segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ANTUNES FILHO - "Acabou a era do diretor tirano; o agora é a troca"

AOS 80 ANOS, DIRETOR GANHA LIVRO SOBRE SEU MÉTODO DE FORMAÇÃO TEATRAL E DIZ QUE ATOR PRECISA TER A CABEÇA LIVRE DE AUTORIDADE
"Não posso viver longe do devaneio artístico. Eu me jogo na arte para tentar me livrar desse animal que tem dentro de mim"

"Não posso abrir mão das artes plásticas. Como posso ser diretor de teatro sem ter um olho para as artes plásticas?"

"Instalações e a videoarte são hoje as coisas mais poderosas na arte"

"Gosto de fazer movimentos de coro. Não consigo fazer peça só com protagonista, tem de ter a aldeia junto"

"Gosto do Nuno Ramos, gosto dessa obra dele para a Bienal ["Bandeira Branca"], mas não por causa dos urubus. Agora, deixa lá os urubus. O que ele fez é cenário puro. É Shakespeare"

ANTUNES FILHO, diretor teatral





Lenise Pinheiro/Folhapress

Flavia Pucci e Helio Cicero na peça "Paraíso, Zona Norte. A Falecida", em 1989

GUSTAVO FIORATTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Com 60 anos de carreira, o diretor teatral Antunes Filho ainda vive um impasse.
Seu método de criação e de formação de atores, exposto agora no livro "Hierofania -°O Teatro Segundo Antunes Filho", de Sebastião Milaré, se consolidou como marco do cenário teatral brasileiro, para não dizer do mundo. Mas o diretor não se satisfaz em olhar apenas um caminho já percorrido.
"Meu legado eu não sei qual é. A palavra lembra morte, e eu não penso nisso.
Meu legado é o que eu vou fazer no ensaio hoje. É o espetáculo que vou apresentar amanhã", diz, em entrevista à Folha, na sede do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), no Sesc Consolação.

Folha - O livro "Hierofania" cita o espetáculo "Macunaíma", de 1978, como marco do teatro brasileiro. O que acontecia no cenário internacional na época? Antunes Filho - Havia uma espécie de rito de transição. Tinham surgido Peter Brook, Kazuo Ohno, Tadeusz Kantor. Todo mundo apareceu quando houve uma explosão de festivais de teatro.
Foi o início da chamada "era do diretor". O teatro era tão multifacetado naquela época. E "Macunaíma" se inseriu nesse momento de potência teatral.


Por não ter participado expressivamente da ruptura do modernismo brasileiro, o teatro estava atrasado?
Pois é. Oswald [de Andrade] criou uma ou outra peça modernista, e elas não foram encenadas na época.
Mas, ao mesmo tempo, é o teatro que estoura com o modernismo nos anos 60 e 70. A passagem do moderno para o pós-moderno foi nesse movimento internacional.


E essa chamada "era dos diretores" acabou?
Não acabou. O que acabou foi a era do diretor tirano. Agora é a época do diretor que procura cooperação. Antigamente a expressão que se usava era que as coisas vinham do Céu para a Terra. Ao umbigo do mundo, através das catedrais, se instaurava no mundo o Dharma. Agora não tem mais o Dharma. Agora é a troca.


Texto, colaboração e coautoria ganharam importância?
Sim, mas, no trabalho colaborativo, de grupo, tem ainda o cara que precisa reger. Liberdade pressupõe ordem e exige consciência. O modo como vai se estabelecer essa ordem, se é por meio de um diretor ou de uma máquina... Sei lá se pode ter máquinas fazendo isso [risos].


O sr. defende o ator como peça principal do teatro.
Claro. Qualquer peça só pode sair da estante e ir para o palco se houver um ator. Seja no velho drama, seja no futuro, seja ainda no não drama, já que hoje tudo está sendo contestado.


O que está sendo contestado?
Não somente a hegemonia do diretor, a do texto, a da trama. Tudo revela um autoritarismo que está sendo sanado ou questionado.
O ator é a pessoa que, com a sua liberdade, fica à margem dessa coerção que imaginamos haver.
Ele tem de estar livre. A cabeça dele não pode ser autoritária. Só com consciência e liberdade poderá não mais representar, mas atuar. Projetar alguma luz nisso tudo que é contemporâneo.


Isso faz do ator uma espécie de coautor?
Não. Faz dele uma janela. Mas, se ele não tem base cultural e técnica, ele é uma janela fechada.


A criação dramatúrgica, que ganhou espaço no CPT, também representa uma procura sua por novos caminhos? O que ficou velho no teatro?
Estamos num momento de impasse em termos de criação. Tentamos caminhar. Ironizamos tal coisa, parodiamos aquilo outro. Damos margem ao outro lado do nosso inconsciente.
A forma de Brecht já pode ter envelhecido. Mas Brecht como poeta não. Como escritura, ele é atualíssimo. Por meio da linguagem poética, cria rituais. Daí os mitos do inconsciente vêm à tona.


O que significa para você as mortes de Kazuo Ohno (2010) e de Pina Bausch (2009)?
Dois modelos fundamentais que se foram, mas que continuam presentes. Duas guias. A gente chegou ao fim do túnel e tinha aquela luz.
Daí estávamos ali no claro e nos perguntávamos: "E agora? O que vamos fazer? Que luz maravilhosa, né? E daí? Estamos aqui agora iluminados por essas luzes e o que vamos fazer?". E essa luz ainda está acesa.

Autor segue trupe por 15 anos para decifrar detalhes
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Poucos conhecem tão bem a obra de Antunes Filho quanto Sebastião Milaré.
Para escrever "Hierofania -O Teatro Segundo Antunes Filho", o autor acompanhou de perto o processo criativo do diretor por 15 anos.
Ele acabou se tornando alguém "da casa", o que lhe possibilitou decifrar detalhes do processo criativo abastecido também pelos jovens atores do CPT.
O foco do livro é justamente o desenvolvimento desse método a partir da estreia de "Macunaíma" (1978), o espetáculo em que o diretor decide romper com uma sólida carreira -em suas próprias palavras- "comercial".
Nos anos 80, Antunes passa a criar, sob a tutela do Sesc, sempre em sintonia com um projeto educativo e de formação do ator.
Milaré se debruça sobre a técnica corporal e vocal que deu origem a espetáculos antológicos, como "Velha Nova Estória" (1991), "Vereda da Salvação" (1964/1993), "Gilgamesh" (1995) e "Medeia" (2001/2002).
A respiração e o trabalho com a voz despontam como um dos tópicos principais.
O livro não se aprofunda em questões estruturais dos espetáculos, passa apenas pela superfície de conceitos como cenografia, figurino e o coro como opção estética.
"Mas essas questões acabam aparecendo, uma vez que o método de Antunes tem uma forte base em um processo de individuação ideológica e cultural."

RAIO-X
ANTUNES FILHO

VIDA
José Alves Antunes Filho, 80 anos, nasceu em São Paulo em 12 de dezembro de 1929

OBRA
Foi pioneiro em criar a partir de estudos sobre metafísica, filosofia e cultura oriental

CPT
Em 1982, recebeu um convite do Sesc para coordenar o Centro de Produção Teatral, no Sesc Consolação

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