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Brasileiro lê melhor, mas segue defasado
Atraso de jovens de 15 anos é de mais de 3 anos ante chineses e coreanos em ranking de organização internacional
Para avaliador, porém, melhora do Brasil é "impressionante'; país cresceu também em ciência e matemática
Mateus Bruxel/Folhapress
O MELHOR Fabio Anjos, 11, tomou gosto pela leitura com histórias em quadrinhos e, neste ano, ficou com o 1º lugar na categoria poema da Olimpíada de Língua Portuguesa
FÁBIO TAKAHASHI
FABIANA REWALD
DE SÃO PAULO
LARISSA GUIMARÃES
DE BRASÍLIA
Os estudantes brasileiros com 15 anos melhoraram em leitura, ciências e matemática nos últimos nove anos. Seguem, porém, entre os mais atrasados do mundo.
A constatação é da avaliação internacional chamada Pisa, coordenada pela OCDE (organização de nações desenvolvidas), que analisou a educação em 65 países.
O exame avalia as áreas a cada três anos. Nesta edição, a prioridade foi leitura, em que a média brasileira avançou 4%. Essa melhora significa que o aluno de hoje tem um conhecimento equivalente a seis meses de aula a mais do que os de 2000, conforme cálculo da Folha.
Para o OCDE, o avanço foi "impressionante". Ainda assim, os brasileiros estão com mais de três anos de defasagem ante os chineses, os líderes da lista, que passaram Finlândia e Coreia.
No ranking, o Brasil está na 53ª posição, com nota semelhante a Colômbia e Trinidad e Tobago. Os avanços percentuais em ciências e matemática foram maiores que os de leitura, mas as colocações são semelhantes.
HABILIDADES
A avaliação aponta que o conhecimento médio do aluno brasileiro permite que ele entenda subjetividade simples em um texto, mas não consegue encontrar, a partir de trechos diferentes, a ideia principal de uma obra.
O relatório aponta algumas dificuldades enfrentadas pelo Brasil: aumento do crescimento de matrículas ocorrido apenas recentemente; muitas escolas rurais, com poucos recursos; e altas taxas de repetência.
Já para explicar o desempenho melhor, foram citados o aumento do gasto com educação (de 4% do PIB em 2000 para 5,2%); ajuda federal a municípios em dificuldades; e criação de indicador de qualidade (Ideb).
Também foram apontadas "inovações" locais, como aumento salarial dos docentes no Acre e adoção de currículo único em São Paulo.
"As coisas estão melhorando. Não existe a bala de prata que vai resolver o problema da educação brasileira", disse o ministro Fernando Haddad (Educação).
Aluno passa a odiar o escritor, pois não entende o que diz autor
DE SÃO PAULO
Para que gostem de ler, os alunos devem ver o livro dentro de um contexto ou acharão a leitura chata. O alerta é do escritor Marçal Aquino, ganhador do prêmio Jabuti em 2000. (FRw)
Folha - O que o sr. acha sobre o desempenho dos brasileiros em leitura no Pisa?
Marçal Aquino - Eu sempre achei que persiste no Brasil um modelo equivocado de aproximação da leitura, em que o professor dá o livro e dá uma prova em seguida. É raro o professor fazer uma leitura na classe com os alunos.
Para um aluno que está começando a ler, é necessária a contextualização, aprender que o livro tem um significado. Na maioria das vezes, o aluno acha a leitura um troço chato, acha o escritor pentelho e não compreende a dimensão do que deve ser a leitura. Cria-se um inimigo da leitura.
Essa leitura em sala de aula pode fazer com que o aluno se sinta mais atraído?
Sem dúvida. Eu gostava de ler, mas não tinha maturidade para entender os grandes clássicos da literatura brasileira. O que tende a acontecer? O aluno não compreende do que se trata, porque aquilo não tem nada a ver com a experiência de vida dele.
O fato de as escolas se pautarem muito pelo vestibular faz com que se perca o gosto pela leitura?
Isso é uma das razões. [A leitura] é tratada como uma competição, você tem que decorar a obra. O cara passa a odiar o escritor, porque ele não entende o que o escritor está propondo.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1
O que é o Pisa?
O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) avalia -a cada três anos- estudantes de 15 anos de países da OCDE (países desenvolvidos) e convidados (como o Brasil).
2
O que é avaliado?
Leitura, matemática e ciências. Em cada edição, uma área é focada. Neste ano foi a leitura.
3
Como funciona a escala?
Vai de 0 a 1.000 pontos. Em leitura, a cada 20 pontos significa avanço ou retrocesso de cerca de um semestre de aulas.
4
Quem organiza a prova?
A OCDE, mas ela é aplicada por órgãos nacionais. No Brasil foi o Inep, órgão ligado ao MEC.
5
É possível comparar rankings de anos diferentes?
A comparação não é precisa, uma vez que o número de países varia entre as edições. As notas, porém, são comparáveis.
6
É possível fazer uma média única por país?
O MEC divulgou um índice único, com a média das três áreas. Mas especialistas entendem que a simplificação tira a precisão da avaliação, pois as escalas são diferentes.
7
Quantos estudantes fizeram o exame?
Nos 65 países que participaram da avaliação, um total de 470 mil estudantes fizeram a prova. No Brasil, foram 20 mil alunos.
SP tem nota pouco acima da média do país
No ranking dos países, Estado ficaria na 49ª colocação em leitura, três posições acima da brasileira no Pisa
No país, os alunos paulistas ficaram no quinto lugar em leitura, atrás dos estudantes de DF, SC, RS e MG
DE SÃO PAULO
Os alunos de São Paulo tiveram médias no Pisa pouco acima das do país. No Brasil, variaram da quinta à oitava posição, respectivamente em leitura e matemática.
Se fosse um país, o Estado estaria em 49º em leitura, três posições acima da do Brasil, com desempenho semelhante ao de Romênia, Tailândia e México. No total, 65 países foram avaliados.
"O desempenho de São Paulo foi bom. Se não é o primeiro, é preciso considerar que é um dos Estados com maior diversidade populacional, o que impacta o resultado", afirmou à Folha o secretário da Educação de São Paulo, Paulo Renato Souza.
"Quanto mais homogênea a rede, melhor a nota", disse.
O relatório do Pisa diz que, como o Acre, São Paulo fez uma "transformação" no ensino, ao criar seu próprio sistema de monitoramento de qualidade (Idesp) e fazer um currículo para cada série.
Superintendente-executiva do Instituto Unibanco, Wanda Engel diz que o resultado paulista não é satisfatório. "Se eu fosse a nova governadora de SP ou RJ, assumiria constrangida. Os dois Estados estão muito atrás no Sudeste. Minas disparou."
O Distrito Federal lidera os três rankings no país (leitura, ciências e matemática). Alagoas é o pior em duas listas, e o Maranhão, em uma.
EXCELÊNCIA
Os dados detalhados mostram que há ilhas de excelência no Brasil. A rede com melhor nota foi a federal, cujo resultado em leitura é similar ao da média de Hong Kong, quarto melhor participante do mundo. As escolas privadas se assemelham ao índice da Austrália (nono lugar).
Por outro lado, a rede pública não federal ficaria empatada com a Argentina, na 58ª posição, cinco posições abaixo da brasileira. (FT)
ANÁLISE
Dados mostram que temos muito o que aprender com os chilenos
ILONA BECSKEHÁZY
PAULA LOUZANO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Escolher participar de uma avaliação internacional como o Pisa é uma iniciativa louvável para qualquer país.
Equivale à decisão pessoal de fazer um check-up de saúde e encarar seus resultados.
Em 2000, o Brasil começou a participar do exame e, desde então, vem administrando as consequências da revelação desses dados, inclusive tomando os remédios necessários.
Como um paciente crônico, os dados apresentados nesta semana mostram que, apesar da melhora, ainda falta muito para a cura.
Entre a primeira edição e a mais recente, o Brasil aumentou 16 pontos em leitura.
No entanto, 50% dos nossos jovens de 15 anos ainda não são capazes, entre outras coisas, de localizar informações implícitas em um texto.
Segundo a OCDE, eles terão dificuldades de participar de maneira ativa e produtiva da vida social.
SÉTIMO ANO
O problema é ainda mais grave quando se leva em consideração que 19% dos brasileiros de 15 anos nem participam do exame, por já estarem fora da escola ou não terem alcançado a primeira das séries avaliadas pelo Pisa (sétimo ano).
Ou seja, se todo esse contingente estivesse na escola como deveria, os resultados brasileiros poderiam ser ainda piores.
Uma comparação com o Chile, que há dez anos partiu de patamares semelhantes aos nossos, mostra que eles estão melhorando mais rapidamente.
Os estudantes chilenos aumentaram 40 pontos no teste de leitura do Pisa na última década, uma diferença de 24 pontos em relação ao avanço brasileiro. Lá, a exclusão educacional também é menor: apenas 8% dos jovens de 15 anos ficam fora do teste.
DESIGUALDADE
Perdemos para o Chile também no quesito igualdade de oportunidades educacionais. A nota dos jovens chilenos mais pobres aumentou 51 pontos, enquanto a dos brasileiros da mesma condição social melhorou apenas cinco pontos.
Aumentar a qualidade sem aumentar a desigualdade educacional, como fez o Chile, é o principal desafio dos países da América Latina.
A análise dos dados do Pisa e o acompanhamento das políticas educacionais do Chile mostram que temos muito o que aprender com esse país.
A boa notícia é que não precisaremos ir longe.
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