fsp
--------------------------------------------------------------------------------
Einstein e a física quântica derrubaram a objetividade imparcial: a mente e a realidade são inseparáveis
--------------------------------------------------------------------------------
SEMANA PASSADA, DESCREVI como a física moderna vê a realidade como sendo composta de várias camadas, cada qual com seus princípios e leis.
Isso vai contra o reducionismo mais radical, que diz que tudo pode ser compreendido partindo do comportamento das entidades fundamentais da matéria. Segundo esse prima, existem apenas algumas leis fundamentais. Delas, todo o resto pode ser determinado. Gostaria de retornar ao tema hoje, mas focando num outro aspecto dessa questão que é bem complicado: o que é realidade e como sabemos.
Começo contrastando os filósofos Hume e Kant. Para Hume, o conhecimento vem apenas do que captamos com nossos sentidos. Baseados nesta informação, construímos a noção de realidade. Portanto, uma pessoa que cresceu sem qualquer contato com o mundo externo e que é alimentada por soros não seria capaz de reflexão. Kant diria que existem intuições já existentes desde o nascimento, estruturas de pensamento que dão significado à percepção sensorial.
Sem elas, os dados colhidos pelos sentidos não fariam sentido.
Duas dessas intuições são as noções de espaço e de tempo: elas costuram a estrutura da realidade, conectando e dando sentido ao fluxo de informação que vem do mundo exterior. Uma mente com estruturas diferentes, portanto, teria uma noção diferente da realidade.
Kant não diz que o sensório não é importante. Para ele, mesmo que o conhecimento comece com a experiência externa, não significa que venha desta experiência. Precisamos do fluxo de informação sensorial, mas construímos significado partindo de nossas intuições: os dados precisam ser ordenados no tempo e arranjados no espaço.
Durante as primeiras décadas do século 20, duas revoluções forçaram uma reavaliação da ordem kantiana. A relatividade de Einstein combinou espaço e tempo. Deixaram de ser quantidades absolutas, tornando-se dependentes do observador.
O que é real para um pode não ser para outro. A teoria de Einstein restaura uma forma de universalidade, pois provê meios para que observadores diferentes possam comparar suas medidas de espaço e tempo.
A segunda revolução veio com a física quântica. Para nossa discussão hoje, seu aspecto mais importante é a relação entre o observador e o observado. Na época de Kant, a separação entre os dois era absoluta. No mundo quântico dos átomos e partículas, a natureza física de um objeto (se um elétron é uma partícula ou uma onda, por exemplo) depende do ato de observação.
Ou seja, as escolhas feitas pelo observador induzem a natureza física do que é observado: o observador define a realidade. E como a intenção do observador vem de sua mente, a mente define a realidade. A mente precisa ainda das intuições a priori para interpretar o real, mas ela participa desta interpretação.
A objetividade imparcial se torna, então, obsoleta, já que mente e realidade tornam-se inseparáveis. Se essa relação na camada quântica afeta outras camadas é ainda objeto de discussão.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita
Mostrando postagens com marcador CIÊNCIA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CIÊNCIA. Mostrar todas as postagens
domingo, 14 de novembro de 2010
domingo, 8 de agosto de 2010
Bilden "é mais mencionado do que Franz Boas em relação à influência fundamental sobre Freyre]"
Livro revela alemão que influenciou Freyre
DO ENVIADO A PARATY
Em suas pesquisas sobre Gilberto Freyre, a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke -cocuradora da homenagem ao sociólogo na Flip- cruzou várias vezes com a figura de Rüdiger Bilden.
Achou o alemão tão fascinante que resolveu dedicar-lhe um livro, que está quase concluído.
Bilden foi colega de Freyre na Universidade Columbia (EUA) nos anos 1920. Tornou-se amigo e influência para o pernambucano, com quem dividia o interesse pela questão da raça na formação da identidade brasileira.
Diferentemente de Freyre, porém, Bilden nunca publicou suas pesquisas, o que intrigou Pallares-Burke.
"Será um ensaio biográfico sobre Bilden e o fracasso." Ela cita o perfeccionismo e dificuldades materiais como hipóteses para o infortúnio do alemão.
Autora de duas biografias de Freyre, Pallares-Burke lembra que Bilden "é mais mencionado do que Franz Boas [influência fundamental de Freyre]" em "Casa Grande & Senzala'". "Mas ninguém sabia o que tinha acontecido com ele", diz ela, que foi aos EUA e à Alemanha para pesquisar. (FV)
Crumb e Shelton agradam com dose de mau humor
Autor de "Fritz, o Gato" elogia grupo de rua em Paraty e fala de "Gênesis"
Crumb diz não ser mais tão obcecado por sexo e diverge sobre quando conheceu Shelton por "fumar muita erva"
IVAN FINNOTI
ENVIADO ESPECIAL A PARATY
Na mesa mais concorrida da Flip 2010, que aconteceu ontem à noite em Paraty, os cartunistas norte-americanos Robert Crumb e Gilbert Shelton divertiram o público por uma hora com tiradas de humor cáustico e histórias da contracultura dos anos 60.
Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, que mediou a conversa, começou perguntando se era verdade que as mulheres é que haviam obrigado os cartunistas a viajar a Paraty.
Crumb prontamente confirmou, aproveitando para reclamar dos fotógrafos. Já Shelton disse que tinha adorado Paraty.
"É muito pitoresca", disse ele, ao que Crumb respondeu, com seu mau humor lendário: "Há muitas cidades pitorescas no mundo...".
Crumb disse em seguida que ter assistido a um show na rua do grupo Os Curandeiros tinha feito valer a viagem. "Muito melhor que a música que todos os bares de Paraty tocam", completou.
O GRANDE ENCONTRO
Shelton lembrou de quando conheceu Crumb: "Foi em Nova York, em 1969". Mas o colega duvidou: "Acho que foi em San Francisco. Mas fumava muita erva e tomava muito LSD naquela época.
Realmente não lembro...".
Em um momento divertido, Dávila perguntou a Crumb, que carrega tanto nas tintas sexuais em suas histórias, se algo mudara nos últimos anos.
"Agora sou velho, não sou mais tão obcecado com sexo. Na verdade, vejo aquilo e digo: "Jesus, que lunático!". É um pouco embaraçoso." Mesmo assim, Crumb lembrou que amigos comentaram com ele que o Brasil era "a terra prometida para quem gosta de bundas grandes. E é mesmo! E as roupas curtas ajudam". Ao que Dávila informou: "E olha que estamos no inverno".
GÊNESIS
Sobre seu último trabalho, "Gênesis", Crumb contou que a ideia era fazer piadas do primeiro livro da Bíblia.
"Eu nem conhecia as histórias. Mas, depois, vi que eram tão bizarras que resolvi apenas ilustrar, em vez de fazer uma paródia. Após 25 páginas, percebi que era um trabalho enorme. Só terminei quatro anos depois."
Informado de que jornais de Israel haviam publicado resenhas positivas sobre essa obra, Crumb não perdeu a piada: "Vendi o livro pra eles. Foi o menor adiantamento que já recebi".
Gilbert Shelton comentou ainda sobre o andamento de dois filmes baseados em seus quadrinhos, um deles sobre os famosos "Freak Brothers", os quais Shelton disse terem sido parcialmente inspirados nos Três Patetas.
Ainda sobre cinema, Shelton comentou que, se fossem retratá-lo nas telas, gostaria de ser interpretado por Clint Eastwood. "Mel Gibson, então, para mim", sugeriu Crumb.
Ao final da conferência, a mulher de Crumb, Aline, subiu ao palco e destilou um pouco de seu humor: "Obrigada por me chamar aqui em cima. Venho sendo ignorada por Crumb há 40 anos".
"Poesia transforma dor em alegria estética", diz Gullar
ROBERTO KAZ
ENVIADO ESPECIAL A PARATY
Se a Flip fosse a Copa e os autores, jogadores, o poeta Ferreira Gullar, 79, teria quem o representasse: Ronaldo Luiz Nazário de Lima.
Ronaldo é o jogador com maior número de gols em Copas. Gullar é o autor com o maior número de participações em Flips.
Há, no entanto, uma diferença crucial entre os dois. Enquanto Ronaldo quer o mundo, Gullar se contenta (e muito) com a companhia de seu gato, o vira-lata Gatinho.
Em sua terceira participação na Flip, o colunista da Folha falou, ontem, de seu gato, seus ossos (sim, os ossos também merecem poemas) e, claro, sua poesia.
Leu trechos de sua obra mais famosa, o "Poema Sujo" (1976), produzido durante a ditadura, além de presentear a plateia com trechos de poemas ainda não publicados. Ao final, foi aplaudido de pé pelo público que lotou a Tenda dos Autores.
Gullar contou histórias da época em que fazia poemas neoconcretos, em que as palavras não seguiam qualquer tipo de regra sintática: "Quis que a escrita nascesse com o poema. Ninguém entendeu, claro, porque a linguagem é algo social".
Sobre a máxima de que "fazer poema é um parto" (também adotada por cineastas, atores, pintores e toda sorte de profissional das humanas), disse: "Vocês estão cansados de ouvir poeta dizendo que escrever é sofrimento. Mentira. É bom. O poema até pode tratar de algo doído, mas ele transforma dor em alegria estética".
Sobre qualquer forma de engajamento literário, ensinou: "Não adianta fazer poesia ruim, engajada, para não mudar nada. Se é para não mudar nada, é preferível fazer boa poesia".
Como exemplo, contou a história de quando foi procurado, na época em que trabalhava no "Jornal do Brasil", para publicar um manifesto sobre a "Poesia de Base".
"Falei que manifesto não publicava, publicava poema. Manifesto é coisa de político. Promete e não faz. Resultado: nunca produziram um único poema de base."
DO ENVIADO A PARATY
Em suas pesquisas sobre Gilberto Freyre, a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke -cocuradora da homenagem ao sociólogo na Flip- cruzou várias vezes com a figura de Rüdiger Bilden.
Achou o alemão tão fascinante que resolveu dedicar-lhe um livro, que está quase concluído.
Bilden foi colega de Freyre na Universidade Columbia (EUA) nos anos 1920. Tornou-se amigo e influência para o pernambucano, com quem dividia o interesse pela questão da raça na formação da identidade brasileira.
Diferentemente de Freyre, porém, Bilden nunca publicou suas pesquisas, o que intrigou Pallares-Burke.
"Será um ensaio biográfico sobre Bilden e o fracasso." Ela cita o perfeccionismo e dificuldades materiais como hipóteses para o infortúnio do alemão.
Autora de duas biografias de Freyre, Pallares-Burke lembra que Bilden "é mais mencionado do que Franz Boas [influência fundamental de Freyre]" em "Casa Grande & Senzala'". "Mas ninguém sabia o que tinha acontecido com ele", diz ela, que foi aos EUA e à Alemanha para pesquisar. (FV)
Crumb e Shelton agradam com dose de mau humor
Autor de "Fritz, o Gato" elogia grupo de rua em Paraty e fala de "Gênesis"
Crumb diz não ser mais tão obcecado por sexo e diverge sobre quando conheceu Shelton por "fumar muita erva"
IVAN FINNOTI
ENVIADO ESPECIAL A PARATY
Na mesa mais concorrida da Flip 2010, que aconteceu ontem à noite em Paraty, os cartunistas norte-americanos Robert Crumb e Gilbert Shelton divertiram o público por uma hora com tiradas de humor cáustico e histórias da contracultura dos anos 60.
Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, que mediou a conversa, começou perguntando se era verdade que as mulheres é que haviam obrigado os cartunistas a viajar a Paraty.
Crumb prontamente confirmou, aproveitando para reclamar dos fotógrafos. Já Shelton disse que tinha adorado Paraty.
"É muito pitoresca", disse ele, ao que Crumb respondeu, com seu mau humor lendário: "Há muitas cidades pitorescas no mundo...".
Crumb disse em seguida que ter assistido a um show na rua do grupo Os Curandeiros tinha feito valer a viagem. "Muito melhor que a música que todos os bares de Paraty tocam", completou.
O GRANDE ENCONTRO
Shelton lembrou de quando conheceu Crumb: "Foi em Nova York, em 1969". Mas o colega duvidou: "Acho que foi em San Francisco. Mas fumava muita erva e tomava muito LSD naquela época.
Realmente não lembro...".
Em um momento divertido, Dávila perguntou a Crumb, que carrega tanto nas tintas sexuais em suas histórias, se algo mudara nos últimos anos.
"Agora sou velho, não sou mais tão obcecado com sexo. Na verdade, vejo aquilo e digo: "Jesus, que lunático!". É um pouco embaraçoso." Mesmo assim, Crumb lembrou que amigos comentaram com ele que o Brasil era "a terra prometida para quem gosta de bundas grandes. E é mesmo! E as roupas curtas ajudam". Ao que Dávila informou: "E olha que estamos no inverno".
GÊNESIS
Sobre seu último trabalho, "Gênesis", Crumb contou que a ideia era fazer piadas do primeiro livro da Bíblia.
"Eu nem conhecia as histórias. Mas, depois, vi que eram tão bizarras que resolvi apenas ilustrar, em vez de fazer uma paródia. Após 25 páginas, percebi que era um trabalho enorme. Só terminei quatro anos depois."
Informado de que jornais de Israel haviam publicado resenhas positivas sobre essa obra, Crumb não perdeu a piada: "Vendi o livro pra eles. Foi o menor adiantamento que já recebi".
Gilbert Shelton comentou ainda sobre o andamento de dois filmes baseados em seus quadrinhos, um deles sobre os famosos "Freak Brothers", os quais Shelton disse terem sido parcialmente inspirados nos Três Patetas.
Ainda sobre cinema, Shelton comentou que, se fossem retratá-lo nas telas, gostaria de ser interpretado por Clint Eastwood. "Mel Gibson, então, para mim", sugeriu Crumb.
Ao final da conferência, a mulher de Crumb, Aline, subiu ao palco e destilou um pouco de seu humor: "Obrigada por me chamar aqui em cima. Venho sendo ignorada por Crumb há 40 anos".
"Poesia transforma dor em alegria estética", diz Gullar
ROBERTO KAZ
ENVIADO ESPECIAL A PARATY
Se a Flip fosse a Copa e os autores, jogadores, o poeta Ferreira Gullar, 79, teria quem o representasse: Ronaldo Luiz Nazário de Lima.
Ronaldo é o jogador com maior número de gols em Copas. Gullar é o autor com o maior número de participações em Flips.
Há, no entanto, uma diferença crucial entre os dois. Enquanto Ronaldo quer o mundo, Gullar se contenta (e muito) com a companhia de seu gato, o vira-lata Gatinho.
Em sua terceira participação na Flip, o colunista da Folha falou, ontem, de seu gato, seus ossos (sim, os ossos também merecem poemas) e, claro, sua poesia.
Leu trechos de sua obra mais famosa, o "Poema Sujo" (1976), produzido durante a ditadura, além de presentear a plateia com trechos de poemas ainda não publicados. Ao final, foi aplaudido de pé pelo público que lotou a Tenda dos Autores.
Gullar contou histórias da época em que fazia poemas neoconcretos, em que as palavras não seguiam qualquer tipo de regra sintática: "Quis que a escrita nascesse com o poema. Ninguém entendeu, claro, porque a linguagem é algo social".
Sobre a máxima de que "fazer poema é um parto" (também adotada por cineastas, atores, pintores e toda sorte de profissional das humanas), disse: "Vocês estão cansados de ouvir poeta dizendo que escrever é sofrimento. Mentira. É bom. O poema até pode tratar de algo doído, mas ele transforma dor em alegria estética".
Sobre qualquer forma de engajamento literário, ensinou: "Não adianta fazer poesia ruim, engajada, para não mudar nada. Se é para não mudar nada, é preferível fazer boa poesia".
Como exemplo, contou a história de quando foi procurado, na época em que trabalhava no "Jornal do Brasil", para publicar um manifesto sobre a "Poesia de Base".
"Falei que manifesto não publicava, publicava poema. Manifesto é coisa de político. Promete e não faz. Resultado: nunca produziram um único poema de base."
é loucura levar nossa visão de mundo muito a sério, pois sem dúvida ela vai mudar.
MARCELO GLEISER
Dividindo visões de mundo
--------------------------------------------------------------------------------
É loucura levar nossa visão de mundo muito a sério, pois sem dúvida ela vai acabar se transformando
--------------------------------------------------------------------------------
"Todos levamos dentro de nós um grão de loucura, sem o qual é imprudente viver", escreveu García-Lorca. Richard Wagner, Virginia Woolf, Gore Vidal, D. H. Lawrence, Greta Garbo -eis alguns dos nomes que volta e meia escapavam para o vilarejo de Ravello, ao sul de Nápoles, na Itália. Não é para menos. A uma altitude de 365 metros, escavada nas íngremes encostas que abraçam dramaticamente o Mediterrâneo, Ravello é uma joia rara. E não só pela sua inigualável beleza.
Tive o privilegio de passar cinco dias em Ravello recentemente, participando do festival que ocorre anualmente no verão. O evento é único, reunindo pensadores, artistas plásticos, músicos, empreendedores, todos em busca da mesma coisa: beleza natural e revitalização intelectual e estética. Vim a convite do organizador do festival, o famoso sociólogo italiano Domenico de Masi, que soube de mim graças ao jornalista Roberto D'Ávila.
Masi é conhecido do público brasileiro. Dentre seus livros, "O Ócio Criativo" foi sucesso de vendas. Ele também escreve regularmente para a revista "Época". Com uma docilidade ímpar, conduz o festival como se fosse a sua orquestra: tudo funciona perfeitamente, dos concertos de música clássica e jazz às peças de teatro e até, claro, a conferência da qual participei.
A cada ano o festival tem um tema diferente, que unifica as obras. Neste ano, o tema foi a loucura. Mapearam sua presença nas instituições, na ciência, no Cosmo, na jurisprudência, na propaganda, no comércio, nas comunicações, na economia e na política. Do Brasil, participou também a notável ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal, que fez excelente apresentação sobre a manipulação ideológica das instituições de direito, especialmente em regimes fascistas.
Falei sobre as mudanças de visão de mundo que ocorreram na história, e de como elas foram e são decorrentes dos avanços da ciência. Começando com os gregos e seu mundo, onde a Terra era o centro do Universo. Lembrei que, na época de Colombo e Cabral, essa era ainda a visão dominante: para eles, tudo girava em torno da Terra, enquanto nós, humanos, éramos o ápice da Criação. A Igreja fornecia a justificativa para esse arranjo vertical da existência: da Terra, o homem almejava ascender à graça dos céus, morada de Deus e de seus anjos.
De lá para cá, tudo mudou. Não somos mais o centro do Cosmo, e nem mesmo o Sol é uma estrela importante. Como ele, existem bilhões de outras, e isso só na nossa galáxia. Expliquei que a ciência vai avançando com o tempo, e que certezas atuais podem se tornar absurdos. Disso, aprendemos que é loucura levar nossa visão de mundo muito a sério, pois sem dúvida ela vai mudar. É bom tomarmos nossas certezas com muita humildade.
O festival fornece a todos uma oportunidade de refletir sobre aspectos da vida que o dia-a-dia interrompe. São raros esses momentos, em que pessoas ocupadas se permitem um espaço para a contemplação do belo e do absurdo, na expectativa de abrir a cabeça para o novo. Ao fim do seminário, perguntei a Masi, um grande fã do nosso país, por que não temos algo de semelhante no Brasil. "Excelente ideia", disse-me ele. Acho que será um grande sucesso.
--------------------------------------------------------------------------------
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"
Dividindo visões de mundo
--------------------------------------------------------------------------------
É loucura levar nossa visão de mundo muito a sério, pois sem dúvida ela vai acabar se transformando
--------------------------------------------------------------------------------
"Todos levamos dentro de nós um grão de loucura, sem o qual é imprudente viver", escreveu García-Lorca. Richard Wagner, Virginia Woolf, Gore Vidal, D. H. Lawrence, Greta Garbo -eis alguns dos nomes que volta e meia escapavam para o vilarejo de Ravello, ao sul de Nápoles, na Itália. Não é para menos. A uma altitude de 365 metros, escavada nas íngremes encostas que abraçam dramaticamente o Mediterrâneo, Ravello é uma joia rara. E não só pela sua inigualável beleza.
Tive o privilegio de passar cinco dias em Ravello recentemente, participando do festival que ocorre anualmente no verão. O evento é único, reunindo pensadores, artistas plásticos, músicos, empreendedores, todos em busca da mesma coisa: beleza natural e revitalização intelectual e estética. Vim a convite do organizador do festival, o famoso sociólogo italiano Domenico de Masi, que soube de mim graças ao jornalista Roberto D'Ávila.
Masi é conhecido do público brasileiro. Dentre seus livros, "O Ócio Criativo" foi sucesso de vendas. Ele também escreve regularmente para a revista "Época". Com uma docilidade ímpar, conduz o festival como se fosse a sua orquestra: tudo funciona perfeitamente, dos concertos de música clássica e jazz às peças de teatro e até, claro, a conferência da qual participei.
A cada ano o festival tem um tema diferente, que unifica as obras. Neste ano, o tema foi a loucura. Mapearam sua presença nas instituições, na ciência, no Cosmo, na jurisprudência, na propaganda, no comércio, nas comunicações, na economia e na política. Do Brasil, participou também a notável ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal, que fez excelente apresentação sobre a manipulação ideológica das instituições de direito, especialmente em regimes fascistas.
Falei sobre as mudanças de visão de mundo que ocorreram na história, e de como elas foram e são decorrentes dos avanços da ciência. Começando com os gregos e seu mundo, onde a Terra era o centro do Universo. Lembrei que, na época de Colombo e Cabral, essa era ainda a visão dominante: para eles, tudo girava em torno da Terra, enquanto nós, humanos, éramos o ápice da Criação. A Igreja fornecia a justificativa para esse arranjo vertical da existência: da Terra, o homem almejava ascender à graça dos céus, morada de Deus e de seus anjos.
De lá para cá, tudo mudou. Não somos mais o centro do Cosmo, e nem mesmo o Sol é uma estrela importante. Como ele, existem bilhões de outras, e isso só na nossa galáxia. Expliquei que a ciência vai avançando com o tempo, e que certezas atuais podem se tornar absurdos. Disso, aprendemos que é loucura levar nossa visão de mundo muito a sério, pois sem dúvida ela vai mudar. É bom tomarmos nossas certezas com muita humildade.
O festival fornece a todos uma oportunidade de refletir sobre aspectos da vida que o dia-a-dia interrompe. São raros esses momentos, em que pessoas ocupadas se permitem um espaço para a contemplação do belo e do absurdo, na expectativa de abrir a cabeça para o novo. Ao fim do seminário, perguntei a Masi, um grande fã do nosso país, por que não temos algo de semelhante no Brasil. "Excelente ideia", disse-me ele. Acho que será um grande sucesso.
--------------------------------------------------------------------------------
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"
sábado, 7 de agosto de 2010
Aparelho facilita o monitoramento de tumores oculares
Câncer de retina, mais comum em crianças, é detectado por nova máquina instalada no Instituto Nacional de Câncer
Tecnologia ainda rara no país dá uma visão detalhada do fundo do olho e mostra outros problemas nesse órgão
DENISE MENCHEN
DO RIO
O Inca (Instituto Nacional de Câncer) adquiriu um equipamento que facilita o diagnóstico e o monitoramento dos tumores oculares, importante principalmente nos casos de retinoblastoma.
Detectado tradicionalmente por meio do exame de fundo de olho, esse tipo de tumor na retina responde por entre 2% e 4% dos casos de câncer em crianças e costuma aparecer até os três anos de idade.
De acordo com o oftalmologista Evandro Lucena, do Inca, as vantagens do aparelho, batizado de RetCam 3, começam já na visualização do tumor. A imagem da retina, captada por uma câmera de alta resolução, é exibida em um monitor e pode ter cor e brilho ajustados.
"É como se antes a gente tivesse um raio-X e agora passasse a ter uma super-ressonância magnética", compara o médico.
Outra novidade é a opção de armazenar as imagens feitas durante os exames.
O retinógrafo, aparelho normalmente usado para fotografar a retina, exige que o paciente deixe a cabeça parada sobre um apoio. Essa missão é quase impossível no caso de crianças pequenas.
Esse método também não permite registrar as imagens. "O acompanhamento acaba sendo feito com base nas anotações, nos desenhos e na memória do médico", explica Mário Motta, presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia e da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo.
Com o RetCam, o médico pode gravar ou imprimir as imagens captadas pela câmera que, por ser acoplada a uma espécie de pistola, dá ao oftalmologista mais mobilidade. "O aparelho se adapta à posição em que a criança está", diz Motta.
Em São Paulo, a máquina já é usada no Hospital São Paulo, da Unifesp, que faz atendimentos pelo SUS.
TRATAMENTO
Lucena, do Inca, explica que o aparelho será importante principalmente no monitoramento da doença. Com o registro e a medição dos tumores, o profissional tem mais condições de avaliar a reposta ao tratamento.
Atualmente, a maioria dos pacientes é submetida a químio, laser ou radioterapia.
Em alguns casos, é preciso remover o olho atingido. "O retinoblastoma é agressivo e, quando há metástase, o tratamento é muito difícil", explica Lucena. Segundo ele, o mais comum é a doença evoluir para gânglios, sistema nervoso central e ossos.
O sinal mais característico da doença é uma mancha esbranquiçada no olho, visível principalmente em fotografias tiradas com flash
domingo, 25 de julho de 2010
Supertatus tinham toca para escapar de dente-de-sabre
Animal de 400 mil anos era maior do que mais avantajado dos tatus atuais; humanos cabem agachados nos buracos
REINALDO JOSÉ LOPES
ENVIADO AO RIO
Por que diabos um supertatu da Era do Gelo, coberto por uma armadura natural e munido de garras possantes, precisaria se esconder sob a terra, como os tatus atuais?
"Você tem de lembrar que um dos predadores da época era o Smilodon [o célebre dente-de-sabre]", explica Francisco Sekiguchi Buchmann, da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de São Vicente. "Portanto, provavelmente valia a pena."
Buchmann e seus colegas estão descobrindo como era extensa a rede de bunkers antidente-de-sabre dos supertatus. Segunda a última contagem, apresentada no 7º Simpósio Brasileiro de Paleontologia de Vertebrados, já são cerca de 200 paleotocas, como os pesquisadores as chamam -algumas ainda intactas, outras (a maioria) já preenchidas por terra.
Com até 45 metros de comprimento, os túneis se espalham por diversas localidades no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. Os buracos estão vindo à tona aos montes durante, por exemplo, cortes de terra feitos para obras de infraestrutura em vários municípios.
As paleotocas são grandes o suficiente para abrigar humanos -agachados, bem entendido. Isso permitiu que Buchmann e colegas como Renato Pereira Lopes, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), estudassem em detalhe tanto o interior das que se encontram desobstruídas quanto sua disposição no ambiente.
CSI TATU
Esse trabalho de detetive revelou, em primeiro lugar, que os escavadores dos túneis eram tão cuidadosos quanto os construtores de um metrô na hora de montar suas supertocas.
"Não adianta simplesmente cavar um buraco no chão, porque a chuva vai encher aquilo de água em dois tempos", explica Lopes.
Os bichos, portanto, aproveitavam as encostas de grandes barrancos. O mapeamento dos locais com a ajuda do GPS (Sistema de Posicionamento Global) sugere que os cavadores levavam em conta variáveis como posição do Sol, ventilação e presença de água na hora de construir seus ninhos.
Na Era do Gelo, a partir de 400 mil anos atrás (idade estimada para as paleotocas), não faltavam criaturas avantajadas que pudessem ter criado a rede de túneis. As pistas, porém, apontam para os supertatus -mais especificamente bichos do gênero extinto Propraopus, por exemplo, significativamente maiores que os tatus-canastras do Brasil moderno.
São pistas indiretas: marcas de garras, de pelos e de osteodermas (como são conhecidas as unidades que formam a carapaça dos tatus) que batem com o que se conhece dos Propraopus. Ao se arrastar pelas galerias, explicam os pesquisadores, os bichos deixaram tais marcas.
CONDOMÍNIO FECHADO
Uma característica paradoxal das paleotocas é o fato de elas apareceram aos montes no mesmo lugar. "Eles formavam condomínios", diz Buchmann. Paradoxal porque tatus são bichos solitários, e não sociais. O ajuntamento dos bunkers provavelmente tem a ver com o terreno favorável, e não com algum interesse dos supertatus em vizinhança animada.
Falta ainda a prova definitiva: achar o fóssil de algum dos bichos "em casa". "Nas tocas ainda abertas, o contato com o ar deve ter decomposto os ossos", afirma ele.
Maiores bichos se comparam a um Fusca
As supertocas e supertatus estudados pelos pesquisadores brasileiros podem parecer impressionantes para os desavisados, mas são café pequeno diante do tamanho gigantesco que outras espécies do tipo alcançaram.
A Era do Gelo foi também uma era de ouro para os tatus e bichos assemelhados. Originários da América do Sul (a mais antiga espécie tem uns 60 milhões de anos e foi achada em Itaboraí, no Rio de Janeiro), os bichos avançaram rumo à América do Norte quando o istmo do Panamá se formou e uniu os dois subcontinentes.
De norte a sul, os ambientes foram tomados pelos gigantescos gliptodontes, cuja carapaça maciça e arredondada dava a essas criaturas o aspecto -e o tamanho aproximado- de um Fusca. Não cavavam tocas, claro.
Os gliptodontes não são considerados tatus verdadeiros. Ao contrário de seus primos menores, eram pastadores, e não comedores de inseto. Outra diferença importante é a falta de dobradiças no casco, o que os tornava rígidos feito um tanque se comparados, por exemplo, a um tatu-bola.
Além dos tatus verdadeiros e dos gliptodontes, outros animais do tipo a alcançar grandes dimensões foram os pampatérios, esses com carapaças mais maleáveis.
Não se sabe ao certo porque essa diversidade de bichos gigantes sumiu. Mudanças na vegetação são um dos fatores apontados pelos paleontólogos, mas a caça por humanos não está descartada. (RJL)
RUY CASTRO
Titãs extintos
RIO DE JANEIRO - Cortes de terra para obras de infraestrutura em municípios de SP, PR e RS estão revelando redes de tocas que podem ter sido escavadas por tatus gigantes há 400 mil anos. Esses supertatus -gliptodontes, para os cientistas- eram do tamanho de fuscas, e seus cascos os transformavam em verdadeiros tanques. Com toda essa exuberância, extinguiram-se.
Um fóssil de urso achado em La Plata, Argentina, e apresentado há pouco num simpósio de paleontologia no Rio insinua que o bicho, um cidadão de 700 mil anos atrás, tinha 3,5 metros de altura e pesava 1,5 tonelada. Era carnívoro convicto e fazia a festa devorando tenros herbívoros, como antas e preguiças. Mas, com a chegada dos grandes felinos à América do Sul, ele caiu na zona de rebaixamento -encolheu de tamanho e tornou-se também herbívoro.
E, outro dia, cientistas da USP encontraram em MG ovos e crânios de um bicho desconhecido -talvez um crocodilo gigante, mas quem sabe também uma nova espécie ou até um novo gênero. Em todo caso, um feroz predador, de até seis metros de comprimento, e tremendamente antissocial. Por sorte, viveu há 90 milhões de anos.
A descoberta desses bicharocos sempre me emociona. Mostra como mesmo os maiores titãs do passado acabaram se extinguindo, por uma mudança no clima ou por um valente que apareceu no pedaço. E também me admiro quando se determina que o espécime viveu há 700 mil ou 90 milhões de anos.
Eu também viajo ao passado, em busca de personagens como Nelson Rodrigues, Garrincha ou Carmen Miranda, mas ainda não fui tão longe. Os três, por sinal, eram gigantes em seu tempo e ainda o são, em nosso tempo. Já muitos de seus contemporâneos, por mais sólidos que parecessem, só nos deixaram alguns dentes e artelhos que, um dia, com sorte, talvez sejam avaliados pelos paleontólogos
REINALDO JOSÉ LOPES
ENVIADO AO RIO
Por que diabos um supertatu da Era do Gelo, coberto por uma armadura natural e munido de garras possantes, precisaria se esconder sob a terra, como os tatus atuais?
"Você tem de lembrar que um dos predadores da época era o Smilodon [o célebre dente-de-sabre]", explica Francisco Sekiguchi Buchmann, da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de São Vicente. "Portanto, provavelmente valia a pena."
Buchmann e seus colegas estão descobrindo como era extensa a rede de bunkers antidente-de-sabre dos supertatus. Segunda a última contagem, apresentada no 7º Simpósio Brasileiro de Paleontologia de Vertebrados, já são cerca de 200 paleotocas, como os pesquisadores as chamam -algumas ainda intactas, outras (a maioria) já preenchidas por terra.
Com até 45 metros de comprimento, os túneis se espalham por diversas localidades no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. Os buracos estão vindo à tona aos montes durante, por exemplo, cortes de terra feitos para obras de infraestrutura em vários municípios.
As paleotocas são grandes o suficiente para abrigar humanos -agachados, bem entendido. Isso permitiu que Buchmann e colegas como Renato Pereira Lopes, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), estudassem em detalhe tanto o interior das que se encontram desobstruídas quanto sua disposição no ambiente.
CSI TATU
Esse trabalho de detetive revelou, em primeiro lugar, que os escavadores dos túneis eram tão cuidadosos quanto os construtores de um metrô na hora de montar suas supertocas.
"Não adianta simplesmente cavar um buraco no chão, porque a chuva vai encher aquilo de água em dois tempos", explica Lopes.
Os bichos, portanto, aproveitavam as encostas de grandes barrancos. O mapeamento dos locais com a ajuda do GPS (Sistema de Posicionamento Global) sugere que os cavadores levavam em conta variáveis como posição do Sol, ventilação e presença de água na hora de construir seus ninhos.
Na Era do Gelo, a partir de 400 mil anos atrás (idade estimada para as paleotocas), não faltavam criaturas avantajadas que pudessem ter criado a rede de túneis. As pistas, porém, apontam para os supertatus -mais especificamente bichos do gênero extinto Propraopus, por exemplo, significativamente maiores que os tatus-canastras do Brasil moderno.
São pistas indiretas: marcas de garras, de pelos e de osteodermas (como são conhecidas as unidades que formam a carapaça dos tatus) que batem com o que se conhece dos Propraopus. Ao se arrastar pelas galerias, explicam os pesquisadores, os bichos deixaram tais marcas.
CONDOMÍNIO FECHADO
Uma característica paradoxal das paleotocas é o fato de elas apareceram aos montes no mesmo lugar. "Eles formavam condomínios", diz Buchmann. Paradoxal porque tatus são bichos solitários, e não sociais. O ajuntamento dos bunkers provavelmente tem a ver com o terreno favorável, e não com algum interesse dos supertatus em vizinhança animada.
Falta ainda a prova definitiva: achar o fóssil de algum dos bichos "em casa". "Nas tocas ainda abertas, o contato com o ar deve ter decomposto os ossos", afirma ele.
Maiores bichos se comparam a um Fusca
As supertocas e supertatus estudados pelos pesquisadores brasileiros podem parecer impressionantes para os desavisados, mas são café pequeno diante do tamanho gigantesco que outras espécies do tipo alcançaram.
A Era do Gelo foi também uma era de ouro para os tatus e bichos assemelhados. Originários da América do Sul (a mais antiga espécie tem uns 60 milhões de anos e foi achada em Itaboraí, no Rio de Janeiro), os bichos avançaram rumo à América do Norte quando o istmo do Panamá se formou e uniu os dois subcontinentes.
De norte a sul, os ambientes foram tomados pelos gigantescos gliptodontes, cuja carapaça maciça e arredondada dava a essas criaturas o aspecto -e o tamanho aproximado- de um Fusca. Não cavavam tocas, claro.
Os gliptodontes não são considerados tatus verdadeiros. Ao contrário de seus primos menores, eram pastadores, e não comedores de inseto. Outra diferença importante é a falta de dobradiças no casco, o que os tornava rígidos feito um tanque se comparados, por exemplo, a um tatu-bola.
Além dos tatus verdadeiros e dos gliptodontes, outros animais do tipo a alcançar grandes dimensões foram os pampatérios, esses com carapaças mais maleáveis.
Não se sabe ao certo porque essa diversidade de bichos gigantes sumiu. Mudanças na vegetação são um dos fatores apontados pelos paleontólogos, mas a caça por humanos não está descartada. (RJL)
RUY CASTRO
Titãs extintos
RIO DE JANEIRO - Cortes de terra para obras de infraestrutura em municípios de SP, PR e RS estão revelando redes de tocas que podem ter sido escavadas por tatus gigantes há 400 mil anos. Esses supertatus -gliptodontes, para os cientistas- eram do tamanho de fuscas, e seus cascos os transformavam em verdadeiros tanques. Com toda essa exuberância, extinguiram-se.
Um fóssil de urso achado em La Plata, Argentina, e apresentado há pouco num simpósio de paleontologia no Rio insinua que o bicho, um cidadão de 700 mil anos atrás, tinha 3,5 metros de altura e pesava 1,5 tonelada. Era carnívoro convicto e fazia a festa devorando tenros herbívoros, como antas e preguiças. Mas, com a chegada dos grandes felinos à América do Sul, ele caiu na zona de rebaixamento -encolheu de tamanho e tornou-se também herbívoro.
E, outro dia, cientistas da USP encontraram em MG ovos e crânios de um bicho desconhecido -talvez um crocodilo gigante, mas quem sabe também uma nova espécie ou até um novo gênero. Em todo caso, um feroz predador, de até seis metros de comprimento, e tremendamente antissocial. Por sorte, viveu há 90 milhões de anos.
A descoberta desses bicharocos sempre me emociona. Mostra como mesmo os maiores titãs do passado acabaram se extinguindo, por uma mudança no clima ou por um valente que apareceu no pedaço. E também me admiro quando se determina que o espécime viveu há 700 mil ou 90 milhões de anos.
Eu também viajo ao passado, em busca de personagens como Nelson Rodrigues, Garrincha ou Carmen Miranda, mas ainda não fui tão longe. Os três, por sinal, eram gigantes em seu tempo e ainda o são, em nosso tempo. Já muitos de seus contemporâneos, por mais sólidos que parecessem, só nos deixaram alguns dentes e artelhos que, um dia, com sorte, talvez sejam avaliados pelos paleontólogos
sexta-feira, 23 de julho de 2010
CIÊNCIA NÃO É NEUTRA: FALSIFICA DADOS, FAZ PLÁGIO E PRÁTICAS AFINS
Maioria dos cientistas já testemunhou abuso ético
Nos EUA, 84% presenciaram falsificação de dados, plágio e práticas afins
Pesquisadores dizem ter tentado intervir para corrigir erros; casos, em geral, envolviam chefes dos grupos de pesquisa
SABINE RIGHETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A maioria dos cientistas já testemunhou ou se envolveu em casos de infração científica como falsificação de dados ou plágio. É isso que revela um estudo inédito conduzido pelo Simmons College, dos Estados Unidos.
De um total de 2.599 cientistas americanos e canadenses com pesquisas financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), 84% disseram já ter presenciado ou participado de infrações científicas.
Dentre os cientistas que participaram direta ou indiretamente de um trabalho com dados fraudulentos, 63% disseram ter tentado intervir para evitar o abuso.
As informações, coletadas por meio de um questionário enviado por email aos cientistas, respondido anonimamente, estão na edição de hoje da revista "Nature".
DE CIMA PRA BAIXO
"Na maioria dos casos relatados, as infrações de dados foram conduzidas por um chefe [orientador ou coordenador de pesquisa]. Isso torna difícil uma intervenção por parte dos pesquisadores", disse à Folha Gerald Koocher, um dos coordenadores da pesquisa.
Ele explica que as intervenções são mais fáceis para cientistas distantes do infrator do que para quem está no mesmo laboratório.
"Em 61 casos, não houve intervenção diante de um erro porque o cientista era um amigo", conta Koocher.
No topo da lista de infrações cometidas pelos cientistas, estão fabricação ou falsificação de dados, falsa co-autoria de artigo e plágio.
SOLUÇÕES
Segundo Koocher, as estatísticas encontradas nos EUA podem ser generalizadas para Brasil, Austrália e alguns países da Europa que, na opinião dele, possuem uma "cultura científica bastante semelhante".
Com base na pesquisa, os autores criaram uma espécie de guia de 60 páginas que traz sugestões para os cientistas saberem o que fazer diante de uma pesquisa com dados fraudulentos (www.ethicsresearch.com).
"Mas o guia não faz rodeios e reconhece que nem sempre os pesquisadores conseguirão tomar uma atitude diante de um erro científico", revela o autor.
A ideia de estudar infrações científicas foi do governo americano, para tentar mapear erros em dados científicos. "Sabemos que os pesquisadores, especialmente nos grandes estudos, podem não checar números e não repetem os estudos", conta.
Ainda podemos confiar na ciência? Koocher acredita que sim. "A maioria dos cientistas é honesta. Nós temos dados positivos e precisamos descobrir como fazer para melhorar a integridade dos cientistas", finaliza.
Nos EUA, 84% presenciaram falsificação de dados, plágio e práticas afins
Pesquisadores dizem ter tentado intervir para corrigir erros; casos, em geral, envolviam chefes dos grupos de pesquisa
SABINE RIGHETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A maioria dos cientistas já testemunhou ou se envolveu em casos de infração científica como falsificação de dados ou plágio. É isso que revela um estudo inédito conduzido pelo Simmons College, dos Estados Unidos.
De um total de 2.599 cientistas americanos e canadenses com pesquisas financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), 84% disseram já ter presenciado ou participado de infrações científicas.
Dentre os cientistas que participaram direta ou indiretamente de um trabalho com dados fraudulentos, 63% disseram ter tentado intervir para evitar o abuso.
As informações, coletadas por meio de um questionário enviado por email aos cientistas, respondido anonimamente, estão na edição de hoje da revista "Nature".
DE CIMA PRA BAIXO
"Na maioria dos casos relatados, as infrações de dados foram conduzidas por um chefe [orientador ou coordenador de pesquisa]. Isso torna difícil uma intervenção por parte dos pesquisadores", disse à Folha Gerald Koocher, um dos coordenadores da pesquisa.
Ele explica que as intervenções são mais fáceis para cientistas distantes do infrator do que para quem está no mesmo laboratório.
"Em 61 casos, não houve intervenção diante de um erro porque o cientista era um amigo", conta Koocher.
No topo da lista de infrações cometidas pelos cientistas, estão fabricação ou falsificação de dados, falsa co-autoria de artigo e plágio.
SOLUÇÕES
Segundo Koocher, as estatísticas encontradas nos EUA podem ser generalizadas para Brasil, Austrália e alguns países da Europa que, na opinião dele, possuem uma "cultura científica bastante semelhante".
Com base na pesquisa, os autores criaram uma espécie de guia de 60 páginas que traz sugestões para os cientistas saberem o que fazer diante de uma pesquisa com dados fraudulentos (www.ethicsresearch.com).
"Mas o guia não faz rodeios e reconhece que nem sempre os pesquisadores conseguirão tomar uma atitude diante de um erro científico", revela o autor.
A ideia de estudar infrações científicas foi do governo americano, para tentar mapear erros em dados científicos. "Sabemos que os pesquisadores, especialmente nos grandes estudos, podem não checar números e não repetem os estudos", conta.
Ainda podemos confiar na ciência? Koocher acredita que sim. "A maioria dos cientistas é honesta. Nós temos dados positivos e precisamos descobrir como fazer para melhorar a integridade dos cientistas", finaliza.
sábado, 18 de julho de 2009
A maior dificuldade não é a falta da visão, é o desconhecimento que as pessoas têm sobre isso
"A maior dificuldade não é a falta da visão, é o desconhecimento que as pessoas têm sobre isso"
RICARDO MARQUES DA FONSECA
juiz do TRT de Curitiba, após ter se encontrado com o presidente Lula
TRT do PR terá 1º juiz cego do país
Ricardo Tadeu da Fonseca foi nomeado magistrado por Lula e tomará posse na semana que vem em Curitiba
Desembargador trabalhava havia 18 anos no Ministério Público do Trabalho e disse que não terá problemas para julgar os processos
DIMITRI DO VALLE
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CURITIBA
Ricardo Tadeu da Fonseca, 50, tomará posse na próxima semana como o primeiro juiz cego a trabalhar em um tribunal brasileiro. Ele vai atuar como desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 9ª região, em Curitiba.
Fonseca foi nomeado magistrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem teve uma audiência ontem em Brasília. Conversaram sobre política internacional e ações afirmativas, disse o juiz.
"Sempre quis ser juiz. Realizei um sonho", afirmou Fonseca, que se formou na USP (Universidade de São Paulo). No terceiro ano de direito, aos 23 anos, perdeu toda a visão, e os colegas passaram a gravar leituras do conteúdo dos livros e das aulas para ajudá-lo.
Depois de um início de carreira como advogado, tentou ingressar na magistratura.
Em 1990, Fonseca foi aprovado na fase escrita para um concurso de juiz do trabalho, mas foi desclassificado em razão da deficiência visual.
Mesmo barrado, não recuou. "Nunca desisti em nada." Sua mãe, afirmou Fonseca, dizia que o estudo permitiria que ele superasse os próprios limites.
Em 1991, foi aprovado em concurso para o Ministério Público do Trabalho. Ficou em sexto lugar, numa lista com 5.000 candidatos. "As pessoas não devem acreditar nos limites que querem impor a elas."
Fonseca afirmou que, na corte, não terá problemas para julgar os processos. Ele citou a experiência de quase duas décadas como procurador do trabalho. A seu favor menciona ainda os conhecimentos da leitura em braile e domínio dos programas de computador para deficientes visuais.
Disse que também não terá problemas em analisar documentos. "Os meus assessores vão descrever o documento e, através do que eles disserem verbalmente, eu vou fazer o juízo de valor", afirmou ele.
"Os juízes, quando têm que analisar um documento em língua estrangeira, se louvam do tradutor juramentado. Comigo é exatamente igual", disse.
Fonseca, que fez mestrado e doutorado, disse ter desenvolvido técnicas de audição que o auxiliam no despacho rápido dos casos. "Nunca tive problema de prazo nem como advogado nem como procurador."
RICARDO MARQUES DA FONSECA
juiz do TRT de Curitiba, após ter se encontrado com o presidente Lula
TRT do PR terá 1º juiz cego do país
Ricardo Tadeu da Fonseca foi nomeado magistrado por Lula e tomará posse na semana que vem em Curitiba
Desembargador trabalhava havia 18 anos no Ministério Público do Trabalho e disse que não terá problemas para julgar os processos
DIMITRI DO VALLE
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CURITIBA
Ricardo Tadeu da Fonseca, 50, tomará posse na próxima semana como o primeiro juiz cego a trabalhar em um tribunal brasileiro. Ele vai atuar como desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 9ª região, em Curitiba.
Fonseca foi nomeado magistrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem teve uma audiência ontem em Brasília. Conversaram sobre política internacional e ações afirmativas, disse o juiz.
"Sempre quis ser juiz. Realizei um sonho", afirmou Fonseca, que se formou na USP (Universidade de São Paulo). No terceiro ano de direito, aos 23 anos, perdeu toda a visão, e os colegas passaram a gravar leituras do conteúdo dos livros e das aulas para ajudá-lo.
Depois de um início de carreira como advogado, tentou ingressar na magistratura.
Em 1990, Fonseca foi aprovado na fase escrita para um concurso de juiz do trabalho, mas foi desclassificado em razão da deficiência visual.
Mesmo barrado, não recuou. "Nunca desisti em nada." Sua mãe, afirmou Fonseca, dizia que o estudo permitiria que ele superasse os próprios limites.
Em 1991, foi aprovado em concurso para o Ministério Público do Trabalho. Ficou em sexto lugar, numa lista com 5.000 candidatos. "As pessoas não devem acreditar nos limites que querem impor a elas."
Fonseca afirmou que, na corte, não terá problemas para julgar os processos. Ele citou a experiência de quase duas décadas como procurador do trabalho. A seu favor menciona ainda os conhecimentos da leitura em braile e domínio dos programas de computador para deficientes visuais.
Disse que também não terá problemas em analisar documentos. "Os meus assessores vão descrever o documento e, através do que eles disserem verbalmente, eu vou fazer o juízo de valor", afirmou ele.
"Os juízes, quando têm que analisar um documento em língua estrangeira, se louvam do tradutor juramentado. Comigo é exatamente igual", disse.
Fonseca, que fez mestrado e doutorado, disse ter desenvolvido técnicas de audição que o auxiliam no despacho rápido dos casos. "Nunca tive problema de prazo nem como advogado nem como procurador."
Marcadores:
CIÊNCIA,
Comportamento,
Ensaio sobre a cegueira,
literatura,
Lula,
midia,
Política
quarta-feira, 1 de julho de 2009
SOMOS MEGACANINOS!?
elo perdido de primatas
DESCOBRIRAM QUE O ELO PERDIDO DA EVOLUÇÃO NÃO É UM DOCE PRIMATA, É OUTRO, COM CANINOS BEM MAIS AFIADOS.
alguns já dizem que isso explica porque vivemos num mundo cão!
CLAME, RECLAME
CITY ZEN CANE!?
Espécime achado em Mianmar é mais próximo de humanos do que "rival" achado na Alemanha
DO "INDEPENDENT"
Um fóssil apresentado ontem por cientistas americanos pode destronar o atual animal considerado o elo perdido entre humanos e macacos. Batizado de Ganlea megacanina, o novo espécime é descrito em um estudo de pesquisadores do Museu Carnegie de História Natural, de Pittsburgh (EUA).
Com 38 milhões de anos, o primata -achado em Mianmar, no Sudeste Asiático- está mais próximo do que se imaginaria de um ancestral comum recente entre homens e macacos, dizem os pesquisadores.
O fóssil que clamava o título de elo perdido até agora era o de Ida, um primata de 47 milhões de anos de idade extremamente bem preservado, mas sem tantas semelhanças com os macacos ou com espécies mais próximas dos humanos.
Segundo o paleontólogo Chris Beard, do Museu Carnegie, apesar de o fóssil do Ganlea não estar completo, é possível afirmar que ele é um candidato mais forte ao posto de elo perdido. Em um estudo na revista científica "Proceedings of the Royal Society", Beard e seus colegas defendem sua posição com base numa análise dos dentes do animal e de um fragmento de sua mandíbula -tudo aquilo que restou do Ganlea.
Segundo Beard, o fóssil achado em Mianmar guarda mais semelhança com os chamados primatas antropoides (homens e macacos), enquanto Ida, achado na Alemanha, está um pouco mais próxima dos lêmures -primatas mais distantes dos humanos evolutivamente, com arcada dentária diferente.
"Pelo que podemos ver, Ganlea não só é um antropoide, como é um antropoide bastante avançado, o que não se pode dizer de Ida", afirma o cientista.
DESCOBRIRAM QUE O ELO PERDIDO DA EVOLUÇÃO NÃO É UM DOCE PRIMATA, É OUTRO, COM CANINOS BEM MAIS AFIADOS.
alguns já dizem que isso explica porque vivemos num mundo cão!
CLAME, RECLAME
CITY ZEN CANE!?
Espécime achado em Mianmar é mais próximo de humanos do que "rival" achado na Alemanha
DO "INDEPENDENT"
Um fóssil apresentado ontem por cientistas americanos pode destronar o atual animal considerado o elo perdido entre humanos e macacos. Batizado de Ganlea megacanina, o novo espécime é descrito em um estudo de pesquisadores do Museu Carnegie de História Natural, de Pittsburgh (EUA).
Com 38 milhões de anos, o primata -achado em Mianmar, no Sudeste Asiático- está mais próximo do que se imaginaria de um ancestral comum recente entre homens e macacos, dizem os pesquisadores.
O fóssil que clamava o título de elo perdido até agora era o de Ida, um primata de 47 milhões de anos de idade extremamente bem preservado, mas sem tantas semelhanças com os macacos ou com espécies mais próximas dos humanos.
Segundo o paleontólogo Chris Beard, do Museu Carnegie, apesar de o fóssil do Ganlea não estar completo, é possível afirmar que ele é um candidato mais forte ao posto de elo perdido. Em um estudo na revista científica "Proceedings of the Royal Society", Beard e seus colegas defendem sua posição com base numa análise dos dentes do animal e de um fragmento de sua mandíbula -tudo aquilo que restou do Ganlea.
Segundo Beard, o fóssil achado em Mianmar guarda mais semelhança com os chamados primatas antropoides (homens e macacos), enquanto Ida, achado na Alemanha, está um pouco mais próxima dos lêmures -primatas mais distantes dos humanos evolutivamente, com arcada dentária diferente.
"Pelo que podemos ver, Ganlea não só é um antropoide, como é um antropoide bastante avançado, o que não se pode dizer de Ida", afirma o cientista.
Assinar:
Postagens (Atom)