A reedição de “O Caso Morel”, de Rubem Fonseca (editora Agir), é uma das boas novidades nas prateleiras. Este, que é o primeiro romance do autor, foi lançado em 1973 e está entre as obras de leitura obrigatória para quem presta o vestibular. A reedição tem texto adaptado ao novo acordo ortográfico e capa impactante, como condiz a uma obra do mineiro de Juiz de Fora – apenas a imagem de pernas femininas tomadas de hematomas, como se tratasse de um corpo numa mesa de necropsia.
Em sua época, o lançamento de “O Caso Morel” foi precedido de muita apreensão pelos leitores de Rubem Fonseca, incrédulos sobre o fôlego da narrativa de um escritor até então conhecido por seus contos. Todas as marcas do autor estão lá: a violência urbana em todos os extratos sociais, inclusive entre a burguesia; o gosto pela promiscuidade; o anti-herói intelectualizado; a aversão pela mediocridade.
O enredo policialesco é mais um carimbo do escritor, que foi advogado e delegado de polícia. A trama metalinguística tem como ponto central o assassinato de uma socialite carioca. O corpo aparece na praia, com marcas de espancamento e todas as evidências levam a um único suspeito: o artista plástico Paul Morel, com quem a moça mantinha uma relação amorosa pontuada por atos masoquistas.
Trata-se de um romance confessional. Uma tentativa de biografia em que três vozes dividem a autoria: Paul Morel, o ex-delegado e escritor Vilela (convocado para ajudar Morel na função com as palavras) e o próprio Rubem Fonseca. Impressiona o tempo na narração: um instante pode ocupar um capítulo inteiro ou transcorrer um mês de uma frase a outra.
Paul Morel é um personagem interessantíssimo. Tem aquele “perigoso aspecto magro e faminto” shakespeareano e, perto do pesadelo, acha que poderia usar as palavras para exorcizar seus demônios – que não são poucos. Sobrevivente de uma vida de excessos, e avesso a toda e qualquer forma de padrão social, Morel tem seu plano de família: quer morar com três mulheres, o filho de uma delas e mais uma amante que visita com freqüência. E tenta efetivamente fazer desse seu modelo de vida normal.
Vilela, o ex-policial ghost writer, também tem seus dramas. No fundo, o escritor enxerga em Morel um espelho seu. No decorrer do processo de produção da tal biografia, marcada pelas visitas que Vilela faz a Morel na prisão, o interesse do escritor ultrapassa os rascunhos da obra. Ele quer entender o que aconteceu naquela noite, e usa seus conhecimentos policiais para investigar por conta própria o acontecimento.
Chama atenção também a forma em que a violência é abordada ao longo da trama, ora com banalidade, ora com uma importância quase comunial. Em dado momento do livro, ao descrever o prazer pela dor na relação sexual, Morel desenha o ato sado-masoquista como um caminho para a comunhão com o espiritual. Chega mesmo a nominar o ato de causar dor na parceira como uma prova de amor.
Mais que um romance sobre um crime, “O Caso Morel” é uma colcha de retalhos de referências. Nas páginas desse livro estão D.H. Lawrence (é de uma obra dele que sai o nome do personagem Paul Morel), T.S. Eliot, Pound, Man Ray, Proust, Godard e Voltaire. Pela voz de Morel, e também da personagem assassinada, Rubem Fonseca apresenta sua interpretação pessoal da sociedade carioca dos anos 1970, cercada de pequenez, vícios e padrões banais de vida social. Tudo muito atual, como é comum numa obra de arte
Leia trecho da reedição do primeiro romance de Rubem Foncesa, "O Caso Morel".
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Matos e Vilela se encontram na porta da penitenciária. Sozinho
Vilela teria dificuldade para entrar, mas com Matos as portas são abertas. Chegam à cela de Morel.
Cubículo pequeno. Cama estreita com cobertor cinzento.
Mesa cheia de livros; rádio portátil; pia; latrina; mais livros empilhados no chão.
Morel é um homem magro, pálido, cabelos escuros, grisalhos nas têmporas. Rugas fundas cortam seu rosto. Veste uma camisa branca e calça cinza, amassadas. Possivelmente dorme com aquela roupa.
“Tenho dois dos seus livros aqui.”
Procura os livros, acha apenas um deles. “O outro sumiu. Você não quer sentar?” Morel indica a Vilela a única cadeira da cela.
“Vou deixar vocês sozinhos. Tenho ainda muita coisa para fazer”, diz Matos.
“Obrigado.” Morel aperta a mão de Matos.
“Vocês vão se dar bem. Quando quiser sair, bate na porta e manda chamar o inspetor Rangel.”
Matos sai.
“Nem sei como começar”, diz Morel. “O Rei disse para Alice 'co meça no princípio, depois continua, chega ao fim e para'. Mas onde é o princípio?”
Vilela: “Você também pode começar do fim e terminar no princípio, ou no meio”.
“Preciso da sua ajuda.”
“Diga como.”
“Eu preciso escrever um livro. Matos não lhe falou?”
“Disse que você queria falar com um escritor.”
“Quero ajuda para escrever um livro.”
“Quanto menos ajuda dos outros, melhor.”
Morel reflete por instantes.
“Estou muito arrasada.”
“É assim mesmo que se escreve.”
“Eu quero ter certeza de que vou ser publicado.”
“Essa certeza você não pode ter.”
Morel sentado na cama. Deita lentamente, com os braços cruzados sobre os olhos. Vilela pega um livro, sobre a mesa. Visão e invenção.
“Adianta escrever, se ninguém vai ler?”
“Adianta, sempre.”
“Passo as noites sonhando com a minha carreira literária”, a ironia na voz é forçada. “Você quer um biscoito?”
Uma lata de biscoitos debaixo da cama.
Comem bis “Onde você arranjou esse monte de livros?”
“São meus.”
“Quem traz?”
“O doutor Matos. Dei a ele a chave da minha casa. Eu peço os livros ele vai na minha estante e apanha. Às vezes ele me compra um livro, mas o gosto dele não combina muito com o meu.”
“Você já escreveu alguma coisa?”, pergunta Vilela.coitos.
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