quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A oposição e Serra cada vez mais acuados

A essa altura da campanha eleitoral parece evidente a um número cada vez maior de eleitores que o PSDB escolheu apresentar duas caras contraditórias.

Uma face procura representar uma síntese entre o que foi o governo FHC e os 8 anos da presidência Lula, fingindo que ambos seriam similares. Essa orientação contradiz o que foram a experiência política da população nesses anos todos; renega o que foi o comportamento da oposição demo-tucana durante estes últimos oito anos. Mas ela se justificaria, aos olhos do PSDB, para contornar a popularidade do presidente Lula. Ou seja essa cara é a cara do oportunismo e implica um revisionismo sobre um passado ainda muito recente, mas indiscutivelmente ela poderia representar a ideia da “renovação” ou da procura de um novo espaço político.

Por outro lado, a cara escolhida pela oposição é a identidade mesma do passado, o da oposição raivosa e anti-PT, reavivada a cada passo da atuação de José Serra desde que perdeu para Lula em 2002. Ou seja o candidato e a linha escolhida eram contraditórios.

O recall eleitoral ocultou durante um tempo esta realidade. As pesquisas, antes mesmo do incio da propaganda na TV, dissiparam em parte a ilusão. A propaganda na TV escancarou a contradição e acentuou a queda do candidato de “duas caras”.

Esse choque esta provocando uma crise política na oposição, reforçada cada vez mais por conta da queda do candidato nas pesquisas.

A origem dessa crise esta nessa contradição, apresentada pelo editorial de hoje do jornal Valor, nestes termos: “O marketing que responde simplesmente a questões levantadas em pesquisas qualitativas é destituído de política. As eleições são uma disputa entre projetos diferentes. Se o ex-governador José Serra insistir em se apresentar como candidato de continuidade, sem se apresentar como alternativa a um projeto político que está em curso há quase oito anos, dificilmente conseguirá o intento de superar Dilma”.

Não pudendo representar o futuro e se recusando a incarnar o passado, a candidatura entrou em processo acelerado de descomposição política e eleitoral. Chocou à “gregos e troianos”, sem contentar ninguém.

O risco hoje, para a oposição, não é só a derrota eleitoral de Serra; mas as consequências de um possível desabamento da sua candidatura. As reuniões e declarações sucessivas de diversos tenores da oposição, FHC, Alvaro Dias, Roberto Jefferson, Cesar Maia e consortes, respondem a este diagnostico, alarmante para a oposição.

Pedem para Serra abandonar a cara fantasiosa com que pretendeu travestir sua trajetória e iludir o eleitorado, para assumir o discurso coerente da oposição raivosa e perder a eleição, porem preservando um campo para o agrupamento do centro-direita que não seja pó.

Em parte é para preservar o futuro, mas também é o temor que um possível desabamento de Serra arraste para o brejo a representação parlamentar e até Estados considerados chaves para a oposição, Minas Gerais e São Paulo.

Paradoxalmente o tempo que falta para o voto é percebido com temor não pela candidata favorita, o que é normalmente o caso em qualquer pleito onde um candidato mantem uma importante dianteira perante o segundo colocado. Ele começa a ser sentido como um tempo longo demais para o candidato Alckmin, que é levado a federalizar sua propaganda eleitoral em favor de Serra o que não ajuda sua própria situação confortável nas pesquisas. Por enquanto isto não esta afetando sua situação, porque as intenções de voto em Serra são grandes o bastante em São Paulo. Mas se o desabamento vier a acontecer essa identificação pode se retornar como um boomerang contra Alckmin. Seu colega Aécio, com uma situação bem diferente em Minas, faz tempo que sacou que sua sobrevida e a vitória de seu candidato ao governo estadual passa pela dissociação drástica de sua campanha, da aventura representada pela candidatura Serra. Tendo agido assim ele começa a vislumbrar que o tempo pode permitir reverter o quadro, mas à condição de recusar as pressões para associar sua cara ao destino da candidatura Serra. Ele não tem a “gordura” de Alckmin, que mesmo assim também reluta em ir muito longe nessa identificação.

Um mês é talvez pouco tempo para Aécio. Um mês é muito tempo para Alckmin. Por enquanto Serra esta perdendo a eleição, mas ainda guarda uma importante intenção de votos. Uma reviravolta é muito difícil, quase impossível. Mas pode perder com um resultado ainda bom, em eleições difíceis para qualquer candidato de oposição.

Se desabar, para ele será Santa Helena*. Para os demo-tucanos pode ser uma Berezina* ou pior, um verdadeiro Waterloo.

Napoleão sobreviveu à derrota infligida pelos Russos. A França demorou várias décadas para se remeter da derrota a mão dos ingleses, nas terras da Bélgica.

Luis Favre

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