quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Com petista na frente, Marina elege Serra como alvo

FERNANDO DE BARROS E SILVA
COLUNISTA DA FOLHA

Houve, de fato, debate. A discussão foi menos embrulhada do que se costuma ver na campanha e do que o público em geral esperava.
Dois fatores, associados, devem ter contribuído: a internet é um veículo que intimida menos do que a TV. Os candidatos ali, apesar de todos os cuidados, pareciam bem menos robotizados.
Além disso, o momento da campanha -com Dilma assumindo a liderança isolada- exigia algum atrito, com as peças se reposicionando.
Serra e Dilma fizeram o seu duelo. Ele a chamou de "ingrata" e tentou desqualificá-la, dizendo que fazia questões sopradas por assessores.
Mas Dilma não ficou na defensiva. "Discutir saneamento é algo que você não deveria tentar", disse ao tucano, numa das várias refregas.
A novidade política do debate, porém, ficou por conta da estratégia de Marina. Desde início do encontro Folha/ UOL, a candidata verde fustigou o tucano -"como nunca antes nesta eleição".
Fez isso de várias maneiras. Veladas, ao tratá-lo com formalismo irônico ("governador Serra", "o senhor" etc.). Mas também explicitamente, ao ridicularizar a "favela virtual" de seu programa eleitoral na TV ou insistir no mau exemplo que os tucanos dariam na condução da educação em São Paulo.
Foi tão ostensiva que, já no primeiro intervalo, um petista graúdo festejava: "Isso é efeito da pesquisa; ela só vê chance de crescer em cima do Serra". Sim, é isso, mas talvez seja também um sinal de que Marina escolheu seu lado em eventual 2º turno.
Do meio para o final do debate, Marina ajeitou seu discurso e fez críticas à "infantilização" da política patrocinada por Lula e Dilma ("pai dos pobres", "mãe do PAC", gugu-dadá etc.). A inflexão não foi suficiente para desfazer a sensação inicial, de que Serra era seu alvo.
Dilma, no final, fez jus ao reparo da senadora. Na sua fala de despedida, ela lia o papel e falava, falava e lia, lia e falava, aos trancos, como se colasse a própria emoção.
Sim, era um debate pela internet. Mas na internet a gente também consegue ver.

Marqueteiro pede a Serra que baixe o tom
Faltando cerca de 30 minutos para o fim do debate, Gonzalez recomenda a tucano que amenize ataques a Dilma

Publicitário do PT faz elogios ao desempenho de Marina, que recebeu conselhos de sua equipe dos tempos de governo

DE SÃO PAULO

No intervalo do quarto para o quinto bloco do debate, o assessor de comunicação de José Serra (PSDB), Marcio Aith, passa o celular para o candidato. Na linha, está o marqueteiro Luiz Gonzalez, que acompanha à distância o desempenho de seu cliente.
A recomendação, já na reta final do confronto, é clara: hora de baixar o tom, já significativamente mais elevado do que o do debate na Band, semana passada.
Era o primeiro contato entre os dois. Serra seguiu o conselho, assim como a dica de sua assessoria para falar de internet, de forma a atingir o público alvo do debate.
Antes, o tucano já falara ao telefone com a mulher, Monica Serra, com a filha Verônica e com uma das netas. A todos, perguntou: "Como você acha que eu fui?".
Os conselhos que se seguiam à pergunta tinham como fio condutor o tom e os gestuais de Serra. "A temperatura está boa", cochichou Felipe Sotello, assistente de Gonzalez, um bloco antes da ligação do marqueteiro.
Quanto ao conteúdo, tudo foi preparado com antecedência. Um caderno dividido em quatro guias: "Dilma", "Marina", "internautas" e "repertório", este último para "refrescar a memória" de Serra, segundo Sotello, autor do levantamento.
Na bancada, o tucano tinha ao alcance das mãos uma armadura para resistir a eventuais ofensivas nas perguntas de adversários, internautas e jornalistas.
Tratava-se de um resumo com números e tabelas sobre, entre outros temas espinhosos, enchentes em SP e a epidemia de dengue que coincidiu com sua passagem pelo Ministério da Saúde. Não precisou usar.

MARINA
Nos intervalos, Marina Silva (PV) era cercada pelo staff dos tempos do Ministério do Meio Ambiente, incorporado à campanha: João Paulo Capobianco, Tasso Azevedo e Bazileu Margarido.
O marqueteiro Paulo de Tarso Santos estava na plateia, mas não subiu ao palco em nenhum momento.
Nos bastidores, atrás do palco, quem referendava o desempenho da candidata era o marqueteiro João Santana, da rival Dilma Rousseff (PT). Em dois momentos, elogiou o desempenho da candidata verde.
O primeiro deles quando Marina lançou uma frase de efeito sobre doações de campanha: "Se não foi por amor, que seja com pudor".
"Excelente a minha candidata, não?", perguntou Capobianco, coordenador da campanha, a Santana

Pergunta sobre câncer de Dilma desagrada a petistas e tucanos
DE SÃO PAULO

A pergunta sobre a saúde de Dilma Rousseff (PT), que no ano passado descobriu e tratou um linfoma (câncer do sistema linfático), desagradou petistas e tucanos.
Ao final do debate, a candidata disse que achou "um pouco deselegante" ser questionada sobre o tema, mas afirmou que as pessoas poderiam "ficar descansadas" com sua saúde.
"Ninguém com alguma doença segura uma campanha eleitoral como eu seguro, é do Oiapoque ao Chuí", afirmou ela. "Numa campanha, a gente escala todo dia o [monte] Everest."
No momento em que a pergunta foi feita, os coordenadores da campanha de Dilma acusaram a irritação.
Antonio Palocci levantou e foi conversar com o coordenador da campanha de Marina Silva (PV), João Paulo Capobianco -a saúde é também um ponto frágil da candidata verde.
Impaciente, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, se mexia na cadeira.
Na fileira de trás, entre os tucanos, a reclamação foi imediata: consideraram a pergunta sobre o drama pessoal da petista positiva para a adversária.
Ao final do evento, mais relaxados, os petistas se disseram satisfeitos com a resposta de Dilma. Para eles, Dilma não deixou dúvidas de que a saúde está em dia e aproveitou para defender a desmistificação do câncer.
"Assim ela esclareceu de uma vez todas o tema", afirmou Palocci.
A equipe não estava preparada para perguntas sobre sua saúde, mas na manga estavam respostas para outros temas espinhosos.
Entre eles, a participação dela em grupos que atuaram na luta armada. Um assessor de Dilma portava no laptop um arquivo de mais de 40 páginas com dados para subsidiar a petista.
Já estava pronto o discurso a ser usado por Dilma em caso de uma "acusação de terrorista". Na bancada, a candidata tinha uma versão enxuta do arquivo: "Aquela era uma época muito difícil. Tudo era proibido. Vivíamos nas trevas", dizia o texto.

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