sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

pharmakon: mídia e internet - Apocalípticos e integrados (da Web)

10/12/2010 |
Redação
IHU - Instituto Humanitas Unisinos


A Internet melhora as nossas possibilidades ou nos aliena e nos controla? Faz bem ou faz mal? Neste debate, o filósofo italiano Maurizio Ferraris aborda, junto a diversos especialistas, as dificuldades dos jovens de distinguir entre real e virtual. Segundo o professor da Università degli Studi di Torino, a Internet aumenta a nossa possibilidade de cooperar com os outros, tornando as trocas eficazes. O debate foi publicado no jornal La Repubblica, 07-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Acima de tudo, não é por acaso que a sede dos servidores do WikiLeaks é um refúgio antiatômico escondido no centro de Estocolmo. A Guerra Fria acabou e foi substituída por uma guerra de documentos, porque, como Ernst Jünger escrevia nos anos 1930, "a liderança da guerra não está lá onde o soldado adornado com distintivos alusivos à classe cavalheiresca é visível, mas lá onde, em aparência pouco vistosa ele está inclinado nos mapas topográficos, entre o zumbido dos telefones e o grasnar dos rádios do campo".

A tempestade documental desencadeada pelo WikiLeaks teria sido impossível sem dois fatores que intrinsecamente têm a ver com os poderes da escrita: de um lado, a Web, ou seja, a rede em que os documentos foram difundidos; de outro, o mundo do papel impresso, que assegura a sua seleção e, por assim dizer, a sua canonização. Nesse sentido, o que neste momento está sob os refletores é a ponta de um iceberg, mas a verdadeira pergunta se refere à natureza, aos riscos e aos recursos dessa explosão da escrita (de documentos em sentido amplo, de imagens a vídeos) que não tem equivalentes na história humana.

Tentamos pensar sobre isso com Urs Gasser, diretor do Berkman Center for Internet and Society da Universidade de Harvard, Juan Carlos De Martin, codiretor do Centro NEXA sobre Internet e Sociedade do Politécnico de Turim, Barry Smith, diretor do National Center For Ontologic Research da Universidade de Búfalo, Bernard Stiegler, diretor do Institut de Recherche et d'Innovation do Centro Georges Pompidou, John Naughton, autor de "A Brief History of the Future: The Origins of the Internet", considerado o melhor livro sobre Internet, e Pierre Musso, que detém a cátedra de "Modelização dos imaginários, inovação e criação" na Télécom Paris-Tech e na Universidade de Rennes.

Eis o debate.

Ferraris – Kevin Kelly, cofundador da Wired, em um livro publicado há poucas semanas, "What Technology Wants", defendeu que a Web deve ser concebida não tanto como um instrumento passivo, mas como um organismo que busca autonomamente os seus próprios fins. Em suma, que é a técnica que comanda, não o homem. A primeira pergunta que se pode fazer é se as coisas já não aconteceram de forma diferente. No fundo, a roda e o fogo (para não falar da clava) também dominaram a evolução da humanidade muito mais do que foram dominados.

De Martin – Eu também acho que sempre foi assim: a técnica sempre determinou a humanidade. A propósito, destaco, porém, um aspecto importante que caracteriza seja o computador seja a Web: ambos são invenções-plataformas, isto é, sem um uso fixo a priori. Uma faca, uma lâmpada, um automóvel permitem fazer uma coisa apenas, e, nesse sentido, nos servem e nos condicionam ao mesmo tempo. Um computador, ao contrário, faz aquilo que nós desejamos que ele faça. Até usos jamais pensados com antecedência. Em outras palavras, tanto o computador quanto a Web são intrinsecamente generativos.

Stiegler – Nesse sentido, a irrupção da Web na nossa vida é comparável à irrupção da escrita na vida cotidiana dos gregos na época de Sócrates. E, assim como a escrita segundo Sócrates, a Web é um pharmakon, isto é, ao mesmo tempo um veneno e um remédio.

Musso – Isso explica as reações de rejeição. Com toda inovação tecnológica, há um choque entre imaginários ambivalentes: de um lado, as promessas de liberdade, de progresso e de comunicação e, de outro, a ameaça de alienação, de controle ou de regressão. Essas visões contrapostas definem os usos potenciais e contribuem para socializar a inovação. Não só a escrita, mas toda técnica é um pharmakon, Zeus e Prometeu, Fausto e Frankenstein habitam a relação que o Ocidente tem com a tecnologia. A Web não é uma exceção a essa dialética do tecnomessianismo e do tecnocatastrofismo.

De Martin – A propósito, no entanto, acho fortemente irritante a atitude de uma parte consistente da classe dirigente italiana que passou, sem solução de continuidade, de dizer que a Web era uma moda passageira e dizer que a Web nos torna estúpidos. Na verdade, não é diferente de dizer que a escrita é uma moda passageira, ou que nos torna estúpidos. Mas, como a história ensina, não aconteceu assim, e muito provavelmente será a mesma coisa com a Web.

Naughton – Certamente. E estamos apenas no início. A Web se difundiu em 1993. Desde então, passaram-se só 17 anos. Estamos na mesma posição dos cidadãos de Mainz, em 1472, 17 anos de que em Mainz havia sido impressa a primeira Bíblia de Gutenberg. Não tínhamos a mínima ideia de como essa tecnologia mudaria o mundo. O que neste momento parece evidente é que o fenômeno da publicação, que tempos atrás estava no centro, hoje tem lugar na periferia. O verdadeiro problema dessa nova escrita é, no caso, quanto tempo ela poderá sobreviver: não temos ideia, ou, melhor, temos muitíssimas provas de quão facilmente ela pode desaparecer.

Stiegler – O mais importante, na Web, é que ela combina o "real time", que parecia ser a característica e o destino das tecnologias derivadas da informática, e que é tão próximo da pulsão, e o tempo diferido da escrita, que também é o tempo da ação retardada, da crítica, da sublimação. Razão e paixão, para expressar-me um pouco sumariamente, se cruzam na Web.

Ferraris – A esse propósito, não podemos nos esquecer de como a vida afetiva das pessoas é mediada pela Web. Aqui também, os apocalípticos, ou simplesmente os nostálgicos, defendem que essas relações são tendencialmente inautênticas, mas não se vê por quê: além disso, a paixão de Werther era essencialmente epistolar, porém dificilmente se poderia defini-la como "inautêntica".

Gasser – As nossas pesquisas sobre o uso da Internet por parte das crianças ou de pessoas muito jovens que não podem imaginar uma vida sem o Google ou a Wikipedia mostram que, entre offline e online, há um limite sempre mais incerto. Os nativos da época digital não distinguem entre o mundo real e o ciberespaço – a Internet é simplesmente uma parte integrada da sua vida. Além disso, pesquisas revelam que pessoas que têm muitas relações na rede tendem, também offline, a ser comunicar mais do que pessoas que não têm contatos online. Ambas as observações sugerem que não há uma divisão clara entre as relações na rede e as relações na realidade, nem portanto uma "brecha de autenticidade". Permanece, assim, uma questão interessante – e aberta – sobre como as normas da comunicação evoluem no espaço digital e como influem na qualidade das relações, sejam elas online ou offline.

Ferraris – Mais do que da autenticidade, sente-se falta da solidão, ou, melhor, de uma certa irresponsabilidade, porque, com efeito, a nossa experiência é de ser perenemente assediados pela escrita, por pedidos de resposta que geram outras tantas responsabilidades.

Smith – Quanto ao assédio da escrita, a maior parte das pessoas, estou certo disso, ainda têm paz. Os que não têm paz – como nós – são vítimas de um acidente histórico: nasceram em uma circunstância em que os benefícios das formas potencializadas de colaboração permitidas pela Internet ainda não foram contrabalançadas pelas novas medidas que serão criadas no futuro para diminuir os seus efeitos negativos.

Ferraris – Temo porém que haja um aspecto negativo difícil de contrabalançar. Quem coloca um celular no bolso não só tem acesso a um sistema de conexão total, mas também se coloca voluntariamente em uma rede de mobilização total, em que o trabalho (e portanto também o proveito) invade toda esfera da vida: temos a Web em nossas mãos, mas estamos também nas mãos da Web. E esse é um problema com relação ao qual não vejo remédios simples, certamente não um ludismo ou um abstencionismo qualquer com relação à Web.

Stiegler – É preciso encontrar modos de organização e regras práticas (terapêuticas e técnicas do eu, como dizia Foucault), que, particularmente, permitam que se tornem eficazes as trocas e que se trabalhe de modo cooperativo. Para mim, a Web é o espaço daquelas que eu chamo de "cooperativas do saber", é assim que me sirvo dela continuamente e só posso ser feliz. Certamente, às vezes, há efeitos nocivos, mas isso vale para tudo aquilo com relação ao qual não se foi capaz de organizar uma terapia – e todo pharmakon necessita de uma terapia. Nesse sentido, o futuro da Web depende essencialmente de nós. Depende da nossa capacidade de colocar novamente em questão as nossas ideias – surgidas quando o pharmakon era diferente (era a escrita no papel), e, portanto, quando a terapia era diferente –, sem esquecê-las, mas transformando-as em vista do pharmakon, a Web, e, graças a isso, sem ficarmos presos nela.

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