quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A sociedade organizada é o pavor dos oligarcas(Serra e o esquema demotucano)

Cartamaior
Um Zé fora de hora
O “Zé que quero lá" não é apenas jingle de campanha; acima de tudo, é o sintoma de um jogo teatral lamentável, desprovido de recursos que conquistem a simpatia da platéia. Como ator político, é uma idéia fora de lugar, uma caricatura de si mesmo.

Gilson Caroni Filho

José Serra deixou cair a máscara barata. As críticas ao que chamou de "conferencismo", no 8º Congresso Nacional de Jornalismo, vão além do agrado circunstancial ao baronato midiático que lhe apóia na campanha. A direita sabe que o maior legado da Era Lula não se resume ao crescimento econômico com distribuição de renda. O grande feito do governo petista foi mobilizar a sociedade para passar em revista problemas históricos de origem.

Após várias conferências, a história brasileira deixou de ser o recalcamento das grandes contradições, para se afigurar como debate aberto sobre suas questões centrais. Numa formação política marcada pela escravidão, pela cidadania retardatária, com classes sociais demarcadas por distâncias socioeconômicas e por privilégios quase estamentais, o que vivemos no governo Lula foi uma verdadeira revolução cultural.

Além de discutir a mídia e a questão ambiental, foi criada uma nova agenda capaz de combater preconceitos e discriminações, ligados à classe, à raça, ao gênero, às deficiências, à idade e à cultura. Conhecendo os distintos mecanismos de dominação, encurtou-se o caminho da conquista e ampliação de direitos, da afirmação profissional e pessoal. E é exatamente contra tudo isso que se volta a peroração serrista. A sociedade organizada é o pavor dos oligarcas.

O candidato tucano não escolhe caminhos, métodos, processos e meios para permanecer como possibilidade de retrocesso político. A cada dia, ensaia nova manobra de politiqueiro provinciano, muito mais marcado por uma suposta esperteza do que pela inteligência que lhe atribuem articulistas militantes. Continuar chumbado ao sonho presidencial é sua obsessão. De tal intensidade, que já deveria ter provocado o interesse de psiquiatras em vez da curiosidade positivista de nossos “cientistas políticos” de encomenda.

O “Zé que quero lá" não é apenas jingle de campanha; acima de tudo, é o sintoma de um jogo teatral lamentável. Desprovido de recursos que conquistem a simpatia da platéia, se evidencia como burla ética, como o cristal partido que não se recompõe. Como ator político, é uma idéia fora de lugar, uma caricatura de si mesmo. Vocaliza como ninguém o protofascismo de sua base de sustentação.

Por não distinguir cenários, confunde falas. Quando tenta uma encenação leve, resvala para o grotesco. Quando apela para o discurso da competência, sua fisionomia é sempre dura, ostentando ressentimento e soberba. Os Césares romanos davam pão e circo à plebe. Aqui, sendo o pão tão prosaico, o ”Zé" não pode revelar os segredos da lona sob a qual se abriga. Seu problema, coitado, não é de marketing - é de tempo.

No governo em que ocupou duas pastas ministeriais, o cenário era sombrio. Parecia, ao primeiro olhar, que, no Brasil, tudo estava à deriva: desvios colossais na Sudene, na Sudam, no DNER; violação do painel eletrônico do Senado; entrega de ativos a preço vil; racionamento de energia e descrença generalizada na ação política. Os valores subjacentes aos pólos coronel/cliente, pai/filho, senhor/servo, pareciam persistir na cabeça de muitos de nossos melhores cidadãos e cidadãs, bloqueando a consolidação democrática. Era o tempo de Serra.

Tentar voltar ao proscênio oito anos depois é um erro primário. A política econômica é outra. Mais de 32 milhões de pessoas foram incorporadas ao mercado consumidor brasileiro. Segundo o chefe do Centro de Pesquisas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Neri, os cenários projetados até 2014 mostram que é possível duplicar esse número. A mobilidade social gerou um cidadão mais exigente. Uma consciência política mais atenta ao que acontece em todos os escalões do poder, um contingente maior de sujeitos de direito que exige mais transparência e seriedade na administração pública. Esse é o problema do “Zé”. Aquele que, depois de tantas Conferências, poucos o querem lá.



Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do


O papelão e o papel da direita
A pulverização da frente partidária de direita no Brasil pode fazer surgir um novo pensamento conservador, renovado e um pouco mais arejado do que o dessas direitas atuais, que deixaram de ser conservadoras para se tornarem amplamente reacionárias.

Flávio Aguiar

Não sabemos ainda o que exatamente vai acontecer nas eleições de outubro. Os prognósticos, para nós das esquerdas – os nós que não nos entravamos nos nossos nós – são muito bons: vitória de Dilma, seja no primeiro ou no segundo turno, estabilização de Marina da Silva, que poderá se livrar da incômoda e completamente auto-centrada política de Gabeira, Plínio mantendo sua dignidade exemplar e, quem sabe, neutralizando o poder de biruta de aeroporto da atuação de Heloisa Helena junto às extremas. Mas tudo isso são prognósticos, a serem passados a limpo pelo crivo de outubro.

Pois é, mas e as direitas? É preocupante o estado das direitas. Estão fazendo um papelão. Essa é a moldura do excelente artigo do Nassif transcrito aqui nesta Carta Maior. Concordo no todo e discordo em parte do artigo. Não se trata de saber se Nassif é neo-tucano ou sei lá que bobagem dessa ordem. Trata-se de pensar no rigoroso problema que ele levanta.
Esse problema é, no fundo, o de observar o jogo político um pouco além do tabuleiro eleitoral. Este, sem dúvida, é importante. Mas o que está acontecendo por debaixo desse tabuleiro, como as engrenagens estão se movendo e como vão atuar sobre as peças do xadrez partidário?

É óbvio que está havendo um descolamento progressivo dessas direitas que hoje atuam ostensivamente, de suas bases tradicionais. Estas estão se movendo sim – não necessariamente para a esquerda, mas para cima. A política do governo Lula, combinando estabilidade financeira, monetária e fiscal com transferência de renda e de foco dos investimentos, está provocando uma ascensão social de monta no país. Isso não significará necessariamente no futuro uma sociedade “mais progressista”. Pode prevalecer, e prevalecerá em parte desse grupo ascensional, que envolve diferentes níveis de renda, o complexo da Arca de Noé: “eu e os meus nos salvamos; agora fechemos as portas, porque aqui não cabe todo mundo”.

As direitas brasileiras – ofuscadas por seus sentimentos oligárquicos no caso da mídia corporativa, ou fascinadas, no caso dos políticos, pela ameaçadora perda do poder governamental por mais alguns anos – não conseguem perceber esse movimento, nem suas possibilidades, nem o que isso representa. Por isso, provavelmente, serão duramente castigadas nas próximas eleições. A frente partidária de direita será pulverizada, se nada de novo acontecer.

Aqui tenho uma discordância com a visão de Nassif, de que isso poderia ser necessariamente ruim. É a chance de surgir, não das cinzas, mas com base naquele novo quadro social emergente, um novo pensamento conservador, renovado e um pouco mais arejado do que o dessas direitas atuais, que deixaram de ser conservadoras para se tornarem amplamente reacionárias, vivendo num mundo virtual em que só elas e seus apaniguados mais empedernidos acreditam. A expressão acabada dessa cegueira é a tentativa de transformar José Serra em “Zé”, mais a favela virtual criada por sua campanha.

Uma direita mais “moderna” – se isso é possível – começaria por se tornar mais independente em relação à mídia corporativa que é autoritária em relação aos mais fracos – o sofrido povinho e o temido povão, que são dois lados da mesma moeda dos seus pesadelos – enquanto corteja e tenta acaudilhar pela representação os mais fortes. Adotaria uma posição mais aberta ao diálogo na América Latina e no mundo inteiro, ao invés de ficar brincando de Guerra Fria à antiga, vendo mocinhos e bandidos em tudo e se pondo no papelão de novo de assumir a defesa da cavalaria americana contra os índios hostis do resto do mundo. uma direita mais moderna prestaria mais atenção no Santos de hoje do que no Uribe de ontem, e digo isso por mais que não tenha qualquer simpatianem empatia pelo primeiro e apenas completa e total antipatia pelo segundo. Trata-se isso sim de fver o que eles representam hoje, qual o seu papel.

Não sei como seria o pensamento dessa “nova direita”, pois certamente não pensaria com nem como ela. Mas seria mais interessante do que isso que aí está.

Sem essa renovação “do lado de lá” as esquerdas tenderão a aprofundar suas divisões, porque a pressão social advinda do novo e mais complexo quadro social emergente assim as pressionará. A velha direita, massacrada, terá a tentação de renovar o cortejo às soluções autoritárias ou ditatoriais. Uma parte das “novas classes” emergentes poderá sair em busca de líderes popularescos, no estilo Berlusconi.

De todo modo, momentos interessantes estarão pintando no horizonte, se Dilma ganhar do jeito que parece que pode ganhar.

PS - Aproveito a oportunidade para comunicar às leitoras e leitores que estou saindo de férias. Volto em setembro. Até.



Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim

Nenhum comentário:

Postar um comentário