sexta-feira, 18 de setembro de 2020

PERSONALIZO OS MEUS DADOS, ENTREGO TUDO DE GRAÇA E VOU PARAR NAS NUVENS E NO PARAÍSO

Douglas Edwards, responsável pela marca Google, conta sobre uma reunião realizada em 2001 com os fundadores em torno da questão “O que é o Google?”. “Se tivéssemos uma categoria”, refletia Larry Page, “seria a das informações pessoais […]. Os lugares que vimos. Nossas comunicações […]. Os captadores não custam nada […]. O armazenamento não custa nada. Aparelhos fotográficos não custam nada. As pessoas vão gerar enormes quantidades de dados […]. Tudo o que você ouviu, viu ou experimentou se tornará consultável. Toda a sua vida se tornará consultável.”2

A visão de Larry Page oferece um reflexo fiel da história do capitalismo, que consiste em capturar coisas exteriores à esfera comercial e transformá-las em mercadorias. Em seu ensaio A grande transformação, publicado em 1944, o historiador Karl Polanyi descreve o advento de uma economia de mercado autorregulada por meio da invenção de três “mercadorias fictícias”. A primeira delas, a vida humana subordinada às dinâmicas do mercado e que renasce sob a forma de um “trabalho” que se vende e se compra. A segunda, a natureza humilhantemente dominada pelo mercado, que renasce como “propriedade fundiária”. A terceira, a troca transformada em mercadoria e ressuscitada como “dinheiro”. Agora, os atuais detentores do capital de vigilância criaram uma quarta mercadoria fictícia, fruto da expropriação das experiências humanas reais, cujos corpos, pensamentos e sentimentos são tão intactos e inocentes quanto os campos e florestas que abundavam na natureza antes de sua absorção pelo mercado. De acordo com essa lógica, a experiência humana é mercantilizada pelo capitalismo de vigilância, para renascer como “comportamento”. Traduzidos em dados, estes assumem seu lugar na fila interminável que alimenta as máquinas concebidas para fazer predições que se compram e se vendem.

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