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quarta-feira, 6 de abril de 2011

blog do miro - A mídia e a mercantilização do medo

Izaías Almada, publicado no Blog da Boitempo:

Desde os primórdios da humanidade, daquilo que nos é dado a conhecer, pelo menos, o sentimento do medo é inerente a ação e ao comportamento humano. O confronto com a natureza, a proteção mística contra o desconhecido, a luta pela sobrevivência, o inevitável desejo de posse, a tentativa de suplantar a dor física e o sofrimento, para ficarmos com alguns exemplos, são atitudes que caracterizam o relacionamento entre o homem e a sensação de medo.

Muito já terão os pensadores e cientistas sociais discorrido sobre o tema, em particular historiadores, sociólogos e psicólogos. O atual estágio de desenvolvimento humano, contudo, que para o bem e para o mal se confunde com o atual estágio do capitalismo, agregou a essa relação um componente perverso: transformou o medo numa mercadoria.

Que o digam a indústria farmacêutica, a indústria armamentista, os bancos e o capital financeiro especulativo, as grandes seguradoras, os grandes conglomerados midiáticos ao redor do mundo.

Apoiado numa monumental e cínica campanha de marketing, a mercantilização do medo está presente nas páginas dos jornais diários, dos grandes telejornais, nas histórias em quadrinhos, nos filmes de catástrofe e terror, nas novelas de televisão, nos programas de rádio, quando uma sucessão de tragédias, sejam elas individuais ou coletivas, ganharam e ganham destaque em nível nacional ou internacional.

A história da guerra no Iraque é paradigmática. A invasão desse país pelos EUA, sob premissas falsas de procurar armas de destruição em massa, e o criminoso silêncio do mundo, terceirizou o uso de força, com a contratação de tropas e serviços mercenários. Milhões e milhões de dólares foram gastos com roupas, alimentos, remédios, combustível, armas e munições, colocando nos dois pratos da balança os polpudos cheques públicos nas mãos da empresa privada de um lado e o medo, simplesmente o medo, de outro. Os genocidas do governo Bush, entre eles o vice presidente Dick Cheney e a empresa Halliburton sabem exatamente o que significa essa mercantilização do medo.

O medo ao terrorismo, o medo aos muçulmanos selvagens, o medo aos inimigos internos, o medo a culturas diferentes e à diversidade. O medo, enfim, a tudo que não seja branco e de olhos azuis. E que não fale o inglês do Texas ou da Câmara dos Lordes. Ou ainda, de forma mais prosaica, o medo ao desemprego, o medo ao assalto, o medo à infidelidade, o medo ao bullying, o medo à periferia, o medo aos juros bancários, o medo às enchentes, o medo aos terremotos, o medo, o medo, o medo…

Quanto vale o nosso medo do dia a dia nas bolsas de Nova York, Xangai ou mesmo na Bovespa?

sábado, 29 de janeiro de 2011

filosofia - PSICANÁLISE - Obra-prima de Freud ainda assombra a contemporaneidade - VLADIMIR SAFATLE

Livro fundamental, "O Mal-Estar na Civilização" ecoou profundamente na maneira de compreendermos a vida


Durante décadas, o público leitor brasileiro foi obrigado a conviver com péssimas traduções dos textos de Sigmund Freud (1856-1939), um dos pensadores mais decisivos do século 20. Agora, com a disponibilização da obra freudiana para o domínio público, a Companhia das Letras oferece uma tradução segura das obras completas, feita por um tradutor que já havia mostrado sua competência com textos de Nietzsche (1844-1900) e Brecht (1898-1956), Paulo César de Souza.
O novo volume da coleção traz, além das "Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise", o fundamental "O Mal-Estar na Civilização".
Não seria exagero dizer que este é certamente um dos textos mais influentes da contemporaneidade.
Sua maneira de descrever as patologias do processo civilizatório e o preço que pagamos para socializar nossas pulsões e desejos encontrou eco profundo na maneira de compreendermos a estrutura de nossas formas de vida.
Isto demonstra que, independentemente do fato de acreditarmos ou não na psicanálise como prática clínica, boa parte dos esquemas de autocompreensão das sociedades ocidentais são profundamente marcados por uma cultura psicanalítica.
Se nos perguntarmos sobre a razão para tamanha influência, talvez a melhor resposta seria: com a noção de "mal-estar", Freud nomeou uma modalidade de sofrimento social que parece assombrar a modernidade.

SOFRIMENTO
Duas ideias aqui são importantes. Primeiro, a noção de que aquilo que chamamos de "sofrimento psíquico" está profundamente vinculado ao impacto, em nossas vidas, dos imperativos da vida social. Daí a ideia de que todo sofrimento psíquico é um modo de expor experiências sociais malogradas.
Segundo, através da análise deste mal-estar, Freud demonstrou que o verdadeiro risco da civilização ocidental não vem de fora. Na verdade, seu maior inimigo é ela mesma. Como dirá Walter Benjamin (1892-1940), profundamente inspirado por Freud: "Todo documento de civilização é um documento de barbárie".
Isto significa, entre outras coisas, que o próprio processo de formação das individualidades impõe cisões (entre, por exemplo, pulsões e vontade racional), petrifica comportamentos, cria expectativas de reparação (através da constituição de figuras fantasmáticas de autoridade) que explicam boa parte do comportamento regressivo que, periodicamente, submerge nossas sociedades.
No entanto, o ensinamento de Freud nunca foi abandonar a civilização em prol de alguma moral naturalista.
Ele nos ensinou, na verdade, a tentar manejar uma dialética complicada onde o que é perdido inicialmente pelo processo civilizatório deve ser posteriormente reintegrado em um novo patamar. Isto impõe uma desconfiança prudente a respeito de nossos próprios valores, uma necessidade de fazer coisas que sabemos que, posteriormente, deverão ser feitas de outra forma.
Assim, Freud será sempre aquele que nos lembrou que nosso "mal-estar" diante da civilização é talvez nosso sentimento mais verdadeiro.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O que a Bíblia diz sobre o sexo

época



Adão e Eva: casados?
Um livro polêmico que une religião e sexo acaba de ser lançado nos Estados Unidos. God and Sex- What the Bible Really Says ( Deus e Sexo – O que realmente a Bíblia diz) de Michael Coogan, professor de religiões do Museu Semítico de Harvard e que fez pós-doutorado em Literatura pela Universidade de Harvard, discute a interpretação do sexo nos textos bíblicos. Coogan, que também é editor do livro New Oxford Annotated Bible, uma referência para os estudiosos de religião, diz que a Bíblia tem uma visão positiva sobre o sexo. Isso porque sexo estaria diretamente associado à reprodução. Em seu novo livro, o estudioso cita diversas passagens eróticas, como o Cântico dos Cânticos do rei Salomão.

Coogan discute o fato de os tradutores dos textos bíblicos terem imposto suas próprias visões e preconceitos quando traduziram do hebreu para outras línguas. Segundo o professor de Harvard, há palavras em hebreu que dão possibilidade para mais de uma interpretação, como mulher e esposa, que significam a mesma coisa. E seguindo essa teoria, o autor diz que não há como provar que Adão e Eva se casaram. Coogan ainda afirma que algumas religiões levam em consideração alguns capítulos do Livro Sagrado, enquanto menosprezam outras passagens que trazem uma diferente visão sobre o mesmo tema, como poligamia. Ele diz que nos escritos bíblicos em hebreu não há nada que nos assegure que devemos ser monogãmicos.

Ele também fala sobre o fato de não haver nenhuma passagem na Bíblia que condene o aborto. “Uma das coisas que eu acho mais interessantes é que no debate contemporâneo sobre o aborto, ambos lados citam e se apóiam na Bíblia como uma referência. Eles falam de versos em que não dizem nada sobre o aborto ”, disse Coogan em uma entrevista a revista Time.

Sobre a sexualidade de Deus, Coogan afirma que Ele é um ser sexual, mas no sentido metafórico e mítico. O estudioso também diz que quando a Bíblia foi escrita, no berço da civilização greco-romana, as pessoas eram menos puritanas. Uma das idéias que elas concebiam era o fato de um Deus vir a Terra e fazer sexo com um mortal.

Vou contar aqui uma pequena passagem da minha vida que tem muito a ver com essas diferentes interpretações bíblicas. Eu não tenho religião, mas venho de uma família bastante religiosa. A minha avó materna, aos 80 anos, um pouco antes de morrer, fundou uma nova igreja evangélica. Ela e um pequeno grupo deram uma nova interpretação à Bíblia em relação a como o Espírito Santo se comunica com os fiéis e, diante desta nova concepção, racharam com os líderes religiosos de sua comunidade. De longe, como espectadora, achei tudo muito curioso para uma mulher octogenária. Foram muitas as novas regras da igreja fundada pela minha avó. Entre as menores, porém não menos importantes, não era permitido nenhum objeto que representasse a natureza em sua forma artificial. Ou seja, minha avó deu fim a todas as toalhas floridas e vestidos estampados. Nunca entendi isso, mas sempre a respeitei. Minha amada avó se foi e sua igreja prosperou. E assim, com difrentes formas de interpretar o Livro Sagrado, se formaram novas religiões no Brasil e no mundo.

Em nosso país, assistimos a proliferação de muitas igrejas, principalmente, entre as neopentecostais. Portanto, acredito que as reflexões de Coogan são no mínimo inquietantes e oportunas. O estudioso deixa uma pergunta no ar, que a faço a vocês:

O que faz com que certas passagens bíblicas sejam relevantes, enquanto que outras que tratam do mesmo assunto sejam absolutamente desconsideradas? E, principalmente, como isso acontece com temas polêmicos, como aborto, homossexualidade e sexo?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Sistema Totêmico e Sistema Mediático, uma provocação - Alberto Dines

* Conferência pronunciada em 1/10/2000 por Alberto Dines, no Museu de Arte de São Paulo (MASP), em simpósio "Freud: Conflito e Cultura".

A provocação que proponho pode parecer à primeira vista uma elocubração forçada, ginástica intelectual, preciosismo, exercício especulativo no bom estilo grego. Eles costumavam levar a dialética ao seu extremo. E a combinavam com dois outros paradigmas da sua cultura – a competição e a dramatização.

Não foi essa a intenção e espero que não seja esse o resultado. Pretendi apenas encaixar uma das obras seminais da psicanálise (à qual fui incumbido de analisar) no universo multidisciplinar e cósmico das teorias freudianas. Mais precisamente na sua teoria da civilização.

Antes de avançar é preciso estabelecer uma premissa ou pelo menos explicar o que vem a ser o sistema mediático já que a expressão é recente e o conceito que expressa ainda não foi inteiramente assimilado. Medium, do latim, é meio, meio de comunicação. O plural deveria ser os media mas no Brasil preferiu-se designar o conjunto dos meios de comunicação como a mídia para acompanhar a imprensa. Mas imprensa, como o próprio nome o sugere, refere-se apenas aos meios impressos que, a partir dos anos 20, foram sendo paulatinamente superados pelos meios eletrônicos de comunicação. Então a mídia ou os media passou a significar o processo de comunicação de massas ou comunicação social no seu conjunto. E o sistema mediático ou midiático representa a interação de todos os componentes envolvidos na comunicação social – veículos, audiências, comunicadores, o mercado como também o repertório de normas e procedimentos que vai sendo acumulado. Como qualquer sistema, o mediático decorre de uma disposição assumida ou insinuada para articular-se como uma estrutura organizada. Ganhou dimensões de fenômeno sócio-político a partir do uso do cinema pelos soviéticos, do rádio pelo nazismo e da percepção de que era a própria encarnação da civilização capitalista, sobretudo americana.

Estabelecida a preliminar no terreno filológico podemos avançar. Totem e Tabu é uma escavação arqueológica em busca dos fundamentos da cultura e dos relacionamentos grupais. O próprio subtítulo dos quatro ensaios que compõem a obra é extremamente útil para aqueles que pretendem examiná-los além da ótica da psicanálise – Várias Concordâncias na Vida Mental dos Selvagens e Neuróticos. "Selvagem" aqui também pode ser entendido como primitivo.

Deduz-se que Freud pretendia estabelecer uma relação entre as posturas mentais primitivas ou do "homem natural" e o pensamento dito "normal", aquele que está à nossa volta. E como o definiu o próprio Freud diante de Jung, a obra é uma síntese reunindo especulações de antropologia, etnografia,, biologia e história das religiões.

Aqui começa efetivamente a provocação. Como religião é poder, qualquer exploração sobre as origens e funcionamento dos mitos, crenças e divindades acaba fatalmente resvalando nos mecanismos da criação dos códigos, da moral, das leis, nos fundamentos da autoridade e, portanto, acaba caindo em cheio na esfera política. Talvez essa tenha sido a razão que levou Peter Gay a considerar Totem e Tabu como psicanálise aplicada mas também um documento político [Gay, Peter, "Freud, Uma Vida para o Nosso Tempo", pg. 303].

Em 1908, antes mesmo de completar a redação dos quatro ensaios de Totem e Tabu, Freud escreveu Moral sexual "civilizada" e doença nervosa moderna [Edição Standard, Volume IX] onde examinou trabalhos de outros estudiosos sobre os efeitos perniciosos do progresso, a trepidante vida "moderna", a velocidade dos trens, as facilidades do telefone etc. Era um exercício da dialética freudiana aplicada às relações do homem com as mutações ambientais, tendo por objetivo enfatizar a repressão sexual como matriz dos movimentos da mente.

Mais tarde em O Futuro de Uma Ilusão e Mal Estar da Civilização, avançou na dissecação da sociedade contemporânea com seus apelos contraditórios, camuflagens de agressão e violência. Como observador atento do que se passava à sua volta – e certamente percebendo os desdobramentos do fascismo e do comunismo –, Freud servia-se da psicanálise para transcender à psicanálise avançando pelo terreno das ciências não-psicológicas (história da cultura, filologia, sociologia, biologia e filosofia política). O que nos leva à constatação de que não chega a ser disparatada esta tentativa de transpor o esquema ou sistema totêmico para além da "construção teórica" e psicanalítica montada por Freud.

Nesta busca de aproximações, comecemos pela metodologia: Freud foi buscar nos estudos de antropologia social sobre sociedades primitivas os elementos estruturais para formular suas teorias relacionadas com os mecanismos do inconsciente. Aqui pretende-se uma seqüência – reter os elementos estruturais identificados por Freud e retornar à antropologia social, já não da "humanidade natural", isto é, os aborígenes australianos com os mitos do sistema totêmico, mas da sociedade ocidental com os seus sofisticados códigos carregados de conflitos e dubiedade e da qual o sistema mediático é a mais pura representação.

De forma esquemática podemos mencionar os seguintes paralelismos entre o sistema totêmico e o sistema mediático:

Ambos têm como ponto de partida o mecanismo dos emblemas, figurados ou não. Emblemas que também podem ser vistos como estigmas.
Ambos manifestam-se através de códigos particulares balizados por sinais contraditórios e ambíguos.
Ambos resultam de estruturas de poder por um lado muito atuantes e, por outro, espalhadas num território com limites imprecisos e enganosos.
Ambos decorrem de impulsos de onipotência.
Ambos foram sendo construídos através de um conjunto muito sutil de premiações e repressões para chegar ao objetivo final que é a submissão.
Ambos criaram seus próprios padrões de sociabilidade.
Ambos transcendem a si próprios, são expressões meta-culturais.
Ambos têm origem e decorrem de estados primitivos da mente onde prevalece a satisfação imediata dos desejos e dos desejos mais recônditos [Levisky, David Léo, "A Mídia, interferências no aparelho psíquico" in Adolescência pelos Caminhos da Violência, pg. 147].

O totemismo examinado de forma mais ampla seria a expressão de uma meta-política, rebelião basilar e instintiva da horda primitiva ou horda fraterna contra a autoridade e os regulamentos. E o sistema totêmico poderia ser visto como um conjunto matricial ambivalente onde uma das coordenadas é a aproximação, o parentesco, a semelhança, a identidade, a integração. E a outra coordenada é a repulsão, a proibição, o sacrifício, o castigo e a culpa.

O sistema mediático que nos rodeia e de certa forma nos contém, com sua estrutura e mensagens contraditórias, não chega a ser muito diferente. Apesar das discrepâncias dos ingredientes, os dois sistemas articulam-se de forma similar e o que nos interessa é exatamente esta forma de articulação.

Se o totem acaba sendo um tabu (de novo recorro a Peter Gay) [Gay, Peter, obra citada, pg. 305] – combinação de parentesco e interdição – o processo contemporâneo de comunicação de massas pode ser considerado um simulacro com a mesma dialética de agregação e desagregação, aproximação e isolamento, cumplicidade e exclusão, persuasão e ruptura.

Se o totemismo é a mística da família estendida para formas sociais mais amplas, o fenômeno da mediatização encarna a própria civilização contemporânea. Não é apenas um desvio ocasional neste ou naquele meio de comunicação social, nesta ou naquela circunstância. É uma inflamação sistêmica. Estrutural.

Esta tentativa de comparação não é gratuita ou aleatória. Vou mais longe afirmando que é pertinente e até mesmo premente, razão pela qual corro tantos riscos. Estou convencido de que faz sentido. E faz sentido não apenas como tentativa de validar os filões básicos do pensamento de Freud mas porque a crítica da mídia, hoje candente e universal, inclui-se entre as manifestações mais expressivas do Mal-Estar da atual Civilização ou da atual Cultura – ou, se quiserem, do atual modo de viver.

De novo sirvo-me de Peter Gay: "a teoria da civilização de Freud considera a vida em sociedade como um compromisso imposto e, por isto, um transe insuperável. As próprias instituições que funcionam para proteger a sobrevivência da humanidade também geram o seu mal-estar" [Gay, Peter, idem, pg. 496].

Dentro deste raciocínio de Gay, vale a pergunta: se a instituição da liberdade de expressão protege a humanidade, como evitar que também seja matriz do mal-estar desta mesma humanidade? Jorge Semprun, o escritor e militante comunista franco-espanhol, depois da sua experiência como Ministro da Cultura no governo socialista de Felipe Gonzalez, resumiu a questão da seguinte forma: a liberdade de expressão é um dos problemas irresolvidos da democracia.

A crítica da mídia ou media-criticism transcendeu à esfera corporativa ou profissional assumindo-se como meta-crítica de um portentoso conjunto de estruturas e instituições que incorporam o sistema econômico (isto é, o capitalismo global), incluem o sistema político (isto é, a democracia na economia de mercado) e englobam o sistema de fabricação de mentalidades e culturas (isto é, a mediatização da vida social). Não é por acaso que vamos encontrar entre os precursores do media-criticism um pensador e lingüista do porte de Noam Chomsky; ou localizamos na vanguarda das tropas de choque contra os excessos da mídia eletrônica o sociólogo Pierre Bourdieu. Freqüentemente esbarramos com Umberto Ecco quando dos píncaros da sua semiótica resolve encarar as vícios e vicissitudes da mídia moderna. O "novo filósofo" Regis Debray, se não chega a nos convencer pela profundidade de suas avaliações, projeta-se pelo seu senso de oportunidade quando propõe uma nova disciplina ou interdisciplina, a "midialogia", composta pela sociologia, a psicologia coletiva, a comunicação e a ciência política.

No Brasil, pensadores como José Arthur Gianotti, Roberto Romano, Roberto Da Matta, Renato Janine Ribeiro e o senador Artur da Távola – para citar apenas alguns – estão formulando periodicamente (dentro da própria pulsação periódica da mídia) avaliações consistentes e pertinentes sobre o seu desempenho.

A própria presença da mídia como notícia, fenômeno recorrente e cada vez mais intenso, mostra que o sistema mediático tem embutido dentro dele um pêndulo que o empurra ora para o mimetismo ora para a autofagia e a canibalização. Em outras palavras – todos se imitam e todos se devoram.

A tragédia recente que resultou no assassinato de uma repórter por seu ex-chefe e ex-namorado é um caso de estudo clássico, espécie de bumerangue, jogo de espelhos. A mídia tratou da mídia com o mesmo sensacionalismo, a mesma leviandade, a mesma superficialidade, a mesma parcialidade, a mesma inconseqüência e a mesma insensibilidade com que habitualmente trata e destrata personagens e ocorrências em outras áreas.

A mídia vista pela mídia produziu uma imagem penosa do processo de mediação e da atuação dos mediadores. A sociedade acostumara-se com a imagem do jornalista como um ser racional, situado acima das paixões, à serviço do bem-comum. De repente, tudo ruiu. O interesse público foi atravessado pelo interesse DO público. O pathos da tragédia foi pulverizado pela bisbilhotice e pela banalidade. A sociedade brasileira avançou mais um pouco no processo de escapar do senso trágico, de fugir da catarse e purgar-se pela comoção.

O que sobrou tanto do caso em si como do tratamento a ele dispensado foi um flagrante do que poderia designar-se como "psicopatologia da vida jornalística". Festival de onipotências. Como se numa sociedade primitiva, de repente, fossem subitamente arrancados os distintivos demarcadores que evitavam os incestos e protegiam os pais dos instintos assassinos dos filhos.

Aqui acendo um sinal amarelo: atenção, zona perigosa! Estamos pisando num terreno minado. Qualquer crítica, teórica ou pontual, sobre o sistema mediático corre o risco de transcender e deflagrar debates sobre questões fronteiriças que não estão em pauta. Afinal o sistema de vasos comunicantes que é o Estado Moderno compreende também a democratização da informação, a liberdade de expressão e, em última análise, o estado de direito – epítomes de uma instituição política da qual não podemos nos afastar um milímetro sob pena de desperdiçar milênios de lutas e aspirações.

Somos todos agentes e pacientes do sistema mediático como também somos – ou fomos, em tempos remotos – instrumentos do sistema totêmico com suas dicotomias de sagrar, consagrar e transgredir. Quando tentamos esquadrinhar os fundamentos de um ou outro não estamos procurando solapar as suas bases mas apenas reparando nas respectivas disfunções. O verbo reparar aqui vale nos dois sentidos – atentar e consertar.

Considerando que, para este público de especialistas, é desnecessário e até temerário avançar na exegese da equação Totem-Tabu e suas implicações psicanalíticas ou mesmo psicossociais, gostaria de expandir as avaliações específicas sobre o sistema mediático para que possam validar ou pelo menos subsidiar esta minha proposta de aproximação.

Começo com um testemunho pessoal – meu aprendizado na televisão. Com quase meio século de vivência na mídia impressa de repente fui arrastado ou tentado a experimentar o veículo dos veículos, a usina da massificação, a TV. Nas primeiras lições ensinaram-me dois procedimentos que, agora, revelam-se como paradigmáticos e extremamente úteis para avaliar o sistema mediático:

Só se usa o tratamento você, jamais o plural, vocês.
Deve-se olhar diretamente para as lentes das câmeras para que o telespectador imagine que o apresentador está mirando-o e, portanto, sinta-se singularizado e individuado.
Evidencia-se que estes são truques e artifícios na esfera do espetáculo. Mas evidencia-se que destes truques e artifícios filtra-se um conceito: o sistema não busca a individuação, ao contrário, finge que existem identidades para atingir o seu objetivo em direção contrária – a homogeneização e o nivelamento. O indivíduo serve apenas para compor um dígito nos índices de audiência. Suas vontades ou opiniões só contam quando consegue expressá-las no próprio circuito mediático, sem desafinar da entonação coletiva, imperiosamente aquém da sua.

Digamos que esta seja uma ambigüidade menor, oriunda da praxis. Mas o sistema mediático tem embutidos conflitos cruciais e de grande intensidade. O mais importante é a questão da autoridade.

Desde o século 17, mas sobretudo a partir do 18, a mídia ou a imprensa com então estava circunscrita era vista como um poder informal com garantias constitucionais. Era considerada Quarto, Quinto ou Sexto Poder, não importava a sua colocação no pódio institucional: importava o fato de que possuía a insígnia de poder, um totem de autoridade. A intenção dos pensadores políticos e legisladores era a de que a mídia funcionasse como contrapoder. O sistema de checks and balances, pressupõe uma engrenagem sem-fim onde o contrapoder (sendo ele próprio um poder) requer uma neutralização, ou seja, outro contrapoder que precisa de outro e assim por diante.

Pergunta-se: qual o contrapoder ao poder da mídia? Pode o leitor ousar contrapor-se, rebelar-se e contestar aqueles a quem paga para oferecer-lhe as verdades diárias? Em que e em quem irá acreditar depois do "banquete totêmico", quando a mídia é contestada e sua credibilidade pisoteada (ou assassinada)? Quem deverá empunhar então o bastão e totem de dono da verdade?

A conclusão é que no regime democrático representativo o sistema mediático assumiu-se como poder mediático que detesta a contestação. E como decorrência, o mediador tornou-se arrogante, com todas as implicações que o adjetivo comporta, sob o ponto de vista moral e clínico. Nesta justaposição de onipotências o que acontece com o mediado, o cidadão, leitor, ouvinte, telespectador? Fica literalmente esmagado e emasculado pela contradição das mensagens. A mídia, zeladora do seu bem-estar, converte-se em fonte do seu mal-estar. O leitor foi educado pela mídia para acreditar nas regras da convivência, no respeito humano, na civilidade. Foi motivado para acreditar que a busca do bem-comum deve prevalecer acima dos interesses individuais ou corporativos. No entanto, a própria mídia torna-se mensageira da incivilidade, do desrespeito humano e da ruptura. Quando não da violência e da degradação.

O conforto da democracia acaba convertido num desconforto, a busca da verdade confundida com prepotência gerando o inevitável descontentamento, desnorteamento e, sobretudo, mal-estar. No cruzamento que Freud fez entre Totem e Tabu e sua obra conclusiva Moisés e o Monoteismo há uma sentença indelével. Disse ele: "Os processos que descobrimos na vida de um povo são similares aos que chegamos a conhecer na psicopatologia".

Salta à vista que o produto principal da Era da Informação é a Desinformação. Os mediadores hoje resignam-se ao caos informativo ao invés de contestá-lo e corrigi-lo. O que acontece hoje é que os mediadores precisam desta fragmentação para justificar-se permanentemente. Quando um jornal depois de noticiar durante alguns dias os desdobramentos de um caso coloca uma tabuleta "saiba o que aconteceu", está confessando abertamente que nos dias anteriores não conseguiu fazer saber o que aconteceu. Muito menos consolidar uma narrativa coesa e compreensível. O jornal de hoje só pode ser entendido amanhã quando forem publicados os desmentidos ou correções.

A massa de informações desordenadas e descontextualizadas despejada diariamente cria uma sensação que nada tem a ver com o Conhecimento. É indigestão, fastio. Confirma-se exatamente aquilo que disse Peter Gay – as instituições que funcionam para proteger a sobrevivência da humanidade também geram o seu mal-estar.

Este é o banquete totêmico do sistema mediático.

Imagino que muitos a esta altura gostariam de fazer uma provocação à minha provocação: Freud em seu tempo seria um crítico da imprensa?

O desafio é legítimo e necessário. Nada indica que Freud tenha sido o que hoje se chama de media critic. Ao contrário. Como todo vienense culto, Freud foi um leitor habitual do Neue Freie Presse. E este jornal representou ao longo de algumas décadas o liberalismo político ao qual Freud aderia integralmente quando deixava o plano das subversões filosóficas para aterrisar nas realidades cotidianas. A grande imprensa vienense e também a alemã, por estarem comprometidas com o liberalismo, foram o alvo preferido do proto-fascista Georg Schönerer e Freud não poderia aceitar qualquer uma das proposições deste precursor de Hitler. Mesmo porque as bandeiras de Schönerer estavam embebidas em concepções antidemocráticas e antisemitas que feriam tanto o seu senso moral como a sua própria identidade.

Mas se Freud não pode ser enquadrado como um crítico da mídia, pode-se dizer que Karl Kraus, o grande satirista e crítico foi, sim, um encarniçado cruzado contra a mídia burguesa e os seus valores. Kraus é hoje considerado um dos patriarcas da crítica da mídia. E Freud, apesar de alvejado pela irreverência e pelo veneno do seu contemporâneo, era leitor de Karl Kraus, como aliás toda Viena intelectualizada. Portanto, pode-se inferir que Freud não desconheceu os arrasadores ataques que Kraus desferia contra os comportamentos, costumes, cultura, repressões e os veículos que os comunicavam. Mas àquele tempo não existia um sistema mediático, a comunicação de massa, o complexo entrelaçado de diferentes meios que converteu-se em representação da sociedade moderna.

A imprensa, especialmente a imprensa culta, não incomodava Freud simplesmente porque ainda não ganhara escala e não adquirira o poder que posteriormente a deformaria.

Quando Freud remeteu um exemplar da Interpretação dos Sonhos ao jornalista Theodor Herzl do Neue Freie Presse, confiava que no jornal fosse publicado algum comentário que ajudasse a difundir uma obra que, dois anos depois de publicada, tinha vendido pouco mais de 100 exemplares.

Freud tentava tirar partido do lado positivo da imprensa, do seu poder educativo. Três décadas depois, com o estrondoso sucesso do livro de Stefan Zweig, A Cura pelo Espírito, que incluía o seu perfil biográfico e se constituíra na sua primeira grande exposição pública, Freud muda a sua ótica e entonação. Reclamou das simplificações, reclamou da companhia em que Zweig o metera (Mesmer e Mary Baker-Eddy) e reclamou sobretudo do título que para ele era enganador.

Não consegui encontrar manifestações específicas na obra ou correspondência freudiana sobre imprensa, jornalismo ou algo que se relacione com o que hoje chamamos mídia.

Mas o livro de Stefan Zweig sobre Freud motivou uma candente manifestação sobre um gênero literário, na verdade sobre um gênero que está a meio caminho entre jornalismo e a literatura. Refiro-me à biografia. E a biografia hoje incorpora e simboliza os diversos vícios da mídia.

Ao tempo de Freud a biografia ainda estava embebida nas fontes clássicas e ainda não chegara ao paroxismo bisbilhoteiro do biografismo contemporâneo, herdeiro de um dos vetores do sistema mediático – a invasão da privacidade e o sensacionalismo.

Escaldado pela experiência do livro de Stefan Zweig, em 1936, quando outro Zweig – este Arnold, seu amigo, ex-paciente e correspondente – consultou-o sobre a possibilidade de autorizar uma investigação com o fim de escrever uma biografia. Freud recusa de forma categórica, quase brutal. Disse o seguinte:

– Aquele que empreende uma biografia está comprometido com mentiras, dissimulação, hipocrisia, disfarces, bajulação... A verdade biográfica não existe... [Carta de Freud a Arnold Zweig, citada por Jones, Ernest III_.].

E o próprio Freud veio a confirmá-lo quando escreveu o "retrato psicológico" do ex-presidente Woodrow Wilson. Entre as dezenas de relatos que Freud deixou de seus analisandos, nenhum deles mereceu tamanha e confessada aversão. Woodrow Wilson visto hoje à luz da história tem uma dimensão diferente daquela que Freud, como biógrafo, nos legou.

Pergunto: as desfigurações que o biografado sofre nas mãos do biógrafo tem a ver com a biografia enquanto gênero? Ou resultam dos preconceitos do biógrafo enquanto membro de uma tribo vocacionada para fabricar totens, tabus, superstições e ilusões?

O retrato do presidente Wilson é uma das obras de Freud menos discutidas. E talvez por isso serve para as minhas provocações finais.

Se, como queria Freud, não existe uma verdade biográfica, existirá a verdade jornalística? Os vícios estruturais da biografia não reproduzem as falências do sistema que alimenta o biografismo e multiplica os pré-julgamentos e preconceitos?

Respostas na próxima edição.


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Revista Comciência – Especial 100 anos de Psicanálise

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A campanha eleitoral assumiu um tom fascistóide, diz Maria Rita Kehl

Celso Marcondes

CARTA CAPITAL
Em entrevista a CartaCapital, a psicanalista responsabiliza Serra pelo nível do debate eleitoral, fala de aborto e corrupção.

O fim da coluna da psicanalista Maria Rita Kehl no O Estado de S.Paulo foi um dos assuntos da semana, em particular na internet. Seu artigo “Dois Pesos” foi pesado demais para os donos do diário paulista. Neste espaço, publicamos vários artigos a respeito. A repercussão enorme gerou até um abaixo-assinado que corre pela rede em sua defesa. Passado o impacto, Rita Kehl conversou com CartaCapital a respeito das eleições presidenciais, que ela acompanha de perto, com o olhar da profissional conceituada em sua área e também com a visão de cidadã e jornalista, carreira que seguiu nos tempos da ditadura. Ela se diz escandalizada com os temas que tomaram conta do debate eleitoral e responsabilizou a campanha do PSDB por isso.

CartaCapital: Teu artigo no Estadão discutia a disseminação de um grave preconceito através da rede. Essa parece ter sido uma característica do uso do veículo nestas eleições, em particular entre a chamada classe média.Você acredita que a internet, pelas suas especificidades, ajuda a este tipo de comportamento?
Maria Rita Kehl: Ajuda de fato. A internet, pela facilidade de acesso, pelas características que só ela tem, apresenta este potencial terrível de ser lugar da fofoca, de blábláblá. Mesmo quando não é um uso irresponsável, como são os casos destes tuites para dizer ”olha, eu estou aqui”, “eu existo”, “olha a foto do meu filho”, “do aniversário do fulano”. Mas tem também um potencial incrível, como a possibilidade de convocar uma passeata da manhã para a tarde, como aconteceu antes da guerra do Iraque, em vários países do mundo, e reunir milhões de pessoas. Então, eu não condenaria a internet, ela tem grande potencial, é um veiculo que dá justamente a possibilidade de você se incluir, de você escrever, pelo menos para quem é da classe média ou que tem acesso a uma lan house. Ela serve a essas duas coisas. Talvez com o tempo os leitores comecem a criar sua própria capacidade de discriminar.

CC: O preconceito que você identifica no teu artigo, este incomodo com a ascensão dos mais pobres, e por consequência com um governo mais identificado com eles, não é uma marca das nossas elites que aparece muito na rede?
MRK: Veja, a internet divulgou essas correntes preconceituosas, apócrifas, que sempre começavam assim: “uma prima minha”, “um parente meu”, “um amigo da minha empregada”, sempre assim. Mas por outro lado, o que tem de legal, é que, por exemplo, este meu artigo foi mais lido que qualquer outra coisa que eu jamais tenha escrito. Se ele tivesse ficado apenas no Estadão, ele teria sido lido, mas jamais deste jeito. Isso é uma coisa muito legal.

CC: Falemos de ética: você acha que o caso Erenice atingiu eleitoralmente esta classe média?
MRK: Eu acho que sim. Eu li um artigo dizendo que o caso Erenice foi mais decisivo para exigir o segundo turno que essa “fofocaiada” toda sobre o aborto. E, infelizmente, está certo. O governo para o qual eu voto e continuo votando tem uma leniência com a questão da corrupção, que deixa até difícil um petista defender, tenho que dizer isso. Lula naturalizou a corrupção, como sendo parte do jogo político. E aí, está bom, quando fica mais escandaloso, demite. Mas “deixa acontecer”, entendeu? Renan Calheiros, Sarney, são vergonhas que a gente tem que engolir, fica parecendo que é culpa da oposição agitar isso. Claro que ela vai agitar. Nós agitaríamos isso se aparecesse uma coisa tão escandalosa na outra campanha. A diferença aí – que é a favor da atitude do governo Lula, mas que ao mesmo tempo não o torna vítima – é que o governo Lula não consegue blindar a imprensa como o governo do PSDB consegue, porque tem a imprensa na mão. Então, quando surge alguma coisa, surge como fofoca que desaparece no dia seguinte. Como a coisa do Paulo Preto, que o Serra não respondeu no debate e ficou por isso mesmo. A gente sabe que é um governo que blinda. O Alckmin, como a candidatura dele estava bem, teve a campanha toda em céu de brigadeiro, do começo ao fim, não tinha ninguém que pudesse pegar alguma coisa e contestar. E se pegasse, não ia sair na imprensa. De fato, a grande imprensa se encarrega de censurar quaisquer denúncias sobre os governos que ela apoia. Mas mesmo que a imprensa seja parcial ao denunciar um caso como o da Erenice, o caso em si está errado, não poderia aparecer.

CC: O governo não poderia ficar surpreso com a “escandalização” feita pela grande imprensa, certo?
MRK: Claro! Ele sabe qual é o jogo e não era para ter corrupção deste jeito. Uma coisa ou outra você não controla, uma coisa pequena, mas para mim é difícil responder quando as pessoas dizem: “mas, como? Estava no nariz dela! Era uma coisa que estava a família inteira metendo a mão”. Coloca os petistas numa situação difícil.

CC: Esta eleição está sendo marcada também pela discussão de temas no campo da moral: aborto, religião. O que te parece isso?
MRK: Eu acho que isso mostra o atraso da sociedade brasileira. Porque, claro, nenhum candidato vai ser eleito se estiver em descompasso com a maioria da sociedade. O Plínio foi um exemplo ótimo, de um cara que falava tudo o que tinha na cabeça, tudo o que ele pensa de verdade, de uma forma consistente, porque ele não tinha compromisso de se eleger. O que me espanta é o atraso da sociedade brasileira. E a ignorância aí é apoiada pelo Serra de misturar questões religiosas com questões políticas. Como é que as igrejas começam a pautar a lei agora? Uma coisa é eles decidirem o que é pecado e o que não é, outra coisa é eles decidirem o que é ilegal e o que não é.

CC: E isso acabou virando pauta de campanha presidencial, não é?
MRK: Vira pauta e vira motivo de constrangimento. A campanha do PSDB tem responsabilidades sim, de acirrar esta intolerância religiosa neste momento da campanha. A Dilma respondeu duas vezes no debate da Band que neste País não tem intolerância religiosa. Fica esta irresponsabilidade feia do PSDB estar acirrando isso, mas ao mesmo tempo a sociedade mostra neste ponto como é atrasada. Aparecem comentários de que a Dilma é a favor do aborto como se ela tivesse o poder de decidir, se ela apoia o aborto, vai ter aborto. Como se isso não tivesse que passar pelo Congresso. Além de tudo joga muito com a ignorância do povo.

CC: E os candidatos chegam a “endireitar”, fazer campanha nas igrejas e citarem Deus à exaustão. Não acha que isso tem um papel deseducador, em particular para crianças e adolescentes?
MRK: Isso é o pior. Por um lado, eu acho que o problema da corrupção não é da responsabilidade do PSDB, eles vão extrair o máximo de vantagens que puderem arrancar deste caso da Casa Civil. Por outro lado, é responsabilidade sim, do PSDB e da campanha Serra o tom fascistóide que estas coisas estão adquirindo. É horrível que os candidatos tenham que aparecer ajoelhados comungando, dizendo que são a favor da vida…claro que são a favor da vida, quem é que não é?Agora, é a Igreja que não é a favor da vida. Aí é uma opinião minha. A ONG Católicas pelo Direito de Decidir me convidou para debater e elas pensam assim: a criminalização do aborto é uma questão contra a liberdade sexual da mulher, ponto.Não pode usar camisinha, porque a Igreja também é contra. Então é uma questão de dizer: sexo só dentro do casamento e só para ter filho. É isso, que não está escrito assim, mas é o que está dito. Se não pode usar preservativo, não pode evitar filho, não pode nem evitar infecções, epidemias como o HIV que mata milhões na África, que “a favor da vida” é esse?

CC: O Dafolha divulgou uma pesquisa que diz que a posição contra o aborto na sociedade aumentou depois destas semanas de discussão na campanha, veja o efeito nocivo.
MRK: Claro, porque o que circula é uma desinformação, “coitadinha da criancinha”, “eu poderia ter sido abortado” e “porque eu não fui abortado eu estou aqui”, não é neste grau. E a Marina tem responsabilidade nisso. Mesmo que a Dilma ganhe, a sociedade retrocedeu muito e isso é responsabilidade da campanha. É terrível

domingo, 12 de setembro de 2010

Tabu da virgindade feminina veio com a agricultura, diz cientista

Possibilidade de juntar patrimônio fez com que pais quisessem gerir vida sexual das filhas

Casamentos viraram, há 10 mil anos, moeda de troca entre famílias; urbanização recente teve efeito contrário

RICARDO MIOTO
SÃO PAULO

Foi há 10 mil anos que o hímen se tornou importante.
Essa é a conclusão de Peter Stearns, grande especialista em história sexual da Universidade George Mason (EUA).
Seu livro "História da Sexualidade", recém-lançado no Brasil pela editora Contexto, compara a vida típica de tribos nômades que vivem de caça e coleta com a das primeiras sociedades humanas pós-agricultura.
É inevitável, diz, perguntar: por que, de repente, a sexualidade feminina passou a ser vigiada e elas muitas vezes perderam até a chance de escolher seus parceiros?
Era diferente entre quem não plantava. "Grupos caçadores-coletores tinham fascínio pela sexualidade. A bissexualidade era comum."
Houve a mudança porque, com a possibilidade de acumular patrimônio (caçadores não juntam excedente nem terras), filhas viraram moeda de troca entre famílias. Surgiu a herança e o dote.
Com a residência fixa e as famílias agrupadas, ficou fácil, especialmente para pais, supervisionar os outros.
Era importante zelar para que as filhas não engravidassem de gente indesejada -e para que os filhos também não engravidassem qualquer uma, mas sem testes de DNA esse problema era menor.

AMOR SÉRIO
Ainda que restritivas, civilizações antigas tratavam de sexo com naturalidade. Um mito egípcio dizia que o deus Atum se masturbava na água e acabou ejaculando o Nilo.
Isso prosseguiu com as sociedades clássicas. A Grécia foi muito tolerante com homossexuais. Rapazes eram "tutorados" por homens mais velhos na sexualidade.
"Platão disse ser mais provável que o amor sério surgisse entre homens, pois podia envolver uma mistura de sexo e interessante conversação intelectual", diz Stearns.
Isso mostra que mulheres ainda eram reprimidas -ainda que os romanos valorizassem seu prazer, por exemplo.
Com a ascensão do cristianismo, porém, a maneira de lidar com o sexo endureceu. Na Idade Média, as cidades diminuem -e, em geral, quanto mais urbano um povo, mais liberal sexualmente.
Se religiões clássicas contavam aventuras sexuais dos deuses, Jesus nasceu de uma virgem. O sexo se aproxima do pecado. A homossexualidade cai na clandestinidade.

CIDADES PROMÍSCUAS
Com a Idade Média acabando, aos poucos as cidades voltaram a crescer. A industrialização, a partir do século 18, acelerou o processo.
Com o trabalho urbano, herdar terras deixa de ser vital. "Se o pai não podia assegurar herança, havia menos motivos para que os filhos aceitassem plenamente sua autoridade", diz Stearns. O anonimato das cidade grandes também oferece menor controle sobre a vida alheia.
Países da Europa, EUA e Brasil só viraram majoritariamente urbanos no século 20. O sexo acompanhou e dominou a cultura, seja em Hollywood ou nas revistas, e a virgindade perdeu espaço.
A homossexualidade passou a ser vista com mais naturalidade, e países como a Espanha legalizaram o casamento gay recentemente.
Com métodos anticoncepcionais eficientes, o sexo pelo prazer disparou. As mulheres no mercado de trabalho se tornam menos dependentes das ordens paternas.
É um processo que ainda está acontecendo. Ainda hoje, por exemplo, metade do mundo vive em áreas rurais.
"Não sabemos se o mundo todo vai se industrializar. É difícil dizer que o padrão moderno de sexualidade triunfará, apesar de ser tentador dizer que no futuro teremos ainda mais aceitação do sexo pelo prazer", diz Stearns.

Regiões islâmicas eram bem mais tolerantes do que Ocidente
DE SÃO PAULO

É papel do homem fazer a mulher chegar primeiro ao orgasmo. Elas, porém, devem raspar pelos pubianos, para que fiquem atraentes. Homossexuais são aceitos.
Trata-se de uma descrição de uma sociedade bastante liberal, e pode surpreender saber que estamos falando das regiões islâmicas nos séculos após a difusão da religião, por volta do ano 600.
"O Oriente Médio era uma sociedade mais urbanizada e, em muitos sentidos, mais sofisticada que a Europa", diz Stearns. Era, também, mais liberal com o sexo -vide "As mil e uma noites", com histórias eróticas.
Apesar da virgindade feminina ser fortemente valorizada, um livro islâmico de 984 já reclamava que "hoje, quando um homem ama uma mulher, não tem outra coisa em mente a não ser erguer as pernas dela".
Para Stearns, isso pode ter sido revertido a partir do século 19, em parte, como reação à liberalização ocidental.
Mesmo falando mais de sexo, mulheres sempre foram bastante reprimidas no Islã. O adultério é um dos principais crimes- mas eles podem se casar com várias.
"A mudança nas condições da mulher no ocidente provocou mais ênfase, entre os islâmicos, no lado restritivo e punitivo", disse Stearns à Folha. "Pegas de surpresa nessa transição, muitas regiões adotaram uma postura de desconfiança." Ganharam força, então, a burca, o Talibã e apedrejamentos.
(RM)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Queriam aprender para não decepcionar, diz Surfistinha

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Quando era GP, Raquel Pacheco, 25, a Bruna Surfistinha, trabalhou num privê dos Jardins que recebia turmas de estudantes das redondezas. "Parecia uma excursão gigantesca. Alguns foram alunos brilhantes", escreveu ela no livro "O Doce Veneno do Escorpião" (Panda Books), que virou filme com Deborah Secco.
Ela conversou com o Folhateen sobre a iniciação sexual dos garotos.(DY)




Folha - Quantos estudantes você desvirginou?
Bruna Surfistinha - Muitos. Muitas dezenas. Menino é diferente de menina, que quer emoção na primeira vez. Para eles, se um amigo perde a virgindade, todos querem perder também.

Quais as maiores preocupações deles nessa hora?
Eles chegavam muito ansiosos. A primeira vez é importante para eles também. Ficavam perdidos quando viam uma mulher nua, não sabiam por onde começar. Muitos nem percebiam que já tinham gozado. A maioria não sabia colocar a camisinha. E todos perguntavam sobre o tamanho do pênis: se era pequeno, se era grande.

O que queriam aprender?
Tudo. E queriam aprender como dar prazer às mulheres.

Algum deles a surpreendeu?
Um pai levou o filho ao privê. Queria saber se o menino era gay. Fomos para o quarto, mas ficamos só conversando. Ele me contou que gostava de uma menina e que queria perder a virgindade com ela, mas que o pai pressionava. Ele pediu para eu mentir para o pai dele que tinha rolado. E eu menti

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Metamorfoses espirituais

Certa vez o sábio taoísta Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao acordar, entretanto, ele não sabia mais se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem

Será que a vida real é esta mesma ou somos nós que sonhamos?
A ciência ainda não sabe como entrar no sonho de outra pessoa
SUZANA HERCULANO-HOUZEL
COLUNISTA DA FOLHA

No filme de Christopher Nolan, sonha-se imediatamente ao adormecer conectado a uma máquina.
O tempo sonhado é estendido em relação ao tempo real; há sonhos, sonhos dentro de sonhos e outros dentro desses, todos podendo ser compartilhados por cossonhadores, ligados à mesma máquina, e dos quais se acorda com uma "senha" musical e sensação de queda.
São recursos narrativos que fazem o roteiro funcionar, mas que pouco têm a ver com a realidade.
Desde 1953, quando foi descoberta a fase do sono chamada de REM (sigla em inglês para movimento rápido dos olhos), sabe-se que sonhos ricos em imagens são concentrados aí e não ocorrem logo ao adormecer.
Durante a noite, sonha-se várias vezes, em fases REM cada vez mais longas, que chegam a durar uma hora antes do despertar. O tempo passado em sono REM, contudo, é proporcional à extensão dos sonhos lembrados: ao contrário do tempo estendido no filme, uma história vivida, lembrada ou sonhada tem a mesma duração.
E não deveria ser diferente, já que hoje entendemos os sonhos como reativações de memórias iniciadas durante o dia, um palco de experimentação com o seu banco de dados pessoal.

IMPENETRÁVEIS
Estudos mostram que, durante os sonhos, as regiões de córtex associativo no cérebro, que participam das percepções sensoriais internas, são fortemente ativadas, juntamente a outras estruturas que dão o tom emocional às nossas vivências, de maneira semelhante a quando se imagina ou se lembra de experiências anteriores.
Ao contrário, as regiões sensoriais primárias, que recebem informação diretamente dos sentidos, ficam pouco ativas: durante os sonhos, o cérebro dá prioridade a processar informações internas, de maneira quase independente dos sentidos.
Por isso, e ao contrário do que ocorre no filme de Nolan, não é comum que os estímulos externos que acontecem durante o sono sejam incorporados aos sonhos.
É possível, claro, sonhar que se estava sonhando. Mas isso ocorre ao longo de um mesmo sonho: até onde se sabe, não há níveis diferentes de sono REM.
Existem drogas que facilitam ou dificultam a ocorrência de sono REM, mas não que o induzem diretamente.
E, mesmo que exames mostrem as partes do cérebro ativadas durante o sono, não é possível (ainda) saber com o que alguém sonhava.
Sonhos são pessoais, privados e praticamente impenetráveis; a única maneira de interferir no seu conteúdo é através das experiências vividas no estado acordado.



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SUZANA HERCULANO-HOUZEL , neuro-cientista, é autora de "Pílulas de Neuro-ciência para uma Vida Melhor" (Sextante)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Rosseau prefigura Freud

IMAGINAÇÃO
PROSA, POESIA E TRADUÇÃO

O episódio das palmadas
SOBRE O TEXTO No Livro Primeiro das "Confissões", que escreveu entre 1765 e 1770, Rousseau narra sua descoberta do erotismo ao ser punido com palmadas aos oito anos por uma mulher de 30. Comentadores viram no trecho um prenúncio das teorias de Freud, do masoquismo -ou, como quis Jean Cocteau, do romantismo.

JEAN-JACQUES ROUSSEAU
tradução PAULO WERNECK

COMO MADEMOISELLE Lambercier tinha por nós a afeição de uma mãe, tinha também a autoridade, e às vezes a levava ao ponto de, quando merecíamos, nos infligir a punição de filhos. Por um bom tempo ela ficou só na ameaça, e a mim essa ameaça de um castigo totalmente novo me parecia apavorante; mas, depois da execução, achei-o menos terrível do que a própria espera: e o que há de mais estranho é que aquele castigo me fez criar ainda mais afeição por aquela que me o impôs.
Era preciso mobilizar toda a verdade dessa afeição e toda a minha docilidade natural para impedir-me de procurar de volta o mesmo tratamento fazendo por merecê-lo; pois eu encontrei na dor, na própria vergonha, uma mistura de sensualidade que me deixou pleno mais de desejo do que de temor de experimentá- lo de novo, pela mesma mão.
É verdade que àquilo se misturava, sem dúvida, algum instinto precoce do sexo, e por isso o mesmo castigo dado pelo irmão não pareceria de modo algum prazeroso. Mas, com o humor que ele tinha, praticamente não era o caso de temer essa substituição: e se eu me abstinha de merecer a correção, era unicamente pelo medo de irritar Mademoiselle Lambercier; pois em mim a benevolência, até mesmo aquela que os sentidos dão à luz, impera de tal maneira, que sempre deu a lei em meu coração.
A reincidência, que eu afastava sem temer, chegou sem que houvesse falta de minha parte, quer dizer, sem que fosse por minha própria vontade, e eu a aproveitei, posso dizer, com a consciência tranquila.
Mas a segunda vez também foi a última; pois Mademoiselle Lambercier, tendo percebido por algum sinal que aquele castigo não atingia seu objetivo, declarou que renunciaria a ele, que o deixava muito cansada. Até então, dormíamos no quarto dela e, durante o inverno, até mesmo em sua cama. Dois dias depois, fizeram-nos dormir em quartos separados, e a partir de então eu tive a honra, que dispensaria de bom grado, de ser tratado por ela como um rapaz.
Quem poderia crer que aquele castigo infantil, recebido aos oito anos, das mãos de uma mulher de 30, decidiria meus gostos, meus desejos, minhas paixões, a mim mesmo pelo resto de minha vida, e precisamente no sentido oposto ao que deveria acontecer naturalmente? Ao mesmo tempo que meus sentidos foram acendidos, meu desejos mudaram de tal maneira que, limitados ao que eu havia experimentado, não trataram mais de procurar outra coisa.
Com o sangue fervendo de sensualidade quase desde o meu nascimento, conservei-me puro de toda sujeira até a idade em que os temperamentos mais frios e mais tardios se desenvolvem. Atormentado por muito tempo sem saber por quê, devorava com olho ardente as pessoas bonitas; minha imaginação as trazia à lembrança sem cessar, unicamente para dispô-las do meu jeito, e fazer de todas elas Mesdemoiselles Lambercier.
Até mesmo depois da idade núbil esse gosto bizarro, sempre persistente e levado até a depravação, até a loucura, conservou-me os costumes honestos que ele supostamente me tiraria. Se alguma educação foi modesta e casta, essa foi justamente a que eu recebi.
Minhas três tias não eram apenas pessoas de uma sabedoria exemplar, mas de um recato que há muito tempo as mulheres já não conhecem. Meu pai, homem de prazeres, mas galante à moda antiga, nunca proferiu, perto das mulheres que ele mais amava, palavras que pudessem ruborizar uma virgem; e nunca levou-se tão longe quanto em minha família e diante de mim o respeito que devemos às crianças. Não encontrei menos atenção na casa de Monsieur Lambercier nesse quesito; e uma ótima servente foi posta na rua por uma palavra um pouco mais saliente que pronunciou diante de nós.
Não apenas eu não tive, até a minha adolescência, uma ideia clara da união dos sexos, mas essa ideia confusa sempre se ofereceu a mim na forma de uma imagem odiosa e asquerosa. Eu tinha pelas mulheres públicas um horror que nunca se apagou: não podia ver um depravado sem desdém, sem terror, até; pois ia até aí a minha aversão pela depravação, desde que um dia, indo ao pequeno Sacconex por uma vala, avistei, dos dois lados, cavidades na terra, onde, disseram-me, aquela gente fazia seus acasalamentos. Todos os acasalamentos de cadelas que vi vinham-me à mente pensando aos demais, e o coração me levava a essa única lembrança.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O GATO DORMIA EMBAIXO DA MESA E A CONVERSA ERA PRA BOI DORMIR

Depois dessa vou tirar minha soneca na minha caminha...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Briga entre pais expõe crianças a síndrome

Briga entre pais expõe crianças a síndrome
DO RIO

Termo cada vez mais comum nas varas de família, a chamada síndrome de alienação parental ocorre quando uma criança é influenciada a romper os laços com um dos genitores.
Normalmente, o pai ou a mãe que detém a guarda do filho começa uma campanha para desmoralizar o ex-parceiro e usa a criança para conseguir isso.
Ano passado, o termo ganhou destaque com o caso de Sean Goldman, 10, filho da brasileira Bruna Bianchi e do americano David Goldman.
O menino foi trazido ao Brasil pela mãe, que acabou morrendo. A guarda então foi disputada entre o pai e o padrasto. Durante o processo, laudo de psicólogos indicou que Sean sofria de alienação parental

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sonhar demais atrapalha aprendizado

Estudo feito com voluntários que jogavam game e com vestibulandos mostra novo elo entre sonhos e memória

Problema é estresse ou relação emocional forte com determinado tema, aponta pesquisa feita no Rio Grande do Norte

RICARDO MIOTO
ENVIADO A NATAL

Colocando voluntários para jogar Doom, game que ganhou fama nos anos 1990, a equipe do neurocientista Sidarta Ribeiro descobriu que, para aprender alguma coisa, não bastar dormir bem: é preciso sonhar. Mas não demais.
Matar monstros (missão do jogador do game) pela ciência não é só diversão: os voluntários têm sua atividade cerebral monitorada quando vão dormir. Os cientistas acordam os jogadores que sonham e fazem com que descrevam os seus sonhos.
Cruzando essas respostas com a evolução no desempenho dos voluntários no jogo, descobriram que, para aprender a jogar, sonhar realmente é importante. Os voluntários que não sonhavam com o jogo tinham mais dificuldade para, no dia seguinte, matar monstros e passar por fases.
Quando alguém sonha, é como se o cérebro estivesse salvando as informações importantes do dia em um arquivo permanente.
"O Doom envolve a memória que você tem consciência de ter, como saber onde fica uma passagem secreta ou onde você pega uma arma, e também outro tipo de memória, como a melhora na pontaria conforme você joga", diz Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e do Instituto Internacional de Neurociência de Natal.
A equipe imaginava que os voluntários que se envolviam muito com o jogo, sonhando muito com ele, virariam campeões. Não foi o que aconteceu. A partir de certo ponto, quanto mais você sonha, menos você aprende.
Acharam uma possível explicação: sonhos demais talvez levem a estresse, algo que atrapalha o desempenho. A pessoa não está aprendendo com eles -os sonhos são, aí, só uma demonstração do impacto causado pelo tema no sujeito.

MALDITOS MONSTROS
"O Doom mobiliza o sujeito emocionalmente. Ele fica com medo dos bichos, com muita raiva deles", diz Ribeiro. São conhecidos casos extremos de pacientes que sonham exageradamente com um mesmo tema -como alguns veteranos de guerra-, e eles provavelmente não estão tendo nenhum aprendizado com isso.
Os cientistas queriam, entretanto, trocar o Doom por um desafio mais real. Investigaram mais de 60 vestibulandos da UFRN, que relatavam se tinham sonhado com a prova no dia anterior a ela.
Era maior a chance de ser aprovado se a pessoa tinha sonhado apenas medianamente com a prova (nem muito, nem pouco) e se o sonho não envolvia grandes emoções e estresses -como conteúdos de geometria ou encontrar amigos fazendo a prova, por exemplo.
Quem não tinha sonhado ou quem tinha sonhado com coisas negativas -"pesadelos como encontrar o portão fechado, esquecer a caneta ou se ver nu na prova", nas palavras de Ribeiro- teve notas piores no teste. Ao que parece, portanto, embora não seja possível controlar os sonhos, um ambiente desperto menos estressante favorece os sonhos "do bem".

ESPELHO

Sono de beleza


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Tire proveito das oito horas de sono para acordar melhor - e conheça truques para se livrar da cara de travesseiro
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DANAE STEPHAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Dormir bem é fundamental. É durante o sono que o organismo se renova e produz hormônios que controlam o metabolismo energético e a regeneração celular.
A microcirculação superficial da pele aumenta nesse período, para eliminar os radicais livres acumulados durante o dia, e ela fica mais suscetível aos efeitos de hidratantes, antirrugas e cosméticos capilares.
Também é nesse momento que o corpo produz hormônios importantes para a beleza a longo prazo: o GH, ou hormônio de crescimento, que, entre outras funções, ajuda a manter o tônus muscular; e o cortisol, produzido de manhã para dar energia.
Mais do que a quantidade de horas, é a qualidade do sono que importa, especialmente da fase REM-o sono profundo.
Quando não entra nessa fase, oorganismo produz neurotransmissores e proteínas de forma anormal, desregulando muito os hormônios.
"A pele perde o viço e a elasticidade, e o corpo tende a armazenar gordura abdominal", diz a neuroendocrinologista Ana Cláudia R. Pinto. "É um prato cheio para o envelhecimento precoce".
"Até a oleosidade da pele aumenta", diz a dermatologista Ligia Kogos. "Essa relação ainda está em estudo, mas as glândulas sebáceas trabalham mais quando a gente dorme pouco".

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O CARREGADOR ENSIMESMADO CAIU NA LAGOA DOS AFOGADOS

João Gostoso era carregador
Manuel Bandeira

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e moreu afogado.