sexta-feira, 29 de outubro de 2010

JABOR JÁ ERA

Obra de Jabor soa deslocada no tempo
Há 20 anos sem filmar, diretor imprime olhar passadista sobre o Brasil e o cinema em "A Suprema Felicidade"

DE SÃO PAULO

"A Suprema Felicidade" tem sido anunciado como o retorno de Arnaldo Jabor à direção após 20 anos sem filmar. Pois o tempo pesou sua mão sobre a câmera.
Jabor, que, depois de fazer filmes como "Toda Nudez Será Castigada" (1973) e "Eu Sei que Vou Te Amar" (1986) deixou o cinema para dedicar-se à escrita e à crítica da política brasileira, não consegue esconder, na tela, as marcas que a ausência do set deixou.
Cinema é ofício que requer prática e que evolui à velocidade não só da sociedade, mas da tecnologia. E "Suprema Felicidade" soa a filme deslocado no tempo.
Essa característica não seria, em si, um defeito. Mas o deslocamento temporal, neste caso, está ligado a um olhar passadista sobre o Brasil e sobre o próprio cinema.
O Rio de Janeiro que começamos a ver pelos olhos de Paulo, um menino de oito anos que acompanha as comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial, é o Rio das marchinhas de Carnaval, das piadas inocentes e dos cabarés coloridos.
Jabor, à la o Federido Fellini de "Amarcord" (1973), quis reconstituir sua memória afetiva por meio do cinema. Alcançou alguns momentos bonitos, como o do Carnaval que, de maneira onírica, se arma na rua. Mas trouxe também à tona lembranças que, simplesmente, não encontraram tradução em imagens. São emoções suas que, na tela, ele não conseguiu transformar em nossas.
Os vários enredos que se misturam acabam, assim, ficando dispersos, acumulados, passando a sensação de coisa demais -ou de menos- a dizer. Há um problema no elenco que parece caricatural.
A exceção é Marco Nanini, como o avô compositor, cuja atuação, de tão boa -como notou o cineasta Eduardo Escorel num texto da revista "Piauí"- chega a criar um desequilíbrio no filme.

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