sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A República do Galeão serrista

LEIA ESTE ARTIGO DO BARBOSA NETO, UM TIJOLAÇO ANTOLÓGICO E HISTÓRICO

O comportamento de José Serra e o dos seus áulicos, titulares de importantes – cada vez menos, felizmente – colunas e blogs na grande imprensa, em tudo recorda o comportamento dos segmentos golpistas incrustados na Aeronáutica nos episódios que, em 1954, levaram à morte do Presidente Getúlio Vargas.

Ali, como agora, exigem apuração em rito sumário, fora do devido processo legal e, como então, não admitem em nenhuma hipótese que qualquer ato criminoso não seja – como não era – responsabilidade pessoal e direta do então Presidente da República. Antes de investigar, julgam. Antes de julgar, condenam.

Agem babujando seu ódio, dizendo-se moralmente indignados, encapuzando-se com a bandeira da democracia quando, na verdade, é só o poder – e o poder contra o povo – o que lhes interessa. Aqueles “democratas” do Galeão, depois de levarem à morte Getúlio, tentaram em dois golpes – Jacareacanga e Aragarças – derrubar o presidente Juscelino Kubistchek, legítima e caudalosamente eleito pelo povo.

As vestais do Galeão tentariam de novo em 61, mas a ditadura militar que pretendiam implantar foi esmagada pela união do povo com militares que honravam suas fardas e seus compromissos constitucionais.

Triunfaram, é verdade, em 64. E deram ao país uma noite de horror, violência, tortura e morte que levou gente honrada e corajosa como Dilma Rousseff a enfrentá-la ao risco de suas próprias vidas.

É irônico que 46 anos depois daquele arreganho autoritário estes propósitos golpistas se encarnem numa figura que, naquela época, ainda não tinha sido tomada pelo mal e pela ambição.

José Serra é uma alma penada do golpismo antitrabalhista de 64. Vagará, com seus gemidos e gritos, cada vez mais só e desesperado. Agora há luz. E com a luz, essas fantasmagorias se esvanecem, se dissolvem, desaparecem.

Se o golpismo policialesco do tucanato se assemelha àquela República do Galeão, há porém, uma circunstância muito diferente. Já não existe o mundo da Guerra Fria; já não existe o medo do comunismo “ateu e apátrida” para engambelar pessoas inocentes. Já não existem o Chateaubriand, o Marinho, o monopólio que restringia a informação a uma pequena camada da população e Serra é uma versão revista e piorada do Lacerda que saiu da esquerda para ser o corvo da direita.

E há agora, sobretudo, um líder popular na plenitude de suas energias, reconhecido pelo povo como Getúlio foi, a quem esbanja forças para enfrentar o golpe e a quem não resta apenas o gesto heróico que sobrou como última arma para Vargas.

Há, sobretudo, um povo esclarecido e que já tomou posição. A força do povo já se tornou um escudo intransponível para defender a democracia brasileira.

A esta gente, mais do que a vergonha e o estigma que cobriu os golpistas do passado, restará apenas o destino que a história reserva aos que se opõe à sua inexorável marcha.

O povo brasileiro é mais forte que qualquer manobra, que qualquer golpismo, que qualquer indignidade. Porque este povo, esta gente, que tem, mesmo inconscientemente as lições de sua história pulsando nas veias, não mais, por Deus, não mais será escravo de ninguém.


O melancólico fim de José Serra
Reproduzo artigo de Idelber Avelar, publicado no blog Biscoito Fino e a Massa:

Pois é, valente Deputado Brizola Neto, o lacerdismo vive. Para os mais jovens, aí vai a frase de Carlos Lacerda que emblematiza o golpismo tupiniquim: "O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência; candidato, não deve ser eleito; eleito, não deve tomar posse; empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar".

Não há momento da história do Brasil em que, ameaçada pelas urnas, a direita não tenha recorrido a alguma variação do espírito dessa frase. Em vez de utilizar a campanha eleitoral para discutir o que interessa – saúde, educação, reforma agrária, política externa, política tributária, papel do Estado na economia–, nos vemos mais uma vez numa grotesca paródia de telenovela mexicana, rastreando um carimbo de cartório de setembro de 2009, indo atrás de contadores e advogados que assinaram ou deixaram de assinar um pedaço de papel, repetindo ad infinitum esse tedioso disse-me-disse dos factoides. A entrevista com o contador que levou à Receita Federal a solicitação de cópias das declarações de Imposto de Renda de Verônica Serra é um festival de chacotas. Quem diria, a sério, algo assim sobre qualquer candidato?: "Tenho nojo de política. Mas eu voto no Serra viu? Sou eleitor dele desde que ele nasceu".

Mais uma vez, o futebol nos oferece a metáfora perfeita: a quem interessa a confusão e a bagunça extra-campo? Qual é o time que quer tumulto? Qual é a equipe que deseja levar o jogo para o tapetão? Certamente não são aqueles que estão jogando na bola e ganhando a partida. Serra parece disposto a lançar ao lixo o que lhe resta de biografia honrada. Tudo indica que sairá deste processo passando vergonha: apelando para a pancada, reclamando com o juiz, escondendo a bola, como é de seu feitio.

Aqui, cabe uma palavra acerca do papel da mídia. Nada disso teria tomado a campanha eleitoral de assalto se não fosse pelo exército de manipuladores amestrados dos conglomerados máfio-midiáticos do país. Tento não subestimar nem superestimar o poder desses conglomerados. No ambiente volátil da internet, muitas vezes oscilamos entre os dois extremos, o da euforia (“depois da internet, morreu o poder da mídia!”) ou da conspiração maligna (“a mídia elegeu tal candidato, ela é responsável por esse ou aquele resultado eleitoral”). Acredito que a análise deve ser feita caso a caso. Creio, por exemplo, que no Sul a RBS tem um poder de distorção e manipulação que os Diários Associados não possuem em Minas Gerais. Também acho inegável que hoje já não há espaço para golpes como os perpetrados pela Globo em 1989.

Mas também acredito que não estaríamos discutindo isso se não fosse pela disposição da mídia brasileira de funcionar como porta-voz do golpismo. O Sr. Ricardo Noblat, depois de traficar mentiras sobre assassinatos, ontem entrou no ramo da manipulação de vídeo, editando e cortando uma entrevista de Dilma Rousseff, com grotesca distorção sonora ao fundo. Ele continua tendo a cara de pau de chamar isso de jornalismo.

Acabam de entrar, nada mais, nada menos, com uma representação no Tribunal Superior Eleitoral pedindo a impugnação da candidatura de Dilma Rousseff, por uma violação de sigilo fiscal da filha de Serra, ocorrida em setembro de 2009, sobre cujas relações com Dilma eles não possuem um fiapo, um miligrama, uma tutaméia de provas. Já tentaram isso antes. E o povo deu a resposta nas urnas, oferecendo ao pobre Alckmin menos votos no segundo turno que ele havia tido no primeiro, façanha inédita na história das eleições presidenciais brasileiras.

Pelo jeito, passaremos alguns dias nessa realidade paralela. Mas concordo com o leitor de Luis Nassif, que lembra que o relator dessa palhaçada será o Ministro Aldir Passarinho Jr., um legalista que honra a toga. O TSE é presidido pelo Ministro Ricardo Lewandowski, constitucionalista e brasileiro honrado, de quatro costados. É evidente que é preciso estar atento, mas tudo indica que o saldo do episódio será mais uma desmoralização para José Serra.

O que sua coalizão e a corja de jornalistas amestrados não parecem entender é que, num país com a história do nosso, essa é uma brincadeira muito perigosa.


Corvos pregam golpe - como sempre
Reproduzo artigo de Emir Sader, publicado em seu blog no sítio Carta Maior:

A direita sempre foi derrotada por Getúlio. Em 1930, pelo movimento popular que deu inicio ao Brasil moderno. Em 1945, o candidato de Getúlio derrotou o brigadeiro Eduardo Gomes, o próprio Getúlio o derrotou em 1950 e JK, com o mesmo bloco de forças de Getúlio, depois da sua morte, derrotou o general Juarez Távora.

Significativamente a direita sempre apelou para militares. Era o seu espaço de oposição – o Clube Militar, os quartéis. E sempre perdeu. Ia perder de novo em 1960, de novo com um militar de origem, Juracy Magalhães – que foi o primeiro ministro de relações exteriores da ditadura, autor da frase “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, avô de dirigente tucano baiano -, mas apelou para um aventureiro, de fora dos seus quadros – Jânio. Ganhou, com o símbolo da vassoura e o lema do “Tostão contra o milhão”, mas não levou, como se sabe.

Sempre que perdeu, a direita – que tinha no corvo-mor, Carlos Lacerda, seu principal expoente – apela para conclamar os militares para o golpe. A famosa afirmação de Lacerda: “Juscelino não pode ser candidato. Se for, não pode ganhar. Se ganhar, não pode tomar posse. Se tomar posse, deve ser derrubado.”, expressa, em estado puro o golpismo da direita dos corvos.

Hoje os militares não se prestam para isso e os corvos contemporâneos apelam para o Judiciário, na busca desesperada de impugnar a candidatura vitoriosa da Dilma. E a Marina se soma a esse coro. (Ninguém mais que se julgue de esquerda, progressista, democrático, pode continuar a apoiar a Marina, quando ela se revela abertamente de direita, golpista.)

Nada de surpreendente. Uma direita dirigida por jornais corvos só poderia desembocar no golpismo. Tentar ganhar no tapetão ou tentar desqualificar o processo eleitoral – ultimo apelo da tucanalhada. Perderão como perderam sempre contra o Getúlio, contra o JK e contra o Lula. Fim melancólico de um partido que se pretendia social democrata, implantou o neoliberalismo no Brasil e terminou como corvo golpista.


Golpe? Coração quente, cabeça fria
Reproduzo artigo de Rodrigo Vianna, publicado no blog Escrevinhador:

Desde o ano passado, tenho dito aqui que a campanha de 2010 seria a mais suja da história. Uma campanha pra quem tem estômago forte. Alguém achou que Serra ia despencar feito maçã podre, sem apelar? Se acreditou, não conhece Serra. E não sabe o que é a disputa pelo poder num país que pode se transformar na quinta economia do Mundo em poucos anos.

Os ataques de Serra, o apelo ao golpismo, e a campanha midiática orquestrada deixaram alguns leitores desse blog (e de muitos outros, pelo que vejo nos comentários por aí) um pouco tensos. Sei que mais gente por esse Brasil – gente séria, bem intencionada e que luta por um país mais justo – teme pelo pior. É bom mesmo ficar atento, afinal a história no nosso país e da América Latina mostra de que são capazes a direita e seus aliados midiáticos. Foram eles que clamaram pelo golpe em 64. Hoje, dariam tudo por um golpe em estilo hondurenho.

Mas será que têm forças pra isso?

Antes de sair atirando pra todo lado, é preciso fazer algo que era muito comum nos tempos pré-internet – quando a vida e a política seguiam um ritmo menos instantâneo: análise de conjuntura.

Modestamente, faço aqui a minha.

A eleição desenvolve-se com duas agendas opostas:

1) Agenda de Lula/Dilma – o Brasil cresce, gera empregos, reduz desigualdades; não há porque mudar as coisas agora, é preciso fortalecer o bloco que está no governo, votando em Dilma e nos aliados nos Estado, para continuar o que Lula começou;

2) Agenda inicial de Serra/PSDB – o Brasil cresce graças ao FHC, que deixou tudo arrumado; mas como não é possível botar FHC em cena, é preciso mostrar que Serra (e não Dilma) é o mais preparado para continuar a obra de Lula (e que na verdade não é de Lula, mas de FHC).

A agenda de Serra naufragou, foi atropelada por Lula e Dilma. A estratégia serrista de se mostrar “confiável” para continuar a obra de Lula era uma quimera – além de tudo, vendida de forma incompetente, com favela “fake” e uma militância tucana confusa (afinal, somos a favor ou contra o “Apedeuta” e o “Bolsa-Esmola”?).

O naufrágio levou Serra a menos da metade das intenções de voto de Dilma. Diante do desastre, Serra saiu atirando, agarrou-se a um escândalo mal-contado e tem o apoio midiático em sua nova estratégia de pancadaria e de flerte com o golpe. Não achei que ia ser diferente. Escrevi várias vezes aqui que a turma de Ratzinger/Frias/Civita estaria aí pra ajudar Serra a produzir confusão na reta final.

Acontece que o povão parece ignorar o bombardeio. A pesquisa diária do Vox/IG/Band mostra isso pelo segundo dia seguido: Dilma tem 51%, Serra 25% e Marina 9%. A Globo vai testar durante alguns dias os limites desse bombardeio. Se fizer algum efeito, os ataques serão intensificados. Do contrário, tudo será esquecido – menos nos editoriais da “Folha” e do “Estadão”.

Diante desse quadro, a pergunta é: será que vale a pena bater boca com os serristas desesperados? Ou o melhor é manter a cabeça fria e seguir em frente?

Inclino-me mais pela segunda hipótese. Sabendo, claro, que é preciso ter o coração quente e a firmeza necessária para resistir ao golpismo inato dessa gente. Se, na semana que vem, depois do feriado, eles aprofundarem as manobras golpistas, aí acho que vale a pena se preocupar.

Não podemos entrar no jogo deles, agora. Essa turma quer bate-boca. O brasileiro comum quer olhar para frente e seguir crescendo

Barrar o golpismo de Serra e da mídia
Por Altamiro Borges

Nesta quarta-feira, dia 1º, a coligação de José Serra (PSDB, DEM, PPS) ingressou com pedido de cassação do registro da candidatura de Dilma Rousseff no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O motivo alegado é o da quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao grão- tucano. Desesperado com a queda vertiginosa nas pesquisas, a direita quer implodir a eleição presidencial. Rechaçado pela sociedade, Serra tenta evitar sua derrota no tapetão, envolvendo o TSE numa trama golpista.

Nesta tramóia antidemocrática, o comando serrista conta com o respaldo da mídia tradicional. A ação encaminhada à Justiça está baseada nos factóides difundidos pela revista Veja e pelo jornal Folha de S.Paulo. Ela acusa a candidata pela “prática ilegal de quebra de sigilo fiscal” e “abuso de poder”, mas não apresenta qualquer prova concreta para sua acusação leviana. Mesmo assim, colunistas da mídia, como Merval Pereira, Carlos Nascimento e outros, amplificam as calúnias.

A quem interessa a quebra de sigilos?

A ação golpista já foi rechaçada, como veemência, por Dilma Rousseff. Ela garantiu que nem ela nem seu comando de campanha estão metidos na quebra de sigilos. Também solicitou apuração rigorosa do nebuloso episódio, com a punição dos culpados. Incisiva, Dilma condenou a postura irresponsável do comando serrista. Conforme argumentou, quem tem interesse em tumultuar a eleição, com quebra de sigilos e dossiês, é a oposição demotucana, que definha nas pesquisas.

Inúmeros fatos confirmam esta leitura. O sigilo da filha de José Serra, por exemplo, foi quebrado em setembro de 2009. A própria Receita Federal apurou o crime num inquérito administrativo, numa prova de total transparência. Os factóides da mídia agora têm, portanto, evidente interesse eleitoreiro. O deputado Brizola Neto chega a levantar a suspeita que essa operação criminosa é “armação” dos tucanos. “Sabemos que eles são capazes disso e, depois do que já vimos na campanha de Serra, não se pode ter dúvidas de que possam apelar para este tipo de ação”.

Os objetivos da nova conspiração

O golpismo da aliança Serra/Mídia tem, basicamente, dois objetivos. O primeiro é aterrorizar os eleitores, principalmente da classe média, empurrando a eleição para o segundo turno. Até agora, porém, a manobra não surtiu efeito. O tracking da IG-Band-Vox, que acompanha diariamente a reação dos eleitores aos chamados “fatos novos”, mostrou ontem que Dilma ampliou a vantagem (51% a 25%), sinalizando que o estardalhaço da mídia demotucana sobre a quebra do sigilo não pegou.

O segundo objetivo, tramado pelos setores mais fascistóides da coligação de Serra, é implodir a eleição. Já que não dá para ganhar nas urnas, tentam envolver o STF na trama golpista, cassando a candidatura de Dilma Rousseff. É improvável que o tribunal cometa esta loucura, que colocaria o país em polvorosa. Mesmo assim, é bom ficar em estado de alerta. Nada como uma intensa mobilização, nas ruas e na luta de idéias, para barrar qualquer maluquice golpista.

Ensinamentos do nefasto episódio

Para finalizar, vale refletir sobre os ensinamentos deste episódio. Em primeiro lugar, fica patente que a direita não suporta a democracia. Ela só serve quando é funcional para seus interesses – foi assim no golpe de 1964, é assim hoje. Nesse sentido, a tentativa de cassar a candidatura de Dilma Rousseff desmascara os tucanos, que ainda enganam muita gente com a sua falsa retórica sobre a democracia. Os tucanos representam a nova direita brasileira; são os neo-udenistas.

Além disso, o caso escancara o verdadeiro papel da mídia hegemônica. Ela sempre foi golpista e sempre será. No caso das emissoras de TV e rádio, elas usam um bem público, uma concessão, para atentar abertamente contra a democracia. Seus colunistas abusam da propriedade cruzada, destilando veneno em programas de rádio, televisão, em jornais, revistas e internet. Seria muito útil que a eleição de 2010 servisse para mostrar a urgência do novo marco regulatório no setor, que enfrente a concentração e estimule a diversidade e a pluralidade informativas.

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