Mostrando postagens com marcador SERRA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador SERRA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

política e poder - A direita encontra o seu messias? - Wanderley Guilherme dos Santos - cartacapital

11 de janeiro de 2011 às 16:24h


Ao assumir o papel de principal líder do aglomerado conservador, Serra amealhou respeitável portfólio eleitoral. Por Wanderley Guilherme dos Santos. Foto: Agência Brasil
Para os que temiam pelo destino da direita, as eleições propiciaram grata surpresa. Uma coalizão informal de políticos, autoridades religiosas, marqueteiros e meios de comunicação assegurou inesperada vitória ao conservadorismo social. Levado à disputa pela campanha de Marina Silva, o obscurantismo adquiriu a tradicional truculência do tucanato serrista e dobrou a campanha de Dilma Rousseff.- A carta-compromisso divulgada pela candidata algemou o Poder Executivo ao status quo da assistência a gestantes problemáticas. Por pouco o contrato de união civil entre pessoas do mesmo sexo não foi incluído entre as condutas diabólicas, bem como as pesquisas com células-tronco e, sim, o divórcio.

São todos itens da pauta privada de Marina Silva e não é impossível que compareçam às eleições de 2014. Foi uma das fatias direitistas que se deslocaram entre o primeiro e o segundo turno.

Aceitando o papel de líder do aglomerado das direitas, atraindo, inclusive, a parcela conservadora do eleitorado marineiro, José Serra azeitou a retórica e terminou com respeitável portfólio eleitoral. Emitindo mensagens acima dos partidos, praticamente sozinho, com um partido de apoio, o DEM, em frangalhos, e outro, o PSDB, batendo em retirada, enfrentou a candidata de um presidente com extraordinário apoio popular, alcançando 44% dos votos válidos.

É pouco provável que qualquer outro presidente obtenha o reconhecimento consagrado a Lula e, em decorrência, que se traduza em apoio eleitoral da magnitude observada agora. Particularmente nos estados do Nordeste, nos quais as diferenças entre a candidata Dilma e o candidato Serra foram excepcionais. Não se trata da vitória, mas não é despropositado refletir que o tamanho da vitória de Dilma no Nordeste expressa um voto de confiança em Lula.

Em discurso na noite de 31 de outubro, José Serra evitou admitir uma derrota irreversível e anunciou sua candidatura a condutor da recém-mobilizada coalizão conservadora. Consciente do lugar conquistado, reivindicou a responsabilidade pelo resultado eleitoral que, supõe, inicia um caminho novo para ele: o da direita explícita. Pouco concedeu aos partidos, ignorou o delirante vice de sua chapa, Índio da Costa, referindo-se somente, e economicamente, ao governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin. Além de prometer hostilidade ao governo Dilma Rousseff, lançou um desafio a Aécio Neves: a disputa pela base eleitoral da direita em 2014.

A plataforma delineou-se ao longo dos debates e da propaganda eleitoral. Em harmonia com o conservadorismo, Serra advogou doutrinário enxugamento das contas públicas, limite às atividades pioneiras do Estado, substancial redução de impostos, proteção privilegiada às exportações e, na política externa, retorno a belicoso alinhamento ideológico aos “valores ocidentais”, com sotaque inglês. Embutiu o suicídio da política social e trabalhista vigente, no médio prazo, sob disfarce de magníficos aumentos nas aposentadorias, pensões e no salário mínimo, além de agregar um bônus ao Bolsa Família, a que impropriamente designou de 13º salário, de memória trabalhista.

Esse bônus significaria a impossibilidade de expandir o programa aos milhões de famílias ainda por incluir, por aí confinando a cobertura aos atuais beneficiários, criando um fosso cheio de ressentimento entre duas classes de famílias pobres – as cobertas e as não cobertas pelo Bolsa Família – o oposto ao que a atual política de inclusão social persegue. Combatido pelos conservadores, mesmo quando os salários estão comprimidos, o imediato aumento sugerido para o salário mínimo após sucessivos acréscimos reais nos últimos anos forçaria o empresariado, em particular o pequeno e médio, a um retorno às práticas da informalidade e, provavelmente, à diminuição na oferta de empregos.

Menor expansão das taxas de ocupação, finalmente, repercutiria na Previdência Social, que passaria a arcar com receitas proporcionalmente menores em face das despesas de aposentadorias e pensões subitamente elevadas. No médio prazo, discriminação entre as famílias pobres, informalidade e desemprego no mercado de trabalho e buracos crescentes na Previdência Social.

No contexto de uma política fiscal doutrinariamente apertada, que melhor momento para uma reforma privatista na Previdência? As propostas sociais da candidatura José Serra nada tinham de eleitoreiras. Antes, eram brilhantes como estratégia de radical reversão das políticas em curso da única forma pacífica possível, ou seja, por seu desgaste, por assim dizer, natural.

Politicamente, a candidatura José Serra prometia “peitar o Congresso” e promover uma reforma das instituições, impondo o chamado “voto distrital puro”. Nesse sistema, um eleitorado que se divida entre três candidatos, um recebendo 34% dos votos, com 33% dados a cada um dos outros dois, veria o primeiro levando 100% da representação, isto é, sendo o único eleito, “puro”, ficando 66% dos demais eleitores sem representante direto. Esse seria o resultado da inatacável ideia de moralização dos costumes políticos brasileiros, porém, sob forma de um sistema de eleição distrital. Outra consequência, o sistema partidário sofreria razoável devastação em nível nacional, com tendência ao duopólio similar ao dos partidos, Democrata e Republicano, nos Estados Unidos, e Conservador e Trabalhista, na Inglaterra.
Partidos médios de relevante significado como o Partido Socialista Brasileiro ou o Partido Republicano, ou de histórica coerência doutrinária como o PCdoB (os comunistas nostálgicos do Partidão, atual- PPS, estão para se dissolver no PSDB), seriam contidos em colégios regionais, quando não estaduais, ou desapareceriam completamente. Essa desinstitucionalização interromperia a importante tarefa de trazer para o leito da política partidária e parlamentar os conflitos sociais e econômicos das grandes periferias metropolitanas e das regiões limítrofes ao território do país já constitucionalizado. É aí que os pequenos e médios partidos operam a tradução das tensões e dos conflitos latentes de grande magnitude (veja Carajás, fruto da ausência de córregos institucionais) em demandas articuladas em termos eleitorais e partidários.

Um bipartidarismo por imposição legal alimentaria a dinâmica centrífuga das regiões ainda não integradas nacionalmente por via do mercado. À visão de uma jurisprudência com ambições demiúrgicas, escapa a complexidade dialética das relações entre sociedades heterogêneas e instituições representativas, que não se regem por pautas valorativas que, mesmo universalmente aceitas, possuem escassa eficácia operacional. O inconformismo com práticas que maculam- as instituições democráticas é saudável e costuma ter consequências positivas, cedo ou tarde. É falso, entretanto, que o preço a pagar pelo aprimoramento institucional seja a amputação da taxa de representatividade parlamentar. Não obstante, a propaganda adversa tem contaminado a avaliação de ponderável número de políticos e analistas, insinuando-se como requisito indispensável da modernidade a defesa de uma abstrata “reforma política”, cujas medidas específicas se resumem a castrar o direito de escolha da população.

A visão de milhões de eleitores mal saídos do cativeiro da miséria e do coronelismo, elegendo representantes que atendam a seus interesses, é insuportável para aqueles que só apreciam aos que pensam e se vestem como eles. A introdução do voto distrital, puro ou misto, registre-se, também faz parte do ideário de Marina Silva e de Aécio Neves, pretendentes ao eleitorado conservador, além de José Serra.

Expressiva maioria dos eleitores sabe de que lado vai votar, ao final, mesmo antes da campanha. O período de disputa é fundamental para descobrir quem ocupa o lado de sua preferência. Por entre o festival de descaminhos proposto pela rede midiática de desinformação, o tempo gratuito de televisão e rádio foi suficiente para o eleitorado identificar seus representantes. Os candidatos presidenciais reiteraram à exaustão o que pretendiam fazer no governo, em tudo que lhes foi arguido por entrevistadores. Mas profissionais da economia lastimam que os debates não tenham se convertido em esgrima econométrica e colunistas reclamam que faltou esclarecimento sobre o que pensam os candidatos. Depois alardeiam que o povo não sabe votar…

O cenário político pós-eleições de 2010 é tenso. O governo eleito vai administrar o País em período de turbulência econômica internacional. A agenda interna contém tópicos urgentes: proposta para o financiamento estável da saúde coletiva; soluções logísticas para problemas suscitados pelo desenvolvimento econômico, após décadas de descaso; estímulo ao aumento das taxas de poupança e investimentos domésticos; expansão na capacidade de produzir conhecimento e tecnologia. Tudo isso com uma base de apoio parlamentar que peca por heterogênea abundância e uma oposição em disputa pela herança conservadora. Haja democracia.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

serra e fhc - cartamaior - DO QUE NOS LIVRAMOS:O HERÓI DA REPÚBLICA DE HIGIENÓPOLIS

O mito construído pela mídia demotucana que durante anos de pré-campanha vendeu José Serra como sinônimo de gestor público eficiente, dissolve-se nas chuvas de verão. O mito é contestado em seus próprios termos, por um igual ou pior que ele. A primeira medida tomada pelo também tucano Geraldo Alckmin no governo de SP --discípulo assumido do 'choque de gestão'-- foi determinar rigorosa auditoria em todos os contratos de terceirização de serviços públicos assinados por Serra. Alckmin tambémn adiantou que poderá reduzir o valor dos pedágios que Serra defendia como 'proporcionais' à qualidade dos serviços prestados por São Paulo, sem difarçar o desdém por tudo o que o pavonato tucano considera como 'resto', ou seja, o Brasil. Dificilmente a 'obra' de outro desafeto dos alckmistas, Paulo Renato , ex-centurião de Serra em 'contratos educativos' com editoras como a Abril, Globo, Folha, Estadão etc, escapará da malha fina da linhagem tucana que voltou ao poder nos Bandeirantes. Aos poucos se verá que a construção midiática estampada em Serra --a direita eficiente X esquerda populista e perdulária-- tinha prazo de validade de um pote de iogurte e aderência política restrita ao bairro de Higienópolis em SP, meca do conservadorismo elitista que pretendia derrotar Lula e Dilma para repetir --no plano nacional-- a maracutaia chique perpetrada contra o interesse público em SP.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

As recepções do Itamaraty se José Serra tivesse ganho a eleição

blog Hildegard Angel

(Esta crônica de humor foi escrita para a eventualidade de uma vitória de José Serra, e seria publicada ontem, assim que fossem anunciados os resultados. Como a vitoriosa foi Dilma Rousseff, foi publicado o texto em torno do mesmo tema protagonizado por ela, conforme orientação do editor deste portal. Porém, diante da reação raivosa do candidato, que antes havia prometido mão estendida e união, se vencesse, e agiu justamente da forma oposta como perdedor, decidi divulgar o material, que não seria publicado. E por favor não pensem que estou chutando cachorro morto. Apenas colocando em prática a máxima de que 'amor' com amor se paga)

Dia 1º de janeiro de 2011, já empossado, o presidente José Serra se reúne com o ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso (de volta ao antigo posto), para discutirem a agenda internacional. Não a agenda política, muito menos a de negócios, mas a agenda de festas para os visitantes estrangeiros programados para virem ao Brasil naquele primeiro semestre. “Vamos retomar o costume tradicional do Itamaraty das grandes recepções a rigor, que foi abandonado no governo Lula. Afinal, elas conferem dignidade ao país e são fundamentais à liturgia do cargo”, propôs o novo ministro e o presidente prontamente acatou. O ministro prosseguiu: “Sugiro que voltemos a pedir traje black-tie, muito mais civilizado e de acordo com o protocolo. Não somos Cuba nem nada pra receber de manga de camisa”, disse, exagerando a crítica ao governo anterior em que os convites pediam apenas passeio completo. E prosseguiu: “Afinal, Vossa Excelência fica muito bem de smoking. Ou quem sabe o senhor prefere casaca?” (falou FHC, agora pensando em causa própria, na sua elegante pessoa)...

Excluída a casaca - com um certo pesar, diga-se de passagem (mas aí falou mais alto um certo senso de ridículo) - os dois articuladores passaram ao item fundamental: o buffet. José Serra: “Pelo amor de Deus, Fernando Henrique, chega de surubim do Gagliardi”. Referia-se ao famoso banqueteiro de Brasília, que tradicionalmente assina os ágapes no Palácio do Itamaraty e que se notabilizou por usar surubim (prata da casa, isto é, de nossos rios) em substituição ao dispendioso salmão. “Bobagem, presidente, com o dólar tão desvalorizado, o surubim está muito mais caro do que o salmão da Noruega; vamos servir só importados e sem receio de crítica. Quanto ao chef, vamos dar um upgrade à Roberta Sudbrack, que no meu governo assinava os jantares no Alvorada. Vamos fazê-la chef oficial do Itamaraty!”. Serra hesitou; não que não gostasse da cozinha da Sudbrack, é que ele estava pensando mais alto, tipo: "Mas não tem um outro cozinheiro, que está mais em evidência, Alex... Alex...". “Alex Atala”, ajudou FHC. “Este mesmo, do restaurante D.O.M., que é o 18º melhor do mundo”, complementou Serra, mostrando erudição gastronômica. Hábil, FHC aconselhou, fazendo prevalecer sua sugestão com um argumento irrebatível: “Presidente, se não temos o melhor do mundo é melhor uma figura neutra, como a Roberta. Não vai ficar bem dizer aos nossos convidados que eles estão sendo servidos com a comida do 18º melhor, o senhor não acha?”

Impaciente, pois já passam de três da manhã e ele ainda tem audiências com três ministros (Serra, desde o primeiro dia de seu governo, implantou seu velho hábito, cultivado em todos os cargos, de trocar o dia pela noite, começando seu expediente à tarde e varando a madrugada)... Pois bem, impaciente, Serra apressou seu ministro: “E as atrações? E a lista de convidados?”. Fernando Henrique faz um certo suspense: “Hummm. Talvez um show black popular brasileiro, mostrando que não somos um país racista. Eu mesmo tenho um pé na cozinha, todos sabem”. E Serra: “Ah, chama a Sandra de Sá, ela me apoiou”. “Não, presidente, essa não pode, porque desmentiu a inclusão de seu nome no manifesto em apoio ao senhor. E ainda por cima declarou o voto em Dilma”. “E o Ivan Lins?”, sugeriu o presidente. “Esse também não pode, pelo mesmo motivo. É melhor chamarmos o Dominguinho do acordeon ou Chitãozinho & Xororó. Estes não desmentiram o apoio. Ah, tem também a Sandy”. Meditativo, Serra hesitou: “Hummm, acho que precisamos alguém, assim, mais MPB. Tipo o Chico...”. “Não pode, presidente, não pode. Mas temos a Fafá, serve?”. “Serve. E a gente bota ela pra cantar o Hino Nacional, não esquece. Agora vamos à lista...”

O ministro alega que é preciso seguir a ordem da pauta e sugere ao presidente passarem ao nome do mestre de cerimônias: “Que tal a Regina Duarte?”. “Não, esta tem medo de tudo” responde JS. “Quem sabe na hora pega medo também de microfone?”, continua. “Maitê Proença é um bom nome, presidente”. “Essa não! Essa não! Essa matou o Saulo, você não viu a novela Passione?” Resignado, Fernando vai desfiando sugestões de artistas aliados: “Carlos Vereza?”. “Não, este é um trem fantasma, tudo pode acontecer”. “Izabelita dos Patins?”. “Não, apesar de não sermos homofóbicos, it's a little too much”, falou em inglês o novo presidente, provocando leve irritação em seu ministro, que não aprovou a pronúncia. “Joelma?”. “Esta não é apresentadora, é cantora”, respondeu Serra. “Ah é?”, manifestou FHC, que jamais ouvira falar da banda Calypso. “Therezinha Sodré? Vera Gimenez? Narjara Tureta?”, o ministro vai sugerindo. “Não! Não! Não!”, retruca o já exaurido presidente, que decide ele mesmo bater o martelo: “Chama o Juca de Oliveira, este me apoiou”. “Mas vão acusar o senhor de favorecer os paulistas, presidente...”. “Ah, é guerra, é? Então chama a Glória e o Tarcísio, pronto, dois paulistas. Quero ver o que vão falar!”, decidiu JS, encerrando de vez a questão e insistindo: “E a lista? A lista?”...

“Bem” - diz FHC – “sugiro que encabecemos a lista de convidados da primeira recepção com o papa Bento 16, a quem o senhor deve a sua eleição”. “Mas o papa não pode, a recepção é para o presidente da Indonésia, que é um país muçulmano”. “Tá bom, presidente Serra, vamos deixar o papa pra próxima, que vai ser para o presidente de Andorra, país católico. Prosseguindo, excelência, vamos precisar ter muitos intelectuais na primeira recepção, pra mostrar a diferença de nosso governo formado por acadêmicos”. “Ah, chama o Affonso Romano de Sant'Anna”, sugere Serra. “Este não pode”. “Como não pode? Ele encabeçou a lista dos intelectuais em apoio a mim!”. “Encabeçou e desencabeçou em seguida. Que tal a Ruth Rocha?”. “Esta escreveu o quê mesmo?”. “Livros infantis, presidente, livros infantis...”. “Hummm, não temos um outro nome, digamos, de literatura mais adulta?”. “Temos, presidente. Temos o Ferreira Gullar”. “Bom nome, bom nome...”

“Agora vamos à área médica, presidente. Eu sugiro...”. “Não, Fernando Henrique, quem vai sugerir é o meu ministro da Saúde, o Jacob Kligerman. Deixa a lista dos médicos com ele”. Eis que o chefe de gabinete, Marcelo Madureira, pede licença, entra e avisa, abrindo a boca, sonolento, num longo bocejo: “Presidente, já passam das quatro da manhã e o ministro Arnaldo Jabor [da Cultura] está esperando há duas horas. Até improvisamos um saco de dormir pra ele na sala de espera, mas ele ronca muito e fica falando, enquanto dorme, ‘Suprema Felicidade, Tammy di Calafiori... Tammy... Marilyn... Tammy’, ninguém aguenta mais. O ministro Cesar Maia, que também espera a vez há um tempão, já está reclamando”. “Tá bom, tá bom, vamos encerrar agora, depois a gente continua. Mas deixa aqui a lista de apoio dos intelectuais a mim, Fernando Henrique, pra eu dar uma estudada nos nomes dos convidados.”

Saem FHC e Madureira. Serra, insatisfeito com o desempenho de seu ministro, logo na primeira reunião, bate o olho na lista e – eureka!: “Já sei, já sei, não vou mudar de convidados. Vou mudar de ministro! Madureira (ele diz ao interfone de mesa), chama a Ana Maria Tornaghi, que me apoiou, quero fazer a ela um convite”. “Mas, ministro, ela deve estar dormindo!”. “A Ana Maria? Que nada, a essa hora ela deve estar lá no Jobi do Leblon. Ana Maria é como eu, só dorme de manhã. E ela conhece todo mundo em Nova York. Vai dar certíssimo como minha ministra das Relações Exteriores”...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Carta Maior- DEPOIS DE JOBIM, O INFORMANTE...SERRA, O ENTREGUISTA

"Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava...E nós mudaremos de volta...Voces vão e voltam..." (José Serra à representante da multinacional Chevron, Patricia Pradal, também dirigente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP),o sindicato das petroleiras internacionais no país, a quem o tucano dá sua garantia de que, vitorioso nas eleições presidenciais de 2010, reverteria a regulação soberana do pré-sal para entregar as jazidas aos mercados:' voces vão e volta...' (Telegrama diplomático de dezembro de 2009, divulgado pelo WikiLeaks que teve o diálogo de Serra omitido pelo jornal O Globo, na edição desta 2º feira; foi divulgado pela Folha que, todavia, não providenciou a investigação óbvia: quanto as petroleiras multinacionais doaram à campanha demotucana? A 'barriga' certamente não ocorreria em trama equivalente que tivesse como personagem um político de esquerda. Carta Maior, 13-12)

WikiLeaks: Serra e a entrega do pré-sal

BLOG DO MIRO
Os documentos vazados pelo sítio WikiLeaks continuam desmascarando muito gente pelo mundo a fora. No Brasil, só foram divulgados menos de dez dos quase 3 mil memorandos da embaixada e consulados dos EUA no país. Ele já causaram constrangimento a Nelson Jobim - que foi ministro de FHC, ministro de Lula e deverá continuar ministro no governo Dilma Rousseff. Em vários papéis, ele aparece prestando serviços ao império, inclusive com críticas ao Itamaraty e à política externa altiva do atual governo.

Agora surgem documentos que comprovam que José Serra mentiu na eleição presidencial. O tucano garantiu que não privatizaria o pré-sal e jurou defender a Petrobras. Mas os memorados do serviço diplomático dos EUA mostram que o candidato se reuniu com as multinacionais do petróleo e prometeu rever o modelo de exploração do pré-sal. A reportagem da Folha de hoje é bombástica. Confirma o entreguismo dos demotucanos. Reproduzo-a abaixo:

*****

Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal

Segundo telegrama do WikiLeaks, Serra prometeu alterar regras caso vencesse. Assessor do tucano na campanha confirma que candidato era contrário à mudança do marco regulatório do petróleo.

JULIANA ROCHA
DE BRASÍLIA
CATIA SEABRA
DE SÃO PAULO

As petroleiras americanas não queriam a mudança no marco de exploração de petróleo no pré-sal que o governo aprovou no Congresso, e uma delas ouviu do então pré-candidato favorito à Presidência, José Serra (PSDB), a promessa de que a regra seria alterada caso ele vencesse.

É isso que mostra telegrama diplomático dos EUA, de dezembro de 2009, obtido pelo site WikiLeaks (www.wikileaks.ch). A organização teve acesso a milhares de despachos. A Folha e outras seis publicações têm acesso antecipado à divulgação no site do WikiLeaks.

“Deixa esses caras [do PT] fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta”, disse Serra a Patricia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Relações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, segundo relato do telegrama.

Um dos responsáveis pelo programa de governo de Serra, o economista Geraldo Biasoto confirmou que a proposta do PSDB previa a reedição do modelo passado.

“O modelo atual impõe muita responsabilidade e risco à Petrobras”, disse Biasoto, responsável pela área de energia do programa. “Havia muito ceticismo quanto à possibilidade de o pré-sal ter exploração razoável com a mudança de marcos regulatórios que foi realizada.”

Segundo Biasoto, essa era a opinião de Serra e foi exposta a empresas do setor em diferentes reuniões, sendo uma delas apenas com representantes de petroleiras estrangeiras. Ele diz que Serra não participou dessa reunião, ocorrida em julho deste ano. “Mas é possível que ele tenha participado de outras reuniões com o setor”, disse.

Senso de urgência

O despacho relata a frustração das petrolíferas com a falta de empenho da oposição em tentar derrubar a proposta do governo brasileiro.

O texto diz que Serra se opõe ao projeto, mas não tem “senso de urgência”. Questionado sobre o que as petroleiras fariam nesse meio tempo, Serra respondeu, sempre segundo o relato: “Vocês vão e voltam”.

A executiva da Chevron relatou a conversa ao representante de economia do consulado dos EUA no Rio.

A mudança que desagradou às petroleiras foi aprovada pelo governo na Câmara no começo deste mês.

Desde 1997, quando acabou o monopólio da Petrobras, a exploração de campos petrolíferos obedeceu a um modelo de concessão.

Nesse caso, a empresa vencedora da licitação ficava dona do petróleo a ser explorado -pagando royalties ao governo por isso.

Com a descoberta dos campos gigantes na camada do pré-sal, o governo mudou a proposta. Eles serão licitados por meio de partilha.

Assim, o vencedor terá de obrigatoriamente partilhar o petróleo encontrado com a União, e a Petrobras ganhou duas vantagens: será a operadora exclusiva dos campos e terá, no mínimo, 30% de participação nos consórcios com as outras empresas.

A Folha teve acesso a seis telegramas do consulado dos EUA no Rio sobre a descoberta da reserva de petróleo, obtidos pelo WikiLeaks.

Datados entre janeiro de 2008 e dezembro de 2009, mostram a preocupação da diplomacia dos EUA com as novas regras. O crescente papel da Petrobras como “operadora-chefe” também é relatado com preocupação.

O consulado também avaliava, em 15 de abril de 2008, que as descobertas de petróleo e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) poderiam “turbinar” a candidatura de Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil.

O consulado cita que o Brasil se tornará um “player” importante no mercado de energia internacional.

Em outro telegrama, de 27 de agosto de 2009, a executiva da Chevron comenta que uma nova estatal deve ser criada para gerir a nova reserva porque “o PMDB precisa de uma companhia”.

Texto de 30 de junho de 2008 diz que a reativação da Quarta Frota da Marinha dos EUA causou reação nacionalista. A frota é destinada a agir no Atlântico Sul, área de influência brasileira

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

cartamaior - SE SERRA TIVESSE VENCIDO, A PRIMEIRA MEDIDA SERIA IMPEDIR A REGULAÇÃO CONCLUÍDA ESTA SEMANA

Marco regulatório vitorioso inclui: a) criação de uma nova estatal que vai controlar o comércio do óleo (Pré-Sal S.A); b) capitalização da Petrobrás, que se tornou a 2º maior empresa de energia do mundo e agora tem fôlego para exercer o controle de todas as reservas e participar com pelo menos 30% na exploração de cada poço; c) criação do Fundo Social associado à receita do petróleo, que destinará 50% do rendimento a um salto de qualidade na escola pública brasileira (80% disso reservado ao ensino básico e pré-escolar); finalmente, o mais importante: aprovação, nesta 5º feira, do regime de partilha, que garante a soberania brasileira nas maiores reservas descobertas no planeta nos últimos 30 anos. Com a conclusão do novo marco, Dilma poderá ter, já em 2011, cerca de R$ 27 bi de receita adicional, por conta do pagamento de assinatura na licitação do campo de Libra, o 1º leilão sob as novas regras. O novo recurso enfraquece propostas de arrocho para atingir meta de superávit fiscal em 2011. Petroleiras internacionais e seus aliados nativos resistiram até o último minuto ao marco soberano. Que ninguém duvide: o pré-sal foi o terceiro turno das eleições presidenciais de 2010. Se Serra tivesse vencido, o marco regulatório concluído esta semana seria destruído. Para os que achavam, e ainda acham, que não haveria diferença entre o tucano ou Dilma, eis aí um ponto a refletir. Para segmentos governistas que agora se empenham em adotar a plataforma dos adversários na área fiscal, é importante recordar: a sociedade votou na continuidade do crescimento com justiça social. O pré-sal é a síntese desse pacto renovado nas urnas. A ver.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

serra - Show de McCartney e a "bolinha de papel"

Por Altamiro Borges

Com o título "público grita 'bolinha de papel' para Serra durante show de Paul McCartney", o jornal O Estado de S.Paulo, o mesmo que assumiu em editorial o seu apoio escancarado ao demotucano, noticiou ontem sem maior estardalhaço:

"O ex-governador de São Paulo José Serra, candidato derrotado à presidência da República, esteve ontem na área VIP do show de Paul McCartney. Assim que foi reconhecido pelo público, ouviu o coro “bolinha de papel! bolinha de papel!”, referência ao episódio do dia 21 de outubro quando, durante a campanha, foi atingido por um rolo de fita adesiva e também por uma bolinha de papel durante uma caminhada no Rio de Janeiro. Serra retirou-se da frente do público, embora não corresse risco já que os organizadores proíbem a entrada, entre outras coisas, de “papel em rolo de qualquer espécie, jornais e revistas”.

Um ator ridículo e deprimente

A cômica notícia confirma o que já disse o presidente Lula: Serra saiu bem menor da disputa sucessória deste ano. O episódio da "bolinha de papel" foi apenas o mais grotesco da campanha eleitoral. O ator de quinta categoria encenou que foi vítima de um ataque "terrorista", fez até tomografia num hospital e virou manchete da Globo. A mídia golpista até tentou maquiar a farsa e o farsante. Mas não deu certo. A história bizarra caiu na boca do povo e, agora, a "bolinha de papel" persegue Serra.

Durante a campanha, o demotucano apelou para todo tipo de baixaria. No início, disse que seria um "continuador do presidente Lula". Como a mentira não colou, ele passou a atacar duramente o governo e sua candidata. Como também não pegou, ele se juntou ao que há de mais reacionário na política brasileira, como as seitas TFP e Opus Dei, os milicos de pijama e os obscurantistas da igreja. Jogou sua rala história no lixo e virou o candidato da extrema-direita, estimulando preconceitos e explorando temas religiosos e morais. Expôs até sua esposa no debate sobre o aborto. No final, levou uma "bolinha de papel" na careca. Triste fim!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CARTAMAIOR: PSDB - MILITANCIA, SÓ A DO DISPOSITIVO MIDIÁTICO

"O partido estima que tem 230 mil filiados, mas não sabe exatamente quem são nem onde estão É um cadastro morto, fictício..." [Sergio Guerra, presidente do PSDB sobre a estrutura do partido; Estadão, 19-11)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Galo (13) anuncia o Sol (Estrela) e manda Serrasferatu de volta pra casa

blogdomello

SE DISCUTE E SERRA - "E agora, Zezinho?" Poema pós-eleições

E agora, Zezinho?

A campanha acabou,
a Globo perdeu,
Bob Jeff zarpou,
Bob Freire também,
Malafaia chorou,
e Merval se abateu.

E agora, Zé?
e agora, você?
que faz dossiê,
filhote de FHC,
e que disse: "Até!…"

Está sem aborto,
está sem o Papa,
casamento gay.
Sobrou-te a Folha,
e o Gilmar também.
E agora, Zezinho?

O Arruda partiu,
o Índio ficou,
Jabor é tristeza,
e o pobre Vereza
não psicografou.
E agora, "Coiso"?

Veja se esgoto(u),
o golpe ruiu,
o Lula sorriu,
Estadão encalhou,
e agora, Zé?

Você que é economista,
você que é engenheiro,
você que é competente,
você que é preparado…

Com O Globo na mão,
quer derrubar Lula,
a Soninha te ajuda,
se o ENEM vazar.
Quer Aécio de vice,
bolinha te "espanca",
quer vencer em Minas,
Minas não é Sampa.
Zezinho, e agora?

Sozinho na França,
por que não te calas?
E, sem ter o PiG
pra te coonestar,
sem Paulo nem Preto,
que fuja a galope
do Amaury Júnior;
Zezinho, pra onde

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

conversa afiada - Xenofobia, homofobia. Até onde vai a intolerância ?

Saiu no Agora (único jornal de São Paulo que presta), pág. A-6.

Jovens espancam quatro em ataques na Avenida Paulista.
Polícia apura homofobia em três ataques cometidos por cinco jovens de classe média.

Os “atacantes” moram com os pais em bairros de classe média e classe média alta e estudam em colégios particulares.

Eles deram socos e usaram lâmpadas fluorescentes.

Um dos “atacados” é homossexual.

Uma das vítimas disse na delegacia que enquanto batiam, os jovens gritavam “bicha, você é v… está com o namorado ?”.

Os “atacados” vinham ou iam para o trabalho.

O ataque foi às 3h da manhã de ontem.





Segundo o Agora (único jornal que presta em São Paulo), este é o terceiro caso de intolerância em São Paulo de outubro para cá.

A intolerância vai por degraus.

A ordem dos degraus não altera a intensidade da intolerância.

Cabem nela os homossexuais, os pobres, os nordestinos, os que defendem o aborto, os judeus, os muçulmanos – os diferentes.

A melhor maneira de aprender a odiar o “diferente” é estudar em escolas em que só há “iguais”.

É assim que terminam políticas para desconstruir a escola pública em benefício da escola particular: em intolerância, a fase inicial do racismo.

A nova onda de intolerância começou no segundo turno desta eleição, quando o candidato José Serra e seus brucutus na internet trouxeram para a sala de jantar o vaso sanitário da patologia social brasileira.

Clique aqui para ler sobre como Serra criou a Direita Cristã no Brasil.

Serra montou no dragão da maldade.

Não ganhou a eleição.

Mas vai tentar ganhar de novo.

Só tem um problema.

O dragão da maldade é ingovernável.

Pode derrubar o cavaleiro (de novo).

Serra fez campanha fratricida. Irmãos precisam se reunir

Serra fez campanha fratricida. Irmãos precisam se reunir
Publicado em 14/11/2010 Compartilhe | Imprima | Vote (+19)

Serra rachou o Brasil para ficar com o pré-sal (charge de Bessinha)



O Conversa Afiada republica artigo de Igor Felippe, extraído do Escrevinhador:




Da polarização à politização da sociedade

Por Igor Felippe Santos

A eleição de Dilma Rousseff (PT) é uma vitória da sociedade brasileira. E não temos que ter vergonha de comemorar a derrota de José Serra (PSDB), que se tornou símbolo dos setores que se opõem às bandeiras progressistas no país.

A mídia burguesa, os setores conservadores da igreja católica e evangélica, os ruralistas mais truculentos e o imperialismo dos Estados Unidos perderam uma batalha importante com a derrota de Serra.

O tucano fez uma campanha fratricida, lançando mão de boatos, mentiras e ataques aos movimentos sociais (especialmente ao MST), com um corte de extrema-direita, para fazer terrorismo eleitoral. A imagem das mulheres grávidas no horário político de Serra demonstra sua opção pelo chamado “vale tudo”, inclusive jogar sua biografia no lixo.

Por debaixo dos panos, sem a coragem de debater publicamente, a campanha tucana satanizou a descriminalização do aborto e o casamento civil entre homossexuais, que já foram aprovados em países mais avançados. Com isso, os tucanos caíram no colo da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e da Opus Dei.

O clima criado pela campanha de Serra, tanto a oficial como a das sombras, causou uma polarização eleitoral, que obrigou os setores mais importantes da sociedade a tomarem partido. Organizações da sociedade civil, entidades de classe, intelectuais, artistas, estudantes, médicos, profissionais liberais, igrejas e a mídia (desde as televisões, passando pelos jornais, até chegar à internet) tiveram que fazer uma opção entre Dilma e Serra. E aqueles que se omitiram, pagarão o preço de ver o trem da história passar nos próximos quatro anos.
Como o e mbate eleitoral teve um nível muito baixo, essa polarização não girou em torno de projetos políticos antagônicos para o Brasil, mas na capacidade dos candidatos de continuarem as linhas gerais do governo Lula. De qualquer forma, dois campos políticos se expressaram de forma clara nessas eleições, contraponto o setor progressista e conservador. Em 2006, por exemplo, o quadro político não ficou tão claro.

Nesse quadro, o grande desafio dos setores progressistas é manter a coesão desse bloco construído em torno de Dilma e politizar as disputas políticas que virão, em torno do programa democrático-popular. Assim, a partir desta eleição, esse campo poderá fazer pressão por mudanças estruturais necessárias para a sociedade brasileira, que garantam educação, saúde, moradia, saneamento básico e terra para os brasileiros.
Embora as políticas públicas nessas áreas sejam muito importantes, não terão forças para solucionar os princ ipais problemas que essa geração do povo brasileiro enfrenta no seu dia a dia. Os direitos sociais da população só estarão garantidos com reformas estruturais, que implicam enfrentar os interesses da classe dominante brasileira e internacional, que quer impor outra agenda ao país.

As forças do neoliberalismo, lideradas pelos bancos, capital financeiro, empresas transnacionais e os grandes meios de comunicação, farão o possível – e impossível, como mostraram na campanha – para impedir qualquer medida progressista do governo federal.

Não podemos ignorar, inclusive, que esses setores têm força e influência dentro da ampla coalizão de forças que venceu a eleição presidencial. Por isso, é fundamental a pressão da sociedade para enfrentar os interesses conservadores, inclusive dentro do que vier a ser o governo Dilma.

Os setores progressistas venceram uma batalha importante com a vitória de Dilma, mas a luta continua , será intensa e dependerá da participação de toda a sociedade brasileira, que precisa se posicionar em relação a cada disputa, enfrentando os interesses dos poderosos para garantir transformações sociais para resolver os problemas do povo brasileiro.

Igor Felippe Santos é jornalista, editor da Página do MST, integrante da Rede de Comunicadores pela Reforma Agrária e do Centro de Estudos Barão de Itararé

domingo, 14 de novembro de 2010

Marcos Coimbra - As oposições depois da eleição

Os resultados das eleições foram ruins para as oposições. E a catástrofe só não foi maior porque uma de suas principais lideranças ficou preservada. Se não fosse a vitória de Aécio em Minas, o panorama seria pior.


As eleições para os governos estaduais não são um consolo. O fato de o PSDB ter mantido o controle do Executivo em São Paulo, em Minas, em Alagoas e em Roraima, tê-lo conseguido no Paraná e o recuperado em Goiás, no Pará e em Tocantins, é relevante, mas não muda o quadro. Assim como não o alteram as vitórias do DEM em Santa Catarina e no Rio Grande do Norte.


Nenhum desses resultados tem projeção significativa fora das fronteiras de cada estado, a não ser, talvez, a mudança de status de Beto Richa, que passou de ator municipal a estadual. Em São Paulo e em Minas, a troca de guarda nas administrações tucanas se deu com a substituição de personagens nacionais (Serra e Aécio) por figuras de expressão menos abrangente ou em início de carreira (Alckmin e Anastasia). Nos demais estados, o fato de um partido estar ou não no governo quer dizer pouco para a vida política brasileira (por mais relevante que seja no plano local).


As oposições se estadualizaram e perderam importância nacional. No Senado, diminuíram de tamanho e de capacidade de expressão, com a derrota de alguns de seus representantes mais emblemáticos. Na Câmara, seu recuo foi ainda mais dolorido, pois não era esperado.


Na nova Legislatura, as oposições não conseguirão impedir mudanças constitucionais, e nem instaurar ou bloquear CPIs, duas das prerrogativas que possuem. A menos que consigam se aproveitar das fissuras que existem no condomínio governista, pouco lhes resta, a não ser um papel simbólico.


Não é sempre ruim, para uma oposição, ser pequena. No autoritarismo, pode até ser motivo de orgulho, sinal de como é difícil resistir, e da coragem de seus integrantes, como nos mostrou, em passado recente, Ulysses Guimarães. Na democracia, contudo, o caso é outro. Oposição pequena é apenas consequência da indiferença da maioria para com suas propostas e candidatos, e da preferência dos eleitores pelo governo.


O resultado da eleição presidencial é o pior. Perder pela terceira vez consecutiva é preocupante, pois mostra que faz muito tempo que ela não consegue responder ao sentimento majoritário das pessoas. Ficar 12 anos longe do poder quer dizer, entre outras coisas, ir sumindo da referência do cidadão comum, deixar de ser uma alternativa concreta e real. Começa a ser um jogo em que você só tem chance se o adversário errar.


Ter perdido como perderam é ainda mais negativo. Sozinhas, as oposições fizeram menos de 30% do voto total no primeiro turno e só foram ao segundo por obra de Marina Silva. Voltando às metáforas futebolísticas, foi como um gol em que a bola é mal chutada, mas entra, depois de esbarrar no juiz, desviar no defensor e tocar na trave. O gol vale, ainda que o atacante comemore cheio de vergonha.


Do fim do primeiro turno ao segundo, a campanha de Serra fez um desserviço ao país e prejudicou as oposições no longo prazo. Procurando navegar nos sentimentos mais retrógrados de nossa sociedade, apostou no atraso e se esqueceu de sua biografia. Acabou protagonista de cenas lamentáveis.


Foi uma candidatura errada do começo ao fim. E que quer, agora, uma sobrevida errada. Com ela, as oposições perderam a possibilidade de se renovar e se apresentar ao eleitorado com conteúdo e imagem nova.


Antes de partir em viagem de descanso, Serra disse que não considerava cumprida sua missão e que se despedia com apenas um "até breve". Para ele, ao que parece, seria natural assumir a liderança das oposições ao governo Dilma e voltar a ser candidato a presidente em 2014.


Talvez para ele. Mas não para toda a oposição e, muito menos, para a importante parcela da opinião pública que se identifica com ela.


Só os mal informados achavam que Serra era a solução para as oposições nas eleições deste ano. Agora, qualquer um vê que ele é o problema. Não é o único, mas um dos maiores.

sábado, 13 de novembro de 2010

Maria Inês Nassif: A resistência à mobilidade social

Voto do nordestino vale o mesmo que o do paulista

Maria Inês Nassif, no Valor Econômico

O Brasil elegeu, por dois mandatos, um ex-metalúrgico como presidente da República. Agora elege uma mulher. Ambos de centro-esquerda. Para quem assistiu de fora a eleição de Dilma Rousseff e os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pode parecer que o país avança celeremente para uma civilizada socialdemocracia e busca com ardor o Estado de bem-estar social. Para quem assistiu de dentro, todavia, é impossível deixar de registrar a feroz resistência conservadora à ascensão de uma imensa massa de miseráveis à cidadania.

Ocorre hoje um grande descompasso entre classes em movimento e as que mantêm o status quo; e, em consequência de uma realidade anterior, onde a concentração de renda pessoal se refletia em forte concentração da renda federativa, há também um descompasso entre regiões em movimento, tiradas da miséria junto com a massa de beneficiados pelo Bolsa Família ou por outros programas sociais com efeito de distribuição de renda, e outras que pretendem manter a hegemonia. A redução da desigualdade tem trazido à tona os piores preconceitos das classes médias tradicionais e das elites do país não apenas em relação às pessoas que ascendem da mais baixa escala da pirâmide social, mas preconceitos que transbordam para as regiões que, tradicionalmente miseráveis, hoje crescem a taxas chinesas.

A onda de preconceito contra os nordestinos, por exemplo, é semelhante ao preconceito em estado puro jogado pelos setores tradicionais no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na própria eleita, Dilma Rousseff, durante a campanha eleitoral. É a expressão do temor de que os “de baixo”, embora ainda em condições inferiores às das classes tradicionais, possam ameaçar uma estabilidade que não apenas é econômica, mas que no imaginário social é também de poder e status.

Há resistências à mobilidade social e regional

São Paulo foi a expressão mais acabada da polarização eleitoral entre pobres de um lado, e classe média e ricos de outro. Os primeiros aderiram a Dilma; os últimos, mesmo uma parcela de classe média paulista que foi PT na origem, reforçaram José Serra (PSDB). A partir de agora, pode também polarizar a mudança política que fatalmente será descortinada, à medida que avança o processo de distribuição regional de renda e de aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres. A hegemonia política paulista está em questão desde as eleições de 2006 – e Lula foi poupado do desgaste de ter origem política em São Paulo porque era também destinatário do preconceito de ter nascido no Nordeste; e, principalmente, porque foi o responsável pela desconcentração regional de renda.

Com a expansão do eleitorado petista no Norte e no Nordeste do país, houve uma natural perda de força dos petistas paulistas, diante do PT nacional. Do ponto de vista regional, o voto está procedendo a mudanças na formação histórica do PT, em que São Paulo era o centro do poder político do partido. Isso não apenas pelo que ganha no Nordeste, mas pelo que não ganha em São Paulo: o partido estadual tem dificuldade de romper o bloqueio tucano e também de atrair de novos quadros, que possam vencer a resistência do eleitorado paulista ao petismo.

No caso do PSDB, todavia, a quebra da hegemonia paulista será mais complicada. Os tucanos continuam fortes no Estado, têm representação expressiva na bancada federal e há cinco eleições vencem a disputa pelo governo do Estado. No resto no do país, têm perdido espaço. Parte do PSDB concorda com o diagnóstico de que a excessiva paulistização do partido, se consolida seu poder no Estado mais rico da Federação, tem sido um dos responsáveis pelo seu encolhimento no resto do Brasil. Mas é difícil colocar essa disputa interna no nível da racionalidade, até porque o partido nacional não pode abrir mão do trunfo de estar estabelecido em território paulista; e, de outro lado, o partido de Serra tem uma grande dificuldade de debate interno – como disse o governador Alberto Goldman em entrevista ao Valor, é um partido com cabeça e sem corpo, isto é, tem mais caciques do que base. Não há experiência anterior de agregação de todos os setores do partido para discutir uma “refundação” e diretrizes que permitam sair do enclave paulista. Não há experiência de debate programático. E aí o presidente Fernando Henrique Cardoso tem toda razão: o PSDB assumiu substância ideológica apenas ao longo de seu governo. É essa a história do PSDB. A política de abertura do país à globalização, a privatização de estatais e a redução do Estado foram princípios que se incorporaram ao partido conforme foram sendo assumidos como políticas de Estado pelo governo tucano.

Todos os partidos, sem exceção, estão diante de um quadro de profundas mudanças no país e terão que se adaptar a isso. Fora a mobilidade social e regional que ocorreu no período, houve nas últimas décadas um grande avanço de escolaridade. A isso, os programas de transferência de renda agregaram consciência de direitos de cidadania. O país é outro. Não se ganha mais eleição com preconceito – até porque o voto do alvo do preconceito tem o mesmo valor que o voto da velha elite. Se os grandes partidos não se assumirem ideologicamente, outros, menores, tomarão o seu espaço.

Direção do PSDB tem que pedir para sair.

conversa afiada

Publicado em 13/11/2010Serra é o Jim Jones do PSDB


A sugestão é de alguém respeitabilíssimo no universo conservador.

Trata-se de artigo de Alberto Carlos de Almeida, na pág. 14 do Valor, no caderno “Eu & fim de semana”.

O autor escreveu “A cabeça do brasileiro”, onde provava, por “A” + “B” que a cabeça da elite era iluminada.

Depois, escreveu outro livro para provar que o brasileiro vota no Governo se a vida melhorou e vota na oposição se a vida piorou.

Impressionante !

Portanto, não lhe faltam credenciais nem autoridade para dizer o que a elite da elite, o PSDB de São Paulo, deve fazer.

A elite da elite, Fernando Henrique Cardoso e José Serra, segundo o autor, levam o PSDB inexoravelmente ao túmulo, a cada eleição.

O número de deputados caiu de 99 em 1998 para 53 na fulgurante vitória – “até breve !” – do Serra em 2010.

E o numero de senadores caiu de 16, em 1998, para 10, nesta fulgurante vitória do “até breve” de 2010.

Como dizia o Conversa Afiada: Serra é o Jim Jones do PSDB.

Mas, como se sabe, este ordinário blogueiro não tem credenciais para dizer o que o PSDB deve fazer.

Ao contrário.

Ele acaba de ser incluído numa lista de inimigos mortais do Serra, segundo o Mino Carta, que decifrou um enigma: “Serra fala pela boca do Itagiba”.

Mas, o Almeida, que entende da elite da elite, tem.

Diz ele: “A derrota precisa ter consequência”.

Por isso, exige: “PSDB precisa ser renovado – para ter sucesso em 2014, partido deveria eliminar os serristas e dar a direção a políticos jovens alinhados com Aécio Neves e Beto Richa”.

Este blogueiro lamentará muito se isso acontecer.

Porque, como se sabe, o Serra perde.

E o Vesgo do Pânico sempre terá mais chance de ser Presidente do que ele.

Mas, isso está fora de questão.

O Almeida não realizará o seu sonho.

O Serra não vai largar o osso.

Em tempo: o Almeida desmonta uma falácia tucana: o PSDB agora tem mais governadores. Diz o Almeida: no Paraná, o Serra queria o Álvaro Dias e, não, o Richa; Geraldo Alckmin está para Serra assim como a água para o azeite; e, em Minas, Anastásia ganhou APESAR do Serra e não por causa do Serra.

Interessante.

O Almeida precisa tomar cuidado.

Se continuar com essas idéias heterodoxas, o PiG (*) de São Paulo o fará congelar na Sibéria.


Paulo Henrique Amorim


(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

carta capital - Cynara Menezes -eleições - Neocons à brasileira

Cynara Menezes

10 de novembro de 2010 às 17:12h


Depois de uma campanha violenta e baseada na mistificação, o resultado não poderia ser outro: xenofobia. Mas quem ganha com a divisão do Brasil? Por Cynara Menezes
Ao tomar a hóstia em Aparecida, beijar o terço em Goiânia e erguer como uma taça a imagem de Nossa Senhora da Abadia, em Uberlândia, o tucano José Serra não apenas bajulava o voto do eleitor cristão em campanha, mas selava o próprio destino. Identificado com a esquerda durante toda a sua vida política, Serra sai da eleição como a cara mais visível de um movimento que pretende fincar as raízes do ultradireitismo no Brasil. Espécie de versão brazuca do americano Tea Party, a nova direita que emerge das urnas pauta-se menos pela austeridade nos gastos governamentais e mais por uma moral retrógrada e um nacionalismo infantil que geralmente descamba para o preconceito.

Nos Estados Unidos, o Tea Party surgiu em 2009 a partir da constatação feita por um grupo de políticos conservadores, liderados pela ex-candidata a vice e ex-governadora do Alasca Sarah Palin, de que parte da classe média branca do país perdera privilégios ao longo dos anos – e, mais ainda, com a eleição de um negro, Barack Obama, para a Presidência. O ódio e o preconceito dessa fatia do eleitorado já haviam se manifestado na primeira eleição de George W. Bush, em 2000, quando uma massa de branquelos do Meio-Oeste foi às urnas contra propostas de liberação do casamento gay e do aborto, associadas aos democratas. Foi esse grupo um dos responsáveis pela vitória de Bush Júnior. A mesma turma alçou Palin ao estrelato e reduziu o espaço dos moderados no Partido Republicano.

Não à toa, o movimento Tea Party apoia a lei em vigor no Arizona desde julho- que permite prender e expulsar imigrantes pelo simples fato de não estarem de posse de documentos. Aqui, as vítimas da versão brasileira dos red necks são os nordestinos, a quem se “culpa” pela vitória de Dilma Rousseff no domingo 31.

Disfarçada na política, a aversão aos nordestinos invadiu as redes sociais, sobretudo o Twitter, na segunda-feira 1º de novembro, na manhã seguinte à confirmação da vitória de Dilma. Uma estudante de Direito de São Paulo, Mayara Petruso, deu a senha para uma enxurrada de manifestações preconceituosas ao postar a seguinte mensagem: “Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!” Seguiram-se dezenas de outras, todas no mesmo tom: “Trocaram voto por miolo de pão!”, “Valeu Nordeste, mais quatro anos vivendo às nossas custas”, “80% do Amazonas votam na Dilma… cambada de índio burro”, e coisas do gênero.

Mayara acabou alvo de uma representação movida pela seção pernambucana da Ordem dos Advogados do Brasil no Ministério Público Federal por racismo (pena de dois a cinco anos de detenção, mais multa) e incitação pública de prática de crime. Houve reação no próprio Twitter contra as mensagens preconceituosas e em defesa da população do Nordeste, mas foi incapaz de reduzir a onda antinordestina. Em entrevista ao portal Terra, uma representante do autodenominado Movimento São Paulo para os Paulistas chegou a afirmar que as críticas às mensagens sórdidas eram uma tentativa de “vitimizar o Nordeste”.

A enxurrada de mensagens preconceituosas foi também a demonstração de ignorância e desinformação. O argumento de que foram os nordestinos os responsáveis pela vitória petista não se sustenta pelos números: a ex-ministra seria eleita mesmo sem os votos do Norte e Nordeste. Se fossem computados apenas o Sul e o Sudeste, teria 29,7 milhões de votos, contra 29,4 milhões de Serra. Na capital paulista, de onde saíram muitas das mensagens ofensivas contra os nordestinos, Serra ganhou apertado, com apenas 466 mil votos de diferença. Perdeu feio em dois estados do Sudeste – Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na terra de Aécio Neves, Dilma abriu vantagem de 17 pontos porcentuais, o que praticamente anulou a dianteira de Serra em São Paulo. No Rio, a petista obteve 4,9 milhões de votos, contra 3,2 milhões de Serra.

No Rio Grande do Sul, a vitória do tucano foi ínfima: pouco mais de 100 mil votos. Os estados do Sul e Sudeste onde- de fato o candidato do PSDB derrotou a futura presidente com folga foram o Paraná, com margem de 700 mil votos, e Santa Catarina, com vantagem final de 473 mil. Serra obteve vitórias esperadas em estados movidos pelo agronegócio, em queda de braço com o governo Lula em virtude da desvalorização do dólar. Assim como também era esperada pela oposição a larga vantagem da candidata do presidente no Nordeste: Dilma teve 18,4 milhões de votos na região, contra 7,6 milhões. Nem por isso, Serra pode ser considerado o candidato dos ricos, como não se pode desqualificar o eleitor de Dilma, praxe em editoriais e artigos na imprensa na semana pós-segundo turno.

Infelizmente, é inegável que foi a campanha do PSDB a estimular essa diferença, mais do que qualquer frase de Lula a cerca dos “nós contra eles”. Mergulhado até o pescoço na estratégia religiosa, antiabortista e impregnada de preconceito imaginada pelos artífices de sua exposição marquetológica, Serra deu o tom do embate entre paulistas e o resto do País no encontro da RedeTV! em 17 de outubro. “Essa estratégia de falar mal de São Paulo foi reprovada”, disse o tucano. E foi além ao declarar que “o PT não gosta de São Paulo”. Uma semana antes da eleição, o PSDB distribuiria panfletos com a frase “Dilma não gosta de São Paulo”, mesmo título do vídeo postado no canal oficial do candidato no YouTube. Ambos afirmavam que a petista “prejudicou São Paulo durante sete anos”.

Nos jornais, colunistas e editoriais davam a sua colaboração para que o preconceito contra os nordestinos viesse à tona. Por um lado, desqualificava-se a vitória de Dilma como representativa dos votos “menos conscientes” em contrapartida à racional escolha dos “mais escolarizados” pelo PSDB. Uma colunista chegou a escrever que Dilma e o “lulismo” só venceram a eleição “graças à votação maciça nas regiões e áreas mais manipuláveis, onde a Arena, o PDS e o PMDB já foram reis”. Daí aos “ricos” do Sudeste e Sul se jogarem contra os “pobres manipulados” do Norte e do Nordeste foi um pulo.

Professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor do livro Preconceito contra a Origem Geográfica e de Lugar (Ed. Cortez), Durval Albuquerque Jr. diz que a questão é justamente o contrário do que dizem os analistas. “Não se votou em Dilma no Nordeste porque se sente fome, e sim porque o governo fez o povo comer”, argumenta. “Enquanto o País crescia a 4% ao ano, o Nordeste crescia a 8%, 9%. Houve uma inclusão imensa, que se reflete na votação maciça que o PT teve na região. O Bolsa Família não é alienante, como se diz, é o inverso: conscientizou as pessoas, fez elas se sentirem gente e passarem a exigir mais.”

O resultado é que mesmo entre as classes médias do Nordeste existe hoje o preconceito observado no Sudeste e no Sul, alerta o professor. “Eles queixam-se de que já não se contratam empregados com tanta facilidade, pagando qualquer coisa.” O historiador conta que o preconceito contra os nordestinos em São Paulo surgiu na década de 1920, quando começou a migração interna e os baianos foram os primeiros a chegar – por isso até hoje “baiano” é a forma genérica de se referir ao nordestino no estado. Para o Rio, a partir da década de 1930, migraram os sertanejos acima da Bahia, e ficaram conhecidos como “paraíbas”.

Em São Paulo, a chegada dos nordestinos desencadeou tensões na classe operária. Houve disputa pelos postos de trabalho com os imigrantes estrangeiros, trazidos pela política de “branqueamento” do estado. Segundo o historiador, contribui para o preconceito a construção da imagem do Nordeste flagelado, miserável, atrasado e ignorante feita pela própria elite da região para obter recursos e cargos diante do crescimento do Centro-Sul. “Só que essa realidade vem se transformando e muita gente não viu. Está cada vez mais defasada, só existe em termos de estereótipo. O político nordestino quando faz algo errado ainda é chamado de ‘coronel’, mas não ocorre o mesmo quando vem do Sul ou do Sudeste.”

Latente, o preconceito vem à tona quando estimulado. E parece ser mais regional que partidário. Tome-se o caso dos dois Grazianos, Xico (tucano) e José (petista). Ambos paulistas. O tucano usou o Twitter para alfinetar o companheiro de partido Aécio Neves em virtude da vitória, segundo ele, “nordestina” de Dilma em Minas Gerais. Já o petista José causou polêmica no começo do governo Lula. À época ministro da Segurança Alimentar, declarou sobre o Nordeste: “Temos de criar emprego lá, temos de gerar oportunidade de educação lá, temos de gerar cidadania lá. Porque, se eles continuarem vindo pra cá, vamos ter de continuar andando de carro blindado”.

Mas será que se um partido assumisse esse discurso segregacionista teria futuro no País? Não assumidamente, mas sub-repticiamente é possível que sim. Há um ano, o diretor do instituto Vox Populi, João Francisco Meira, compila dados que apontam para um vácuo: falta um partido assumidamente de direita no Brasil. De acordo com Meira, nenhuma das legendas existentes, inclusive o DEM, se declara. “Há condições para o crescimento da direita. A campanha do Serra, nesta eleição, explorou esse espaço e o resultado final das eleições mostrou que ele é relevante.”

O diretor do Vox afirma que metade dos votos recebidos por Marina Silva, do PV, no primeiro turno, era de direita, conservador. E foram exatamente esses votos que foram para o tucano no segundo turno. “O Serra conseguiu captar todo o voto conservador da Marina. Isso rendeu a ele um terço a mais de votos do que teve no primeiro turno”, diz Meira.

A professora de Ciência Política da Universidade de Brasília, Lúcia Avelar atenta para o fato de essa guinada à direita de uma parcela do eleitorado representar uma reação à mobilidade social propiciada pelo governo Lula. “Como havia uma distância muito grande entre as classes, é como se pensassem: ‘Puxa, eles estão se aproximando. Vão sentar ao nosso lado no cinema, no teatro’. Mexer no status quo incomoda muita gente.”

Para se inserir de vez no contexto conservador que ensaiou nesta eleição, Serra enfrentará obstáculos dentro do seu partido, o PSDB. Seria temerário dizer que existe uma tendência direitista dentro do tucanato como um todo: Aécio Neves, por exemplo, está mais identificado com o centro, assim como Teotônio Vilela, governador reeleito de Alagoas. Uma alternativa para este novo Serra seria fundar outra legenda, que absorvesse setores do PSDB, DEM e dos demais partidos conservadores, como o PP. Ou esperar uma saída de Aécio da legenda, que levaria a ala não paulista do partido consigo e abriria espaço para uma hegemonia do ex-governador de São Paulo.

A eleição de Felipe Calderón no México, em 2006, e, mais recentemente, de Sebastián Piñera no Chile, comprova que existe espaço para uma direita não golpista na América Latina. De qualquer forma, parte da oposição brasileira parece encantada com o estilo neocon dos republicanos. Do ponto de vista eleitoral, não se pode negar, ela deu resultados – e no curto prazo. Como se verá na reportagem de Antônio Luiz M. C. da Costa à pág. 58, Obama sofreu uma derrota fragorosa nas eleições legislativas, a maior de um partido governista nos Estados Unidos desde o fim dos anos 1930. Uma das razões deve-se à campanha republicana permanente, iniciada logo após a vitória de Obama, e baseada em preconceitos e mentiras. Velhos temores da Guerra Fria (Obama seria “comunista”) misturam-se a novos (ele seria a favor do Islã). Resultado: presos a uma pauta moralista e insatisfeitos com o resultado de uma política econômica aprofundada sobre o mandato do antecessor Bush, os norte-americanos não conseguem debater temas realmente cruciais ao seu futuro.

Parece ser essa a diferença entre uma velha direita, liberal e centrada na defesa das liberdades individuais contra um suposto Estado opressor, e a atual. Ao redor do mundo, quem ganha espaço entre os conservadores são partidos defensores da xenofobia, do racismo e do obscurantismo religioso.

No fim das contas, tenha ou não sido proposital, essa foi a cara da campanha de Serra no segundo turno, pois nem o racionalismo econômico pôde lhe ser atribuído, vide as propostas de reajuste do salário mínimo a 600 reais e o 13º para os beneficiários do Bolsa Família (ironicamente atacados pelos eleitores tucanos na odiosa campanha na internet). No seu discurso na noite do domingo 31, o ex-governador paulista diz ter dado um “até logo, não um adeus”. Para quem tanto defendeu sua biografia na disputa presidencial, Serra poderia voltar à cena como defensor intransigente dos valores democráticos que ele tanto diz prezar. O Brasil agradeceria.



Cynara Menezes
Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto "Jornal da Bahia", em Salvador, onde morava. Em 1989, de Brasília, atuava para diversos órgãos da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em São Paulo, quando colaborou para a "Folha de S. Paulo", "Estadão", "Veja" e para a revista "VIP". Está de volta a Brasília há dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital

Os tons do azul - Marcos Coimbra

12 de novembro de 2010 às 10:23h

Quase toda a imprensa usou mapas coloridos nas representações dos resultados da eleição presidencial. E, por razões evidentes, foi consenso pintar de vermelho os estados onde Dilma Rousseff ganhou e de azul aqueles em que José Serra se saiu melhor.


É um procedimento que ajuda a visualizar o que aconteceu, mas que leva a diversos equívocos. O mais grave é dar a impressão de que fomos “dois Brasis” na eleição: na metade- de baixo (Sul, Sudeste e Centro-Oeste), predominando o azul e, na de cima (Nordeste e Norte), o vermelho.

Como todo mundo sabe que a parte azul é mais rica e moderna e a vermelha mais pobre e atrasada, a impressão provocada por mapas desse tipo é de que o Brasil desenvolvido foi derrotado pelo subdesenvolvido. Se dependesse do primeiro, Serra seria o presidente. Inversamente, dos mapas emerge a conclusão de que Dilma venceu à custa da pobreza.

Mas é possível ir adiante nessa cartografia, buscando os matizes de cada cor. Por meio deles podemos identificar os nichos mais típicos de cada candidato, os lugares onde o azul é mais azul e o vermelho mais vermelho. É neles que o serrismo e o dilmismo atingiram seu auge e sua essência ficou mais clara.

Os da presidente eleita são fáceis de antecipar: Dilma alcançou seu máximo nos bolsões de extrema pobreza do interior do Nordeste. Lá, onde o Bolsa Família cobre quase toda a população, ela ultrapassou 90% dos votos, esmagando o adversário.

Que bela e convincente maneira de demonstrar que, quanto maior a pobreza, maior a derrota de Serra, maior a vitória do “paternalismo” sobre a “modernidade”, do analfabeto sobre o educado. O que deixa o quadro menos arrumado e complica a versão fácil que empolga os setores conservadores é que o serrismo tem uma geografia que desafia essa explicação. Pois, se o vermelho se acentua de forma previsível, o azul fica mais carregado em lugares inesperados. Em outras palavras, o voto Serra chegou ao ápice em municípios e regiões que de modernos e educados não têm nada.

São várias as explicações para o fato de o Acre ter sido o paraíso do serrismo. Não foi em São Paulo, onde ninguém estranharia que vencesse por larga margem, nem nas partes mais tradicionais do País que ele teve sua melhor performance. Foi lá, longe do “Sul Maravilha”, que Serra obteve mais que o dobro dos votos da petista, venceu em todos os municípios (salvo em Feijó) e está o município mais serrista do Brasil, Porto Acre, cidade miserável e de baixos níveis de escolaridade, onde suplantou Dilma por uma vantagem amazônica.

A versão mais corrente é que o petismo acriano seria responsável pela catástrofe. Depois de 12 anos no poder, o eleitorado teria mostrado, pelo voto em Serra, sua insatisfação com os irmãos Viana e seu grupo. Hipotéticas evidências são arroladas para sustentar a tese, desde desgastes com o funcionalismo público estadual a críticas ao modo como dialogam com a mídia.

O problema desse raciocínio é que tanto Tião Viana se elegeu governador quanto Jorge Viana senador. Ou seja, os acrianos teriam se comportado de maneira totalmente esdrúxula: para protestar contra os dois, os elegeram, mas derrotaram a candidata a presidente que apoiavam. Não seria muito mais lógico impedir que continuassem a administrar o estado?

Para complicar o “mistério acriano” e colocar sob suspeita as explicações localistas, Marina Silva também perdeu para Serra, apesar de “filha da terra”. E, em outros estados do “corredor do agronegócio”, houve vários resultados que sugerem que a avaliação de quem apoiava Dilma não teve efeito no voto que ela recebeu. Blairo Maggi, por exemplo, foi um dos campeões de voto para o Senado, elegeu seu candidato ao governo do Mato Grosso, mas viu Dilma perder.

Não foram fatos locais que explicaram o que aconteceu no Acre e nos demais estados vencidos pelo tucano. Também não foi uma oposição “Brasil moderno” vs. “Brasil arcaico”, como ilustram amplamente os casos do Acre e de Porto Acre. Não foi a educação que deu votos a Serra e a ignorância a Dilma.

Serra venceu onde venceu por fatores ideológicos (exceção de São Paulo, onde o bairrismo teve influência). Não foi um voto explicado pela sociologia (ou a geografia), mas pela política.

No Brasil inteiro, foi basicamente o eleitor antipetista, em mui-tos casos anticonservacionista, anti-indigenista e “antimovimentos sociais”, a favor da “agenda moral” e dos “valores tradicionais” que votou em Serra. Foi o eleitor de direita. No Sul e no Centro-Oeste, chegando ao Acre e a Roraima, ele era maioria, ainda que pequena. Por isso, Serra venceu nessas regiões. E perdeu no País, onde esse voto é minoria.

O predomínio do voto de direita no Acre é algo que merece estudo. Mas o certo é que Tião e Jorge Viana estão de parabéns pela vitória que tiveram em um estado que se inclinou tanto nessa direção. Sua votação mostra que, apesar disso, o eleitorado do Acre reconhece o trabalho que fizeram em benefício do estado.



Marcos Coimbra
Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense