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terça-feira, 10 de maio de 2011

cartacapital - Liberdade de imprensa ou estelionato midiático? - Aurélio Munhoz

4 de maio de 2011 às 9:54h

Uma outrora majestosa senhora agoniza no dia 3 de maio, em que o mundo deveria celebrar sua soberania. Falamos da liberdade de imprensa. Pobre liberdade. A menina dos olhos dos verdadeiros democratas já viveu dias mais gloriosos na época em que o idealismo, muito mais que as verdinhas, movia as mentes e corações dos jornalistas.

Mas de que liberdade de imprensa falamos? A genuína – e única. Aquela que pressupõe o compromisso inquebrantável com dois pressupostos: a verdade e o bem estar da maioria. Liberdade de imprensa, portanto, é o direito de qualquer cidadão dizer o que pensa. Mas com três condições: apenas se alicerçado pelos fatos, pelo bom senso e pelo seu propósito sincero de contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Isso tem outro nome: exercício responsável da democracia e da cidadania.

Do exposto, conclui-se o óbvio – e nele reside o cerne deste artigo: o povo do andar de cima de grande parte da mídia, nele incluídos muitos colegas jornalistas, não defende a autêntica liberdade, mas um clone teratológico. A liberdade que preconizam é somente a sua, não a da maioria dos cidadãos.

Consiste somente no seu suposto direito de deixá-los dizer tudo o que pensam e fazer tudo o que querem, sem nenhum arreio institucional.

Querem, claro, somente encher suas burras de reais, divertindo-se com o exercício de vilania que praticam quando atacam pessoas sem provas e de maneira absolutamente parcial. E também quando, acuados pelos abusos que cometem, vilipendiam sistematicamente a essência da liberdade com sua chorumela estridente e absolutamente falsa. Dizem-se agredidos quando atacados pela Justiça e pelas vítimas da sua língua ferina, mas são, na realidade, os verdadeiros agressores.

Este bando não é curador da liberdade de imprensa, mas mentor de um autêntico ato de estelionato midiático. Está lá, para quem quiser ler, no Código Penal Brasileiro, Título II, Capítulo VI, no já referido Artigo 171: estelionato é “obter para si ou para outrem vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”.

Não é outra coisa o que fazem os medalhões da mídia que tanto falam em liberdade e criticam ferramentas de controle da sociedade sobre o conteudo da mídia, como o Conselho Federal de Jornalismo e o Conselho Nacional de Comunicação Social, ambos sepultados por força do abonado lobby patrocinado por esta turma.

Exagero? Lanço um desafio a quem acha que 99% da nossa grande mídia pratica a verdadeira liberdade de imprensa. Convide um pedreiro ou uma telefonista com jeito para as palavras a tentar veicular, em qualquer grande jornal ou revista brasileiro, um bom texto sobre algum assunto que se choque frontalmente com os interesses dos donos do veículo em questão. Vejamos o que estes cidadãos comuns conseguem. Antecipo o destino do texto: a lata de lixo da caixa postal virtual do editor de Opinião.

Mas este não é a única chaga da nossa imprensa. Pior que propagar mentiras, querendo fazê-las passar por verdades, é não dizer de que lado se está. A Carta Capital diz. O conservador O Estado de S. Paulo, também. Por isso, merecem parabéns, já que assumem suas posições, sejam quais forem. Quantos mais têm a coragem de fazer isso?

Pior que ser de direita, como se vê, é ser hipócrita, como são os que nos escondem seus reais objetivos, bem como as identidades dos verdadeiros donos das capitanias hereditárias da mídia. Este bando defende, afinal, os interesses de quem? Os deles, somente os deles, jamais os nossos.

No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, reflitamos sobre o tema à luz do mestre Buda: “Um amigo falso e maldoso é mais temível que um animal selvagem; o animal pode ferir seu corpo, mas um falso amigo irá ferir sua alma”.

Aurélio Munhoz no Twitter: http://twitter.com/aureliomunhoz



Aurélio Munhoz
Aurélio Munhoz é jornalista, sociólogo, consultor em Comunicação e presidente da oscip Pense Bicho. Pós-graduado em Sociologia Política e em Gestão da Comunicação, foi repórter, editor e colunista na imprensa do Paraná. Endereço no Twitter: http://twitter.com/aureliomunhoz.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

cartacapital - O bom Jornalismo está morrendo - Aurélio Munhoz

4 de abril de 2011 às 10:18h

Tenho três ícones no Jornalismo: Cláudio Abramo (o homem que revolucionou estilo e conteúdo dos dois maiores jornalões nacionais), Mino Carta (diretor de Redação da Carta Capital e criador de algumas das melhores revistas brasileiras) e Ricardo Kotscho (o mais brasileiro dos grandes repórteres do País).

Do primeiro, guardo a lição de que a “ética dos jornalistas” é uma falácia; a ética, afinal, é uma só para todos os profissionais. Do segundo, a recomendação de que todo jornalista alie um aguçado espírito crítico a uma fidelidade espartana aos fatos. Do terceiro, o ensinamento de que “lugar de repórter é na rua” – e não nas refrigeradas Redações dos veículos de imprensa.

Por absoluta ignorância, por abjeta canalhice ou pela somatória destes defeitos, um assustador contingente de jornalistas nativos parece desconhecer os ensinamentos acima. Prefere agir como estelionatários da realidade, espetacularizando a notícia, manipulando informações e pessoas em troca de audiência, fama e, claro, dinheiro.

Faço esta introdução a propósito de dois fatos ocorridos na semana passada: a entrevista do deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ) ao programa CQC, da TV Bandeirantes, na qual o parlamentar radicalizou na defesa das suas conhecidas posições medievais contra os negros e os homossexuais; e a veiculação da revista Caras, que estampou manchete com as pesadas acusações da falecida atriz Cibele Dosa contra seu ex-marido, Doda Miranda.

Já se falou praticamente tudo sobre estes dois exemplos de péssimo Jornalismo, que simbolizam o problema crônico de boa parte da grande mídia nacional: sua miopia em relação ao significado da expressão “liberdade de imprensa”, esta peça de ficção invocada sempre que setores da mídia brasileira sentem a necessidade de se safar da irresponsabilidade, superficialidade e sensacionalismo que muitas vezes imprimem ao seu trabalho.

O que trago de novo ao debate sobre o tema é um desafio: exatamente devido a exemplos como estes, intensificarmos a discussão conduzida pelo Congresso Nacional, pelo movimento popular e pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) sobre o modelo de Comunicação que os grandes veículos de imprensa exercem.

O momento não poderia ser mais oportuno, inclusive por conta da criação da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular, que objetiva discutir a democratização da comunicação e o novo marco regulatório da mídia.

Não podemos mais admitir que a sociedade continue sendo bombardeada pelo macartismo reeditado pelos arautos dos grandes veículos de imprensa, que, além de todas as mazelas apontadas acima, vetam a exigência da formação universitária para o exercício do Jornalismo, repudiam a criação do Conselho Federal de Jornalistas e ainda precarizam as condições de trabalho até o limite de tolerância dos jornalistas. Pobres profissionais de imprensa, que não têm grandes motivos para comemorar, nesta quinta-feira (7), o Dia do Jornalista.

Esta tigrada – barões da grande mídia e seus áulicos – está matando a imprensa de verdade e substituindo-a por uma aberração capitalista chamada de “Jornalismo Industrial” – mera linha de produção de notícias descartáveis, servíveis apenas aos seus mesquinhos interesses. Despreza o fato de que Jornalismo de verdade só é aquele que tem compromisso com o efetivo interesse da maioria e que, escorado na verdade, exerce sua função social visando o bem comum. O resto é conversa fiada.






Aurélio Munhoz
Aurélio Munhoz é jornalista, sociólogo, consultor em Comunicação e presidente da oscip Pense Bicho. Pós-graduado em Sociologia Política e em Gestão da Comunicação, foi repórter, editor e colunista na imprensa do Paraná. Endereço no Twitter: http://twitter.com/aureliomunhoz.