quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A arte de copiar

Fábrica no Paraná reproduz clássicos da história da arte, de Da Vinci e Velázquez a Klimt, e diz ser fiel até ao azul de Portinari

fsp

SILAS MARTÍ
ENVIADO ESPECIAL A PINHAIS (PR)

Três impressoras cospem no ritmo de um metro por hora telas cheias de cor, quase no mesmo tom das obras originais de Cândido Portinari.
Seria uma sala vazia, estéril e muda não fosse o zumbido dos cartuchos de tinta indo e vindo sobre o tecido. Funcionários usam lupas para checar os micropontos de cor, vendo se não destoam da tela feita à mão pelo artista.
Em Pinhais, polo industrial nos arredores de Curitiba, um galpão ao lado de uma fábrica de materiais hospitalares e um supermercado é uma espécie de ateliê mecanizado, sem artista.
Originais são fotografados ou escaneados, passam por um estudo de cor para impressão e saem emoldurados e embalados para lojas de decoração em todo o país.
Linhas de montagem estampam sobre tecido até mil reproduções por mês de obras de Portinari, Goya, Velázquez, Klimt e, agora, Da Vinci, mais recente aquisição do acervo de réplicas da Recriar, com "A Última Ceia".
Chegou em tempo para a temporada de vendas do fim do ano, em que esse tema sai mais do que todos os outros. Impressas sobre tela, copiando a textura dos originais, as réplicas têm preços que vão de R$ 90 até R$ 3.000.
Não é ilegal esse tipo de reprodução, mas o artista, se vivo, precisa estar de acordo -e muitas vezes recebe parte do lucro. No caso de autores mortos, o contrato é fechado com seus herdeiros ou com museus que têm os direitos de reprodução da imagem.
"Dá para imitar 98% do quadro, só que, a olho nu, para um leigo, vira 100%", diz o dono da fábrica, João Rezende, ex-exportador de pneus. "No exterior, é raro não encontrar ambientes decorados", diz. "Qualquer pires, xícara, parede tem arte."
De volta ao Brasil desde que abandonou o comércio de pneus, Rezende aperfeiçoou a técnica de estampar obras de arte em todo tipo de coisa, de chinelos de dedo a jogos de mesa.
"Tem artista que interpreta que arte aplicada em produto é muito bom, ajuda a valorizar o original", diz Rezende. "E jamais foi meu objetivo competir com o original, temos fins decorativos."

Técnica reproduz até os fios de cabelo
Acordo com a família Portinari obriga fábrica a copiar o azul que é assinatura do artista e também falhas e defeitos

Empresário argumenta com decoradores que obra do modernista é mais sofisticada do que natureza-morta e floral


DO ENVIADO A PINHAIS (PR)

Numa viagem de negócios, João Rezende foi parar na Coreia. Ficou impressionado com as fabriquetas de móveis que, num só dia, faziam centenas de cadeiras, empilhadas na frente da loja para vender ao cair da tarde.
"Mesmo naquele fundo de quintal, dava para fazer uma coisa sofisticada", lembra o dono da Recriar. "Tinha coisa dali indo para a Europa."
Ele aprendeu bem a ideia de juntar indústria e ilusão de exclusividade. Faz cinco anos que ele é o homem que copia. De Da Vinci a Portinari, seu negócio é reproduzir grandes clássicos da arte.
"Portinari é hoje 40% do nosso movimento", diz o empresário. "Mas o foco da decoração brasileira está sempre nos abstratos, florais."
Logo na entrada do galpão onde funciona a Recriar, reproduções dos personagens da Turma da Mônica e grandes cartazes publicitários denunciam outras esferas de atuação de sua fábrica.
Mas Rezende confia na lábia de vendedor para convencer decoradores que uma cópia de "O Lavrador de Café" é mais sofisticada que uma natureza-morta ou padrões geométricos genéricos.

RICO REAL E NOVO RICO
"Consumidor de arte no Brasil ou é rico real ou é novo rico", define o empresário. "Quem compra é classe B e a parte culta da classe C, gente que gosta de Louis Vuitton."
Portinari entrou então como grife nesse panteão de nomes bonitos e cobiçados.
Depois de fechar um acordo com João Cândido Portinari, o filho do artista, Rezende conta que passaram meses tentando imitar as cores originais de todas as telas.
"Tem um azul diferente das escalas de cor que existem", diz Rezende. "O azul Portinari ferrou a gente."
Essa é a cor que aparece nos azulejos da igreja da Pampulha, no céu profundo atrás de seus retirantes, nas paisagens de "Meninos Soltando Pipa", "O Mestiço" e no caixão de "Enterro", tela roubada há duas semanas de um museu em Pernambuco.
Na sala de impressão, funcionários comparam as cores do pano impresso com as da mesma tela num monitor.
Enquanto corrige problemas na obra de outros artistas, o acordo com os Portinari obriga a empresa a ser fiel até às falhas no quadro, como uma parte mofada ou um fio de cabelo grudado na tinta.
"Vem dar uma olhadinha nos pelos do Portinari, checar o DNA dele", provoca Rezende, apontando para o monitor. "Toda essa sujeirinha branca são itens de definição da imagem, eu consigo ver como a tinta se comportou."
Caso tenha se comportado mal, a impressão pode ser interrompida. Uma tela dobrada na mesa de centro da sala, reprodução da azulejaria da Pampulha, foi descartada por não ter o mesmo azul que está no catálogo raisonné, índice geral de obras do artista.
Cópias do catálogo estão espalhadas pela fábrica. Best-sellers do artista, como "O Lavrador de Café", têm provas impressas em versão menor, do tamanho de uma folha de papel. No canto, têm o número de controle da tela, igual ao que está no catálogo.
Rezende alinha todos eles sobre uma mesa para mostrar seu acervo de réplicas. "Esta é a maior mostra de Portinari de todos os tempos", anuncia, orgulhoso.
E, se dependesse dele, Portinari saltaria dos quadros para adereços de mesa, porta-chaves e outros objetos.
Na fábrica, há até testes de telas do artista em suportes de prato, mas a família ainda não liberou a produção.
Talvez por achar que andam levando ao pé da letra demais a frase de Portinari que dizia que "pintura que se desliga do povo não é arte".

Catálogo ajuda na luta contra os falsários
SILAS MARTÍ
ENVIADO A PINHAIS (PR)

Toda imperfeição, sujeira, parte mofada ou fio de cabelo das telas de Portinari aparece na reprodução que sai da fábrica rumo às lojas de decoração. É quase tudo igual, com uma exceção: nenhuma tela é reproduzida no seu tamanho original.
Essa é uma das exigências da família do artista para controlar a falsificação de suas obras ou evitar que uma dessas reproduções passe por original numa venda a algum desavisado.
Ajuda a combater os falsários a publicação de um catálogo raisonné do artista, um registro geral de toda a sua produção. No caso de Portinari, é um volume que vem sendo compilado ao longo dos últimos 30 anos.
"Qualquer obra que não esteja no catálogo é suspeita", afirma João Cândido Portinari. "Essa publicação é um freio às falsificações."
Tarsila do Amaral é outra artista vítima de falsários, em especial de seus desenhos, que acabou sendo preservada pela publicação de seu catálogo raisonné.
"Isso acaba evitando muitos absurdos", diz Aracy Amaral, crítica de arte que trabalhou no volume sobre a modernista


(SILAS MARTÍ


Exposição explica falsificações em 41 telas
Mostra na National Gallery, em Londres, revela erros em atribuir obras a artistas famosos
fsp
VAGUINALDO MARINHEIRO
DE LONDRES

O que aparelhos de raios x, computadores e processos com nomes complicados têm a ver com arte? Uma exposição na National Gallery, em Londres, quer provar que isso tem muito a contribuir para nossa apreciação das obras dos séculos 15, 16 e 17.
"Close Examination: Fakes, Mistakes and Discoveries" usa 41 quadros do acervo da galeria para mostrar exatamente o que o nome da exposição anuncia: falsificações, erros e descobertas.
Em seis salas, há obras e explicações técnicas de como, por exemplo, uma inocente mulher de cabelos castanhos, na janela, foi, na realidade, pintada como uma loira com ares lascivos.
A revelação aconteceu por acaso. O quadro "Mulher na Janela" passava por restauração quando se descobriu que o que parecia ser um desgaste da tinta era, na verdade, a pintura original.
Uma das hipóteses para a alteração é que o quadro tenha sido vítima do conservadorismo da época vitoriana. Tampouco se sabe o autor do original ou das alterações.

NOVAS TECNOLOGIAS
O curador da mostra é Ashok Roy, diretor do departamento científico da National Gallery. O departamento foi criado em 1942 e hoje conta com sete profissionais.
Roy afirma que este é um trabalho contínuo, uma vez que, a cada dia, novas técnicas se tornam disponíveis, sendo, muitas vezes, necessário refazer a investigação com o auxílio delas.
No processo, o departamento científico analisa os pigmentos usados nas obras -o que pode determinar se um quadro é do século 15 ou uma cópia recente-, as técnicas usadas por um determinado pintor -o que também determina falsificações- e até se foram pintadas na Espanha ou na Itália.

VELÁZQUEZ FALSO
Por exemplo, a exibição mostra uma tela que, por muitos anos, foi atribuída a Velázquez. Ela mostra um soldado morto e era considerada uma obra-prima do pintor. Tanto que serviu de inspiração para Edouard Manet pintar "O Tesoureiro Morto".
A ciência deu seu veredicto: não era obra do espanhol; ela deve ter sido pintada na Itália e é quase impossível conhecer, hoje, seu autor.
Há ainda o caso de duas telas adquiridas no fim do século 19 como sendo de Sandro Botticelli. Uma mostra Vênus com três crianças. A outra é o famoso quadro "Vênus e Marte". O primeiro custou mais caro, mas "Vênus e os Três Meninos", rebatizado de "Uma Alegoria", é de um contemporâneo de Botticelli, não do mestre florentino.
Colocadas lado a lado, hoje, parece fácil saber que uma é obra de um gênio e que a outra é um pastiche. Mas, antes de a tecnologia nos dar essa certeza, o quadro enganou muita gente


Ciclo sobre crenças aborda crise na política
Organizada por Adauto Novaes, série de palestras começa na quinta em SP

Quarta edição do evento "Mutações" terá conferências com Sergio Paulo Rouanet, Antonio Cicero e estrangeiros

DO RIO

Desde "O Silêncio dos Intelectuais", realizado em 2005 sob o calor das denúncias do mensalão, os ciclos de conferências organizados pelo filósofo Adauto Novaes não são observados em função dos acontecimentos do momento.
Mas é enganoso pensar que "Mutações - A Invenção das Crenças", que começa na próxima quinta-feira em São Paulo no Sesc Vila Mariana -e passará pelo Rio, por Belo Horizonte e por Brasília-, não tangencie temas como a campanha presidencial.
"A crença na política é fundamental, mas ela está em baixa hoje. O que vemos hoje é uma discussão sobre quem será o melhor gestor, o melhor administrador. Não se apresentam plataformas políticas. É uma luta pelo poder. E essa não é uma situação particular do Brasil", diz Novaes.
O francês Jean-Pierre Dupuy, por exemplo, falará de "Sagração da Economia, Violência sem Limite". A crença excessiva na economia seria uma das responsáveis pela queda da política.
A crença que mais será abordada pelos 22 conferencistas é na ciência e na tecnologia. O tema já predominou nos outros três ciclos da série "Mutações", realizados entre 2007 e 2009 -o do ano passado, "A Experiência do Pensamento", sairá em livro neste ano.
"Acredita-se hoje na ciência e na tecnologia como se pudessem desvendar todos os segredos do homem e do mundo", ressalta Novaes.

CIÊNCIA-PODER
Ele afirma, no entanto, que não há nenhuma "visão doutrinária da anticiência". Isto soaria absurdo diante de tantos avanços, como as pesquisas com células-tronco.
"Fazemos uma distinção entre ciência-saber e ciência-poder. Queremos discutir os limites da ciência-poder. A ciência faz coisas, mas não costuma pensar sobre elas."
A expressão "vazio do pensamento" é recorrente na fala de Novaes e base de "Mutações". Num tempo em que predomina a técnica e em que tudo se dá em extrema velocidade, pensar se tornou um luxo tido como dispensável.
Sobram as opiniões, fartamente distribuídas nos meios de comunicação.
Marcelo Coelho, colunista da Folha, abordará o assunto e a ideia de "formadores de opinião" na conferência "Opinião e Crença".
É significativo que o ciclo comece com uma palestra que trate de arte: José Miguel Wisnik combinará Fernando Pessoa, Machado de Assis e Guimarães Rosa em "A Crença no Espelho".
O conceito de "coisas vagas" (arte, filosofia etc.), do escritor francês Paul Valéry (1871-1945), é um dos fundamentos do ciclo.
A razão, que foi imaginada no século 18, pelo iluminismo, como capaz de superar todas as crenças, estará em conferências como as de Sergio Paulo Rouanet e do ensaísta e colunista da Folha Antonio Cicero.
O franco-tunisiano Abdelwahab Meddeb, que falará de islamismo, e o francês François Jullien, que abordará as relações entre crenças orientais e ocidentais, são as novidades entre os palestrantes. (LUIZ FERNANDO VIANNA


ANÁLISE

Formação de jovens deixou de fora o "samba duro" de Zeca
LUIZ FERNANDO VIANNA
DO RIO

Embora um tanto vagas, as frases de Zeca Pagodinho reabrem um mal-estar que parecia esquecido.
Quando uma nova geração de intérpretes começou a surgir na Lapa carioca, no final da década de 90, era praticamente impossível ouvi-los cantando a turma de Zeca -Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Fundo de Quintal.
Fascinados pela descoberta dos antigos sambistas, eles privilegiavam os mestres ligados a escolas de samba (Cartola, Candeia, Dona Ivone Lara), à Lapa (Wilson Batista, Geraldo Pereira), à tradição do samba urbano (Noel Rosa, Ary Barroso), chegando no máximo a Paulinho da Viola e João Nogueira.
Depois de se formarem nessa escola, alguns deles pularam para compor os próprios sambas, caso da pioneira Teresa Cristina.
Um ou outro -até mais de São Paulo do que do Rio- pode torcer o nariz para o sucesso de Zeca e para a produção industrial de Arlindo, vendo-os como comerciais. Mas não é o caso da maioria.
O chamado pagode surgiu no início dos anos 80, na quadra do bloco Cacique de Ramos, a partir de rodas feitas após jogos de futebol nas quais o alvo principal era a empolgação.
Como ninguém, a princípio, planejava construir carreira, havia espaço para novidades como o repique de mão (por Ubirany, um dos criadores do Fundo de Quintal), o tantã (por Sereno) e o banjo com afinação de cavaquinho (por Almir Guineto), que contribuíram para reincendiar o samba, não só acelerando um pouco o andamento mas revitalizando o partido-alto -os versos improvisados, as rodas, os desafios.
A maioria dos jovens, não suburbanos, prefere algo mais suave, mais salão do que quintal, não o "samba duro" que Zeca exalta

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