quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Estudos traçam 1º mapa da vida do mar

Censo da Vida Marinha identificou cerca de 230 mil espécies em 25 áreas do oceano, incluindo águas do Brasil

Crustáceos, os "insetos" do mar, são um quinto dos seres vivos; pesca predatória e destruição de habitat ameaçam

Jamstec/Divulgação

Água-viva que nada a 800 m de profundidade se ilumina como alerta contra predador

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR INTERINO DE CIÊNCIA

Um pacotão de pesquisas de acesso livre, divulgadas ontem, sintetiza o esforço de dez anos para tornar a biodiversidade dos oceanos menos misteriosa. O resultado, porém, está mais para uma medida do desconhecimento humano sobre os mares.
E isso porque a equipe internacional do Censo da Vida Marinha conseguiu mapear cerca de 230 mil espécies em 25 áreas dos mares. O buraco, contudo, é mais embaixo: entre um quarto e três quartos dos seres vivos marinhos, dependendo da região, ainda precisa ser batizados pela ciência, estimam os pesquisadores.
Apesar disso, algumas conclusões já podem ser esboçadas. Em dez artigos na revista científica "PLoS One" (www.plosone.org), a equipe coordenada por Mark Costello, da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), mostra, por exemplo, que bichos como focas, baleias e gaivotas são só a ponta do iceberg -2% da diversidade- da vida marinha.

CAMARÕES NO COMANDO
Os verdadeiros senhores dos mares são camarões, caranguejos e seus parentes menos conhecidos -os crustáceos, equivalentes a um quinto de tudo o que nada, flutua ou rasteja por lá.
"É o esperado", afirma Fábio Lang da Silveira, zoólogo da USP e gestor do Obis, banco de dados sobre a localização de espécies do censo, na região do Atlântico Tropical.
"Assim como em terra firme os insetos são os mais diversificados, acontece a mesma coisa no oceano com os crustáceos, os quais, tal como os insetos, também são artrópodes", explica ele.
Por enquanto, as áreas consideradas campeãs de biodiversidade são as águas da Austrália e do Japão, ambas com 33 mil espécies. O Brasil tem cerca de 9.000 espécies registradas, um pouco menos que a média.
Outra constante, independentemente do oceano visitado: as ameaças. As principais são o excesso de pesca e a destruição de habitats


Dados sobre o Brasil devem vir em outubro


Uma das ausências no pacote de artigos recém-publicados sobre o Censo da Vida Marinha envolve as águas da América do Sul e, em especial, as da plataforma continental do Brasil.
"Estive envolvido mais no trabalho de formiguinha do registro de espécies, e não no de síntese. O que aconteceu é que alguns pesquisadores ainda não entregaram suas contribuições. Devemos ter tudo isso em outubro", diz Fábio Lang da Silveira, da USP, referindo-se à conferência em Londres que deve encerrar oficialmente os trabalhos ligados ao censo.
Para ele, não é surpresa que o Brasil apareça numa posição um tanto medíocre em termos de biodiversidade marinha. "Não é segredo para ninguém que a nossa frota pesqueira costuma ir para o Uruguai e a Argentina. Águas tropicais como as nossas são pobres em nutrientes. E, claro, havia pouquíssimos dados antes do censo", lembra.
Para Cristina Rossi Nakayama, bióloga do Instituto Oceanográfico da USP que integrou o censo até 2008, um dos principais legados do projeto é a colaboração internacional que ele fomentou.
"O trabalho do consórcio sul-americano na Antártida foi uma grande conquista", afirma ela. (RJL)

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