A mídia e o "novo analfabetismo"
Cerca de 63% dos estadunidenses desconhecem que Barack Obama é cristão. Quando perguntados como souberam qual a religião de Obama, 60% daqueles que acreditam que ele é muçulmano citam a mídia. Dezesseis por cento mencionam a televisão como sua fonte.
Venício Lima
Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa
Faz tempo que os estudiosos chamam a atenção para o problema do excesso de informação nas sociedades contemporâneas. Em precioso artigo intitulado "O novo analfabetismo", publicado no Jornal do Brasil, há exatos seis anos, Emir Sader lembrava que:
"Até um certo momento, a capacidade de compreensão do mundo, e de nós dentro do mundo, esbarrava na falta de informações. Mais recentemente, passamos a sofrer o fenômeno oposto: excesso de informações. Nos dois casos, o que sofre é a capacidade de compreensão, de apreensão dos fenômenos que nos rodeiam, que produzem e reproduzem o mundo tal qual é e nós dentro dele. (...) A informação contemporânea, massificada, fragmentada, atenta contra a capacidade de compreensão da realidade como uma totalidade. Os noticiários de televisão enunciam uma enorme quantidade de informação, sem capacitar para sua compreensão, com um ritmo e uma velocidade que impedem sua assimilação e o questionamento do sentido proposto" (íntegra aqui).
Já tive a oportunidade de argumentar neste OI que informação não é conhecimento e que o excesso de informação passou a ser sinônimo de desinformação [cf. "Internet, informação e conhecimento" in OI nº. 297 de 5/10/2004]. Além disso, o principal problema provocado pelo excesso de informação tem sido identificado como a incapacidade do cidadão comum de "compreensão da realidade como uma totalidade".
Há, todavia, outro aspecto pouco lembrado: a informação que está disponível "em excesso" nem sempre é aquela que permite a "compreensão da realidade como uma totalidade". Ou ainda: não é nem mesmo a informação correta sobre fatos e dados de grande interesse público.
Presidente muçulmano em país antimuçulmano?
Parte dos resultados de uma pesquisa nacional realizada nos Estados Unidos pelo conceituado Pew Research Center, agora divulgados, dramatiza essa nova realidade.
O número de americanos que acredita que o seu presidente é muçulmano tem aumentado ano a ano e chegou a 18% da população, em agosto de 2010. Se somados àqueles que declaram "não saber" ou que ele é de "outra religião" que não a sua, 63% dos americanos desconhecem que Barack Obama, na verdade, é cristão.
Quando perguntados como souberam qual a religião de Obama, 60% daqueles que acreditam que ele é muçulmano citam a mídia. Dezesseis por cento mencionam a televisão como sua fonte.
Alguns ainda podem acreditar que não se deva atribuir maior significado aos dados revelados pelo Pew Center. No entanto, bastaria lembrar a crescente onda anti-islâmica que varre os Estados Unidos [por exemplo, "The US blogger on a mission to halt `Islamic takeover´"], ou mencionar a manchete de capa da revista Time desta semana [vol. 176, nº. 9] que pergunta "A América é islamofóbica?" e publica os assustadores resultados de outra pesquisa nacional:
** 25% consideram os muçulmanos americanos não patriotas;
** 28% dos americanos afirmam ser contra um muçulmano integrar a Suprema Corte (nunca houve nenhum); e
** 33% se opõem a um muçulmano concorrendo à presidência.
E o dever de informar?
É imperativo, portanto, perguntar: se o grau de informação (desinformação?) dos americanos em relação à crença religiosa do seu próprio presidente expressa a qualidade da informação sendo oferecida pela grande mídia – sobretudo, a televisão –, estaria ela cumprindo sua missão fundamental na democracia que é informar corretamente ao cidadão?
A lição para nós, brasileiros, é a reiterada necessidade de se estar atento às muitas contradições das posições públicas assumidas pela grande mídia e suas entidades representativas.
A defesa da liberdade de imprensa em nome do direito de informar – que, na verdade, é o corolário do direito básico do cidadão de ser informado – não significa que a informação necessária e correta esteja disponível. Mesmo em sociedades onde, eventualmente, possa existir "excesso de informação".
Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.
O novo analfabetismo
emir sader
Até um certo momento, a capacidade de compreensão do mundo, e de nós dentro do mundo, esbarrava na falta de informações. Mais recentemente, passamos a sofrer o fenômeno oposto: excesso de informações. Nos dois casos, o que sofre é a capacidade de compreensão, de apreensão dos fenômenos que nos rodeiam, que produzem e reproduzem o mundo tal qual é e nós dentro dele. E com nossa capacidade de compreensão sofre nossa capacidade de transformação. Como resultado, nunca tivemos uma quantidade tão grande de informações disponíveis, mas nunca nos sentimos tão incapazes de compreender o mundo e tão impotentes para transformá-lo.
O segredo do conhecimento é a compreensão do que temos a ver com o mundo que criamos, mas que sentimos como alheio. Classicamente a verdade estava ligada à separação do sujeito e do objeto. A objetividade viria dessa separação. Quanto mais distantes sujeito e objeto, maior capacidade de apreensão da verdade. A contradição era identificada com a falsidade. Era a lógica da identidade que comandava a busca do conhecimento e da verdade.
A grande revolução na busca do conhecimento se deu com a inversão da natureza e do lugar da contradição, com a dialética de Hegel. A contradição, de sintoma de erro, de inverdade, passou a ser indício de captação do sentido de um fenômeno. O movimento da história se tornou inteligível e, com ele, foi recuperada a capacidade de compreensão dos fenômenos humanos na sua totalidade. O pensamento social já nunca mais foi o mesmo a partir da centralidade conquistada pela categoria da contradição.
A informação contemporânea, massificada, fragmentada, atenta contra a capacidade de compreensão da realidade como uma totalidade. Os noticiários de televisão enunciam uma enorme quantidade de informação, sem capacitar para sua compreensão, com um ritmo e uma velocidade que impedem sua assimilação e o questionamento do sentido proposto. É como se o império da velocidade impusesse um ritmo noticioso impossível de ser acompanhado e controlado pelos espectadores, é como se o noticiário televisivo tentasse substituir o noticiário escrito, sem a possibilidade que este apresenta de controle, de revisão, de questionamento. Ter sido informado dos últimos acontecimentos de conflitos como os do Iraque, da Palestina, do Afeganistão, da Chechênia ou da Colômbia já nos deixou em condições de dar conta do seu sentido, enquanto que a aparente repetição de cenas reiteradas esconde sentidos que o fim do noticiário deu por concluídos.
Já partimos de cerca de 70% de pessoas analfabetas funcionais, isto é, sem condição de ler uma carta, entendê-la e respondê-la, necessitando sempre do personagem de Fernando Montenegro em Central do Brasil. Se a eles acrescentamos os que são vítimas dessa massa de informações, sem condições de analisá-la e menos ainda de questioná-la, tirar conseqüências e construir sua própria visão dos fenômenos, chegamos a uma massa de analfabetismo incapacitada de fazer uso do conhecimento para a compreensão de si mesmo e do mundo.
O Fórum Mundial de Educação, realizado esta semana em Porto Alegre, teve o tema da relação do conhecimento com a educação e com a emancipação como um de seus debates centrais. De fato, um outro mundo, melhor do que este, não será possível, não apenas sem elevar os níveis do sistema educacional, mas sem transformá-lo, para fazer dele um instrumento de consciência e de emancipação, isto é, sem que seja um instrumento na luta pela desalienação e pela construção de sujeitos capazes de emancipação.
Apesar dos manipulados índices de matricula das nossas crianças e jovens nas escolas, que refletem avanços quantitativos reais, mas não amparados na melhoria da qualidade do ensino, nosso sistema educacional não tem tido papel central na socialização dessas crianças e jovens, afetados pela forte influencia dos apelos de consumo e do seu marketing.
A socialização democrática tem na escola seu elemento central, com uma educação laica, republicana, gratuita, pública, aberta para todos. Uma sociedade democrática tem como um dos seus componentes essenciais uma educação universal, de qualidade similar para todos. Somente assim combateremos as diversas formas de analfabetismo e qualificaremos todos para um pensamento crítico e emancipado.
CULTURA NA REDE
Internet, informação e conhecimento
Por Venício A. de Lima em 5/10/2004
O Brasil é o oitavo país mais conectado à internet do mundo. Segundo a Agência Brasil, em janeiro de 2004 o país possuía 3,1 milhões de computadores ligados à rede. Ocupamos o terceiro lugar nas Américas e o primeiro na América Latina. Temos o dobro do número de computadores conectados no México (1,3 milhão), o outro país do continente listado no ranking, na 15ª posição. Estão à frente do Brasil os Estados Unidos, Japão, Itália, Reino Unido, Alemanha, Holanda e Canadá, nesta ordem.
Por outro lado, dados do painel do Ibope/NetRatings, divulgados na segunda-feira (27/9), indicam que os 12,02 milhões de usuários ativos da internet em agosto de 2004 (11,6 milhões em julho), no Brasil, bateram mais um recorde em tempo de uso em seus domicílios – com 13hs58min/mês. Só ficaram menos tempo navegando que os japoneses, com 14hs26min. Os americanos estão em terceiro lugar, com 13hs40min. No último ano, os brasileiros aumentaram o uso domiciliar da web em 24,1% (foram 11hs15min em agosto de 2003).
Números como esses têm aparecido com freqüência na mídia e, independente do perfil elitista da maioria dos usuários, nos remetem a uma questão que raramente é discutida quando se fala na nova "sociedade do conhecimento" ou "economia do conhecimento" – e, sobretudo, quando se divulgam os inegáveis avanços que a crescente utilização da internet provoca. Trata-se da diferença fundamental entre informação e conhecimento.
Fatores políticos
Recorro a um precioso ensaio dos professores James Carey e John Quirk, da Universidade de Illinois-Urbana, EUA. Escrito originalmente na década de 1970 e publicado há alguns anos em português ("A história do futuro", Comunicação&política, nova série, volume III, nº 1, janeiro-abril, 1996; págs 102 a 123), mesmo referindo-se às tecnologias de comunicações em geral e não particularmente à internet que ainda engatinhava, permanece atual e instigante. Dizem eles:
Nos escritos sobre as novas tecnologias de comunicações, raras vezes a relação entre informação e conhecimento é articulada de modo adequado, porque ela simplesmente não é reconhecida como um problema. Informação e conhecimento são geralmente considerados como idênticos e sinônimos. Assume-se que a realidade consiste de dados ou bits de informação, e que esta realidade é, em princípio, registrável e armazenável. Portanto, [assume-se que] é possível, também em princípio, para um usuário [dessas novas tecnologias] saber tudo ou pelo menos ter acesso a todo o conhecimento.
Mas...
(...) o conhecimento, no final das contas, é paradigmático. Ele não surge na experiência em forma de dados. Não existe uma coisa chamada "informação" sobre o mundo fora dos sistemas conceituais que criam e definem o mundo no próprio ato de conhecê-lo.
Acrescentam os professores que esse conhecimento paradigmático está presente exatamente nos sistemas de informação...
(...) contidos nos programas de computadores, nos instrumentos estatísticos, no armazenamento de informações e nos códigos de recuperação, nas teorias técnicas que pré-definem a informação, e, talvez ainda mais importante, nos sistemas de oposições binárias, esta língua franca da ciência moderna.
Ainda mais importante...
(...) os paradigmas não são independentes de propósitos e distorções exteriores; eles expressam em linguagem técnica um raciocínio impregnado de valores. Os sistemas de informação por computador não são apenas meros instrumentos de registrar informações objetivas. Eles são emanações de atitudes e esperanças.
E, concluem, a própria...
(...) "idéia de informação" é um outro modo de desconsiderar fatores políticos reais como classe, status e poder.
Experiência coletiva
É preciso, portanto, que a enorme potencialidade de acesso à informação representada pelo computador e a divulgação de números relativos à utilização crescente da internet não nos iludam com relação ao verdadeiro acesso ao conhecimento. Não podemos sucumbir a uma epistemologia barata que equaciona disponibilidade de informação com aumento automático de conhecimento.
O conhecimento, ademais de paradigmático, não é neutro. Impregnado de valores e propósitos, é através dele que se organizam as informações que estão disponíveis na internet, da mesma forma que é através dele que se pode construir os sentidos do fluxo permanentemente de informações difundidas pela mídia.
Nunca será demais lembrar que somente uma educação fundada na experiência coletiva de transformação do mundo é capaz de fazer brotar o conhecimento emancipador. Internet significa, sim, mais informação disponível. Mas informação não é igual a conhecimento.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
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