CARTAMAIOR
No percurso de uma longa viagem rumo a Cingapura, o jornalista argentino Martin Granovsky relata suas leituras de jornais brasileiros e a cobertura deles sobre o processo eleitoral. "O Estado de S.Paulo dá grande destaque à saída de Erenice, mas termina dando, por outro lado, razão a Lula: “Os tucanos não sabem fazer oposição e não se dão conta de que cada vez que atacam Dilma, ela cresce e eles baixam”, registra um colunista. Passei então para o Valor. Não é um diário petista, mas sim um jornal de negócios. Surpresa: a renúncia de Erenice não era a manchete principal. Estão tão bem os negócios no Brasil. Parece que sim".
Martín Granovsky – Página/12
É raro viajar para o futuro. Mas estou fazendo isso. Tenho que chegar a Cingapura para um seminário sobre a América Latina. Quando chegar lá, estarei 11 horas na frente da Argentina, de onde saí. Quando vocês começarem a comer hoje, lá pela uma e meia digamos, em Cingapura já será zero e trinta de quarta-feira. O futuro.
Não conheço Cingapura. Nunca estive lá. Sei que é o primeiro porto do mundo, muito acima do de Rotterdam, e que por ali passam 28 milhões de containers. Sei também que tem a maior refinaria de petróleo da Ásia. Caso tenham um mapa a mão, está ali, ao sul da Malásia e muito perto da Indonésia. Me traz recordações de Sandokán, dos tigres da Malásia, de Mompracem. Mas talvez sejam lembranças importantes somente para mim e mais alguns.
Mais uma coisa, desculpem o capricho. Que terá restado do mundo de Salgari em Cingapura? Não posso fugir das aventuras no trópico pegajoso. Bom, ao menos restou isso. Se os hotéis e os escritórios de reuniões falharem e não chegarem a ser o freezer que imagino, fará algo em torno dos 33 graus, com uma umidade insuportável e a chuva permanente que anuncia a previsão do templo ampliada. O mesmo clima de Sandokán. Calor sufocante, resume a previsão. Fala do tempo.
O tempo é estranho quando se viaja para o oriente. Saída de Buenos Aires às onze da noite. Janta no avião da empresa aérea do Qatar. Duas horas de vôo até São Paulo e uma de espera para carregar combustível. Próxima parada, Doha, ou seja, Qatar. Quando o 777 fulgurante decola em São Paulo e alcança a altitude de cruzeiro, anunciam almoço. Já. Faz pouco que jantamos. É que Doha está seis horas na frente e é preciso ir se adaptando ao futuro. Nunca tinha pensado que o almoço podia ser instrumento do tempo, mas parece que é.
Em Buenos Aires ofereciam jornais argentinos e brasileiros. Como eram um pouco velhos, escolhi os brasileiros. Vocês já se dedicaram alguma vez a ler os jornais em um avião? É um prazer. Não há telefones tocando, nem celulares, nada interrompe a leitura, os fones de ouvido são bons e Billie Holiday canta como os deuses, não está lá a tentação do twitter nem de checar o email. Além disso, há essa distância que só os 11.200 metros acima do mar fornecem. Garantem a ficção de distância que permite vislumbrar o mundo como um ET.
Leio “O Estado de São Paulo” e o “Valor”. O primeiro é tradicional. O segundo, um diário econômico. Obviamente a notícia é a renúncia da chefe da Casa Civil de Lula, Erenice Guerra, quinze dias antes das eleições presidenciais de 3 de outubro. Empresários denunciaram que seu filho é lobbista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o poderoso BNDES, e o PT optou pelo caminho mais seguro: seja como for a realidade, Erenice vai travar sua guerra fora do governo para que não contamine a intenção de voto de sua ex-chefe, a candidata Dilma Rousseff, que segue recolhendo cerca de 57% das intenções de voto no primeiro turno. Privadamente, Lula disse que “a política é assim”, que aquele que comete um erro ou aparece cometendo-o tem que pagar, porque a “função pública não permite cometer erros”. E, publicamente, seguiu em campanha por Dilma, que, desde fevereiro, converteu-se de uma quase desconhecida do grande público em uma candidata vitoriosa. Ele afirmou: “A oposição é assim, suja. Não compara fatos com fatos. Não diz que um presidente trabalhador construiu mais universidades que um presidente doutor”. O trabalhador é ele. O doutor é Fernando Henrique Cardoso, que no passado já foi chamado de “O Príncipe dos Sociólogos”.
Já o "Estado de S.Paulo" dá grande destaque à saída de Erenice, mas termina dando, por outro lado, razão a Lula: “Os tucanos não sabem fazer oposição e não se dão conta de que cada vez que atacam Dilma, ela cresce e eles baixam”, registra o colunista Aloísio de Toledo César. Os tucanos são os membros do Partido Socialdemocrata do Brasil, de Cardoso e de seu candidato atual, José Serra.
Ainda no Estado há artigos sobe outro escândalo sério. Pedro Paulo Dias, governador do Amapá, está preso por cobrança de propinas. Pertence ao conservador Partido Popular. Como os deputados, os governos têm foro privilegiado que protege o sigilo telefônico e fiscal. Seus telefonemas não podem ser monitorados nem mesmo com ordem judicial. Mas a Polícia Federal seguiu a recomendação clássica e encontrou a mulher correspondente. É uma ruiva de pouco mais de 20 anos que teve, probrezinha, os telefones grampeados. Escutas, alguma investigação e adeus Pedro Paulo. Anotei o nome de sua amante: Lívia Bruna Gato de Melo. É isso.
Passei então para o Valor. Não é um diário petista, mas sim um jornal de negócios. Surpresa: a renúncia de Erenice não era a manchete principal. Estão tão bem os negócios no Brasil. Parece que sim. A principal foto de capa mostra o holandês Kreet Kruythoff, presidente da Univeler Brasil. Explica que a empresa se aproximará mais dos comerciantes para saber o que pensam. Nas páginas internas, as notícias mostram um quadro de otimismo.
No Seminário Internacional de Governança Global, o economista norteamericano James Galbraith disse que o Brasil é líder na luta contra a pobreza porque “oferece políticas sociais que o setor financeiro não pode oferecer”. Segundo Galbraith, o setor financeiro é “predatório”.
Notícia na página 3: o salário médio inicial aumentou em termos reais cerca de 4,8%, em relação ao mesmo período de 2009.
Notícia na página 5: o Nobel de Economia, Paul Krugman, esteve algumas horas em um seminário em São Paulo. Afirma que o Brasil está na capa das revistas como ocorreu antes coma Argentina, os países do Sudeste Asiático e o México. E que todos que foram apresentados como modelo terminaram mal. Mas, tranqüilidade, vizinhos do Brasil. Krugman disse que a regra não vale para vocês. A demanda interna poderia aguentar um déficit de até 4%, opina. Alerta para a supervalorização do real, que não poderá continuar por muito tempo sem provocar redução na taxa de emprego. Mas há tempo para correções. E mais: “A Era Lula, que está por terminar, não foi um paraíso, mas a economia cresceu bem, houve um investimento forte para reduzir a pobreza, a inflação e a situação fiscal estão controladas e o mercado interno foi fortalecido. Que mais se pode esperar de um país?” Além disso, com os Estados Unidos mais pobres e uma economia chinesa relativamente desacelerada (e a China é, em parte, fonte das divisas do Brasil), o mercado interno permitiria que os brasileiros crescessem cerca de 4%, disse ainda Krugman. Uma boa notícia para o Brasil e nada má para a Argentina.
Não se pode descer do avião em São Paulo. Os poucos que viemos de Buenos Aires e não ficamos no Brasil seguiremos para Doha. Pobres cidadãos do Qatar. Sua cidade símbolo ficará associada para sempre ao fracasso das negociações do comércio mundial, a famosa Rodada de Doha. Qatar fará com que este Boeing gigantesco siga vazio? Vejo que não: logo começa a entrar o mundo inteiro. Ou uma boa porção, porque só entre Índia e China já passamos da casa dos dois bilhões de pessoas e por aí vamos. Ou vão. A entrada é veloz e extraordinariamente variada. Poucos brasileiros, aparentemente. Aquele barrigão barbudo. O casal que vem olhando onde colocará a guitarra. E o resto? O senhor a minha esquerda despeja uma dúvida quando abre um diário tamanho savana. Diz o subtítulo: “Diário da China para a América do Sul”. O senhor a minha direita não fala inglês. Um hindu do sul da Índia? Escuto indicações em árabe, inglês, português e espanhol. Mas aquela aeromoça parece chinesa, e não do Qatar, e a outra que fala com a senhora preocupada com sua bagagem é brasileira. O tipo com cara de especialista e o cabelo comprido parece japonês. E seguramente há malaios, vietnamitas, cingapurenses, tailandeses, indonésios, hindus de todas as regiões, chineses, de todas as nacionalidades.
Falta pouco para terminarem as 13 horas e meia até Doha. Depois, uma escala e mais oito horas e meia até Cingapura. Acomodo-me no assento e tomo o gim tônica que pedi com a refeição. Se alguém quer encontrar-se com o futuro, deve chegar bem preparado.
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