Previsivelmente, algumas de nossas melhores criações musicais libertárias giram em torno da figura exemplar de Tiradentes. Vale a pena lembrar aqui seis delas, mesmo porque a indústria cultural, também de forma previsível, as relega ao mais injusto esquecimento.
Dedicatória de "Arena Conta Tiradentes"
Augusto Boal/Gianfrancesco Guarnieri (*)
Dez vidas eu tivesse,
Dez vidas eu daria.
Dez vidas prisioneiras
Ansioso eu trocaria,
Pelo bem da lbierdade,
Nem que fosse por um dia.
Se assim fizessem todos,
Aqui não existiria
Tão negra sujeição
Que dá feição de vida
Ao que é mais feia morte;
Morrer de quem aceita
Viver em escravidão.
Dez vidas eu tivesse,
Dez vidas eu daria.
Mais vale erguer a espada
Desafiando a morte
Do que sofrer a sorte
De sua terra alugada.
De sua terra alugada,
Do que sofrer a sorte,
Mais vale erguer a espada
Desafiando a morte.
Dez vidas eu tivesse,
Dez vidas eu daria...
Tema de "Os Inconfidentes"
Cecília Meireles/Chico Buarque
Toda vez que um justo grita
Um carrasco o vem calar
Quem não presta fica vivo
Quem é bom, mandam matar
Quem não presta fica vivo
Quem é bom, mandam matar
Foi trabalhar para todos
E vede o que lhe acontece
Daqueles a quem servia
Já nenhum mais o conhece
Quando a desgraça é profunda
Que amigo se compadece?
Foi trabalhar para todos
Mas, por ele, quem trabalha?
Tombado fica seu corpo
Nessa esquisita batalha
Suas ações e seu nome
Por onde a glória os espalha?
Por aqui passava um homem
E como o povo se ria
Que reformava este mundo
De cima da montaria
Por aqui passava um homem
E como o povo se ria
Ele na frente falava
E atrás a sorte corria
Por aqui passava um homem
E como o povo se ria
Liberdade ainda que tarde
Nos prometia
Por aqui passava um homem
E como o povo se ria
No entanto à sua passagem
Tudo era como alegria
Cada vez que um justo grita
Um carrasco o vem calar
Quem não presta fica vivo
Quem é bom, mandam matar
Quem não presta fica vivo
Quem é bom, mandam matar
Tema para coro de "Arena Conta Tiradentes"
Augusto Boal/Gianfrancesco Guarnieri (*)
Eu sou brasileiro mas não tenho meu lugar
Pois lá sou estrangeiro, estrangeiro no meu lar.
A quem nasceu lá fora tudo seu a terra dá:
Essa pátria não é minha, é de quem não vive lá.
O pássaro na gaiola, já nascido em cativeiro,
Aprende a cantar e canta se permanece prisioneiro.
Mas se lhe abrem a portinhola, bem capaz é de morrer,
Com seu medo à liberdade, já não sabe nem viver.
Quem aceita a tirania
Bem merece a condição
Não basta viver somente,
É preciso dizer não!
Não basta viver somente,
É preciso dizer não!
Tiradentes
Chico de Assis/Ary Toledo
Foi no ano de 1789 em Minas Gerais que o fato se deu
E havia derrame do ouro que era um tesouro que os brasileiros tinham que pagar
Esse ouro ía longe distante,passava o mar, ía pra Portugal para o rei gastar
O mineiro que é bom brasileiro e que é altaneiro garrou a pensar:
se esse ouro é ouro da terra e da nossa terra, por que que ele vai?
Se juntaram numa reunião, resolveram fazer uma conspiração
Manuel da Costa, Antonio Gonzaga, Oliveira Rolin
e tem mais um nome que é o nome do homem que foi mais herói, este fica pro fim
e o nome do homem que foi mais herói, aprenda quem quiser: Joaquim José da Silva Xavier
e que foi chamado em todos os tempos, por todas as gentes de o Tiradentes
Se saber mais tu queres, te digo era alferes, era um militar
e havia entre os conjurados um homem danado, veja o que ele fez
e seu nome é triste sem glória, ficou na história, Silvério dos Reis
E esse feio traidor foi correndo falar com o governador,
contou tudo, fez uma tal cena que o visconde de Barbacena
soltou os milico na rua, mandou sentar pua, pegar e bater e matar e prender
Foram então pegados todos os conjurados, encarcerados numa prisão
E no fim de um tempo foram todos soltados, só o Tiradentes morreu enforcado,
chamando pra si a culpa por inteiro, a culpa de tudo,foi homem peitudo, foi bom brasileiro
Esta história bem verdadeira, foi a luta primeira que se deu no Brasil
E depois outras tantas outras houveram que por fim fizeram
um Brasil mais decente, um Brasil independente
Exaltação a Tiradentes
Penteado/Mano Décio da Viola
Joaquim José da Silva Xavier
Morreu a 21 de abril
Pela Independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais
Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado pela nossa liberdade
Este grande herói
Pra sempre há de ser lembrado
Espanto ("Arena Conta Tiradentes")
Boal/Guarnieri/Theo
Espanto que espanta a gente,
tanta gente a se espantar,
que o povo tem sete fôlegos
e mais sete tem pra dar.
Quanto mais cai, mais levanta;
mil vezes já foi ao chão.
De pé! Mil vezes já foi ao chão.
Povo levanta, na hora da decisão!
Espanto que espanta a gente,
tanta gente a se espantar,
não é de hoje que esse povo
vem dando demonstração:
Alfaiates na Bahia,
Balaios no Maranhão,
Cabanada no Pará
E Palmares no Sertão.
Não só contra os de fora
foi o povo justiceiro:
contra a fome e a miséria
levantou-se o garimpeiro.
Contra os fortes desta terra
levantou-se o Conselheiro;
De pé, contra toda tirania!
Sempre de pé está o povo brasileiro!
Espanto que espanta a gente,
tanta gente a se espantar,
que o povo tem sete fôlegos
e mais sete tem pra dar.
Quanto mais cai, mais levanta;
mil vezes já foi ao chão.
Mas, de pé lá está o povo
na hora da decisão!
* Os compositores Théo de Barros (diretor musical da peça), Caetano Veloso, Gilberto Gil e Sidney Miller colaboraram com Boal e Guarnieri na criação dos temas musicais de "Arena Conta Tiradentes", não tendo sido especificada a participação de cada um.
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
sábado, 2 de abril de 2011
ditadura 64 - ‘O Dia que durou 21 anos’ estreia na TV Brasil
Série de 3 episódios revela imagens e depoimentos históricos sobre o Golpe de 64
Publicado em 28/03/2011 - 16h33 • Atualizado em 31/03/2011 - 18h23
Robert Bentley, assistente de embaixador Lincoln Gordon, dá depoimento exclusivo
Os que viveram a ditadura militar brasileira, os que passaram por ela em brancas nuvens e os que nasceram depois que ela acabou. Todos podem conhecer melhor e refletir sobre esse período, a partir da nova série “O Dia que durou 21 anos”, que a TV Brasil exibe nos dias 4, 5 e 6 de abril, às 22 h.
Em clima de suspense e ação, o documentário apresenta, em três episódios de 26 minutos cada, os bastidores da participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil. Pela primeira vez na televisão, documentos do arquivo norte-americano, classificados durante 46 anos como Top Secret, serão expostos ao público. Textos de telegramas, áudio de conversas telefônicas, depoimentos contundentes e imagens inéditas fazem parte dessa série iconográfica, narrada pelo jornalista Flávio Tavares.
O mundo vivia a Guerra Fria quando os Estados Unidos começaram a arquitetar o golpe para derrubar o governo de João Goulart. As primeiras ações surgem em 1962, pelo então presidente John Kennedy. Os fatos vão se descortinando, através de relatos de políticos, militares, historiadores, diplomatas e estudiosos dos dois países. Depois do assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, o texano Lyndon Johnson assume o governo e mantém a estratégia de remover Jango, apelido de Goulart. O temor de que o país se alinharia ao comunismo e influenciaria outros países da América Latina, contrariando assim os interesses dos Estados Unidos, reforçaram os movimentos pró-golpe.
Peter Korneluh
A série mostra como os Estados Unidos agiram para planejar e criar as condições para o golpe da madrugada de 31 de março. E, depois, para sustentar e reconhecer o regime militar do governo do marechal Humberto Castelo Branco. Envergando uma roupa civil, ele assume o poder em 15 de abril. Castelo era chefe do Estado Maior do Exército de Jango.
O governo norte-americano estava preparado para intervir militarmente, mas não foi necessário, como ressaltam historiadores e militares. O general Ivan Cavalcanti Proença, oficial da guarda presidencial, resume: “Lamento que foi um golpe fácil demais. Ninguém assumiu o comando revolucionário”.
Do Brasil, duas autoridades americanas foram peças-chaves para bloquear as ações de Goulart e apoiar Castelo Branco: o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon; e o general Vernon Walters, adido militar e que já conhecia Castelo Branco. As cartas e o áudio dos diálogos de Gordon com o primeiro escalão do governo americano são expostas. Entre os interlocutores, o presidente Lyndon Johnson, Dean Rusk (secretário de Estado), Robert McNamara (Defesa). Além de conversas telefônicas de Johnson com George Reedy Dean Rusk; Thomas Mann (Subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos) e George Bundy, assessor de segurança nacional da Casa Branca, entre outros.
Foi uma das mais longas ditaduras da América Latina. O general Newton Cruz, que foi chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações (SNI) e ex-comandante militar do Planalto, conclui: “A revolução era para arrumar a casa. Ninguém passa 20 anos para arrumar uma Casa”.
Em 1967, quem assume o Planalto é o general Costa e Silva, então ministro da Guerra de Castelo. Da linha dura, seu governo consolida a repressão. As conseqüências deste período da ditadura, seus meandros políticos e ideológicos estarão na tela. Mortes, torturas, assassinatos, violação de direitos democráticos e prisões arbitrárias fazem parte desse período dramático da história.
O jornalista Flávio Tavares, participou da luta armada, foi preso, torturado e exilado político. Através da série, dirigida por seu filho Camilo Tavares, ele explora suas vivências e lembranças. E mais: abre uma nova oportunidade de reflexão sobre o passado.
O Dia que durou 21 anos é uma coprodução da TV Brasil com a Pequi Filmes, com direção de Camilo Tavares. Roteiro e entrevistas de Flávio e Camilo.
Plínio de Arruda Sampaio
Primeiro Episódio:
As ações do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, ainda no governo Kennedy, são expostas neste primeiro capítulo. O discurso do presidente João Goulart pregando reformas sociais torna-se uma ameaça e é interpretado pelos militares como uma provocação. Nos quartéis temia-se uma movimentação de esquerda e a adoção do comunismo, que poderia se espalhar por outros países latinos. Entrevistas e reportagens da CBS são reproduzidas, bem como diálogos entre Gordon e Kennedy.
O documentário expõe a efervescência da sociedade brasileira naquele período. Para evitar que Goulart chegasse forte às eleições de 1965, foi criado o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que teria dado cobertura às ações dos Estudos Unidos para derrubar João Goulart.
Segundo Episódio:
Cenas da morte de John Kennedy e a posse de Lyndon Johnson abrem este capítulo, dando sequência à estratégia dos Estados Unidos de impedir ao que o ex-presidente americano chamou de “um outro regime comunista no hemisfério ocidental”. “Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for preciso”, diria Jonhson.
Imagens focam no discurso de Jango na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, que foi considerado uma provocação pelos arquitetos do golpe. Os americanos já preparavam o esquema, enviando suas forças militares para o “controle das massas”, como se refere um dos entrevistados. Paralelamente, articulações para levar Castelo Branco ao poder estavam sendo engendradas.
As forças americanas não precisaram entrar em campo. João Goulart pegou o avião, foi para Brasília e depois para o sul do país. Por que Jango não reagiu”? É uma questão posta na tela. O general Cavalcanti, oficial da guarda presidencial, resume: “Lamento que foi um golpe fácil demais. Ninguém assumiu o comando revolucionário”.
Os Estados Unidos estavam mobilizados para, em caso de resistência, fazer a intervenção militar pela costa e assim ajudar os militares. As correspondências de Lincoln Gordon com o primeiro escalão da Casa Branca são mostradas ao público, explorando as ações secretas junto às Forças Armadas, a reação da imprensa e dos grupos católicos no Brasil. Os Estados Unidos reconhecem o novo governo e imagens da vitória e manifestações de rua entram em cenas.
James Green
Terceiro Episódio:
O cargo de presidente é declarado vago pelo presidente do Senado, Auro Moura de Andrade. O presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, é empossado.
No dia 15 de abril, o chefe das Forças Armadas, marechal Castelo Branco, toma posse.
Castelo tinha relações amistosas com Vernon Walters, adido da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Depois de suas conversas com Castelo, ele se ocupava em enviar telegramas para os Estados Unidos, relatando o teor da conversa. Os textos dos telegramas são revelados no episódio.
O governo Castelo Branco recrudesce e dá início aos atos institucionais. O de número 2 extingue os partidos políticos e torna as eleições indiretas. E mais: prorroga o seu mandato. Em 1967, ele é substituído pelo general Costa e Silva, da chamada linha dura do Exército. O AI 5 é decretado no ano seguinte, e o Brasil entra no caos, “O AI5 foi uma revolução dentro da revolução”, declara o general Newton Cruz.
A repressão e a tortura dominavam o país. Militares e estudiosos falam desse período. O brigadeiro Rui Moreira Lima, da Força Aérea Brasileira, declara: “Eu conheci um coronel, filho de um general, que veio de um curso de tortura no Panamá. Ele chegou e disse: agora estou tinindo na tortura, pega aí um cara pra eu torturar”.
Os Estados Unidos continuam em campo e Lincoln Gordon pede para o governo fortalecer ao máximo o regime militar brasileiro. O orçamento da embaixada cresce, como registra o historiador Carlos Fico, da UFRJ, um dos entrevistados de Flávio Tavares
quarta-feira, 23 de março de 2011
O novo momento político - blog do nassif
O novo momento político - 1
Enviado por luisnassif, ter, 22/03/2011 - 12:27
Coluna Econômica
O atual momento político é particularmente instigante.
Está-se no início de um novo tempo. As eleições do ano passado se constituíram no capítulo final da consolidação de um novo paradigma político e econômico do que pode ser chamado de a era Lula. Agora se inaugura o ciclo final de consolidação de um novo modelo em que um dos pontos centrais é o da pacificação nacional.
Após a guerra eleitoral do ano passado, esse movimento deixou a esquerda assustada e a direita perplexa. Mas é o fecho correto para encerrar o movimento anterior e entrar no novo tempo.
As crises da inclusão
O amadurecimento de um país ocorre por processos sucessivos de inclusão social e política. Cada movimento provoca crises políticas de tamanho proporcional ao da inclusão pretendida.
A lógica é simples e foi dissecada por Afonso Arinos em artigo de 1963 - que divulguei recentemente. Os novos incluídos lutam por ocupar espaço e sofrem a resistência dos setores encastelados no poder. Segue-se uma luta surda ou declarada, na qual entram os piores ingredientes da política, porque mesclando interesses, preconceitos e temores.
Nos Estados Unidos do século 19, resultou na Guerra da Secessão.
No Brasil, é possível identificar pelo menos quatro movimentos de inclusão-conflito:
1. No fim do século 19, o fortalecimento da classe agrária paulista, em detrimento da monarquia, o surgimento de uma classe média de profissionais liberais nas grandes cidades, que leva à Proclamação da República e a um período de distúrbios políticos. Há uma vitória dos fazendeiros, em detrimentos dos coronéis regionais, dos novos industrialistas e da própria monarquia.
2. A partir dos anos 20, a geração de migrantes e filhos molda uma nova classe social nas grandes cidades. Some-se a reação regional contra a política do café-com-leite (São Paulo-Minas), o aparecimento de uma cultura urbana consolidada. Resulta em distúrbios políticos e militares durante toda a década, desembocando na Revolução de 1930. Getúlio, então, consolida o processo de inclusão das novas massas, mas dentro de um quadro ditatorial.
3. A partir dos anos 50, há o nascimento de uma nova classe média urbana, fruto da industrialização do pós-guerra. São 13 anos de conflitos intermitentes, resultando no golpe de 1964. Como o próprio Arinos aponta (ele mesmo um líder da UDN), explorou-se o preconceito, a guerra fria e outros estratagemas visando criar o clima propício a um golpe militar. Tudo bastante ajudado pela falta de pulso do governo João Goulart.
4. A partir do início da era Lula, começa a consolidação de um novo mercado de massas, graças a políticas compensatórias e ao próprio redesenho da manufatura mundial, que se voltou para consumidores de baixíssima renda.
Os três movimentos anteriores resultaram em grandes batalhas políticas com desestabilização dos governos constituídos. Foi esse o embate enfrentado por Lula em um momento em que o principal agente político pós-redemocratização - a velha mídia - ainda não fora exposta aos novos ventos da modernização.
O novo momento político - 2
Enviado por luisnassif, qua, 23/03/2011 - 09:45
Coluna Econômica
(Clique aqui para ler o primeiro artigo da série: O novo momento político - 1)
Na coluna de ontem mostrei os conflitos inerentes a todo período de inclusão social. Em uma primeira fase, o velho morreu, o novo ainda não nasceu, os diagnósticos são precários, resultando na perda de rumo.
Mas – ponto fundamental - essa impaciência pelo novo é captada inicialmente pela população, embora de modo ainda difuso. O eleitor pressente a direção a ser seguida, embora ninguém saiba ao certo o caminho e abre espaço para a etapa seguinte.
O caminho a ser seguido fica amarrado ou ao surgimento de estadistas – aqueles capazes de entender e promover a mudança -, os visionários –que enxergam, mas não sabem como chegar até lá – e os meramente medíocres – que empurram com a barriga, às vezes nem por demérito mas pela falta de um amadurecimento das ideias.
***
Nos anos 80, os governos Figueiredo e Sarney foram tipicamente desse terceiro estágio. A única bandeira a vigorar no período foram os planos de estabilização, tidos como mágicos a acima da política.
Já Fernando Collor enxergou nitidamente o novo. Havia uma vontade nacional contra a centralização do período anterior, contra o burocratismo, contra o peso do Estado que impedia o desabrochar de novas forças sociais e econômicas.
Foi eleito devido às bandeiras que desfraldou. Seu discurso foi tão poderoso que chegou a influenciar o programa do PT na época, que acabou esbarrando na resistência de alguns núcleos.
Collor se enrolou na própria inabilidade política e terminou devorado pela esfinge, assim como Carlos Andrés Perez, na Venezuela. Eram os típicos visionários. Teve o mérito de clarear o período posterior.
***
FHC pegou as ideias prontas e o terreno aplainado. Completou o trabalho de Collor com grande habilidade política e nenhuma visão sobre a nova etapa. Tivesse tido a visão sobre o momento seguinte, completar-se-iam os vinte anos no poder preconizados por Sérgio Motta.
A que se seguiu à reconquista dos direitos civis e dos consumidores seria a etapa da grande inclusão social, da ampliação das organizações sociais, da preparação para a nova sociedade de consumo de massa que se avizinhava e da recuperação do sonho do desenvolvimento.
***.
Lula foi eleito pelos novos ventos. Já em 2002, sua eleição representou o novo movimento, a vontade política crescente de combater a miséria e a fome, em contraposição ao frio mercadismo de FHC.
***
Há dois momentos na vida do governante: as eleições, onde se manifesta o sentimento difuso do eleitor; e o dia a dia, no qual os agentes dominantes são a mídia, a opinião pública midiática e os parlamentares.
No dia-a-dia eram dominantes os interesses consolidados em torno do neoliberalismo. Gastos sociais eram apresentados como desperdício, qualquer política compensatória como paternalismo estéril.
Eram esses os dois grandes desafios a serem perseguidos. O primeiro, como conduzir esse gigantesco processo de inclusão social; o segundo, como mudar o paradigma sem produzir uma desestabilização política cujo enredo era parte integrante da história política do continente
O novo momento político -3
Enviado por luisnassif, qui, 24/03/2011 - 09:52
Coluna Econômica
(Acesse os primeiros dois artigos da série: O novo momento político -1 e O novo momento político - 2)
Como explicado na coluna de ontem, Lula enfrentou dois desafios consideráveis: administrar a grande inclusão social do período e mudar os paradigmas vigentes nos anos 90, do mercadismo sem visão social e sem punch desenvolvimentista.
Os paradigmas do período anterior eram: todo gasto público é desperdício; todo gasto social é paternalista e cria vagabundos; todo o espaço às organizações sociais visa fomentar a subversão; qualquer investimento no Estado significa a volta do estatismo anterior
***.
Lula assumiu o governo com algumas idéias-chave.
O foco principal – expresso no seu primeiro programa, o fracassado Fome Zero – era o do combate à miséria. Em torno disso, montou sua estratégia política, fundada em alguns pontos.
Esvaziar os temores provocados por sua eleição. Fazer caber no governo o extenso arco de tendências do PT e aliados. Em vez da aliança com um grande partido (como FHC com o DEM), a montagem de uma frente de pequenos partidos que seriam turbinados para crescer.Reduzir todos os focos potenciais de instabilidade.
***
A lógica política de Getúlio Vargas e mesmo de Fernando Henrique Cardoso era a de dividir para reinarJá a estratégia de Lula consistiu em somar, agregar e de atrair todas as fontes potenciais de conflito.
Deu uma volta enorme a um custo elevado
Fez concessões ao mercado, entregando-lhe as chaves do Banco CentralProcurou reduzir as críticas dos exportadores criando ferramentas artificiais de lucro – como o "swap reverso" que permitia aos exportadores lucrar no mercado financeiro com a apreciação cambial ao mesmo tempo em que perdiam com suas operações comerciais. E fortaleceu de forma expressiva os grandes grupos nacionais.
***
Houve alguns erros inicias graves que quase comprometem seu projeto político. A distribuição de cargos se deu sem controle, sem critérios. A estratégia de se aliar a pequenos partidos, contrariando a lógica proposta por José Dirceu (copiada de FHC) de se aliar a um grande partido fisiológico, resultou no episódio conhecido como "mensalão" , que quase liquida com o governo.
***
Mesmo assim, a estratégia original foi seguida à risca e se encorpando na medida em que o governo aprendia agerenciar. .
Antes, montou-se o Conselho de Desenvolvimento Social para atrair parcela expressiva do empresariado e de organizações sociais. Depois, um conjunto cada vez mais amplo de políticas voltadas para a inclusão social: o Luz para Todos, o Pronaf (Programa de Financiamento para a Agricultura Familiar), o biodiesel, o Reuni (bolsas de estudos para universidades privadas), a recuperação do salário mínimo e o maior de todos, o Bolsa Família.
No final do governo, percebeu-se o resultado da enorme volta dada por Lula: um país em que cabiam as multinacionais, o mercado financeiro, os movimentos sociais, as políticas compensatórias. Para tanto, haveria a necessidade de reduzir o pesado grau de preconceito e radicalização que caracteriza todos os processos radicais de inclusão social.
O novo momento político - 4
Enviado por luisnassif, sex, 25/03/2011 - 09:34
Coluna Econômica
(Acesse os três primeiros artigos da série: O novo momento político -1, O novo momento político - 2 e O novo momento político -3)
Nas colunas anteriores, procurei mostrar o difícil desafio de conduzir o país em momentos de larga inclusão social e política e em momentos de mudança de paradigmaEm todos os períodos da história, essas mudanças significavam a hegemonia de setores específicos sobre outros – fazendeiros sobre a monarquia, industrialistas sobre fazendeiros, mercadistas sobre industrialistas etc.
***
Em meu livro "Os Cabeças de Planilha", de 2005, tentei descrever esse processo. O grande salto se daria quando aparecesse um estadista que fizesse todos os setores se verem como participantes de um mesmo todo. É só aí que se consolida o sentimento de nação, reduzem-se as disputas internas e monta-se um projeto de país.
Não imaginava que poucos anos depois essa realidade se instalaria no país à maneira como o país superou a crise, a extraordinária visibilidade internacional de Lula, eventos esportivos como a conquista das Olimpíadas e da Copa do Mundo de futebol.
***
Na cerimônia de premiação da revista Carta Capital, Lula fez talvez seu discurso mais importante, o chamado discurso-síntese. Dirigiu-se a Ivan Zurita, presidente da Nestlé. Disse-lhe que os lucros haviam aumentado. E sabe por que? Porque na outra ponta o Bolsa Família havia dado recursos para as famílias se alimentarem. E era esse aumento de consumo que turbinava os lucros da Nestlé.
Naquele exemplo simples, quase óbvio, estava a chave do novo modelo, o novo paradigma substituindo os processos anteriores de inclusão parcial, com conflitos potencializados.
***
O novo paradigma inclui valores herdados do período anterior – como a responsabilidade fiscal, que se consolida no segundo governo FHC e a estabilidade monetária, do Plano Real. E traz novos valores, do combate à miséria, da remontagem e do ativismo do Estado, da recuperação da capacidade de investimento, da criação de multinacionais brasileiras etc.
O desenvolvimentismo não se completou por conta da estratégia lenta e gradual de mudar a política monetária do BC. Esse será o grande desafio do governo Dilma. Especialmente após as fantasias geradas pelo crescimento atípico do PIB no ano passado.
Mas, com a adesão de praticamente todos os setores aos novos paradigmas, o único discurso capaz de desestabilizar o modelo e produzir crises políticas era o do preconceito. Isso explica a campanha pesadíssima de José Serra, utilizando fartamente a imprensae a Internet para ataques desqualificadores – "Dilma assassina", "matadora de crianças" etc.
Terminadas as eleições, os próprios governadores do PSDB – Geraldo Alckmin, em São Paulo, Antonio Anastasia, em Minas – moldavam o discurso para os novos tempos, reduzindo atritos com sindicatos, promovendo mudanças nas políticas sociais, habitacionais, praticamente endossando os novos paradigmas.
Por isso mesmo, a maneira de completar o modelo é buscar a pacificação nacional, promover o pacto e trazer a disputa política para o campo dos países civilizados. Haverá novas disputas políticas, novos partidos, mas sem tergiversar com os princípios básicos do combate à miséria e a busca do bem estar e do desenvolvimento.
O novo tempo político - 5
Enviado por luisnassif, dom, 27/03/2011 - 09:14
Coluna Econômica
Nas colunas anteriores, procurei identificar as mudanças ocorridas no país nos últimos anos, e as características do novo ciclo econômico e social que emergiu na era Lula.
Ainda é um desenho incompleto porque não se conseguiu completar a travessia para deslanchar o desenvolvimento. Fala-se em desenvolvimento, defende-se o desenvolvimento, investe-se em algumas áreas necessárias ao desenvolvimento. Mas ainda se está longe de um padrão de desenvolvimento.
No ano passado, o crescimento de 7,5% do PIB foi circunstancial, apenas uma compensação para a perda de crescimento de 2009, provocado pela crise global.
***
Houve avanços em várias áreas. Os Ministérios voltaram a ganhar condições para planejamento, lançaram-se programas para atender a infraestrutura, investiu-se de forma inédita em políticas de financiamento à inovação, em financiamento ao setor produtivo, na educação, saúde etc..
Especialmente após a crise de 2008, criou-se um estado de espírito nacional em favor do desenvolvimento. Mas, sem resolver a questão macroeconômica, há grandes possibilidades de se repetir os chamados voos de galinha dos últimos anos.
Diria que o ciclo Lula se completará quando resolvido o nó da burocracia pública e da política monetária.
***
A estratégia adotada começou a ser desenhada no segundo semestre do ano passado, quando já terminava a era Henrique Meirelles no Banco Central. São passos lentos, graduais para não despertar temores no mercado.
O que permitiu romper a inércia foi a própria crise de 2008, que abriu espaço para políticas proativas do Ministério da Fazenda, derrubando os dogmas do neoliberalismo dos anos 90. Houve forte atuação dos bancos públicos, isenção de impostos, choque de crédito na economia.
***
A partir daí, estava aberta a picada.
Primeiro, foi a constituição do fundo soberano para aplicar parte das reservas cambiais acumuladas.
No ano passado foram tomadas as primeiras medidas macro prudenciais para conter a demanda – em vez de alta da Selic, aumento do compulsório, redução de prazos de financiamento etc. Ao mesmo tempo, abriu-se o caminho para intervenções mais drásticas no câmbio
***
Houve mudança estratégica de por parte dos técnicos do Ministério da Fazenda. No encontro da Escola de Economia da FGV-SP, no ano passado, o então Secretário de Política Econômica Nelson Barbosa chamou a atenção por defender quase um conceito de câmbio neutro – em lugar da moeda desvalorizada que era bandeira da Fazenda.
Enquanto a Fazenda mudava o tom do discurso intervencionista, no BC, o presidente Alexandre Tombini ganhava espaço para mudar o tom monocórdico do discurso neoliberal anti inflação. Continuou a enfatizar a importância da Selic na contenção das expectativas inflacionárias, mas cada vez mais carregando o peso dos ajustes nas medidas macro prudenciais.
***
As determinações de Dilma Rousseff, para coibir manifestações de Ministros ou Secretários, têm atrapalhado a melhor compreensão dessa estratégia.
Não se sabe por quanto tempo ainda haverá esse gradualismo, ou qual o nível de risco que se pretende correr para sair da armadilha cambial. Esta a incógnita maior, para saber se o país ingressará definitivamente na era do desenvolvimento. Ou não.
Enviado por luisnassif, ter, 22/03/2011 - 12:27
Coluna Econômica
O atual momento político é particularmente instigante.
Está-se no início de um novo tempo. As eleições do ano passado se constituíram no capítulo final da consolidação de um novo paradigma político e econômico do que pode ser chamado de a era Lula. Agora se inaugura o ciclo final de consolidação de um novo modelo em que um dos pontos centrais é o da pacificação nacional.
Após a guerra eleitoral do ano passado, esse movimento deixou a esquerda assustada e a direita perplexa. Mas é o fecho correto para encerrar o movimento anterior e entrar no novo tempo.
As crises da inclusão
O amadurecimento de um país ocorre por processos sucessivos de inclusão social e política. Cada movimento provoca crises políticas de tamanho proporcional ao da inclusão pretendida.
A lógica é simples e foi dissecada por Afonso Arinos em artigo de 1963 - que divulguei recentemente. Os novos incluídos lutam por ocupar espaço e sofrem a resistência dos setores encastelados no poder. Segue-se uma luta surda ou declarada, na qual entram os piores ingredientes da política, porque mesclando interesses, preconceitos e temores.
Nos Estados Unidos do século 19, resultou na Guerra da Secessão.
No Brasil, é possível identificar pelo menos quatro movimentos de inclusão-conflito:
1. No fim do século 19, o fortalecimento da classe agrária paulista, em detrimento da monarquia, o surgimento de uma classe média de profissionais liberais nas grandes cidades, que leva à Proclamação da República e a um período de distúrbios políticos. Há uma vitória dos fazendeiros, em detrimentos dos coronéis regionais, dos novos industrialistas e da própria monarquia.
2. A partir dos anos 20, a geração de migrantes e filhos molda uma nova classe social nas grandes cidades. Some-se a reação regional contra a política do café-com-leite (São Paulo-Minas), o aparecimento de uma cultura urbana consolidada. Resulta em distúrbios políticos e militares durante toda a década, desembocando na Revolução de 1930. Getúlio, então, consolida o processo de inclusão das novas massas, mas dentro de um quadro ditatorial.
3. A partir dos anos 50, há o nascimento de uma nova classe média urbana, fruto da industrialização do pós-guerra. São 13 anos de conflitos intermitentes, resultando no golpe de 1964. Como o próprio Arinos aponta (ele mesmo um líder da UDN), explorou-se o preconceito, a guerra fria e outros estratagemas visando criar o clima propício a um golpe militar. Tudo bastante ajudado pela falta de pulso do governo João Goulart.
4. A partir do início da era Lula, começa a consolidação de um novo mercado de massas, graças a políticas compensatórias e ao próprio redesenho da manufatura mundial, que se voltou para consumidores de baixíssima renda.
Os três movimentos anteriores resultaram em grandes batalhas políticas com desestabilização dos governos constituídos. Foi esse o embate enfrentado por Lula em um momento em que o principal agente político pós-redemocratização - a velha mídia - ainda não fora exposta aos novos ventos da modernização.
O novo momento político - 2
Enviado por luisnassif, qua, 23/03/2011 - 09:45
Coluna Econômica
(Clique aqui para ler o primeiro artigo da série: O novo momento político - 1)
Na coluna de ontem mostrei os conflitos inerentes a todo período de inclusão social. Em uma primeira fase, o velho morreu, o novo ainda não nasceu, os diagnósticos são precários, resultando na perda de rumo.
Mas – ponto fundamental - essa impaciência pelo novo é captada inicialmente pela população, embora de modo ainda difuso. O eleitor pressente a direção a ser seguida, embora ninguém saiba ao certo o caminho e abre espaço para a etapa seguinte.
O caminho a ser seguido fica amarrado ou ao surgimento de estadistas – aqueles capazes de entender e promover a mudança -, os visionários –que enxergam, mas não sabem como chegar até lá – e os meramente medíocres – que empurram com a barriga, às vezes nem por demérito mas pela falta de um amadurecimento das ideias.
***
Nos anos 80, os governos Figueiredo e Sarney foram tipicamente desse terceiro estágio. A única bandeira a vigorar no período foram os planos de estabilização, tidos como mágicos a acima da política.
Já Fernando Collor enxergou nitidamente o novo. Havia uma vontade nacional contra a centralização do período anterior, contra o burocratismo, contra o peso do Estado que impedia o desabrochar de novas forças sociais e econômicas.
Foi eleito devido às bandeiras que desfraldou. Seu discurso foi tão poderoso que chegou a influenciar o programa do PT na época, que acabou esbarrando na resistência de alguns núcleos.
Collor se enrolou na própria inabilidade política e terminou devorado pela esfinge, assim como Carlos Andrés Perez, na Venezuela. Eram os típicos visionários. Teve o mérito de clarear o período posterior.
***
FHC pegou as ideias prontas e o terreno aplainado. Completou o trabalho de Collor com grande habilidade política e nenhuma visão sobre a nova etapa. Tivesse tido a visão sobre o momento seguinte, completar-se-iam os vinte anos no poder preconizados por Sérgio Motta.
A que se seguiu à reconquista dos direitos civis e dos consumidores seria a etapa da grande inclusão social, da ampliação das organizações sociais, da preparação para a nova sociedade de consumo de massa que se avizinhava e da recuperação do sonho do desenvolvimento.
***.
Lula foi eleito pelos novos ventos. Já em 2002, sua eleição representou o novo movimento, a vontade política crescente de combater a miséria e a fome, em contraposição ao frio mercadismo de FHC.
***
Há dois momentos na vida do governante: as eleições, onde se manifesta o sentimento difuso do eleitor; e o dia a dia, no qual os agentes dominantes são a mídia, a opinião pública midiática e os parlamentares.
No dia-a-dia eram dominantes os interesses consolidados em torno do neoliberalismo. Gastos sociais eram apresentados como desperdício, qualquer política compensatória como paternalismo estéril.
Eram esses os dois grandes desafios a serem perseguidos. O primeiro, como conduzir esse gigantesco processo de inclusão social; o segundo, como mudar o paradigma sem produzir uma desestabilização política cujo enredo era parte integrante da história política do continente
O novo momento político -3
Enviado por luisnassif, qui, 24/03/2011 - 09:52
Coluna Econômica
(Acesse os primeiros dois artigos da série: O novo momento político -1 e O novo momento político - 2)
Como explicado na coluna de ontem, Lula enfrentou dois desafios consideráveis: administrar a grande inclusão social do período e mudar os paradigmas vigentes nos anos 90, do mercadismo sem visão social e sem punch desenvolvimentista.
Os paradigmas do período anterior eram: todo gasto público é desperdício; todo gasto social é paternalista e cria vagabundos; todo o espaço às organizações sociais visa fomentar a subversão; qualquer investimento no Estado significa a volta do estatismo anterior
***.
Lula assumiu o governo com algumas idéias-chave.
O foco principal – expresso no seu primeiro programa, o fracassado Fome Zero – era o do combate à miséria. Em torno disso, montou sua estratégia política, fundada em alguns pontos.
Esvaziar os temores provocados por sua eleição. Fazer caber no governo o extenso arco de tendências do PT e aliados. Em vez da aliança com um grande partido (como FHC com o DEM), a montagem de uma frente de pequenos partidos que seriam turbinados para crescer.Reduzir todos os focos potenciais de instabilidade.
***
A lógica política de Getúlio Vargas e mesmo de Fernando Henrique Cardoso era a de dividir para reinarJá a estratégia de Lula consistiu em somar, agregar e de atrair todas as fontes potenciais de conflito.
Deu uma volta enorme a um custo elevado
Fez concessões ao mercado, entregando-lhe as chaves do Banco CentralProcurou reduzir as críticas dos exportadores criando ferramentas artificiais de lucro – como o "swap reverso" que permitia aos exportadores lucrar no mercado financeiro com a apreciação cambial ao mesmo tempo em que perdiam com suas operações comerciais. E fortaleceu de forma expressiva os grandes grupos nacionais.
***
Houve alguns erros inicias graves que quase comprometem seu projeto político. A distribuição de cargos se deu sem controle, sem critérios. A estratégia de se aliar a pequenos partidos, contrariando a lógica proposta por José Dirceu (copiada de FHC) de se aliar a um grande partido fisiológico, resultou no episódio conhecido como "mensalão" , que quase liquida com o governo.
***
Mesmo assim, a estratégia original foi seguida à risca e se encorpando na medida em que o governo aprendia agerenciar. .
Antes, montou-se o Conselho de Desenvolvimento Social para atrair parcela expressiva do empresariado e de organizações sociais. Depois, um conjunto cada vez mais amplo de políticas voltadas para a inclusão social: o Luz para Todos, o Pronaf (Programa de Financiamento para a Agricultura Familiar), o biodiesel, o Reuni (bolsas de estudos para universidades privadas), a recuperação do salário mínimo e o maior de todos, o Bolsa Família.
No final do governo, percebeu-se o resultado da enorme volta dada por Lula: um país em que cabiam as multinacionais, o mercado financeiro, os movimentos sociais, as políticas compensatórias. Para tanto, haveria a necessidade de reduzir o pesado grau de preconceito e radicalização que caracteriza todos os processos radicais de inclusão social.
O novo momento político - 4
Enviado por luisnassif, sex, 25/03/2011 - 09:34
Coluna Econômica
(Acesse os três primeiros artigos da série: O novo momento político -1, O novo momento político - 2 e O novo momento político -3)
Nas colunas anteriores, procurei mostrar o difícil desafio de conduzir o país em momentos de larga inclusão social e política e em momentos de mudança de paradigmaEm todos os períodos da história, essas mudanças significavam a hegemonia de setores específicos sobre outros – fazendeiros sobre a monarquia, industrialistas sobre fazendeiros, mercadistas sobre industrialistas etc.
***
Em meu livro "Os Cabeças de Planilha", de 2005, tentei descrever esse processo. O grande salto se daria quando aparecesse um estadista que fizesse todos os setores se verem como participantes de um mesmo todo. É só aí que se consolida o sentimento de nação, reduzem-se as disputas internas e monta-se um projeto de país.
Não imaginava que poucos anos depois essa realidade se instalaria no país à maneira como o país superou a crise, a extraordinária visibilidade internacional de Lula, eventos esportivos como a conquista das Olimpíadas e da Copa do Mundo de futebol.
***
Na cerimônia de premiação da revista Carta Capital, Lula fez talvez seu discurso mais importante, o chamado discurso-síntese. Dirigiu-se a Ivan Zurita, presidente da Nestlé. Disse-lhe que os lucros haviam aumentado. E sabe por que? Porque na outra ponta o Bolsa Família havia dado recursos para as famílias se alimentarem. E era esse aumento de consumo que turbinava os lucros da Nestlé.
Naquele exemplo simples, quase óbvio, estava a chave do novo modelo, o novo paradigma substituindo os processos anteriores de inclusão parcial, com conflitos potencializados.
***
O novo paradigma inclui valores herdados do período anterior – como a responsabilidade fiscal, que se consolida no segundo governo FHC e a estabilidade monetária, do Plano Real. E traz novos valores, do combate à miséria, da remontagem e do ativismo do Estado, da recuperação da capacidade de investimento, da criação de multinacionais brasileiras etc.
O desenvolvimentismo não se completou por conta da estratégia lenta e gradual de mudar a política monetária do BC. Esse será o grande desafio do governo Dilma. Especialmente após as fantasias geradas pelo crescimento atípico do PIB no ano passado.
Mas, com a adesão de praticamente todos os setores aos novos paradigmas, o único discurso capaz de desestabilizar o modelo e produzir crises políticas era o do preconceito. Isso explica a campanha pesadíssima de José Serra, utilizando fartamente a imprensae a Internet para ataques desqualificadores – "Dilma assassina", "matadora de crianças" etc.
Terminadas as eleições, os próprios governadores do PSDB – Geraldo Alckmin, em São Paulo, Antonio Anastasia, em Minas – moldavam o discurso para os novos tempos, reduzindo atritos com sindicatos, promovendo mudanças nas políticas sociais, habitacionais, praticamente endossando os novos paradigmas.
Por isso mesmo, a maneira de completar o modelo é buscar a pacificação nacional, promover o pacto e trazer a disputa política para o campo dos países civilizados. Haverá novas disputas políticas, novos partidos, mas sem tergiversar com os princípios básicos do combate à miséria e a busca do bem estar e do desenvolvimento.
O novo tempo político - 5
Enviado por luisnassif, dom, 27/03/2011 - 09:14
Coluna Econômica
Nas colunas anteriores, procurei identificar as mudanças ocorridas no país nos últimos anos, e as características do novo ciclo econômico e social que emergiu na era Lula.
Ainda é um desenho incompleto porque não se conseguiu completar a travessia para deslanchar o desenvolvimento. Fala-se em desenvolvimento, defende-se o desenvolvimento, investe-se em algumas áreas necessárias ao desenvolvimento. Mas ainda se está longe de um padrão de desenvolvimento.
No ano passado, o crescimento de 7,5% do PIB foi circunstancial, apenas uma compensação para a perda de crescimento de 2009, provocado pela crise global.
***
Houve avanços em várias áreas. Os Ministérios voltaram a ganhar condições para planejamento, lançaram-se programas para atender a infraestrutura, investiu-se de forma inédita em políticas de financiamento à inovação, em financiamento ao setor produtivo, na educação, saúde etc..
Especialmente após a crise de 2008, criou-se um estado de espírito nacional em favor do desenvolvimento. Mas, sem resolver a questão macroeconômica, há grandes possibilidades de se repetir os chamados voos de galinha dos últimos anos.
Diria que o ciclo Lula se completará quando resolvido o nó da burocracia pública e da política monetária.
***
A estratégia adotada começou a ser desenhada no segundo semestre do ano passado, quando já terminava a era Henrique Meirelles no Banco Central. São passos lentos, graduais para não despertar temores no mercado.
O que permitiu romper a inércia foi a própria crise de 2008, que abriu espaço para políticas proativas do Ministério da Fazenda, derrubando os dogmas do neoliberalismo dos anos 90. Houve forte atuação dos bancos públicos, isenção de impostos, choque de crédito na economia.
***
A partir daí, estava aberta a picada.
Primeiro, foi a constituição do fundo soberano para aplicar parte das reservas cambiais acumuladas.
No ano passado foram tomadas as primeiras medidas macro prudenciais para conter a demanda – em vez de alta da Selic, aumento do compulsório, redução de prazos de financiamento etc. Ao mesmo tempo, abriu-se o caminho para intervenções mais drásticas no câmbio
***
Houve mudança estratégica de por parte dos técnicos do Ministério da Fazenda. No encontro da Escola de Economia da FGV-SP, no ano passado, o então Secretário de Política Econômica Nelson Barbosa chamou a atenção por defender quase um conceito de câmbio neutro – em lugar da moeda desvalorizada que era bandeira da Fazenda.
Enquanto a Fazenda mudava o tom do discurso intervencionista, no BC, o presidente Alexandre Tombini ganhava espaço para mudar o tom monocórdico do discurso neoliberal anti inflação. Continuou a enfatizar a importância da Selic na contenção das expectativas inflacionárias, mas cada vez mais carregando o peso dos ajustes nas medidas macro prudenciais.
***
As determinações de Dilma Rousseff, para coibir manifestações de Ministros ou Secretários, têm atrapalhado a melhor compreensão dessa estratégia.
Não se sabe por quanto tempo ainda haverá esse gradualismo, ou qual o nível de risco que se pretende correr para sair da armadilha cambial. Esta a incógnita maior, para saber se o país ingressará definitivamente na era do desenvolvimento. Ou não.
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
História - Interior do Paraná recebia degredados do Brasil Império
Solução possível era casar com índias, mas era necessário encarar a violência de nativos avessos à miscigenação
Além do frio, os condenados a passar 10 ou 20 anos em Guarapuava precisavam lidar com a falta de mulheres
RICARDO MIOTO
DE SÃO PAULO
Não era exatamente a Sibéria. De qualquer forma, a então distante e fria Guarapuava (PR), onde havia uma falta terrível de mulheres, foi a primeira cidade a receber os condenados ao degredo pela Justiça brasileira no século 19, entre 1812 e 1859.
Na época, considerava-se importante ocupar a região, repleta de índios.
Por isso, enviar para lá "alguns vadios e façinososos que na sua comarca perturbão o socego público, os creminosos e criminosas que setençear a degredo" era a recomendação, em 1811, do governador da capitania de São Paulo, António José da Franca e Horta, ao responsável pela comarca de Paranaguá -ainda não existia Paraná.
Quem pesquisou o assunto foi Fabio Pontarolo, historiador da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná, que agora lança o livro "Homens de Ínfima Plebe".
Ele descobriu que boa parte dos degredados eram militares rebeldes, como oito soldados de Santos que, em 1821, revoltaram-se contra o atraso dos soldos e promoveram um quebra-quebra.
DESPROPORÇÃO
Na época, o frio nem era um problema tão grande em Guarapuava perto da falta de membros do sexo feminino.
Dos 60 casos documentados de degredados, só sete eram mulheres, e essa era mais ou menos a proporção na população no resto da área (em 1835, eram 712 habitantes).
Isso porque os outros moradores, em geral, eram povoadores pobres em busca de terra -e esses desbravadores costumavam ser homens.
O jeito era tentar algo com as índias das cercanias: a insistência do governo em ocupar a região vinha justamente da tentativa de incorporar esses povos. "Existia um patrocínio oficial à mestiçagem, mesmo uma compulsão por ela", diz Pantarolo.
Foi o que fez, por exemplo, José Gomes, um desses envolvidos na revolta de Santos, pioneiro no casamento com índias. Tinha, quando condenado, 18 anos, e recebeu pena de 20. Aos 19, já estava casando com uma caingangue de 16 anos, que recebeu o nome da Bárbara.
Ela era de uma família indígena que tinha se aproximado dos brancos. Seu pai tinha recebido o nome de Antônio e ajudou o padre local a catequizar os outros índios.
Prova de que a relação com os nativos não era tão pacífica, porém, é que, poucos anos antes de Bárbara se casar, Antônio foi assassinado por índios avessos à aproximação dos brancos.
Pior foi o destino de Mariano Antonio, colega de José Gomes -tão colega que eles chegaram ao degredo acorrentados um ao outro para que não fugissem no caminho para o sertão. Ele se casou com uma índia em 1823, apadrinhou quatro indiozinhos e foi testemunha de sete casamentos "mistos".
Em 1830, porém, sua mulher foi assassinada enquanto fazia farinha por índios contrários à miscigenação.
Viúvo, sem filhos, Mariano sumiu da cidade quando a pena de dez anos acabou.
Em geral, porém, os degredados acabavam criando raízes, e boa parte ficou em Guarapuava até morrer, anos depois do fim das suas penas.
Sobreviviam mal plantando milho, feijão e com uma ou outra cabeça de gado, mas não teriam destino muito melhor em outros lugares.
Segundo Pontarolo, os degredados acabaram esquecidos na história de Guarapuava "Na festa de 200 anos da cidade, falou-se muito sobre os bandeirantes, sobre os grandes sobrenomes, mas não sobre eles."
Depois de Guarapuava, outras regiões de degredo surgiram, como na fronteira do Pará com o Mato Grosso
Além do frio, os condenados a passar 10 ou 20 anos em Guarapuava precisavam lidar com a falta de mulheres
RICARDO MIOTO
DE SÃO PAULO
Não era exatamente a Sibéria. De qualquer forma, a então distante e fria Guarapuava (PR), onde havia uma falta terrível de mulheres, foi a primeira cidade a receber os condenados ao degredo pela Justiça brasileira no século 19, entre 1812 e 1859.
Na época, considerava-se importante ocupar a região, repleta de índios.
Por isso, enviar para lá "alguns vadios e façinososos que na sua comarca perturbão o socego público, os creminosos e criminosas que setençear a degredo" era a recomendação, em 1811, do governador da capitania de São Paulo, António José da Franca e Horta, ao responsável pela comarca de Paranaguá -ainda não existia Paraná.
Quem pesquisou o assunto foi Fabio Pontarolo, historiador da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná, que agora lança o livro "Homens de Ínfima Plebe".
Ele descobriu que boa parte dos degredados eram militares rebeldes, como oito soldados de Santos que, em 1821, revoltaram-se contra o atraso dos soldos e promoveram um quebra-quebra.
DESPROPORÇÃO
Na época, o frio nem era um problema tão grande em Guarapuava perto da falta de membros do sexo feminino.
Dos 60 casos documentados de degredados, só sete eram mulheres, e essa era mais ou menos a proporção na população no resto da área (em 1835, eram 712 habitantes).
Isso porque os outros moradores, em geral, eram povoadores pobres em busca de terra -e esses desbravadores costumavam ser homens.
O jeito era tentar algo com as índias das cercanias: a insistência do governo em ocupar a região vinha justamente da tentativa de incorporar esses povos. "Existia um patrocínio oficial à mestiçagem, mesmo uma compulsão por ela", diz Pantarolo.
Foi o que fez, por exemplo, José Gomes, um desses envolvidos na revolta de Santos, pioneiro no casamento com índias. Tinha, quando condenado, 18 anos, e recebeu pena de 20. Aos 19, já estava casando com uma caingangue de 16 anos, que recebeu o nome da Bárbara.
Ela era de uma família indígena que tinha se aproximado dos brancos. Seu pai tinha recebido o nome de Antônio e ajudou o padre local a catequizar os outros índios.
Prova de que a relação com os nativos não era tão pacífica, porém, é que, poucos anos antes de Bárbara se casar, Antônio foi assassinado por índios avessos à aproximação dos brancos.
Pior foi o destino de Mariano Antonio, colega de José Gomes -tão colega que eles chegaram ao degredo acorrentados um ao outro para que não fugissem no caminho para o sertão. Ele se casou com uma índia em 1823, apadrinhou quatro indiozinhos e foi testemunha de sete casamentos "mistos".
Em 1830, porém, sua mulher foi assassinada enquanto fazia farinha por índios contrários à miscigenação.
Viúvo, sem filhos, Mariano sumiu da cidade quando a pena de dez anos acabou.
Em geral, porém, os degredados acabavam criando raízes, e boa parte ficou em Guarapuava até morrer, anos depois do fim das suas penas.
Sobreviviam mal plantando milho, feijão e com uma ou outra cabeça de gado, mas não teriam destino muito melhor em outros lugares.
Segundo Pontarolo, os degredados acabaram esquecidos na história de Guarapuava "Na festa de 200 anos da cidade, falou-se muito sobre os bandeirantes, sobre os grandes sobrenomes, mas não sobre eles."
Depois de Guarapuava, outras regiões de degredo surgiram, como na fronteira do Pará com o Mato Grosso
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
cartamaior - Brasil e História - A memória histórica como campo da luta de classes
A memória histórica como campo da luta de classes (I)
Se perguntássemos para qualquer pessoa comum o que é história, elarapidamente nos diria: É algo que trata de fatos e personagens que existiram num passado mais ou menos distante. Estes três elementos (fatos, personagens e passado), sem dúvida, entrariam em duas de cada três definições do que seria História. E, ao referir-se ao passado, pensavam-na como uma coisa morta, que nada poderia nos dizer e, muito menos, nos ensinar sobre o presente. O artigo é de Augusto Buonicore.
Augusto Buonicore
Publicado originalmente no site da Fundação Maurício Grabois
Não é sem razão que no interior das salas de aula a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu especialmente devido a pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los desvendar e, principalmente, transformar o mundo em que viviam.
O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é - algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os fatos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser coletados e colocados numa seqüência rigorosamente cronológica.
Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colméia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós e é, justamente, por isso que deve ser estudado e melhor compreendido.
No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exatas – não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) e o sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.
Para os antigos historiadores, de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas. Eles estavam permanentemente atrás dos fatos puros, duros e irretorquíveis.
Contra os fatos não há argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os fatos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vem à cena e em que ordem e em que contexto”. E conclui: “A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.
No entanto, o historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. Ele é membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Ele se encaixa no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.
É sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direcionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: De onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica - invenção de alguns socialistas inconformados.
A história não é a simples catalogação neutra de fatos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico) e, principalmente, interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos fatos podemos construir várias e contraditórias interpretações.
O historiador marxista tem como objetivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Compreender as inúmeras transformações por que elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objetos da história.
As sociedades humanas – como tudo no universo - estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se - conhecem várias fases – e depois fenecessem. Estas transformações podem se dar lentamente – quase imperceptíveis - ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias.
Mas, qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas de classes.
Por que os trabalhadores devem conhecer a história?
Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Este combate faz parte de uma luta ainda maior que é a travada pela conquista da hegemonia. Em outras palavras, a história é um espaço no qual grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.
Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas também buscaram se utilizar da chamada história universal para justificar a dominação e a exploração que exerciam sobre outros povos, considerados inferiores.
Vejamos alguns exemplos extremos destas tentativas: os faraós do Egito foram transformados em filhos diletos do Deus Rá, alguns governantes gregos e romanos também foram transformados em descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais sutis, menos perceptíveis, mas, nem por isso, menos perversos.
Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados - ou mesmo eliminados - deixaram poucos rastros na história. Os escravos do Egito, Roma e Grécia não nos deixaram nenhuma obra escrita, apresentando seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedades antigas foram homens livres e, na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores, também, aventuraram-se no oficio de escrever história. É claro que para enaltecer os seus próprios feitos e dos seus antepassados.
No Brasil, as coisas não podiam ser diferentes. Aqui, também, não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era lhes proibido freqüentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foram contados por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de inúmeros preconceitos e graves incompreensões.
Somente na segunda metade do século XIX, ao começar ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma outra história, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles. Pois, foi através dos óculos desses escritores que começamos conhecer um pouco mais da evolução e vicissitudes de nossa sociedade.
Não quero dizer com isto que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam uma interpretação exata da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessários para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiram ver a realidade por outros ângulos e acabar de montar o quebra-cabeça do que foi a nossa sociedade colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, o erro daqueles que pretendem generalizar as conclusões de Gilberto Freyre na sua obra magna.
Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe operária moderna, que sabia ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos -, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo, esta nova história (socialista) tendeu a ser marginal, fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as idéias dominantes são sempre – ou quase sempre – as idéias das classes dominantes.
Somente tendo a consciência que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistência desenvolvidas por seus antepassados - os ajudará travar, de maneira mais conseqüente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.
Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável -, e que o principal instrumento dessas mudanças é a ação consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores, como agente ativo de sua própria história.
Bibliografia
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983
(*) Esta é a primeira parte do texto que foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP)entre 26 e 28 de julho de 2010.
A memória histórica como campo da luta de classes (II)
Mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris. O artigo é de Augusto Buonicore.
Augusto Buonicore
D. Pedro I: um grito parado no ar
Vejamos agora como se constroem socialmente os fatos e personagens históricos, tendo como referência a história Brasil. Comecemos pelo processo de nossa independência política, que teve como um de seus momentos mais comemorados a proclamação ocorrida em 7 de setembro de 1822. É incontestável que esta data se constitui um típico fato histórico. Acredito que ninguém, atualmente, negaria isto ou proporia eliminá-lo do calendário cívico nacional.
É claro, as coisas não ocorreram como estão descritas na clássica pintura de Pedro Américo, que se encontra num lugar de honra no Museu do Ipiranga. A referida tela foi produzida muitas décadas depois do famoso grito de Dom Pedro. Seu objetivo, não declarado, era enaltecer os feitos do membro fundador da família real brasileira. Os Bragança, naquele momento, passavam por graves dificuldade. Estávamos em 1888, às vésperas da proclamação da República.
O jovem príncipe não estava montado num garboso cavalo e sim numa simples mula, ainda que real. A sua comitiva e os soldados não trajavam vistosas roupas de gala, mas vestes surradas e empoeiradas da longa viagem pelo interior do país. Contudo, foi aquela cena deixada pelo pintor paraibano que prevaleceu no imaginário da Nação. Para que isso ocorresse, foi preciso reproduzi-la nos livros didáticos, nos selos comemorativos e nos filmes apologéticos, como “Independência ou morte”. Na época, o trabalho de Pedro Américo custou uma pequena fortuna aos cofres públicos — cerca de 30 contos de réis.
Isto pouco importa, pois sabemos que a Independência do Brasil não se reduziu ao grito de D. Pedro dado às margens plácidas do Ipiranga. Ela foi um processo longo, que conheceu vários episódios desde a revolta de Bequimão (1684), a revolta de Felipe dos Santos (1720), a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1799) e a Insurreição Pernambucana (1817).
No 7 de setembro de 1822, proclamou-se a Independência, preservando a monarquia, a supremacia da Casa de Bragança e os interesses econômicos e sociais fundamentais das classes dominantes brasileiras: a escravidão, o latifúndio e o predomínio da agroexportação do açúcar e do café. O Brasil ficou sendo o único Estado monárquico da América Latina.
Mesmo assim, não se pode chamar o final do processo de independência de incruento. Isto significaria ficar apenas nas aparências e nos curvarmos perante uma visão liberal-conservadora da nossa história. A independência incruenta (ou moderadamente cruenta) se deu no eixo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, no qual a corte brasileira tinha influência e maior controle. Nas regiões Norte e Nordeste havia uma situação bem diferente. Historicamente, suas relações econômicas e políticas se davam mais com a Metrópole portuguesa do que com o Rio de Janeiro. Ali eram maiores as influências metropolitanas e existiam fortes laços de fidelidade das tropas e do comércio, em geral compostos de portugueses, em relação às cortes do além mar.
Em fevereiro de 1822, eclodiu a Guerra da Independência na Bahia. Ela se iniciou quando os baianos se recusaram a aceitar a indicação do novo governador de armas, o coronel lusitano Madeira de Melo. As tropas portuguesas atacaram os patriotas brasileiros e os derrotaram. A guerra somente foi vencida no dia 2 de julho de 1823. No Maranhão, a junta lusitana só seria derrotada mais de um ano após a Independência. Mais de oito mil brasileiros combateram o domínio português naquele estado. A mesma coisa aconteceu no Piauí. As mobilizações de tropas nesses episódios não ficaram aquém das ocorridas na guerra de independência da América espanhola.
Mesmo assim, a nossa independência não estava plenamente assegurada. Vários perigos pairavam sobre ela. A maioria deles vinculados à permanência de um príncipe português no trono brasileiro. Um monarca que vez ou outra exprimia sua fidelidade mais ao pai e a Portugal do que ao Brasil. Em 1831, depois de acirrados conflitos políticos e choques de ruas, D. Pedro renunciou ao trono. Para alguns historiadores, somente a partir deste momento a nossa independência política estaria concluída.
Como podemos ver, nosso processo de independência conheceu inúmeras datas e personagens. Contudo, poucos deles foram selecionados para compor a história oficial. Por longos anos, o título de herói da Independência acabou recaindo na polêmica figura de D. Pedro I. E o fato histórico determinante, o grito dado às margens do riacho do Ipiranga. Estas escolhas, decerto, nada tiveram de casual. Elas se enquadravam perfeitamente dentro dos interesses das classes dominantes brasileiras, que procuravam símbolos que melhor expressassem e servissem à sua dominação.
Os historiadores socialistas sabem que a nossa independência não foi obra de D. Pedro, nem aconteceu num único dia. Ela foi o resultado de inúmeras contradições, que se acumularam por séculos, entre os interesses da colônia e da metrópole. Ela não teria sido possível sem as inconfidências mineira e baiana; sem as guerras de libertação na Bahia, Maranhão e Piauí; sem os levantes populares em várias cidades, como os ocorridos no Rio de Janeiro, em 1831. Não se realizaria sem o pensamento e ação dos setores populares e radicais do movimento de independência, representados nas figuras de Frei Caneca e Cipriano Barata.
Tiradentes e a Inconfidência Mineira: obras republicanas
Vejamos um outro herói e outro fato histórico incontestáveis. Refiro-me ao Tiradentes e à Inconfidência Mineira. Neste caso, ao contrário do exemplo anterior, ninguém tem dúvidas sobre o heroísmo de Joaquim José da Silva Xavier. Ele é, incontestavelmente, o principal herói brasileiro. É o seu rosto, por exemplo, que consta da exposição do bi-centenário da independência da Argentina, na Casa Rosada – ao lado de Bolívar e San Martin.
Mas nem sempre foi assim e, talvez, nunca tivesse sido se não fosse pela decisão de alguns homens. Digo homens, pois as mulheres apitavam pouco naquele momento. O próprio termo inconfidência, literalmente, significa “ato de deslealdade, traição”. Portanto, era uma palavra com forte sentido pejorativo e que hoje soa quase como um elogio à rebelião.
Pelo menos até 1889 – ou seja, 100 anos depois da sua morte – o nome de Tiradentes não era digno de nenhuma menção governamental especial e muito menos objeto de comemorações cívicas. Era considerado mais louco do que herói. Afinal, eram os filhos e netos da rainha “Maria Louca” – que o mandou enforcá-lo e esquartejá-lo - que se encontravam no poder. Somente após a Proclamação da República Tiradentes passou a compor o panteão dos heróis nacionais e a data de sua morte – o 21 de abril – virou feriado nacional.
Mas por qual razão foi escolhida a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes como símbolos da luta pela liberdade da Pátria? Em primeiro lugar, por este movimento ter sido liderado por uma elite ilustrada – poetas, oficiais do exército, padres, funcionários públicos, empresários etc. Todos senhores brancos e respeitáveis membros da sociedade colonial. A favor de Tiradentes, o mais pobres deles, pesava o fato de ser republicano e, principalmente, alferes (equivalente ao posto de segundo-tenente). Sabemos que a República foi, em parte, obra de militares — como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamim Constant. Assim, eles puderam traçar um fio de continuidade entre suas idéias (e posição social) e as de Tiradentes.
A escolha, contudo, poderia ter recaído sobre outros movimentos, outros mártires. Dez anos depois da Inconfidência Mineira eclodiu uma tentativa de conjuração na Bahia – também chamada de Revolta dos Alfaiates. Como o próprio nome já indica, ela foi mais popular que a primeira. Por isso mesmo, causou maior impacto na colônia – colocando em alerta a própria metrópole. As bandeiras dos conjurados baianos eram: independência, República e Abolição da Escravidão. Ao contrário do que aconteceu em Minas Gerais, da Conjuração Baiana participaram muitos escravos e ex-escravos. Se a Inconfidência Mineira foi muito influenciada pela Revolução Americana, a Conjuração Baiana o foi pela Revolução Francesa, muito mais radical.
Quatro de seus líderes foram enforcados no dia 8 de novembro de 1799. Como Tiradentes, todos tiveram seus corpos esquartejados e seus membros decepados colocados em praça pública para que a população visse e não tentasse seguir o seu exemplo. Dos mortos, dois eram soldados rasos e dois alfaiates. Seus nomes: Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga das Virgens e João de Deus Nascimento. Nomes que quase desapareceram da história.
Zumbi e Palmares: arrombando a festa oficial
Por fim, vejamos um último herói e uma última data histórica. Refiro-me à Zumbi de Palmares e ao 20 de novembro, data provável de sua morte. Se hoje fizéssemos uma pesquisa sobre qual seria o principal herói brasileiro, sem dúvida o nome deste líder negro estaria disputando palmo a palmo os primeiros lugares com o alferes Tiradentes e com o imperador D. Pedro I. Nada mais justo.
Não precisamos dizer que este é um fenômeno novo. Era inconcebível que isto pudesse ocorrer durante o Império escravista (1822-1889) ou mesmo durante os primeiros anos da chamada República Oligárquica (1889-1930), quando ainda predominavam ideologias assentadas no “racismo científico”. Onde o ideal para o Brasil era de uma sociedade composta por uma população exclusivamente branca, sem mestiços ou negros. Numa sociedade elitista e racista, decerto não haveria lugar para heróis negros desta natureza.
Zumbi começou aparecer na história durante a campanha abolicionista – incorporado pelo seu setor mais radicalizado. Era uma das referências de um determinado movimento cívico, ao lado de outros personagens, como legendário líder dos escravos de Roma, Spartacus.
Seria preciso transcorrer quase cem anos da abolição da escravidão para que o nosso herói negro começasse a galgar os íngremes degraus do panteão da pátria. Coisa que só foi possível devido à crise da ditadura militar e a democratização do país, fortemente impulsionados pelos movimentos de contestação popular, no qual se incluía as organizações negras. A data provável da morte de Zumbi, atualmente, é feriado em vários estados e caminha para se tornar feriado nacional. É claro que o racismo difuso, ainda existente entre nós, buscará criar algumas dificuldades para que isso aconteça.
O “caso Zumbi” demonstra que a história continua aberta para a criação de novos heróis e fatos. Conforme novas forças sociais entram em cena, a história vai se ampliando, se democratizando. Operários, camponeses, negros, mulheres, homossexuais e idosos, corretamente, continuam tentando emplacar os seus heróis. Hoje são apenas deles, amanhã poderão ser de todos – ou, pelo menos, de quase todos.
Heróis regionais, de movimentos específicos, podem, em determinadas conjunturas, se tornarem heróis nacionais. Por outro lado, heróis nacionais podem decair na escala de prestígio social e entrar em recesso – ou mesmo se aposentarem definitivamente. Cito apenas os casos dos bandeirantes paulistas, da Princesa Isabel (a “redentora dos escravos”) e do Duque de Caxias – este último foi atingido em cheio pelo desgaste sofrido pelas Forças Armadas durante a Ditadura Militar, que imperou no país por 20 anos.
Diga-se, de passagem, que o nosso bom Duque só atingiu o status de grande herói durante outra ditadura, a do Estado Novo. Vargas estava em luta acirrada para reforçar os aspectos unitários da Nação contra o federalismo das elites regionais. O ato solene da queima das bandeiras estaduais e a ascensão do Duque fazem parte de um único e mesmo processo, e serviam aos mesmos interesses econômicos e sociais.
Quem e como se faz a história
Não são indiferentes para a sociedade os personagens e acontecimentos que escolhemos para compor a história. Estas escolhas não são neutras. São carregadas de significados e produzem efeitos na consciência do povo. Podem reforçar visões e práticas conservadoras ou progressistas. Nada mais falso que encarar a história como coleção de fatos puros (objetivos), distribuídos cronologicamente.
Por fim – e isso é o mais importante – devemos acentuar que mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris.
As mesmas questões servem para o Brasil. Será que sem Tiradentes ou D. Pedro I não teríamos conquistado a Independência? Sem Isabel, ou mesmo Zumbi, não haveríamos tido a Abolição? Sem Deodoro não existiria a República? É claro que mesmo sem estes personagens o Brasil ainda seria uma República independente e sem escravidão. No máximo, os ritmos e as formas das mudanças teriam sido diferentes, mas não seu sentido geral.
Portanto, mais importante do que escolhermos nossos fatos e heróis é definirmos como encaramos o próprio fazer histórico. A história pode ser vista como obra de “grandes personagens” – indivíduos sobre-humanos - ou como construção coletiva. Pode ser encarada como o resultado de dádivas - e acordos por cima - das elites (econômicas e políticas) ou como o fruto de lutas sociais abrangentes, que têm por base interesses materiais concretos. A história pode ser vista como grandes momentos – únicos e irrepetíveis – ou como processos contraditórios de variadas durações, que conhecem momentos de rupturas revolucionárias.
Bibliografia[/b}
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980.
BUONICORE, Augusto, Marxismo, história e revolução brasileira, Ed. Anita Garibaldi, SP, 2009
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978.
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991.
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998.
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988.
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988.
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980.
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981.
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983.
* Este texto foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP) ) entre 26 e 28 de julho de 2010
Se perguntássemos para qualquer pessoa comum o que é história, elarapidamente nos diria: É algo que trata de fatos e personagens que existiram num passado mais ou menos distante. Estes três elementos (fatos, personagens e passado), sem dúvida, entrariam em duas de cada três definições do que seria História. E, ao referir-se ao passado, pensavam-na como uma coisa morta, que nada poderia nos dizer e, muito menos, nos ensinar sobre o presente. O artigo é de Augusto Buonicore.
Augusto Buonicore
Publicado originalmente no site da Fundação Maurício Grabois
Não é sem razão que no interior das salas de aula a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu especialmente devido a pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los desvendar e, principalmente, transformar o mundo em que viviam.
O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é - algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os fatos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser coletados e colocados numa seqüência rigorosamente cronológica.
Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colméia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós e é, justamente, por isso que deve ser estudado e melhor compreendido.
No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exatas – não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) e o sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.
Para os antigos historiadores, de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas. Eles estavam permanentemente atrás dos fatos puros, duros e irretorquíveis.
Contra os fatos não há argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os fatos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vem à cena e em que ordem e em que contexto”. E conclui: “A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.
No entanto, o historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. Ele é membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Ele se encaixa no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.
É sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direcionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: De onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica - invenção de alguns socialistas inconformados.
A história não é a simples catalogação neutra de fatos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico) e, principalmente, interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos fatos podemos construir várias e contraditórias interpretações.
O historiador marxista tem como objetivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Compreender as inúmeras transformações por que elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objetos da história.
As sociedades humanas – como tudo no universo - estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se - conhecem várias fases – e depois fenecessem. Estas transformações podem se dar lentamente – quase imperceptíveis - ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias.
Mas, qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas de classes.
Por que os trabalhadores devem conhecer a história?
Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Este combate faz parte de uma luta ainda maior que é a travada pela conquista da hegemonia. Em outras palavras, a história é um espaço no qual grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.
Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas também buscaram se utilizar da chamada história universal para justificar a dominação e a exploração que exerciam sobre outros povos, considerados inferiores.
Vejamos alguns exemplos extremos destas tentativas: os faraós do Egito foram transformados em filhos diletos do Deus Rá, alguns governantes gregos e romanos também foram transformados em descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais sutis, menos perceptíveis, mas, nem por isso, menos perversos.
Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados - ou mesmo eliminados - deixaram poucos rastros na história. Os escravos do Egito, Roma e Grécia não nos deixaram nenhuma obra escrita, apresentando seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedades antigas foram homens livres e, na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores, também, aventuraram-se no oficio de escrever história. É claro que para enaltecer os seus próprios feitos e dos seus antepassados.
No Brasil, as coisas não podiam ser diferentes. Aqui, também, não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era lhes proibido freqüentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foram contados por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de inúmeros preconceitos e graves incompreensões.
Somente na segunda metade do século XIX, ao começar ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma outra história, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles. Pois, foi através dos óculos desses escritores que começamos conhecer um pouco mais da evolução e vicissitudes de nossa sociedade.
Não quero dizer com isto que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam uma interpretação exata da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessários para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiram ver a realidade por outros ângulos e acabar de montar o quebra-cabeça do que foi a nossa sociedade colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, o erro daqueles que pretendem generalizar as conclusões de Gilberto Freyre na sua obra magna.
Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe operária moderna, que sabia ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos -, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo, esta nova história (socialista) tendeu a ser marginal, fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as idéias dominantes são sempre – ou quase sempre – as idéias das classes dominantes.
Somente tendo a consciência que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistência desenvolvidas por seus antepassados - os ajudará travar, de maneira mais conseqüente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.
Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável -, e que o principal instrumento dessas mudanças é a ação consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores, como agente ativo de sua própria história.
Bibliografia
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983
(*) Esta é a primeira parte do texto que foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP)entre 26 e 28 de julho de 2010.
A memória histórica como campo da luta de classes (II)
Mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris. O artigo é de Augusto Buonicore.
Augusto Buonicore
D. Pedro I: um grito parado no ar
Vejamos agora como se constroem socialmente os fatos e personagens históricos, tendo como referência a história Brasil. Comecemos pelo processo de nossa independência política, que teve como um de seus momentos mais comemorados a proclamação ocorrida em 7 de setembro de 1822. É incontestável que esta data se constitui um típico fato histórico. Acredito que ninguém, atualmente, negaria isto ou proporia eliminá-lo do calendário cívico nacional.
É claro, as coisas não ocorreram como estão descritas na clássica pintura de Pedro Américo, que se encontra num lugar de honra no Museu do Ipiranga. A referida tela foi produzida muitas décadas depois do famoso grito de Dom Pedro. Seu objetivo, não declarado, era enaltecer os feitos do membro fundador da família real brasileira. Os Bragança, naquele momento, passavam por graves dificuldade. Estávamos em 1888, às vésperas da proclamação da República.
O jovem príncipe não estava montado num garboso cavalo e sim numa simples mula, ainda que real. A sua comitiva e os soldados não trajavam vistosas roupas de gala, mas vestes surradas e empoeiradas da longa viagem pelo interior do país. Contudo, foi aquela cena deixada pelo pintor paraibano que prevaleceu no imaginário da Nação. Para que isso ocorresse, foi preciso reproduzi-la nos livros didáticos, nos selos comemorativos e nos filmes apologéticos, como “Independência ou morte”. Na época, o trabalho de Pedro Américo custou uma pequena fortuna aos cofres públicos — cerca de 30 contos de réis.
Isto pouco importa, pois sabemos que a Independência do Brasil não se reduziu ao grito de D. Pedro dado às margens plácidas do Ipiranga. Ela foi um processo longo, que conheceu vários episódios desde a revolta de Bequimão (1684), a revolta de Felipe dos Santos (1720), a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1799) e a Insurreição Pernambucana (1817).
No 7 de setembro de 1822, proclamou-se a Independência, preservando a monarquia, a supremacia da Casa de Bragança e os interesses econômicos e sociais fundamentais das classes dominantes brasileiras: a escravidão, o latifúndio e o predomínio da agroexportação do açúcar e do café. O Brasil ficou sendo o único Estado monárquico da América Latina.
Mesmo assim, não se pode chamar o final do processo de independência de incruento. Isto significaria ficar apenas nas aparências e nos curvarmos perante uma visão liberal-conservadora da nossa história. A independência incruenta (ou moderadamente cruenta) se deu no eixo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, no qual a corte brasileira tinha influência e maior controle. Nas regiões Norte e Nordeste havia uma situação bem diferente. Historicamente, suas relações econômicas e políticas se davam mais com a Metrópole portuguesa do que com o Rio de Janeiro. Ali eram maiores as influências metropolitanas e existiam fortes laços de fidelidade das tropas e do comércio, em geral compostos de portugueses, em relação às cortes do além mar.
Em fevereiro de 1822, eclodiu a Guerra da Independência na Bahia. Ela se iniciou quando os baianos se recusaram a aceitar a indicação do novo governador de armas, o coronel lusitano Madeira de Melo. As tropas portuguesas atacaram os patriotas brasileiros e os derrotaram. A guerra somente foi vencida no dia 2 de julho de 1823. No Maranhão, a junta lusitana só seria derrotada mais de um ano após a Independência. Mais de oito mil brasileiros combateram o domínio português naquele estado. A mesma coisa aconteceu no Piauí. As mobilizações de tropas nesses episódios não ficaram aquém das ocorridas na guerra de independência da América espanhola.
Mesmo assim, a nossa independência não estava plenamente assegurada. Vários perigos pairavam sobre ela. A maioria deles vinculados à permanência de um príncipe português no trono brasileiro. Um monarca que vez ou outra exprimia sua fidelidade mais ao pai e a Portugal do que ao Brasil. Em 1831, depois de acirrados conflitos políticos e choques de ruas, D. Pedro renunciou ao trono. Para alguns historiadores, somente a partir deste momento a nossa independência política estaria concluída.
Como podemos ver, nosso processo de independência conheceu inúmeras datas e personagens. Contudo, poucos deles foram selecionados para compor a história oficial. Por longos anos, o título de herói da Independência acabou recaindo na polêmica figura de D. Pedro I. E o fato histórico determinante, o grito dado às margens do riacho do Ipiranga. Estas escolhas, decerto, nada tiveram de casual. Elas se enquadravam perfeitamente dentro dos interesses das classes dominantes brasileiras, que procuravam símbolos que melhor expressassem e servissem à sua dominação.
Os historiadores socialistas sabem que a nossa independência não foi obra de D. Pedro, nem aconteceu num único dia. Ela foi o resultado de inúmeras contradições, que se acumularam por séculos, entre os interesses da colônia e da metrópole. Ela não teria sido possível sem as inconfidências mineira e baiana; sem as guerras de libertação na Bahia, Maranhão e Piauí; sem os levantes populares em várias cidades, como os ocorridos no Rio de Janeiro, em 1831. Não se realizaria sem o pensamento e ação dos setores populares e radicais do movimento de independência, representados nas figuras de Frei Caneca e Cipriano Barata.
Tiradentes e a Inconfidência Mineira: obras republicanas
Vejamos um outro herói e outro fato histórico incontestáveis. Refiro-me ao Tiradentes e à Inconfidência Mineira. Neste caso, ao contrário do exemplo anterior, ninguém tem dúvidas sobre o heroísmo de Joaquim José da Silva Xavier. Ele é, incontestavelmente, o principal herói brasileiro. É o seu rosto, por exemplo, que consta da exposição do bi-centenário da independência da Argentina, na Casa Rosada – ao lado de Bolívar e San Martin.
Mas nem sempre foi assim e, talvez, nunca tivesse sido se não fosse pela decisão de alguns homens. Digo homens, pois as mulheres apitavam pouco naquele momento. O próprio termo inconfidência, literalmente, significa “ato de deslealdade, traição”. Portanto, era uma palavra com forte sentido pejorativo e que hoje soa quase como um elogio à rebelião.
Pelo menos até 1889 – ou seja, 100 anos depois da sua morte – o nome de Tiradentes não era digno de nenhuma menção governamental especial e muito menos objeto de comemorações cívicas. Era considerado mais louco do que herói. Afinal, eram os filhos e netos da rainha “Maria Louca” – que o mandou enforcá-lo e esquartejá-lo - que se encontravam no poder. Somente após a Proclamação da República Tiradentes passou a compor o panteão dos heróis nacionais e a data de sua morte – o 21 de abril – virou feriado nacional.
Mas por qual razão foi escolhida a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes como símbolos da luta pela liberdade da Pátria? Em primeiro lugar, por este movimento ter sido liderado por uma elite ilustrada – poetas, oficiais do exército, padres, funcionários públicos, empresários etc. Todos senhores brancos e respeitáveis membros da sociedade colonial. A favor de Tiradentes, o mais pobres deles, pesava o fato de ser republicano e, principalmente, alferes (equivalente ao posto de segundo-tenente). Sabemos que a República foi, em parte, obra de militares — como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamim Constant. Assim, eles puderam traçar um fio de continuidade entre suas idéias (e posição social) e as de Tiradentes.
A escolha, contudo, poderia ter recaído sobre outros movimentos, outros mártires. Dez anos depois da Inconfidência Mineira eclodiu uma tentativa de conjuração na Bahia – também chamada de Revolta dos Alfaiates. Como o próprio nome já indica, ela foi mais popular que a primeira. Por isso mesmo, causou maior impacto na colônia – colocando em alerta a própria metrópole. As bandeiras dos conjurados baianos eram: independência, República e Abolição da Escravidão. Ao contrário do que aconteceu em Minas Gerais, da Conjuração Baiana participaram muitos escravos e ex-escravos. Se a Inconfidência Mineira foi muito influenciada pela Revolução Americana, a Conjuração Baiana o foi pela Revolução Francesa, muito mais radical.
Quatro de seus líderes foram enforcados no dia 8 de novembro de 1799. Como Tiradentes, todos tiveram seus corpos esquartejados e seus membros decepados colocados em praça pública para que a população visse e não tentasse seguir o seu exemplo. Dos mortos, dois eram soldados rasos e dois alfaiates. Seus nomes: Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga das Virgens e João de Deus Nascimento. Nomes que quase desapareceram da história.
Zumbi e Palmares: arrombando a festa oficial
Por fim, vejamos um último herói e uma última data histórica. Refiro-me à Zumbi de Palmares e ao 20 de novembro, data provável de sua morte. Se hoje fizéssemos uma pesquisa sobre qual seria o principal herói brasileiro, sem dúvida o nome deste líder negro estaria disputando palmo a palmo os primeiros lugares com o alferes Tiradentes e com o imperador D. Pedro I. Nada mais justo.
Não precisamos dizer que este é um fenômeno novo. Era inconcebível que isto pudesse ocorrer durante o Império escravista (1822-1889) ou mesmo durante os primeiros anos da chamada República Oligárquica (1889-1930), quando ainda predominavam ideologias assentadas no “racismo científico”. Onde o ideal para o Brasil era de uma sociedade composta por uma população exclusivamente branca, sem mestiços ou negros. Numa sociedade elitista e racista, decerto não haveria lugar para heróis negros desta natureza.
Zumbi começou aparecer na história durante a campanha abolicionista – incorporado pelo seu setor mais radicalizado. Era uma das referências de um determinado movimento cívico, ao lado de outros personagens, como legendário líder dos escravos de Roma, Spartacus.
Seria preciso transcorrer quase cem anos da abolição da escravidão para que o nosso herói negro começasse a galgar os íngremes degraus do panteão da pátria. Coisa que só foi possível devido à crise da ditadura militar e a democratização do país, fortemente impulsionados pelos movimentos de contestação popular, no qual se incluía as organizações negras. A data provável da morte de Zumbi, atualmente, é feriado em vários estados e caminha para se tornar feriado nacional. É claro que o racismo difuso, ainda existente entre nós, buscará criar algumas dificuldades para que isso aconteça.
O “caso Zumbi” demonstra que a história continua aberta para a criação de novos heróis e fatos. Conforme novas forças sociais entram em cena, a história vai se ampliando, se democratizando. Operários, camponeses, negros, mulheres, homossexuais e idosos, corretamente, continuam tentando emplacar os seus heróis. Hoje são apenas deles, amanhã poderão ser de todos – ou, pelo menos, de quase todos.
Heróis regionais, de movimentos específicos, podem, em determinadas conjunturas, se tornarem heróis nacionais. Por outro lado, heróis nacionais podem decair na escala de prestígio social e entrar em recesso – ou mesmo se aposentarem definitivamente. Cito apenas os casos dos bandeirantes paulistas, da Princesa Isabel (a “redentora dos escravos”) e do Duque de Caxias – este último foi atingido em cheio pelo desgaste sofrido pelas Forças Armadas durante a Ditadura Militar, que imperou no país por 20 anos.
Diga-se, de passagem, que o nosso bom Duque só atingiu o status de grande herói durante outra ditadura, a do Estado Novo. Vargas estava em luta acirrada para reforçar os aspectos unitários da Nação contra o federalismo das elites regionais. O ato solene da queima das bandeiras estaduais e a ascensão do Duque fazem parte de um único e mesmo processo, e serviam aos mesmos interesses econômicos e sociais.
Quem e como se faz a história
Não são indiferentes para a sociedade os personagens e acontecimentos que escolhemos para compor a história. Estas escolhas não são neutras. São carregadas de significados e produzem efeitos na consciência do povo. Podem reforçar visões e práticas conservadoras ou progressistas. Nada mais falso que encarar a história como coleção de fatos puros (objetivos), distribuídos cronologicamente.
Por fim – e isso é o mais importante – devemos acentuar que mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris.
As mesmas questões servem para o Brasil. Será que sem Tiradentes ou D. Pedro I não teríamos conquistado a Independência? Sem Isabel, ou mesmo Zumbi, não haveríamos tido a Abolição? Sem Deodoro não existiria a República? É claro que mesmo sem estes personagens o Brasil ainda seria uma República independente e sem escravidão. No máximo, os ritmos e as formas das mudanças teriam sido diferentes, mas não seu sentido geral.
Portanto, mais importante do que escolhermos nossos fatos e heróis é definirmos como encaramos o próprio fazer histórico. A história pode ser vista como obra de “grandes personagens” – indivíduos sobre-humanos - ou como construção coletiva. Pode ser encarada como o resultado de dádivas - e acordos por cima - das elites (econômicas e políticas) ou como o fruto de lutas sociais abrangentes, que têm por base interesses materiais concretos. A história pode ser vista como grandes momentos – únicos e irrepetíveis – ou como processos contraditórios de variadas durações, que conhecem momentos de rupturas revolucionárias.
Bibliografia[/b}
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980.
BUONICORE, Augusto, Marxismo, história e revolução brasileira, Ed. Anita Garibaldi, SP, 2009
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978.
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991.
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998.
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988.
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988.
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980.
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981.
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983.
* Este texto foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP) ) entre 26 e 28 de julho de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
HISTÓRIA - BRASIL - Em 1977, tese provou papel dos EUA no golpe
DE SÃO PAULO
Uma das polêmicas de "Brasil: de Getúlio a Castello (1930-64)" é a participação do governo dos EUA no golpe de 1964. Quando saiu no Brasil, o livro de Skidmore negava a interferência da Casa Branca na deposição de João Goulart (1961-64) da Presidência.
O embaixador americano na ocasião, Lincoln Gordon (1913-2009), sempre negou, mas foi desmentido pelos fatos a partir de 1977.
Naquele ano, foi publicada a dissertação de mestrado de Phyllis R. Parker comprovando que a Casa Branca havia mandado uma força-tarefa naval em apoio ao golpe.
Segundo Moniz Bandeira, Phyllis pediu a desclassificação de documentos para sua pesquisa. Quando os recebeu, completa James Green, mostrou ao orientador, que viu neles uma "mina de ouro".
Ela tinha descoberto os papéis que comprovavam a intervenção dos EUA -negada com veemência até então. Era a chamada operação Brother Sam.
Segundo Green, a operação era um "plano militar de contingência desenvolvido pelo Pentágono e pela Casa Branca" deflagrada em março de 1964.
Se fosse necessário, ajudaria os golpistas de 64 a conter eventual resistência de Jango.
No Brasil, quem primeiro usou esses documentos foi o jornalista Marcos Sá Corrêa, afirma Bandeira, que por sua vez escreveu "O Governo João Goulart -As Lutas Sociais no Brasil (1961-1964)" com base nessa documentação. (LEk
Uma das polêmicas de "Brasil: de Getúlio a Castello (1930-64)" é a participação do governo dos EUA no golpe de 1964. Quando saiu no Brasil, o livro de Skidmore negava a interferência da Casa Branca na deposição de João Goulart (1961-64) da Presidência.
O embaixador americano na ocasião, Lincoln Gordon (1913-2009), sempre negou, mas foi desmentido pelos fatos a partir de 1977.
Naquele ano, foi publicada a dissertação de mestrado de Phyllis R. Parker comprovando que a Casa Branca havia mandado uma força-tarefa naval em apoio ao golpe.
Segundo Moniz Bandeira, Phyllis pediu a desclassificação de documentos para sua pesquisa. Quando os recebeu, completa James Green, mostrou ao orientador, que viu neles uma "mina de ouro".
Ela tinha descoberto os papéis que comprovavam a intervenção dos EUA -negada com veemência até então. Era a chamada operação Brother Sam.
Segundo Green, a operação era um "plano militar de contingência desenvolvido pelo Pentágono e pela Casa Branca" deflagrada em março de 1964.
Se fosse necessário, ajudaria os golpistas de 64 a conter eventual resistência de Jango.
No Brasil, quem primeiro usou esses documentos foi o jornalista Marcos Sá Corrêa, afirma Bandeira, que por sua vez escreveu "O Governo João Goulart -As Lutas Sociais no Brasil (1961-1964)" com base nessa documentação. (LEk
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Carta Maior - A memória histórica como campo da luta de classes (I)
Se perguntássemos para qualquer pessoa comum o que é história, elarapidamente nos diria: É algo que trata de fatos e personagens que existiram num passado mais ou menos distante. Estes três elementos (fatos, personagens e passado), sem dúvida, entrariam em duas de cada três definições do que seria História. E, ao referir-se ao passado, pensavam-na como uma coisa morta, que nada poderia nos dizer e, muito menos, nos ensinar sobre o presente. O artigo é de Augusto Buonicore.
Augusto Buonicore
Publicado originalmente no site da Fundação Maurício Grabois
Não é sem razão que no interior das salas de aula a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu especialmente devido a pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los desvendar e, principalmente, transformar o mundo em que viviam.
O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é - algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os fatos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser coletados e colocados numa seqüência rigorosamente cronológica.
Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colméia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós e é, justamente, por isso que deve ser estudado e melhor compreendido.
No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exatas – não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) e o sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.
Para os antigos historiadores, de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas. Eles estavam permanentemente atrás dos fatos puros, duros e irretorquíveis.
Contra os fatos não há argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os fatos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vem à cena e em que ordem e em que contexto”. E conclui: “A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.
No entanto, o historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. Ele é membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Ele se encaixa no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.
É sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direcionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: De onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica - invenção de alguns socialistas inconformados.
A história não é a simples catalogação neutra de fatos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico) e, principalmente, interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos fatos podemos construir várias e contraditórias interpretações.
O historiador marxista tem como objetivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Compreender as inúmeras transformações por que elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objetos da história.
As sociedades humanas – como tudo no universo - estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se - conhecem várias fases – e depois fenecessem. Estas transformações podem se dar lentamente – quase imperceptíveis - ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias.
Mas, qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas de classes.
Por que os trabalhadores devem conhecer a história?
Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Este combate faz parte de uma luta ainda maior que é a travada pela conquista da hegemonia. Em outras palavras, a história é um espaço no qual grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.
Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas também buscaram se utilizar da chamada história universal para justificar a dominação e a exploração que exerciam sobre outros povos, considerados inferiores.
Vejamos alguns exemplos extremos destas tentativas: os faraós do Egito foram transformados em filhos diletos do Deus Rá, alguns governantes gregos e romanos também foram transformados em descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais sutis, menos perceptíveis, mas, nem por isso, menos perversos.
Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados - ou mesmo eliminados - deixaram poucos rastros na história. Os escravos do Egito, Roma e Grécia não nos deixaram nenhuma obra escrita, apresentando seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedades antigas foram homens livres e, na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores, também, aventuraram-se no oficio de escrever história. É claro que para enaltecer os seus próprios feitos e dos seus antepassados.
No Brasil, as coisas não podiam ser diferentes. Aqui, também, não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era lhes proibido freqüentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foram contados por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de inúmeros preconceitos e graves incompreensões.
Somente na segunda metade do século XIX, ao começar ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma outra história, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles. Pois, foi através dos óculos desses escritores que começamos conhecer um pouco mais da evolução e vicissitudes de nossa sociedade.
Não quero dizer com isto que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam uma interpretação exata da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessários para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiram ver a realidade por outros ângulos e acabar de montar o quebra-cabeça do que foi a nossa sociedade colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, o erro daqueles que pretendem generalizar as conclusões de Gilberto Freyre na sua obra magna.
Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe operária moderna, que sabia ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos -, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo, esta nova história (socialista) tendeu a ser marginal, fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as idéias dominantes são sempre – ou quase sempre – as idéias das classes dominantes.
Somente tendo a consciência que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistência desenvolvidas por seus antepassados - os ajudará travar, de maneira mais conseqüente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.
Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável -, e que o principal instrumento dessas mudanças é a ação consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores, como agente ativo de sua própria história.
Bibliografia
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983
(*) Esta é a primeira parte do texto que foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP)entre 26 e 28 de julho de 2010.
Augusto Buonicore
Publicado originalmente no site da Fundação Maurício Grabois
Não é sem razão que no interior das salas de aula a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu especialmente devido a pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los desvendar e, principalmente, transformar o mundo em que viviam.
O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é - algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os fatos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser coletados e colocados numa seqüência rigorosamente cronológica.
Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colméia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós e é, justamente, por isso que deve ser estudado e melhor compreendido.
No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exatas – não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) e o sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.
Para os antigos historiadores, de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas. Eles estavam permanentemente atrás dos fatos puros, duros e irretorquíveis.
Contra os fatos não há argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os fatos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vem à cena e em que ordem e em que contexto”. E conclui: “A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.
No entanto, o historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. Ele é membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Ele se encaixa no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.
É sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direcionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: De onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica - invenção de alguns socialistas inconformados.
A história não é a simples catalogação neutra de fatos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico) e, principalmente, interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos fatos podemos construir várias e contraditórias interpretações.
O historiador marxista tem como objetivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Compreender as inúmeras transformações por que elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objetos da história.
As sociedades humanas – como tudo no universo - estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se - conhecem várias fases – e depois fenecessem. Estas transformações podem se dar lentamente – quase imperceptíveis - ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias.
Mas, qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas de classes.
Por que os trabalhadores devem conhecer a história?
Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Este combate faz parte de uma luta ainda maior que é a travada pela conquista da hegemonia. Em outras palavras, a história é um espaço no qual grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.
Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas também buscaram se utilizar da chamada história universal para justificar a dominação e a exploração que exerciam sobre outros povos, considerados inferiores.
Vejamos alguns exemplos extremos destas tentativas: os faraós do Egito foram transformados em filhos diletos do Deus Rá, alguns governantes gregos e romanos também foram transformados em descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais sutis, menos perceptíveis, mas, nem por isso, menos perversos.
Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados - ou mesmo eliminados - deixaram poucos rastros na história. Os escravos do Egito, Roma e Grécia não nos deixaram nenhuma obra escrita, apresentando seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedades antigas foram homens livres e, na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores, também, aventuraram-se no oficio de escrever história. É claro que para enaltecer os seus próprios feitos e dos seus antepassados.
No Brasil, as coisas não podiam ser diferentes. Aqui, também, não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era lhes proibido freqüentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foram contados por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de inúmeros preconceitos e graves incompreensões.
Somente na segunda metade do século XIX, ao começar ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma outra história, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles. Pois, foi através dos óculos desses escritores que começamos conhecer um pouco mais da evolução e vicissitudes de nossa sociedade.
Não quero dizer com isto que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam uma interpretação exata da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessários para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiram ver a realidade por outros ângulos e acabar de montar o quebra-cabeça do que foi a nossa sociedade colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, o erro daqueles que pretendem generalizar as conclusões de Gilberto Freyre na sua obra magna.
Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe operária moderna, que sabia ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos -, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo, esta nova história (socialista) tendeu a ser marginal, fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as idéias dominantes são sempre – ou quase sempre – as idéias das classes dominantes.
Somente tendo a consciência que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistência desenvolvidas por seus antepassados - os ajudará travar, de maneira mais conseqüente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.
Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável -, e que o principal instrumento dessas mudanças é a ação consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores, como agente ativo de sua própria história.
Bibliografia
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983
(*) Esta é a primeira parte do texto que foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP)entre 26 e 28 de julho de 2010.
sábado, 23 de outubro de 2010
1930 foi mais importante que 1889"
Historiador José Murilo de Carvalho vê na atual campanha política ecos do movimento que levou Vargas ao poder
Para estudioso da UFRJ, classe C atual difere da classe média de 1930 porque não tem de lutar contra oligarquias
MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO
"A Revolução de 1930 foi mais importante para o Brasil do que a Proclamação da República [1889]".
Assim o historiador José Murilo de Carvalho define o movimento armado ocorrido 80 anos atrás, que pôs fim à política do "café com leite" -em que Minas Gerais e São Paulo se revezavam no poder-, depôs o presidente da República, Washington Luís, e impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes -apoiado por São Paulo.
Em 3/11/1930, Getúlio Vargas assumia o governo provisório, e a República Velha chegava ao fim. O país desde então entraria num ciclo inédito de transformações políticas, sociais e econômicas -para o bem e para o mal.
Autor de importantes estudos sobre o tema, Carvalho, que leciona na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), crava: "A Revolução de 30 marcou o início do Brasil moderno".
Ele aponta como cruciais o início do processo de industrialização, a criação de legislações trabalhista e social, assim como a entrada do povo na política e o surgimento dos primeiros movimentos políticos e sociais desde a Abolição (1888).
Já Boris Fausto, historiador da Universidade de São Paulo e autor do livro canônico sobre o movimento, acrescenta que, pela primeira vez, "o trabalhador urbano apareceu como agente social reconhecido".
Como consequência, surge também o controle sindical e a constituição de "um discurso em relação à massa trabalhadora", diz Fausto.
Seu "A Revolução de 30" (Companhia das Letras), publicado em 1970, foi um divisor de águas nos estudos sobre o período. Ele desqualifica duas teses até então dadas como inatacáveis: as de que 1930 teria representado a subida ao poder tanto da burguesia industrial quanto das classes médias.
Para Fausto, essa compreensão errônea se deveu à importação de modelos interpretativos europeus -que "tentavam enquadrar o episódio revolucionário de 1930 no modelo da revolução burguesa".
Livro que confronta frontalmente esse ponto de vista é "O Silêncio dos Vencidos" (Brasiliense), do historiador da Universidade Estadual de Campinas Edgar de Decca.
Pioneiro ao adotar o ponto de vista das classes menos privilegiadas, defende que "a liderança populista de Getúlio Vargas reescreveu a história do Brasil" -ela "jogou para a sombra tudo aquilo que não lhe era conveniente".
Getúlio teria criado, segundo De Decca, um ponto zero na história do Brasil.
Para Fausto, essa visão não procede porque o trabalhador ainda não existia como "agente político". Indagado se o livro promove uma "superinterpretação", Fausto é taxativo: "Sim".
CLASSE C
Ambos divergem quanto ao papel das classes médias. "Foram elas que se beneficiaram da Revolução de 30", afirma De Decca, que também vê a atual ascensão da classe C como decorrência daquele processo.
Para ele, essa classe ingressa na sociedade tanto do ponto de vista do consumo quanto da cidadania. Carvalho, que também vê continuidade entre classes médias em 1930 e a classe C atual, é menos otimista: "A classe C de hoje não tem oligarquias contra as quais lutar e não é claro que tenha vontade de atuar politicamente. Busca antes uma inserção maior no mundo do consumo".
ONTEM E HOJE
Fausto aponta a inevitável "comparação entre lulismo e getulismo" hoje. Já Carvalho vê ecos de 1930 nas plataformas dos dois candidatos à Presidência -"o estatismo centralizante e o desenvolvimentismo econômico a qualquer custo".
Os três apontam a persistência do populismo na figura do "pai dos pobres" -"agora metamorfoseado em mãe", diz Carvalho.
De Decca pondera que, embora traço negativo da política nacional, o populismo "atende a um clamor em países onde a população pobre é ainda muito expressiva".
Desta vez, José Murilo de Carvalho se mostra mais otimista: "À medida que escapa da pobreza, espera-se que a classe C seja mais imune a apelos populistas".
SAIBA MAIS REVOLUÇÃO DE 30
O QUE FOI
Movimento liderado por Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul que depôs o presidente Washington Luís em 24/ 10 de 1930 e pôs fim à República Velha
CONTEXTO
O período da República Velha (1889-1930) foi marcado pela política do "café com leite", em que políticos apoiados por São Paulo ou Minas Gerais se revezavam na Presidência
Em 1929, lideranças de São Paulo rompem o acordo ao indicarem o paulista Júlio Prestes para suceder o governo de Washington Luís
Em reação, Minas lança Getúlio Vargas como candidato
ELEIÇÃO
Eleições de março de 1930 dão vitória a Júlio Prestes
Em julho do mesmo ano, João Pessoa, governador da Paraíba e vice na chapa de Vargas, é assassinado por um adversário político
O crime, somado à crise econômica de 1929 e às suspeitas de fraude nas eleições, cria clima favorável para o conflito
REVOLUÇÃO
Em 3 de outubro tem início a revolução. No dia 10, Vargas parte rumo ao Rio, capital nacional à época. Dias após a luta em Quatiguá (13/10), no Paraná, que foi sede do maior conflito armado da revolução, o governo de Washington Luís é deposto
CONSEQUÊNCIAS
Vargas assume em 3/11. A Era Vargas, que iria até 1945, estimula a expansão urbana e desloca o eixo produtivo da agricultura para a indústria, estabelecendo as bases da economia moderna
Figura polifônica de Getúlio tornará controversa qualquer biografia dele
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É IMPERATIVO GASTAR SOLA DE SAPATO, DIALOGAR COM DOCUMENTOS COBERTOS DE PÓ
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LIRA NETO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Em 1950, Rubens Vidal, repórter da extinta "Revista do Globo", desceu em um bimotor na fazenda Santos Reis, no interior do Rio Grande do Sul, com um propósito: pretendia escrever a biografia do ex-ditador que, deposto cinco anos antes, preparava-se para voltar ao Catete consagrado pelo voto popular.
"Sou contra biografias", rechaçou Getúlio. Tratava-se de meia verdade. Ele já abrira parte de seus arquivos para três biógrafos. O resultado foram três panegíricos lançados em pleno Estado Novo.
Getúlio não era contra biografias. Na verdade, era a favor. Mas, como todo biografado, desde que elas falassem bem dele. Dono de uma trajetória controvertida, Getúlio, voluntariamente ou não, forneceria ainda muitas histórias para os pretendentes a biógrafos, fossem apologistas ou detratores. Talvez seja o personagem histórico sobre o qual mais se escreveu no Brasil. A despeito disso, curiosamente, não há uma grande biografia sobre ele.
Quando propus a Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, uma biografia de Getúlio, sabia o tamanho da encrenca em que me metia.
Mas o apoio e o entusiasmo de Luiz foram tão animadores que comecei a trabalhar nisso um dia depois de apresentar à editora os originais de "Padre Cícero", meu livro mais recente.
Há um ano, com a ajuda de uma boa equipe de pesquisadores, venho mergulhando em arquivos públicos e privados, de várias partes do país e do exterior. Foram visitadas dezenas de instituições e consultadas até agora cerca de 50 mil páginas de documentos: cartas, processos judiciais, telegramas, despachos, bilhetes, periódicos, relatórios, memorandos e mensagens oficiais.
Há muito mais a pesquisar, escarafunchar, descobrir. Só o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, é um universo.
Como repórter, sempre acreditei na investigação rigorosa, paciente e excitante em fontes primárias, ferramenta básica do jornalismo.
Não se faz boa narrativa histórica sem isso, a menos que se pretenda chover no molhado, fazer revisão bibliográfica, pôr em linguagem corrente o que já se escreveu.
Basta dizer que todos os autores que já trataram da juventude de Getúlio, por exemplo, repetiram-se insistentemente, sem avançar muito, quando se referem a dois esqueletos no armário dessa história: Getúlio teria mesmo, aos 14 anos, matado um estudante paulista em Ouro Preto? E, nos anos 20, teria realmente assassinado um índio no interior gaúcho?
As pistas para as respostas estão nos inquéritos policiais e nos processos judiciais que permaneciam, até aqui, aparentemente intocados em arquivos em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. É imperativo gastar sola de sapato, decifrar caligrafias garranchudas, dialogar com documentos cobertos de pó. O grande desafio para qualquer biógrafo é construir, a partir desse amontoado de informações documentais, uma narrativa coesa e atraente.
No caso de uma história polifônica e fascinante como a de Getúlio, trata-se de uma equação ainda mais intrincada: tentar captar o biografado em todas as dimensões, articular a trajetória pública e os caminhos da vida privada, explorar o contexto em que agiu, transformou e, também, foi transformado.
Getúlio soube fabricar uma imagem pública sobre a qual até hoje se discute a partir de posições extremadas. Uma biografia dele, necessariamente, ainda que busque a isenção e o equilíbrio, também deverá ser alvo de controvérsias. "Sou contra biografias", diria, numa hora dessas, o próprio Getúlio.
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LIRA NETO é jornalista e autor de "Padre Cícero" (Cia. das Letras); atualmente prepara biografia de Getúlio Vargas
Para estudioso da UFRJ, classe C atual difere da classe média de 1930 porque não tem de lutar contra oligarquias
MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO
"A Revolução de 1930 foi mais importante para o Brasil do que a Proclamação da República [1889]".
Assim o historiador José Murilo de Carvalho define o movimento armado ocorrido 80 anos atrás, que pôs fim à política do "café com leite" -em que Minas Gerais e São Paulo se revezavam no poder-, depôs o presidente da República, Washington Luís, e impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes -apoiado por São Paulo.
Em 3/11/1930, Getúlio Vargas assumia o governo provisório, e a República Velha chegava ao fim. O país desde então entraria num ciclo inédito de transformações políticas, sociais e econômicas -para o bem e para o mal.
Autor de importantes estudos sobre o tema, Carvalho, que leciona na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), crava: "A Revolução de 30 marcou o início do Brasil moderno".
Ele aponta como cruciais o início do processo de industrialização, a criação de legislações trabalhista e social, assim como a entrada do povo na política e o surgimento dos primeiros movimentos políticos e sociais desde a Abolição (1888).
Já Boris Fausto, historiador da Universidade de São Paulo e autor do livro canônico sobre o movimento, acrescenta que, pela primeira vez, "o trabalhador urbano apareceu como agente social reconhecido".
Como consequência, surge também o controle sindical e a constituição de "um discurso em relação à massa trabalhadora", diz Fausto.
Seu "A Revolução de 30" (Companhia das Letras), publicado em 1970, foi um divisor de águas nos estudos sobre o período. Ele desqualifica duas teses até então dadas como inatacáveis: as de que 1930 teria representado a subida ao poder tanto da burguesia industrial quanto das classes médias.
Para Fausto, essa compreensão errônea se deveu à importação de modelos interpretativos europeus -que "tentavam enquadrar o episódio revolucionário de 1930 no modelo da revolução burguesa".
Livro que confronta frontalmente esse ponto de vista é "O Silêncio dos Vencidos" (Brasiliense), do historiador da Universidade Estadual de Campinas Edgar de Decca.
Pioneiro ao adotar o ponto de vista das classes menos privilegiadas, defende que "a liderança populista de Getúlio Vargas reescreveu a história do Brasil" -ela "jogou para a sombra tudo aquilo que não lhe era conveniente".
Getúlio teria criado, segundo De Decca, um ponto zero na história do Brasil.
Para Fausto, essa visão não procede porque o trabalhador ainda não existia como "agente político". Indagado se o livro promove uma "superinterpretação", Fausto é taxativo: "Sim".
CLASSE C
Ambos divergem quanto ao papel das classes médias. "Foram elas que se beneficiaram da Revolução de 30", afirma De Decca, que também vê a atual ascensão da classe C como decorrência daquele processo.
Para ele, essa classe ingressa na sociedade tanto do ponto de vista do consumo quanto da cidadania. Carvalho, que também vê continuidade entre classes médias em 1930 e a classe C atual, é menos otimista: "A classe C de hoje não tem oligarquias contra as quais lutar e não é claro que tenha vontade de atuar politicamente. Busca antes uma inserção maior no mundo do consumo".
ONTEM E HOJE
Fausto aponta a inevitável "comparação entre lulismo e getulismo" hoje. Já Carvalho vê ecos de 1930 nas plataformas dos dois candidatos à Presidência -"o estatismo centralizante e o desenvolvimentismo econômico a qualquer custo".
Os três apontam a persistência do populismo na figura do "pai dos pobres" -"agora metamorfoseado em mãe", diz Carvalho.
De Decca pondera que, embora traço negativo da política nacional, o populismo "atende a um clamor em países onde a população pobre é ainda muito expressiva".
Desta vez, José Murilo de Carvalho se mostra mais otimista: "À medida que escapa da pobreza, espera-se que a classe C seja mais imune a apelos populistas".
SAIBA MAIS REVOLUÇÃO DE 30
O QUE FOI
Movimento liderado por Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul que depôs o presidente Washington Luís em 24/ 10 de 1930 e pôs fim à República Velha
CONTEXTO
O período da República Velha (1889-1930) foi marcado pela política do "café com leite", em que políticos apoiados por São Paulo ou Minas Gerais se revezavam na Presidência
Em 1929, lideranças de São Paulo rompem o acordo ao indicarem o paulista Júlio Prestes para suceder o governo de Washington Luís
Em reação, Minas lança Getúlio Vargas como candidato
ELEIÇÃO
Eleições de março de 1930 dão vitória a Júlio Prestes
Em julho do mesmo ano, João Pessoa, governador da Paraíba e vice na chapa de Vargas, é assassinado por um adversário político
O crime, somado à crise econômica de 1929 e às suspeitas de fraude nas eleições, cria clima favorável para o conflito
REVOLUÇÃO
Em 3 de outubro tem início a revolução. No dia 10, Vargas parte rumo ao Rio, capital nacional à época. Dias após a luta em Quatiguá (13/10), no Paraná, que foi sede do maior conflito armado da revolução, o governo de Washington Luís é deposto
CONSEQUÊNCIAS
Vargas assume em 3/11. A Era Vargas, que iria até 1945, estimula a expansão urbana e desloca o eixo produtivo da agricultura para a indústria, estabelecendo as bases da economia moderna
Figura polifônica de Getúlio tornará controversa qualquer biografia dele
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É IMPERATIVO GASTAR SOLA DE SAPATO, DIALOGAR COM DOCUMENTOS COBERTOS DE PÓ
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LIRA NETO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Em 1950, Rubens Vidal, repórter da extinta "Revista do Globo", desceu em um bimotor na fazenda Santos Reis, no interior do Rio Grande do Sul, com um propósito: pretendia escrever a biografia do ex-ditador que, deposto cinco anos antes, preparava-se para voltar ao Catete consagrado pelo voto popular.
"Sou contra biografias", rechaçou Getúlio. Tratava-se de meia verdade. Ele já abrira parte de seus arquivos para três biógrafos. O resultado foram três panegíricos lançados em pleno Estado Novo.
Getúlio não era contra biografias. Na verdade, era a favor. Mas, como todo biografado, desde que elas falassem bem dele. Dono de uma trajetória controvertida, Getúlio, voluntariamente ou não, forneceria ainda muitas histórias para os pretendentes a biógrafos, fossem apologistas ou detratores. Talvez seja o personagem histórico sobre o qual mais se escreveu no Brasil. A despeito disso, curiosamente, não há uma grande biografia sobre ele.
Quando propus a Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, uma biografia de Getúlio, sabia o tamanho da encrenca em que me metia.
Mas o apoio e o entusiasmo de Luiz foram tão animadores que comecei a trabalhar nisso um dia depois de apresentar à editora os originais de "Padre Cícero", meu livro mais recente.
Há um ano, com a ajuda de uma boa equipe de pesquisadores, venho mergulhando em arquivos públicos e privados, de várias partes do país e do exterior. Foram visitadas dezenas de instituições e consultadas até agora cerca de 50 mil páginas de documentos: cartas, processos judiciais, telegramas, despachos, bilhetes, periódicos, relatórios, memorandos e mensagens oficiais.
Há muito mais a pesquisar, escarafunchar, descobrir. Só o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, é um universo.
Como repórter, sempre acreditei na investigação rigorosa, paciente e excitante em fontes primárias, ferramenta básica do jornalismo.
Não se faz boa narrativa histórica sem isso, a menos que se pretenda chover no molhado, fazer revisão bibliográfica, pôr em linguagem corrente o que já se escreveu.
Basta dizer que todos os autores que já trataram da juventude de Getúlio, por exemplo, repetiram-se insistentemente, sem avançar muito, quando se referem a dois esqueletos no armário dessa história: Getúlio teria mesmo, aos 14 anos, matado um estudante paulista em Ouro Preto? E, nos anos 20, teria realmente assassinado um índio no interior gaúcho?
As pistas para as respostas estão nos inquéritos policiais e nos processos judiciais que permaneciam, até aqui, aparentemente intocados em arquivos em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. É imperativo gastar sola de sapato, decifrar caligrafias garranchudas, dialogar com documentos cobertos de pó. O grande desafio para qualquer biógrafo é construir, a partir desse amontoado de informações documentais, uma narrativa coesa e atraente.
No caso de uma história polifônica e fascinante como a de Getúlio, trata-se de uma equação ainda mais intrincada: tentar captar o biografado em todas as dimensões, articular a trajetória pública e os caminhos da vida privada, explorar o contexto em que agiu, transformou e, também, foi transformado.
Getúlio soube fabricar uma imagem pública sobre a qual até hoje se discute a partir de posições extremadas. Uma biografia dele, necessariamente, ainda que busque a isenção e o equilíbrio, também deverá ser alvo de controvérsias. "Sou contra biografias", diria, numa hora dessas, o próprio Getúlio.
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LIRA NETO é jornalista e autor de "Padre Cícero" (Cia. das Letras); atualmente prepara biografia de Getúlio Vargas
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domingo, 3 de outubro de 2010
O declínio histórico da direita no Brasil
historiador José Carlos Ruy,
publicado no Vermelho:
A crônica das eleições desde 1945 revela a queda acentuada da votação dos partidos de direita no Brasil. Ela foi interrompida pela ditadura militar de 1964, mas retomada desde a redemocratização de 1985. Este texto apresenta alguns dados sobre essa trajetória no período de 1945 a 1982. As tendências atuais serão analisadas em um próximo texto.
A constatação de Golbery do Couto e Silva da existência de uma tendência “comuno-petebista” na eleição de 1962 que ameaçava o desempenho eleitoral dos conservadores, reflete dois aspectos da trajetória da direita. Um deles é o declínio eleitoral visível depois de 16 anos de vigência do regime da constituição de 1946. O outro é sua disposição permanente de enfrentar ameaças eleitorais pelo rompimento da legalidade.
Uma das marcas principais da política brasileira, no período compreendido entre as eleições de 1945 e a desde ano (2010) foi o conflito entre as forças democráticas, patrióticas e progressistas contra os partidários do atraso e do conservadorismo, aliados ao imperialismo.
Foi uma trajetória marcada pela resistência da direita ao avanço democrático. O golpe militar de 1964 e sua reforma política que permitiu a existência de apenas dois partidos, um da situação (Aliança Renovadora Nacional, Arena) e outro de oposição (Movimento Democrático Brasileiro, MDB) foi uma dessas iniciativas retrógradas. Houve outras. No final da década de 1970, quando, apesar das draconianas regras eleitorais da ditadura, o partido da oposição legal, o MDB, avançava eleitoralmente, o governo do general Figueiredo e seu chefe da Casa Civil, o próprio Golbery do Couto e Silva, impuseram nova reforma partidária com o objetivo de diluir o crescimento eleitoral do MDB.
Foram criados então cinco partidos políticos. A Arena transformou-se assim em Partido Democrático Social (PDS), o MDB acrescentou a palavra “partido” em seu nome e virou PMDB, e surgiram quatro novos partidos. Um, efêmero, foi o Partido Popular dos oposicionistas moderados, que logo se diluiu no PMDB;. Outro foi o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) da deputada Ivete Vargas. Brizola criou o Partido Democrático Trabalhista, o PDT, para recolher as bandeiras históricas do trabalhismo no período anterior à ditadura. Finalmente, a vanguarda sindical, lideranças do movimento social, religiosos progressistas e intelectuais de esquerda fundaram o Partido dos Trabalhadores, o PT.
Com o fim da ditadura, em 1985, nova acomodação fez surgir, entre as grandes agremiações, o Partido da Frente Liberal (PFL), formado pela dissidência do PDS que apoiou a eleição de Tancredo Neves. O PDS (hoje denominado Partido Progressista) entrou em uma rota de declínio acentuado, deixando de ser a vanguarda organizativa das direitas e dos conservadores.
Uma nova direita?
Nos embates daqueles anos, particularmente nas lutas da Constituinte de 1987-1988 e na eleição presidencial de 1989, ante a emergência de uma nova coalizão progressista e popular, capitaneada pelo PT e pelos comunistas, houve uma ampla rearticulação da direita e dos conservadores.
Aqueles anos foram marcados, internacionalmente, pela derrocada da experiência comunista na União Soviética e no leste europeu, e pela auto proclamada vitória final do capitalismo e triunfo momentâneo do neoliberalismo.
Naquela conjuntura, à frente do chamado “Centrão” (a aliança conservadora e neoliberal na Constituinte), o PFL destacou-se como a força dirigente da direita. No campo oposto, uma dissidência “ética” do PMDB criou o PSDB sob o lema do “choque de capitalismo” que anunciou na campanha presidencial de 1989. Os conservadores mantiveram o fôlego com a eleição de Fernando Collor de Mello para a Presidência da República, que durou pouco pois o presidente foi afastado, na metade de seu mandato, sob acusação de corrupção e à força de um verdadeiro levante das massas que varreu as ruas do país exigindo sua cassação.
O fracasso do primeiro presidente neoliberal deixou o PFL à beira do naufrágio, do qual foi salvo com a aliança que, na eleição de 1994, levou Fernando Henrique Cardoso à presidência da República. Com a vice-presidência da República e o controle de parte substancial do governo federal, o PFL se reergueu mas já não era mais o principal dirigente da direita, papel crescentemente assumido, desde então, pelo PSDB e seu programa neoliberal, antiestatista, antinacional e antipopular.
O declínio do PFL (agora sob o nome de Democratas, DEM), que se anuncia para a eleição atual, indica novo rearranjo na direita e uma alteração na representação partidária das forças conservadoras. Este pode ser o último suspiro das organizações partidárias que foram herdeiras diretas da ditadura militar de 1964, apontando para aquilo que já tem quem denomine como uma “nova direita”.
Mudanças estruturais
O Brasil viveu mudanças profundas depois da Segunda Grande Guerra. A industrialização se aprofundou, a população passou a viver principalmente nas cidades; as relações políticas acompanharam estas alterações.
O ponto de viragem ocorreu nas décadas de 1950 e 1960. O valor da produção industrial superou o da agropecuária em meados da década de 1950 e o país assistiu à urbanização de sua mão de obra. Em 1960 os empregados na agricultura ainda eram 54% do total e os trabalhadores urbanos eram 46%. Em 1969 a situação se inverteu; enquanto 43% permaneceram na agricultura, os urbanos passaram para 57% do total.
Refletindo essa mudança, a população passou a se concentrar nas cidades. Em 1960, 55% dos brasileiros moravam no campo, e 45% nas cidades. O ano de 1969 registrou outra inversão: 56% agora moravam nas cidades e 44% no campo.
Foi uma urbanização turbulenta, contraditória e não planejada, acumulando problemas como falta de infraestrutura, de transportes, de moradias – tudo isso agravado pelo empobrecimento imposto à população pelo arrocho salarial dos governos militares.
Mas foi uma mudança estrutural que se refletiu diretamente na vida brasileira, traduzindo-se num longo e acentuado declínio dos partidos conservadores, no crescimento da mobilização popular e da organização dos trabalhadores, e no avanço de sua luta que, naquela época, se expressava na exigência do desenvolvimento, do aumento dos empregos, da reforma agrária, da melhoria da renda e da conquista de governos democráticos para assegurar mudanças e modernizar o país em profundidade.
Analisando a situação francesa em meados do século 19, Marx observou (em As Lutas de Classe na França) que a ação independente do proletariado só pode amadurecer quando a burguesia industrial controla econômica e politicamente o poder, o que ainda não acontecia de forma cabal na França, que era governada pela burguesia financeira. Naquela situação, existiam tarefas históricas de sentido progressista mas de caráter burguês a serem cumpridas, e elas acabavam sendo incorporadas ao programa do proletariado.
A situação brasileira das décadas posteriores à Segunda Grande Guerra tem forte semelhança esta análise, com um elemento a mais: a influência do imperialismo e de seus aliados, que funciona como um freio ao desenvolvimento nacional pois fortalece os adversários da burguesia industrial, como o latifúndio e os setores financeiros da burguesia.
O programa político do proletariado, naquelas condições, não tinha ainda como alvo a passagem imediata para o socialismo, mas sim às condições necessárias para a construção da transição para esse sistema. O fortalecimento da economia, o desenvolvimento industrial, a afirmação da soberania nacional, a conquista de uma república democrática, eram fatores fundamentais que compunham o programa avançado. O debate, intenso, envolveu desde setores nacionalistas da burguesia até a divisão dos comunistas entre reformistas e revolucionários, como ocorreu depois da segunda metade da década de 1950.
A tendência “comuno-petebista” de Golbery
A tradução eleitoral daquelas contradições assinala o início do declínio dos partidos da direita. O núcleo conservador era formado pela União Democrática Nacional (partido principalmente do grande capital financeiro e das oligarquias anti-Vargas, sendo claramente pró-americano) e pelo Partido Social Democrático (que juntava principalmente as oligarquias agrárias e setores não financeiros das classes dominantes). Na eleição de 1945 UDN e PSD tiveram, juntos, 233 deputados federais; em 1962, mesmo com o aumento no número de vagas na Câmara dos Deputados, diminuíram para 209.
No campo da resistência antioligárquica e antiimperialista um dos principais papéis coube ao Partido Trabalhista Brasileiro, que tinha fortes ligações com os sindicatos e a burguesia nacionalista e se beneficiou eleitoralmente (diz o cientista político Gláucio A. D. Soares) com a ilegalidade do Partido Comunista do Brasil.
O PTB foi o único partido que cresceu em todas as eleições entre 1945 a 1962. Em 1945 elegeu 22 deputados, aumentando para 116 em 1962. Enquanto os dois principais partidos conservadores tiveram suas bancadas diminuídas, perdendo cerca de 10% de seus deputados desde 1945, o PTB multiplicou sua representação por cinco em apenas 16 anos.
A mesma tendência pode ser registrada na votação para as coligações partidárias, que foi muito acentuada em 1962, quando tiveram 5,8 milhões de votos (48% do total), contra 6,3 milhões dados aos partidos (52% do total). Essa votação foi entendida como um indício claro da fragilidade de um sistema partidário no qual, mesmo em declínio, os conservadores ainda conservavam fatia considerável da representação parlamentar, com espaço reduzido – embora crescente – para o avanço democrático e nacionalista. E a votação nas coligações refletia essa contradição: seis em cada dez dos deputados eleitos por alianças partidárias eram progressistas, contra quatro em cada dez que eram conservadores.
Golpe militar para salvar a direita
Esta foi a tendência “comuno-petebista” do eleitorado que Golbery do Couto e Silva recomendou que fosse estancada por “via não eleitoral” – isto é, pelo golpe.
O golpe salvador para os conservadores foi desferido no dia 1º de abril de 1964. João Goulart foi deposto e as organizações sindicais e do movimento popular e sua representação parlamentar foram esfaceladas.
Quando a ditadura impôs sua reforma partidária de 1965, acabando com os partidos existentes e criando apenas dois (numa tentativa artificial de copiar o sistema partidário dos EUA), a bancada progressista na Câmara dos Deputados havia sido, logo após o golpe, previamente podada de 40 deputados cujos mandatos foram cassados e os direitos políticos suspensos. Eles representavam quase 10% dos 409 deputados que formavam aquela casa parlamentar.
Com o que restou foram formados dois novos partidos, a Arena e o MDB, e os conservadores conseguiram assim a sobrevida que as urnas lhes negavam. As eleições realizadas sob o tacão militar ocorreram sob regras tão estritas que não podem ser rotuladas de democráticas. Elas foram instituídas para garantir o mando dos conservadores, mas conseguiram conter a onda progressista apenas por duas eleições (as realizadas em 1966 e 1970).
Na primeira, a Arena teve 8,7 milhões de votos para a Câmara dos Deputados (50% do total) e o MDB teve 4,9 milhões (28% do total). Em 1970 o massacre conservador foi ainda pior, num pleito realizado no auge da ditadura e no qual as forças políticas de oposição mais conseqüentes, entre elas o PCdoB, recomendaram o voto nulo em protesto contra o regime dos generais. Naquela eleição a Arena diminuiu seu percentual para 41% mas avançou o número de votos para 10,9 milhões, enquanto o MDB minguou ainda mais, ficando com 17% do total de votos, caindo em números absolutos para 4,7 milhões.
Durou pouco e já em 1974 os conservadores voltaram a divisar o espectro do declínio. Naquele ano, a Arena teve 11,9 milhões de votos (41% do total), e o MDB avançou para 11 milhões (38% do total), indicando uma tendência de crescimento que manteve em 1978 (14,8 milhões, ou 39% do total, contra 15 milhões da Arena, que ficou com 40%).
Este avanço das forças democráticas e progressistas levou a ditadura a promover, no final da década de 1970, uma segunda reforma partidária para continuar encenando suas eleições manipuladas e restritivas. Transformou então a Arena em PDS, que se defrontou com PMDB, o PT, o PDT e o PTB.
Mas a tendência de queda continuou e, em 1982, o PDS empatou com o PMDB com 17,7 milhões para cada um (tiveram, cada um, 39% dos votos), enquanto os demais partidos receberam 5,7 milhões (12% do total). Isto é, a oposição ultrapassou finalmente, em número de votos e em percentual, o partido da ditadura (23,4 milhões contra 17,7 milhões do partido dos generais).
Foi este PDS em declínio que enfrentou, ao lado do general Figueiredo, que ocupava a presidência da República, a campanha das Diretas Já e, depois, a campanha pela eleição do candidato das oposições, Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral da ditadura. Rachou, dando origem ao PFL, e perdeu a disputa, acentuando o rumo declinante hoje cristalizado no PP de Paulo Maluf. Mas esta é uma história para outra etapa da vida nacional
publicado no Vermelho:
A crônica das eleições desde 1945 revela a queda acentuada da votação dos partidos de direita no Brasil. Ela foi interrompida pela ditadura militar de 1964, mas retomada desde a redemocratização de 1985. Este texto apresenta alguns dados sobre essa trajetória no período de 1945 a 1982. As tendências atuais serão analisadas em um próximo texto.
A constatação de Golbery do Couto e Silva da existência de uma tendência “comuno-petebista” na eleição de 1962 que ameaçava o desempenho eleitoral dos conservadores, reflete dois aspectos da trajetória da direita. Um deles é o declínio eleitoral visível depois de 16 anos de vigência do regime da constituição de 1946. O outro é sua disposição permanente de enfrentar ameaças eleitorais pelo rompimento da legalidade.
Uma das marcas principais da política brasileira, no período compreendido entre as eleições de 1945 e a desde ano (2010) foi o conflito entre as forças democráticas, patrióticas e progressistas contra os partidários do atraso e do conservadorismo, aliados ao imperialismo.
Foi uma trajetória marcada pela resistência da direita ao avanço democrático. O golpe militar de 1964 e sua reforma política que permitiu a existência de apenas dois partidos, um da situação (Aliança Renovadora Nacional, Arena) e outro de oposição (Movimento Democrático Brasileiro, MDB) foi uma dessas iniciativas retrógradas. Houve outras. No final da década de 1970, quando, apesar das draconianas regras eleitorais da ditadura, o partido da oposição legal, o MDB, avançava eleitoralmente, o governo do general Figueiredo e seu chefe da Casa Civil, o próprio Golbery do Couto e Silva, impuseram nova reforma partidária com o objetivo de diluir o crescimento eleitoral do MDB.
Foram criados então cinco partidos políticos. A Arena transformou-se assim em Partido Democrático Social (PDS), o MDB acrescentou a palavra “partido” em seu nome e virou PMDB, e surgiram quatro novos partidos. Um, efêmero, foi o Partido Popular dos oposicionistas moderados, que logo se diluiu no PMDB;. Outro foi o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) da deputada Ivete Vargas. Brizola criou o Partido Democrático Trabalhista, o PDT, para recolher as bandeiras históricas do trabalhismo no período anterior à ditadura. Finalmente, a vanguarda sindical, lideranças do movimento social, religiosos progressistas e intelectuais de esquerda fundaram o Partido dos Trabalhadores, o PT.
Com o fim da ditadura, em 1985, nova acomodação fez surgir, entre as grandes agremiações, o Partido da Frente Liberal (PFL), formado pela dissidência do PDS que apoiou a eleição de Tancredo Neves. O PDS (hoje denominado Partido Progressista) entrou em uma rota de declínio acentuado, deixando de ser a vanguarda organizativa das direitas e dos conservadores.
Uma nova direita?
Nos embates daqueles anos, particularmente nas lutas da Constituinte de 1987-1988 e na eleição presidencial de 1989, ante a emergência de uma nova coalizão progressista e popular, capitaneada pelo PT e pelos comunistas, houve uma ampla rearticulação da direita e dos conservadores.
Aqueles anos foram marcados, internacionalmente, pela derrocada da experiência comunista na União Soviética e no leste europeu, e pela auto proclamada vitória final do capitalismo e triunfo momentâneo do neoliberalismo.
Naquela conjuntura, à frente do chamado “Centrão” (a aliança conservadora e neoliberal na Constituinte), o PFL destacou-se como a força dirigente da direita. No campo oposto, uma dissidência “ética” do PMDB criou o PSDB sob o lema do “choque de capitalismo” que anunciou na campanha presidencial de 1989. Os conservadores mantiveram o fôlego com a eleição de Fernando Collor de Mello para a Presidência da República, que durou pouco pois o presidente foi afastado, na metade de seu mandato, sob acusação de corrupção e à força de um verdadeiro levante das massas que varreu as ruas do país exigindo sua cassação.
O fracasso do primeiro presidente neoliberal deixou o PFL à beira do naufrágio, do qual foi salvo com a aliança que, na eleição de 1994, levou Fernando Henrique Cardoso à presidência da República. Com a vice-presidência da República e o controle de parte substancial do governo federal, o PFL se reergueu mas já não era mais o principal dirigente da direita, papel crescentemente assumido, desde então, pelo PSDB e seu programa neoliberal, antiestatista, antinacional e antipopular.
O declínio do PFL (agora sob o nome de Democratas, DEM), que se anuncia para a eleição atual, indica novo rearranjo na direita e uma alteração na representação partidária das forças conservadoras. Este pode ser o último suspiro das organizações partidárias que foram herdeiras diretas da ditadura militar de 1964, apontando para aquilo que já tem quem denomine como uma “nova direita”.
Mudanças estruturais
O Brasil viveu mudanças profundas depois da Segunda Grande Guerra. A industrialização se aprofundou, a população passou a viver principalmente nas cidades; as relações políticas acompanharam estas alterações.
O ponto de viragem ocorreu nas décadas de 1950 e 1960. O valor da produção industrial superou o da agropecuária em meados da década de 1950 e o país assistiu à urbanização de sua mão de obra. Em 1960 os empregados na agricultura ainda eram 54% do total e os trabalhadores urbanos eram 46%. Em 1969 a situação se inverteu; enquanto 43% permaneceram na agricultura, os urbanos passaram para 57% do total.
Refletindo essa mudança, a população passou a se concentrar nas cidades. Em 1960, 55% dos brasileiros moravam no campo, e 45% nas cidades. O ano de 1969 registrou outra inversão: 56% agora moravam nas cidades e 44% no campo.
Foi uma urbanização turbulenta, contraditória e não planejada, acumulando problemas como falta de infraestrutura, de transportes, de moradias – tudo isso agravado pelo empobrecimento imposto à população pelo arrocho salarial dos governos militares.
Mas foi uma mudança estrutural que se refletiu diretamente na vida brasileira, traduzindo-se num longo e acentuado declínio dos partidos conservadores, no crescimento da mobilização popular e da organização dos trabalhadores, e no avanço de sua luta que, naquela época, se expressava na exigência do desenvolvimento, do aumento dos empregos, da reforma agrária, da melhoria da renda e da conquista de governos democráticos para assegurar mudanças e modernizar o país em profundidade.
Analisando a situação francesa em meados do século 19, Marx observou (em As Lutas de Classe na França) que a ação independente do proletariado só pode amadurecer quando a burguesia industrial controla econômica e politicamente o poder, o que ainda não acontecia de forma cabal na França, que era governada pela burguesia financeira. Naquela situação, existiam tarefas históricas de sentido progressista mas de caráter burguês a serem cumpridas, e elas acabavam sendo incorporadas ao programa do proletariado.
A situação brasileira das décadas posteriores à Segunda Grande Guerra tem forte semelhança esta análise, com um elemento a mais: a influência do imperialismo e de seus aliados, que funciona como um freio ao desenvolvimento nacional pois fortalece os adversários da burguesia industrial, como o latifúndio e os setores financeiros da burguesia.
O programa político do proletariado, naquelas condições, não tinha ainda como alvo a passagem imediata para o socialismo, mas sim às condições necessárias para a construção da transição para esse sistema. O fortalecimento da economia, o desenvolvimento industrial, a afirmação da soberania nacional, a conquista de uma república democrática, eram fatores fundamentais que compunham o programa avançado. O debate, intenso, envolveu desde setores nacionalistas da burguesia até a divisão dos comunistas entre reformistas e revolucionários, como ocorreu depois da segunda metade da década de 1950.
A tendência “comuno-petebista” de Golbery
A tradução eleitoral daquelas contradições assinala o início do declínio dos partidos da direita. O núcleo conservador era formado pela União Democrática Nacional (partido principalmente do grande capital financeiro e das oligarquias anti-Vargas, sendo claramente pró-americano) e pelo Partido Social Democrático (que juntava principalmente as oligarquias agrárias e setores não financeiros das classes dominantes). Na eleição de 1945 UDN e PSD tiveram, juntos, 233 deputados federais; em 1962, mesmo com o aumento no número de vagas na Câmara dos Deputados, diminuíram para 209.
No campo da resistência antioligárquica e antiimperialista um dos principais papéis coube ao Partido Trabalhista Brasileiro, que tinha fortes ligações com os sindicatos e a burguesia nacionalista e se beneficiou eleitoralmente (diz o cientista político Gláucio A. D. Soares) com a ilegalidade do Partido Comunista do Brasil.
O PTB foi o único partido que cresceu em todas as eleições entre 1945 a 1962. Em 1945 elegeu 22 deputados, aumentando para 116 em 1962. Enquanto os dois principais partidos conservadores tiveram suas bancadas diminuídas, perdendo cerca de 10% de seus deputados desde 1945, o PTB multiplicou sua representação por cinco em apenas 16 anos.
A mesma tendência pode ser registrada na votação para as coligações partidárias, que foi muito acentuada em 1962, quando tiveram 5,8 milhões de votos (48% do total), contra 6,3 milhões dados aos partidos (52% do total). Essa votação foi entendida como um indício claro da fragilidade de um sistema partidário no qual, mesmo em declínio, os conservadores ainda conservavam fatia considerável da representação parlamentar, com espaço reduzido – embora crescente – para o avanço democrático e nacionalista. E a votação nas coligações refletia essa contradição: seis em cada dez dos deputados eleitos por alianças partidárias eram progressistas, contra quatro em cada dez que eram conservadores.
Golpe militar para salvar a direita
Esta foi a tendência “comuno-petebista” do eleitorado que Golbery do Couto e Silva recomendou que fosse estancada por “via não eleitoral” – isto é, pelo golpe.
O golpe salvador para os conservadores foi desferido no dia 1º de abril de 1964. João Goulart foi deposto e as organizações sindicais e do movimento popular e sua representação parlamentar foram esfaceladas.
Quando a ditadura impôs sua reforma partidária de 1965, acabando com os partidos existentes e criando apenas dois (numa tentativa artificial de copiar o sistema partidário dos EUA), a bancada progressista na Câmara dos Deputados havia sido, logo após o golpe, previamente podada de 40 deputados cujos mandatos foram cassados e os direitos políticos suspensos. Eles representavam quase 10% dos 409 deputados que formavam aquela casa parlamentar.
Com o que restou foram formados dois novos partidos, a Arena e o MDB, e os conservadores conseguiram assim a sobrevida que as urnas lhes negavam. As eleições realizadas sob o tacão militar ocorreram sob regras tão estritas que não podem ser rotuladas de democráticas. Elas foram instituídas para garantir o mando dos conservadores, mas conseguiram conter a onda progressista apenas por duas eleições (as realizadas em 1966 e 1970).
Na primeira, a Arena teve 8,7 milhões de votos para a Câmara dos Deputados (50% do total) e o MDB teve 4,9 milhões (28% do total). Em 1970 o massacre conservador foi ainda pior, num pleito realizado no auge da ditadura e no qual as forças políticas de oposição mais conseqüentes, entre elas o PCdoB, recomendaram o voto nulo em protesto contra o regime dos generais. Naquela eleição a Arena diminuiu seu percentual para 41% mas avançou o número de votos para 10,9 milhões, enquanto o MDB minguou ainda mais, ficando com 17% do total de votos, caindo em números absolutos para 4,7 milhões.
Durou pouco e já em 1974 os conservadores voltaram a divisar o espectro do declínio. Naquele ano, a Arena teve 11,9 milhões de votos (41% do total), e o MDB avançou para 11 milhões (38% do total), indicando uma tendência de crescimento que manteve em 1978 (14,8 milhões, ou 39% do total, contra 15 milhões da Arena, que ficou com 40%).
Este avanço das forças democráticas e progressistas levou a ditadura a promover, no final da década de 1970, uma segunda reforma partidária para continuar encenando suas eleições manipuladas e restritivas. Transformou então a Arena em PDS, que se defrontou com PMDB, o PT, o PDT e o PTB.
Mas a tendência de queda continuou e, em 1982, o PDS empatou com o PMDB com 17,7 milhões para cada um (tiveram, cada um, 39% dos votos), enquanto os demais partidos receberam 5,7 milhões (12% do total). Isto é, a oposição ultrapassou finalmente, em número de votos e em percentual, o partido da ditadura (23,4 milhões contra 17,7 milhões do partido dos generais).
Foi este PDS em declínio que enfrentou, ao lado do general Figueiredo, que ocupava a presidência da República, a campanha das Diretas Já e, depois, a campanha pela eleição do candidato das oposições, Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral da ditadura. Rachou, dando origem ao PFL, e perdeu a disputa, acentuando o rumo declinante hoje cristalizado no PP de Paulo Maluf. Mas esta é uma história para outra etapa da vida nacional
domingo, 26 de julho de 2009
ONDA MORALISTA E A MÍDIA DEMOTUCANA E GOLPISTA
A onda moralista que a mídia desencadeou contra o Senado e em especial contra determinado senador lembra a virulência udenista que, expressando a indignação das grandes parcelas da classe média, criaram as condições objetivas para o movimento militar de 1964.
CARLOS HEITOR CONY
Até quando?
RIO DE JANEIRO - Com a queda de Getulio Vargas em 1945, por deliberação dos militares que depuseram o ditador, o poder foi entregue ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro José Linhares.
Naquele tempo e como parte ainda hoje, o funcionalismo público em seus vários graus (federal, estadual e municipal) era a espinha dorsal do mercado de trabalho brasileiro.
Linhares nomeou muita gente, inclusive parentes, o que fez o Barão de Itararé reclamar: "Não são Linhares, são milhares".
Quando Juscelino nomeou um parente com o nome de sua família para importante cargo em estatal, o "Correio da Manhã" publicou o editorial mais curto da imprensa mundial: "O presidente da República nomeou um Kubitschek. Este nome não nos é estranho".
O nepotismo é hoje condenado e com razão, mas na escala dos crimes institucionais, é venial, como a gula, a preguiça e a soberba em relação aos pecados mortais, como o homicídio e o roubo.
Ao visitar José Alencar no hospital, Lula encontrou-se com o senador Eduardo Suplicy e reclamou: "Você está há 18 anos no Congresso e não sabia de nada?!" Não somente Suplicy, mas centenas de congressistas nesses últimos anos nada sabiam do que se passava nos porões da Câmara ou do Senado.
A onda moralista que a mídia desencadeou contra o Senado e em especial contra determinado senador lembra a virulência udenista que, expressando a indignação das grandes parcelas da classe média, criaram as condições objetivas para o movimento militar de 1964.
Lembro uma foto publicada do guarda-roupa da mulher de João Goulart com a legenda: "Até quando vamos suportar isso?"
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Zumbi dos Palmares
zoomzoomzoom, zunzunzun, ziriguidum
que zumbidos palmares são esses impossíveis de esquecer?
que zumbidos palmares são esses impossíveis de esquecer?
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