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sábado, 21 de maio de 2011

CIDADÃO KANE, 70 ANOS - Rosebud, o quebra-cabeça - observatório da imprensa

Por Nigel Andrews em 17/5/2011

Reproduzido do Valor Econômico, 13/5/2011; tradução de Mario Zamarian, intertítulos do OI

Como seu protagonista, ele nos persegue pelos corredores da história. Inchado, grotesco, enorme; destruindo tudo por onde passa; influenciando e renovando. Cada década que se inicia o classifica como melhor filme de todos os tempos. Cada nova geração tenta responder: "Por quê?". Cidadão Kane faz 70 anos. Sete décadas após sua estreia em Nova York, em maio de 1941, ele ainda está em toda parte. Não só por si, mas na forma de relançamentos, exibição em TV ou DVD, e na sombra monstruosa que lança sobre cineastas de todo o mundo.

Muito tempo depois de os críticos franceses que viraram diretores e criaram a Nouvelle Vague terem transformado Welles num semideus – lembra-se do jovem herói de Os Incompreendidos, de François Truffaut, que sonha em roubar fotogramas de uma exibição de Cidadão Kane? –, a figura do megalomaníaco atormentado, presidindo sobre os cacos de sua vida, é impossível de ser ignorada.

De Michael Corleone em O Poderoso Chefão a Daniel Day Lewis em Sangue Negro, via o Jake La Motta de Robert De Niro em Touro Indomável (o Cidadão Kane dos filmes sobre boxe), a vida dos personagens examinados sempre vale a pena para um público nutrido com temas como a ambição, a autodestruição e a guerra entre ações privadas e públicas. Não menos onipresentes desde Cidadão Kane são os dramas relatados com lembranças conflituosas, como Rashomon, O Ano Passado em Marienbad, Memento e Magnolia. Não menos "moderno" em estilo, sobretudo desde que Robert Altman acrescentou novas cores à maestria de Cidadão Kane, é o movimentado retrato da vida enriquecido com uma trama e diálogos sobrepostos. Cidadão Kane chegou lá primeiro todas as vezes. Quando não conseguiu, seu brilho destruiu as lembranças dos antecessores.

Vencedor único

Welles não se preocupava com a forma de fazer filmes da ABC. Prodígio precoce, com 25 anos quando fez Cidadão Kane, passou direto para o XYZ. X representava a casa de Kane, o castelo de Xanadu, envolto em névoa, um sonho megalomaníaco construído sobre uma montanha artificial. Y queria dizer "Why?" (por quê?) – mais uma vez, a pergunta mais simples e mais importante. Por que Kane era bem-sucedido, por que ele era um fracasso? Por que foi um triunfo e uma tragédia? Por que é, de uma maneira simultânea e quase simbiótica, todos nós e nenhum de nós?

E o Z? Ele quer dizer Zaharoff. Muitos admiradores de Cidadão Kane pensam que foi com ele que tudo começou. Em 1936, Welles, então produtor de rádio genial de Nova York, ajudou a elaborar o obituário "A Marcha do Tempo", sobre o magnata comerciante de armas sir Basil Zaharoff. Vinhetas dramatizadas começam com secretárias de Zaharoff queimando seus documentos numa fogueira gigante em seu castelo. Depois, testemunhas são chamadas para relembrar a vida de Zaharoff. Mais adiante, o moribundo magnata, representado por Welles, ganha a palavra e uma aparição breve. Anuncia o desejo de ser conduzido em cadeira de rodas para "perto daquela roseira". Sabemos em que a roseira (rosebush em inglês) se transformou. "Rosebud" (botão de rosa), o som mais importante pronunciado em Cidadão Kane, a última palavra de Kane antes de sua morte, o segredo de seu infortúnio. É o nome de um trenó que ele teve na infância, que acaba sendo lançado nas chamas nas cenas finais do filme.

Jorge Luis Borges, que também foi crítico de cinema e adorava Cidadão Kane, achava a ideia de Rosebud seu ponto mais fraco. O filme, escreveu ele, "tem pelo menos dois enredos. O primeiro é de uma imbecilidade quase banal... Ao morrer, Kane tem saudade de uma única coisa: um trenó apropriadamente miserável com que ele brincava quando criança!".

O próprio Welles se referia a Rosebud como "uma piada freudiana barata". Foi o único detalhe do filme que ele atribuiu sem restrições ao roteirista Herman Mankiewicz, para quem se recusava a dar crédito em quase todas as outras partes.

O problema da autoria de Cidadão Kane – a autoria de sua genialidade, e não só da história – é o assunto do livro Criando Kane, de Pauline Kael, publicado pela primeira vez como um ensaio na The New Yorker em 1971. A alegação da autora foi que Mankiewicz, o irregularmente brilhante e beberrão irmão de Joseph (que fez A Malvada), foi roubado – em parte pelo ego de Welles – do direito de se chamar o criador de Cidadão Kane. (Em 1941, ele foi o único que recebeu o Oscar, embora os créditos pelo roteiro tenham sido divididos com Welles, após uma decisão da Writers Guild, a associação dos roteiristas dos EUA).

Em 1972, o crítico e diretor Peter Bogdanovich escreveu The Kane Mutiny (O Motim Kane), atacando Pauline Kael e defendendo Welles. Bogdanovich está certo. Não é o conceito, os diálogos ou mesmo a caracterização que faz do filme uma obra-prima. É sua visão.

Estupefação épica

O que isso quer dizer? Vamos voltar para Borges. Qual é a segunda das "duas tramas"? Ela é, para Borges, superior à trama de Rosebud. É "a investigação da alma secreta de um homem pelas obras que deixou, as palavras que pronunciou, os destinos que destruiu... O filme está cheio de formas de multiplicidade, de incongruência... Em uma das histórias de Chesterton" – G.K. Chesterton, de quem Borges tanto gostava – "o herói observa que nada é tão assustador quanto um labirinto sem centro. Esse filme é esse labirinto."

Você pode transformar um labirinto em um roteiro. Mankiewicz ajudou a fazer isso. Mas a caneta do roteirista não pode esculpir ou construí-lo, dar-lhe tamanho e reverberação. O labirinto em Cidadão Kane, o sepulcro da vida, o palácio da morte, é puro delírio cinematográfico, a criação do homem por trás da câmera. Sua infinitude refletida é produzida por um diretor que amava reflexos (o tiroteio na sala de espelhos do parque de diversões no clímax de A Dama de Xangai), suas atrocidades sombrias por um homem que amava sombras (A Marca da Maldade).

"Wellesiana" de forma sublime é o "assombreamento" – às vezes é preciso inventar uma palavra se não há outra disponível – obsessivo do filme entre o teatral e o cinematográfico. Ninguém chegou tão perto de entender essa tensão quanto esse diretor. Cidadão Kane é sobre a busca da verdade jornalística pela representação teatral; e se perguntar, no processo, se mesmo a verdade jornalística é o último nível da realidade. Os cenários e a ambientação de Cidadão Kane são monstruosamente teatrais, e mesmo assim continuamos percorrendo-os, passando por trás e acima deles.

O sinal sobre o clube noturno de Susan Alexander é – numa tomada "impossível" obtida pelo movimento do cenário – atravessado pela câmera. É um mundo cosmético e artificial, que nos desafia a encontrar verdades escondidas. A atuação de Welles fica mais teatral ao longo do filme. Para representar Charles Foster Kane quando velho, passava seis horas se maquiando: um adulto brincando com charadas. Mesmo assim, a força do filme, ajudada pelo poder de nossa curiosidade, destrói a sensação do faz-de-conta cosmético.

Rosebud é parte da mesma ação. O que parece uma simplificação de conto de fadas, uma ideia do departamento de adereços, abre-se e se transforma em parte da repercussão do filme. Welles foi mágico amador no fim da vida; seu último filme, Verdades e Mentiras, tratava de prestidigitação e embustes. Não admira que o segredo aparentemente fácil de Cidadão Kane – o nome de um trenó da infância – possa ser o segredo de fato. De uma forma mais literal, é o botão que se abre para a plateia, o botão que não se abre no filme. Na tela, "Rosebud" nos diz que a vida de Kane foi corrompida em seu processo pelo encontro precoce com a riqueza e o destino. Mas, na nossa experiência com o filme, "Rosebud" passa o oposto. A pronúncia da palavra cresce e cresce. Assim como muito do que acontece no cinema, ela começa com uma alusão e se expande no processo de mudança, associação, contraponto e contradição, transformando-se numa coisa que tudo engloba.

As partes representam o todo. Elas se tornam o todo. O padrão está em toda parte, da famosa cena do café da manhã – 16 anos de casamento elipsados na montagem de dois minutos –, à maneira como a ideia do "quebra-cabeça" se torna reveladora, permeando tudo. Voltamos à estupefação épica de Susan Alexander Kane diante de um quebra-cabeça literal nas cenas finais e toda a técnica de quebra-cabeça empregada na rica montagem do filme: do cinejornal no início, mostrando o News on the March, às passagens agitadas envolvendo a carreira de magnata de Kane.

Gênio e criança

A realidade se contrapõe ao artificial. A cristalização se contrapõe à expansão. O condensado se contrapõe ao digressivo. E, é claro, os fatos se contrapõem à ficção. Será "Cidadão Kane" retrato do multimilionário da imprensa William Randolph Hearst? É claro. Hearst o reconheceu, proibindo menção ao filme em suas publicações. Louis B. Mayer, em nome de uma Hollywood que temia a represália terrível de Hearst, ofereceu aos estúdios RKO US$ 805 mil para queimar todas as cópias e o negativo do filme.

Mas Cidadão Kane não tem nada a ver com Hearst e, como ícone mundial, sobreviveu a ele. Pode-se dizer, com razão, que Kane é o personagem Kurtz de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad – que inspiraria Francis Ford Coppola em seu Apocalipse Now. O filme O Coração das Trevas era o projeto de estreia de Welles, cuja pré-produção ele havia iniciado. Caro demais, ele o trocou por Cidadão Kane. Mas as histórias são idênticas. Um "explorador" (em Cidadão Kane, um repórter investigativo) viaja "rio acima" (contra as ondas da resistência) através de uma "selva" (de informações conflitantes e contraditórias) para encontrar um homem – ou, em Cidadão Kane, o segredo de um homem – que vive como tirano determinado.

Mas, de todo modo, Kane é o próprio Welles. Os amantes e os críticos de Cidadão Kane reconhecem o jovem volúvel e atormentado que aparece diante das câmeras como o que está atrás delas. O gênio maduro que era ao mesmo tempo uma enorme criança. O tirano rabugento que era uma alma perdida, cativante e fértil. O botão de rosa que também era rosa...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Discutindo a nova mídia - blog do luisnassif

seg, 16/05/2011 - 13:17
No IV Congresso Latino Americano de Opinião Pública da WAPOR, Belo Horizonte, um dos trabalhos mais consistentes sobre a Blogosfera e os novos meios de comunicação foi "Eleições 2010: internet em alta, mídia de massa em baixa?" de Anderson Ortiz, Mestrando em Novas Tecnologias da Comunicação – PPGCOM/Uerj, professor das Faculdades Integradas Helio Alonso.

A ação política da velha mídia

O primeiro passo do trabalho foi tentar identificar a atuação política da mídia. A análise constatou que:

a) a atuação mais ativa dos meios de comunicação em sistemas avançados de mídia como o brasileiro é um fenômeno presente em democracias liberais;

b) um padrão de discurso e cobertura de matriz norte-americana exerce forte influência em sociedades com tal alinhamento;

c) este padrão alia desenvolvimento comercial, entretenimento, profissionalização do político, antagonismo entre políticos e jornalistas, resultando em cinismo e apatia da opinião publica em relação à vida política;

contemporaneamente a televisão ocupa papel de destaque como um dos mais influentes meios de comunicação para a área política;

e) o papel da imprensa deve ser vigiar o poder público sendo, portanto, exagerado esperar que atue como definidora da agenda pública política aprofundada.

O trabalho constata que o escândalo é o limite máximo da cobertura jornalística. É dentro desse modelo, basicamente influenciado pela mídia norte-americana, que se desenvolvem os valores midiáticos, dentre os quais o autor destaca:

O paradigma comercial como fator de proliferação de meios massivos; a abordagem dos assuntos sob um viés editorial voltado para o entretenimento; a adequação da figura do político e dos eventos públicos para a cobertura midiática dos assuntos; um antagonismo crescente entre jornalistas e políticos; cinismo recorrente do público em relação à política graças à visão dos jornalistas que prevalece nos enquadramentos dados pelos conteúdos.

Durante as eleições, é quase impossível à mídia discutir temas relevantes ou apontar os melhores candidatos, porque sua posição é a de "captar o fato novo, aquilo que é fora do comum e pode ser retratado na linguagem de cada meio sob seus aspectos e enfoques sensacionalistas".

Essas constatações são de estudiosos estrangeiros e não enfocam especificamente as situações em que a mídia passa a se comportar como partido político.

O circuito do espetáculo midiático-político

A mídia define uma agenda voltada para o espetáculo e candidatos e partidos se esforçam para atende-la atuando de maneira dramatizada ou espetacular. O que define a cobertura são as necessidades dos meios de comunicação, não o interesse público.

Ponto interessante do trabalho é a descrição de mecanismos que levam ao processo de formação da opinião da massa.

Segundo Noelle-Neumann (1972) "os meios de comunicação de massa participam na formação da opinião pública à medida que dão ao indivíduo uma idéia do que pensa o restante da coletividade sobre um dado tema. Este interesse em conhecer e se adequar ao sistema de valores socialmente aceitos faz com que o indivíduo corrobore suas crenças, mude seu pensamento para se adaptar ao grupo, ou simplesmente se exima de emitir sua real opinião (conceito da espiral do silêncio). Tal comportamento parte da premissa de que o indivíduo tenta evitar divergências que possam isolá-lo da coletividade".

Reside aí a maior parte do poder mais pernicioso da mídia. Alias, um outro trabalho apresentado durante o Congresso mostrou como a mídia tradicional sufocou a Última Hora em 1964. Bastava insinuar que abrigava comunistas para imediatamente provocar uma retração dos anunciantes. Esse foi o mesmo principio do macartismo e do movimento midiático brasileiro nos últimos anos.

Cria-se uma “denúncia” qualquer do adversário, dentro do modelo de assassinato de reputação e, com isso, inibe-se as relações especialmente com segundo e terceiro escalaão de empresas;

A regulação na Internet

Outro bom momento do trabalho é o da classificação dos internautas, em relação ao modelo de regulação da Internet, a discussão sobre a democracia digital.

Há duas correntes que se antagonizam ao falar sobre a democracia digital procurando responder se este meio de comunicação pode condicionar um novo modelo de participação (Zittel, 2004). Para os ‘ciberotimistas’, a popularização da base de equipamentos conectados, a entrada maciça de parcelas cada vez maiores dos estratos sociais, a possibilidade de comunicação descentralizada do modelo tradicional ‘um-todos’, passando para modelos ‘um-muitos’ ou ‘um-poucos’ e a interação com pessoas em diferentes pontos do globo de uma maneira fácil e conveniente são argumentos que mostram que uma nova esfera social se forma em torno do aparato tecnológico da internet. Na corrente oposta, cientistas políticos percebem esta e-democracia mais como uma forma de reforçar velhas estruturas da política tradicional do que transformar o fazer político.

Já a corrente “democrata-participacionista” preceitua que a internet é um espaço para colocar o cidadão como um elemento atuante nas decisões políticas. As questões colocadas em evidência são a participação e o engajamento (...). Graças ao poder da comunicação direta e equilibrada em rede, diminui a necessidade de mediação do elemento político e demais gatekeepers (órgãos do poder público, partidos políticos, empresas, entidades de representação, imprensa) na relação entre sociedade e Estado.
Mas há quem coloque em duvida essa democracia.

Segundo Gomes (2008) "ao contrário de uma participação ampliada da sociedade civil, o que se constata é que o público médio apresenta baixo interesse pelos assuntos políticos e nota-se um predomínio de atores sociais já relacionados à política fora da rede de computadores que utilizam o espaço como mais uma ferramenta do fazer político tradicional.
Há dúvidas também em relação ao tema democracia direta.

Autores como Zittel registram três níveis de democracia digital.

A dimensão jurisdicional baseia-se na probabilidade de as decisões serem tomadas coletivamente ou por um ator social autônomo, daí decorrendo que o novo meio digital aumenta os laços sociais e o engajamento cívico, um campo que se auto-regula com novos tipos de comunidades virtuais.
Na dimensão decisional, preceitua-se que este espaço pode se transformar num foro apropriado para decisões diretas da opinião pública.
Graças à dimensão representacional, tem-se que a distância entre o cidadão comum e as instituições representativas pode diminuir graças à internet.

A Internet apresenta vantagens obvias: a superação dos limites de tempo e espaço para participação política; quantidade e armazenamento de informações on-line sempre à disposição; comodidade, conforto e conveniência para acessar informações; facilidade e extensão de acesso; baixo controle e poucos filtros como parte da própria natureza do meio.
A topologia das redes sociais

Mas quais são os gatilhos que despertam a atitude engajada? A pauta é dada pela velha mídia. A blogosfera “reenquadra” a matéria (re-framing) sob um viés contestador.

O objeto de disputa no ativismo digital vai ser a informação. O campo opositor, portanto, é a própria mídia tradicional, sendo o desafio maior do ciberativismo obter êxito em reverter o fluxo da comunicação pautando a mídia estabelecida para um enquadramento diferente consoante os interesses daquele grupo.

A partir daí, forma-se a seguinte corrente:

a) os blogs se abastecem do material produzido pelos meios tradicionais, ampliando ou replicando a cobertura de veículos;
b) o fluxo de passagem da produção ainda se dá mais no sentido dos meios tradicionais migrando seu conteúdo para internet;
c) Na apropriação dos conteúdos, veículos tradicionais conferem maior credibilidade ao autor, tanto para apoiar quanto para refutar.
Em relação à topologia das redes sociais, a divisão é entre as redes igualitárias (aquelas em que todos os ‘nós’ ali presentes têm o mesmo número de conexões), redes mundos pequenos (cujas conexões mostram que há a existência de poucos graus de separação entre as pessoas na formação de famílias de grupos) e redes sem escalas (que postula a existência de ‘nós’ mais centrais na rede, mais fortes que outros e atuando como mediadores e multiplicadores).

Há também uma vasta conceituação sobre a maneira como as redes se interligam e as notícias se propagam.

Os conteúdos começam nas redes com capital relacional forte. No caso de “grupos sociais de capital cognitivo” (sociologuês para definir grupos em que há conteúdo mais denso), como os blogs políticos, a discussão fica limitada a grupos mais localizados e restritos, com maior grau de interesse pelo assunto abordado.

O trabalho divide as comunidades da Internet em ‘emergentes’, ‘associativas’ ou ‘híbridas’.

As “emergentes” baseiam-se nas interações recíprocas dos autores

No caso dos weblogs ligados à política, ou simplesmente blogs2, constata-se que a autoridade na produção de conteúdo inicia na figura de seus colunistas. Dali se dá o processo de difusão de informações para outras redes, quando outros participantes se abastecem de fatos e os replicam para outros ‘nós’.

A reputação é um aspecto importante neste jogo de apropriação e é corroborada pela garantia institucional de um veículo também presente em outros meios de comunicação offline. Há de se observar, portanto, o papel que o veículo desempenha em relação ao autor do blog como uma garantia prévia de credibilidade da fonte.
O trabalho minimiza a extensão dos grupos políticos que se degladiam na Internet. Em geral as discussões políticas ficam restritas a grupos de militantes, sem alcançar públicos maiores.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

As novas mídias e o jogo político - nassif -

Enviado por luisnassif, seg, 09/05/2011 - 08:00
Coluna Econômica

Na sexta-feira passada participei da sessão de encerramento do IV Congresso Latino Americano de Opinião Pública da Wapor, um encontro que reuniu especialistas em pesquisas de opinião do continente, tanto da área acadêmica quanto dos institutos de pesquisa.

As novas mídias entraram definitivamente na agenda do setor, por sua capacidade de interferir em eleições. Esse processo ficou claro nas eleições de Obama. De seu lado, foi auxiliado por uma multidão de blogueiros e voluntários. Na outra ponta, alvo de uma campanha de baixíssimo nível, valendo-se de redes sociais e blogs, apontando-o como terrorista, muçulmano etc.

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Alguns pensadores defendem a tese de que a blogosfera é por demais caótica para conseguir interferir no jogo político. Em geral se aferram a um retrato atual do setor, incapazes de entender o processo futuro.

A blogosfera é como uma imensa assembleia pública dos primórdios da democracia grega, uma imensa sala onde todos se manifestam.

Desde o advento da indústria da comunicação, o jogo da opinião pública ficou restrita à opinião que passava pelos grandes jornais centrais de cada país. Ficavam de fora desse jogo as cidades e cidadãos do interior, setores da economia, movimentos sociais, pequenas empresas etc.

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A blogosfera é um caos – que em determinado momento encontrará várias formas de organização. A diferença é que todas as manifestações, ruídos, militâncias se dão na mesma plataforma tecnológica. Essa é a diferença fundamental.

Sem Internet, a opinião pública é captada ou através de pesquisas de opinião estáticas, ou através do filtro do jornal.

Com a Internet, o jogo é outro. Todas as opiniões são bites na rede. Todas as informações estão disponíveis para modernas ferramentas de gestão do conhecimento, seja RSS (sistema que permite receber automaticamente notícias de um site ou blog), cokpits (formas aprimoradas de organizar informações).

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O primeiro bloqueio à informação – sua publicização – é removido. Cada vez mais será possível buscar informações dos locais mais distantes, dos setores mais esquecidos.

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Espalhadas pela rede, as informações assumem inicialmente um aspecto caótico. Gradativamente surgirão os hubs, os agregadores, que buscarão informações e darão tratamento jornalístico às notícias.

Haverá implicações em todas as áreas.

Por exemplo, na política econômica, atualmente o único setor ouvido é o dos economistas de mercado, com fácil acesso às editorias econômicas dos grandes jornais de São Paulo e Rio.

Gradativamente setores da indústria, de serviços, sindicatos, cidades do interior, disponibilizarão dados na rede, acessíveis a analistas, pesquisadores, veículos de informação, autoridades econômicas etc.

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As eleições do ano passado, além disso, mostraram a importância do contraponto permitido pela Internet, especialmente em períodos em que não há contraponto na grande mídia.

Mesmo em fase incipiente, o espaço proporcionado pela Internet já modificou a história da mídia.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ignacio Ramonet e a explosão do novo jornalismo - Outras Palavras

Ignacio Ramonet descreve explosão do jornalismoBy admin – 20/04/2011Posted in: Capa




Surgiu novo sinal de que a comunicação compartilhada tem futuro e enorme potência transformador. O jornalista francês Ignacio Ramonet – um dos estudiosos mais profundos, refinados e críticos da mídia convencional – acaba de lançar A Explosão do Jornalismo (disponível por enquanto, apenas em francês). A grande novidade na obra é a esperança militante que o autor deposita na blogosfera, nas redes sociais e num novo jornalismo que se associe a elas.

Ao longo dos últimos quinze anos, Ramonet foi, talvez, o analista mais destacado da mercantilização e pasteurização da imprensa. Diretor (entre 1990 e 2008) da edição francesa do Le Monde Diplomatique, ele abriu as páginas do jornal a textos agudos sobre a involução por que passaram os jornais, o rádio e a TV, no período. Apontou, sempre com muita riqueza de dados. a associação crescente entre imprensa e grande empresa. Associou este processo ao papel domesticador que a mídia passou a desempenhar no período – totalmente oposto à conceito de “contra-poder”, reivindicado pelos defensores de uma democracia de alta intensidade. Cunhou, num editorial escrito em janeiro de 1995, o termo “pensamento único”, para denunciar o apagamento da diversidade. Lembrou que, nas novas condições, a imprensa passava a desempenhar, para as sociedades capitalistas, papel similar ao que o “partido único” exercera nos países alinhados à extinta União Soviética.

Tal combate deu-lhe relevância e prestígio: político, teórico e acadêmico. Mas nos últimos anos – precisamente quando amplos setores sociais reagiram ao pensamento único apropriando-se da internet e criando um novo jornalismo horizontal e cidadão – Ramonet parecia descrente. Seus textos continuaram apontando, ácidos, a degenerescência da imprensa-empresa. Mas ele mostrava-se pouco sensível à grande novidade. Numa entrevista concedida em São Paulo em 2008, durante o I Encontro do Jornalista Escritor, enxergou uma internet prestes a ser colonizada pelas grandes corporações da indústria da comunicação.

A Explosão do Jornalismo reverte este ceticismo. E Ramonet redefine sua posição aportando densidade teórica e imaginativa à luta para construir a nova mídia. No novo livro, ele busca, por exemplo, caminhos para associar a blogosfera a publicações que funcionem como nós na rede – pontos de convergência, debate e colaboração permanente entre blogueiros e outros comunicadores. Também especula sobre as maneiras de oferecer, aos novos meios e seus “neojornalistas”, condições de sustentabilidade material em bases pós-mercantis.

No final da semana passada, Ramonet concedeu, ao jornal francês L’Humanité, ampla entrevista sobre seu novo livro. É um prazer traduzi-la e oferecê-la aos leitores de Outras Palavras (A.M.)

Entrevista a Frédéric Durand, no L’Humanité | Tradução: Antonio Martins

Você afirma, em seu livro, que “o jornalismo tradicional desintegra-se completamente”

Ignacio Ramonet: Sim, inclusive porque ele está sendo atacado de todos os lados. Primeiro, há o impacto da internet. Parece claro que, ao criar um continente mediático inédito, ela produz um jornalismo novo (blogs,redes sociais, leaks), em concorrência direta com o jornalismo tradicional. Além disso, há o que poderíamos chamar de “crise habitual” do jornalismo. Ela é anterior à situação atual. Desdobra-se em perda de credibilidade, diretamente ligada à consanguinidade entre muitos jornalistas e o poder econômico e político, que suscita uma desconfiança geral do público. Por fim, há a crise econômica, que provoca uma queda muito forte da publicidade, principal fonte de financiamento das mídias privadas e desencadeia pesadas dificuldades de funcionamento para as redações.

A que se deve a perda de credibilidade?

Ignacio Ramonet: Ela acentuou-se nas duas últimas décadas, essencialmente como consequência do desenvolvimento do negócio midiático. A imprensa nunca foi perfeita, fazer bom jornalismo foi sempre um combate. Mas a partir da metade dos anos 1980, vivemos duas substituições. Primeiro, a informação contínua na TV, mais rápida, tomou o lugar da informação oferecida pela impressa escrita. Isso conduziu a uma concorrência mais viva entre mídias uma corrida de velocidade em que resta cada vez menos tempo para verificar as informações. Em seguida, a partir da metade dos anos 1990, com o desenvolvimento da internet. Particularmente há alguns anos, com a emergência dos “neojornalistas”, estas testemunhas-observadoras dos acontecimentos (sejam sociais, políticos, culturais, meteorológicos ou amenidades). Eles tornaram-se uma fonte de informações extremamente solicitada pelas próprias mídias tradicionais.

O público parece justificar sua desconfiança em relação à imprensa pela promiscuidade entre o poder e os jornalistas

Ignacio Ramonet: Para a maioria dos cidadãos, o jornalismo resume-se a alguns jornalistas: estes que se vê em toda parte. Duas dezenas de personalidades conhecidas, que vivem um pouco “fora da terra”, que passam muito tempo “integrados” com os políticos, e que, em toda o mundo, conciliam bastante com eles. Constitui-se assim uma espécie de nobreza política, líderes políticos e jornalistas célebres que vivem (e às vezes se casam) entre si mesmos, uma nova aristocracia. Mas esta não é a realidade do jornalismo. A característica principal desta profissão é, hoje, a precarização. A maior parte dos jovens jornalistas é explorada, muito mal paga. Trabalham por tarefa, muitas vezes em condições pré-industriais. Mais de 80% dos jornalistas recebem baixos salários. Toda a profissão vive sob ameaça constante de desemprego. Portanto, as duas dezenas de jornalistas célebres não são nem um pouco representativas, e mascaram a miséria social do jornalismo – na França e em mutos outros países. Isso não mudou com a internet – talvez, tenha se agravado. Nos sites de informação em tempo real criados pela maior parte da velha mídia, as condições de trabalho são ainda piores. Surgem novos tipos de jornalistas explorados e superexplorados. O que pode consolá-los é saber que, talvez, seu futuro lhes pertença.

Nestas condições, o jornalismo pode ainda assumir o título de “quarto poder”, que age como um contra-poder?

Ignacio Ramonet: Vivemos uma concentração extraordinária das mídias. Quem examina a estrutura de propriedade da imprensa francesa, por exemplo, constata que ela está em mãos de um número reduzidíssimo de grupos. Um punhado de oligarcas – Lagardère, Pinault, Arnault, Dassault – tornou-se proprietário dos grandes meios. Estes expressam uma pluralidade cada vez menor e se supõem que defendam os interesses dos grandes grupos financeiros e industriais a que pertencem. Isso provoca a crise do “quarto poder”. Sua missão histórica, que consiste em criar uma opinião pública com senso crítico e capaz de participar ativamente do debate democrático, já não pode ser garantido. A mídia procura, ao contrário, domesticar a sociedade e evitar qualquer questionamento ao sistema dominante. Os grandes meios criaram um consenso em torno de certas idéias (a globalização e o livre-comércio, por exemplo), consideradas “boas para todos” e incontestáveis. Quem as renega deixa aquilo que Alain Minc chamou de “círculo da razão”. Entra, portanto, em desrazão…

Você refere-se às vezes à necessidade de um “quinto poder”

Ignacio Ramonet: Sim. Se constatamos que o “quarto poder” não funciona, isso representa um grave problema para a democracia. Não se pode conceber uma democracia sem o autêntico contra-poder da opinião pública. Uma das especificidades dos sistemas democráticos está, aliás, nesta tensão permanente entre poder e no respectivo contra-poder. É o que faz a versatilidade e capacidade de adaptação deste sistema. O governo tem, como contrapeso a seu poder, uma oposição, os patrões, os sindicatos. Mas a mídia não tem – e não quer ter! – um contra-poder.

Ora, há uma demanda social forte e crescente de informações sobre a informação. Diversas associações tem se constituído (na França, a Acrimed) para aferir a veracidade e o funcionamento da mídia. Para que a sociedade possa defender-se melhor. É assim que as sociedades constroem, pouco a pouco, um “quinto poder”. Sendo que o mais difícil é fazer com que a mídia dominante aceite este “quinto poder” e lhe dê a palavra…

Em seu livro, você afirma que o futuro dos jornais escritos é tornar-se imprensa de opinião. Por que?

Ignacio Ramonet: Os jornais mais ameaçados são, em minha opinião, os que reproduzem todas as informações gerais e cuja linha editorial dilui-se totalmente. Embora seja importante, para os cidadãos, que todas as opiniões se exprimam, isso não quer dizer que cada mídia deva reproduzir, em si mesma, todas estas opiniões. Neste sentido, a imprensa de opinião é necessária. Não se trata de uma imprensa ideológica, ligada ou identificada com uma organização política – mas de um jornalismo capaz de defender uma linha editorial definida por sua redação.

Na medida em que, para tentar enfrentar a crise da imprensa, os jornais decidiram abrir espaço, em suas colunas, a todas as teses políticas, da extrema esquerda à extrema direita, sob pretexto de que vale tudo, muitos leitores deixaram de comprar estas publicações. Porque uma das funções de um jornal, além de fornecer informações, é conferir uma “identidade política” a seu leitor. Porém, agora, o jornal não expressa mais o que são seus leitores. Estes, ao contrário, confundem as identidades dos jornais e se desconcertam. Eles compram, digamos, Libération, e leêm uma entrevista com Marine Le Pen. Aliás, por que não? Mas os leitores podem descobrir, por exemplo, que têm talvez algumas ideias em comum com o Front National. E ninguém lhes dá referências a respeito, o que provoca inquietação. Tal desarranjo confunde muitos leitores. Hoje, o fluxo de informações que transita na internet permite que cada um forme sua própria opinião. Em plena crise dos jornais, o sucesso do semanário alemão Die Ziet é significativo. Ele escolheu contestar as ideias e informações dominantes, com artigos de fundo – longos e às vezes árduos. As vendas crescem. No momento em que toda a imprensa faz o mesmo – artigos cada vez mais curtos, com um vocabulário de 200 palavras, Die Ziet escolheu uma linha editorial clara e distinta. Além disso, seus textos permitem lembrar de que o jornalismo é um gênero literário…

Ao mencionar a superabundância de informações, na internet e em suas redes sociais, você refere-se a sabedoria coletiva e a embrutecimento coletivo. Por que?

Ignacio Ramonet: Nunca na histórias das mídias os cidadãos contribuíram tanto à informação. Hoje, quando um jornalista publica um texto online, ele pode ser contestado, completado, debatido por um enxame de internautas que serão, sobre muitos temas, tão ou mais qualificados que o autor. Assistimos, portanto, a um enriquecimento da informação graças aos “neojornalistas”, que eu chamo de “amadores-profissionais”. Lembremos que estamos numa sociedade em que formação superior tornou-se acessível como nunca antes. O jornalismo dirige-se, portanto, a um público muito bem formado – ainda que esta formação seja segmentada.

Além disso, as ditaduras que procuram controlar a informação não conseguem fazê-lo mais, como vimos na Tunísia, Egito e em outras partes. Lembremos que a aparição da imprensa, em 1440, não transformou apenas a história do livro. Ela sacudiu a história e o funcionamento das sociedades. Da mesma forma, o desenvolvimento da internet não é apenas uma ruptura no campo midiático. Ele modifica as relações sociais. Cria um novo ecossistema, que produz paralelamente a extinção maciça de certas mídias, em particular a imprensa escrita paga. Nos Estados Unidos, cerca de 120 jornais já desapareceram.

Significa que a imprensa escrita desaparecerá? A resposta é não. A história mostra que as mídias se reentrelaçam e reorganizam, ao invés de desaparecer. No entanto, poucos jornais vão sobreviver. Sobreviverão aqueles que tiverem uma linha clara, proponham análises amparadas em pesquisa, sérias, originais, bem escritas.

Mas o contexto da hiper-abundância de informações também desorienta o cidadão. Ele não chega a distinguir o que é importante e o que não é. Que informações são verdadeiras? Quais são falsas? Ele vive num sentimento permanente de insegurança informativa. Cada vez mais, as pessoas irão se propor a pesquisar informações de referência.

Como assegurar um futuro à informação e aos que a fazem, agora que ele é acessível gratuitamente?

Ignacio Ramonet: Embora seja incontestável que a imprensa online é a que dominará a informação nos anos futuros, é evidentemente necessário encontrar um modelo econômico viável. No momento, a cultura dominante na internet é a da gratuidade. Mas estamos, precisamente agora, entre dois modelos, e nenhum deles funciona. A informação tradicional (rádio, TV, imprensa escrita) é cada vez menos rentável. E o modelo de informação online não o é ainda, com raríssimas exceções.

Os novos espaços midiáticos podem modificar as relações de dominação que prevalecem hoje no seio da própria sociedade?

Ignacio Ramonet: Dediquei um capítulo inteiro de meu livro ao WikiLeaks. É o terreno da transparência. Em nossas sociedades contemporâneas, democráticas e abertas será cada vez mais difícil, para o poder, manter dupla política: uma para fora e outra, mais opaca e secreta, para uso interno, onde há o direito e risco de transgredir as leis.

O Wikileaks demonstrou que as mídias tradicionais já não funcionavam nem assumiam seu papel. Foi no nicho destas carências que o Wikileaks pôde introduzir-se e se desenvolver. O site também revelou que a maior parte dos Estados tinham uma lado obscuro, oculto. Mas o grande escândalo é que, depois das revelações do Wikileaks, nada ocorreu! Por exemplo: revelou-se que, na época da guerra do Iraque, um certo grupo de dirigentes do Partido Socialista francês dirigiu-se à embaixada dos Estados Unidos para explicar que, se estivessem no poder, teriam envolvida a França na guerra. E este fato – próximo da alta traição – não provocou reações.

Esta evolução para mais transparência pode provocar efeitos concretos?

Ignacio Ramonet: Ela vai necessariamente atingir os privilégios das elites e as relações de dominação. Se as mídias podem, até agora, dissecar o poder político, é porque a política perdeu muito de seu poder, abocanhado pelas esferas financeiras. Sem dúvidas, é à sombra das finanças, dos traders, dos fundos de pensão, que se localiza hoje o verdadeiro poder.

Tal poder permanece preservado porque é opaco. É significativo que a próxima revelação anunciada pelo Wikileaks diga respeito, precisamente, ao sigilo bancário. Graças aos novos sistemas midiáticos, tornou-se possível atacar estes espaços ocultos. Este poder é como o dos vampiros: a luz os dissolve, os reduz a poeira. Podemos esperar, que graças aos novos meios digitais, breve chegará a hora de desvendar o poder econômico e financeiro

sábado, 2 de abril de 2011

MARSHALL MCLUHAN (1911-1980) - O profeta da comunicação -observatório da imprensa

Por Rachel Bertol em 29/3/2011

Reproduzido do Valor Econômico, 25/3/2011; intertítulos do OI

** "O modo como os adolescentes falam entre si e a necessidade que sentem de se manter em contato via celular é feito desse tipo específico de meio."

** "Nunca paramos de interferir drasticamente sobre nós mesmos por meio de toda tecnologia a que nos agarramos. Estamos sempre desorganizando absolutamente a nossa vida."

** "Os sistemas de obtenção de dados processados eletronicamente nos possibilitam reunir tudo de forma instantânea. Esse tipo de memória total permite-nos (...) colocar todos os livros do mundo num computador."

** "O público hoje assumiu um novo papel. Devido à própria simultaneidade da informação e da programação eletrônica, já não existem propriamente espectadores. Todo mundo faz parte do elenco."

Parecem lugares-comuns? Sim, mas são frases que datam de quase 50 anos, ditas nos anos 1960 por um professor célebre e polêmico: Herbert Marshall McLuhan, cujo centenário de nascimento, neste ano, está sendo celebrado no mundo todo. O autor do famoso aforismo "o meio é a mensagem", o primeiro a falar em "aldeia global" muito antes da invenção da internet e da banalização da globalização, não conseguiu obter em vida – ele morreu em 1980 – o reconhecimento dos seus pares na academia. "Meu pai viu seus escritos serem deplorados", diz Eric McLuhan, filho de Marshall. Este centenário, porém, representa uma virada. Uma extensa agenda de seminários em diferentes países – entre eles o Brasil – resgata o pensador canadense como um intelectual de prestígio, além da capa de "profeta da comunicação".

"As asserções de McLuhan são muito contemporâneas, mas da nossa atualidade, não do tempo dele", afirma Derrick de Kerckhove, autor de A Pele da Cultura (Ed. Annablume) e um dos principais discípulos do pensador, de quem foi aluno e assistente. De Kerckhove abrirá no dia 2 de maio, na Universidade de São Paulo (USP), o seminário "O Século McLuhan", primeiro evento do centenário no Brasil. Sua agenda, em 2011, será frenética. Depois de São Paulo (e possivelmente Rio), irá a Barcelona e Berlim, onde haverá mais dois seminários sobre McLuhan (entre os dias 23 e 29). Outros ocorrem ao longo do ano em cidades como Toronto, Bari, Bruxelas, Katowice, Magdebourg...

Influência reconhecida

Best-seller nos anos 1960, quando publicou marcos como A Galáxia de Gutenberg: A Criação do Homem Tipográfico (1962) e sobretudo Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem – Understanding Media (1964), McLuhan, que era professor de literatura e profundamente católico, costumava ser requisitado nessa época em programas de TV e em conferências. Foi um pioneiro na era dos intelectuais midiáticos, mas em suas intervenções parecia combater uma incompreensão que acabou por ofuscar o brilho dos seus escritos por décadas. Numa ocasião, ironizou o fato de causar tanta controvérsia, ao dizer que isso acontecia porque ele usava o hemisfério direito do cérebro, enquanto "elas [as pessoas] tentam usar o esquerdo. É simples".

Para Philip Marchand, responsável pela catalogação dos escritos de McLuhan para os Arquivos Nacionais do Canadá, a frase "o meio é a mensagem", que se tornou quase um mantra, está mais atual do que nunca. "De certo ponto de vista, o celular apenas permite que duas pessoas conversem como se estivessem usando telefones comuns. Mas o modo como os adolescentes falam entre si e a necessidade que sentem de se manter em contato via celular é um efeito desse tipo específico de meio."

Compreender o impacto de seu pensamento é fundamental na era digital. "McLuhan estava mais certo que a maioria de nós. O meio é de fato a mensagem e precisamos saber desenvolver o conteúdo de acordo com o meio. Quem não está conseguindo realizar isso está fracassando. Veja o que acontece no Oriente Médio: o governo falhou ao contar sua história, ao expor sua narrativa", afirmou o CEO da Starlight Runner Entertainment, Jeff Gomez, que esteve no Rio na semana passada para um seminário com produtores de conteúdo de televisão. "Até o momento, a internet vem sendo utilizada como se fosse televisão. Milhões de dólares têm sido desperdiçados. Precisamos entender a linguagem da internet", afirma Gomez, cuja empresa, com sede em Nova York, é especializada na criação de narrativas chamadas transmidiáticas para grandes produções, como Piratas do Caribe e Avatar. "Por enquanto, a transmídia é a melhor resposta para quem quer falar em diferentes mídias sem repetir o conteúdo", diz Gomez.

Na opinião da professora canadense Sara Diamond, McLuhan falava de maneira muito adequada da materialidade da tecnologia e sobre como uma nova tecnologia midiática carrega, em si, todas as outras mídias que a antecederam, "como acontece hoje com a internet". Sara preside a Ontario College of Art & Design (Ocad), universidade existente desde o século XIX, voltada para a formação de profissionais no campo da inovação e da cultura digital. Em visita ao Rio para participar do mesmo evento, ela contou que no início deste ano participou da organização de um concurso em que artistas foram convidados a apresentar trabalhos para explicitar a influência de McLuhan em suas criações. As obras devem ser apresentadas na "Nuit Blanche", evento cultural que costuma reunir mais de um milhão de pessoas nas ruas de Toronto e onde se planeja, este ano, uma homenagem a McLuhan.

Textos inéditos

A compreensão da lógica da comunicação eletrônica permitiu a McLuhan falar de perspectivas em áreas diversas, da economia à artes. Para entender o presente, voltou-se ao passado longíquo. Analisou como a invenção da escrita, em sociedades antigas, moldou formas de percepção, notadamente visuais, que teriam propiciado especializações do olhar que levaram à invenção, por exemplo, da arquitetura. Séculos depois, os tipos móveis de Gutenberg também tiveram impacto na percepção, que passou a reforçar aspectos de linearidade e racionalidade.

A difusão de obras impressas permitiu o surgimento do público e, portanto, das nacionalidades. Já com a substituição da era mecânica pela da comunicação eletrônica, McLuhan via a passagem "do mundo da roda para o mundo do circuito". Seria um processo "ambiental de integração", não fragmentador. No lugar de padrões preponderantemente visuais de percepção, estaria se adotando "padrões auditivos, integrais", não baseados num ponto de vista. Em 1964, na conferência "Cibernética e Cultura Humana", afirmou: "Estamos passando da era da especialização para a era do envolvimento abrangente". Reconhecia que se tratava de "uma inversão muito intrigante e aterradora dos negócios humanos".

Passado o efeito bombástico dos aforismos de McLuhan, o professor de comunicação Muniz Sodré, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observa que chegou o momento de ler sua obra em profundidade e revisitar seus conceitos. "McLuhan teve grande sucesso nos anos 1960 e 1970, mas não ficou para a academia como um filósofo sério e sim como um figura ambígua, entre o marqueteiro e o profeta. Ele tinha um tom profético, de fato, mas isso não é mau", afirma Sodré, que se inspira em ideias mcluhianas para desenvolver conceitos importantes em sua obra, como no livro As Estratégias do Sensível.

"O que importa para McLuhan não é o conteúdo, mas a forma", diz Sodré. "A jogada da TV não é seu conteúdo, mas a forma como ela o apresenta. A mensagem é a forma, o que importa não é tanto o que nos diz, mas como nos diz algo tecnologicamente. É algo da lógica do sensível, diferente da lógica argumentativa da cultura clássica. Eu interpreto a forma macluhiana como a profecia da era do sensível."

Um dos mais jovens estudiosos de McLuhan no Brasil, o professor Vinícius Andrade Pereira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), escreve com Fausto Fawcett a peça Extensões de McLuhan, a ser encenada em seminário na PUC de Porto Alegre, em novembro, também sobre McLuhan. "A discussão contemporânea não permite mais rígidas oposições de antinomia, como as que opunham meio e conteúdo. McLuhan gostava de dizer que o conteúdo é como um pedaço de carne suculenta levado pelo ladrão para distrair o cão de guarda da mente", diz Pereira, também diretor do Media Lab da Escola Superior de Propaganda e Marketing. "Suas ideias nos dão base para entender as novas sensorialidades. Nunca antes o homem utilizou-se do atual cultivo tátil que vemos, por exemplo, na manipulação de celulares. Entram em cena novas habilidades motoras, cognitivas, sensitivas."

"A interpretação da mídia feita por McLuhan se revelou verdadeira", completa o professor de comunicação da ECA Massimo Di Felice, organizador do seminário na USP. "Nem ele conseguiu prever a complexidade da comunicação digital, mas dizia que a mídia tinha um papel cognitivo e as ideias que desenvolveu são úteis para entender a atualidade. Ele vê a mídia como extensão dos nossos sentidos. O debate sobre McLuhan me parece ainda mais fundamental no Brasil", afirma. No período de difusão de sua obra, o país vivia sob a ditadura, "quando havia preferência pela sociologia marxista, que se concentra no papel e nos sentidos da informação". O debate aqui, avalia, ficou limitado. "Mas o Brasil é hoje um dos países mais importantes na difusão da cultura digital e devemos entender melhor o valor de McLuhan." Di Felice negocia com a família do autor a publicação de textos inéditos dele preservados no acervo de Derrick de Kerckhove. O livro deve ser publicado pela editora Annablume.

Ferramentas extraordinárias

Para McLuhan, não havia nada mais humano que a tecnologia desenvolvida pelo homem, apesar de seu potencial destrutivo. Seriam extensões tão criativas, que Darwin jamais teria como prevê-las na sua teoria da evolução. De acordo com Derrick de Kerckhove, uma boa metáfora da relação do homem com a tecnologia hoje pode ser vista em Avatar, filme dirigido por James Cameron: "Diferentemente de Pinóquio, que de certa forma é a máquina que encontra a humanidade, em Avatar o homem desaparece na máquina, há o desejo de sumir nessa máquina para, além da numerização, reencontrar a humanidade".

E o que diria McLuhan se ele pudesse retornar de repente, em meio aos protestos contra ditaduras no Oriente Médio? "No passado", afirma De Kerckhove, "havia a exclusão das sociedades em diferentes zonas geográficas, separadas umas das outras pela língua. Por meio da língua, controlava-se uma comunidade. Ora, a eletricidade implodiu isso, ao tornar possível ver as pessoas em todo o mundo. Uma das consequências é a transparência e a constituição de uma opinião pública global, como exemplifica o Wikileaks". McLuhan dizia que a luz elétrica representa a informação totalmente ambiental, presente em 360 graus. "Na internet, estamos banhados de luz. Nosso sistema de comunicação, com o celular e suas câmeras, são sistemas de transparência. O que vimos no Oriente Médio resulta dessa situação. O local, assim, sublinha o global, e vice-versa." Nesta "aldeia global", onde ocorre uma "retribalização", não há necessariamente harmonia, observa De Kerckhove: "Não existe lugar onde as pessoas se detestem mais cordialmente que numa aldeia."

Em tempos de rápidas transformações, De Kerckhove já sente certa nostalgia da TV: "É o único meio de comunicação de massa que nos resta. A internet não é um meio de massa. Enquanto a TV fala para todos, a internet é o meio em que todos falam. Mas é na TV que se cria certo sentimento de comunidade." Hoje, afirma o professor, a TV tornou-se o conteúdo da internet: "O YouTube apresenta a TV transformada em arte. Quando uma mídia se torna o conteúdo de outra mais abrangente, como a internet agora, a mídia anterior se reconverte em arte, em algo que queremos programar. A escrita, por exemplo, transformou a palavra em conteúdo. Assim, o corpo passou a ter controle sobre a linguagem e fez dela uma forma de arte."

Num século em que potencialmente, e cada vez mais, todos são artistas, tendo à disposição "ferramentas cada vez mais extraordinárias de criação", e no qual o próprio mundo se reconverte em arte, De Kerckhove acredita que somente a constituição de um pensamento místico poderá dar conta de tantas e tão amplas transformações. "McLuhan já previa a emergência desse século místico." (Colaborou Marcos Flamínio Peres