terça-feira, 8 de março de 2011

MÍDIAS E REDES SOCIAIS - Trocas simbólicas escapam a controles - observatório da imprensa

Por José Henrique P. e Silva em 8/3/2011


Nas últimas semanas, e no contexto das revoltas populares no mundo árabe, surgiram inúmeros comentários apontando para uma estreita relação entre tais revoltas e as novas mídias sociais (Google, Facebook, Twitter etc.). Alguma relação, por certo, deve haver, mas não necessariamente de causa e consequência, como se ouviram vozes afirmando que "o Twitter e o Facebook fizeram a revolução". É um assunto delicado e merece sempre cautela, pois se para alguns estas novas tecnologias são bem vindas, para outros elas estariam carregadas de "ideologia".

Para se desenvolver como espécie, o homem teve no seu trabalho e em suas ferramentas grandes aliados que permitiram sua mais rápida evolução. Foi o uso que deu a certos elementos da natureza, transformando-os em ferramentas, que lhe impulsionou o desenvolvimento. Na comunicação social me parece que ocorre algo parecido. Nossas trocas simbólicas, excetuando a relação face-a-face, sempre estiveram permeadas por algum ambiente tecnológico, por mais simples que fosse, até que alcançássemos o estágio mais atual das novas mídias de comunicação, como o Facebook, o Twitter e outros espaços sociais eletrônicos. É na utilização dessas mídias que encontramos sempre novas oportunidades de conversação e interação simbólica.

De alguma forma, então, as mídias são ao mesmo tempo espaços e ferramentas nas quais e a partir das quais o social se comunica, se percebe e atua. Quando falamos da política, a questão se torna ainda mais evidente, mas não menos controversa. Afinal, na esfera pública de discussão, a centralidade que a mídia ocupa a tem transformado não só em um espaço de discussão política, mas em um ator político relevante.

Facilidade de intercâmbio de ideias

Ora, é dessa forma, então, que novas mídias sociais atuam como espaço e ferramentas que permitem a organização e a comunicação de pensamentos e de pessoas de uma maneira talvez um pouco mais eficiente e rápida, independente do conteúdo das formas simbólicas aí trocadas. É dessa forma que imaginamos que discriminar as novas tecnologias, portanto, seria o mesmo que tentar discriminar a circulação de pensamentos e ideias e frear o debate político.

Sabemos que é tentadora, para países "desacostumados" com a democracia e com o conflito de ideias, a restrição ao acesso a determinadas tecnologias de comunicação, sempre sob o pretexto de se tornarem veículos de "propaganda ideológica". Isto por certo ocorre em canais de TV, rádio, jornal impresso, enfim. Mas o que algumas mídias sociais trazem de novidade é que esta possibilidade é muito menor, pois as trocas simbólicas são muito mais intensas e escapam a muitos controles.

É nesse sentido, me parece, que as novas mídias sociais podem atuar, no espaço da política, como um espaço e, ao mesmo tempo, uma ferramenta, onde a circulação de ideias é maior, possivelmente mais livre. As mídias sociais possuem, por enquanto, essa capacidade de oferecer um retrato mais apurado (embora ainda não tão representativo) das relações sociais e seus desejos e conflitos. As mídias sociais, então, possibilitam uma maior facilidade de intercâmbio de ideias e, portanto, maior possibilidade de organização para um determinado fim político, mostram o pulsar da sociedade em circulação. Querer freá-las é querer frear o pulsar da sociedade. Não dá, ou pelo menos deve-se resistir a essas tentações.

"Encontro" e de "resistência"

Onde estaria, então, a relação entre as revoltas e as novas mídias digitais? Acredito que, enquanto espaço e ferramentas, as novas mídias sociais possibilitam, em certo aspecto, o "revigoramento do demos", ou seja, facilitam o "encontro" entre as pessoas e a discussão entre suas ideias para a definição de finalidades e objetivos a serem alcançados. Elas não eliminam a "praça pública real", nem a substituem, mas são o seu bastidor, o lugar onde a encenação ainda está sendo preparada para, no momento seguinte, ocupar a praça real, onde os gritos ecoam, os aplausos surgem e o sangue é derramado. Nesse sentido, não acredito na existência de uma "revolução virtual", mas em novas tecnologias que, se bem utilizadas, podem aquecer aquilo que estava adormecido.

Mas é claro que esta é somente uma das utilidades destas ferramentas, pois elas também podem servir amplamente a vários tipos de alienação. Afinal, uma ferramenta só adquire significado quando utilizada pelo homem, e pode ser utilizada de várias formas. A forma como vamos utilizá-la, portanto, é que vai definir seu significado. Talvez, em alguns países árabes, com seus excessos de restrição às liberdades, no momento atual as novas mídias sociais tenham adquirido um significado de maior possibilidade de "encontro" e de "resistência". Nada mais que isso... Ou tudo isso




REDES SOCIAIS

A arte da imparcialidade jornalística

Por Emanuelle Najjar em 8/3/2011


Esta semana, li algo muito interessante no site Comunique-se a respeito do Twitter e do exercício do jornalismo. Não falava na rede social como gerador de pautas, mas sim, sobre seus pequenos dilemas éticos, maiores que seus 140 caracteres. A grande pergunta era: O que você diria no Twitter se não fosse jornalista?

Ok, leitor. Talvez você não seja mesmo jornalista, mas pense nos casos famosos de demissões que aconteceram devido à livre expressão no Twitter. Lembra de Felipe Milanez? Ele era editor da revista National Geographic e foi demitido por criticar matéria da revista Veja, que faz parte justamente do Grupo Abril, seu empregador. Diante disso, pense no que significa uma opinião diante do mito da imparcialidade.

Embora leigos possam imaginar que jornalistas possuem poderes e privilégios sobre os demais seres da raça humana a verdade é que há limitações impostas em vários níveis, válidas não somente durante as horas de trabalho. Estou falando de supostas obrigações em tempo integral: de dilemas éticos por agir em prol da liberdade de outros enquanto no fundo sacrificamos a nossa.

É, eu sei. Foi extremo, mas, como o mito envolvendo imparcialidade na visão popular não admite meio termo, creio que escrever desta forma seja o mais cabível. A verdade é que nem sempre podemos pressionar a tecla "Enter". Geralmente, as consequências são maiores que o habitual.

Uma arte que tem seu preço

Bom, talvez você não leia o trabalho realizado pelo Comunique-se para ter alguma ideia do que se trata, mas saiba que estou falando de coisas simples: críticas às prefeituras, empresas e instituições. Coisas que todo cidadão faz sem grandes medos, mas da qual abrimos mão em prol seja lá do emprego que paga nossas contas ou pela ideia de que o silêncio é pouco a pagar para fazer parte do que julgam ser o quarto poder.

Com isso os dedos que pouco antes despejaram palavras furiosamente na tela do computador são obrigados a recuar. Hesitantes, ao pensar nas prováveis respostas, nos resultados de um ato tido como simples. Apertar um botão deveria ser banal, um gesto quase automático. Porém as atribuições e cobranças acabam por pesar nos ombros, tornando aquele gesto breve algo complexo e cheio de significados. No fim, os dedos rumam para a tecla oposta, apagando o que acabou de escrever, ritmado por pensamentos que variam entre revolta e conformismo, dependendo do grau de idealismo do cérebro que o comanda.

É: a tal da imparcialidade é uma arte que tem lá o seu preço...

Nenhum comentário:

Postar um comentário