sábado, 21 de agosto de 2010

MAIS DUAS PIADAS DO PIG TODO-PODEROSO : ANJ negocia acordo com sites de busca

Objetivo é estimular internautas a ler notícias diretamente nas páginas on-line dos veículos que as produziram

Debate sobre direitos autorais e remuneração pelo uso do conteúdo de jornais domina último dia do congresso no Rio

CLAUDIA ANTUNES
DO RIO

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) está negociando com sites agregadores de informação, como Google e Yahoo!, medidas que estimulem os internautas a buscar as notícias diretamente nas páginas on-line dos veículos que as produziram.
O anúncio foi feito no último dia do 8º Congresso Brasileiro de Jornais, no Rio, pela presidente da entidade e diretora-superintendente do Grupo Folha, Judith Brito, em meio ao debate sobre como garantir o reconhecimento dos direitos autorais e a remuneração do conteúdo de empresas jornalísticas reproduzido por terceiros na web.
Segundo Brito, as negociações estão adiantadas com o Google News e devem ter resultados práticos até o fim deste ano. As medidas incluem a redução do tamanho dos textos exibidos nesses sites e o aperfeiçoamento dos critérios de indexação.
Também está sendo negociada a remuneração dos jornais por meio da colocação de anúncios nas páginas resultantes de buscas de notícias. Além disso, a ANJ estuda criar loja virtual para produtos digitais de associados.
"Nossa meta é buscar formas adequadas de remuneração de nossos conteúdos, para que o jornalismo de qualidade continue a desempenhar o papel que tem e sempre teve em sociedades democráticas", disse, ao abrir a mesa que discutiu "o futuro da mídia digital".
Os participantes da mesa deixaram claro que os jornais e essas empresas estão longe do entendimento completo.
O presidente da Associação Mundial de Jornais, Gavin O"Reilly, conclamou os jornais a não esquecer de que "conteúdo ainda é rei" no jornalismo. Ser capaz de ganhar com ele "é fundamental para sobreviver".
Por isso, disse, deve haver cobrança ativa do pagamento dos direitos autorais do material das empresas jornalísticas, como prevê a Declaração de Hamburgo, proposta por publishers europeus e assinada em 2009 pela ANJ.
Segundo O"Reilly, 1.600 jornais do mundo já adotaram o ACAP (sigla em inglês para Protocolo de Acesso Automático a Conteúdo), espécie de código de barra que pode ser lido por computadores de busca e distingue material passível ou não de ser reproduzido sem permissão. A intenção é levar os sites agregadores a negociar o uso de parte do conteúdo.
"Não significa sempre que precisam abrir o talão de cheques. Mas têm que pedir permissão. Se não o fizerem, vão encontrar cada vez mais conteúdo fechado", afirmou.
Os representantes do Yahoo! e do Google não confrontaram diretamente a legitimidade de cobrança de direitos autorais. Mas disseram que os jornais precisam fazer mais para conquistar um leitor que hoje tem mais opções.
"A busca relacionada à notícia visa facilitar o acesso das pessoas, não se apropriar do conteúdo. Qualquer um que não queira ser incluído pode nos procurar", disse André Izay, presidente do Yahoo! Brasil.
Rodrigo Velloso, diretor do Google para novos negócios na América Latina, afirmou: "Demonizar o Google está na moda, como já aconteceu com a Microsoft. Estamos abertos a discutir direitos autorais, mas vamos trabalhar juntos quando convier aos dois lados".
O'Reilly avaliou que o momento do acerto vai chegar e condenou o que descreveu como tática dos sites de escolher alguns veículos para negociar. "Se eles respeitam o direito autoral, vão ouvir o que as empresas estão dizendo, que precisa haver um diálogo e que não temos só que aceitar o que impõem."

Criação de conselho de autorregulamentação tem apoio de grupos de mídia
DO RIO

A criação do conselho de autorregulamentação dos jornais proposta pela diretoria da ANJ (Associação Nacional de Jornais) tem apoio dos principais grupos de mídia impressa do país e é considerada um modo de evitar qualquer controle externo.
O conselho de autorregulamentação terá por base código de ética do Estatuto da ANJ, segundo o diretor-presidente do grupo de comunicação RBS, Nelson Sirotsky.
Entre os compromissos das empresas jornalísticas listados no código estão a defesa da liberdade de expressão, dos direitos humanos, da democracia e da livre iniciativa, o sigilo das fontes de informação, a pluralidade de opinião e a correção de erros cometidos nas edições.
Segundo o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, as empresas que se associam à entidade -146 jornais- aderem a esse código. ""O que estamos discutindo é como torná-lo mais efetivo junto aos nossos associados, que mecanismos criar para ter uma adesão maior ao código."
Para Sirotsky, o conselho é um passo decisivo para ""sepultar qualquer outra tentativa de criação fora do nosso ambiente que possa prejudicar, violentar o exercício sagrado da nossa atividade, seja enquanto profissionais de jornalismo, seja enquanto empresas jornalísticas."
Na avaliação de Marinho, o controle externo poria em risco a atividade jornalística.
A presidente da ANJ, Judith Brito, reeleita ontem para mandato de mais dois anos, afirmou que o conselho vai examinar as demandas encaminhadas pela sociedade de práticas que estejam em desacordo com o código de ética da associação.
A ideia inicial é estabelecer sanções que possam ir de advertência até a desfiliação do jornal. Uma comissão interna está sendo montada para estruturar o modelo do conselho, que teria sete membros e participação de jornalistas e de representantes da sociedade.
O presidente da Aner (Associação Nacional de Editoras de Revistas), Roberto Muylaert, propôs que a discussão seja conduzida em conjunto pelas entidades.
A criação do conselho foi aprovada no âmbito da diretoria da ANJ, mas sua implantação terá de ser aprovada pelos associados, em assembleia. Segundo Sirotsky, o processo deve estar concluído até o final do ano.

CRÍTICAS
No debate sobre o tema ontem, no 8º Congresso Brasileiro de Jornais, o editor de opinião de "O Globo", Aluizio Maranhão, revelou preocupação ""com o imenso teor de subjetividade" da avaliação do produto jornalístico.
Para Maranhão, não é possível comparar o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, do qual é membro, com o que será criado para os jornais.
"A duvida é que entre os bons propósitos e a vida real, no exercício da autorregulação, há uma distância grande. Acho importante despertar a fera, mas talvez devamos discutir mais como fazer isso. O risco é amanhã a associação ser acusada de ser refratária às criticas. Virão as ONGs, os grupos políticos organizados. Cada demanda terá que ter uma resposta."
Sidnei Basile, vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Abril e vice-presidente da Aner, declarou que é preciso "ocupar o espaço jurídico" após a queda da Lei de Imprensa. "É mais ou menos como carregar uma carga de dinamite. Dá para ser feito, mas com enorme cuidado. O risco é imenso."

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