"Mães" viram militantes dos Kirchner
Conhecido por oposição ao governo e luta pelos direitos humanos, grupo torna-se figura fácil na Casa Rosada
"Não tenho dúvidas de que essas associações estarão na próxima campanha eleitoral", diz deputado opositor
GUSTAVO HENNEMANN
DE BUENOS AIRES
Símbolo argentino na luta pelos direitos humanos, as Mães da Praça de Maio decidiram romper com movimentos sociais opositores e se transformaram em militantes do casal Kirchner.
Elas agora são presença garantida em eventos na Casa Rosada e assumiram a linha de frente nas lutas do governo contra imprensa, setor agropecuário e Judiciário.
Identificadas pelo lenço branco na cabeça, as Mães ficaram conhecidas mundialmente no final dos anos 70, quando começaram a viajar para denunciar o desaparecimento de seus filhos, vítimas do terrorismo da última ditadura argentina (1976-1983).
O reconhecimento internacional também motivou o grupo a visitar outros países que enfrentavam ditaduras ou guerras para apoiar grupos de esquerda e organismos de direitos humanos.
Recentemente, a associação se alinhou com as posições de Néstor e Cristina Kirchner em função da política de cooptação articulada pelo casal desde que chegou à Presidência, em 2003.
Primeiro, eles atenderam a principal reivindicação do movimento ao patrocinar a revogação da lei de anistia, que abriu caminho para que os agentes repressores da ditadura voltassem a ser julgados e condenados.
Depois, passaram a liberar verbas milionárias para projetos sociais e históricos gerenciados pelas Mães.
Apesar de não revelar quanto recebe do Estado, a presidente da entidade, Hebe de Bonafini, 81, confirma a assinatura de convênios e declara gratidão ao governo.
Em julho, ela inaugurou uma corrente política formada só por mulheres, "Las Cristinas", em homenagem à atual presidente do país.
Como já não têm um "inimigo" na Casa Rosada, as Mães também decidiram, em 2006, que não participariam mais da Marcha da Resistência -realizada anualmente pelos movimentos sociais.
Desde então, a entidade passou a se chocar com grupos antes tidos como aliados. Os movimentos piqueteiros, por exemplo, são criticados por Bonafini quando protestam contra os Kirchner.
Conhecida pelos discursos polêmicos, nos quais já defendeu o 11 de Setembro, ela não poupa insultos contra os inimigos do governo.
Recentemente, depois de a Corte Suprema argentina tomar uma decisão indigesta para os Kirchner, definiu os juízes como "ladrões".
Para Fernando Esteche, porta-voz do movimento Quebracho, um dos mais combativos do país, o governo comprou o movimento.
"Hoje elas integram uma unidade básica kirchnerista. Perderam de vista sua própria história, que sempre foi de oposição. Elas mantêm uma estrutura clientelista, com funcionários, carros, edifícios e uma rádio, tudo viabilizado pelos Kirchner."
O deputado opositor Ricardo Gil Lavedra, que integrou o tribunal que condenou as juntas militares em 1985, afirma que o governo cooptou entidades como as Mães para usar a bandeira dos direitos humanos. "Eu não tenho dúvidas de que essas associações farão parte da campanha eleitoral do ano que vem", diz o deputado
Associação conta com rádio, gráfica, editora e universidade
DE BUENOS AIRES
Ao expandir seu âmbito de atuação, a Associação Mães da Praça de Maio construiu, ao longo desta década, a maior infraestrutura entre os organismos de direitos humanos da Argentina.
Desde 2000, a entidade fundou uma universidade, conquistou uma frequência de rádio, montou uma gráfica e uma editora e passou até mesmo a gerenciar a construção de casas populares.
A expansão teve apoio dos governos de Néstor e Cristina Kirchner, que conquistaram a adesão política das Mães.
Em um dos quatro prédios que a associação mantém no centro de Buenos Aires, funciona a Universidade Popular das Mães, recentemente transformada em instituição federal por Cristina.
Cerca de 2.000 alunos pagam mensalidades de menos de R$ 30 para cursar Direito, História, Trabalho Social e oficinas técnicas.
Em 2005, o Estado concedeu uma licença de transmissão AM para a rádio A Voz das Mães e, no mesmo ano, aceitou financiar o projeto "Sonhos Compartilhados", que já construiu 10 mil casas, escolas e hospitais sob a administração da entidade.
Inicialmente formada por cerca de 2.000 mulheres, a associação atualmente se reduz a aproximadamente cem Mães, que têm entre 80 e 96 anos.
A gestão da estrutura, no entanto, cabe a funcionários mais jovens, para garantir a continuidade, segundo a presidente, Hebe de Bonafini, que não divulga o número de colaboradores.
Todas as quintas-feiras, um grupo de Mães continua realizando a marcha na Praça de Maio, que se repete desde 1977. Simultaneamente, caminham de lados opostos da praça o grupo liderado por Bonafini e o das Mães dissidentes, que em 1986 criaram a Linha Fundadora.
Enquanto as representantes da associação ligada ao governo chegam à praça de ônibus e contam com o apoio de funcionários, as integrantes da Linha Fundadora -que afirmam nunca ter recebido subsídios estatais- marcham sem qualquer infraestrutura.
Líder diz que parcerias não abalam atuação
DE BUENOS AIRES
A presidente da Associação Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, 81, recebeu a Folha em seu escritório, onde exibe fotos de Cristina e Néstor Kirchner. (GH)
Folha - O que este governo representa para as Mães?
Hebe de Bonafini - Uma mudança profunda. Fizemos campanha contra eles, porque considerávamos os peronistas todos iguais. Mas estávamos equivocadas. Néstor declarou que nós éramos suas mães e que nossos filhos eram seus companheiros, isso foi o máximo.
Qual é a principal reivindicação das Mães hoje?
A destituição dos aproximadamente 400 juízes da época da ditadura que permanecem no Judiciário. Para avançarmos nos julgamentos aos repressores, é preciso retirá-los.
O alinhamento com Cristina não abala a autonomia?
Não há um alinhamento automático. Nós a queremos e respeitamos muito. Mas há coisas que o governo faz mal. Eu já entreguei uma lista para ela com os integrantes do governo de que eu não gosto.
Esse grupo político Las Cristinas, por exemplo, não transforma as Mães em unidade kirchnerista?
As outras Mães não participam. Faço isso pessoalmente, não como representante da associação.
Qual é o orçamento anual das Mães e quanto disso vem do governo?
Não te darei os números, porque já nos criticam muito por aí. O governo financia o projeto de moradias e outros convênios, mas não recebemos subsídio mensal. Pagamos muita coisa com o lucro da nossa gráfica e com a venda de nossos livros.
domingo, 17 de outubro de 2010
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