepõe. Os governos não estão aparelhados para lidar com essa crescente onda de problemas supranacionais e só agora começam verdadeiramente a buscar novos caminhos, pressionados pelos novos tempos. A notícia é que a interdependência será cada vez maior, goste-se ou não. Com 5,3 bilhões de celulares no mundo e com cerca de 2 bilhões de pessoas conectadas pela internet (dados da União Internacional de Telecomunicações), a comunicação está mais rápida do que nossos padrões de conhecimento conseguem compreender. Isso impacta a todos, mas se dá de forma mais acentuada, claro, entre os jovens.
Transparência e interdependência
Um fato recente que tem chamado muito a atenção é o que está acontecendo em vários países do mundo árabe. Não vou explorar o aspecto político, mas destacar o papel dos jovens na mobilização da sociedade pelas redes sociais. Foi com esse mecanismo pouco estruturado, mas muito eficiente, que concentrações enormes foram articuladas. Da forma como estão organizados, os governos também não estão conseguindo compreender e muito menos controlar essa rede de informações. É tudo muito rápido e muito fluido. Os tempos do que se chamava de "comando e controle" estão ficando para trás. Caso recente e ilustrativo é o de alguns congressistas de países ocidentais que ficaram perplexos com os acontecimentos no mundo árabe. O foco dessa perplexidade, porém, não é no que aconteceu em si, mas em como lidar com essa nova situação em que a informação sobre as mobilizações chega diretamente a eles e a todos, via redes sociais, antes mesmo que seus sofisticados serviços de informação secretos tenham tido tempo de saber, entender e interpretar.
O fenômeno das redes sociais impacta também as empresas e, por conta disso, elas precisam aprender a tratar com novas mídias dentro de casa (blogs) e nas relações com o mercado (Facebook, internet, blogs e Twitter). A fonte de notícias não é mais somente a mídia tradicional. Além de TVs, jornais, revistas e rádio, a divulgação das informações também já está definitivamente online, pulverizada e democratizada. Novos tempos. Muitos hábitos dos jovens também estão mudando por conta disso e sua fonte de informações é muito diversa. Por exemplo, no caso de produtos e serviços, os jovens se informam não só pela propaganda dos anunciantes, mas querem saber pelas redes sociais o que seus amigos acham da experiência que tiveram com determinado produto ou serviço.
Difícil dizer quais serão as implicações de todas essas mudanças. Arrisco-me, porém, a dizer que serão mudanças muito positivas, pois teremos mais transparência, mais participação, mais engajamento. Vejo os jovens do mundo inteiro ávidos por serem protagonistas desse mundo interdependente, contando agora com um instrumento de comunicação e participação – as redes sociais – que é formado por eles, consolidando, agora, sim, a aldeia global. Com a boa-nova de que esses jovens estão conectados de maneira mais intensa e com consciência social e ambiental maior do que a geração anterior.
O mundo já está e ficará ainda mais transparente e interdependente. E isso é uma excelente notícia.
MÍDIAS SOCIAIS
A serviço do leitor e do jornalismo
Por Wemerson Augusto em 1/3/2011
O que as redes sociais têm a ver com o jornalismo? Existe uma frente de jornalistas e um crescente número veículos de imprensa, principalmente os portais, que utilizam as mídias sociais para interagir com leitores e fontes e, de quebra, diferenciam seus conteúdos e reforçam posições no ciberespaço da notícia. Por outro lado, há órgãos que ainda defendem que não há relação alguma e que elas são espaços, apenas, de jovens desocupados.
Portais, blogs e jornalistas que utilizam os artefatos a serviço do jornalismo, têm conseguido credibilidade e leitores. O uso correto da tecnologia tem dado retorno. A avaliação é baseada nos comentários expostos nos perfis dos veículos. Os que possuem feedback, de forma humana e precisa, conquistam leitores mais exigentes, críticos e formadores de opinião.
A situação dos grandes portais é diferente. Muitos apostam numa prática mecânica de conversar com o leitor. Lotes de informações são disponibilizados de maneira robótica. Jogam todo ou quase boa parte do conteúdo, sem muita preocupação em dar retorno aos internautas. A existência automática destes sites está com os dias contados. Eles precisam mudar ou vão continuar perdendo leitores.
800 milhões de usuários em 2012
Entender as redes sociais como um universo complexo e rico de impressões pode ser um caminho para a empatia de leitores e diferenciação do conteúdo. Nelas é possível encontrar pessoas com os interesses distintos. Propor e buscar informações das pessoas que interagem com o perfil é um passo adiante neste processo. A prestatividade na troca de informações poderá avançar a relação.
É preciso reconhecer que a tecnologia digital é um produto de nossas intenções e propósitos, como afirma Raquel Recuero, em seu livro Redes Sociais na Internet. Para a autora, "o modo como nos apropriamos delas, os usos que fazemos, reinventam constantemente suas características". O argumento orienta, entre outras possibilidades, a tentativa de buscar encaminhamentos e mecanismos para conversar com os internautas.
Público este que cresce diariamente no mundo inteiro. Até 2012, as mídias sociais terão mais de 800 milhões de usuários, segundo estudo da IBM. Já o Brasil é um dos países que seus internautas passam maior parte do tempo nas redes sociais. A constatação foi realizada pelo instituto Nielsen, no ano de 2010. A pesquisa fez o comparativo com 10 países, entre eles, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha e Austrália.
Reproduzido da seção "Tendências/Debates" da Folha de S.Paulo, 27/2/2011; intertítulo do OI
A interdependência veio para ficar e já está alterando, há algum tempo, a relação entre os países. Tendências como os fluxos migratórios, problemas ambientais e crises financeiras têm passado por cima das fronteiras, demonstrando até pouco respeito à independência de cada país. Uma crise num mercado se alastra rapidamente para outro e, portanto, aumenta a necessidade de coordenação entre os países. Acordos financeiros globais são negociados em Basileia, acordos ambientais, em Kyoto e em Copenhague, e negociações sobre fluxos migratórios são tratadas entre blocos econômicos, quando não através de (frustradas e frustrantes) construções de muros.
A independência de um país para definir o destino dentro dos seus domínios está sendo cada vez mais abalada pela interdependência que se sobrepõe. Os governos não estão aparelhados para lidar com essa crescente onda de problemas supranacionais e só agora começam verdadeiramente a buscar novos caminhos, pressionados pelos novos tempos. A notícia é que a interdependência será cada vez maior, goste-se ou não. Com 5,3 bilhões de celulares no mundo e com cerca de 2 bilhões de pessoas conectadas pela internet (dados da União Internacional de Telecomunicações), a comunicação está mais rápida do que nossos padrões de conhecimento conseguem compreender. Isso impacta a todos, mas se dá de forma mais acentuada, claro, entre os jovens.
Transparência e interdependência
Um fato recente que tem chamado muito a atenção é o que está acontecendo em vários países do mundo árabe. Não vou explorar o aspecto político, mas destacar o papel dos jovens na mobilização da sociedade pelas redes sociais. Foi com esse mecanismo pouco estruturado, mas muito eficiente, que concentrações enormes foram articuladas. Da forma como estão organizados, os governos também não estão conseguindo compreender e muito menos controlar essa rede de informações. É tudo muito rápido e muito fluido. Os tempos do que se chamava de "comando e controle" estão ficando para trás. Caso recente e ilustrativo é o de alguns congressistas de países ocidentais que ficaram perplexos com os acontecimentos no mundo árabe. O foco dessa perplexidade, porém, não é no que aconteceu em si, mas em como lidar com essa nova situação em que a informação sobre as mobilizações chega diretamente a eles e a todos, via redes sociais, antes mesmo que seus sofisticados serviços de informação secretos tenham tido tempo de saber, entender e interpretar.
O fenômeno das redes sociais impacta também as empresas e, por conta disso, elas precisam aprender a tratar com novas mídias dentro de casa (blogs) e nas relações com o mercado (Facebook, internet, blogs e Twitter). A fonte de notícias não é mais somente a mídia tradicional. Além de TVs, jornais, revistas e rádio, a divulgação das informações também já está definitivamente online, pulverizada e democratizada. Novos tempos. Muitos hábitos dos jovens também estão mudando por conta disso e sua fonte de informações é muito diversa. Por exemplo, no caso de produtos e serviços, os jovens se informam não só pela propaganda dos anunciantes, mas querem saber pelas redes sociais o que seus amigos acham da experiência que tiveram com determinado produto ou serviço.
Difícil dizer quais serão as implicações de todas essas mudanças. Arrisco-me, porém, a dizer que serão mudanças muito positivas, pois teremos mais transparência, mais participação, mais engajamento. Vejo os jovens do mundo inteiro ávidos por serem protagonistas desse mundo interdependente, contando agora com um instrumento de comunicação e participação – as redes sociais – que é formado por eles, consolidando, agora, sim, a aldeia global. Com a boa-nova de que esses jovens estão conectados de maneira mais intensa e com consciência social e ambiental maior do que a geração anterior.
O mundo já está e ficará ainda mais transparente e interdependente. E isso é uma excelente notícia.
MÍDIAS SOCIAIS
A serviço do leitor e do jornalismo
Por Wemerson Augusto em 1/3/2011
O que as redes sociais têm a ver com o jornalismo? Existe uma frente de jornalistas e um crescente número veículos de imprensa, principalmente os portais, que utilizam as mídias sociais para interagir com leitores e fontes e, de quebra, diferenciam seus conteúdos e reforçam posições no ciberespaço da notícia. Por outro lado, há órgãos que ainda defendem que não há relação alguma e que elas são espaços, apenas, de jovens desocupados.
Portais, blogs e jornalistas que utilizam os artefatos a serviço do jornalismo, têm conseguido credibilidade e leitores. O uso correto da tecnologia tem dado retorno. A avaliação é baseada nos comentários expostos nos perfis dos veículos. Os que possuem feedback, de forma humana e precisa, conquistam leitores mais exigentes, críticos e formadores de opinião.
A situação dos grandes portais é diferente. Muitos apostam numa prática mecânica de conversar com o leitor. Lotes de informações são disponibilizados de maneira robótica. Jogam todo ou quase boa parte do conteúdo, sem muita preocupação em dar retorno aos internautas. A existência automática destes sites está com os dias contados. Eles precisam mudar ou vão continuar perdendo leitores.
800 milhões de usuários em 2012
Entender as redes sociais como um universo complexo e rico de impressões pode ser um caminho para a empatia de leitores e diferenciação do conteúdo. Nelas é possível encontrar pessoas com os interesses distintos. Propor e buscar informações das pessoas que interagem com o perfil é um passo adiante neste processo. A prestatividade na troca de informações poderá avançar a relação.
É preciso reconhecer que a tecnologia digital é um produto de nossas intenções e propósitos, como afirma Raquel Recuero, em seu livro Redes Sociais na Internet. Para a autora, "o modo como nos apropriamos delas, os usos que fazemos, reinventam constantemente suas características". O argumento orienta, entre outras possibilidades, a tentativa de buscar encaminhamentos e mecanismos para conversar com os internautas.
Público este que cresce diariamente no mundo inteiro. Até 2012, as mídias sociais terão mais de 800 milhões de usuários, segundo estudo da IBM. Já o Brasil é um dos países que seus internautas passam maior parte do tempo nas redes sociais. A constatação foi realizada pelo instituto Nielsen, no ano de 2010. A pesquisa fez o comparativo com 10 países, entre eles, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha e Austrália.
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internet e poder,
observatório da imprensa
mídia - internet e poder - Privacidade agora é mercadoria - observatório da imprensa
Por Julia Angwin e Emily Steel em 2/3/2011
Reproduzido do Valor Econômico, 1/3/2011; título original “Privacidade torna-se uma nova mercadoria da internet”, intertítulos do OI
À medida que o monitoramento secreto de usuários da internet se torna mais agressivo e abrangente, pequenas empresas iniciantes e gigantes da tecnologia começaram a oferecer um novo produto: privacidade.
Companhias como a Microsoft Corp., a McAfee Inc. – e até mesmo algumas das próprias empresas de monitoramento – passaram a oferecer novas maneiras de proteger as pessoas da bisbilhotagem on-line. Algumas estão até indo além e começando a pagar às pessoas uma comissão toda vez que seus detalhes pessoais são usados por empresas de marketing.
"Os dados se tornaram um novo tipo de moeda", diz Shane Green, diretor-presidente da empresa iniciante Personal Inc., sediada em Washington, que captou recentemente US$ 7,6 milhões para criar uma firma voltada a ajudar as pessoas a lucrar com o fornecimento de seus dados pessoais para anunciantes on-line.
A série de reportagens do Wall Street Journal chamada "O que eles sabem", sobre o monitoramento na internet, expôs uma rede em rápido crescimento de centenas de empresas que coletam dados altamente pessoais sobre as pessoas na internet – suas atividades on-line, opiniões políticas, preocupações com a saúde, hábitos de compras, situação financeira e, em alguns caos, até seus nomes – para alimentar a indústria americana de propaganda on-line, avaliada em US$ 26 bilhões.
Sites de relacionamento
Nos primeiros nove meses do ano passado, os gastos com propaganda na internet subiram quase 14%, enquanto a indústria publicitária geral cresceu apenas 6%, segundo dados da PriceWaterhouseCoopers LLP e da Kantar Media, subsidiária da WPP PLC.
O investidor imobiliário londrino Giles Sequeira é uma das pessoas que estão testando esse novo mercado: ele começou recentemente a vender seus dados pessoais. "Não tenho paranoia com privacidade", diz ele. Mas à medida que aprendeu mais sobre o assunto, diz, ficou mais preocupado com a maneira como seus dados estavam sendo usados.
As pessoas "não têm ideia de onde isso vai parar", diz ele.
Assim, em dezembro, Sequeira se tornou um dos primeiros clientes da novata Allow Ltd., sediada em Londres, que se oferece para vender os dados pessoais dos usuários com autorização deles e lhes dá 70% da receita. Sequeira diz que já recebeu um pagamento de 5,56 libras esterlinas (R$ 14,87) por permitir que a Allow informe a uma administradora de cartão de crédito que ele está buscando um novo cartão.
"Eu não emprestaria meu carro a um estranho" de graça, diz Sequeira, "então por que faria isso com meus dados pessoais?"
No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em janeiro, executivos e acadêmicos se reuniram para discutir como tornar dados pessoais uma "classe de ativos", dando às pessoas o direito de solicitar que terceiros os administrem ou os vendam.
"Estamos tentando transferir o foco da pura privacidade para o que chamamos de direitos de propriedade", diz Michele Luzi, diretor da consultoria Bain & Co., que comandou a discussão em Davos.
A Allow, a empresa que pagou Sequeira, é apenas uma entre dezenas de novas firmas que almejam lucrar com o nascente mercado de dados privados. Várias prometem pagar às pessoas uma comissão com a venda de seus dados. Outras oferecem produtos gratuitos que bloqueiam o acompanhamento on-line, na esperança de depois vender aos usuários outros serviços – como endereços de e-mail ou números de telefone descartáveis, que dificultam o monitoramento pessoal. Ainda há as que vendem serviços como o de remoção do seu nome de bancos de dados de marketing.
"Os empreendedores sentem que há uma oportunidade", diz Satya Patel, investidor de capital de risco da Battery Ventures, que liderou um grupo de investidores que aplicou US$ 8 milhões em junho numa empresa iniciante chamada SafetyWeb, que ajuda os pais a monitorar as atividades dos filhos em sites de relacionamento social, e está lançando também um novo serviço de proteção da privacidade para adultos chamado myID.com.
Novas iniciativas
No setor de monitoramento on-line, pouco regulamentado, um grande teste da sobrevivência do novo mercado de dados pessoais é se ele vai conseguir calar o coro crescente de críticos que exigem mais fiscalização governamental. Políticos americanos apresentaram este mês no Congresso dois projetos de lei defendendo a privacidade e, em dezembro, o governo do presidente Barack Obama sugeriu a criação de uma "carta de direitos" de privacidade on-line. A FTC, agência americana de defesa do consumidor, quer criar uma lista de bloqueio do monitoramento inspirada no mesmo mecanismo que já bloqueia chamadas de telemarketing.
O setor está se movimentando em várias frentes para reagir às sugestões de maior regulamentação. A Microsoft apoiou semana passada o sistema de bloqueio do monitoramento. A gigante americana do software também pretende incluir uma ferramenta poderosa de proteção contra o monitoramento na próxima versão de seu navegador da internet, o Internet Explorer 9, revertendo decisão anterior de retirar tal recurso.
A própria indústria de publicidade on-line está lançando novos serviços de proteção da privacidade, na esperança de impedir a regulamentação. A maioria permite que os usuários bloqueiem os anúncios personalizados, embora geralmente não impeçam o monitoramento.
O mercado de privacidade já passou por turbulências antes, durante a bolha das empresas pontocom, em 2000, quando o monitoramento on-line estava nascendo. Na época surgiu uma série de empresas de internet voltadas a proteger as pessoas do monitoramento na internet, mas poucas sobreviveram devido à falta de interesse das pessoas.
Até 2008, era tão difícil vender esse tipo de proteção que o empreendedor Rob Shavell diz que evitava usar a palavra quando tentava atrair investidores para sua empresa, a Abine Inc., que bloqueia o monitoramento on-line. Hoje em dia, diz ele, a Abine voltou a citar "privacidade" e já recebeu mais de 30 demonstrações espontâneas de interesse dos investidores nos últimos seis meses.
Em junho, outra empresa, a TRUSTe, captou US$ 12 milhões de capital de risco para expandir seus serviços de proteção da privacidade na internet. Ao mesmo tempo, a Reputation.com Inc. captou US$ 15 milhões e triplicou seus investimentos em novas iniciativas de privacidade, como um serviço que retira o nome das pessoas de banco de dados on-line e uma ferramenta que permite criptografar atualizações do Facebook.
***
Monitoramento on-line atrai capital de risco
Scott Thurm, do The Wall Street Journal # reproduzido do Valor Econômico, 1/3/2011
Os investidores de capital de risco estão despejando dinheiro em empresas de publicidade e de monitoramento on-line, apesar das preocupações do público com violações da privacidade e possíveis restrições governamentais.
Só nos últimos três meses, as firmas de monitoramento Lotame Solutions Inc. e Media6Degrees Inc., bem como a eXelate Media Ltd., a [x + 1] Inc. e a Turn Inc. receberam novos investimentos de firmas de capital de risco proeminentes. Em vários dias em janeiro a Millenial Media e a Tapjoy Inc., que distribuem propaganda para smartphones, informaram ter captado mais de US$ 20 milhões cada.
"É um mercado gigantesco e está crescendo", diz Chris Fralic, um sócio-gerente da First Round Capital, considerada uma das firmas de capital de risco que mais investiu em monitoramento de pessoas na internet. "Percebemos muita coisa se solidificando nesses espaços."
A First Round, uma empresa fundada há seis anos que investe principalmente em firmas recém-criadas, já aplicou na 33Across Inc., que analisa perfis em redes de relacionamento social, e na Demdex Inc., que se gaba de contar com um "banco de dados comportamentais" de perfis de usuários.
Empresas iniciantes
Desde 2007, as firmas de capital de risco investiram juntas US$ 4,7 bilhões em 356 empresas de publicidade on-line, segundo a Dow Jones VentureSource, uma firma de pesquisa de mercado da News Corp., dona do Wall Street Journal. O total de aplicações como essas aumentou 29% ano passado, para mais de US$ 1,1 bilhão, embora tenham continuado abaixo do recorde de outros anos. Só a First Round já fez 30 investimentos desde 2007, segundo a VentureSource.
O clima para investimento em firmas de propaganda on-line está "superaquecido", diz Terence Kawaja, banqueiro de investimentos da Luma Partners LLC. O diagrama produzido por ele sobre o setor, que classifica cerca de 250 firmas em 23 nichos, se tornou um guia para investidores. É inevitável que o setor passe por uma sacudida, diz Kawaja. "Quando a música para, nem todo mundo tem cadeira."
O entusiasmo dos investidores de capital de risco ocorre ao mesmo tempo em que crescem as preocupações com a privacidade das pessoas e o governo americano adota os primeiros passos para regulamentar a propaganda na internet.
Os capitalistas de risco dizem que não se sentem desmotivados. "Isso não está prejudicando nossa vontade de investir ativamente" na publicidade on-line, diz Randall Glein, diretor-gerente da DFJ Growth Fund, parte da rede de empresas da Draper Fisher Jurvetson. Os fundos da DFJ já realizaram 29 investimentos em empresas iniciantes de propaganda on-line, menos apenas que a First Round, segundo dados da VentureSource.
Os investidores se dizem atraídos pelo mercado de publicidade na internet, calculado em US$ 26 bilhões por ano, e suas perspectivas de crescimento. Os americanos gastam com a internet hoje em dia 28% do tempo dedicado a meios de comunicação, mas a internet recebe apenas 13% dos gastos com publicidade, segundo Mary Meeker, ex-analista do Morgan Stanley que agora é sócia da firma de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers.
Outro fator: as empresas iniciantes de publicidade on-line não demandam muitos recursos, disse Kawaja. "Dá para investir US$ 5 milhões e ver se o negócio funciona", diz ele. "Se ela der certo, [a empresa] pode receber mais recursos."
Fórmulas matemáticas
A maioria das novas empresas que atraem investimentos almeja ligar os operadores de sites a anunciantes que querem faturar com a capacidade da internet de oferecer anúncios personalizados ao usuário. As empresas de publicidade on-line estão concorrendo para encontrar maneiras melhores de identificar usuários de internet com mais probabilidade de reagir a um anúncio.
"Eles estão tentando encontrar fatias cada vez melhores de dados sobre as pessoas", disse Nick Sturiale, sócio da Jafco Ventures, que tem evitado o setor. "Os anunciantes querem comprar pessoas, (...) não páginas [da web]."
Isso impulsionou uma disputa ferrenha entre as empresas iniciantes por matemáticos que saibam organizar os dados sobre o comportamento on-line das pessoas e usar isso para gerar mais receita. Alguns desses matemáticos trocaram Wall Street pelo mundo da propaganda.
Ari Buchalter, diretor operacional da firma de propaganda digital MediaMath Inc., tem doutorado em astrofísica e já comandou um fundo de hedge que baseava suas aplicações em fórmulas matemáticas. O diretor-presidente da empresa, Joe Zawadzki, já foi banqueiro de investimentos.
Respeito à própria intimidade
Por Roberto Soares Garcia em 1/3/2011
Reproduzido da seção "Tendências/Debates" da Folha de S.Paulo, 27/2/2011; intertítulo do OI
A falta de recato com a própria intimidade, revelada sem pejo em algumas páginas da internet, nas telas do Big Brother e nas traseiras de automóveis, onde se veem grudadas figurinhas representativas da composição da família proprietária, constitui, em um primeiro olhar, exercício de direito à auto-exposição. Pondero, para a reflexão do leitor, que o abuso desse direito à imagem escancarada poderá levar à supressão do direito fundamental à privacidade, abrindo espaço para a ditadura do monitoramento oficial ilimitado. A perda de espaço destinado à intimidade, como se lembram os que leram 1984, é característica de regimes autoritários.
Sociedades democráticas prezam os direitos de minorias, em especial o direito da menor minoria possível, que é o indivíduo. Não foi por acaso que, pós-ditadura, a Constituição destinou seu dispositivo mais extenso à tutela de direitos individuais: o artigo 5º tem 78 incisos e diz, ao fim, que o rol não é exaustivo, o que confere a todos nós proteção contra o Estado, que não pode atentar contra a intimidade do cidadão, bisbilhotando, sem autorização judicial, sua movimentação bancária ou suas comunicações telefônicas; se o fizer, o indivíduo pode recorrer ao Judiciário para resguardar seus direitos.
O descuido poderá ser fatal
É, contudo, no exagerado exercício individual do direito de abrir mão da privacidade que mora o problema. Se considero normal informar ao estranho que vai à traseira do meu carro que somos cinco em casa, como poderei exigir da loja da esquina a manutenção em segredo do cadastro que lá preenchi? Por que o fiscal do Imposto de Renda deveria se privar de vasculhar minha conta corrente se tuíto a todos os que me "seguem" o quanto gastei no final de ano em determinado shopping? Como sustentar que a polícia não pode ouvir minhas conversas telefônicas se divulgo detalhadamente todos os meus pecados, fotografados ou filmados, no Orkut?
Em resumo: se não velo pelo que me é próprio, pela minha intimidade, por que o Estado estaria obrigado a velar? A resposta, por ora, está na vigência da lei, que me autoriza a divulgar meus segredos e veda ao Estado acesso indiscriminado à minha intimidade. Mas a legitimidade da lei está no eco que seus comandos encontram na sociedade. Se a norma visa proteger o que o indivíduo não se importa mais em perder, a vida da tutela ao direito será curta. Ao abrir reiteradamente mão do resguardo da intimidade como vetor de vida, o cidadão, sem perceber, leva a sociedade para um modelo autoritário, em que o indivíduo e a privacidade não importam.
Já que, por definição, se descartam intervenções que substituam o próprio cidadão nas decisões sobre sua intimidade, a solução está no alerta para que, em nossas condutas, cada um preze um pouco mais por sua privacidade. Esse cuidado responsável e voluntário não trará prejuízo. Já o descuido poderá ser fatal até para a democracia!
Reproduzido do Valor Econômico, 1/3/2011; título original “Privacidade torna-se uma nova mercadoria da internet”, intertítulos do OI
À medida que o monitoramento secreto de usuários da internet se torna mais agressivo e abrangente, pequenas empresas iniciantes e gigantes da tecnologia começaram a oferecer um novo produto: privacidade.
Companhias como a Microsoft Corp., a McAfee Inc. – e até mesmo algumas das próprias empresas de monitoramento – passaram a oferecer novas maneiras de proteger as pessoas da bisbilhotagem on-line. Algumas estão até indo além e começando a pagar às pessoas uma comissão toda vez que seus detalhes pessoais são usados por empresas de marketing.
"Os dados se tornaram um novo tipo de moeda", diz Shane Green, diretor-presidente da empresa iniciante Personal Inc., sediada em Washington, que captou recentemente US$ 7,6 milhões para criar uma firma voltada a ajudar as pessoas a lucrar com o fornecimento de seus dados pessoais para anunciantes on-line.
A série de reportagens do Wall Street Journal chamada "O que eles sabem", sobre o monitoramento na internet, expôs uma rede em rápido crescimento de centenas de empresas que coletam dados altamente pessoais sobre as pessoas na internet – suas atividades on-line, opiniões políticas, preocupações com a saúde, hábitos de compras, situação financeira e, em alguns caos, até seus nomes – para alimentar a indústria americana de propaganda on-line, avaliada em US$ 26 bilhões.
Sites de relacionamento
Nos primeiros nove meses do ano passado, os gastos com propaganda na internet subiram quase 14%, enquanto a indústria publicitária geral cresceu apenas 6%, segundo dados da PriceWaterhouseCoopers LLP e da Kantar Media, subsidiária da WPP PLC.
O investidor imobiliário londrino Giles Sequeira é uma das pessoas que estão testando esse novo mercado: ele começou recentemente a vender seus dados pessoais. "Não tenho paranoia com privacidade", diz ele. Mas à medida que aprendeu mais sobre o assunto, diz, ficou mais preocupado com a maneira como seus dados estavam sendo usados.
As pessoas "não têm ideia de onde isso vai parar", diz ele.
Assim, em dezembro, Sequeira se tornou um dos primeiros clientes da novata Allow Ltd., sediada em Londres, que se oferece para vender os dados pessoais dos usuários com autorização deles e lhes dá 70% da receita. Sequeira diz que já recebeu um pagamento de 5,56 libras esterlinas (R$ 14,87) por permitir que a Allow informe a uma administradora de cartão de crédito que ele está buscando um novo cartão.
"Eu não emprestaria meu carro a um estranho" de graça, diz Sequeira, "então por que faria isso com meus dados pessoais?"
No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em janeiro, executivos e acadêmicos se reuniram para discutir como tornar dados pessoais uma "classe de ativos", dando às pessoas o direito de solicitar que terceiros os administrem ou os vendam.
"Estamos tentando transferir o foco da pura privacidade para o que chamamos de direitos de propriedade", diz Michele Luzi, diretor da consultoria Bain & Co., que comandou a discussão em Davos.
A Allow, a empresa que pagou Sequeira, é apenas uma entre dezenas de novas firmas que almejam lucrar com o nascente mercado de dados privados. Várias prometem pagar às pessoas uma comissão com a venda de seus dados. Outras oferecem produtos gratuitos que bloqueiam o acompanhamento on-line, na esperança de depois vender aos usuários outros serviços – como endereços de e-mail ou números de telefone descartáveis, que dificultam o monitoramento pessoal. Ainda há as que vendem serviços como o de remoção do seu nome de bancos de dados de marketing.
"Os empreendedores sentem que há uma oportunidade", diz Satya Patel, investidor de capital de risco da Battery Ventures, que liderou um grupo de investidores que aplicou US$ 8 milhões em junho numa empresa iniciante chamada SafetyWeb, que ajuda os pais a monitorar as atividades dos filhos em sites de relacionamento social, e está lançando também um novo serviço de proteção da privacidade para adultos chamado myID.com.
Novas iniciativas
No setor de monitoramento on-line, pouco regulamentado, um grande teste da sobrevivência do novo mercado de dados pessoais é se ele vai conseguir calar o coro crescente de críticos que exigem mais fiscalização governamental. Políticos americanos apresentaram este mês no Congresso dois projetos de lei defendendo a privacidade e, em dezembro, o governo do presidente Barack Obama sugeriu a criação de uma "carta de direitos" de privacidade on-line. A FTC, agência americana de defesa do consumidor, quer criar uma lista de bloqueio do monitoramento inspirada no mesmo mecanismo que já bloqueia chamadas de telemarketing.
O setor está se movimentando em várias frentes para reagir às sugestões de maior regulamentação. A Microsoft apoiou semana passada o sistema de bloqueio do monitoramento. A gigante americana do software também pretende incluir uma ferramenta poderosa de proteção contra o monitoramento na próxima versão de seu navegador da internet, o Internet Explorer 9, revertendo decisão anterior de retirar tal recurso.
A própria indústria de publicidade on-line está lançando novos serviços de proteção da privacidade, na esperança de impedir a regulamentação. A maioria permite que os usuários bloqueiem os anúncios personalizados, embora geralmente não impeçam o monitoramento.
O mercado de privacidade já passou por turbulências antes, durante a bolha das empresas pontocom, em 2000, quando o monitoramento on-line estava nascendo. Na época surgiu uma série de empresas de internet voltadas a proteger as pessoas do monitoramento na internet, mas poucas sobreviveram devido à falta de interesse das pessoas.
Até 2008, era tão difícil vender esse tipo de proteção que o empreendedor Rob Shavell diz que evitava usar a palavra quando tentava atrair investidores para sua empresa, a Abine Inc., que bloqueia o monitoramento on-line. Hoje em dia, diz ele, a Abine voltou a citar "privacidade" e já recebeu mais de 30 demonstrações espontâneas de interesse dos investidores nos últimos seis meses.
Em junho, outra empresa, a TRUSTe, captou US$ 12 milhões de capital de risco para expandir seus serviços de proteção da privacidade na internet. Ao mesmo tempo, a Reputation.com Inc. captou US$ 15 milhões e triplicou seus investimentos em novas iniciativas de privacidade, como um serviço que retira o nome das pessoas de banco de dados on-line e uma ferramenta que permite criptografar atualizações do Facebook.
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Monitoramento on-line atrai capital de risco
Scott Thurm, do The Wall Street Journal # reproduzido do Valor Econômico, 1/3/2011
Os investidores de capital de risco estão despejando dinheiro em empresas de publicidade e de monitoramento on-line, apesar das preocupações do público com violações da privacidade e possíveis restrições governamentais.
Só nos últimos três meses, as firmas de monitoramento Lotame Solutions Inc. e Media6Degrees Inc., bem como a eXelate Media Ltd., a [x + 1] Inc. e a Turn Inc. receberam novos investimentos de firmas de capital de risco proeminentes. Em vários dias em janeiro a Millenial Media e a Tapjoy Inc., que distribuem propaganda para smartphones, informaram ter captado mais de US$ 20 milhões cada.
"É um mercado gigantesco e está crescendo", diz Chris Fralic, um sócio-gerente da First Round Capital, considerada uma das firmas de capital de risco que mais investiu em monitoramento de pessoas na internet. "Percebemos muita coisa se solidificando nesses espaços."
A First Round, uma empresa fundada há seis anos que investe principalmente em firmas recém-criadas, já aplicou na 33Across Inc., que analisa perfis em redes de relacionamento social, e na Demdex Inc., que se gaba de contar com um "banco de dados comportamentais" de perfis de usuários.
Empresas iniciantes
Desde 2007, as firmas de capital de risco investiram juntas US$ 4,7 bilhões em 356 empresas de publicidade on-line, segundo a Dow Jones VentureSource, uma firma de pesquisa de mercado da News Corp., dona do Wall Street Journal. O total de aplicações como essas aumentou 29% ano passado, para mais de US$ 1,1 bilhão, embora tenham continuado abaixo do recorde de outros anos. Só a First Round já fez 30 investimentos desde 2007, segundo a VentureSource.
O clima para investimento em firmas de propaganda on-line está "superaquecido", diz Terence Kawaja, banqueiro de investimentos da Luma Partners LLC. O diagrama produzido por ele sobre o setor, que classifica cerca de 250 firmas em 23 nichos, se tornou um guia para investidores. É inevitável que o setor passe por uma sacudida, diz Kawaja. "Quando a música para, nem todo mundo tem cadeira."
O entusiasmo dos investidores de capital de risco ocorre ao mesmo tempo em que crescem as preocupações com a privacidade das pessoas e o governo americano adota os primeiros passos para regulamentar a propaganda na internet.
Os capitalistas de risco dizem que não se sentem desmotivados. "Isso não está prejudicando nossa vontade de investir ativamente" na publicidade on-line, diz Randall Glein, diretor-gerente da DFJ Growth Fund, parte da rede de empresas da Draper Fisher Jurvetson. Os fundos da DFJ já realizaram 29 investimentos em empresas iniciantes de propaganda on-line, menos apenas que a First Round, segundo dados da VentureSource.
Os investidores se dizem atraídos pelo mercado de publicidade na internet, calculado em US$ 26 bilhões por ano, e suas perspectivas de crescimento. Os americanos gastam com a internet hoje em dia 28% do tempo dedicado a meios de comunicação, mas a internet recebe apenas 13% dos gastos com publicidade, segundo Mary Meeker, ex-analista do Morgan Stanley que agora é sócia da firma de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers.
Outro fator: as empresas iniciantes de publicidade on-line não demandam muitos recursos, disse Kawaja. "Dá para investir US$ 5 milhões e ver se o negócio funciona", diz ele. "Se ela der certo, [a empresa] pode receber mais recursos."
Fórmulas matemáticas
A maioria das novas empresas que atraem investimentos almeja ligar os operadores de sites a anunciantes que querem faturar com a capacidade da internet de oferecer anúncios personalizados ao usuário. As empresas de publicidade on-line estão concorrendo para encontrar maneiras melhores de identificar usuários de internet com mais probabilidade de reagir a um anúncio.
"Eles estão tentando encontrar fatias cada vez melhores de dados sobre as pessoas", disse Nick Sturiale, sócio da Jafco Ventures, que tem evitado o setor. "Os anunciantes querem comprar pessoas, (...) não páginas [da web]."
Isso impulsionou uma disputa ferrenha entre as empresas iniciantes por matemáticos que saibam organizar os dados sobre o comportamento on-line das pessoas e usar isso para gerar mais receita. Alguns desses matemáticos trocaram Wall Street pelo mundo da propaganda.
Ari Buchalter, diretor operacional da firma de propaganda digital MediaMath Inc., tem doutorado em astrofísica e já comandou um fundo de hedge que baseava suas aplicações em fórmulas matemáticas. O diretor-presidente da empresa, Joe Zawadzki, já foi banqueiro de investimentos.
Respeito à própria intimidade
Por Roberto Soares Garcia em 1/3/2011
Reproduzido da seção "Tendências/Debates" da Folha de S.Paulo, 27/2/2011; intertítulo do OI
A falta de recato com a própria intimidade, revelada sem pejo em algumas páginas da internet, nas telas do Big Brother e nas traseiras de automóveis, onde se veem grudadas figurinhas representativas da composição da família proprietária, constitui, em um primeiro olhar, exercício de direito à auto-exposição. Pondero, para a reflexão do leitor, que o abuso desse direito à imagem escancarada poderá levar à supressão do direito fundamental à privacidade, abrindo espaço para a ditadura do monitoramento oficial ilimitado. A perda de espaço destinado à intimidade, como se lembram os que leram 1984, é característica de regimes autoritários.
Sociedades democráticas prezam os direitos de minorias, em especial o direito da menor minoria possível, que é o indivíduo. Não foi por acaso que, pós-ditadura, a Constituição destinou seu dispositivo mais extenso à tutela de direitos individuais: o artigo 5º tem 78 incisos e diz, ao fim, que o rol não é exaustivo, o que confere a todos nós proteção contra o Estado, que não pode atentar contra a intimidade do cidadão, bisbilhotando, sem autorização judicial, sua movimentação bancária ou suas comunicações telefônicas; se o fizer, o indivíduo pode recorrer ao Judiciário para resguardar seus direitos.
O descuido poderá ser fatal
É, contudo, no exagerado exercício individual do direito de abrir mão da privacidade que mora o problema. Se considero normal informar ao estranho que vai à traseira do meu carro que somos cinco em casa, como poderei exigir da loja da esquina a manutenção em segredo do cadastro que lá preenchi? Por que o fiscal do Imposto de Renda deveria se privar de vasculhar minha conta corrente se tuíto a todos os que me "seguem" o quanto gastei no final de ano em determinado shopping? Como sustentar que a polícia não pode ouvir minhas conversas telefônicas se divulgo detalhadamente todos os meus pecados, fotografados ou filmados, no Orkut?
Em resumo: se não velo pelo que me é próprio, pela minha intimidade, por que o Estado estaria obrigado a velar? A resposta, por ora, está na vigência da lei, que me autoriza a divulgar meus segredos e veda ao Estado acesso indiscriminado à minha intimidade. Mas a legitimidade da lei está no eco que seus comandos encontram na sociedade. Se a norma visa proteger o que o indivíduo não se importa mais em perder, a vida da tutela ao direito será curta. Ao abrir reiteradamente mão do resguardo da intimidade como vetor de vida, o cidadão, sem perceber, leva a sociedade para um modelo autoritário, em que o indivíduo e a privacidade não importam.
Já que, por definição, se descartam intervenções que substituam o próprio cidadão nas decisões sobre sua intimidade, a solução está no alerta para que, em nossas condutas, cada um preze um pouco mais por sua privacidade. Esse cuidado responsável e voluntário não trará prejuízo. Já o descuido poderá ser fatal até para a democracia!
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mídia,internet e poder - literatura - Carlos Fuentes - TEMPOS DE CONVERGÊNCIA - Sobre a coexistência dos meios - observatório da imprensa-
Por em 1/3/2011
Reproduzido do El País, 27/02/2011; título original "Sobre la coexistencia de los medios", intertítulo do OI
A Carmen Aristegui, periodista
Entramos al siglo XXI con una evidencia: el crecimiento económico depende de la calidad de la información y ésta de la calidad de la educación. El lugar privilegiado de la modernidad económica lo ocupan los creadores y productores de información, más que de productos materiales. Cine, televisión, casetes, las industrias de la comunicación y las productoras de los instrumentos y equipos procesadores de información están hoy en el centro de la vida económica global. Los ricos de antaño producían acero (Carnegie, Krupp, Manchester). Los ricos de hogaño producen equipos electrónicos (Bill Gates, Sony, Silicon Valley).
El presidente Bill Clinton nos recuerda que al asumir la presidencia en 1993, sólo había 50 websites. Al dejar la Casa Blanca ocho años más tarde, había 350 millones. Juan Ramón de la Fuente, ex-rector de la UNAM, nos recuerda, a su vez, que hoy circulan en Internet 50.000 millones de mensajes diarios. Primero, en 40 años, la radio logró sumar 50 millones de oyentes. La televisión, desde 1950, atrapó igual número de televidentes. Pero en sólo cinco años, Internet alcanzó la suma que a la radio le tomó 40 años y a la televisión otro medio siglo. En el año 2000, había 300 millones de usuarios de Internet. Hoy, hay 800 millones.
Se acusa a los medios más novedosos de aislar. Como en la excelente película de David Fincher, The Social Network el número de usuarios de los medios modernos pueden aislarse en la relación con otros usuarios, creando redes paradójicas de ficción comunicativa: si yo estoy en relación contigo, no tengo por qué estarlo con el resto del mundo. El tu y yo de la comunicación parecería excluir al nosotros.
Novos valores
Túnez y Egipto y todo el Mediterráneo sur, acaban de demostrar que la relación uno-a-uno no excluye la comunicación del yo con el nosotros a través de múltiples individualidades eslabonadas en una gran colectividad que, al conocerse, se da cuenta de que el mundo oficial la ignora y que al conocerse, también se da cuenta de su poder colectivo. Internet, Facebook, Twitter, reúnen a las multitudes que hemos visto en las calles de Túnez, El Cairo y Alejandría. Esas multitudes representan a una clase media y a una clase trabajadora ignoradas por el estrecho círculo del poder ejercido desde arriba y sólo para los de arriba, con algunos mendrugos arrojados a los de abajo. Sólo que los de abajo son la mayoría. Sólo que los de abajo no son sólo obreros y campesinos, sino estudiantes, profesionales, amas de casa, empresarios, comerciantes, toda una clase media formada por, a pesar de, al lado del autoritarismo que no la veía, y si la veía, la atomizaba en grupúsculos manipulables y minoritarios. Gran paradoja. Un gobierno autoritario de larga duración tolera a un pueblo dividido y lejano, hasta que ese pueblo adquiere la visibilidad de su propia conciencia gracias a lo que supuestamente lo aislaba y actúa en consecuencia. El tiempo que nos tocó nos niega la comodidad de creer que la educación concluye alguna vez, en algún grado anterior al resto de nuestras vidas.
Esto significa que, por una parte, las escuelas pierden el monopolio de la enseñanza y, por la otra, la prensa pierde el monopolio de la información pero también, que mantenerse informado en el largo periodo post-escolar y post-universitario es un deber y un derecho, inseparables del ejercicio de la ciudadanía y que este derecho, esta obligación, lo son de nuestra prensa. La información también está en crisis, pero acaso en una crisis de crecimiento, que expande los medios nuevos pero no sacrifica los anteriores. Se suponía en el siglo XIX que la aparición del periodismo de masas sentenciaría a muerte al libro. Balzac aprovechó el dilema para escribir una gran novela sobre el periodismo, Las ilusiones perdidas. Se suponía que la radiotelefonía, a su vez, mandaría a la prensa escrita al gran cementerio de las antigüedades. No fue así, radio y prensa convivieron y aunque Marshall McLuhan anunció la muerte del libro y la conversión del medio en mensaje, la televisión no enterró ni a la literatura, ni a la prensa, ni a la radio.
¿La nueva edad que se anuncia, la era de la tecnoinformación, matará a las formas de comunicación anteriores? No lo creo. La radio, lejos de perecer, está hoy más viva que nunca y mejor adaptada a los horarios, tempraneros o nocturnos, de la vida moderna. La televisión no hace sino aumentar y diversificar su oferta: los canales televisivos suman varios miles. ¿Es la prensa escrita la víctima propiciatoria de la nueva -o última- modernidad? Sí, hay grandes diarios que cierran o se achican, o se ofrecen por Internet. Acaso, quizás, la prensa escrita, como la literatura, sólo llegue en su forma actual a los menos aunque a los mejores, aunque yo, como escritor, tengo el gusto de mancharme diariamente las manos con la tinta fresca de un periódico y otros ciudadanos, más jóvenes, leen el mismo periódico en una pantalla. Al cabo, sin embargo, yo no creo que lo nuevo desplace totalmente a lo anterior. Creo que las cosas acabarán por equilibrarse, coexistir, subrayar valores y eliminar defectos, aunque con la posibilidad, humana al cabo, de generar nuevos defectos junto con nuevos valores.
Reproduzido do El País, 27/02/2011; título original "Sobre la coexistencia de los medios", intertítulo do OI
A Carmen Aristegui, periodista
Entramos al siglo XXI con una evidencia: el crecimiento económico depende de la calidad de la información y ésta de la calidad de la educación. El lugar privilegiado de la modernidad económica lo ocupan los creadores y productores de información, más que de productos materiales. Cine, televisión, casetes, las industrias de la comunicación y las productoras de los instrumentos y equipos procesadores de información están hoy en el centro de la vida económica global. Los ricos de antaño producían acero (Carnegie, Krupp, Manchester). Los ricos de hogaño producen equipos electrónicos (Bill Gates, Sony, Silicon Valley).
El presidente Bill Clinton nos recuerda que al asumir la presidencia en 1993, sólo había 50 websites. Al dejar la Casa Blanca ocho años más tarde, había 350 millones. Juan Ramón de la Fuente, ex-rector de la UNAM, nos recuerda, a su vez, que hoy circulan en Internet 50.000 millones de mensajes diarios. Primero, en 40 años, la radio logró sumar 50 millones de oyentes. La televisión, desde 1950, atrapó igual número de televidentes. Pero en sólo cinco años, Internet alcanzó la suma que a la radio le tomó 40 años y a la televisión otro medio siglo. En el año 2000, había 300 millones de usuarios de Internet. Hoy, hay 800 millones.
Se acusa a los medios más novedosos de aislar. Como en la excelente película de David Fincher, The Social Network el número de usuarios de los medios modernos pueden aislarse en la relación con otros usuarios, creando redes paradójicas de ficción comunicativa: si yo estoy en relación contigo, no tengo por qué estarlo con el resto del mundo. El tu y yo de la comunicación parecería excluir al nosotros.
Novos valores
Túnez y Egipto y todo el Mediterráneo sur, acaban de demostrar que la relación uno-a-uno no excluye la comunicación del yo con el nosotros a través de múltiples individualidades eslabonadas en una gran colectividad que, al conocerse, se da cuenta de que el mundo oficial la ignora y que al conocerse, también se da cuenta de su poder colectivo. Internet, Facebook, Twitter, reúnen a las multitudes que hemos visto en las calles de Túnez, El Cairo y Alejandría. Esas multitudes representan a una clase media y a una clase trabajadora ignoradas por el estrecho círculo del poder ejercido desde arriba y sólo para los de arriba, con algunos mendrugos arrojados a los de abajo. Sólo que los de abajo son la mayoría. Sólo que los de abajo no son sólo obreros y campesinos, sino estudiantes, profesionales, amas de casa, empresarios, comerciantes, toda una clase media formada por, a pesar de, al lado del autoritarismo que no la veía, y si la veía, la atomizaba en grupúsculos manipulables y minoritarios. Gran paradoja. Un gobierno autoritario de larga duración tolera a un pueblo dividido y lejano, hasta que ese pueblo adquiere la visibilidad de su propia conciencia gracias a lo que supuestamente lo aislaba y actúa en consecuencia. El tiempo que nos tocó nos niega la comodidad de creer que la educación concluye alguna vez, en algún grado anterior al resto de nuestras vidas.
Esto significa que, por una parte, las escuelas pierden el monopolio de la enseñanza y, por la otra, la prensa pierde el monopolio de la información pero también, que mantenerse informado en el largo periodo post-escolar y post-universitario es un deber y un derecho, inseparables del ejercicio de la ciudadanía y que este derecho, esta obligación, lo son de nuestra prensa. La información también está en crisis, pero acaso en una crisis de crecimiento, que expande los medios nuevos pero no sacrifica los anteriores. Se suponía en el siglo XIX que la aparición del periodismo de masas sentenciaría a muerte al libro. Balzac aprovechó el dilema para escribir una gran novela sobre el periodismo, Las ilusiones perdidas. Se suponía que la radiotelefonía, a su vez, mandaría a la prensa escrita al gran cementerio de las antigüedades. No fue así, radio y prensa convivieron y aunque Marshall McLuhan anunció la muerte del libro y la conversión del medio en mensaje, la televisión no enterró ni a la literatura, ni a la prensa, ni a la radio.
¿La nueva edad que se anuncia, la era de la tecnoinformación, matará a las formas de comunicación anteriores? No lo creo. La radio, lejos de perecer, está hoy más viva que nunca y mejor adaptada a los horarios, tempraneros o nocturnos, de la vida moderna. La televisión no hace sino aumentar y diversificar su oferta: los canales televisivos suman varios miles. ¿Es la prensa escrita la víctima propiciatoria de la nueva -o última- modernidad? Sí, hay grandes diarios que cierran o se achican, o se ofrecen por Internet. Acaso, quizás, la prensa escrita, como la literatura, sólo llegue en su forma actual a los menos aunque a los mejores, aunque yo, como escritor, tengo el gusto de mancharme diariamente las manos con la tinta fresca de un periódico y otros ciudadanos, más jóvenes, leen el mismo periódico en una pantalla. Al cabo, sin embargo, yo no creo que lo nuevo desplace totalmente a lo anterior. Creo que las cosas acabarán por equilibrarse, coexistir, subrayar valores y eliminar defectos, aunque con la posibilidad, humana al cabo, de generar nuevos defectos junto con nuevos valores.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
mídia, internet e poder - literatura - Infalibilidade - Luis Fernando Verissimo - O Estado de S.Paulo
24 de fevereiro de 2011 | 0h 00
Os reis estão mais seguros do que os ditadores no norte da África e no Oriente Médio. No Marrocos e na Jordânia, pelo que se lê, a queda dos reis não está entre as reivindicações principais da rua. A revolta está custando a chegar à Arábia Saudita, protótipo de autocracia absoluta na região, e o poder dos aiatolás iranianos não parece estar ameaçado, por enquanto. Já os ditadores estão caindo um a um, como jacas. Governavam como reis mas sem a autorização divina, eram reis ilegítimos. Assim, curiosamente, ao mesmo tempo que dá um belo exemplo de conquista popular de democracia e modernidade, a sublevação endossa, indiretamente, a monarquia.
Constantino, que transformou o cristianismo de uma seita clandestina na religião oficial do seu império, escreveu certa vez numa carta que sua conversão tinha sido bem recompensada. "Recebemos da Providência Divina o supremo favor de estarmos eternamente livres de qualquer erro." Os ditadores costumam acreditar que junto com o poder absoluto vem, implícito, no pacote, os favores que a Providência Divina concede de nascença aos reis, começando pela infalibilidade. Mas não funciona assim.
Para-infernália. É pura implicância, eu sei. Mas tenho tanta antipatia por toda essa para-infernália eletrônica que, enquanto nos facilita a vida, nos escraviza e nos humilha que vibro a cada notícia de sua desmoralização, por menor que seja. Comemoro cada nova prova de que ela não é infalível. Agora mesmo surgiu um supercomputador, chamado Watson, que venceu dois humanos jogando Jeopardy na televisão americana. Jeopardy é um jogo de respostas que testa a memória e o conhecimento, e a capacidade do Watson de armazenar informação, reconhecer a informação que corresponde à pergunta e enunciá-la antes dos humanos representa um grande avanço sobre os computadores que, por exemplo, derrotavam campeões de xadrez, mas com os quais não se podia ter uma boa conversa sobre filmes, livros, a vida alheia, etc. O Watson não, o Watson sabe tudo. Leu tudo, viu tudo - mas (arrá!) tem uma falha. O Watson às vezes tem dificuldade em contextualizar. É o que seus construtores chamam de Síndrome de Paris Hilton. Se você alimentá-lo apenas com as palavras "Paris Hilton" o Watson se confunde, não sabe se a referência é ao hotel Hilton de Paris ou à herdeira maluquete dos Hilton, Paris. E é capaz de ficar mudo para não dar vexame. Um pequeno defeito para um computador, mas uma grande vitória para a humanidade. Eu não conseguiria vencer um computador nem num jogo de damas mas jamais confundiria a Paris Hilton com um hotel. Ou vice-versa.
Os reis estão mais seguros do que os ditadores no norte da África e no Oriente Médio. No Marrocos e na Jordânia, pelo que se lê, a queda dos reis não está entre as reivindicações principais da rua. A revolta está custando a chegar à Arábia Saudita, protótipo de autocracia absoluta na região, e o poder dos aiatolás iranianos não parece estar ameaçado, por enquanto. Já os ditadores estão caindo um a um, como jacas. Governavam como reis mas sem a autorização divina, eram reis ilegítimos. Assim, curiosamente, ao mesmo tempo que dá um belo exemplo de conquista popular de democracia e modernidade, a sublevação endossa, indiretamente, a monarquia.
Constantino, que transformou o cristianismo de uma seita clandestina na religião oficial do seu império, escreveu certa vez numa carta que sua conversão tinha sido bem recompensada. "Recebemos da Providência Divina o supremo favor de estarmos eternamente livres de qualquer erro." Os ditadores costumam acreditar que junto com o poder absoluto vem, implícito, no pacote, os favores que a Providência Divina concede de nascença aos reis, começando pela infalibilidade. Mas não funciona assim.
Para-infernália. É pura implicância, eu sei. Mas tenho tanta antipatia por toda essa para-infernália eletrônica que, enquanto nos facilita a vida, nos escraviza e nos humilha que vibro a cada notícia de sua desmoralização, por menor que seja. Comemoro cada nova prova de que ela não é infalível. Agora mesmo surgiu um supercomputador, chamado Watson, que venceu dois humanos jogando Jeopardy na televisão americana. Jeopardy é um jogo de respostas que testa a memória e o conhecimento, e a capacidade do Watson de armazenar informação, reconhecer a informação que corresponde à pergunta e enunciá-la antes dos humanos representa um grande avanço sobre os computadores que, por exemplo, derrotavam campeões de xadrez, mas com os quais não se podia ter uma boa conversa sobre filmes, livros, a vida alheia, etc. O Watson não, o Watson sabe tudo. Leu tudo, viu tudo - mas (arrá!) tem uma falha. O Watson às vezes tem dificuldade em contextualizar. É o que seus construtores chamam de Síndrome de Paris Hilton. Se você alimentá-lo apenas com as palavras "Paris Hilton" o Watson se confunde, não sabe se a referência é ao hotel Hilton de Paris ou à herdeira maluquete dos Hilton, Paris. E é capaz de ficar mudo para não dar vexame. Um pequeno defeito para um computador, mas uma grande vitória para a humanidade. Eu não conseguiria vencer um computador nem num jogo de damas mas jamais confundiria a Paris Hilton com um hotel. Ou vice-versa.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
internet e poder - Os donos da informação na era da internet - observatório da imprensa
Por Arthur Cristóvão Prado em 15/2/2011
As manchetes mundiais a respeito da internet e da informação digital foram disputadas por dois rostos no ano de 2010. Um deles é o rosto jovem e coberto de sardas de Mark Zuckerberg, mais jovem bilionário do mundo, "personalidade do ano" eleita pela revista Time e dono do Facebook, empresa estimada em 50 bilhões de dólares, que obtém receita oferecendo espaço publicitário para empresas; o outro é o ligeiramente mais velho e menos sorridente de Julian Assange, australiano e pessoa pública do site WikiLeaks, inimigo de todos os diplomatas que falam demais e objeto de adoração dos defensores da informação livre. É claro que a comunidade digital não perdeu a oportunidade de ironizar a situação. Surgiu, na internet, uma imagem (que pode ser encontrada aqui) com uma foto de Julian Assange e um balão de fala que dizia: "Eu distribuo gratuitamente informação particular de empresas e eu sou um vilão." Ao lado, uma foto de Zuckerberg com a frase: "Eu vendo sua informação particular para empresas e sou o Homem do Ano." O fato de o primeiro ter sido amplamente glorificado pela mídia e corporações americanas, enquanto o segundo foi preso e considerado inimigo da diplomacia americana, abre-nos a possibilidade de uma discussão acerca dos valores que eles representam.
Não é possível dizer que um defende a privacidade ou sigilo e o outro, a transparência. Na verdade, tanto Assange quanto Zuckerberg são, ao menos oficialmente, a favor da informação livre, e acreditam que existe um movimento inevitável que levará nossa cultura a uma desvalorização da privacidade. Ao invés disso, eles têm visões opostas em relação a qual privacidade será perdida. O arauto dos WikiLeaks defende que empresas e governos liberem informação confidencial para que, de acordo com os princípios da democracia, elas possam ser fiscalizadas pelo povo. Já a desprivatização de Zuckerberg diz respeito diretamente ao indivíduo, o que é notoriamente conveniente para alguém que lucra vendendo informações pessoais. O cerne da questão, portanto, é a dicotomia que opõe as corporações ao indivíduo; a informação centralizada, àquela fragmentada.
Centralização e fragmentação da informação
Uma manifestação prática dessa oposição pode ser encontrada, de modo exemplar, na questão do software. Defensores do software livre – isto é, aquele que é distribuído gratuitamente e pode ser modificado por qualquer programador – anunciam há mais de uma década a "inevitável" queda do modelo de software proprietário – aquele praticado por empresas como Apple e Microsoft. O software livre se caracteriza por ser desenvolvido por indivíduos voluntários da comunidade. Vem daí seu apelo ideológico: se ele desse certo, a informação, ou pelo menos aquela que faz os programas funcionarem, seria criada por todos, para todos.
Mas, mesmo entre as grandes corporações, há pelo menos um grande defensor do modelo descentralizado: o Google. Isso é evidente no mercado de smartphones, no qual a empresa, criadora do sistema Android, compete com a Apple (cujo valor de mercado é de 322 bilhões de dólares, o equivalente a quase dois Googles ou cerca de 6.4 Facebooks), com o sistema operacional iOS. As duas têm modelos de negócios opostos. O Android, que é, por sinal, software livre, permite ao seu usuário criar seus próprios aplicativos, instalá-lo em qualquer celular compatível e modificar vários aspectos do sistema. O iOS só funciona em hardware fabricado pela Apple (iPhone, iPod, iPad), é software proprietário, não permite ao usuário acessar os aspectos ou modificar fundamentais do sistema e tem uma App Store, isto é, uma loja de programas, em que só entram aplicativos liberados pela empresa. Cada um dos sistemas tem seu nicho e ambos prosperam no mercado, o que parece indicar que nenhuma das duas estratégias é absoluta.
O problema da centralização contra a fragmentação da informação já afeta, há muito tempo, as discussões sobre o futuro do jornalismo. Aqueles que acreditam na inevitabilidade da fragmentação dizem que, no futuro, as grandes redes de notícias serão solapadas pelo conteúdo jornalístico gerado por usuários e publicado em blogs e redes sociais. Os centralistas acreditam que as megacorporações da mídia simplesmente migrarão para o meio da internet, ou então que novas empresas, adequadas especificamente a esse meio, surgirão, de forma semelhante ao que ocorreu com jornais impressos que migraram para a televisão e para o rádio no passado.
Donos do poder e seu monopólio
Desde o dia 2 deste mês, há um novo fator a ser levado em conta nessa discussão. Rupert Murdoch, dono da News Corp. e magnata da mídia internacional, lançou The Daily, o primeiro jornal exclusivamente dedicado ao iPad no mundo. Seu formato procura incorporar algumas das possibilidades que o formato virtual propicia, como interatividade, presença de vídeos e fotos de alta qualidade, mas ele, apesar desses recursos, é projetado para ser muito acessível a usuários casuais da internet, com menos prática. Ele não é gratuito: o preço da assinatura é de 99 centavos de dólar por semana. Com isso, Murdoch fez analistas que defendem a opinião centralista terem argumentos renovados.
Na verdade, ambos os lados são frequentemente seduzidos pelo extremismo e exageram. Sim, é verdade que o fato de um personagem importante e tradicional como Murdoch ter criado The Daily é um fato de imensa relevância, mas é inegável que a internet diminuiu o poder da grande mídia. Para atestar esse fato, basta citar, por exemplo, o próprio WikiLeaks, mas também a constatação de que muitos grandes jornais do mundo, como o New York Times, passam por graves dificuldades. A verdade é que é provável que a mudança pelo qual passa a relação entre nossa sociedade e a informação demore, ainda, muito tempo para completar-se. Qualquer pretensão de prever o resultado dessa mudança é, pelo menos, precipitada. Ainda por anos, indivíduos como Assange, tal qual o Prometeu do mito grego, lutarão para distribuir conhecimento, ainda que roubado dos poderosos que o detêm, à totalidade das pessoas. E é claro que os donos do poder – político ou econômico – confortáveis com o status quo, continuarão a defender seu monopólio da informação.
As manchetes mundiais a respeito da internet e da informação digital foram disputadas por dois rostos no ano de 2010. Um deles é o rosto jovem e coberto de sardas de Mark Zuckerberg, mais jovem bilionário do mundo, "personalidade do ano" eleita pela revista Time e dono do Facebook, empresa estimada em 50 bilhões de dólares, que obtém receita oferecendo espaço publicitário para empresas; o outro é o ligeiramente mais velho e menos sorridente de Julian Assange, australiano e pessoa pública do site WikiLeaks, inimigo de todos os diplomatas que falam demais e objeto de adoração dos defensores da informação livre. É claro que a comunidade digital não perdeu a oportunidade de ironizar a situação. Surgiu, na internet, uma imagem (que pode ser encontrada aqui) com uma foto de Julian Assange e um balão de fala que dizia: "Eu distribuo gratuitamente informação particular de empresas e eu sou um vilão." Ao lado, uma foto de Zuckerberg com a frase: "Eu vendo sua informação particular para empresas e sou o Homem do Ano." O fato de o primeiro ter sido amplamente glorificado pela mídia e corporações americanas, enquanto o segundo foi preso e considerado inimigo da diplomacia americana, abre-nos a possibilidade de uma discussão acerca dos valores que eles representam.
Não é possível dizer que um defende a privacidade ou sigilo e o outro, a transparência. Na verdade, tanto Assange quanto Zuckerberg são, ao menos oficialmente, a favor da informação livre, e acreditam que existe um movimento inevitável que levará nossa cultura a uma desvalorização da privacidade. Ao invés disso, eles têm visões opostas em relação a qual privacidade será perdida. O arauto dos WikiLeaks defende que empresas e governos liberem informação confidencial para que, de acordo com os princípios da democracia, elas possam ser fiscalizadas pelo povo. Já a desprivatização de Zuckerberg diz respeito diretamente ao indivíduo, o que é notoriamente conveniente para alguém que lucra vendendo informações pessoais. O cerne da questão, portanto, é a dicotomia que opõe as corporações ao indivíduo; a informação centralizada, àquela fragmentada.
Centralização e fragmentação da informação
Uma manifestação prática dessa oposição pode ser encontrada, de modo exemplar, na questão do software. Defensores do software livre – isto é, aquele que é distribuído gratuitamente e pode ser modificado por qualquer programador – anunciam há mais de uma década a "inevitável" queda do modelo de software proprietário – aquele praticado por empresas como Apple e Microsoft. O software livre se caracteriza por ser desenvolvido por indivíduos voluntários da comunidade. Vem daí seu apelo ideológico: se ele desse certo, a informação, ou pelo menos aquela que faz os programas funcionarem, seria criada por todos, para todos.
Mas, mesmo entre as grandes corporações, há pelo menos um grande defensor do modelo descentralizado: o Google. Isso é evidente no mercado de smartphones, no qual a empresa, criadora do sistema Android, compete com a Apple (cujo valor de mercado é de 322 bilhões de dólares, o equivalente a quase dois Googles ou cerca de 6.4 Facebooks), com o sistema operacional iOS. As duas têm modelos de negócios opostos. O Android, que é, por sinal, software livre, permite ao seu usuário criar seus próprios aplicativos, instalá-lo em qualquer celular compatível e modificar vários aspectos do sistema. O iOS só funciona em hardware fabricado pela Apple (iPhone, iPod, iPad), é software proprietário, não permite ao usuário acessar os aspectos ou modificar fundamentais do sistema e tem uma App Store, isto é, uma loja de programas, em que só entram aplicativos liberados pela empresa. Cada um dos sistemas tem seu nicho e ambos prosperam no mercado, o que parece indicar que nenhuma das duas estratégias é absoluta.
O problema da centralização contra a fragmentação da informação já afeta, há muito tempo, as discussões sobre o futuro do jornalismo. Aqueles que acreditam na inevitabilidade da fragmentação dizem que, no futuro, as grandes redes de notícias serão solapadas pelo conteúdo jornalístico gerado por usuários e publicado em blogs e redes sociais. Os centralistas acreditam que as megacorporações da mídia simplesmente migrarão para o meio da internet, ou então que novas empresas, adequadas especificamente a esse meio, surgirão, de forma semelhante ao que ocorreu com jornais impressos que migraram para a televisão e para o rádio no passado.
Donos do poder e seu monopólio
Desde o dia 2 deste mês, há um novo fator a ser levado em conta nessa discussão. Rupert Murdoch, dono da News Corp. e magnata da mídia internacional, lançou The Daily, o primeiro jornal exclusivamente dedicado ao iPad no mundo. Seu formato procura incorporar algumas das possibilidades que o formato virtual propicia, como interatividade, presença de vídeos e fotos de alta qualidade, mas ele, apesar desses recursos, é projetado para ser muito acessível a usuários casuais da internet, com menos prática. Ele não é gratuito: o preço da assinatura é de 99 centavos de dólar por semana. Com isso, Murdoch fez analistas que defendem a opinião centralista terem argumentos renovados.
Na verdade, ambos os lados são frequentemente seduzidos pelo extremismo e exageram. Sim, é verdade que o fato de um personagem importante e tradicional como Murdoch ter criado The Daily é um fato de imensa relevância, mas é inegável que a internet diminuiu o poder da grande mídia. Para atestar esse fato, basta citar, por exemplo, o próprio WikiLeaks, mas também a constatação de que muitos grandes jornais do mundo, como o New York Times, passam por graves dificuldades. A verdade é que é provável que a mudança pelo qual passa a relação entre nossa sociedade e a informação demore, ainda, muito tempo para completar-se. Qualquer pretensão de prever o resultado dessa mudança é, pelo menos, precipitada. Ainda por anos, indivíduos como Assange, tal qual o Prometeu do mito grego, lutarão para distribuir conhecimento, ainda que roubado dos poderosos que o detêm, à totalidade das pessoas. E é claro que os donos do poder – político ou econômico – confortáveis com o status quo, continuarão a defender seu monopólio da informação.
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internet e poder - COMUNICAÇÃO A revolução digital e o bombardeio de informações - observatório da da imprensa
Por Leticia Nunes (edição) e Larriza Thurler em 15/2/2011
Recebemos informações demais. A conclusão é de um estudo conduzido na Escola de Comunicação da Universidade do Sul da Califórnia e publicado na Science, que sentenciou: hoje, somos bombardeados diariamente com quantidade de dados equivalente a 174 jornais. Em 1986, este número era cinco vezes menor.
A quantidade de fontes de comunicação aumentou, e com ela o volume da informação que chega a nós. Internet, e-mails, televisão 24 horas e telefones celulares estão presentes de forma significativa em nosso cotidiano. Junte-se aí, mais recentemente, o fenômeno das redes sociais, microblogs e o aumento da comunicação via mensagens de texto.
Toda esta informação precisa ser guardada, e hoje cada um de nós tem o equivalente a 600 mil livros armazenados em computadores e microchips. O cálculo do tamanho da revolução da informação na era digital foi feito pelos pesquisadores Martin Hilbert, da Universidade do Sul da Califórnia, e Priscila López, da Universidade Aberta da Catalunha. Eles usaram uma fórmula complexa para chegar à quantidade média de informação armazenada e enviada no mundo em todos os meios possíveis – de computadores a cartas colocadas no correio.
Números
A equipe pesquisou 60 categorias de tecnologias analógicas e digitais entre 1986 e 2007. Usando uma analogia de um jornal com 85 páginas, os pesquisadores descobriram que em 1986 nós recebíamos o equivalente a 40 jornais de informações por dia. Em 2007, este número já chegava a 174 jornais. Há 24 anos nós enviávamos diariamente – por correio, telefone e fax – o equivalente a duas páginas e meia de jornal. Em 2007, com a entrada do e-mail, da fotografia digital e ferramentas como Twitter e Facebook, este número subiu para seis jornais.
Há dez anos, a grande maioria da informação era armazenada em vídeo e fitas de áudio. A grande mudança do meio analógico para o digital ocorreu em 2002, e hoje mais de 90% de todos os dados no mundo são armazenados digitalmente. A capacidade mundial para as telecomunicações de duas vias, como internet e redes de telefonia, cresceu 28% por ano, enquanto o fluxo de informação de uma via, como televisão e rádio, teve aumento bem mais tímido: 6% ao ano.
Ainda que a quantidade de informação no mundo seja hoje enorme, Hilbert ressalta que ela ainda é minúscula perto da quantidade de informação existente na natureza. "Comparados à natureza, somos humildes aprendizes. Se tentássemos armazenar o nome de cada estrela no Universo, conseguiríamos chegar apenas a um por cento". Com informações de Richard Alleyne [The Telegraph, 11/2/11].
Recebemos informações demais. A conclusão é de um estudo conduzido na Escola de Comunicação da Universidade do Sul da Califórnia e publicado na Science, que sentenciou: hoje, somos bombardeados diariamente com quantidade de dados equivalente a 174 jornais. Em 1986, este número era cinco vezes menor.
A quantidade de fontes de comunicação aumentou, e com ela o volume da informação que chega a nós. Internet, e-mails, televisão 24 horas e telefones celulares estão presentes de forma significativa em nosso cotidiano. Junte-se aí, mais recentemente, o fenômeno das redes sociais, microblogs e o aumento da comunicação via mensagens de texto.
Toda esta informação precisa ser guardada, e hoje cada um de nós tem o equivalente a 600 mil livros armazenados em computadores e microchips. O cálculo do tamanho da revolução da informação na era digital foi feito pelos pesquisadores Martin Hilbert, da Universidade do Sul da Califórnia, e Priscila López, da Universidade Aberta da Catalunha. Eles usaram uma fórmula complexa para chegar à quantidade média de informação armazenada e enviada no mundo em todos os meios possíveis – de computadores a cartas colocadas no correio.
Números
A equipe pesquisou 60 categorias de tecnologias analógicas e digitais entre 1986 e 2007. Usando uma analogia de um jornal com 85 páginas, os pesquisadores descobriram que em 1986 nós recebíamos o equivalente a 40 jornais de informações por dia. Em 2007, este número já chegava a 174 jornais. Há 24 anos nós enviávamos diariamente – por correio, telefone e fax – o equivalente a duas páginas e meia de jornal. Em 2007, com a entrada do e-mail, da fotografia digital e ferramentas como Twitter e Facebook, este número subiu para seis jornais.
Há dez anos, a grande maioria da informação era armazenada em vídeo e fitas de áudio. A grande mudança do meio analógico para o digital ocorreu em 2002, e hoje mais de 90% de todos os dados no mundo são armazenados digitalmente. A capacidade mundial para as telecomunicações de duas vias, como internet e redes de telefonia, cresceu 28% por ano, enquanto o fluxo de informação de uma via, como televisão e rádio, teve aumento bem mais tímido: 6% ao ano.
Ainda que a quantidade de informação no mundo seja hoje enorme, Hilbert ressalta que ela ainda é minúscula perto da quantidade de informação existente na natureza. "Comparados à natureza, somos humildes aprendizes. Se tentássemos armazenar o nome de cada estrela no Universo, conseguiríamos chegar apenas a um por cento". Com informações de Richard Alleyne [The Telegraph, 11/2/11].
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