Desde a Constituição de 1988, em que -gostem ou não alguns fundamentalistas- a sociedade brasileira revelou suas preferências sobre a forma com que desejava organizar-se, o Brasil tem feito imenso progresso civilizatório. Ele não só se deve a eventuais virtudes pessoais de seus governantes mas também, e de forma decisiva, ao aperfeiçoamento de nossas instituições.
Temos uma nova presidente, Dilma Rousseff, tecnocrata moderna, gestora sofisticada, pragmática e com sensibilidade social, definição que, para alguns, pode soar como oxímoro. Ela tem que lidar com: 1º) As naturais dificuldades políticas que existem em todo Estado de Direito republicano e democrático e 2º) os condicionantes físicos (internos e externos) e humanos que limitam a continuação de um projeto de desenvolvimento com inclusão social de longo prazo que parece muito conveniente para o país.
A verdade é que o Brasil livrou-se rapidamente da crise mundial de 2007-2009 e terminou 2010 em condições econômicas e financeiras razoáveis e progressos sociais visíveis, dentre os quais o "sentimento" de que aumentou a igualdade de oportunidades para todos os seus cidadãos.
Após as trapalhadas financeiras do mundo desenvolvido, é difícil deixar de reconhecer que, a despeito de alguns pecados veniais, nossa situação fiscal não tem a dramaticidade que querem atribuir-lhe alguns analistas engajados.
Temos, sim, graves problemas a ser enfrentados: a desestabilização das expectativas inflacionárias, resultado de pressões internas e das altas dos preços internacionais das commodities; a teratológica taxa de juro real, produto dos antigos equívocos no financiamento da dívida interna; a supervalorização do real, consequência da própria desvalorização do dólar que estimula a especulação nos mercados de commodities.
Isso sem falar no longo prazo (infraestrutura, previdência, gestão etc.) e na "praga" da indexação monetária legal, que está na hora de acabar.
O ponto importante e para o qual a presidente tem chamado atenção é que a melhor contribuição que o governo pode dar para ajudar a resolver essas questões é cumprir a proposta de reduzir a taxa de crescimento das despesas de custeio e melhorar a qualidade da gestão pública. Se tal programa for cumprido, dará apoio não desprezível à política monetária.
Vai doer executá-lo, mas ele é necessário e devemos apoiá-lo. Talvez a medida mais eficiente para combater a inflação seja complementar o esforço fiscal com a eliminação do resíduo de indexação que sobrou do Plano Real. Isso exige um duro trabalho de convencimento da sociedade para dar conforto ao Congresso na sua aprovação.
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ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.
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terça-feira, 26 de abril de 2011
segunda-feira, 25 de abril de 2011
- cartamaior -DELFIM : QUEM CONTROLA A MÍDIA IMPÕE SUA VISÃO ECONÔMICA E COLOCA EM XEQUE A DEMOCRACIA
"...Há opiniões de gente do governo (e também de fora) de que o momento não é propício a uma ampla discussão do problema (o desafio da inflação e suas intercorrências na questão dos juros e a relação destes com a valorização cambial), porque isso poderia deteriorar ainda mais as expectativas inflacionárias. Concordo que essa é uma preocupação importante, mas a ampliação do debate hoje é necessária para que não prevaleça o pensamento único imposto à imprensa por grupos restritos que se julgam portadores de uma ciência econômica que, na verdade, não existe. 'Cientificamente', os vastos recursos do sistema financeiro influem decisivamente na construção das expectativas da inflação. São elas que dão o suporte necessário à elevação das taxas de juro. Nosso papel é insistir em questionar esse mecanismo das expectativas que o Banco Central acaba sancionando. No final, oficializa a estimativa de inflação que é a do próprio sistema financeiro (...) este é um processo perverso que pode por em xeque a própria democracia: quem controla a mídia acaba impondo a sua vontade. Vivemos um período relativamente longo (nos anos que antecederam a eleição de Lula) em que o debate econômico esteve interditado. Com a 'virada da agenda' em favor do crescimento com inclusão social, parece ter renascido o interesse em discutir a política econômica de forma ampla, sem restrições" (Delfim Netto/ Carta Capital)
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
delfim neto - cartacapital - blog do nassif - O papel regenerador das urnas
Enviado por luisnassif, dom, 03/04/2011 - 09:39
Por Webster Franklin
Da Carta Capital
A urna sempre corrige
Delfim Netto 2 de abril de 2011 às 16:01h
A economia de mercado não foi inventada. Ela é produto de um processo que começou há 150 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o resto da Terra. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais. É esse caminho da “humanização” do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial; que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços; e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) sua expectativa de vida ao nascer, de 35 para 70 anos.
É claro que essa organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas “necessidades”: a civilização sempre exige mais civilização… Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as opções construídas por cérebros peregrinos que imaginaram construir a “sociedade perfeita”, habitada pelo “homem perfeito”, fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres…
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para “explicá-las”. Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que esclarece bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela “economia de mercado” só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercida pelos que têm iniciativa e os benefícios de suas “inovações” podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado Indutor com mãos leves e amigável com relação a eles.
Certamente, isso explica melhor do que as “funções de produção” o fenomenal desenvolvimento da China a partir de 1978 e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado Indutor que: 1. Respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado. 2. Libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar mais oportunidades de progresso à mão de obra. 3. Garantisse que cada um poderia se apropriar dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na República Russa, onde o governo promete remover o “entulho” que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores tecnológicos de ponta do país. Diante da necessidade imposta pelo resultado das eleições de 2012, Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada. A nova “meta” é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar 50 bilhões de dólares de ativos (inativos) que estão nas mãos do Estado (vender até mesmo os hotéis e times de futebol); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB); estimular a abertura de novos investimentos diminuindo a burocracia; diminuir a dependência do setor energético, com fontes alternativas ao petróleo; proteger com tarifas e estimular, com subsídios, os setores automotivos e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo.
Para quem ainda tem dúvida de que é fundamental o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros), basta observar os movimentos de Barack Obama também diante da ameaça das urnas, buscando apressadamente a reaproximação com o setor real da economia americana. Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos do sistema financeiro internacional que produziram a crise, sob as vistas complacentes das autoridades monetárias, à custa de 17 milhões de desempregados que ganhavam a vida honestamente. Como os EUA já deviam saber, a URNA corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes com algum atraso, mas antes tarde…
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-urna-sempre-corrige
isnassif, dom, 03/04/2011 - 09:39
Por Webster Franklin
Da Carta Capital
A urna sempre corrige
Delfim Netto 2 de abril de 2011 às 16:01h
A economia de mercado não foi inventada. Ela é produto de um processo que começou há 150 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o resto da Terra. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais. É esse caminho da “humanização” do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial; que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços; e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) sua expectativa de vida ao nascer, de 35 para 70 anos.
É claro que essa organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas “necessidades”: a civilização sempre exige mais civilização… Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as opções construídas por cérebros peregrinos que imaginaram construir a “sociedade perfeita”, habitada pelo “homem perfeito”, fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres…
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para “explicá-las”. Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que esclarece bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela “economia de mercado” só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercida pelos que têm iniciativa e os benefícios de suas “inovações” podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado Indutor com mãos leves e amigável com relação a eles.
Certamente, isso explica melhor do que as “funções de produção” o fenomenal desenvolvimento da China a partir de 1978 e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado Indutor que: 1. Respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado. 2. Libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar mais oportunidades de progresso à mão de obra. 3. Garantisse que cada um poderia se apropriar dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na República Russa, onde o governo promete remover o “entulho” que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores tecnológicos de ponta do país. Diante da necessidade imposta pelo resultado das eleições de 2012, Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada. A nova “meta” é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar 50 bilhões de dólares de ativos (inativos) que estão nas mãos do Estado (vender até mesmo os hotéis e times de futebol); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB); estimular a abertura de novos investimentos diminuindo a burocracia; diminuir a dependência do setor energético, com fontes alternativas ao petróleo; proteger com tarifas e estimular, com subsídios, os setores automotivos e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo.
Para quem ainda tem dúvida de que é fundamental o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros), basta observar os movimentos de Barack Obama também diante da ameaça das urnas, buscando apressadamente a reaproximação com o setor real da economia americana. Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos do sistema financeiro internacional que produziram a crise, sob as vistas complacentes das autoridades monetárias, à custa de 17 milhões de desempregados que ganhavam a vida honestamente. Como os EUA já deviam saber, a URNA corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes com algum atraso, mas antes tarde…
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
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Por Webster Franklin
Da Carta Capital
A urna sempre corrige
Delfim Netto 2 de abril de 2011 às 16:01h
A economia de mercado não foi inventada. Ela é produto de um processo que começou há 150 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o resto da Terra. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais. É esse caminho da “humanização” do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial; que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços; e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) sua expectativa de vida ao nascer, de 35 para 70 anos.
É claro que essa organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas “necessidades”: a civilização sempre exige mais civilização… Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as opções construídas por cérebros peregrinos que imaginaram construir a “sociedade perfeita”, habitada pelo “homem perfeito”, fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres…
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para “explicá-las”. Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que esclarece bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela “economia de mercado” só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercida pelos que têm iniciativa e os benefícios de suas “inovações” podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado Indutor com mãos leves e amigável com relação a eles.
Certamente, isso explica melhor do que as “funções de produção” o fenomenal desenvolvimento da China a partir de 1978 e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado Indutor que: 1. Respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado. 2. Libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar mais oportunidades de progresso à mão de obra. 3. Garantisse que cada um poderia se apropriar dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na República Russa, onde o governo promete remover o “entulho” que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores tecnológicos de ponta do país. Diante da necessidade imposta pelo resultado das eleições de 2012, Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada. A nova “meta” é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar 50 bilhões de dólares de ativos (inativos) que estão nas mãos do Estado (vender até mesmo os hotéis e times de futebol); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB); estimular a abertura de novos investimentos diminuindo a burocracia; diminuir a dependência do setor energético, com fontes alternativas ao petróleo; proteger com tarifas e estimular, com subsídios, os setores automotivos e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo.
Para quem ainda tem dúvida de que é fundamental o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros), basta observar os movimentos de Barack Obama também diante da ameaça das urnas, buscando apressadamente a reaproximação com o setor real da economia americana. Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos do sistema financeiro internacional que produziram a crise, sob as vistas complacentes das autoridades monetárias, à custa de 17 milhões de desempregados que ganhavam a vida honestamente. Como os EUA já deviam saber, a URNA corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes com algum atraso, mas antes tarde…
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-urna-sempre-corrige
isnassif, dom, 03/04/2011 - 09:39
Por Webster Franklin
Da Carta Capital
A urna sempre corrige
Delfim Netto 2 de abril de 2011 às 16:01h
A economia de mercado não foi inventada. Ela é produto de um processo que começou há 150 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o resto da Terra. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais. É esse caminho da “humanização” do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial; que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços; e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) sua expectativa de vida ao nascer, de 35 para 70 anos.
É claro que essa organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas “necessidades”: a civilização sempre exige mais civilização… Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as opções construídas por cérebros peregrinos que imaginaram construir a “sociedade perfeita”, habitada pelo “homem perfeito”, fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres…
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para “explicá-las”. Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que esclarece bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela “economia de mercado” só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercida pelos que têm iniciativa e os benefícios de suas “inovações” podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado Indutor com mãos leves e amigável com relação a eles.
Certamente, isso explica melhor do que as “funções de produção” o fenomenal desenvolvimento da China a partir de 1978 e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado Indutor que: 1. Respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado. 2. Libertasse o “espírito animal” dos empresários para utilizar e dar mais oportunidades de progresso à mão de obra. 3. Garantisse que cada um poderia se apropriar dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na República Russa, onde o governo promete remover o “entulho” que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores tecnológicos de ponta do país. Diante da necessidade imposta pelo resultado das eleições de 2012, Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada. A nova “meta” é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar 50 bilhões de dólares de ativos (inativos) que estão nas mãos do Estado (vender até mesmo os hotéis e times de futebol); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB); estimular a abertura de novos investimentos diminuindo a burocracia; diminuir a dependência do setor energético, com fontes alternativas ao petróleo; proteger com tarifas e estimular, com subsídios, os setores automotivos e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo.
Para quem ainda tem dúvida de que é fundamental o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros), basta observar os movimentos de Barack Obama também diante da ameaça das urnas, buscando apressadamente a reaproximação com o setor real da economia americana. Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos do sistema financeiro internacional que produziram a crise, sob as vistas complacentes das autoridades monetárias, à custa de 17 milhões de desempregados que ganhavam a vida honestamente. Como os EUA já deviam saber, a URNA corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes com algum atraso, mas antes tarde…
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Delfim Netto - cartacapital - Falta informação
14 de novembro de 2010 às 14:40h
O mundo ainda não se deu conta dos prejuízos provocados pelo comportamento das duas maiores potências, sejam os EUA, ao insistirem em elevar a liquidez, seja a China, ao ignorar a ética na competição comercial
É um fato óbvio que os Estados Unidos precisam reequilibrar a sua economia e isso exige que eles desvalorizem sua moeda. Não lhes restou alternativa, após tantos meses de tentativas erráticas de gerenciar a crise social e financeira interna e de obter da China alguma indicação de que iria permitir a valorização do yuan para ajudar o esforço de recuperação americano.
Por enquanto, não foi encontrado um caminho capaz de impor aos chineses um comportamento mais adequado no comércio internacional. Juntos, EUA e China respondem por um terço da produção mundial de bens e serviços; mas é impossível aceitar que eles procurem libertar-se dos problemas de suas economias à custa da destruição do equilíbrio que resta nas demais.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tem toda a razão quando diz que nós não podemos assumir mais perdas para ajudar os EUA e a China. O Brasil sempre se comportou de maneira muito adequada desde o início da crise. Tem permitido uma dramática supervalorização do real, que ajuda os dois primeiros, mas prejudica diretamente o exportador nacional. O aumento de exportação que ainda conseguimos fazer a duras penas resulta mais da elevação de preços do que de aumento das quantidades exportadas. Há, na verdade, um empobrecimento do setor industrial brasileiro mais sofisticado, que se preparou para competir ao longo de muitos anos, investiu em inovação, mas sofre as consequências da nossa política cambial.
É preocupante a falta de informação ao mundo sobre os males que atingem as pessoas por conta do comportamento das duas mais poderosas economias do planeta e dos executores de suas políticas. São corretas as queixas quanto à política chinesa, mas é preciso insistir com os EUA que não adianta simplesmente aumentar a liquidez para solucionar os problemas, principalmente onde já existe um excesso de liquidez: suas empresas não financeiras têm 3 trilhões de dólares em caixa e os bancos mais 1 trilhão e ninguém investe e ninguém consome, porque se perdeu a confiança na capacidade do governo de tirar o país da crise. Estão correndo o risco de ter uma deflação, (quando as pessoas passam a guardar o dinheiro porque começam a acreditar que ele pode servir um pouco melhor, amanhã). Seria algo terrível para eles e muito ruim para os demais.
Para a economia americana se recuperar é preciso resolver o problema interno da quebra de confiança dos consumidores e dos setores produtivos na capacidade do governo Obama de vencer a crise. No momento, enfrenta dificuldades crescentes. Não creio que seja exagero lembrar o quanto a mensagem de confiança transmitida pelo presidente Lula aos consumidores foi decisiva para reverter os ventos da crise no Brasil.
A China não mostra real interesse em cooperar com o equilíbrio geral, desrespeita os acordos construídos para regular as relações econômicas entre os países, ignora solenemente o papel da Organização Mundial do Comércio, porque não se sente minimamente res-ponsável pelos tratados internacionais. Ganhou espaço considerável e posições dominantes em diversos mercados, reeditando práticas dos velhos países colonialistas (das quais ela própria foi vítima nos séculos passados) de incursão nas regiões mais pobres do continente africano e do próprio subcontinente asiático.
Tendo ganho musculatura, ascendendo em poucos anos à condição de segunda economia, a China passou a agir como se não tivesse necessidade de obedecer às regras de boa convivência na comunidade internacional. Simplesmente suprimiu o princípio (démodé) da ética da competição, substituindo-o pelo mais velho e cínico teorema: quanto maior for a competição, mais vale a pena ser monopolista…
A força principal do comércio exterior chinês são as exportações para os EUA, com mercadorias produzidas por empresas privadas dos próprios americanos que se instalaram naquele território para aproveitar a abertura e exportar livremente para seu mercado. O governo Obama insiste que a China não se comporta como uma “economia de mercado” e, portanto, é preciso agir contra as práticas irregulares de comércio, mas o Congresso não autoriza as medidas pela simples e boa razão de que as restrições prejudicariam importantes empresas americanas. Mas quem controla o Congresso é o setor privado e ele está ganhando dinheiro com as exportações chinesas.
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal
O mundo ainda não se deu conta dos prejuízos provocados pelo comportamento das duas maiores potências, sejam os EUA, ao insistirem em elevar a liquidez, seja a China, ao ignorar a ética na competição comercial
É um fato óbvio que os Estados Unidos precisam reequilibrar a sua economia e isso exige que eles desvalorizem sua moeda. Não lhes restou alternativa, após tantos meses de tentativas erráticas de gerenciar a crise social e financeira interna e de obter da China alguma indicação de que iria permitir a valorização do yuan para ajudar o esforço de recuperação americano.
Por enquanto, não foi encontrado um caminho capaz de impor aos chineses um comportamento mais adequado no comércio internacional. Juntos, EUA e China respondem por um terço da produção mundial de bens e serviços; mas é impossível aceitar que eles procurem libertar-se dos problemas de suas economias à custa da destruição do equilíbrio que resta nas demais.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tem toda a razão quando diz que nós não podemos assumir mais perdas para ajudar os EUA e a China. O Brasil sempre se comportou de maneira muito adequada desde o início da crise. Tem permitido uma dramática supervalorização do real, que ajuda os dois primeiros, mas prejudica diretamente o exportador nacional. O aumento de exportação que ainda conseguimos fazer a duras penas resulta mais da elevação de preços do que de aumento das quantidades exportadas. Há, na verdade, um empobrecimento do setor industrial brasileiro mais sofisticado, que se preparou para competir ao longo de muitos anos, investiu em inovação, mas sofre as consequências da nossa política cambial.
É preocupante a falta de informação ao mundo sobre os males que atingem as pessoas por conta do comportamento das duas mais poderosas economias do planeta e dos executores de suas políticas. São corretas as queixas quanto à política chinesa, mas é preciso insistir com os EUA que não adianta simplesmente aumentar a liquidez para solucionar os problemas, principalmente onde já existe um excesso de liquidez: suas empresas não financeiras têm 3 trilhões de dólares em caixa e os bancos mais 1 trilhão e ninguém investe e ninguém consome, porque se perdeu a confiança na capacidade do governo de tirar o país da crise. Estão correndo o risco de ter uma deflação, (quando as pessoas passam a guardar o dinheiro porque começam a acreditar que ele pode servir um pouco melhor, amanhã). Seria algo terrível para eles e muito ruim para os demais.
Para a economia americana se recuperar é preciso resolver o problema interno da quebra de confiança dos consumidores e dos setores produtivos na capacidade do governo Obama de vencer a crise. No momento, enfrenta dificuldades crescentes. Não creio que seja exagero lembrar o quanto a mensagem de confiança transmitida pelo presidente Lula aos consumidores foi decisiva para reverter os ventos da crise no Brasil.
A China não mostra real interesse em cooperar com o equilíbrio geral, desrespeita os acordos construídos para regular as relações econômicas entre os países, ignora solenemente o papel da Organização Mundial do Comércio, porque não se sente minimamente res-ponsável pelos tratados internacionais. Ganhou espaço considerável e posições dominantes em diversos mercados, reeditando práticas dos velhos países colonialistas (das quais ela própria foi vítima nos séculos passados) de incursão nas regiões mais pobres do continente africano e do próprio subcontinente asiático.
Tendo ganho musculatura, ascendendo em poucos anos à condição de segunda economia, a China passou a agir como se não tivesse necessidade de obedecer às regras de boa convivência na comunidade internacional. Simplesmente suprimiu o princípio (démodé) da ética da competição, substituindo-o pelo mais velho e cínico teorema: quanto maior for a competição, mais vale a pena ser monopolista…
A força principal do comércio exterior chinês são as exportações para os EUA, com mercadorias produzidas por empresas privadas dos próprios americanos que se instalaram naquele território para aproveitar a abertura e exportar livremente para seu mercado. O governo Obama insiste que a China não se comporta como uma “economia de mercado” e, portanto, é preciso agir contra as práticas irregulares de comércio, mas o Congresso não autoriza as medidas pela simples e boa razão de que as restrições prejudicariam importantes empresas americanas. Mas quem controla o Congresso é o setor privado e ele está ganhando dinheiro com as exportações chinesas.
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal
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sábado, 6 de novembro de 2010
Antônio Delfim Netto: “A ajuda da economia mundial terminou”
O ex-ministro diz que para seguir crescendo o Brasil terá de se apoiar no mercado interno – com equilíbrio fiscal e taxa de juro menor
Ivan Martins e José Fucs – Revista ÉPOCA
O professor Antônio Delfim Netto, que aos 82 anos já viu quase tudo, está otimista em relação ao Brasil. Ele conhece pessoalmente a presidente eleita, Dilma Rousseff, faz elogios rasgados a sua inteligência e afirma que ela está consciente dos desafios econômicos que se colocam diante do futuro governo: continuar a crescer sem o vento de popa que insuflou os anos da era Lula. O cenário internacional mudou, diz o ex-ministro. O Brasil, que emergiu da crise quase intacto, mas carregando “pequenos desvios da política fiscal”, precisa conter os gastos e reduzir a dívida pública para permitir que a taxa de juro caia, o câmbio se reequilibre e o país cresça com as forças de seu mercado interno. “Lula e Dilma sabem que o equilíbrio fiscal é fundamental”, afirma Delfim
QUEM É
Economista de 82 anos, é professor da Universidade de São Paulo e ex-deputado federal
O QUE FEZ
Foi ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento nos governos militares, entre 1967 e 1985
O QUE PUBLICOU
Artigos semanais em jornais e revistas nos quais defende o pragmatismo na condução da política econômica
ÉPOCA – Qual é o principal problema econômico que a nova presidente terá de enfrentar?
Antônio Delfim Netto – A (presidente) Dilma (Rousseff) recebe um governo muito melhor do que Lula recebeu. Com uma diferença: Lula pegou o governo quando vinha ventania de popa. Dilma vai receber o governo com ventania de proa. A ajuda que o crescimento da economia mundial deu ao período Lula está terminando ou já terminou. Neste novo cenário, você vai precisar de muito mais força do mercado interno se quiser manter seu ritmo de crescimento para continuar a distribuir renda. O Brasil precisará em 2030 dar emprego de boa qualidade a 150 milhões de sujeitos entre 15 e 65 anos. Você não vai fazer isso exportando alimentos e minerais. Por mais complexas que sejam essas cadeias, você precisa de uma economia de serviços e industrial. Uma economia competitiva. Todas as políticas precisam incentivar a competição. Aliás, observem o que a Dilma disse sobre as agências reguladoras. Ela disse que gente competente será nomeada porque nós precisamos garantir a competição. Competição é o nome do jogo.
ÉPOCA – A presidente eleita sabe que a situação mudou?
Delfim – Acho que ela tem plena consciência disso, como o Lula teve. Houve pequenos desvios na política fiscal em 2009 e 2010, mas há um grande exagero na crítica dos economistas que falam em desastre fiscal. Sim, houve uma aparição do mágico Harry Houdine. Ele transformou despesa em receita e depois em superávit primário. Mas tudo foi um pecado venial, feito durante um momento de grande necessidade. E produziu resultados importantes. O Brasil foi o país que emergiu mais depressa da crise, foi o país que voltou mais depressa ao nível anterior da crise. Nós, na verdade, sofremos durante dois trimestres, no terceiro já estávamos recuperando.
ÉPOCA – Mas a ação do governo produziu estresse.
Delfim – Produziu um estresse de entendimento. A verdade é que não há desequilíbrio fiscal gigantesco no Brasil. Lula e Dilma sabem que o equilíbrio fiscal é fundamental. Eles sabem que a relação entre a dívida pública e o PIB é um fator importante quando se quer reduzir a taxa de juros real.
ÉPOCA – Como se pode chegar a uma taxa de juros mais baixa?
Delfim – É preciso coordenar a ação fiscal e monetária. Você tem de dar ao Banco Central o conforto de que o combate inteiro à inflação não vai ficar apenas na mão dele. O papel dele é construir, como construiu, uma expectativa de inflação estável. Mas o governo tem de sinalizar com clareza que vai reduzir a relação entre dívida e PIB daqui para a frente.
ÉPOCA – Dilma falou que vai fazer isso…
Delfim – Falou, e acredito que vai fazer. Na verdade, você esgotou todos os truques possíveis. Se disser que vai aumentar o superávit primário aumentando a tributação, vai dar tudo errado. Mas reduzir a dívida implica o seguinte: os salários, os benefícios, os programas de redistribuição do governo, que são e foram fundamentais, terão de crescer ligeiramente menos que o PIB. De tal forma que se abra espaço para o investimento público. No passado, a carga tributária era de 24%, e o Brasil investia 4% do PIB. Hoje, a carga tributária é 36%, e o Brasil investe 1,5%. Quando você diz que o superávit primário é fundamental, está dizendo que ele é fundamental em duas condições. Primeiro, que ele não seja construído com o aumento de imposto. Segundo, que não envolva nenhuma violação das crenças fundamentais de Luca Pacioli, o inventor da contabilidade.
ÉPOCA – O senhor acredita que os desvios do governo nos últimos anos foram fruto apenas da necessidade?
Delfim – Sim, é a política anticíclica. Só que, no Brasil, a política anticíclica não tem nada a ver com o ciclo. Quando o ciclo termina, a política continua. Mas agora é evidente que isso não pode acontecer, ainda que alguns pensem que o Brasil pode continuar a ser financiado apenas pelo BNDES. Temos de criar mecanismos de criação de poupança interna de longo prazo. E o Brasil tem uma vantagem em relação a isso: o mais sofisticado sistema financeiro de qualquer país emergente. O sistema financeiro brasileiro compete com o inglês e com o americano. Não tem comparação possível nem com o alemão. O Brasil está hoje no radar de 140 países e de 1,4 milhão de sujeitos que constituem seus portfólios com o real dentro.
“O governo tem de sinalizar com clareza que vai reduzir a relação
entre dívida e PIB daqui por diante. A Dilma sabe muito bem disso”
ÉPOCA – Há uma crescente preocupação com a valorização do real. Como se pode resolver isso?
Delfim – É ilusão imaginar que você pode controlar o câmbio quando existe esse diferencial de taxa de juros em relação aos outros países. O Brasil é hoje o único peru com farofa disponível na mesa do mercado internacional. Por isso o dinheiro vem para cá. Não é possível controlar o câmbio com medidas fiscais, como a elevação do IOF. O ministro (da Fazenda) Guido Mantega sabe disso. Ele elevou o IOF em legítima defesa, porque a valorização cambial está destruindo um sistema sofisticadíssimo de produção que foi construído ao longo dos anos. Mas, para resolver a situação de forma duradoura, teremos de caminhar para uma taxa de juro real de 2% ou 3%. Isso é fundamental. Quando tivermos essa taxa, não vai mais ser preciso se preocupar com o câmbio.
ÉPOCA – Muita gente defende a reforma da Previdência. O governo atual e Dilma disseram que não é essencial. Qual é sua opinião?
Delfim – Eu acho que ela tem de aprovar a lei que está lá, que o Lula mandou ao Congresso em 2003. A grande injustiça está na Previdência pública. É um negócio escandaloso. Dizem que há 5 milhões ou 6 milhões de brasileiros fazendo cursinho para entrar para o funcionalismo público, porque você transformou o emprego público no sonho do brasileiro. Ele pode ter um salário maior que o do setor privado, aposentadoria infinitamente melhor e nenhum risco. Assim, você leva as melhores inteligências para o serviço público. Mas eu não acho que haverá choque administrativo porque não precisa. Choque só perturba. Vai ter, na minha opinião, um programa de oito anos em que as despesas do governo vão crescer ligeiramente menos que o PIB. Eu acho que o pessoal que está no governo se caracteriza por um pragmatismo cuidadoso.
ÉPOCA – Não falta no discurso do atual governo o reconhecimento dos avanços feitos por seus antecessores?
Delfim – A ideia de que o mundo começou em 2003 é falsa, mas quem ajudou a fazer isso foi o PSDB. Ele é o maior inimigo do (ex-presidente) Fernando Henrique. O PSDB morre de inveja dele. Não consegue conviver com seu sucesso. Foi isso que ajudou o Lula a desconstruir FHC. Quando eles tentaram recuperar, já era tarde. E as discussões sobre privatização… Se você olhar, vai perceber que a privatização foi feita em estado de emergência. O Estado estava quebrado, precisava de dinheiro. E não há nenhuma privatização que não tenha produzido efeitos extraordinários. Mas o PSDB não foi capaz de defender as coisas mais importantes feitas por Fernando Henrique. A conquista da estabilidade é outro exemplo. O Plano Real foi uma pequena joia. Ter congelado a distribuição de renda sem que as pessoas tivessem entendido, ter liberado os preços, ter construído todo um equilíbrio no tricô e depois liberado tudo e ele continuar como estava. Foi uma coisa brilhante, um dos mais extraordinários planos de estabilização já construídos. Negar esse fato é uma estupidez
QUEM É
Economista de 82 anos, é professor da Universidade de São Paulo e ex-deputado federal
O QUE FEZ
Foi ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento nos governos militares, entre 1967 e 1985
O QUE PUBLICOU
Artigos semanais em jornais e revistas nos quais defende o pragmatismo na condução da política econômica
ÉPOCA – Qual é o principal problema econômico que a nova presidente terá de enfrentar?
Antônio Delfim Netto – A (presidente) Dilma (Rousseff) recebe um governo muito melhor do que Lula recebeu. Com uma diferença: Lula pegou o governo quando vinha ventania de popa. Dilma vai receber o governo com ventania de proa. A ajuda que o crescimento da economia mundial deu ao período Lula está terminando ou já terminou. Neste novo cenário, você vai precisar de muito mais força do mercado interno se quiser manter seu ritmo de crescimento para continuar a distribuir renda. O Brasil precisará em 2030 dar emprego de boa qualidade a 150 milhões de sujeitos entre 15 e 65 anos. Você não vai fazer isso exportando alimentos e minerais. Por mais complexas que sejam essas cadeias, você precisa de uma economia de serviços e industrial. Uma economia competitiva. Todas as políticas precisam incentivar a competição. Aliás, observem o que a Dilma disse sobre as agências reguladoras. Ela disse que gente competente será nomeada porque nós precisamos garantir a competição. Competição é o nome do jogo.
ÉPOCA – A presidente eleita sabe que a situação mudou?
Delfim – Acho que ela tem plena consciência disso, como o Lula teve. Houve pequenos desvios na política fiscal em 2009 e 2010, mas há um grande exagero na crítica dos economistas que falam em desastre fiscal. Sim, houve uma aparição do mágico Harry Houdine. Ele transformou despesa em receita e depois em superávit primário. Mas tudo foi um pecado venial, feito durante um momento de grande necessidade. E produziu resultados importantes. O Brasil foi o país que emergiu mais depressa da crise, foi o país que voltou mais depressa ao nível anterior da crise. Nós, na verdade, sofremos durante dois trimestres, no terceiro já estávamos recuperando.
ÉPOCA – Mas a ação do governo produziu estresse.
Delfim – Produziu um estresse de entendimento. A verdade é que não há desequilíbrio fiscal gigantesco no Brasil. Lula e Dilma sabem que o equilíbrio fiscal é fundamental. Eles sabem que a relação entre a dívida pública e o PIB é um fator importante quando se quer reduzir a taxa de juros real.
ÉPOCA – Como se pode chegar a uma taxa de juros mais baixa?
Delfim – É preciso coordenar a ação fiscal e monetária. Você tem de dar ao Banco Central o conforto de que o combate inteiro à inflação não vai ficar apenas na mão dele. O papel dele é construir, como construiu, uma expectativa de inflação estável. Mas o governo tem de sinalizar com clareza que vai reduzir a relação entre dívida e PIB daqui para a frente.
ÉPOCA – Dilma falou que vai fazer isso…
Delfim – Falou, e acredito que vai fazer. Na verdade, você esgotou todos os truques possíveis. Se disser que vai aumentar o superávit primário aumentando a tributação, vai dar tudo errado. Mas reduzir a dívida implica o seguinte: os salários, os benefícios, os programas de redistribuição do governo, que são e foram fundamentais, terão de crescer ligeiramente menos que o PIB. De tal forma que se abra espaço para o investimento público. No passado, a carga tributária era de 24%, e o Brasil investia 4% do PIB. Hoje, a carga tributária é 36%, e o Brasil investe 1,5%. Quando você diz que o superávit primário é fundamental, está dizendo que ele é fundamental em duas condições. Primeiro, que ele não seja construído com o aumento de imposto. Segundo, que não envolva nenhuma violação das crenças fundamentais de Luca Pacioli, o inventor da contabilidade.
ÉPOCA – O senhor acredita que os desvios do governo nos últimos anos foram fruto apenas da necessidade?
Delfim – Sim, é a política anticíclica. Só que, no Brasil, a política anticíclica não tem nada a ver com o ciclo. Quando o ciclo termina, a política continua. Mas agora é evidente que isso não pode acontecer, ainda que alguns pensem que o Brasil pode continuar a ser financiado apenas pelo BNDES. Temos de criar mecanismos de criação de poupança interna de longo prazo. E o Brasil tem uma vantagem em relação a isso: o mais sofisticado sistema financeiro de qualquer país emergente. O sistema financeiro brasileiro compete com o inglês e com o americano. Não tem comparação possível nem com o alemão. O Brasil está hoje no radar de 140 países e de 1,4 milhão de sujeitos que constituem seus portfólios com o real dentro.
“O governo tem de sinalizar com clareza que vai reduzir a relação
entre dívida e PIB daqui por diante. A Dilma sabe muito bem disso”
ÉPOCA – Há uma crescente preocupação com a valorização do real. Como se pode resolver isso?
Delfim – É ilusão imaginar que você pode controlar o câmbio quando existe esse diferencial de taxa de juros em relação aos outros países. O Brasil é hoje o único peru com farofa disponível na mesa do mercado internacional. Por isso o dinheiro vem para cá. Não é possível controlar o câmbio com medidas fiscais, como a elevação do IOF. O ministro (da Fazenda) Guido Mantega sabe disso. Ele elevou o IOF em legítima defesa, porque a valorização cambial está destruindo um sistema sofisticadíssimo de produção que foi construído ao longo dos anos. Mas, para resolver a situação de forma duradoura, teremos de caminhar para uma taxa de juro real de 2% ou 3%. Isso é fundamental. Quando tivermos essa taxa, não vai mais ser preciso se preocupar com o câmbio.
ÉPOCA – Muita gente defende a reforma da Previdência. O governo atual e Dilma disseram que não é essencial. Qual é sua opinião?
Delfim – Eu acho que ela tem de aprovar a lei que está lá, que o Lula mandou ao Congresso em 2003. A grande injustiça está na Previdência pública. É um negócio escandaloso. Dizem que há 5 milhões ou 6 milhões de brasileiros fazendo cursinho para entrar para o funcionalismo público, porque você transformou o emprego público no sonho do brasileiro. Ele pode ter um salário maior que o do setor privado, aposentadoria infinitamente melhor e nenhum risco. Assim, você leva as melhores inteligências para o serviço público. Mas eu não acho que haverá choque administrativo porque não precisa. Choque só perturba. Vai ter, na minha opinião, um programa de oito anos em que as despesas do governo vão crescer ligeiramente menos que o PIB. Eu acho que o pessoal que está no governo se caracteriza por um pragmatismo cuidadoso.
ÉPOCA – Não falta no discurso do atual governo o reconhecimento dos avanços feitos por seus antecessores?
Delfim – A ideia de que o mundo começou em 2003 é falsa, mas quem ajudou a fazer isso foi o PSDB. Ele é o maior inimigo do (ex-presidente) Fernando Henrique. O PSDB morre de inveja dele. Não consegue conviver com seu sucesso. Foi isso que ajudou o Lula a desconstruir FHC. Quando eles tentaram recuperar, já era tarde. E as discussões sobre privatização… Se você olhar, vai perceber que a privatização foi feita em estado de emergência. O Estado estava quebrado, precisava de dinheiro. E não há nenhuma privatização que não tenha produzido efeitos extraordinários. Mas o PSDB não foi capaz de defender as coisas mais importantes feitas por Fernando Henrique. A conquista da estabilidade é outro exemplo. O Plano Real foi uma pequena joia. Ter congelado a distribuição de renda sem que as pessoas tivessem entendido, ter liberado os preços, ter construído todo um equilíbrio no tricô e depois liberado tudo e ele continuar como estava. Foi uma coisa brilhante, um dos mais extraordinários planos de estabilização já construídos. Negar esse fato é uma estupidez.
Postado por Luis Favre
Ivan Martins e José Fucs – Revista ÉPOCA
O professor Antônio Delfim Netto, que aos 82 anos já viu quase tudo, está otimista em relação ao Brasil. Ele conhece pessoalmente a presidente eleita, Dilma Rousseff, faz elogios rasgados a sua inteligência e afirma que ela está consciente dos desafios econômicos que se colocam diante do futuro governo: continuar a crescer sem o vento de popa que insuflou os anos da era Lula. O cenário internacional mudou, diz o ex-ministro. O Brasil, que emergiu da crise quase intacto, mas carregando “pequenos desvios da política fiscal”, precisa conter os gastos e reduzir a dívida pública para permitir que a taxa de juro caia, o câmbio se reequilibre e o país cresça com as forças de seu mercado interno. “Lula e Dilma sabem que o equilíbrio fiscal é fundamental”, afirma Delfim
QUEM É
Economista de 82 anos, é professor da Universidade de São Paulo e ex-deputado federal
O QUE FEZ
Foi ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento nos governos militares, entre 1967 e 1985
O QUE PUBLICOU
Artigos semanais em jornais e revistas nos quais defende o pragmatismo na condução da política econômica
ÉPOCA – Qual é o principal problema econômico que a nova presidente terá de enfrentar?
Antônio Delfim Netto – A (presidente) Dilma (Rousseff) recebe um governo muito melhor do que Lula recebeu. Com uma diferença: Lula pegou o governo quando vinha ventania de popa. Dilma vai receber o governo com ventania de proa. A ajuda que o crescimento da economia mundial deu ao período Lula está terminando ou já terminou. Neste novo cenário, você vai precisar de muito mais força do mercado interno se quiser manter seu ritmo de crescimento para continuar a distribuir renda. O Brasil precisará em 2030 dar emprego de boa qualidade a 150 milhões de sujeitos entre 15 e 65 anos. Você não vai fazer isso exportando alimentos e minerais. Por mais complexas que sejam essas cadeias, você precisa de uma economia de serviços e industrial. Uma economia competitiva. Todas as políticas precisam incentivar a competição. Aliás, observem o que a Dilma disse sobre as agências reguladoras. Ela disse que gente competente será nomeada porque nós precisamos garantir a competição. Competição é o nome do jogo.
ÉPOCA – A presidente eleita sabe que a situação mudou?
Delfim – Acho que ela tem plena consciência disso, como o Lula teve. Houve pequenos desvios na política fiscal em 2009 e 2010, mas há um grande exagero na crítica dos economistas que falam em desastre fiscal. Sim, houve uma aparição do mágico Harry Houdine. Ele transformou despesa em receita e depois em superávit primário. Mas tudo foi um pecado venial, feito durante um momento de grande necessidade. E produziu resultados importantes. O Brasil foi o país que emergiu mais depressa da crise, foi o país que voltou mais depressa ao nível anterior da crise. Nós, na verdade, sofremos durante dois trimestres, no terceiro já estávamos recuperando.
ÉPOCA – Mas a ação do governo produziu estresse.
Delfim – Produziu um estresse de entendimento. A verdade é que não há desequilíbrio fiscal gigantesco no Brasil. Lula e Dilma sabem que o equilíbrio fiscal é fundamental. Eles sabem que a relação entre a dívida pública e o PIB é um fator importante quando se quer reduzir a taxa de juros real.
ÉPOCA – Como se pode chegar a uma taxa de juros mais baixa?
Delfim – É preciso coordenar a ação fiscal e monetária. Você tem de dar ao Banco Central o conforto de que o combate inteiro à inflação não vai ficar apenas na mão dele. O papel dele é construir, como construiu, uma expectativa de inflação estável. Mas o governo tem de sinalizar com clareza que vai reduzir a relação entre dívida e PIB daqui para a frente.
ÉPOCA – Dilma falou que vai fazer isso…
Delfim – Falou, e acredito que vai fazer. Na verdade, você esgotou todos os truques possíveis. Se disser que vai aumentar o superávit primário aumentando a tributação, vai dar tudo errado. Mas reduzir a dívida implica o seguinte: os salários, os benefícios, os programas de redistribuição do governo, que são e foram fundamentais, terão de crescer ligeiramente menos que o PIB. De tal forma que se abra espaço para o investimento público. No passado, a carga tributária era de 24%, e o Brasil investia 4% do PIB. Hoje, a carga tributária é 36%, e o Brasil investe 1,5%. Quando você diz que o superávit primário é fundamental, está dizendo que ele é fundamental em duas condições. Primeiro, que ele não seja construído com o aumento de imposto. Segundo, que não envolva nenhuma violação das crenças fundamentais de Luca Pacioli, o inventor da contabilidade.
ÉPOCA – O senhor acredita que os desvios do governo nos últimos anos foram fruto apenas da necessidade?
Delfim – Sim, é a política anticíclica. Só que, no Brasil, a política anticíclica não tem nada a ver com o ciclo. Quando o ciclo termina, a política continua. Mas agora é evidente que isso não pode acontecer, ainda que alguns pensem que o Brasil pode continuar a ser financiado apenas pelo BNDES. Temos de criar mecanismos de criação de poupança interna de longo prazo. E o Brasil tem uma vantagem em relação a isso: o mais sofisticado sistema financeiro de qualquer país emergente. O sistema financeiro brasileiro compete com o inglês e com o americano. Não tem comparação possível nem com o alemão. O Brasil está hoje no radar de 140 países e de 1,4 milhão de sujeitos que constituem seus portfólios com o real dentro.
“O governo tem de sinalizar com clareza que vai reduzir a relação
entre dívida e PIB daqui por diante. A Dilma sabe muito bem disso”
ÉPOCA – Há uma crescente preocupação com a valorização do real. Como se pode resolver isso?
Delfim – É ilusão imaginar que você pode controlar o câmbio quando existe esse diferencial de taxa de juros em relação aos outros países. O Brasil é hoje o único peru com farofa disponível na mesa do mercado internacional. Por isso o dinheiro vem para cá. Não é possível controlar o câmbio com medidas fiscais, como a elevação do IOF. O ministro (da Fazenda) Guido Mantega sabe disso. Ele elevou o IOF em legítima defesa, porque a valorização cambial está destruindo um sistema sofisticadíssimo de produção que foi construído ao longo dos anos. Mas, para resolver a situação de forma duradoura, teremos de caminhar para uma taxa de juro real de 2% ou 3%. Isso é fundamental. Quando tivermos essa taxa, não vai mais ser preciso se preocupar com o câmbio.
ÉPOCA – Muita gente defende a reforma da Previdência. O governo atual e Dilma disseram que não é essencial. Qual é sua opinião?
Delfim – Eu acho que ela tem de aprovar a lei que está lá, que o Lula mandou ao Congresso em 2003. A grande injustiça está na Previdência pública. É um negócio escandaloso. Dizem que há 5 milhões ou 6 milhões de brasileiros fazendo cursinho para entrar para o funcionalismo público, porque você transformou o emprego público no sonho do brasileiro. Ele pode ter um salário maior que o do setor privado, aposentadoria infinitamente melhor e nenhum risco. Assim, você leva as melhores inteligências para o serviço público. Mas eu não acho que haverá choque administrativo porque não precisa. Choque só perturba. Vai ter, na minha opinião, um programa de oito anos em que as despesas do governo vão crescer ligeiramente menos que o PIB. Eu acho que o pessoal que está no governo se caracteriza por um pragmatismo cuidadoso.
ÉPOCA – Não falta no discurso do atual governo o reconhecimento dos avanços feitos por seus antecessores?
Delfim – A ideia de que o mundo começou em 2003 é falsa, mas quem ajudou a fazer isso foi o PSDB. Ele é o maior inimigo do (ex-presidente) Fernando Henrique. O PSDB morre de inveja dele. Não consegue conviver com seu sucesso. Foi isso que ajudou o Lula a desconstruir FHC. Quando eles tentaram recuperar, já era tarde. E as discussões sobre privatização… Se você olhar, vai perceber que a privatização foi feita em estado de emergência. O Estado estava quebrado, precisava de dinheiro. E não há nenhuma privatização que não tenha produzido efeitos extraordinários. Mas o PSDB não foi capaz de defender as coisas mais importantes feitas por Fernando Henrique. A conquista da estabilidade é outro exemplo. O Plano Real foi uma pequena joia. Ter congelado a distribuição de renda sem que as pessoas tivessem entendido, ter liberado os preços, ter construído todo um equilíbrio no tricô e depois liberado tudo e ele continuar como estava. Foi uma coisa brilhante, um dos mais extraordinários planos de estabilização já construídos. Negar esse fato é uma estupidez
QUEM É
Economista de 82 anos, é professor da Universidade de São Paulo e ex-deputado federal
O QUE FEZ
Foi ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento nos governos militares, entre 1967 e 1985
O QUE PUBLICOU
Artigos semanais em jornais e revistas nos quais defende o pragmatismo na condução da política econômica
ÉPOCA – Qual é o principal problema econômico que a nova presidente terá de enfrentar?
Antônio Delfim Netto – A (presidente) Dilma (Rousseff) recebe um governo muito melhor do que Lula recebeu. Com uma diferença: Lula pegou o governo quando vinha ventania de popa. Dilma vai receber o governo com ventania de proa. A ajuda que o crescimento da economia mundial deu ao período Lula está terminando ou já terminou. Neste novo cenário, você vai precisar de muito mais força do mercado interno se quiser manter seu ritmo de crescimento para continuar a distribuir renda. O Brasil precisará em 2030 dar emprego de boa qualidade a 150 milhões de sujeitos entre 15 e 65 anos. Você não vai fazer isso exportando alimentos e minerais. Por mais complexas que sejam essas cadeias, você precisa de uma economia de serviços e industrial. Uma economia competitiva. Todas as políticas precisam incentivar a competição. Aliás, observem o que a Dilma disse sobre as agências reguladoras. Ela disse que gente competente será nomeada porque nós precisamos garantir a competição. Competição é o nome do jogo.
ÉPOCA – A presidente eleita sabe que a situação mudou?
Delfim – Acho que ela tem plena consciência disso, como o Lula teve. Houve pequenos desvios na política fiscal em 2009 e 2010, mas há um grande exagero na crítica dos economistas que falam em desastre fiscal. Sim, houve uma aparição do mágico Harry Houdine. Ele transformou despesa em receita e depois em superávit primário. Mas tudo foi um pecado venial, feito durante um momento de grande necessidade. E produziu resultados importantes. O Brasil foi o país que emergiu mais depressa da crise, foi o país que voltou mais depressa ao nível anterior da crise. Nós, na verdade, sofremos durante dois trimestres, no terceiro já estávamos recuperando.
ÉPOCA – Mas a ação do governo produziu estresse.
Delfim – Produziu um estresse de entendimento. A verdade é que não há desequilíbrio fiscal gigantesco no Brasil. Lula e Dilma sabem que o equilíbrio fiscal é fundamental. Eles sabem que a relação entre a dívida pública e o PIB é um fator importante quando se quer reduzir a taxa de juros real.
ÉPOCA – Como se pode chegar a uma taxa de juros mais baixa?
Delfim – É preciso coordenar a ação fiscal e monetária. Você tem de dar ao Banco Central o conforto de que o combate inteiro à inflação não vai ficar apenas na mão dele. O papel dele é construir, como construiu, uma expectativa de inflação estável. Mas o governo tem de sinalizar com clareza que vai reduzir a relação entre dívida e PIB daqui para a frente.
ÉPOCA – Dilma falou que vai fazer isso…
Delfim – Falou, e acredito que vai fazer. Na verdade, você esgotou todos os truques possíveis. Se disser que vai aumentar o superávit primário aumentando a tributação, vai dar tudo errado. Mas reduzir a dívida implica o seguinte: os salários, os benefícios, os programas de redistribuição do governo, que são e foram fundamentais, terão de crescer ligeiramente menos que o PIB. De tal forma que se abra espaço para o investimento público. No passado, a carga tributária era de 24%, e o Brasil investia 4% do PIB. Hoje, a carga tributária é 36%, e o Brasil investe 1,5%. Quando você diz que o superávit primário é fundamental, está dizendo que ele é fundamental em duas condições. Primeiro, que ele não seja construído com o aumento de imposto. Segundo, que não envolva nenhuma violação das crenças fundamentais de Luca Pacioli, o inventor da contabilidade.
ÉPOCA – O senhor acredita que os desvios do governo nos últimos anos foram fruto apenas da necessidade?
Delfim – Sim, é a política anticíclica. Só que, no Brasil, a política anticíclica não tem nada a ver com o ciclo. Quando o ciclo termina, a política continua. Mas agora é evidente que isso não pode acontecer, ainda que alguns pensem que o Brasil pode continuar a ser financiado apenas pelo BNDES. Temos de criar mecanismos de criação de poupança interna de longo prazo. E o Brasil tem uma vantagem em relação a isso: o mais sofisticado sistema financeiro de qualquer país emergente. O sistema financeiro brasileiro compete com o inglês e com o americano. Não tem comparação possível nem com o alemão. O Brasil está hoje no radar de 140 países e de 1,4 milhão de sujeitos que constituem seus portfólios com o real dentro.
“O governo tem de sinalizar com clareza que vai reduzir a relação
entre dívida e PIB daqui por diante. A Dilma sabe muito bem disso”
ÉPOCA – Há uma crescente preocupação com a valorização do real. Como se pode resolver isso?
Delfim – É ilusão imaginar que você pode controlar o câmbio quando existe esse diferencial de taxa de juros em relação aos outros países. O Brasil é hoje o único peru com farofa disponível na mesa do mercado internacional. Por isso o dinheiro vem para cá. Não é possível controlar o câmbio com medidas fiscais, como a elevação do IOF. O ministro (da Fazenda) Guido Mantega sabe disso. Ele elevou o IOF em legítima defesa, porque a valorização cambial está destruindo um sistema sofisticadíssimo de produção que foi construído ao longo dos anos. Mas, para resolver a situação de forma duradoura, teremos de caminhar para uma taxa de juro real de 2% ou 3%. Isso é fundamental. Quando tivermos essa taxa, não vai mais ser preciso se preocupar com o câmbio.
ÉPOCA – Muita gente defende a reforma da Previdência. O governo atual e Dilma disseram que não é essencial. Qual é sua opinião?
Delfim – Eu acho que ela tem de aprovar a lei que está lá, que o Lula mandou ao Congresso em 2003. A grande injustiça está na Previdência pública. É um negócio escandaloso. Dizem que há 5 milhões ou 6 milhões de brasileiros fazendo cursinho para entrar para o funcionalismo público, porque você transformou o emprego público no sonho do brasileiro. Ele pode ter um salário maior que o do setor privado, aposentadoria infinitamente melhor e nenhum risco. Assim, você leva as melhores inteligências para o serviço público. Mas eu não acho que haverá choque administrativo porque não precisa. Choque só perturba. Vai ter, na minha opinião, um programa de oito anos em que as despesas do governo vão crescer ligeiramente menos que o PIB. Eu acho que o pessoal que está no governo se caracteriza por um pragmatismo cuidadoso.
ÉPOCA – Não falta no discurso do atual governo o reconhecimento dos avanços feitos por seus antecessores?
Delfim – A ideia de que o mundo começou em 2003 é falsa, mas quem ajudou a fazer isso foi o PSDB. Ele é o maior inimigo do (ex-presidente) Fernando Henrique. O PSDB morre de inveja dele. Não consegue conviver com seu sucesso. Foi isso que ajudou o Lula a desconstruir FHC. Quando eles tentaram recuperar, já era tarde. E as discussões sobre privatização… Se você olhar, vai perceber que a privatização foi feita em estado de emergência. O Estado estava quebrado, precisava de dinheiro. E não há nenhuma privatização que não tenha produzido efeitos extraordinários. Mas o PSDB não foi capaz de defender as coisas mais importantes feitas por Fernando Henrique. A conquista da estabilidade é outro exemplo. O Plano Real foi uma pequena joia. Ter congelado a distribuição de renda sem que as pessoas tivessem entendido, ter liberado os preços, ter construído todo um equilíbrio no tricô e depois liberado tudo e ele continuar como estava. Foi uma coisa brilhante, um dos mais extraordinários planos de estabilização já construídos. Negar esse fato é uma estupidez.
Postado por Luis Favre
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Antônio Delfim Netto: “A ajuda da economia mundial terminou”
O ex-ministro diz que para seguir crescendo o Brasil terá de se apoiar no mercado interno – com equilíbrio fiscal e taxa de juro menor
Ivan Martins e José Fucs – Revista ÉPOCA
O professor Antônio Delfim Netto, que aos 82 anos já viu quase tudo, está otimista em relação ao Brasil. Ele conhece pessoalmente a presidente eleita, Dilma Rousseff, faz elogios rasgados a sua inteligência e afirma que ela está consciente dos desafios econômicos que se colocam diante do futuro governo: continuar a crescer sem o vento de popa que insuflou os anos da era Lula. O cenário internacional mudou, diz o ex-ministro. O Brasil, que emergiu da crise quase intacto, mas carregando “pequenos desvios da política fiscal”, precisa conter os gastos e reduzir a dívida pública para permitir que a taxa de juro caia, o câmbio se reequilibre e o país cresça com as forças de seu mercado interno. “Lula e Dilma sabem que o equilíbrio fiscal é fundamental”, afirma Delfim
Ivan Martins e José Fucs – Revista ÉPOCA
O professor Antônio Delfim Netto, que aos 82 anos já viu quase tudo, está otimista em relação ao Brasil. Ele conhece pessoalmente a presidente eleita, Dilma Rousseff, faz elogios rasgados a sua inteligência e afirma que ela está consciente dos desafios econômicos que se colocam diante do futuro governo: continuar a crescer sem o vento de popa que insuflou os anos da era Lula. O cenário internacional mudou, diz o ex-ministro. O Brasil, que emergiu da crise quase intacto, mas carregando “pequenos desvios da política fiscal”, precisa conter os gastos e reduzir a dívida pública para permitir que a taxa de juro caia, o câmbio se reequilibre e o país cresça com as forças de seu mercado interno. “Lula e Dilma sabem que o equilíbrio fiscal é fundamental”, afirma Delfim
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010
O povo credita à liderança providencial de Lula a salvação dos empregos brasileiros que a crise financeira internacional ameaçava dizimar em 2008/9
DELFIM NETTO:
Digam o que disserem, o povo credita à liderança providencial de Lula a salvação dos empregos brasileiros que a crise financeira internacional ameaçava dizimar em 2008 e 2009, coisa que a maioria dos grandes líderes mundiais não soube evitar em seus países. E por esse motivo amargam até hoje, merecidamente, índices indecentes de impopularidade.
CARTACAPITAL
Digam o que disserem, o povo credita à liderança providencial de Lula a salvação dos empregos brasileiros que a crise financeira internacional ameaçava dizimar em 2008 e 2009, coisa que a maioria dos grandes líderes mundiais não soube evitar em seus países. E por esse motivo amargam até hoje, merecidamente, índices indecentes de impopularidade.
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Delfim: Ninguém mais teme a repetição daqueles momentos em que o Brasil tinha corrida no câmbio a cada eleição, a inflação disparava...
Ninguém mais teme a repetição daqueles momentos em que o Brasil tinha corrida no câmbio a cada eleição, a inflação disparava, havia um enorme desgaste na economia, vivíamos meses de perturbações importantes nas atividades das empresas. Isso tudo terminou: o câmbio se mantém estável, a taxa da inflação adquiriu até mesmo um “viés de baixa”, o desemprego continua em queda e o crescimento se mantém robusto.
Delfim Netto
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As pessoas às vezes não percebem o quanto o Brasil melhorou institucionalmente nesses anos recentes.
Delfim Netto
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Não há como esconder a realidade: no governo Lula, pela primeira vez, os brasileiros puderam se aproximar dos ideais inscritos na Constituição de 1988
Delfim Netto:
Não há como esconder essa realidade: no governo Lula, pela primeira vez, os brasileiros puderam se aproximar dos ideais inscritos na Constituição de 1988, de construção de uma sociedade justa e solidária, capaz de realizar o desenvolvimento, erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais.
carta capital
Não há como esconder essa realidade: no governo Lula, pela primeira vez, os brasileiros puderam se aproximar dos ideais inscritos na Constituição de 1988, de construção de uma sociedade justa e solidária, capaz de realizar o desenvolvimento, erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais.
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Pode ficar melhor - Delfim Netto
Não é preciso procurar muito por explicações para o ambiente de maturidade que a sociedade brasileira desfruta, em meio à agitação própria das campanhas políticas que mobilizam os eleitores em todo o País.
Há razões de ordem social e econômica que respondem pelo clima de tranquilidade que vivemos, mas o fator que se sobrepõe a todos os demais é o aperfeiçoamento das instituições nascidas da Constituição de 1988. Nessas duas décadas, desde que foi promulgada, ela só tem confirmado o seu papel de fundadora de instituições sólidas.
Esse aperfeiçoamento acontece continuadamente, sem tropeços, diria que de forma silenciosa, em meio às turbulências que são normais na vida dos povos. As pessoas às vezes não percebem o quanto o Brasil melhorou institucionalmente nesses anos recentes. O sentimento generalizado, porém, é de que adquirimos as condições de fazer com segurança a transição dos governos, num clima de respeito à normalidade democrática. O próprio comportamento do Supremo Tribunal Federal, que surpre-ende algumas mentes, comprova a solidez que as instituições adquiriram.
Ninguém mais teme a repetição daqueles momentos em que o Brasil tinha corrida no câmbio a cada eleição, a inflação disparava, havia um enorme desgaste na economia, vivíamos meses de perturbações importantes nas atividades das empresas. Isso tudo terminou: o câmbio se mantém estável, a taxa da inflação adquiriu até mesmo um “viés de baixa”, o desemprego continua em queda e o crescimento se mantém robusto.
O aproveitamento inteligente das reservas de óleo e gás do pré-sal será a garantia de que o desenvolvimento continuará se realizando em condições de estabilidade social e com elevado nível de emprego, melhora da renda do trabalho e mais equilíbrio na distribuição de seus benefícios. E, principalmente, sem ameaça de perturbações, nos próximos 20 anos, na conta corrente ou na oferta de energia, dois dos fatores que responderam pela frustração do crescimento nas últimas décadas do século passado. A continuidade desse saudável amadurecimento vai depender, obviamente, da qualidade das administrações que vão dirigir o País daqui para a frente. É evidente que o sucesso econômico neste segundo mandato do presidente Lula tem tudo a ver com o clima que desestimula qualquer radicalização política.
Em razão mesmo desse resultado jamais imaginado pelos partidos oposicionistas (nenhum presidente na história deste país chegou ao final do mandato com índices de aprovação de 80%), o carisma de Lula liquefez no nascedouro as pequenas baixarias intentadas na reta final da campanha presidencial. Digam o que disserem, o povo credita à liderança providencial de Lula a salvação dos empregos brasileiros que a crise financeira internacional ameaçava dizimar em 2008 e 2009, coisa que a maioria dos grandes líderes mundiais não soube evitar em seus países. E por esse motivo amargam até hoje, merecidamente, índices indecentes de impopularidade.
Não há como esconder essa realidade: no governo Lula, pela primeira vez, os brasileiros puderam se aproximar dos ideais inscritos na Constituição de 1988, de construção de uma sociedade justa e solidária, capaz de realizar o desenvolvimento, erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais.
Os representantes eleitos para a Assembleia Constituinte não tiveram dúvida de que esses princípios correspondiam ao desejo manifesto do povo brasileiro e por isso foram recepcionados no preâmbulo da Carta, batizada de Constituição Cidadã pelo eminente líder paulista Ulysses Guimarães.
Com todas as ideias de generosidade que foi capaz de abrigar (algumas difíceis de realizar), ela construiu o ambiente que temos hoje, acenando com a igualdade de oportunidades e estimulando mudanças que permitiram a abertura da economia, a estabilização com o real, a responsabilidade fiscal e a melhora da qualidade da administração.
É todo um processo que avançou esses anos e que não oferece estímulos para retroceder. É um processo que vai se aperfeiçoar e produzir coisas melhores. •
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal
Há razões de ordem social e econômica que respondem pelo clima de tranquilidade que vivemos, mas o fator que se sobrepõe a todos os demais é o aperfeiçoamento das instituições nascidas da Constituição de 1988. Nessas duas décadas, desde que foi promulgada, ela só tem confirmado o seu papel de fundadora de instituições sólidas.
Esse aperfeiçoamento acontece continuadamente, sem tropeços, diria que de forma silenciosa, em meio às turbulências que são normais na vida dos povos. As pessoas às vezes não percebem o quanto o Brasil melhorou institucionalmente nesses anos recentes. O sentimento generalizado, porém, é de que adquirimos as condições de fazer com segurança a transição dos governos, num clima de respeito à normalidade democrática. O próprio comportamento do Supremo Tribunal Federal, que surpre-ende algumas mentes, comprova a solidez que as instituições adquiriram.
Ninguém mais teme a repetição daqueles momentos em que o Brasil tinha corrida no câmbio a cada eleição, a inflação disparava, havia um enorme desgaste na economia, vivíamos meses de perturbações importantes nas atividades das empresas. Isso tudo terminou: o câmbio se mantém estável, a taxa da inflação adquiriu até mesmo um “viés de baixa”, o desemprego continua em queda e o crescimento se mantém robusto.
O aproveitamento inteligente das reservas de óleo e gás do pré-sal será a garantia de que o desenvolvimento continuará se realizando em condições de estabilidade social e com elevado nível de emprego, melhora da renda do trabalho e mais equilíbrio na distribuição de seus benefícios. E, principalmente, sem ameaça de perturbações, nos próximos 20 anos, na conta corrente ou na oferta de energia, dois dos fatores que responderam pela frustração do crescimento nas últimas décadas do século passado. A continuidade desse saudável amadurecimento vai depender, obviamente, da qualidade das administrações que vão dirigir o País daqui para a frente. É evidente que o sucesso econômico neste segundo mandato do presidente Lula tem tudo a ver com o clima que desestimula qualquer radicalização política.
Em razão mesmo desse resultado jamais imaginado pelos partidos oposicionistas (nenhum presidente na história deste país chegou ao final do mandato com índices de aprovação de 80%), o carisma de Lula liquefez no nascedouro as pequenas baixarias intentadas na reta final da campanha presidencial. Digam o que disserem, o povo credita à liderança providencial de Lula a salvação dos empregos brasileiros que a crise financeira internacional ameaçava dizimar em 2008 e 2009, coisa que a maioria dos grandes líderes mundiais não soube evitar em seus países. E por esse motivo amargam até hoje, merecidamente, índices indecentes de impopularidade.
Não há como esconder essa realidade: no governo Lula, pela primeira vez, os brasileiros puderam se aproximar dos ideais inscritos na Constituição de 1988, de construção de uma sociedade justa e solidária, capaz de realizar o desenvolvimento, erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais.
Os representantes eleitos para a Assembleia Constituinte não tiveram dúvida de que esses princípios correspondiam ao desejo manifesto do povo brasileiro e por isso foram recepcionados no preâmbulo da Carta, batizada de Constituição Cidadã pelo eminente líder paulista Ulysses Guimarães.
Com todas as ideias de generosidade que foi capaz de abrigar (algumas difíceis de realizar), ela construiu o ambiente que temos hoje, acenando com a igualdade de oportunidades e estimulando mudanças que permitiram a abertura da economia, a estabilização com o real, a responsabilidade fiscal e a melhora da qualidade da administração.
É todo um processo que avançou esses anos e que não oferece estímulos para retroceder. É um processo que vai se aperfeiçoar e produzir coisas melhores. •
Delfim Netto
Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal
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