sábado, 6 de novembro de 2010

Dilma - A primeira missão

Antes mesmo de assumir, Dilma vai à reunião do G 20 com a dura tarefa de enfrentar os Estados Unidos e a China em uma guerra cambial de dimensões globais
Claudia Jordão – Revista ISTOÉ




É tradição o presidente eleito usar os meses antes da posse para visitas diplomáticas à Europa e aos Estados Unidos. Em sua estreia internacional, Dilma Rousseff, porém, trilhará um caminho diferente: vai pisar primeiro na África, depois na Ásia e, em seguida, na América Latina. Ao lado de Lula, Dilma integrará uma intensa agenda de trabalho, cuja primeira grande missão será desarmar, na quinta-feira 11, a bomba cambial na reunião do G 20 (grupo das 20 maiores economias do mundo) em Seul, capital da Coreia do Sul. A preocupação com a desvalorização do dólar diante do real, que derrubou as exportações brasileiras, está no topo das preocupações da presidente eleita, como ela deixou claro no discurso da vitória e em entrevista na quarta-feira 3, no Palácio do Planalto. “Todos os países que não são a China e os Estados Unidos percebem que há uma guerra cambial. Numa situação dessas, não há solução individual, nunca houve. A última vez que houve, deu no que deu: a Segunda Guerra Mundial”, disse Dilma. Antes dela, Lula também foi enfático na crítica às principais potências econômicas. “Vou para o G 20 agora para brigar. Se eles já tinham problema para enfrentar o Lula, agora vão enfrentar o Lula e a Dilma”, afirmou o presidente.

O governo brasileiro conseguiu um feito ao incluir o tema na pauta do encontro. Dilma e Lula, que defendem a adoção de medidas coletivas, marcaram uma reunião privada com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, para tentar recrutá-lo como uma espécie de cabo eleitoral nas articulações com as demais potências europeias. “O presidente quer que Dilma participe das discussões, tome contato e se aproprie desses temas”, disse à ISTOÉ o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia. Responsável pelo programa de governo de Dilma, Garcia aponta o G 20 como o “grande diretório mundial” das discussões econômicas hoje.

Embora a nova presidente já conheça alguns dos chefes de Estado dos principais países, Lula quer ciceroneá-la e usar o seu prestígio para promover a sucessora, garantindo o espaço que o Brasil ocupou nesses últimos anos. “Será uma forma de apresentá-la àqueles com os quais ela terá de lidar nos próximos quatro anos”, afirma Garcia. Mas o assessor ressalta que não se trata apenas de uma viagem de apresentação, de simples caráter diplomático, mas de “uma missão fundamental”.

Desde a crise financeira de 2008, os EUA derrubaram suas taxas de juros para tentar reaquecer sua indústria. Em consequência, os investidores passaram a buscar países que paguem juros mais elevados para aplicar seu dinheiro. O Brasil virou destino preferencial desses investimentos externos, só que a cotação do dólar diante do real despencou. O problema é que com o real valorizado, os produtos brasileiros no exterior ficam mais caros e o volume de exportações diminui, impactando na produção e na geração de emprego.


DESTAQUE
Nos souvenirs em comemoração à reunião,
Dilma já aparece como representante do Brasil

Por aqui, o governo adotou algumas medidas para evitar a sobrevalorização do real, como o aumento de impostos para aplicações estrangeiras. Um novo pacote de defesa comercial será lançado, caso o G 20 não chegue a um acordo. Para o professor de política econômica Carlos Pio, da UnB, Dilma deve aproveitar a vitrine do G 20 para mostrar como reformas estruturais feitas pelo Brasil na última década ajudaram a manter a estabilidade e servem de exemplo para os demais países. “O Brasil fez o dever de casa, algo que a China não aceita fazer”, comenta. Como cartão de visitas, Dilma tem ainda o discurso da vitória, no qual defendeu enfaticamente um ajuste fiscal.

Embora seja a primeira e principal missão de Dilma como presidente eleita, ela também aproveitará as próximas semanas para marcar presença em outros fóruns. Até o fim de dezembro, Lula deve levar sua sucessora em mais oito viagens. Os dois inauguram neste fim de semana uma fábrica de medicamentos em Maputo, capital de Moçambique, dentro do esforço contínuo de cooperação com a África. “Lula tem uma paixão pela África e vai se dedicar muito às relações através de seu instituto”, afirma o chefe do gabinete pessoal do presidente da República, Gilberto Carvalho.

O reforço do convite de Lula para que Dilma o acompanhe em suas últimas viagens segue ainda a diretriz de consolidação da integração sul-americana. Até o fim do ano Dilma deve ir à Guiana para uma reunião da Unasul, ao Chile e à Argentina. Pelo visto, a tradicional viagem para os EUA e para a Europa ficará para o ano que vem, o que incluiria afetiva visita à Bulgária.



Postado por Luis Favre

Pacote dos EUA será atacado no G-20. Governo guarda quatro armas para o câmbio

Países europeus, China e Brasil atacam o plano de estímulo à economia americana e prometem levar o questionamento ao encontro de Seul

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA – O Estado de S.Paulo
A injeção de US$ 600 bilhões pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na economia dos Estados Unidos vai contaminar a preparação da cúpula do G-20 (que reúne os países mais ricos e influentes do mundo), na semana que vem em Seul, e promete azedar o clima do encontro.

Os principais parceiros econômicos dos EUA – Europa, China e Brasil – atacaram ontem o plano americano e prometeram levar o assunto ao encontro na Coreia do Sul.

Neste fim de semana, uma reunião entre os presidentes dos principais bancos centrais, na Basileia, promete se tornar o ensaio geral da cúpula. Ben Bernanke, presidente do Fed, está sendo aguardado para explicar por que tomou a decisão, enquanto os demais xerifes das finanças prometem alertar sobre os riscos da medida.

O principal risco é que o derrame de dólares vaze para outras economias, formando bolhas especulativas. O risco é maior em países emergentes, que oferecem mais oportunidades de investimentos e já falam em elevar taxas para conter a entrada do capital especulativo.

“O que foi feito nos EUA mina o espírito de cooperação multilateral que os líderes do G-20 lutaram tão duramente para manter durante a crise”, afirmou o ministro das Finanças da África do Sul, Pravin Gordhan.

Ontem, a União Europeia indicou que vai levar à cúpula do G-20 a iniciativa do Fed. França, Reino Unido, Alemanha e Itália trocaram telefonemas sobre o assunto. Os europeus não se conformam como Washington fez o anúncio sem antes seguir o que o G-20 havia definido em outubro: que todas medidas de impacto levariam em conta os riscos para outras economias.

Para o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, a decisão do Fed vai criar “problemas adicionais” para o mundo e não vai resolver o problema americano. “Não é falta de liquidez. Dizer agora “vamos colocar mais recursos” não vai resolver os problemas deles.” Ele garante que a própria chanceler alemã, Angela Merkel, levantará a questão no encontro do G-20.

O governo francês afirmou sua “decepção” em relação à atitude unilateral dos EUA. A ministra da Economia, Christine Lagarde, alertou que o euro poderia ser afetado (com forte valorização em relação ao dólar).

Outro país que aproveitou a situação para atacar os americanos foi a China. Pequim criticou a medida e, assim, tenta tirar de si a pressão em relação ao yuan. Americanos, europeus e até brasileiros alegam que a moeda chinesa é manipulada pelo governo para garantir mais exportações e um freio nas importações.

“Se não houver um limite na emissão de moedas globais, como o dólar, uma nova crise será inevitável”, alertou Xia Bin, conselheiro do Banco da China, ao jornal Beijing News. “Alguém tem de dar uma explicação. Do contrário, a confiança global na recuperação será afetada.”

Governo guarda quatro armas para o câmbio
Ações para conter a valorização do real vão desde um aumento na compra de dólares à elevação do IOF sobre investimentos em ações

Fábio Grane, Adriana Fernandes, Renato Andrade / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo
O governo possui pelo menos quatro medidas guardadas na gaveta para tentar reverter a valorização do real. As ações possíveis vão desde um incremento na compra de dólares que entram no País, até iniciativas de caráter mais punitivas, como a retomada da cobrança do Imposto de Renda sobre os ganhos dos investidores estrangeiros que aplicam em títulos públicos e uma taxação maior do IOF nos investimentos externos em ações, hoje em 2%, um dos maiores temores do mercado.

O governo prefere guardar a possibilidade de uso deste “arsenal” para depois dos resultados do encontro da próxima semana dos líderes das 20 maiores economias do mundo (G-20), em Seul, na Coreia do Sul. Para a equipe econômica, o quadro atual demanda uma solução articulada, principalmente entre os Estados Unidos e a China, as duas economias que estão por trás da onda de valorização das moedas dos países em desenvolvimento.

A mudança do governo brasileiro também tem relevância dentro deste cenário. Medidas de combate à sobrevalorização do real, adotadas entre novembro e dezembro, terão impacto sobre a administração da presidente eleita Dilma Rousseff.

Força. O uso do Fundo Soberano do Brasil (FSB) na compra de dólares no mercado de câmbio local é uma das medidas guardadas na prateleira do Ministério da Fazenda. Para ampliar o poder de fogo do Fundo, o governo terá que editar uma medida provisória (MP) permitido ao Tesouro emitir títulos para a carteira do FSB. Com isso, o volume de compra de moeda estrangeira pelo Fundo seria praticamente ilimitado, uma vez que tudo dependeria da disponibilidade do Tesouro em emitir novos papéis.

Mas a transformação da medida em realidade só acontecerá se o governo sentir a necessidade de dar uma demonstração de força. Na semana passada, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, deixou claro que o governo não tem pressa em usar esse mecanismo. “Estamos guardando esse instrumento porque essa é uma guerra de médio e longo prazo, que não acaba amanhã.”

Outra medida que ainda não saiu da gaveta é a atuação do Banco Central no mercado futuro de dólares. Para isso, o BC poderia retomar a oferta dos chamados contratos de swap cambial reverso, instrumento que funciona como uma espécie de compra de dólar futuro. Esse tipo de contrato não é ofertado pelo BC desde 5 de maio de 2009.

O governo também estuda um mecanismo que pode limitar especulações com a moeda. Boa parte das operações feitas pelas instituições financeiras no mercado futuro, e que indicam uma aposta na valorização do real, tem uma contrapartida de exportadores ou investidores estrangeiros. A ideia seria fechar o espaço para as operações que não contam com esse tipo de contrapartida, conhecidas pelo jargão de “posições a descoberto”.

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