E tome boatos e maledicências: Dilma passou de “terrorista” a herege-matadora de criancinhas. Coisas do tipo: “É oficial, ela é a favor do aborto – ela e a filha…”, pude ouvir um guarda municipal falando com alguém ao celular, na noite da quinta-feira, no centro do Recife. Fundamentalismo à brasileira.
Sulamita Esteliam
Não fui para as comemorações da vitória,espetacular, de Eduardo Campos, Humberto e Armando no Marco Zero, no domingo à noite. Meu estado de ânimo não estava para festas. Depois da confirmação do segundo turno para a eleição presidencial, digamos que, brochei. Passei a manhã e a tarde da segunda no quarto, zapeando a TV e navegando na rede em busca da repercussão do resultado das eleições . Nada de baixo astral: Dilma ganhou em 18 estados e somou 46,9% dos votos válidos. O Zé se deu bem em oito – 32,6% no total – e Marina no DF, 19,3% acumulados. A vida e a campanha seguem – e resta-nos arregaçar as mangas e buscar os votos para garantir a vitória em 31 de outubro.
Ressaca cívica, entretanto. E a constatação de que a bala de prata do Zé e seus acólitos, que empurraria a eleição presidencial para o segundo turno, tem nome e sobrenome: Marina Silva, do PV.
A “onda verde”, que se acreditava apenas efeito retórico de campanha, se corporificou na mística da candidata presidencial, com cara e ar de missionária evangélica, traduzindo-se em 19,6 milhões de votos. É voto para ninguém botar defeito – quase 20% do total, embora não se tenha traduzido em bancadas significativas no Congresso e/ou nos legislativos estaduais: Nem mesmo celebridades, como Fernando Gabeira, conseguiu se eleger senador pelo Rio de Janeiro – um dos redutos potenciais dos verdes.
Um capital político que faz diferença no segundo tempo do jogo eleitoral, de agora e futuros.
Fato é que nem as sondagens de opinião dos diversos institutos nem observadores políticos argutos nem a coordenação da campanha de Dilma – nada nem ninguém captou o fenômeno – ou deu importância aos sinais.
Nem mesmo a mídia demotucana, que – aparentemente esgotado o estoque de baixarias -, vinha se derretendo em simpatias pela candidata verde, poderia prever; ainda que tenha apostado suas fichas.
Esta reles blogueira, igualmente, empenhada no pensamento positivo, subestimou o alarme que as velhas antenas captaram, já na quinta-feira: nas ruas e nas redes sociais. É impressionante o que a mente humana é capaz de produzir a partir de ouvidos preenhes…
E tome boatos e maledicências: Dilma passou de “terrorista” a herege-matadora de criancinhas. Coisas do tipo: “É oficial, ela é a favor do aborto – ela e a filha…”, pude ouvir um guarda municipal falando com alguém ao celular, na noite da quinta-feira, no centro do Recife.
No Pátio de São Pedro, uma moça cadeirante aceitou o adesivo de Dilma na manga da camiseta, que lhe ofereceram na mesa ao lado. Chegou-se até onde estávamos, eu e meu companheiro, e puxou o assunto, toda sorrisos. Argumentei, ela manteve o sorriso, concordando. Mas, concluiu: “é covardia tirar a vida de inocentes, né?”.
Antes, seu ajudante, sacara da suposta fala da candidata petista, provavelmente, inspirada na infeliz frase de John Lenon, sobre ser mais popular do que Cristo: “Nem Deus impede minha eleição”. Dilma ficara burra, de repente…
Aí, foi possível entender algumas montagens que apareceram nas redes sociais e no correio eletrônico, em toda a rede: Dilma Chuck – O Brinquedo Assassino, Dilma demonizada – postadas por gente jovem – evangélica, principalmente…
Não se pode tirar o mérito da candidata e de suas propostas – que, aliás, ficou devendo: vieram em forma de ladainha genérica da sustentabilidade, sem tocar nas questões ecológicas centrais. Não se quer, aqui, minimizar a escolha das pessoas, muito menos.
Há, sim, dentre os eleitores de Marina, uma juventude adepta da causa ambiental. Há verdes de carteirinha – à direita e à esquerda. Há anti-petistas, anti-Dilmas, petistas e simpatizantes desiludidos, emergentes alienados. Há de tudo, e a diversidade é o retrato do Brasil.
Certo é que a onda de intrigas prevaleceu, afinal. Fundamentalismo à brasileira.
E o Zé já sinalizou para essas pessoas e para as bases de sua campanha no discurso-estou-no-segundo-turno: “Não tenho duas caras. Não tem nada escondido no cofre. Sou transparente no que sou, que acredito. Respeito a vida, as instituições, a imprensa (…)”. Então, tá.
Dilma Roussef, que eu saiba, também não tem duas caras, muito menos medo de cara feia. Há que botar os pingos nos is.
Agora, mantenho a pergunta que não quer calar – no meu e em pensamentos outros por aí : quem marinou vai serrar?
terça-feira, 5 de outubro de 2010
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