Darnton, Eco e Carrière discutem o fim do livro em dois lançamentos
UOL
Livro de Robert Darnton tem anedotas saborosas, mas milita pela digitalização
LEIA TRECHO DE "A QUESTÃO DOS LIVROS" NOTÍCIAS DA FLIP 2010 A inquietação quanto ao fim do livro impresso não é de hoje, mas vem se intensificando com as notícias do aumento exponencial de vendas dos e-books, Kindles e iPads. Curiosamente, a questão gerou alguns livros em seu formato tradicional, dois deles lançados recentemente no Brasil.
São livros bem distintos, mas que revelam cada qual à sua maneira um amor intenso pela leitura e por esse objeto tão familiar e simples, composto de capa e algumas dezenas ou centenas de folhas de papel tipografadas. Se, em seu "A Questão dos Livros", o historiador Robert Darnton detém-se no detalhamento das implicações práticas do avanço da digitalização dos livros, Umberto Eco e Jean-Claude Carrière apenas sobrevoam o assunto nos diálogos transcritos em "Não Contem com o Fim do Livro", preferindo trocar anedotas divertidas e experiências pessoais sobre suas coleções e hábitos de leitura.
A diferença se explica pelo grau de envolvimento com a questão por parte dos três pensadores. Darnton, convidado da Flip, onde vai tratar justamente desse assunto, é atualmente diretor da prestigiada biblioteca de Harvard e vem polemizando com seus textos sobre a proposta do Google de digitalizar todo o acervo das principais bibliotecas do mundo. Apreciador apaixonado de livros e documentos antigos, Darnton considera que a iniciativa pode ser benéfica para o grande público, mas fica receoso quanto à possibilidade de monopólio e a eventuais descasos com relação aos direitos autorais. Isso não impediu, no entanto, que ele mesmo experimentasse os novos formatos com seu projeto Gutemberg-e, uma editora virtual que publica trabalhos acadêmicos.
Eco e Carrière, por sua vez, tangenciam a polêmica como observadores e usuários. E o fazem com um senso de humor despreocupado e irresistível. Parecem dois garotos trocando figurinhas. No caso, figurinhas de gigantesca erudição. É impressionante a quantidade de histórias curiosas que têm na ponta da língua sobre obscuros escritores da Idade Média ou desconhecidos pornógrafos nos anos da revolução francesa. Para Eco, a questão que se coloca é simples; “O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados”. Entende que, se o livro não permanecer como suporte para a leitura, algo muito parecido vai substituí-lo.
Herança cultural
Darnton também tem sua parcela de anedotas saborosas, mas seu livro tem menos a preocupação de divertir que a de militar por uma causa justa: “Sim, é preciso digitalizar. Mas democratizar é ainda mais importante. Precisamos garantir livre acesso à nossa herança cultural. Como fazer isso? Reescrevendo as regras do jogo, subordinando interesses privados ao bem público e nos inspirando nos primórdios da República para criar uma República Digital do Saber”. Sistemático, divide seu livro em três seções, a primeira delas sobre o futuro do livro impresso, a segunda sobre as discussões que ora mobilizam advogados, empresários e intelectuais, e a terceira sobre as histórias da história do livro, uma disciplina que vem ganhando cada vez mais adeptos.
Um aspecto menor, mas curioso que os três autores levantam, é a marca que os leitores deixam nos livros, na forma de anotações na margem das páginas, transformando-os, construindo um diálogo único que não pode ser reproduzido em genéricas digitalizações. Um bom exemplo disso é a biblioteca de Graham Greene, na qual cada volume continha praticamente outro livro, tal a quantidade de anotações em letra miúda que fazia o autor de "O Americano Tranquilo" e "O Poder e a Glória". Os três também comentam a mudança na própria forma de ler ao longo da história. Lembram que a leitura silenciosa começou a ser feita há relativamente pouco tempo, pelos monges que se recolhiam em suas celas para estudar em concentração absoluta. Uma concentração que, desconfiam, hoje é difícil de atingir. Seria o preço a pagar pelo excesso transbordante de informações que nos chegam através de um mero e confortável toque com as pontas dos dedos? Nesses dois livros estimulantes, essa e muitas outras perguntas ficam no ar, não propriamente sem resposta, pois os autores não se furtam a dar seus palpites, mas na expectativa do que o tempo vai realmente trazer.
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