sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Sistema Totêmico e Sistema Mediático, uma provocação - Alberto Dines

* Conferência pronunciada em 1/10/2000 por Alberto Dines, no Museu de Arte de São Paulo (MASP), em simpósio "Freud: Conflito e Cultura".

A provocação que proponho pode parecer à primeira vista uma elocubração forçada, ginástica intelectual, preciosismo, exercício especulativo no bom estilo grego. Eles costumavam levar a dialética ao seu extremo. E a combinavam com dois outros paradigmas da sua cultura – a competição e a dramatização.

Não foi essa a intenção e espero que não seja esse o resultado. Pretendi apenas encaixar uma das obras seminais da psicanálise (à qual fui incumbido de analisar) no universo multidisciplinar e cósmico das teorias freudianas. Mais precisamente na sua teoria da civilização.

Antes de avançar é preciso estabelecer uma premissa ou pelo menos explicar o que vem a ser o sistema mediático já que a expressão é recente e o conceito que expressa ainda não foi inteiramente assimilado. Medium, do latim, é meio, meio de comunicação. O plural deveria ser os media mas no Brasil preferiu-se designar o conjunto dos meios de comunicação como a mídia para acompanhar a imprensa. Mas imprensa, como o próprio nome o sugere, refere-se apenas aos meios impressos que, a partir dos anos 20, foram sendo paulatinamente superados pelos meios eletrônicos de comunicação. Então a mídia ou os media passou a significar o processo de comunicação de massas ou comunicação social no seu conjunto. E o sistema mediático ou midiático representa a interação de todos os componentes envolvidos na comunicação social – veículos, audiências, comunicadores, o mercado como também o repertório de normas e procedimentos que vai sendo acumulado. Como qualquer sistema, o mediático decorre de uma disposição assumida ou insinuada para articular-se como uma estrutura organizada. Ganhou dimensões de fenômeno sócio-político a partir do uso do cinema pelos soviéticos, do rádio pelo nazismo e da percepção de que era a própria encarnação da civilização capitalista, sobretudo americana.

Estabelecida a preliminar no terreno filológico podemos avançar. Totem e Tabu é uma escavação arqueológica em busca dos fundamentos da cultura e dos relacionamentos grupais. O próprio subtítulo dos quatro ensaios que compõem a obra é extremamente útil para aqueles que pretendem examiná-los além da ótica da psicanálise – Várias Concordâncias na Vida Mental dos Selvagens e Neuróticos. "Selvagem" aqui também pode ser entendido como primitivo.

Deduz-se que Freud pretendia estabelecer uma relação entre as posturas mentais primitivas ou do "homem natural" e o pensamento dito "normal", aquele que está à nossa volta. E como o definiu o próprio Freud diante de Jung, a obra é uma síntese reunindo especulações de antropologia, etnografia,, biologia e história das religiões.

Aqui começa efetivamente a provocação. Como religião é poder, qualquer exploração sobre as origens e funcionamento dos mitos, crenças e divindades acaba fatalmente resvalando nos mecanismos da criação dos códigos, da moral, das leis, nos fundamentos da autoridade e, portanto, acaba caindo em cheio na esfera política. Talvez essa tenha sido a razão que levou Peter Gay a considerar Totem e Tabu como psicanálise aplicada mas também um documento político [Gay, Peter, "Freud, Uma Vida para o Nosso Tempo", pg. 303].

Em 1908, antes mesmo de completar a redação dos quatro ensaios de Totem e Tabu, Freud escreveu Moral sexual "civilizada" e doença nervosa moderna [Edição Standard, Volume IX] onde examinou trabalhos de outros estudiosos sobre os efeitos perniciosos do progresso, a trepidante vida "moderna", a velocidade dos trens, as facilidades do telefone etc. Era um exercício da dialética freudiana aplicada às relações do homem com as mutações ambientais, tendo por objetivo enfatizar a repressão sexual como matriz dos movimentos da mente.

Mais tarde em O Futuro de Uma Ilusão e Mal Estar da Civilização, avançou na dissecação da sociedade contemporânea com seus apelos contraditórios, camuflagens de agressão e violência. Como observador atento do que se passava à sua volta – e certamente percebendo os desdobramentos do fascismo e do comunismo –, Freud servia-se da psicanálise para transcender à psicanálise avançando pelo terreno das ciências não-psicológicas (história da cultura, filologia, sociologia, biologia e filosofia política). O que nos leva à constatação de que não chega a ser disparatada esta tentativa de transpor o esquema ou sistema totêmico para além da "construção teórica" e psicanalítica montada por Freud.

Nesta busca de aproximações, comecemos pela metodologia: Freud foi buscar nos estudos de antropologia social sobre sociedades primitivas os elementos estruturais para formular suas teorias relacionadas com os mecanismos do inconsciente. Aqui pretende-se uma seqüência – reter os elementos estruturais identificados por Freud e retornar à antropologia social, já não da "humanidade natural", isto é, os aborígenes australianos com os mitos do sistema totêmico, mas da sociedade ocidental com os seus sofisticados códigos carregados de conflitos e dubiedade e da qual o sistema mediático é a mais pura representação.

De forma esquemática podemos mencionar os seguintes paralelismos entre o sistema totêmico e o sistema mediático:

Ambos têm como ponto de partida o mecanismo dos emblemas, figurados ou não. Emblemas que também podem ser vistos como estigmas.
Ambos manifestam-se através de códigos particulares balizados por sinais contraditórios e ambíguos.
Ambos resultam de estruturas de poder por um lado muito atuantes e, por outro, espalhadas num território com limites imprecisos e enganosos.
Ambos decorrem de impulsos de onipotência.
Ambos foram sendo construídos através de um conjunto muito sutil de premiações e repressões para chegar ao objetivo final que é a submissão.
Ambos criaram seus próprios padrões de sociabilidade.
Ambos transcendem a si próprios, são expressões meta-culturais.
Ambos têm origem e decorrem de estados primitivos da mente onde prevalece a satisfação imediata dos desejos e dos desejos mais recônditos [Levisky, David Léo, "A Mídia, interferências no aparelho psíquico" in Adolescência pelos Caminhos da Violência, pg. 147].

O totemismo examinado de forma mais ampla seria a expressão de uma meta-política, rebelião basilar e instintiva da horda primitiva ou horda fraterna contra a autoridade e os regulamentos. E o sistema totêmico poderia ser visto como um conjunto matricial ambivalente onde uma das coordenadas é a aproximação, o parentesco, a semelhança, a identidade, a integração. E a outra coordenada é a repulsão, a proibição, o sacrifício, o castigo e a culpa.

O sistema mediático que nos rodeia e de certa forma nos contém, com sua estrutura e mensagens contraditórias, não chega a ser muito diferente. Apesar das discrepâncias dos ingredientes, os dois sistemas articulam-se de forma similar e o que nos interessa é exatamente esta forma de articulação.

Se o totem acaba sendo um tabu (de novo recorro a Peter Gay) [Gay, Peter, obra citada, pg. 305] – combinação de parentesco e interdição – o processo contemporâneo de comunicação de massas pode ser considerado um simulacro com a mesma dialética de agregação e desagregação, aproximação e isolamento, cumplicidade e exclusão, persuasão e ruptura.

Se o totemismo é a mística da família estendida para formas sociais mais amplas, o fenômeno da mediatização encarna a própria civilização contemporânea. Não é apenas um desvio ocasional neste ou naquele meio de comunicação social, nesta ou naquela circunstância. É uma inflamação sistêmica. Estrutural.

Esta tentativa de comparação não é gratuita ou aleatória. Vou mais longe afirmando que é pertinente e até mesmo premente, razão pela qual corro tantos riscos. Estou convencido de que faz sentido. E faz sentido não apenas como tentativa de validar os filões básicos do pensamento de Freud mas porque a crítica da mídia, hoje candente e universal, inclui-se entre as manifestações mais expressivas do Mal-Estar da atual Civilização ou da atual Cultura – ou, se quiserem, do atual modo de viver.

De novo sirvo-me de Peter Gay: "a teoria da civilização de Freud considera a vida em sociedade como um compromisso imposto e, por isto, um transe insuperável. As próprias instituições que funcionam para proteger a sobrevivência da humanidade também geram o seu mal-estar" [Gay, Peter, idem, pg. 496].

Dentro deste raciocínio de Gay, vale a pergunta: se a instituição da liberdade de expressão protege a humanidade, como evitar que também seja matriz do mal-estar desta mesma humanidade? Jorge Semprun, o escritor e militante comunista franco-espanhol, depois da sua experiência como Ministro da Cultura no governo socialista de Felipe Gonzalez, resumiu a questão da seguinte forma: a liberdade de expressão é um dos problemas irresolvidos da democracia.

A crítica da mídia ou media-criticism transcendeu à esfera corporativa ou profissional assumindo-se como meta-crítica de um portentoso conjunto de estruturas e instituições que incorporam o sistema econômico (isto é, o capitalismo global), incluem o sistema político (isto é, a democracia na economia de mercado) e englobam o sistema de fabricação de mentalidades e culturas (isto é, a mediatização da vida social). Não é por acaso que vamos encontrar entre os precursores do media-criticism um pensador e lingüista do porte de Noam Chomsky; ou localizamos na vanguarda das tropas de choque contra os excessos da mídia eletrônica o sociólogo Pierre Bourdieu. Freqüentemente esbarramos com Umberto Ecco quando dos píncaros da sua semiótica resolve encarar as vícios e vicissitudes da mídia moderna. O "novo filósofo" Regis Debray, se não chega a nos convencer pela profundidade de suas avaliações, projeta-se pelo seu senso de oportunidade quando propõe uma nova disciplina ou interdisciplina, a "midialogia", composta pela sociologia, a psicologia coletiva, a comunicação e a ciência política.

No Brasil, pensadores como José Arthur Gianotti, Roberto Romano, Roberto Da Matta, Renato Janine Ribeiro e o senador Artur da Távola – para citar apenas alguns – estão formulando periodicamente (dentro da própria pulsação periódica da mídia) avaliações consistentes e pertinentes sobre o seu desempenho.

A própria presença da mídia como notícia, fenômeno recorrente e cada vez mais intenso, mostra que o sistema mediático tem embutido dentro dele um pêndulo que o empurra ora para o mimetismo ora para a autofagia e a canibalização. Em outras palavras – todos se imitam e todos se devoram.

A tragédia recente que resultou no assassinato de uma repórter por seu ex-chefe e ex-namorado é um caso de estudo clássico, espécie de bumerangue, jogo de espelhos. A mídia tratou da mídia com o mesmo sensacionalismo, a mesma leviandade, a mesma superficialidade, a mesma parcialidade, a mesma inconseqüência e a mesma insensibilidade com que habitualmente trata e destrata personagens e ocorrências em outras áreas.

A mídia vista pela mídia produziu uma imagem penosa do processo de mediação e da atuação dos mediadores. A sociedade acostumara-se com a imagem do jornalista como um ser racional, situado acima das paixões, à serviço do bem-comum. De repente, tudo ruiu. O interesse público foi atravessado pelo interesse DO público. O pathos da tragédia foi pulverizado pela bisbilhotice e pela banalidade. A sociedade brasileira avançou mais um pouco no processo de escapar do senso trágico, de fugir da catarse e purgar-se pela comoção.

O que sobrou tanto do caso em si como do tratamento a ele dispensado foi um flagrante do que poderia designar-se como "psicopatologia da vida jornalística". Festival de onipotências. Como se numa sociedade primitiva, de repente, fossem subitamente arrancados os distintivos demarcadores que evitavam os incestos e protegiam os pais dos instintos assassinos dos filhos.

Aqui acendo um sinal amarelo: atenção, zona perigosa! Estamos pisando num terreno minado. Qualquer crítica, teórica ou pontual, sobre o sistema mediático corre o risco de transcender e deflagrar debates sobre questões fronteiriças que não estão em pauta. Afinal o sistema de vasos comunicantes que é o Estado Moderno compreende também a democratização da informação, a liberdade de expressão e, em última análise, o estado de direito – epítomes de uma instituição política da qual não podemos nos afastar um milímetro sob pena de desperdiçar milênios de lutas e aspirações.

Somos todos agentes e pacientes do sistema mediático como também somos – ou fomos, em tempos remotos – instrumentos do sistema totêmico com suas dicotomias de sagrar, consagrar e transgredir. Quando tentamos esquadrinhar os fundamentos de um ou outro não estamos procurando solapar as suas bases mas apenas reparando nas respectivas disfunções. O verbo reparar aqui vale nos dois sentidos – atentar e consertar.

Considerando que, para este público de especialistas, é desnecessário e até temerário avançar na exegese da equação Totem-Tabu e suas implicações psicanalíticas ou mesmo psicossociais, gostaria de expandir as avaliações específicas sobre o sistema mediático para que possam validar ou pelo menos subsidiar esta minha proposta de aproximação.

Começo com um testemunho pessoal – meu aprendizado na televisão. Com quase meio século de vivência na mídia impressa de repente fui arrastado ou tentado a experimentar o veículo dos veículos, a usina da massificação, a TV. Nas primeiras lições ensinaram-me dois procedimentos que, agora, revelam-se como paradigmáticos e extremamente úteis para avaliar o sistema mediático:

Só se usa o tratamento você, jamais o plural, vocês.
Deve-se olhar diretamente para as lentes das câmeras para que o telespectador imagine que o apresentador está mirando-o e, portanto, sinta-se singularizado e individuado.
Evidencia-se que estes são truques e artifícios na esfera do espetáculo. Mas evidencia-se que destes truques e artifícios filtra-se um conceito: o sistema não busca a individuação, ao contrário, finge que existem identidades para atingir o seu objetivo em direção contrária – a homogeneização e o nivelamento. O indivíduo serve apenas para compor um dígito nos índices de audiência. Suas vontades ou opiniões só contam quando consegue expressá-las no próprio circuito mediático, sem desafinar da entonação coletiva, imperiosamente aquém da sua.

Digamos que esta seja uma ambigüidade menor, oriunda da praxis. Mas o sistema mediático tem embutidos conflitos cruciais e de grande intensidade. O mais importante é a questão da autoridade.

Desde o século 17, mas sobretudo a partir do 18, a mídia ou a imprensa com então estava circunscrita era vista como um poder informal com garantias constitucionais. Era considerada Quarto, Quinto ou Sexto Poder, não importava a sua colocação no pódio institucional: importava o fato de que possuía a insígnia de poder, um totem de autoridade. A intenção dos pensadores políticos e legisladores era a de que a mídia funcionasse como contrapoder. O sistema de checks and balances, pressupõe uma engrenagem sem-fim onde o contrapoder (sendo ele próprio um poder) requer uma neutralização, ou seja, outro contrapoder que precisa de outro e assim por diante.

Pergunta-se: qual o contrapoder ao poder da mídia? Pode o leitor ousar contrapor-se, rebelar-se e contestar aqueles a quem paga para oferecer-lhe as verdades diárias? Em que e em quem irá acreditar depois do "banquete totêmico", quando a mídia é contestada e sua credibilidade pisoteada (ou assassinada)? Quem deverá empunhar então o bastão e totem de dono da verdade?

A conclusão é que no regime democrático representativo o sistema mediático assumiu-se como poder mediático que detesta a contestação. E como decorrência, o mediador tornou-se arrogante, com todas as implicações que o adjetivo comporta, sob o ponto de vista moral e clínico. Nesta justaposição de onipotências o que acontece com o mediado, o cidadão, leitor, ouvinte, telespectador? Fica literalmente esmagado e emasculado pela contradição das mensagens. A mídia, zeladora do seu bem-estar, converte-se em fonte do seu mal-estar. O leitor foi educado pela mídia para acreditar nas regras da convivência, no respeito humano, na civilidade. Foi motivado para acreditar que a busca do bem-comum deve prevalecer acima dos interesses individuais ou corporativos. No entanto, a própria mídia torna-se mensageira da incivilidade, do desrespeito humano e da ruptura. Quando não da violência e da degradação.

O conforto da democracia acaba convertido num desconforto, a busca da verdade confundida com prepotência gerando o inevitável descontentamento, desnorteamento e, sobretudo, mal-estar. No cruzamento que Freud fez entre Totem e Tabu e sua obra conclusiva Moisés e o Monoteismo há uma sentença indelével. Disse ele: "Os processos que descobrimos na vida de um povo são similares aos que chegamos a conhecer na psicopatologia".

Salta à vista que o produto principal da Era da Informação é a Desinformação. Os mediadores hoje resignam-se ao caos informativo ao invés de contestá-lo e corrigi-lo. O que acontece hoje é que os mediadores precisam desta fragmentação para justificar-se permanentemente. Quando um jornal depois de noticiar durante alguns dias os desdobramentos de um caso coloca uma tabuleta "saiba o que aconteceu", está confessando abertamente que nos dias anteriores não conseguiu fazer saber o que aconteceu. Muito menos consolidar uma narrativa coesa e compreensível. O jornal de hoje só pode ser entendido amanhã quando forem publicados os desmentidos ou correções.

A massa de informações desordenadas e descontextualizadas despejada diariamente cria uma sensação que nada tem a ver com o Conhecimento. É indigestão, fastio. Confirma-se exatamente aquilo que disse Peter Gay – as instituições que funcionam para proteger a sobrevivência da humanidade também geram o seu mal-estar.

Este é o banquete totêmico do sistema mediático.

Imagino que muitos a esta altura gostariam de fazer uma provocação à minha provocação: Freud em seu tempo seria um crítico da imprensa?

O desafio é legítimo e necessário. Nada indica que Freud tenha sido o que hoje se chama de media critic. Ao contrário. Como todo vienense culto, Freud foi um leitor habitual do Neue Freie Presse. E este jornal representou ao longo de algumas décadas o liberalismo político ao qual Freud aderia integralmente quando deixava o plano das subversões filosóficas para aterrisar nas realidades cotidianas. A grande imprensa vienense e também a alemã, por estarem comprometidas com o liberalismo, foram o alvo preferido do proto-fascista Georg Schönerer e Freud não poderia aceitar qualquer uma das proposições deste precursor de Hitler. Mesmo porque as bandeiras de Schönerer estavam embebidas em concepções antidemocráticas e antisemitas que feriam tanto o seu senso moral como a sua própria identidade.

Mas se Freud não pode ser enquadrado como um crítico da mídia, pode-se dizer que Karl Kraus, o grande satirista e crítico foi, sim, um encarniçado cruzado contra a mídia burguesa e os seus valores. Kraus é hoje considerado um dos patriarcas da crítica da mídia. E Freud, apesar de alvejado pela irreverência e pelo veneno do seu contemporâneo, era leitor de Karl Kraus, como aliás toda Viena intelectualizada. Portanto, pode-se inferir que Freud não desconheceu os arrasadores ataques que Kraus desferia contra os comportamentos, costumes, cultura, repressões e os veículos que os comunicavam. Mas àquele tempo não existia um sistema mediático, a comunicação de massa, o complexo entrelaçado de diferentes meios que converteu-se em representação da sociedade moderna.

A imprensa, especialmente a imprensa culta, não incomodava Freud simplesmente porque ainda não ganhara escala e não adquirira o poder que posteriormente a deformaria.

Quando Freud remeteu um exemplar da Interpretação dos Sonhos ao jornalista Theodor Herzl do Neue Freie Presse, confiava que no jornal fosse publicado algum comentário que ajudasse a difundir uma obra que, dois anos depois de publicada, tinha vendido pouco mais de 100 exemplares.

Freud tentava tirar partido do lado positivo da imprensa, do seu poder educativo. Três décadas depois, com o estrondoso sucesso do livro de Stefan Zweig, A Cura pelo Espírito, que incluía o seu perfil biográfico e se constituíra na sua primeira grande exposição pública, Freud muda a sua ótica e entonação. Reclamou das simplificações, reclamou da companhia em que Zweig o metera (Mesmer e Mary Baker-Eddy) e reclamou sobretudo do título que para ele era enganador.

Não consegui encontrar manifestações específicas na obra ou correspondência freudiana sobre imprensa, jornalismo ou algo que se relacione com o que hoje chamamos mídia.

Mas o livro de Stefan Zweig sobre Freud motivou uma candente manifestação sobre um gênero literário, na verdade sobre um gênero que está a meio caminho entre jornalismo e a literatura. Refiro-me à biografia. E a biografia hoje incorpora e simboliza os diversos vícios da mídia.

Ao tempo de Freud a biografia ainda estava embebida nas fontes clássicas e ainda não chegara ao paroxismo bisbilhoteiro do biografismo contemporâneo, herdeiro de um dos vetores do sistema mediático – a invasão da privacidade e o sensacionalismo.

Escaldado pela experiência do livro de Stefan Zweig, em 1936, quando outro Zweig – este Arnold, seu amigo, ex-paciente e correspondente – consultou-o sobre a possibilidade de autorizar uma investigação com o fim de escrever uma biografia. Freud recusa de forma categórica, quase brutal. Disse o seguinte:

– Aquele que empreende uma biografia está comprometido com mentiras, dissimulação, hipocrisia, disfarces, bajulação... A verdade biográfica não existe... [Carta de Freud a Arnold Zweig, citada por Jones, Ernest III_.].

E o próprio Freud veio a confirmá-lo quando escreveu o "retrato psicológico" do ex-presidente Woodrow Wilson. Entre as dezenas de relatos que Freud deixou de seus analisandos, nenhum deles mereceu tamanha e confessada aversão. Woodrow Wilson visto hoje à luz da história tem uma dimensão diferente daquela que Freud, como biógrafo, nos legou.

Pergunto: as desfigurações que o biografado sofre nas mãos do biógrafo tem a ver com a biografia enquanto gênero? Ou resultam dos preconceitos do biógrafo enquanto membro de uma tribo vocacionada para fabricar totens, tabus, superstições e ilusões?

O retrato do presidente Wilson é uma das obras de Freud menos discutidas. E talvez por isso serve para as minhas provocações finais.

Se, como queria Freud, não existe uma verdade biográfica, existirá a verdade jornalística? Os vícios estruturais da biografia não reproduzem as falências do sistema que alimenta o biografismo e multiplica os pré-julgamentos e preconceitos?

Respostas na próxima edição.


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