Enviado por , qua, 23/03/2011 - 12:40
A pesquisa da CDN sobre os hábitos de leituras dos executivos brasileiros consolida percepções já antigas sobre o tema.
Considere-se que os executivos eram o público preferencial dos jornais, provavelmente os mais habituados às colunas dos jornais - daí talvez a preferência por blogs. Considere-se também que, pela pesquisa, continuam sendo majoritariamente leitores de jornais.
A pesquisa comprova algumas análises que já publiquei aqui e acrescenta ingredientes novos à discussão midiática.
Tempos atrás escrevi que, dos grupos da velha mídia, sobreviveriam as Organizações Globo e a Folha, através da UOL; que o Estadão era um grupo à venda; e que a Abril não conseguiria se colocar nesse novo mundo virtual.
Como a blogosfera é um universo múltiplo, distribuído, obviamente não dá para tratar da mesma maneira que um portal ou um jornal. É um grande bolo, mas dividido por milhares de blogs. E muitos desses blogs estão ancorados em portais jornalísticos.
Na pesquisa, alguns pontos chamam a atenção:
1.O predomínio dos portais variados sobre os portais exclusivamente jornalísticos. UOL (42%) e Terra (36%) se destacam vindo, a seguir, o iG (19%), acima do G1 (17%), mesmo este contando com o aparato de vídeo das Organizações Globo. Até a era Caio Túlio o iG encostava no Terra, na disputa pelo segundo lugar, mas por audiência total. Como a pesquisa, agora, é com executivos atrás de notícias, não sei se reflete a audiência total dos portais.
2.A pesquisa consagra a visão pioneira de Luiz Frias, quando convenceu o pai a apostar na UOL. A consolidação se deu em cima de uma série de operações habilidosas, da compra da parte da Abril à associação com a Portugal Telecom, a maneira como resolveu seus problemas com o ICMS paulista e a operação de IPO conduzida pelo Banco Pactual, o desenvolvimento de tecnologia própria. Em meio ao terremoto da última década, manteve o barco à tona e consolidou a posição de liderança. Ele e Rodrigo Mesquita, do Estadão, são os herdeiros que melhor entenderam os novos tempos.
3.Um capítulo curioso é o caso Nizan Guanaes. Quando lançou o iG, escrevi algumas vezes que o modelo de negócios (em cima da internet gratuita) não se sustentaria, porque baseado em uma distorção – o pagamento pelas teles aos portais que redirecionassem o tráfego para elas. De fato, não se sustentou. Mas Nizan estava certo em apostar em um modelo que dependesse de publicidade. Acontece que o iG surgiu muito antes da publicidade chegar maciçamente à internet. Foi salvo por manobras envolvendo controladores e sócios, mas se consolidou no terceiro lugar. Roberto Campos tinha uma maneira de definir erros estratégicos: quando se começa muito depois ou quando se começa muito antes. Nizan viu. O problema é que foi muito antes.
4.Chama atenção a total inexpressividade do Portal do Estadão – que não aparece sequer na pesquisa. Já a Agência Estado tem a leitura de apenas 2% dos executivos, justamente seu público-alvo. O grupo jogou tudo no Portal. É dos mais completos, com melhor conteúdo. Mas perdeu-se provavelmente na organização do conteúdo, que acabou reproduzindo, em um espaço que deveria ser organizado e hierarquizado, a própria desorganização e horizontalização da Internet. Sequer há separações claras sobre a ordem cronológica de entrada das notícias no portal. Não há uma porta de entrada simplificada, que permita visualizar todo o conteúdo. A própria versão online da Folha impressa, simplesinha, sem nenhuma firula, permite com dois cliques saber de todo conteúdo do jornal. No Estadão, é impossível.
5.Apesar do pesado investimento no seu Portal, Veja sequer aparece com 1% de indicações. A Abril perdeu o barco lá atrás, quando se desfez da BOL e, depois, da TVA. Está fora do jogo.
6.Com pouco tempo no ar, o R7 – embora ainda em pequenos 3% - suplantou a Agência Estado junto ao público-alvo da Agência.
7.Embora o jornal tenha passado por uma crise que quase liquidou com sua circulação, o site de O Dia ainda tem 2% de audiência dos executivos. Aliás, foi dos pioneiros, com alta qualidade inicial. Infelizmente a morte do Ary Carvalho interrompeu o planejamento para dar o upgrade ao jornal.
O caso Estadão
É curiosa a saga do Estadão.
Quando começou a era da informação online, foi dos primeiros a entender os novos tempos. Está certo, que à custa do pioneiro Dinheiro Vivo, que foi a primeira empresa a lançar serviços online. Na época, Rodrigo Mesquita convenceu a família a comprar o sistema de transmissão da Broadcast e contratou praticamente toda a minha equipe. Depois disso, fez um trabalho de gente grande na consolidação da Agência.
Quando sobreveio a crise do grupo, as disputas internas acabaram levando de roldão todos os membros da família que trabalhavam na empresa. E com isso o grupo perdeu sua cabeça estratégica.
Como o único setor dinâmico do grupo era a Agência, na impossibilidade de manter Rodrigo o Conselho decidiu promover seu segundo homem, Sandro Vaia. Só que Sandro tinha funções operacionais. Nunca foi estrategista dos novos tempos, nem chefe de redação dos velhos tempos.
Depois, resolveu trazer alguém de fora, Ricardo Gandour, com carreira bem sucedida no Publifolha. Em vez de coloca-lo para tocar novos negócios, como um publisher clássico, conferiu-se a ele a direção de conteúdo de todo o grupo. E seu perfil não é de jornalista de redação.
Com isso o jornal entrou na fase de maior ebulição da mídia brasileira, com o terremoto editorial acabando com a estratificação de leitura, sem um desenho claro de conteúdo.
A linha política foi mantida pela tradição da família Mesquita e da marca Estadão. Mas Gandour trouxe para dentro do jornal o vezo da Opus Dei (essa informação é de colegas ligados à própria família Mesquita, não de críticos do jornal), de instrumentalizar a cobertura. Manipulou manchetes, criou falsos escândalos, repercutiu as maluquices da Veja, cometeu ataques contra colegas, entrou no pool de mídia que se formou a partir de 2005. E, com isso, perdeu a oportunidade de firmar o jornal como alternativa de informação objetiva – embora ainda seja o jornalisticamente mais sólido dos veículos da velha mídia.
Agora, o Estadão está no seguinte dilema.
O jornalão está zero a zero – não gera mais lucros para financiar as novas plataformas; a rádio é superavitária mas de pequena expressão (embora o movimento de associação à ESPN seja promissor); a Agência Estado continua sendo a parte mais rentável.
Mas a grande aposta, o Portal, não vingou.
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quarta-feira, 23 de março de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
nídia e poder - ÉTICA DE LADO A LADO - Fontes e jornalistas frente a frente - observatório da imprensa
Por Francisco José Karam e Aldo Antonio Schmitz em 8/2/2011
Publicado originalmente na revista Intexto nº 23, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, p.170-181, 2010
"Quando o outro entra em cena, nasce a ética" (Umberto Eco)
O jornalismo vale-se dos conflitos, da diversidade de ideias, da variedade de opiniões, da multiplicidade de interesses e da complexidade das relações humanas, atributos protagonizados pelas fontes jornalísticas e percebidos pelo público pela notoriedade, surpresa, utilidade, dramaticidade, pelo suspense, conhecimento e inusitado. Pois as "interações do jornalista com a fonte envolvem conflitos e acordos inevitáveis, porque a interlocução é viva, interessada" (Chaparro, 2001, p. 43).
As fontes empresariais e institucionais, principalmente, primam pela precisão técnica, pelo rigor dos dados, pela narrativa unilateral e evitam notícias sobre discussões em curso. Segundo Christofoletti (2008, p. 48), "a fonte acredita que sua versão não será distorcida ou pervertida. O profissional crê que as falas de seu entrevistado estão próximas do que efetivamente ocorreu" e torna público o momento transitório para que a sociedade interfira no debate.
No afã de fazer revelações de impacto, a mídia atropela alguns limites, em nome de um suposto interesse público, que ela mesma estabelece. Sobrepõe direitos, imagem e reputação, sem resguardar a idoneidade das organizações, ainda que "a liberdade de imprensa e o dever de informação do público não autorizam tudo" (Cornu, 1999, p. 83). Por conta disso, as fontes assumem uma posição de cautela e tentam reagir.
Corrida contra tempo e espaço
As suas reações podem parecer equivocadas, surpreendendo o processo tradicional de apuração, como ocorreu no Blog da Petrobras (2009), Fatos e Dados, ao postar as perguntas dos repórteres e as respostas da estatal, antes da veiculação pela imprensa, o que se considerou "vazamento" de informações obtidas pelos jornalistas e quebra de confiabilidade. Essa estratégia foi inicialmente adotada em 2002, nos Estados Unidos (EUA), em que o Ministério da Defesa publicava todas as entrevistas importantes do secretário Donald Rumsfeld no blog DefenseLink, antes da veiculação na imprensa (Gillmor, 2005, p. 78).
As fontes defendem a liberdade de expressão e de imprensa, mas ainda não assimilam nem aprenderam a conviver com o jornalismo crítico e investigativo. Cornu (1999) lembra que os jornalistas desempenham um papel cívico, mas nem sempre as investigações são transparentes perante o público, tampouco para as fontes. Os jornalistas utilizam um recurso de linguagem, notadamente o futuro do pretérito, como condicional – suposto, envolvido –, para indicar incerteza, se proteger e expor pessoas. O público assimila essa suposição como fato consumado.
Em geral, as fontes reclamam que os repórteres deturpam as suas declarações e os fatos, que pinçam frases fora do contexto. Os jornalistas defendem-se alegando subordinação a um regime de pressa, de corrida contra tempo e espaço, o que os faz incorrer em erros e distorções, raramente premeditados. Argumentam, a exemplo da Folha de S.Paulo (2010, p. 14), que este é "o preço a pagar para que a sociedade possa usufruir um valioso patrimônio público, a livre circulação de informações e ideias".
Os direitos das fontes
Inspirado no código de relacionamento das fontes com a mídia do Centro Nacional de Vítimas da Imprensa, com sede em Forth Worh, no Texas, EUA, o Instituto Gutenberg (1995) realizou uma pesquisa com 149 fontes de notícias no Brasil, entre banqueiros, empresários, administradores de empresa, comerciantes e profissionais liberais, que se acham no direito de recusar uma entrevista (94%), escolher um porta-voz (85%), indicar a hora e o local da entrevista (93%), recusar um determinado repórter (79%), desistir da entrevista marcada (55%) e decidir não ser fotografado (90%).
A referida pesquisa revela ainda que as fontes se rogam o direito de não responder questões que acharem impróprias ou desrespeitosas (81%), conhecer a pauta com antecedência (90%), mudar suas declarações (52%), ler suas declarações antes da publicação (86%), obter retificação (97%), processar por injúria, calúnia ou difamação (95%), expulsar jornalista por invasão de ambiente privado (92%), conhecer a identidade de quem o acusa (89%) e omitir os fatos (65%). Mas, em geral, os jornalistas não aceitam as condições das fontes, sendo que 93% nunca ou raramente concordam que vetem as perguntas antes da entrevista ou escolham o entrevistador; 83% não admitem a revisão do conteúdo antes de publicar, de acordo com Barber e Damas (2010), que pesquisaram durante quatro anos os dilemas éticos dos jornalistas de Madri.
A qualidade jornalística depende igualmente das fontes, quando fornecem informações personalizadas, corretas, precisas e de fácil entendimento. Duarte e Fonseca Júnior (2010) apontam, por outro lado, os erros mais comuns das fontes: querer ser notícia sempre, desconhecer a forma de atuação da imprensa, agendar eventos ou entrevista em horários incompatíveis com a produção jornalística, ser prolixo, conduzir a entrevista para assuntos irrelevantes, ser subjetivo, deixar perguntas sem respostas, demorar no retorno ao jornalista e pedir para ler o texto.
O direito de resposta
Mesmo quando a fonte se esmera e os erros persistem, ela pode exigir a retificação. Aliás, a revisão de uma informação incorreta configura-se em regra elementar do trabalho jornalístico. "A notícia pode ser desmentida, corrigida, completada... por pessoas implicadas, peritos, testemunhas, colegas" (Cornu, 1999, p. 84), porque as suas bases de certeza e a pretensão à verdade são frágeis. Afinal, não há veículo nem jornalista que não erra; os sérios e rigorosos distinguem-se dos outros ao reconhecerem os erros. Alguns veículos reservam um espaço para as correções, explicitando o equívoco cometido, e admitem o direito de resposta.
No Brasil, com a revogação da Lei de Imprensa pelo Supremo Tribunal Federal em 2009, as pessoas e organizações envolvidas ou mencionadas injustamente em matérias jornalísticas podem recorrer à legislação do Código Civil (2002), enquanto não se aprova o projeto da nova lei de imprensa, em tramitação desde 1995 no Congresso Nacional, que regulamenta, entre outros, o direito de resposta e o sigilo de fonte, cujo texto preliminar mantém praticamente os mesmos vícios e inconsistências da extinta lei.
A retificação está relacionada indiretamente ao direito de resposta. Indireta, porque não se vincula à verdade, mas à defesa de quem se sente atingido, ou seja, "o direito de alguém apresentar a sua própria versão dos fatos" (Cornu, 1999, p. 85). Dessa forma, o direito e a deontologia colidem. Raramente um jornalista perde um processo judicial, beneficiado pela presunção da convicção, lentidão da justiça e sua rápida prescrição. Quando a fonte ganha ou perde, torna-se antipática perante a categoria jornalística, e a publicação da sentença nunca é redigida nem editada seguindo as técnicas do jornalismo, mas num linguajar jurídico enfadonho para o público, agravado pelo retorno ao tema desagradável à fonte, e nada resolve junto à opinião pública nem restaura a sua credibilidade, sendo condenada ao ostracismo. Portanto, há "dúvidas sobre a eficácia de qualquer direito de resposta" (Nogueira, 1999, p. 43).
Sigilo de fonte
A regra básica da informação está na citação explícita da fonte, e o jornalista deve, primeiro, convencer o interlocutor a assumir o que diz. "Se esse esforço for inútil, a fonte pode obter a garantia do sigilo, mas sob a condição da confirmação das informações fornecidas" (Cornu, 1999, p. 87). Por isso, para O Globo, "informação não confirmada não merece publicação" (Garcia, 1996, p. 88), enquanto para O Estado de S. Paulo, se "o informante é da mais absoluta confiança", publica-se (Martins, 1997, p. 23). O sigilo protege explicitamente a fonte, ou seja, "o jornalista que recebe informações a título de confidencial é autorizado pela deontologia a servir-se delas, desde que se não revele a sua origem" (Cornu, 1999, p. 86).
Várias questões éticas envolvem a relação de jornalistas com as fontes sigilosas. O repórter deve proteger a identidade do informante? Até onde vai essa proteção? Como saber quando fontes inescrupulosas usam o sigilo para difamar, caluniar e espalhar boatos? Será que os repórteres utilizam o recurso de fontes sigilosas para dar suas próprias opiniões? Enfim, "é direito do jornalista resguardar o sigilo de fonte", contempla o código de ética dos jornalistas brasileiros (Fenaj, 2008). No Brasil, não há norma jurídica que imponha a quebra do sigilo. Ampara-se na Constituição Federal (Brasil, 2010), que resguarda "o sigilo de fonte, quando necessário ao exercício da profissão" (artigo 5º, inciso XIV). Entende-se que o jornalista, ao omitir a fonte, assume o que foi revelado por ela, respondendo civil e criminalmente.
Outra questão delicada é a relação de amizade e afetiva entre jornalistas e fontes, que pode provocar conflito de interesse. "Jornalista deve ser uma pessoa de poucos amigos", aconselha Noblat (2006, p. 126). O Globo considera o excesso de intimidade entre seus profissionais e as fontes uma armadilha: "passa-se com facilidade, sem perceber, da cordialidade para a cumplicidade" (Garcia, 1996, p. 11). Igualmente, a Folha de S.Paulo (2010, p. 28) recomenda "não alimentar uma excessiva intimidade com suas fontes".
Invasão de privacidade
O respeito à dignidade humana e a proteção à honra estão igualmente contemplados no direito civil e na deontologia dos jornalistas, prevalecendo as obrigações legais, embora conste da ética profissional com o propósito de "preservar os jornalistas dos rigores da lei" (Cornu, 1999, p. 92). Já o direito ou a invasão de privacidade "está no cerne dos códigos de deontologia da imprensa, em todo o mundo" (Cornu, 1999, p. 92) e trata da vida íntima, privada e pública. Na intimidade, o que acontece é velado e comunicável somente por iniciativa dos envolvidos. Na esfera privada compartilham-se os fatos e eventos com um número restrito de pessoas, logo, não são secretos, embora não se tenha a intenção de tornar público. Ao contrário da esfera pública, que, além de ser do conhecimento de todos, pode-se divulgar sem autorização.
Mesmo que esses três círculos sejam claros na teoria, torna-se complexa a sua delimitação na prática, variando conforme as pessoas e as circunstâncias. Em geral, os entendimentos de vida íntima e pública são consensuais. Mas quanto à privacidade, há opiniões, não consenso. Para alguns, quem se expõe em lugar público perde a privacidade; para outros, mesmo as aparições públicas são privadas, quando não ficar caracterizado um fato notório de interesse ou interferência pública. O Globo concebe que "cidadãos que têm vida pública perdem, por isso, pelo menos parte do direito à privacidade" (Garcia, 1996, p. 86).
Na hora de obter as informações, os procedimentos considerados ilícitos que geram maior conflito são: usar disfarce ou se identificar com outra profissão e não a de jornalista, utilizar microfone ou câmara oculta, gravar sem avisar e entrar em ambientes privados sem autorização. Para 42% dos jornalistas madrilenos podem-se usar excepcionalmente estes recursos, sendo que 5% aprovam e 53% reprovam, conforme Barber e Damas (2010, p. 79-80), ao verificar que "todos reconhecem ser um assunto muito delicado, mas que, em caso de denúncia pública, os fins justificam os meios".
"Reputação, credibilidade e sensibilidade"
Em geral, os veículos não admitem forjar documentos para a realização de reportagens, embora aprovem a falsa identidade. "Eventualmente, os profissionais serão autorizados a recorrer a situação ou nomes fictícios, desde que o artifício se destine à comprovação de ato ilícito" (Zero Hora, 1994, p. 16). O jornalista, investido de mediador, credencia-se "a estar onde o público não pode estar, e por isso pode obter as informações de que esse público (supostamente) necessita", observa Moretzsohn (2007, p. 146), lembrando que, pelo acesso ser obstruído, "o jornalista se acha no direito de utilizar outros procedimentos que não os convencionais para alcançar a informação, sempre aludindo ao argumento de que está agindo no interesse da sociedade".
As fontes queixam-se das perguntas impertinentes. "Repórteres, meu senhor, são pessoas que perguntam", frase atribuída ao repórter Acácio Ramos, por Dantas (1997, p. 9), e que "serviu de resposta a um figurão irritado com a insistência do repórter em perguntar". Noblat (2006, p. 71) lembra que "não há perguntas inconvenientes. Pode haver respostas inconvenientes". Trata-se de um processo elementar da entrevista jornalística, para "que a fonte diga mais do que estaria espontaneamente disposta a revelar" (Cornu, 1999, p. 273). Afinal, segundo Bucci (2000, p. 42), jornalismo é em si mesmo a realização de uma ética e não consiste em publicar ou não o que os outros querem esconder e, muitas vezes, "é descobrir segredos que não se quer divulgar". Estas questões estão relacionadas ao exercício da independência dos jornalistas e da confrontação de ideias. "É que sem confronto não há notícia, e a maioria das fontes e entrevistados não entende isso" (Barbeiro, 2008, p. 32).
Se o repórter é um "ser que pergunta", a fonte, um "ser que dá respostas". E "pode responder mentindo, omitindo, dissimulando, com raiva ou irritação, pode mesmo esquivar-se com um ’nada a declarar’, que, entretanto será sempre uma resposta" (Moretzsohn, 2007, p. 137). É da função do jornalista duvidar das respostas, o que pode variar conforme o tipo de fonte. Por exemplo, 27% dos jornalistas confiam nas respostas dos empresários, sendo que a confiança nos cientistas aumenta para 93%, já nos políticos cai para 11% e nos dirigentes esportivos para 8% (Barber e Damas, 2010). Busca-se, portanto, a fonte de qualidade, "aquela que acumula reputação, credibilidade e sensibilidade para o interesse público", idealiza Barbeiro (2008, p. 27).
À beira da promiscuidade
Max Weber (2004, p. 47), embora discordasse e reconhecesse a importância da profissão, observava em 1919 que "o jornalista pertence a uma espécie de párias que a sociedade julga a partir de seus representantes mais indecorosos". Desse ângulo, percebe-se que o relacionamento dos jornalistas com as fontes é marcado por algumas promiscuidades, acentuadas no jornalismo de economia e negócios, pelas suas relações com o poder econômico. Aliás, esse intercurso sucede-se desde os primórdios, quando o jornalista Ivy Lee começou a orientar empresários americanos no relacionamento com a imprensa, no início do século 20, fazendo o "jogo sujo. Sujou o jornalismo com o emprego duplo, a propina, os favores, os almoços, os brindes, as viagens" (Chaparro, 2001, p. 48).
As arrogâncias e chantagens encontram-se em ambos os lados. A começar pela demonstração de poder da profissão, em que alguns jornalistas utilizam o expediente do "carteiraço", como forma de obter vantagens pessoais, intimidar ou ameaçar as fontes, que se inquietam pela empáfia onisciente, a força de seus questionamentos, a informação a qualquer preço e o poder de tornar público a versão imprevisível de um fato ou evento. Das fontes vertem perfídias na ânsia de plantar notícias, releases mentirosos, querer somente divulgação favorável, barrar notícias, dar respostas evasivas, retaliar com corte de verba publicitária, esconder-se dos fatos como avestruz etc. (Barbeiro, 2008; Bueno, 2005).
Para dissolver essas inconveniências, ocorrem os assédios. Kucinski (2005) aponta uma série de práticas que depõem contra a ética no jornalismo, entre elas a aquisição de automóveis diretamente das montadoras. Aliás, os jornalistas que cobrem este setor recebem viagens, estadias e carros para testar por um longo período e, ao final das provas, podem adquirir o veículo por um preço bem abaixo da tabela. Às vezes, as viagens não são para as fábricas, mas para destinos turísticos onde sabidamente não está a indústria que convida. Nessas viagens as mordomias incluem passagens, estadias, almoços e jantares, passeios, brindes e agrados de todo tipo. Em geral, os meios de comunicação aceitam o custeio de viagens para acompanhar autoridades e fazer coberturas especiais. Alguns, como a Folha de S.Paulo (2010, p. 42), informam "que o jornalista teve suas despesas pagas pelo patrocinador".
Outros mimos são os brindes, presentes, descontos especiais, bem como ingressos para shows, peças de teatro e jogos esportivos concedidos a jornalistas para o seu entretenimento. Duarte e Fonseca Júnior (2010, p. 355) indicam cuidados: "a oferta de brindes pode ser simpática, mas as circunstâncias devem ser analisadas", e recomendam oferecer "algo da própria empresa, que não possa sugerir tentativa de cooptação". O jornal Zero Hora (1994, p. 14) recomenda que seus jornalistas paguem suas despesas, "desde que não configure um gesto deselegante ou resulte em constrangimento para quem formulou o convite".
Os prêmios reconhecem e estimulam a excelência dos trabalhos jornalísticos. Mas Christofoletti (2008, p. 112) questiona: "é certo fazer reportagens sobre determinados assuntos apenas para disputar prêmios de jornalismo?" Afinal, proliferam os prêmios que excitam "exatamente os jornalistas jovens mais ambiciosos a escreverem sobre os temas de interesse dos grandes grupos econômicos e frequentemente sobre a ótica desses grupos", alerta Kucinski (1996, p. 180), que considera isso uma das formas sutis de cooptar jornalistas. "Esses prêmios são fortes indutores da pauta jornalística e determinam a ocupação dos espaços a partir de interesses de empresários" (Kucinski, 2005, p. 60). Mas, segundo os veículos, como o jornal Zero Hora (1994, p. 19), "os prêmios devem ser mera consequência da qualidade do trabalho".
Os anunciantes e patrocinadores influenciam nos conteúdos editoriais, embora possam obter destaque pelo mérito de valor de notícia que portam. A propaganda submete o jornalismo às suas imposições, "obrigando-o a relativizar seu compromisso com a verdade e com o interesse público", destaca Marshall (2003, p.115). No entanto, os veículos sérios não atrelam o conteúdo editorial ao investimento publicitário. Mas, a pesquisa de Barber e Damas (2010), entre jornalistas de Madri, revela que para 87,5% a propaganda e o patrocínio têm bastante ou muita influência na editoria de economia, sendo que o percentual reduz para 55% na editoria de geral.
Do ponto de visa ético, considera-se condenável a prática do duplo emprego, trabalhando simultaneamente na imprensa e para outros tipos de organizações. Embora banido da grande imprensa, ainda persiste, como vestígio da extinta Lei de Imprensa (1967) e da regulamentação da profissão de jornalista (lei 972, de 1969), que admitem o acúmulo de emprego, acatado e defendido pelos jornalistas brasileiros. Mas para 66% dos jornalistas de Madri, segundo Barber e Damas (2010), isso é incompatível com a atividade nas redações. Alguns veículos, a exemplo de Zero Hora (1994), proíbem seus jornalistas de manter vínculo empregatício fora da empresa, e a Folha de S.Paulo (2010) admite, desde que em atividades acadêmicas, culturais e voluntárias.
O pagamento a jornalistas ou aos veículos para publicar notícias favoráveis configura-se uma prática inadmissível, conhecida como "jabaculê" ou "jabá", que tem raiz histórica no jeton, subsídio financeiro para a cobertura de eventos pelos repórteres, a quem eram fornecidas informações, como forma de cooptação, "quer pela exclusividade do acesso, quer por favores e privilégios que, de forma mais ou menos explícita, completavam seus salários" (Lage, 2001, p. 50), prática que vigorava desde o Estado Novo, do presidente Getúlio Vargas, que criou em 1939 o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), até meados do século 20. No entanto, o "jabá" perdura, principalmente nos pequenos veículos do interior, mas também na grande imprensa, disfarçado de "informe publicitário".
Aliás, as reportagens pagas constituem-se uma prática danosa ao jornalismo. Mesmo travestidas de "publieditorial", "mensagem publicitária, portanto paga, que tem a cara de reportagem, de matéria jornalística", traduz Bueno (2005, p. 74), ludibriam o público ao agregar a credibilidade do jornalismo a um anúncio publicitário, portanto, "à promiscuidade existente entre informação e propaganda" (Marshall, 2003, p. 41). Nesse caso, as questões éticas envolvem o anunciante e o veículo, que não se imunizam ao publicar, de forma imperceptível, expressões como "publieditorial", "informe publicitário", enquanto se recomenda uma nítida separação entre editorial e publicidade, afinal a "transparência e a ética não têm preço. O "publieditorial" caminha para ser o esgoto" do conluio entre a mídia e as fontes (Bueno, 2005, p. 76) e merece uma purgação.
Segundo Barber e Damas (2010, p. 87), para 90% dos jornalistas da capital espanhola, nunca se deve pedir compensações financeiras de fontes; para 9%, às vezes. Cerca de 80% acham inaceitável receber presentes de valor acima de 500 reais, enquanto 78% aceitam brindes promocionais, ingressos (76%), almoços ou jantares (66%) e viagens para acompanhar as fontes (63%). Os autores alertam que quem aceita estas vantagens são, predominantemente, jovens sem título universitário, aqueles que trabalham em portais na internet, produtores e auxiliares da redação, notadamente as mulheres.
Considerações finais
As relações humanas e organizacionais passam por uma redefinição de poderes na sociedade, com reflexos no jornalismo, por essência um espaço de confrontação de ideias, que adquire uma nova dimensão quando se trata de ética. Acirram-se ainda mais as forças antagônicas na defesa de ideários e interesses. De um lado estão as fontes, produzindo e oferecendo notícias genuínas, e, de outro, os jornalistas e sua convicção em relatar os fatos que reflitam a realidade.
As fontes agem proativamente nas suas interferências no espaço público, a mídia. Elevam a comunicação com seus públicos ao patamar estratégico. Seus propósitos estão vinculados à valorização de sua imagem e à consolidação de uma reputação ilibada. Para buscar credibilidade e admirabilidade de seus públicos – a propaganda não basta, por ser unilateral –, as fontes encontram no jornalismo, por ser polifônico, um espaço para legitimar os seus discursos.
Por outro lado, os jornalistas nivelam o ethos jornalístico à produtividade e à competitividade. Seus objetivos estão alinhados às metas das organizações jornalísticas e não respondem somente à sociedade, mas primordialmente ao público do seu veículo de comunicação. Sob a ótica funcional, um depende do outro, e ambos querem algo que o outro possui. A fonte tem a informação, que o jornalista pode transformar em notícia. Portanto, essa relação está imbricada num processo complexo, simultaneamente conflitante e conveniente a ambos.
Referências
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BLOG DA PETROBRAS. Fatos e Dados. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2009.
BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
CHAPARRO, Manuel Carlos. Linguagem dos conflitos. Coimbra: Minerva, 2001.
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CÓDIGO CIVIL. Lei nº 10406. Brasília: Diário Oficial da União, 11 jan. 2002.
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LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001.
MARTINS, Eduardo. Manual de redação e estilo. 3ª ed. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1997.
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MORETZSOHN, Sylvia. Pensando contra os fatos: jornalismo e cotidiano, do senso comum ao senso crítico. Rio de Janeiro: Revan, 2007.
NOBLAT, Ricardo. A arte de fazer um jornal diário. 6ª ed. São Paulo: Contexto, 2006.
NOGUEIRA, Nemércio. Media training: melhorando as relações da empresa com os jornalistas. São Paulo: Cultura Editores, 1999.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. 15ª ed. São Paulo: Cultrix, 2004.
ZERO HORA. Manual de ética, redação e estilo. Porto Alegre: L&PM, 1994.
Publicado originalmente na revista Intexto nº 23, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, p.170-181, 2010
"Quando o outro entra em cena, nasce a ética" (Umberto Eco)
O jornalismo vale-se dos conflitos, da diversidade de ideias, da variedade de opiniões, da multiplicidade de interesses e da complexidade das relações humanas, atributos protagonizados pelas fontes jornalísticas e percebidos pelo público pela notoriedade, surpresa, utilidade, dramaticidade, pelo suspense, conhecimento e inusitado. Pois as "interações do jornalista com a fonte envolvem conflitos e acordos inevitáveis, porque a interlocução é viva, interessada" (Chaparro, 2001, p. 43).
As fontes empresariais e institucionais, principalmente, primam pela precisão técnica, pelo rigor dos dados, pela narrativa unilateral e evitam notícias sobre discussões em curso. Segundo Christofoletti (2008, p. 48), "a fonte acredita que sua versão não será distorcida ou pervertida. O profissional crê que as falas de seu entrevistado estão próximas do que efetivamente ocorreu" e torna público o momento transitório para que a sociedade interfira no debate.
No afã de fazer revelações de impacto, a mídia atropela alguns limites, em nome de um suposto interesse público, que ela mesma estabelece. Sobrepõe direitos, imagem e reputação, sem resguardar a idoneidade das organizações, ainda que "a liberdade de imprensa e o dever de informação do público não autorizam tudo" (Cornu, 1999, p. 83). Por conta disso, as fontes assumem uma posição de cautela e tentam reagir.
Corrida contra tempo e espaço
As suas reações podem parecer equivocadas, surpreendendo o processo tradicional de apuração, como ocorreu no Blog da Petrobras (2009), Fatos e Dados, ao postar as perguntas dos repórteres e as respostas da estatal, antes da veiculação pela imprensa, o que se considerou "vazamento" de informações obtidas pelos jornalistas e quebra de confiabilidade. Essa estratégia foi inicialmente adotada em 2002, nos Estados Unidos (EUA), em que o Ministério da Defesa publicava todas as entrevistas importantes do secretário Donald Rumsfeld no blog DefenseLink, antes da veiculação na imprensa (Gillmor, 2005, p. 78).
As fontes defendem a liberdade de expressão e de imprensa, mas ainda não assimilam nem aprenderam a conviver com o jornalismo crítico e investigativo. Cornu (1999) lembra que os jornalistas desempenham um papel cívico, mas nem sempre as investigações são transparentes perante o público, tampouco para as fontes. Os jornalistas utilizam um recurso de linguagem, notadamente o futuro do pretérito, como condicional – suposto, envolvido –, para indicar incerteza, se proteger e expor pessoas. O público assimila essa suposição como fato consumado.
Em geral, as fontes reclamam que os repórteres deturpam as suas declarações e os fatos, que pinçam frases fora do contexto. Os jornalistas defendem-se alegando subordinação a um regime de pressa, de corrida contra tempo e espaço, o que os faz incorrer em erros e distorções, raramente premeditados. Argumentam, a exemplo da Folha de S.Paulo (2010, p. 14), que este é "o preço a pagar para que a sociedade possa usufruir um valioso patrimônio público, a livre circulação de informações e ideias".
Os direitos das fontes
Inspirado no código de relacionamento das fontes com a mídia do Centro Nacional de Vítimas da Imprensa, com sede em Forth Worh, no Texas, EUA, o Instituto Gutenberg (1995) realizou uma pesquisa com 149 fontes de notícias no Brasil, entre banqueiros, empresários, administradores de empresa, comerciantes e profissionais liberais, que se acham no direito de recusar uma entrevista (94%), escolher um porta-voz (85%), indicar a hora e o local da entrevista (93%), recusar um determinado repórter (79%), desistir da entrevista marcada (55%) e decidir não ser fotografado (90%).
A referida pesquisa revela ainda que as fontes se rogam o direito de não responder questões que acharem impróprias ou desrespeitosas (81%), conhecer a pauta com antecedência (90%), mudar suas declarações (52%), ler suas declarações antes da publicação (86%), obter retificação (97%), processar por injúria, calúnia ou difamação (95%), expulsar jornalista por invasão de ambiente privado (92%), conhecer a identidade de quem o acusa (89%) e omitir os fatos (65%). Mas, em geral, os jornalistas não aceitam as condições das fontes, sendo que 93% nunca ou raramente concordam que vetem as perguntas antes da entrevista ou escolham o entrevistador; 83% não admitem a revisão do conteúdo antes de publicar, de acordo com Barber e Damas (2010), que pesquisaram durante quatro anos os dilemas éticos dos jornalistas de Madri.
A qualidade jornalística depende igualmente das fontes, quando fornecem informações personalizadas, corretas, precisas e de fácil entendimento. Duarte e Fonseca Júnior (2010) apontam, por outro lado, os erros mais comuns das fontes: querer ser notícia sempre, desconhecer a forma de atuação da imprensa, agendar eventos ou entrevista em horários incompatíveis com a produção jornalística, ser prolixo, conduzir a entrevista para assuntos irrelevantes, ser subjetivo, deixar perguntas sem respostas, demorar no retorno ao jornalista e pedir para ler o texto.
O direito de resposta
Mesmo quando a fonte se esmera e os erros persistem, ela pode exigir a retificação. Aliás, a revisão de uma informação incorreta configura-se em regra elementar do trabalho jornalístico. "A notícia pode ser desmentida, corrigida, completada... por pessoas implicadas, peritos, testemunhas, colegas" (Cornu, 1999, p. 84), porque as suas bases de certeza e a pretensão à verdade são frágeis. Afinal, não há veículo nem jornalista que não erra; os sérios e rigorosos distinguem-se dos outros ao reconhecerem os erros. Alguns veículos reservam um espaço para as correções, explicitando o equívoco cometido, e admitem o direito de resposta.
No Brasil, com a revogação da Lei de Imprensa pelo Supremo Tribunal Federal em 2009, as pessoas e organizações envolvidas ou mencionadas injustamente em matérias jornalísticas podem recorrer à legislação do Código Civil (2002), enquanto não se aprova o projeto da nova lei de imprensa, em tramitação desde 1995 no Congresso Nacional, que regulamenta, entre outros, o direito de resposta e o sigilo de fonte, cujo texto preliminar mantém praticamente os mesmos vícios e inconsistências da extinta lei.
A retificação está relacionada indiretamente ao direito de resposta. Indireta, porque não se vincula à verdade, mas à defesa de quem se sente atingido, ou seja, "o direito de alguém apresentar a sua própria versão dos fatos" (Cornu, 1999, p. 85). Dessa forma, o direito e a deontologia colidem. Raramente um jornalista perde um processo judicial, beneficiado pela presunção da convicção, lentidão da justiça e sua rápida prescrição. Quando a fonte ganha ou perde, torna-se antipática perante a categoria jornalística, e a publicação da sentença nunca é redigida nem editada seguindo as técnicas do jornalismo, mas num linguajar jurídico enfadonho para o público, agravado pelo retorno ao tema desagradável à fonte, e nada resolve junto à opinião pública nem restaura a sua credibilidade, sendo condenada ao ostracismo. Portanto, há "dúvidas sobre a eficácia de qualquer direito de resposta" (Nogueira, 1999, p. 43).
Sigilo de fonte
A regra básica da informação está na citação explícita da fonte, e o jornalista deve, primeiro, convencer o interlocutor a assumir o que diz. "Se esse esforço for inútil, a fonte pode obter a garantia do sigilo, mas sob a condição da confirmação das informações fornecidas" (Cornu, 1999, p. 87). Por isso, para O Globo, "informação não confirmada não merece publicação" (Garcia, 1996, p. 88), enquanto para O Estado de S. Paulo, se "o informante é da mais absoluta confiança", publica-se (Martins, 1997, p. 23). O sigilo protege explicitamente a fonte, ou seja, "o jornalista que recebe informações a título de confidencial é autorizado pela deontologia a servir-se delas, desde que se não revele a sua origem" (Cornu, 1999, p. 86).
Várias questões éticas envolvem a relação de jornalistas com as fontes sigilosas. O repórter deve proteger a identidade do informante? Até onde vai essa proteção? Como saber quando fontes inescrupulosas usam o sigilo para difamar, caluniar e espalhar boatos? Será que os repórteres utilizam o recurso de fontes sigilosas para dar suas próprias opiniões? Enfim, "é direito do jornalista resguardar o sigilo de fonte", contempla o código de ética dos jornalistas brasileiros (Fenaj, 2008). No Brasil, não há norma jurídica que imponha a quebra do sigilo. Ampara-se na Constituição Federal (Brasil, 2010), que resguarda "o sigilo de fonte, quando necessário ao exercício da profissão" (artigo 5º, inciso XIV). Entende-se que o jornalista, ao omitir a fonte, assume o que foi revelado por ela, respondendo civil e criminalmente.
Outra questão delicada é a relação de amizade e afetiva entre jornalistas e fontes, que pode provocar conflito de interesse. "Jornalista deve ser uma pessoa de poucos amigos", aconselha Noblat (2006, p. 126). O Globo considera o excesso de intimidade entre seus profissionais e as fontes uma armadilha: "passa-se com facilidade, sem perceber, da cordialidade para a cumplicidade" (Garcia, 1996, p. 11). Igualmente, a Folha de S.Paulo (2010, p. 28) recomenda "não alimentar uma excessiva intimidade com suas fontes".
Invasão de privacidade
O respeito à dignidade humana e a proteção à honra estão igualmente contemplados no direito civil e na deontologia dos jornalistas, prevalecendo as obrigações legais, embora conste da ética profissional com o propósito de "preservar os jornalistas dos rigores da lei" (Cornu, 1999, p. 92). Já o direito ou a invasão de privacidade "está no cerne dos códigos de deontologia da imprensa, em todo o mundo" (Cornu, 1999, p. 92) e trata da vida íntima, privada e pública. Na intimidade, o que acontece é velado e comunicável somente por iniciativa dos envolvidos. Na esfera privada compartilham-se os fatos e eventos com um número restrito de pessoas, logo, não são secretos, embora não se tenha a intenção de tornar público. Ao contrário da esfera pública, que, além de ser do conhecimento de todos, pode-se divulgar sem autorização.
Mesmo que esses três círculos sejam claros na teoria, torna-se complexa a sua delimitação na prática, variando conforme as pessoas e as circunstâncias. Em geral, os entendimentos de vida íntima e pública são consensuais. Mas quanto à privacidade, há opiniões, não consenso. Para alguns, quem se expõe em lugar público perde a privacidade; para outros, mesmo as aparições públicas são privadas, quando não ficar caracterizado um fato notório de interesse ou interferência pública. O Globo concebe que "cidadãos que têm vida pública perdem, por isso, pelo menos parte do direito à privacidade" (Garcia, 1996, p. 86).
Na hora de obter as informações, os procedimentos considerados ilícitos que geram maior conflito são: usar disfarce ou se identificar com outra profissão e não a de jornalista, utilizar microfone ou câmara oculta, gravar sem avisar e entrar em ambientes privados sem autorização. Para 42% dos jornalistas madrilenos podem-se usar excepcionalmente estes recursos, sendo que 5% aprovam e 53% reprovam, conforme Barber e Damas (2010, p. 79-80), ao verificar que "todos reconhecem ser um assunto muito delicado, mas que, em caso de denúncia pública, os fins justificam os meios".
"Reputação, credibilidade e sensibilidade"
Em geral, os veículos não admitem forjar documentos para a realização de reportagens, embora aprovem a falsa identidade. "Eventualmente, os profissionais serão autorizados a recorrer a situação ou nomes fictícios, desde que o artifício se destine à comprovação de ato ilícito" (Zero Hora, 1994, p. 16). O jornalista, investido de mediador, credencia-se "a estar onde o público não pode estar, e por isso pode obter as informações de que esse público (supostamente) necessita", observa Moretzsohn (2007, p. 146), lembrando que, pelo acesso ser obstruído, "o jornalista se acha no direito de utilizar outros procedimentos que não os convencionais para alcançar a informação, sempre aludindo ao argumento de que está agindo no interesse da sociedade".
As fontes queixam-se das perguntas impertinentes. "Repórteres, meu senhor, são pessoas que perguntam", frase atribuída ao repórter Acácio Ramos, por Dantas (1997, p. 9), e que "serviu de resposta a um figurão irritado com a insistência do repórter em perguntar". Noblat (2006, p. 71) lembra que "não há perguntas inconvenientes. Pode haver respostas inconvenientes". Trata-se de um processo elementar da entrevista jornalística, para "que a fonte diga mais do que estaria espontaneamente disposta a revelar" (Cornu, 1999, p. 273). Afinal, segundo Bucci (2000, p. 42), jornalismo é em si mesmo a realização de uma ética e não consiste em publicar ou não o que os outros querem esconder e, muitas vezes, "é descobrir segredos que não se quer divulgar". Estas questões estão relacionadas ao exercício da independência dos jornalistas e da confrontação de ideias. "É que sem confronto não há notícia, e a maioria das fontes e entrevistados não entende isso" (Barbeiro, 2008, p. 32).
Se o repórter é um "ser que pergunta", a fonte, um "ser que dá respostas". E "pode responder mentindo, omitindo, dissimulando, com raiva ou irritação, pode mesmo esquivar-se com um ’nada a declarar’, que, entretanto será sempre uma resposta" (Moretzsohn, 2007, p. 137). É da função do jornalista duvidar das respostas, o que pode variar conforme o tipo de fonte. Por exemplo, 27% dos jornalistas confiam nas respostas dos empresários, sendo que a confiança nos cientistas aumenta para 93%, já nos políticos cai para 11% e nos dirigentes esportivos para 8% (Barber e Damas, 2010). Busca-se, portanto, a fonte de qualidade, "aquela que acumula reputação, credibilidade e sensibilidade para o interesse público", idealiza Barbeiro (2008, p. 27).
À beira da promiscuidade
Max Weber (2004, p. 47), embora discordasse e reconhecesse a importância da profissão, observava em 1919 que "o jornalista pertence a uma espécie de párias que a sociedade julga a partir de seus representantes mais indecorosos". Desse ângulo, percebe-se que o relacionamento dos jornalistas com as fontes é marcado por algumas promiscuidades, acentuadas no jornalismo de economia e negócios, pelas suas relações com o poder econômico. Aliás, esse intercurso sucede-se desde os primórdios, quando o jornalista Ivy Lee começou a orientar empresários americanos no relacionamento com a imprensa, no início do século 20, fazendo o "jogo sujo. Sujou o jornalismo com o emprego duplo, a propina, os favores, os almoços, os brindes, as viagens" (Chaparro, 2001, p. 48).
As arrogâncias e chantagens encontram-se em ambos os lados. A começar pela demonstração de poder da profissão, em que alguns jornalistas utilizam o expediente do "carteiraço", como forma de obter vantagens pessoais, intimidar ou ameaçar as fontes, que se inquietam pela empáfia onisciente, a força de seus questionamentos, a informação a qualquer preço e o poder de tornar público a versão imprevisível de um fato ou evento. Das fontes vertem perfídias na ânsia de plantar notícias, releases mentirosos, querer somente divulgação favorável, barrar notícias, dar respostas evasivas, retaliar com corte de verba publicitária, esconder-se dos fatos como avestruz etc. (Barbeiro, 2008; Bueno, 2005).
Para dissolver essas inconveniências, ocorrem os assédios. Kucinski (2005) aponta uma série de práticas que depõem contra a ética no jornalismo, entre elas a aquisição de automóveis diretamente das montadoras. Aliás, os jornalistas que cobrem este setor recebem viagens, estadias e carros para testar por um longo período e, ao final das provas, podem adquirir o veículo por um preço bem abaixo da tabela. Às vezes, as viagens não são para as fábricas, mas para destinos turísticos onde sabidamente não está a indústria que convida. Nessas viagens as mordomias incluem passagens, estadias, almoços e jantares, passeios, brindes e agrados de todo tipo. Em geral, os meios de comunicação aceitam o custeio de viagens para acompanhar autoridades e fazer coberturas especiais. Alguns, como a Folha de S.Paulo (2010, p. 42), informam "que o jornalista teve suas despesas pagas pelo patrocinador".
Outros mimos são os brindes, presentes, descontos especiais, bem como ingressos para shows, peças de teatro e jogos esportivos concedidos a jornalistas para o seu entretenimento. Duarte e Fonseca Júnior (2010, p. 355) indicam cuidados: "a oferta de brindes pode ser simpática, mas as circunstâncias devem ser analisadas", e recomendam oferecer "algo da própria empresa, que não possa sugerir tentativa de cooptação". O jornal Zero Hora (1994, p. 14) recomenda que seus jornalistas paguem suas despesas, "desde que não configure um gesto deselegante ou resulte em constrangimento para quem formulou o convite".
Os prêmios reconhecem e estimulam a excelência dos trabalhos jornalísticos. Mas Christofoletti (2008, p. 112) questiona: "é certo fazer reportagens sobre determinados assuntos apenas para disputar prêmios de jornalismo?" Afinal, proliferam os prêmios que excitam "exatamente os jornalistas jovens mais ambiciosos a escreverem sobre os temas de interesse dos grandes grupos econômicos e frequentemente sobre a ótica desses grupos", alerta Kucinski (1996, p. 180), que considera isso uma das formas sutis de cooptar jornalistas. "Esses prêmios são fortes indutores da pauta jornalística e determinam a ocupação dos espaços a partir de interesses de empresários" (Kucinski, 2005, p. 60). Mas, segundo os veículos, como o jornal Zero Hora (1994, p. 19), "os prêmios devem ser mera consequência da qualidade do trabalho".
Os anunciantes e patrocinadores influenciam nos conteúdos editoriais, embora possam obter destaque pelo mérito de valor de notícia que portam. A propaganda submete o jornalismo às suas imposições, "obrigando-o a relativizar seu compromisso com a verdade e com o interesse público", destaca Marshall (2003, p.115). No entanto, os veículos sérios não atrelam o conteúdo editorial ao investimento publicitário. Mas, a pesquisa de Barber e Damas (2010), entre jornalistas de Madri, revela que para 87,5% a propaganda e o patrocínio têm bastante ou muita influência na editoria de economia, sendo que o percentual reduz para 55% na editoria de geral.
Do ponto de visa ético, considera-se condenável a prática do duplo emprego, trabalhando simultaneamente na imprensa e para outros tipos de organizações. Embora banido da grande imprensa, ainda persiste, como vestígio da extinta Lei de Imprensa (1967) e da regulamentação da profissão de jornalista (lei 972, de 1969), que admitem o acúmulo de emprego, acatado e defendido pelos jornalistas brasileiros. Mas para 66% dos jornalistas de Madri, segundo Barber e Damas (2010), isso é incompatível com a atividade nas redações. Alguns veículos, a exemplo de Zero Hora (1994), proíbem seus jornalistas de manter vínculo empregatício fora da empresa, e a Folha de S.Paulo (2010) admite, desde que em atividades acadêmicas, culturais e voluntárias.
O pagamento a jornalistas ou aos veículos para publicar notícias favoráveis configura-se uma prática inadmissível, conhecida como "jabaculê" ou "jabá", que tem raiz histórica no jeton, subsídio financeiro para a cobertura de eventos pelos repórteres, a quem eram fornecidas informações, como forma de cooptação, "quer pela exclusividade do acesso, quer por favores e privilégios que, de forma mais ou menos explícita, completavam seus salários" (Lage, 2001, p. 50), prática que vigorava desde o Estado Novo, do presidente Getúlio Vargas, que criou em 1939 o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), até meados do século 20. No entanto, o "jabá" perdura, principalmente nos pequenos veículos do interior, mas também na grande imprensa, disfarçado de "informe publicitário".
Aliás, as reportagens pagas constituem-se uma prática danosa ao jornalismo. Mesmo travestidas de "publieditorial", "mensagem publicitária, portanto paga, que tem a cara de reportagem, de matéria jornalística", traduz Bueno (2005, p. 74), ludibriam o público ao agregar a credibilidade do jornalismo a um anúncio publicitário, portanto, "à promiscuidade existente entre informação e propaganda" (Marshall, 2003, p. 41). Nesse caso, as questões éticas envolvem o anunciante e o veículo, que não se imunizam ao publicar, de forma imperceptível, expressões como "publieditorial", "informe publicitário", enquanto se recomenda uma nítida separação entre editorial e publicidade, afinal a "transparência e a ética não têm preço. O "publieditorial" caminha para ser o esgoto" do conluio entre a mídia e as fontes (Bueno, 2005, p. 76) e merece uma purgação.
Segundo Barber e Damas (2010, p. 87), para 90% dos jornalistas da capital espanhola, nunca se deve pedir compensações financeiras de fontes; para 9%, às vezes. Cerca de 80% acham inaceitável receber presentes de valor acima de 500 reais, enquanto 78% aceitam brindes promocionais, ingressos (76%), almoços ou jantares (66%) e viagens para acompanhar as fontes (63%). Os autores alertam que quem aceita estas vantagens são, predominantemente, jovens sem título universitário, aqueles que trabalham em portais na internet, produtores e auxiliares da redação, notadamente as mulheres.
Considerações finais
As relações humanas e organizacionais passam por uma redefinição de poderes na sociedade, com reflexos no jornalismo, por essência um espaço de confrontação de ideias, que adquire uma nova dimensão quando se trata de ética. Acirram-se ainda mais as forças antagônicas na defesa de ideários e interesses. De um lado estão as fontes, produzindo e oferecendo notícias genuínas, e, de outro, os jornalistas e sua convicção em relatar os fatos que reflitam a realidade.
As fontes agem proativamente nas suas interferências no espaço público, a mídia. Elevam a comunicação com seus públicos ao patamar estratégico. Seus propósitos estão vinculados à valorização de sua imagem e à consolidação de uma reputação ilibada. Para buscar credibilidade e admirabilidade de seus públicos – a propaganda não basta, por ser unilateral –, as fontes encontram no jornalismo, por ser polifônico, um espaço para legitimar os seus discursos.
Por outro lado, os jornalistas nivelam o ethos jornalístico à produtividade e à competitividade. Seus objetivos estão alinhados às metas das organizações jornalísticas e não respondem somente à sociedade, mas primordialmente ao público do seu veículo de comunicação. Sob a ótica funcional, um depende do outro, e ambos querem algo que o outro possui. A fonte tem a informação, que o jornalista pode transformar em notícia. Portanto, essa relação está imbricada num processo complexo, simultaneamente conflitante e conveniente a ambos.
Referências
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BUENO, Wilson da Costa. Comunicação empresarial no Brasil: uma leitura crítica. São Paulo: All Print, 2005.
BLOG DA PETROBRAS. Fatos e Dados. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2009.
BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
CHAPARRO, Manuel Carlos. Linguagem dos conflitos. Coimbra: Minerva, 2001.
CHRISTOFOLETTI, Rogério. Ética no jornalismo. São Paulo: Contexto, 2008.
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DUARTE, Jorge; FONSECA JÚNIOR, Wilson C. "Relacionamento fonte/jornalista". In: DUARTE, Jorge (Org.). Assessoria de imprensa e relacionamento com a mídia. São Paulo: Atlas, 2010, p. 345-359.
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FOLHA DE S. PAULO. Manual da redação. São Paulo: Publifolha, 2010.
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
mídia e poder - Agregadores de notícias devem pagar direitos autorais, diz projeto da AP
Redação Portal IMPRENSA
Um projeto da agência de notícias Associated Press (AP) propõe que os serviços de agregadores de notícias comecem a pagar direitos autorais às empresas jornalísticas pelo conteúdo. As ferramentas, conhecidas como crawlers, realizam uma pesquisa na internet em busca de informações sobre um determinado assunto.
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o vice-presidente da AP, Srinandan Kasi, afirmou que a agência não quer "acabar com os serviços agregadores, mas apenas dividir receitas". "No mundo digital, a cópia secundária, que passa pelos agregadores, compete com a fonte primária do conteúdo", disse Kasi.
Atualmente, agregadores de notícias, como os "Alertas" do Google, movimentam cerca de US$ 500 milhões distribuindo conteúdo de terceiros, sem pagamento aos autores. O projeto da AP - que pretende ser lançado em julho de 2011 - prevê, ainda, a criação de uma entidade independente, que funcionaria como uma câmara de compensação, para recolher direitos autorais.
Na última semana, a Justiça britânica determinou que as empresas de clipping de notícias paguem direitos autorais a veículos de comunicação, usados para monitoramento de conteúdo digital pago. A decisão foi tomada depois que a Newspaper Licensing Agency (NLA) - que representa oito grandes publicações do Reino Unido - moveu ação contra a empresa de relações públicas Meltwater.
Além dos agregadores de notícias, o projeto da AP atinge as empresas de relações públicas realizam clipping, e alguns blogs. "Vamos focar nos grandes, que não acrescentam nada em termos de comentário ou valor", declarou o vice-presidente da agência.
A agência de notícias também pretende vender serviço de agregação de notícias, e vê como clientes em potencial as empresas que já realizam esse tipo de trabalho. A nova entidade cobraria pela produção de conteúdo sobre hábitos de consumo de notícia de usuários individuais, e, segundo Kasi, teria a capacidade de "oferecer um serviço superior, com mais valor agregado, incluindo conteúdo de arquivo, multimídia, entre outros, usando o conteúdo produzido por todos os integrantes da câmara de compensação".
Um projeto da agência de notícias Associated Press (AP) propõe que os serviços de agregadores de notícias comecem a pagar direitos autorais às empresas jornalísticas pelo conteúdo. As ferramentas, conhecidas como crawlers, realizam uma pesquisa na internet em busca de informações sobre um determinado assunto.
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o vice-presidente da AP, Srinandan Kasi, afirmou que a agência não quer "acabar com os serviços agregadores, mas apenas dividir receitas". "No mundo digital, a cópia secundária, que passa pelos agregadores, compete com a fonte primária do conteúdo", disse Kasi.
Atualmente, agregadores de notícias, como os "Alertas" do Google, movimentam cerca de US$ 500 milhões distribuindo conteúdo de terceiros, sem pagamento aos autores. O projeto da AP - que pretende ser lançado em julho de 2011 - prevê, ainda, a criação de uma entidade independente, que funcionaria como uma câmara de compensação, para recolher direitos autorais.
Na última semana, a Justiça britânica determinou que as empresas de clipping de notícias paguem direitos autorais a veículos de comunicação, usados para monitoramento de conteúdo digital pago. A decisão foi tomada depois que a Newspaper Licensing Agency (NLA) - que representa oito grandes publicações do Reino Unido - moveu ação contra a empresa de relações públicas Meltwater.
Além dos agregadores de notícias, o projeto da AP atinge as empresas de relações públicas realizam clipping, e alguns blogs. "Vamos focar nos grandes, que não acrescentam nada em termos de comentário ou valor", declarou o vice-presidente da agência.
A agência de notícias também pretende vender serviço de agregação de notícias, e vê como clientes em potencial as empresas que já realizam esse tipo de trabalho. A nova entidade cobraria pela produção de conteúdo sobre hábitos de consumo de notícia de usuários individuais, e, segundo Kasi, teria a capacidade de "oferecer um serviço superior, com mais valor agregado, incluindo conteúdo de arquivo, multimídia, entre outros, usando o conteúdo produzido por todos os integrantes da câmara de compensação".
MÍDIA E PODER - Pão e jornal - Lúcia Guimarães
– O Estado de S.Paulo
Um magnata, dono de dezenas de jornais e obcecado por vendas, diz, orgulhoso:
“Sou um daqueles que não precisam de um país ou um hino nacional, coisas assim.” Não, não estamos falando do australiano Rupert Murdoch, o magnata que está nas manchetes porque um de seus tabloides grampeou os telefones de membros da família real, políticos e celebridades britânicas.
Estamos na Londres de 1908, onde o dito magnata não sabe soletrar compunção, mas sabe calcular as manchetes alarmantes que espalham medo da guerra entre seus milhões de leitores. A ação se passa no palco de um minúsculo teatro off-Broadway, no terceiro andar de um prédio cinzento em Manhattan.
O Mint Theater é uma companhia especializada em arqueologia dramática. Resgata peças esquecidas como What The Public Wants (O Que o Público Quer) e deixa a plateia com a estranha sensação de que, quanto mais as coisas mudam, mais ficam como estão.
A peça foi um sucesso extraordinário há um século e passou quase dois anos em cartaz. O autor, Arnold Bennett, conhecia bem seu métier. Começara a carreira na redação do jornal The Woman (A Mulher), uma publicação aquém de suas ambições literárias.
O Que o Público Quer foi inspirada no magnata Alfred Harmsworth, cujo sobrenome ele viria a justificar. Harm em inglês quer dizer ferir e worth, valor. Ele era o mais influente empresário da imprensa britânica no começo do século 20, dono de inúmeros jornais pequenos e grandes, como o Times e o Daily Mail. Seu poder de fogo era de tal ordem que, numa tentativa de assassinato, navios alemães bombardearam sua residência durante a 1ª Guerra. Harmsworth saiu da infância pobre para o colo da nobreza, ungido com o título de Visconde de Northcliffe. O filho plebeu do Visconde é o estilo do jornalismo sensacionalista inventado por seus tabloides. Os jornais deste Cidadão Kane vitoriano derrubavam governos e assassinavam reputações.
A peça de Bennett serviu de espelho tão claro para a sociedade da época que, numa votação do jornal Manchester Guardian, ele foi apontado entre um punhado de autores influentes que seria relevante cem anos depois. Infelizmente não foi o autor e sim a trama que sobreviveu e desenvolveu resistência à penicilina da democracia. O magnata da peça se considera o verdadeiro democrata porque se interpõe entre os malignos intelectuais e as massas inocentes. Seu escárnio constante contra o que chama de gente de cultura parece ter saído de uma biografia de Rupert Murdoch e revela o mesmo recalque do australiano contra a rejeição sofrida na estratificada sociedade inglesa.
Na peça de Bennett, o personagem inspirado em Harmsworth se gaba de saber com precisão o que espera o leitor de cada classe social. E vê sua dieta de obscurantismo populista como militância libertária contra a opressão da elite bem-educada.
Seu mais importante crítico de teatro exige uma correção porque o copidesque vulgarizou a linguagem de seu texto. Diante da recusa, o crítico pede demissão. A cena escrita com um tom de farsa desenrola-se no presente como uma interação jurássica. Um crítico nova-iorquino, ao escrever a resenha da peça, em janeiro, se sentiu compelido a explicar aos leitores o significado de “jornalismo marrom”.
No último ato, o irmão do magnata – o intelectual que insiste em ter consciência – se despede dele com um conselho.
“Você continue dando ao público o que ele quer. É sua missão na vida. Mas se prepare para quando chegar o dia chuvoso.”
“Que dia chuvoso?”
“O dia em que o público quiser algo melhor do que você pode dar.”
Lembrei desse diálogo final ao ter a rotina virada ao avesso pela necessidade de acompanhar a violenta crise no Egito. Com o crescimento exponencial das fontes de informação, a pergunta não é mais o que o público quer, mas como encontrar a agulha desejada no palheiro de ofertas. O romancista David Foster Wallace, morto prematuramente em 2008, observou que “há 4 trilhões de bits de informação vindo em nossa direção, 99% é merda e dá trabalho demais fazer a triagem e decidir. É claro que vai haver um nicho econômico para os que filtrarem a passagem da informação. Senão, nós vamos passar 95% do nosso tempo surfando no mar de merda.”
Não tenho números para provar, mas suspeito que os acontecimentos do Egito deram mais audiência aos meios de comunicação que nos protegeram do catinguento esporte previsto pelo romancista
Um magnata, dono de dezenas de jornais e obcecado por vendas, diz, orgulhoso:
“Sou um daqueles que não precisam de um país ou um hino nacional, coisas assim.” Não, não estamos falando do australiano Rupert Murdoch, o magnata que está nas manchetes porque um de seus tabloides grampeou os telefones de membros da família real, políticos e celebridades britânicas.
Estamos na Londres de 1908, onde o dito magnata não sabe soletrar compunção, mas sabe calcular as manchetes alarmantes que espalham medo da guerra entre seus milhões de leitores. A ação se passa no palco de um minúsculo teatro off-Broadway, no terceiro andar de um prédio cinzento em Manhattan.
O Mint Theater é uma companhia especializada em arqueologia dramática. Resgata peças esquecidas como What The Public Wants (O Que o Público Quer) e deixa a plateia com a estranha sensação de que, quanto mais as coisas mudam, mais ficam como estão.
A peça foi um sucesso extraordinário há um século e passou quase dois anos em cartaz. O autor, Arnold Bennett, conhecia bem seu métier. Começara a carreira na redação do jornal The Woman (A Mulher), uma publicação aquém de suas ambições literárias.
O Que o Público Quer foi inspirada no magnata Alfred Harmsworth, cujo sobrenome ele viria a justificar. Harm em inglês quer dizer ferir e worth, valor. Ele era o mais influente empresário da imprensa britânica no começo do século 20, dono de inúmeros jornais pequenos e grandes, como o Times e o Daily Mail. Seu poder de fogo era de tal ordem que, numa tentativa de assassinato, navios alemães bombardearam sua residência durante a 1ª Guerra. Harmsworth saiu da infância pobre para o colo da nobreza, ungido com o título de Visconde de Northcliffe. O filho plebeu do Visconde é o estilo do jornalismo sensacionalista inventado por seus tabloides. Os jornais deste Cidadão Kane vitoriano derrubavam governos e assassinavam reputações.
A peça de Bennett serviu de espelho tão claro para a sociedade da época que, numa votação do jornal Manchester Guardian, ele foi apontado entre um punhado de autores influentes que seria relevante cem anos depois. Infelizmente não foi o autor e sim a trama que sobreviveu e desenvolveu resistência à penicilina da democracia. O magnata da peça se considera o verdadeiro democrata porque se interpõe entre os malignos intelectuais e as massas inocentes. Seu escárnio constante contra o que chama de gente de cultura parece ter saído de uma biografia de Rupert Murdoch e revela o mesmo recalque do australiano contra a rejeição sofrida na estratificada sociedade inglesa.
Na peça de Bennett, o personagem inspirado em Harmsworth se gaba de saber com precisão o que espera o leitor de cada classe social. E vê sua dieta de obscurantismo populista como militância libertária contra a opressão da elite bem-educada.
Seu mais importante crítico de teatro exige uma correção porque o copidesque vulgarizou a linguagem de seu texto. Diante da recusa, o crítico pede demissão. A cena escrita com um tom de farsa desenrola-se no presente como uma interação jurássica. Um crítico nova-iorquino, ao escrever a resenha da peça, em janeiro, se sentiu compelido a explicar aos leitores o significado de “jornalismo marrom”.
No último ato, o irmão do magnata – o intelectual que insiste em ter consciência – se despede dele com um conselho.
“Você continue dando ao público o que ele quer. É sua missão na vida. Mas se prepare para quando chegar o dia chuvoso.”
“Que dia chuvoso?”
“O dia em que o público quiser algo melhor do que você pode dar.”
Lembrei desse diálogo final ao ter a rotina virada ao avesso pela necessidade de acompanhar a violenta crise no Egito. Com o crescimento exponencial das fontes de informação, a pergunta não é mais o que o público quer, mas como encontrar a agulha desejada no palheiro de ofertas. O romancista David Foster Wallace, morto prematuramente em 2008, observou que “há 4 trilhões de bits de informação vindo em nossa direção, 99% é merda e dá trabalho demais fazer a triagem e decidir. É claro que vai haver um nicho econômico para os que filtrarem a passagem da informação. Senão, nós vamos passar 95% do nosso tempo surfando no mar de merda.”
Não tenho números para provar, mas suspeito que os acontecimentos do Egito deram mais audiência aos meios de comunicação que nos protegeram do catinguento esporte previsto pelo romancista
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
mídia e poder -"Não interessa que termo ou conceito seja empregado" - Observatório do Direito à Comunicação
Edgard Rebouças - po Pedro Caribé -26.01.2011
O capixaba Edgard Rebouças se notabilizou durante a passagem pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ao integrar o Observatório de Mídia Regional e coordenar a Campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania. Atualmente ele está de volta a terra natal, lecionando na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e já colocou em prática um Observatório no mesmo modelo.
A defesa do termo controle social ou público deixou de ser consenso dentro das organizações da sociedade civil e ameaça ser substituído, caso essa tendência de revisão predomine, o professor considera uma derrota?
No fundo, não interessa que termo ou conceito seja empregado, o que é necessário é um entendimento de que da forma como está é que não pode ficar. E me parece que há sim uma percepção, inclusive ganhando corpo fora do grupo que discute a democratização das comunicações, de que algo precisa ser feito em relação a pontos como a concentração da propriedade de veículos, os custos dos serviços – telefonia, internet e TV por assinatura –, a qualidade dos mesmos, incluindo ai o conteúdo de programas de televisão e coberturas “jornalísticas”. Se isso terá nome de controle social ou não, interessa pouco, o importante é que a sociedade tenha à disposição mecanismos para interferir daquilo que recebem, adquirem e usam; da mesma forma que existe o Código de Defesa do Consumidor. Ou alguém ainda defenderia hoje o princípio de que se um açougue estiver vendendo carne estragada, basta entrar no açougue do lado?!
Setores intitulados de esquerda na política encamparam timidamente o termo controle social aos meios de comunicação, hoje quase não mais o utilizam e até abominam (Dilma propaga que o único controle é o remoto). Isso é fruto de desconhecimento, estratégia ou concepção convergente aos empresários?
Gosto muito de um sociólogo americano: Edward A. Ross. Foi ele quem mais ou menos fundou o conceito de controle social, lá no início do século passado. Entre seus argumentos, há três se enquadram muito bem no caso das comunicações no Brasil. 1) Ele dizia que o controle social procura harmonizar atividades potencialmente conflitantes, verificando umas e estimulando outras. No nosso caso não há nenhum tipo de verificação das atividades midiáticas, tampouco estímulo a que novos atores entrem no processo. 2) Que o controle social regula objetivos e ações incompatíveis. Qualquer um pode ler o artigo 221 da Constituição para ver que quase nenhuma das finalidades ali descritas são cumpridas. E por fim, mas não por último, 3) Que a opinião pública tem um papel importantíssimo nas iniciativas de controle social. O problema é que em nossa sociedade midiatizada a opinião pública foi expropriada de seus verdadeiros donos, passando a ser virtualmente exercida pelos meios de comunicação; dessa forma, se a mídia fala que controle social é censura os tomadores de decisão – Executivo, Legislativo e Judiciário – acreditam. Ou pior, fingem acreditar, e aceitam isso como sendo a voz da opinião pública. Nos Estados Unidos, as ideais de Edward A. Ross deram a base para a criação das agências reguladoras, mas isso somente após o fracasso do modelo ultra-liberal com a crise de 1929. Será que teremos que vivenciar também uma crise, para a presidenta entender que o controle remoto não é a solução?
A regulação de conteúdo se tornou o maior entrave para pautar o termo controle social e as reformas regulatórias nos meios de comunicação na era Lula? Quais são os obstáculos para destravar esse debate?
Eis ai mais equívoco conceitual alimentado pela grande mídia, e engolido pelos tomadores de decisão. De onde tiraram que não pode haver regulação de conteúdo? A Constituição fala apenas de proteção ao jornalismo e a manifestações artísticas, políticas e ideológicas. E contanto que não firam outros princípios também constitucionais, como discriminação, invasão de privacidade, preconceito e outros. E fala ainda de conteúdo sim; quando está bem claro que deve haver programação regional, independente, cultural, artística; quando fala da publicidade de produtos nocivos à saúde; da classificação indicativa; e ainda que devemos proteger crianças e adolescentes com absoluta prioridade. O que deve ficar claro é que todo jornalismo é conteúdo, mas nem todo conteúdo é jornalismo.
Em que grau a TV brasileira pode ser enquadrada em termos de qualidade de conteúdo, no que tange o respeito aos direitos humanos?
Temos muitos programas bem feitos na televisão brasileira. Mas, infelizmente, esta não é uma regra ao longo da programação de uma mesma emissora, por exemplo. Continuam havendo vários desrespeitos não só com quem é exposto nos programas, mas também com quem está assistindo. E não venham com aquela de “controle remoto” como critério de qualidade. O princípio da maximização de lucros com a minimização de investimentos passou a ser regra na televisão, e não somente no Brasil. Dessa forma, mesmo havendo uma grande oferta de programas, o que se vê o mais do mesmo. Sendo que o argumento é sempre do “dar o que o povo quer”. Aí temos que resgatar aquela fala de Ariano Suassuna, citando Capiba: “dizem que cachorro só gosta de osso. Se só dão osso, como vai gostar de filé?”
O professor considera que houve degradação no conteúdo da radiodifusão nos últimos anos, por que?
Não se pode falar em degradação, pois não há necessariamente algo no passado que tenha sido superior ao que assistimos hoje em dia. Rádio e televisão sempre foram usados como veículos ideais para o sensacionalismo, o grotesco, a miséria humana, enfim, para todo tipo de baixaria. Há alguns anos escrevi um artigo intitulado “Desafios da televisão brasileira na era da diversificação ”, onde dizia que em meados dos anos 1990 o que estava em jogo era exatamente o risco da perda da qualidade e respeito internacional conquistados. Revendo com um pouco mais de atenção aquelas afirmações, e resgatando as funções de educar-informar-divertir da radiodifusão, pode-se observar que no fundo, ao longo da história, foram alguns relances de boa qualidade, sobretudo em algumas minisséries e novelas e um ou outro programa jornalístico.
No processo de reforma regulatória, é possível e interessante a construção de consenso da Abert e Anj com setores organizados da sociedade civil que estiveram na Confecom?
Não há consenso possível. Pois os interesses são muito diferentes. De um lado há o mero interesse privado, de outro o interesse público. O boicote e até sabotagem que os grandes grupos midiáticos fizeram – e continuam fazendo – à Confecom são bem sintomáticos disso. O empresariado brasileiro do setor se comporta de um modo bem patrimonialista em relação a seus interesses, algo que grupos americanos e europeus já superaram a quase meio século. Não há nada de errado em empresas visarem lucros, mas pela dupla característica da atividade, a responsabilidade social também tem que ocupar papel de destaque nas estratégias e encaminhamentos A saída está na competência dos grupos de pressão em convencerem os tomadores de decisão que o interesse público é que deve prevalecer. Sabendo que tal tarefa será dificílima. Se o presidente Lula, que tinha mais de 80% de apoio popular, não teve peito para enfrentar os grupos midiáticos e marcou a Confecom para os 44 minutos do segundo tempo, imaginem com o atual governo, que no primeiro dia após a vitória eleitoral, vimos a presidenta dar entrevista nos telejornais da Globo e da Record dizendo que só acredita em controle remoto! Devemos é desafiar o Executivo e o Legislativo a saírem do cômodo papel da omissão e pararem de adorar a secular política da não política para o setor da mídia.
O capixaba Edgard Rebouças se notabilizou durante a passagem pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ao integrar o Observatório de Mídia Regional e coordenar a Campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania. Atualmente ele está de volta a terra natal, lecionando na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e já colocou em prática um Observatório no mesmo modelo.
A defesa do termo controle social ou público deixou de ser consenso dentro das organizações da sociedade civil e ameaça ser substituído, caso essa tendência de revisão predomine, o professor considera uma derrota?
No fundo, não interessa que termo ou conceito seja empregado, o que é necessário é um entendimento de que da forma como está é que não pode ficar. E me parece que há sim uma percepção, inclusive ganhando corpo fora do grupo que discute a democratização das comunicações, de que algo precisa ser feito em relação a pontos como a concentração da propriedade de veículos, os custos dos serviços – telefonia, internet e TV por assinatura –, a qualidade dos mesmos, incluindo ai o conteúdo de programas de televisão e coberturas “jornalísticas”. Se isso terá nome de controle social ou não, interessa pouco, o importante é que a sociedade tenha à disposição mecanismos para interferir daquilo que recebem, adquirem e usam; da mesma forma que existe o Código de Defesa do Consumidor. Ou alguém ainda defenderia hoje o princípio de que se um açougue estiver vendendo carne estragada, basta entrar no açougue do lado?!
Setores intitulados de esquerda na política encamparam timidamente o termo controle social aos meios de comunicação, hoje quase não mais o utilizam e até abominam (Dilma propaga que o único controle é o remoto). Isso é fruto de desconhecimento, estratégia ou concepção convergente aos empresários?
Gosto muito de um sociólogo americano: Edward A. Ross. Foi ele quem mais ou menos fundou o conceito de controle social, lá no início do século passado. Entre seus argumentos, há três se enquadram muito bem no caso das comunicações no Brasil. 1) Ele dizia que o controle social procura harmonizar atividades potencialmente conflitantes, verificando umas e estimulando outras. No nosso caso não há nenhum tipo de verificação das atividades midiáticas, tampouco estímulo a que novos atores entrem no processo. 2) Que o controle social regula objetivos e ações incompatíveis. Qualquer um pode ler o artigo 221 da Constituição para ver que quase nenhuma das finalidades ali descritas são cumpridas. E por fim, mas não por último, 3) Que a opinião pública tem um papel importantíssimo nas iniciativas de controle social. O problema é que em nossa sociedade midiatizada a opinião pública foi expropriada de seus verdadeiros donos, passando a ser virtualmente exercida pelos meios de comunicação; dessa forma, se a mídia fala que controle social é censura os tomadores de decisão – Executivo, Legislativo e Judiciário – acreditam. Ou pior, fingem acreditar, e aceitam isso como sendo a voz da opinião pública. Nos Estados Unidos, as ideais de Edward A. Ross deram a base para a criação das agências reguladoras, mas isso somente após o fracasso do modelo ultra-liberal com a crise de 1929. Será que teremos que vivenciar também uma crise, para a presidenta entender que o controle remoto não é a solução?
A regulação de conteúdo se tornou o maior entrave para pautar o termo controle social e as reformas regulatórias nos meios de comunicação na era Lula? Quais são os obstáculos para destravar esse debate?
Eis ai mais equívoco conceitual alimentado pela grande mídia, e engolido pelos tomadores de decisão. De onde tiraram que não pode haver regulação de conteúdo? A Constituição fala apenas de proteção ao jornalismo e a manifestações artísticas, políticas e ideológicas. E contanto que não firam outros princípios também constitucionais, como discriminação, invasão de privacidade, preconceito e outros. E fala ainda de conteúdo sim; quando está bem claro que deve haver programação regional, independente, cultural, artística; quando fala da publicidade de produtos nocivos à saúde; da classificação indicativa; e ainda que devemos proteger crianças e adolescentes com absoluta prioridade. O que deve ficar claro é que todo jornalismo é conteúdo, mas nem todo conteúdo é jornalismo.
Em que grau a TV brasileira pode ser enquadrada em termos de qualidade de conteúdo, no que tange o respeito aos direitos humanos?
Temos muitos programas bem feitos na televisão brasileira. Mas, infelizmente, esta não é uma regra ao longo da programação de uma mesma emissora, por exemplo. Continuam havendo vários desrespeitos não só com quem é exposto nos programas, mas também com quem está assistindo. E não venham com aquela de “controle remoto” como critério de qualidade. O princípio da maximização de lucros com a minimização de investimentos passou a ser regra na televisão, e não somente no Brasil. Dessa forma, mesmo havendo uma grande oferta de programas, o que se vê o mais do mesmo. Sendo que o argumento é sempre do “dar o que o povo quer”. Aí temos que resgatar aquela fala de Ariano Suassuna, citando Capiba: “dizem que cachorro só gosta de osso. Se só dão osso, como vai gostar de filé?”
O professor considera que houve degradação no conteúdo da radiodifusão nos últimos anos, por que?
Não se pode falar em degradação, pois não há necessariamente algo no passado que tenha sido superior ao que assistimos hoje em dia. Rádio e televisão sempre foram usados como veículos ideais para o sensacionalismo, o grotesco, a miséria humana, enfim, para todo tipo de baixaria. Há alguns anos escrevi um artigo intitulado “Desafios da televisão brasileira na era da diversificação ”, onde dizia que em meados dos anos 1990 o que estava em jogo era exatamente o risco da perda da qualidade e respeito internacional conquistados. Revendo com um pouco mais de atenção aquelas afirmações, e resgatando as funções de educar-informar-divertir da radiodifusão, pode-se observar que no fundo, ao longo da história, foram alguns relances de boa qualidade, sobretudo em algumas minisséries e novelas e um ou outro programa jornalístico.
No processo de reforma regulatória, é possível e interessante a construção de consenso da Abert e Anj com setores organizados da sociedade civil que estiveram na Confecom?
Não há consenso possível. Pois os interesses são muito diferentes. De um lado há o mero interesse privado, de outro o interesse público. O boicote e até sabotagem que os grandes grupos midiáticos fizeram – e continuam fazendo – à Confecom são bem sintomáticos disso. O empresariado brasileiro do setor se comporta de um modo bem patrimonialista em relação a seus interesses, algo que grupos americanos e europeus já superaram a quase meio século. Não há nada de errado em empresas visarem lucros, mas pela dupla característica da atividade, a responsabilidade social também tem que ocupar papel de destaque nas estratégias e encaminhamentos A saída está na competência dos grupos de pressão em convencerem os tomadores de decisão que o interesse público é que deve prevalecer. Sabendo que tal tarefa será dificílima. Se o presidente Lula, que tinha mais de 80% de apoio popular, não teve peito para enfrentar os grupos midiáticos e marcou a Confecom para os 44 minutos do segundo tempo, imaginem com o atual governo, que no primeiro dia após a vitória eleitoral, vimos a presidenta dar entrevista nos telejornais da Globo e da Record dizendo que só acredita em controle remoto! Devemos é desafiar o Executivo e o Legislativo a saírem do cômodo papel da omissão e pararem de adorar a secular política da não política para o setor da mídia.
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
mídia e poder - conversa afiada - Inês Nassif: PiG (*) fez o papel do Cerra e dos bancos
em 2002
Publicado em 02/02/2011 Compartilhe
Soros: o brasileiro não vota
Este ansioso blogueiro considera Maria Inês Nassif a melhor analista de política de um jornal do PiG (*).
Surpreendentemente, ela sobreviveu à ofensiva do Padim Pade Cerra e sobreviveu no Valor (que, como se sabe, é controlado pela Folha (**) e pelo Globo).
Como se sabe, este ansioso blogueiro considera Cerra o nosso Putin.
Putin lidera um Governo em que, por coincidência, jornalistas de oposição costumam aparecer com a boca cheia de formiga em ruas de Moscou.
Além do mais, Inês é uma estudiosa do PiG.
Em 2005, ela obteve o título de Mestre em Ciências Sociais, na área de Ciência Política, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Com a dissertação “Os jornais, a democracia e a ditadura do mercado – a cobertura das eleições presidenciais de 2002.”
Com a agudeza de um médico legista – afinal, trata-se de um cadáver insepulto, o PiG - ela mostra como a Folha (**) e o Estadão trabalharam para eleger Cerra em 2002 e ajudar os bancos.
E o que é igualmente sinistro, operavam o “mercado” – aquele da “mão invisível” – em benefício dos “mercadores” e do Cerra.
O PiG jogou o jogo da especulação financeira que os banqueiros instalaram no Brasil com a ameaça da eleição do Presidente Nunca Dantes.
Inês trata com especial atenção (pág. 184) uma histórica entrevista que colonista (***) da Folha, Clovis Rossi, fez, no dia 8 de junho de 2002, com George Soros.
(Soros tinha sido o patrão do presidente do Banco Central da época, Arminio Fraga, quindim de Iaiá do PiG).
O notável financista fazia previsões apocalípticas: o Brasil estava condenado a eleger Serra ou mergulhar no caos.
Rossi esclarecia: “Não se trata desta vez, apenas, da habitual má vontade do mundo financeiro em relação a Lula e ao PT. É muito pior: trata-se de uma análise fria de como se mexem as engrenagens do capitalismo financeiro global, de que Soros não é apenas perito, mas também um ativo agente.”
“Se Serra ganhasse a eleição, afirmou (Soros), a situação mudaria, porque ‘o capitalismo global não se arriscaria a inviabilizar o melhor aluno do modelo econômico hegemônico (Serra)’.”
E concluiu Soros, nessa histórica reportagem da Folha: “Na Roma antiga só votavam os romanos. No capitalismo global moderno, só votam os americanos, os brasileiros não votam”.
Memorável.
Rossi foi testemunha da História.
Inês utiliza essa reportagem para mostrar, de forma conspícua, como os colonistas da Folha e do Estadão desempenharam “o papel de intelectuais orgânicos do capital financeiro internacional … na formação de uma hegemonia ideológica fundamentalista pró-mercado e no questionamento do papel do Estado – aqui, o moderno era a redução ao Estado Mínimo, que exerceria o papel regulador da economia”.
Inês mostra como o PiG disseminou o pânico, o que teve o efeito de provocar “um rápido deslocamento do dinheiro do país, em função do ataque especulativo ao Real, e rápidos deslocamentos de dinheiro entre particulares … Os jornais, portanto, foram instrumento da acumulação do capital financeiro … a informação passa a ser um instrumento da acumulação … intelectuais orgânicos (os colonistas do PiG – PHA) alimentam as mesas de operação … O boato e a especulação acabam tornando-se fatos.”
Os dois jornais – Folha e Estadão – jogaram o “jogo declaratório”, da informação sem contexto, irresponsável, não confirmada, não checada.
O jornalismo do “disse que”.
O economista do banco tal “diz que …”; o ex-diretor do FMI; o sub-do-sub da Secretaria do Tesouro americano.
Todos eles dizem que haveria o caos se Lula fosse eleito – o PiG e eles são cadeia de transmissão do pânico.
E as mesas dos bancos se enchem de dinheiro.
(O André Esteves, que acaba de comprar o PanAmericano, poderia dar um interessante testemunho sobre como o Banco Pactual “sofreu” com a eleição do Lula em 2002.)
E o Cerra “subia” nas pesquisas (na margem de erro, na verdade).
A Folha, segundo Inês, é especialista em “sensacionalização da declaração”.
O Estadão é mais despudorado: “a opção ideológica e partidária do jornal invadiu a informação, principalmente na economia.”
O PiG venceu ?
Não, Lula ganhou.
O “pânico” derrotou os operadores e os colonistas.
Mas, o PiG venceu, também, diz a Inês.
Lula oficializou a candidatura em 29 de junho de 2002.
Antes, no dia 22, lançou a “Carta ao Povo brasileiro”, “adequando-se às exigências do mercado”, diz Inês.
Ou seja, o PiG venceu: nomeou Tony Palocci Ministro da Fazenda (diz este ansioso blogueiro).
Inês faz uma pincelada sobre a eleição de 2006, aquela que Ali Kamel levou para o segundo turno – clique aqui para ler “O Golpe do primeiro turno já houve. Falta o do segundo turno”.
Em 2006, Lula não poderia ser mais o bicho papão do mercado.
O PiG jogou então a carta do preconceito social.
Lula era o candidato dos pobres, da Bolsa Vagabundagem (segundo a opinião de uma especialista em abortos, no Chile), dos nordestinos.
“O corte ideológico (em 2006) foi fundamentalmente social”.
Conclui Inês: “ … o momento zero, em que os jornais se assumiram claramente como intelectuais orgânicos foi o da eleição de 2002”.
Como diz esse ansioso blogueiro: o que seria dos tucanos de São Paulo não fosse o PiG, hein, Inês ?
Não passavam de Resende.
Em tempo: por que a editora Publifolha não publica a tese da Inês. E a Companhia das Letras ?
Publicado em 02/02/2011 Compartilhe
Soros: o brasileiro não vota
Este ansioso blogueiro considera Maria Inês Nassif a melhor analista de política de um jornal do PiG (*).
Surpreendentemente, ela sobreviveu à ofensiva do Padim Pade Cerra e sobreviveu no Valor (que, como se sabe, é controlado pela Folha (**) e pelo Globo).
Como se sabe, este ansioso blogueiro considera Cerra o nosso Putin.
Putin lidera um Governo em que, por coincidência, jornalistas de oposição costumam aparecer com a boca cheia de formiga em ruas de Moscou.
Além do mais, Inês é uma estudiosa do PiG.
Em 2005, ela obteve o título de Mestre em Ciências Sociais, na área de Ciência Política, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Com a dissertação “Os jornais, a democracia e a ditadura do mercado – a cobertura das eleições presidenciais de 2002.”
Com a agudeza de um médico legista – afinal, trata-se de um cadáver insepulto, o PiG - ela mostra como a Folha (**) e o Estadão trabalharam para eleger Cerra em 2002 e ajudar os bancos.
E o que é igualmente sinistro, operavam o “mercado” – aquele da “mão invisível” – em benefício dos “mercadores” e do Cerra.
O PiG jogou o jogo da especulação financeira que os banqueiros instalaram no Brasil com a ameaça da eleição do Presidente Nunca Dantes.
Inês trata com especial atenção (pág. 184) uma histórica entrevista que colonista (***) da Folha, Clovis Rossi, fez, no dia 8 de junho de 2002, com George Soros.
(Soros tinha sido o patrão do presidente do Banco Central da época, Arminio Fraga, quindim de Iaiá do PiG).
O notável financista fazia previsões apocalípticas: o Brasil estava condenado a eleger Serra ou mergulhar no caos.
Rossi esclarecia: “Não se trata desta vez, apenas, da habitual má vontade do mundo financeiro em relação a Lula e ao PT. É muito pior: trata-se de uma análise fria de como se mexem as engrenagens do capitalismo financeiro global, de que Soros não é apenas perito, mas também um ativo agente.”
“Se Serra ganhasse a eleição, afirmou (Soros), a situação mudaria, porque ‘o capitalismo global não se arriscaria a inviabilizar o melhor aluno do modelo econômico hegemônico (Serra)’.”
E concluiu Soros, nessa histórica reportagem da Folha: “Na Roma antiga só votavam os romanos. No capitalismo global moderno, só votam os americanos, os brasileiros não votam”.
Memorável.
Rossi foi testemunha da História.
Inês utiliza essa reportagem para mostrar, de forma conspícua, como os colonistas da Folha e do Estadão desempenharam “o papel de intelectuais orgânicos do capital financeiro internacional … na formação de uma hegemonia ideológica fundamentalista pró-mercado e no questionamento do papel do Estado – aqui, o moderno era a redução ao Estado Mínimo, que exerceria o papel regulador da economia”.
Inês mostra como o PiG disseminou o pânico, o que teve o efeito de provocar “um rápido deslocamento do dinheiro do país, em função do ataque especulativo ao Real, e rápidos deslocamentos de dinheiro entre particulares … Os jornais, portanto, foram instrumento da acumulação do capital financeiro … a informação passa a ser um instrumento da acumulação … intelectuais orgânicos (os colonistas do PiG – PHA) alimentam as mesas de operação … O boato e a especulação acabam tornando-se fatos.”
Os dois jornais – Folha e Estadão – jogaram o “jogo declaratório”, da informação sem contexto, irresponsável, não confirmada, não checada.
O jornalismo do “disse que”.
O economista do banco tal “diz que …”; o ex-diretor do FMI; o sub-do-sub da Secretaria do Tesouro americano.
Todos eles dizem que haveria o caos se Lula fosse eleito – o PiG e eles são cadeia de transmissão do pânico.
E as mesas dos bancos se enchem de dinheiro.
(O André Esteves, que acaba de comprar o PanAmericano, poderia dar um interessante testemunho sobre como o Banco Pactual “sofreu” com a eleição do Lula em 2002.)
E o Cerra “subia” nas pesquisas (na margem de erro, na verdade).
A Folha, segundo Inês, é especialista em “sensacionalização da declaração”.
O Estadão é mais despudorado: “a opção ideológica e partidária do jornal invadiu a informação, principalmente na economia.”
O PiG venceu ?
Não, Lula ganhou.
O “pânico” derrotou os operadores e os colonistas.
Mas, o PiG venceu, também, diz a Inês.
Lula oficializou a candidatura em 29 de junho de 2002.
Antes, no dia 22, lançou a “Carta ao Povo brasileiro”, “adequando-se às exigências do mercado”, diz Inês.
Ou seja, o PiG venceu: nomeou Tony Palocci Ministro da Fazenda (diz este ansioso blogueiro).
Inês faz uma pincelada sobre a eleição de 2006, aquela que Ali Kamel levou para o segundo turno – clique aqui para ler “O Golpe do primeiro turno já houve. Falta o do segundo turno”.
Em 2006, Lula não poderia ser mais o bicho papão do mercado.
O PiG jogou então a carta do preconceito social.
Lula era o candidato dos pobres, da Bolsa Vagabundagem (segundo a opinião de uma especialista em abortos, no Chile), dos nordestinos.
“O corte ideológico (em 2006) foi fundamentalmente social”.
Conclui Inês: “ … o momento zero, em que os jornais se assumiram claramente como intelectuais orgânicos foi o da eleição de 2002”.
Como diz esse ansioso blogueiro: o que seria dos tucanos de São Paulo não fosse o PiG, hein, Inês ?
Não passavam de Resende.
Em tempo: por que a editora Publifolha não publica a tese da Inês. E a Companhia das Letras ?
mídia e poder - cartamaior - Convergência x propriedade cruzada: a quem interessa a confusão? - Venício Lima
Além do Estadão, quem estaria interessado em confundir "convergência de mídias" com propriedade cruzada? Uuem estaria interessado em colocar na agenda pública a precária hipótese aventada por um conselheiro da Anatel, como se aquela opinião pudesse constituir uma decisão de governo em matéria que, de fato, é constitucional?
Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa
A chamada "revolução digital" provocou uma reviravolta no mundo das comunicações. Uma única tecnologia – por exemplo, a fibra ótica – possibilita a transmissão, vale dizer a distribuição para consumidores, tanto de sons como de textos e de imagens. Diluíram-se as fronteiras entre as telecomunicações e a radiodifusão, por exemplo. Além disso, jornalistas multimídia produzem conteúdo noticioso para rádio, jornal, revistas, televisão e portais na internet. Daí porque se fala na "convergência de mídias", expressão que tem por base as mudanças tecnológicas que permitem, por exemplo, que um "consumidor" escute rádio, veja TV, assista filmes, leia jornais e revistas em um único "receptor" – por exemplo, um computador pessoal.
Há, no entanto, uma diferença fundamental: emissoras de rádio e televisão, assim como operadoras de telefonia fixa e móvel, continuam sendo um serviço público, concedido pela União a grupos privados, para exploração sob determinadas condições e por prazo determinado. Os jornais, revistas e portais na internet, apesar de manterem a natureza de serviço público, não dependem de concessões do poder público.
Já a propriedade cruzada é um conceito da economia política do setor. No Brasil, ela tem sido historicamente a base sobre a qual se consolidaram os oligopólios privados de mídia. Um mesmo grupo, no mesmo mercado, controla diferentes mídias – concessões públicas ou não, em níveis local, e/ou regional e/ou nacional. Essa é a história da formação e consolidação, para ficar apenas em dois exemplos, dos dois principais grupos privados brasileiros de comunicações: os Diários Associados e as Organizações Globo.
Acresce à propriedade cruzada – que nunca foi de fato regulamentada no Brasil – a ausência de controle do Estado sobre a formação de redes (networks), tanto de rádio quanto de televisão.
A exceção é o Brasil
No mundo democrático, a propriedade cruzada no mercado de comunicações é sempre controlada. Nos Estados Unidos a Federal Communications Commission (FCC) começou a regulação quando de sua criação em 1934. O Brasil é uma exceção.
Apesar de o parágrafo 5º do artigo 220 da Constituição ser explícito ao consignar que "os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio", não há regulamentação sobre o assunto.
O fato, aliás, é um dos objetos da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) nº 10 [originalmente Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 4475], da lavra do jurista Fábio Konder Comparato, que trata especificamente da "omissão legislativa inconstitucional em regular a proibição de monopólio ou oligopólio dos meios de comunicação social". Lembra a ADO que...
"(...) para ficarmos apenas no terreno abstrato das noções gerais, pode haver um monopólio da produção, da distribuição, do fornecimento, ou da aquisição (monopsônio). Em matéria de oligopólio, então, a variedade das espécies é enorme, distribuindo-se entre os gêneros do controle e do conglomerado, e subdividindo-se em controle direto e indireto, controle de direito e controle de fato, conglomerado contratual (dito consórcio) e participação societária cruzada. E assim por diante. Quem não percebe que, na ausência de lei definidora de cada uma dessas espécies, não apenas os direitos fundamentais dos cidadãos e do povo soberano em seu conjunto, mas também a segurança das próprias empresas de comunicação social, deixam completamente de existir? Em relação a estas, aliás, de que serve dispor a Constituição Federal que a ordem econômica é fundada na livre iniciativa e na garantia da livre concorrência (art. 170), se as empresas privadas de comunicação social não dispõem de parâmetros legais para agir, na esfera administrativa e judicial, contra o monopólio e o oligopólio, eventualmente existentes no setor? [grifo meu; ver, neste Observatório, "Três boas notícias"].
Parece claro, portanto, que a concentração da propriedade nas comunicações, fundada na propriedade cruzada, não pode ser justificada pela "convergência de mídias".
Propriedade cruzada se refere à oligopolização do mercado, vale dizer, à negação do mercado livre de idéias, tão caro à ideologia liberal. A propriedade cruzada, na prática, significa menos vozes, menos pluralidade, menos diversidade. Um atentado à liberdade de expressão. De fato, uma forma disfarçada de censura.
"Convergência de mídias" se refere a um avanço tecnológico provocado pela digitalização cujas conseqüências, por óbvio, não estão acima da pluralidade, da diversidade e nem da universalidade da liberdade de expressão.
A manchete do Estadão
Nesse contexto, e tendo em vista os esclarecimentos já prestados pelo ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, o que resta de intrigante são as razões de fundo da manchete de primeira página do Estado de S.Paulo de quinta-feira (27/1) e da matéria assinada por três jornalistas – um dos quais o diretor de Redação: "Convergência de mídias leva governo a desistir de veto à propriedade cruzada".
Além do Estadão, quem estaria interessado em confundir "convergência de mídias" com propriedade cruzada? E, mais importante: quem estaria interessado em colocar na agenda pública a precária hipótese aventada por um conselheiro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), fonte da matéria, como se aquela opinião pudesse constituir uma decisão de governo em matéria que, de fato, é constitucional?
***
PS: Três complementos ao artigo publicado na edição 626 do Observatório, "Barack Obama recua, concentração aumenta":
1. À exceção de um commissioner, a FCC que decidiu sobre a compra da NBCU pela Comcast foi nomeada por Barack Obama. A exceção é Michael J. Coops, cujo mandato está vencido desde 30 de junho de 2010 e que, curiosamente, foi o único que votou contra a decisão;
2. Tanto o CEO da Comcast, Brian Roberts, quanto o CEO da NBCU, Steve Burke, são importantes financiadores de candidatos do Partido Republicano; e
3. Uma das primeiras medidas do comando do novo grupo Comcast/NBCU depois da decisão da FCC foi a confirmação da demissão do comentarista político "liberal" Keith Olbermann, da MSNBC.
Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.
Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa
A chamada "revolução digital" provocou uma reviravolta no mundo das comunicações. Uma única tecnologia – por exemplo, a fibra ótica – possibilita a transmissão, vale dizer a distribuição para consumidores, tanto de sons como de textos e de imagens. Diluíram-se as fronteiras entre as telecomunicações e a radiodifusão, por exemplo. Além disso, jornalistas multimídia produzem conteúdo noticioso para rádio, jornal, revistas, televisão e portais na internet. Daí porque se fala na "convergência de mídias", expressão que tem por base as mudanças tecnológicas que permitem, por exemplo, que um "consumidor" escute rádio, veja TV, assista filmes, leia jornais e revistas em um único "receptor" – por exemplo, um computador pessoal.
Há, no entanto, uma diferença fundamental: emissoras de rádio e televisão, assim como operadoras de telefonia fixa e móvel, continuam sendo um serviço público, concedido pela União a grupos privados, para exploração sob determinadas condições e por prazo determinado. Os jornais, revistas e portais na internet, apesar de manterem a natureza de serviço público, não dependem de concessões do poder público.
Já a propriedade cruzada é um conceito da economia política do setor. No Brasil, ela tem sido historicamente a base sobre a qual se consolidaram os oligopólios privados de mídia. Um mesmo grupo, no mesmo mercado, controla diferentes mídias – concessões públicas ou não, em níveis local, e/ou regional e/ou nacional. Essa é a história da formação e consolidação, para ficar apenas em dois exemplos, dos dois principais grupos privados brasileiros de comunicações: os Diários Associados e as Organizações Globo.
Acresce à propriedade cruzada – que nunca foi de fato regulamentada no Brasil – a ausência de controle do Estado sobre a formação de redes (networks), tanto de rádio quanto de televisão.
A exceção é o Brasil
No mundo democrático, a propriedade cruzada no mercado de comunicações é sempre controlada. Nos Estados Unidos a Federal Communications Commission (FCC) começou a regulação quando de sua criação em 1934. O Brasil é uma exceção.
Apesar de o parágrafo 5º do artigo 220 da Constituição ser explícito ao consignar que "os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio", não há regulamentação sobre o assunto.
O fato, aliás, é um dos objetos da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) nº 10 [originalmente Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 4475], da lavra do jurista Fábio Konder Comparato, que trata especificamente da "omissão legislativa inconstitucional em regular a proibição de monopólio ou oligopólio dos meios de comunicação social". Lembra a ADO que...
"(...) para ficarmos apenas no terreno abstrato das noções gerais, pode haver um monopólio da produção, da distribuição, do fornecimento, ou da aquisição (monopsônio). Em matéria de oligopólio, então, a variedade das espécies é enorme, distribuindo-se entre os gêneros do controle e do conglomerado, e subdividindo-se em controle direto e indireto, controle de direito e controle de fato, conglomerado contratual (dito consórcio) e participação societária cruzada. E assim por diante. Quem não percebe que, na ausência de lei definidora de cada uma dessas espécies, não apenas os direitos fundamentais dos cidadãos e do povo soberano em seu conjunto, mas também a segurança das próprias empresas de comunicação social, deixam completamente de existir? Em relação a estas, aliás, de que serve dispor a Constituição Federal que a ordem econômica é fundada na livre iniciativa e na garantia da livre concorrência (art. 170), se as empresas privadas de comunicação social não dispõem de parâmetros legais para agir, na esfera administrativa e judicial, contra o monopólio e o oligopólio, eventualmente existentes no setor? [grifo meu; ver, neste Observatório, "Três boas notícias"].
Parece claro, portanto, que a concentração da propriedade nas comunicações, fundada na propriedade cruzada, não pode ser justificada pela "convergência de mídias".
Propriedade cruzada se refere à oligopolização do mercado, vale dizer, à negação do mercado livre de idéias, tão caro à ideologia liberal. A propriedade cruzada, na prática, significa menos vozes, menos pluralidade, menos diversidade. Um atentado à liberdade de expressão. De fato, uma forma disfarçada de censura.
"Convergência de mídias" se refere a um avanço tecnológico provocado pela digitalização cujas conseqüências, por óbvio, não estão acima da pluralidade, da diversidade e nem da universalidade da liberdade de expressão.
A manchete do Estadão
Nesse contexto, e tendo em vista os esclarecimentos já prestados pelo ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, o que resta de intrigante são as razões de fundo da manchete de primeira página do Estado de S.Paulo de quinta-feira (27/1) e da matéria assinada por três jornalistas – um dos quais o diretor de Redação: "Convergência de mídias leva governo a desistir de veto à propriedade cruzada".
Além do Estadão, quem estaria interessado em confundir "convergência de mídias" com propriedade cruzada? E, mais importante: quem estaria interessado em colocar na agenda pública a precária hipótese aventada por um conselheiro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), fonte da matéria, como se aquela opinião pudesse constituir uma decisão de governo em matéria que, de fato, é constitucional?
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PS: Três complementos ao artigo publicado na edição 626 do Observatório, "Barack Obama recua, concentração aumenta":
1. À exceção de um commissioner, a FCC que decidiu sobre a compra da NBCU pela Comcast foi nomeada por Barack Obama. A exceção é Michael J. Coops, cujo mandato está vencido desde 30 de junho de 2010 e que, curiosamente, foi o único que votou contra a decisão;
2. Tanto o CEO da Comcast, Brian Roberts, quanto o CEO da NBCU, Steve Burke, são importantes financiadores de candidatos do Partido Republicano; e
3. Uma das primeiras medidas do comando do novo grupo Comcast/NBCU depois da decisão da FCC foi a confirmação da demissão do comentarista político "liberal" Keith Olbermann, da MSNBC.
Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.
mídia,internet e poder - Otra comunicación es posible:
«ARGENPRESS» superó los 70.000 suscriptores
ARGENPRESS
Irónicamente, la acelerada revolución tecnológica propiciada por el nuevo orden informativo mundial (concentrado y oligopólico) también alimentó aquella vieja utopía revolucionaria que tendió desde los márgenes subterráneos de Internet una red de medios de comunicación volcados al libre pensamiento y a la libertad de prensa.
Es un orgullo para quienes editamos ARGENPRESS.info ser una pieza más de este engranaje que abre caminos con la velocidad del topo y desoculta las realidades distraídas de las portadas de los grandes medios, con la simple tarea cotidiana de ejercer un periodismo sin connivencias ni pactos wagnerianos.
Este contrato tácito con los lectores tiene como simple pilar el compromiso con un proyecto colectivo de sociedad hacia una democracia informativa, ajena a la ya característica libertad de empresa propia de los monopolios comunicacionales al servicio de intereses particulares, que apoyan su plan de negocios en el egoísmo mesiánico de algunos arribistas del poder que creen dirigir el destino de los pueblos en lugar de cumplir su papel de interlocutores de sus demandas.
Como señalara Norbert Wiener en sus adelantadas concepciones, a mediados del siglo XX, la organización de la sociedad futura será sobre esa materia prima que es la información. Pero los riesgos de esa tendencia degenerativa que precipita el desorden social cuando esta se transforma en mercancía y vehículo de concentración de poder y dinero, obligan a mantenerse alerta y a profundizar la búsqueda de caminos alternativos o ¿por qué no? rectos.
ARGENPRESS.info, dentro de sus posibilidades técnicas y editoriales, redoblará esfuerzos para informar con veracidad, siempre allí donde se lucha por un mundo mejor, siguiendo el rumbo marcado por nuestro amigo y director, Emilio Jorge Corbière.
CONSEJO EDITORIAL
ARGENPRESS
Irónicamente, la acelerada revolución tecnológica propiciada por el nuevo orden informativo mundial (concentrado y oligopólico) también alimentó aquella vieja utopía revolucionaria que tendió desde los márgenes subterráneos de Internet una red de medios de comunicación volcados al libre pensamiento y a la libertad de prensa.
Es un orgullo para quienes editamos ARGENPRESS.info ser una pieza más de este engranaje que abre caminos con la velocidad del topo y desoculta las realidades distraídas de las portadas de los grandes medios, con la simple tarea cotidiana de ejercer un periodismo sin connivencias ni pactos wagnerianos.
Este contrato tácito con los lectores tiene como simple pilar el compromiso con un proyecto colectivo de sociedad hacia una democracia informativa, ajena a la ya característica libertad de empresa propia de los monopolios comunicacionales al servicio de intereses particulares, que apoyan su plan de negocios en el egoísmo mesiánico de algunos arribistas del poder que creen dirigir el destino de los pueblos en lugar de cumplir su papel de interlocutores de sus demandas.
Como señalara Norbert Wiener en sus adelantadas concepciones, a mediados del siglo XX, la organización de la sociedad futura será sobre esa materia prima que es la información. Pero los riesgos de esa tendencia degenerativa que precipita el desorden social cuando esta se transforma en mercancía y vehículo de concentración de poder y dinero, obligan a mantenerse alerta y a profundizar la búsqueda de caminos alternativos o ¿por qué no? rectos.
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CONSEJO EDITORIAL
religião - mídia e poder - Sentido de la comunicación en la era digital - adital -
01.02.11 - Mundo
Carlos Ayala Ramírez
Director de Radio Ysuca
Adital
Durante la fiesta de San Francisco de Sales, patrono de los periodistas, el Papa Benedicto XVI dio a conocer el tema hilo conductor para la Jornada Mundial de las Comunicaciones Sociales 2011. En esta ocasión la temática es "Verdad, anuncio y autenticidad de vida en la era digital”. El mensaje comienza por la constatación de un hecho: la propagación de la comunicación a través de Internet con sus extraordinarias potencialidades y la complejidad de sus aplicaciones. Y en efecto, según datos difundidos por la Unión Internacional de Telecomunicaciones (ITU, por sus siglas en inglés), en la actualidad hay al menos tres celulares por cada cuatro personas en el mundo, mientras que 29% de la población (un poco más de 2,000 millones) es usuaria de Internet, sobre un total de 6,980 millones de habitantes que calculó la ONU el año pasado. Este hecho, según el mensaje, ha modificado no sólo el modo de comunicar, sino la comunicación en sí misma y exige con creciente urgencia una seria reflexión sobre el sentido de la comunicación en la era digital. Para tal propósito nos propone los siguientes elementos de análisis:
En primer lugar, nos presenta un criterio de carácter ético señalando que las nuevas tecnologías de comunicación deben ponerse al servicio del bien integral de la persona y de la humanidad entera. "Si esas tecnologías se usan con sabiduría, pueden contribuir a satisfacer el deseo de sentido, de verdad y de unidad que sigue siendo la aspiración más profunda del ser humano”, sostiene el mensaje del Papa. Este planteamiento hace referencia a una necesidad actual y con frecuencia descuidada: el carácter esencialmente humano de la comunicación. Una vez más debemos repetir que "el ser humano es el gran medio de comunicación, después vienen los medios”. Y la ética de la comunicación puede llevarnos a un paso más: no se trata sólo de buscar el bien de la persona considerada abstractamente, sino del bien de aquellos y aquellas cuya realidad y cuya palabra ha sido sometida a la inexistencia. Por eso, garantizar la centralidad de la persona en el uso de las nuevas tecnologías implica, por un lado, superar la brecha digital que todavía sigue existiendo entre grupos y naciones (las mayorías no tienen acceso a la red); y por otra parte, se hace necesario implementar reglamentaciones y autorregulaciones para evitar las conductas delictivas o contrarias a la dignidad humana.
La segunda reflexión del mensaje está relacionada con el acto de comunicar. "Transmitir información en el mundo digital significa cada vez más introducirla en una red social, en la que el conocimiento se comparte en el ámbito de intercambios personales. Se relativiza la distinción entre productor y el consumidor, y la comunicación ya no se reduce a un intercambio de datos, sino que se desea compartir”. Lo anterior es posible por las características propias que tiene Internet: es instantáneo, inmediato, mundial, descentralizado, interactivo, capaz de extender ilimitadamente sus contenidos y su alcance, flexible y adaptable en grado notable. Pero el mensaje también nos advierte de peligros sobre los cuales hay que estar vigilantes: "una interacción parcial, la tendencia a comunicar sólo algunas partes del propio mundo interior, el riesgo de construir una cierta imagen de sí mismos que suele llevar a la autocomplacencia”. Ciertamente Internet puede conectarnos con millones de personas sin que tengamos que encontrarnos con nadie. Se puede comprar, vender, realizar pagos, trabajar, pedir comida, etc. sin hablar con nadie. Por eso se afirma que el mundo virtual ha creado un nuevo habitat para el ser humano, caracterizado por el encapsulamiento en uno mismo. Para superar este peligro el mensaje nos exhorta a "recordar siempre que el contacto virtual no puede y no debe sustituir el contacto humano directo, en todos los aspectos de nuestra vida”.
En tercer lugar, se reconoce que la red está contribuyendo al desarrollo de nuevas y más complejas formas de conciencia intelectual y espiritual, de comprensión común. En ese contexto, se invita a los hombres y mujeres de fe a comunicar el Evangelio en dicha plataforma. Y eso significa no sólo poner contenidos abiertamente religiosos, sino también dar testimonio coherente en el propio perfil digital y en el modo de comunicar preferencias, opciones y juicios que sean profundamente concordes con el Evangelio, incluso cuando no se hable explícitamente de él. En este aspecto el mensaje propone que "la proclamación del Evangelio implica una forma de comunicación respetuosa y discreta, que incita el corazón y mueve la conciencia; una forma que evoca el estilo de Jesús resucitado cuando se hizo compañero de camino de los discípulos de Emaús (cf. Lc, 13-35)…”.
Ese estilo de Jesús ofrece grandes posibilidades para que la comunicación virtual sea una comunicación humanizadora, es decir, para que esté efectivamente al servicio de la comunicación, de la persona humana, de la verdad y de la solidaridad. Para que fomente la justicia y la paz, el crecimiento espiritual e intelectual, la participación ciudadana y el ejercicio de sus derechos, y la comprensión mutua entre pueblos y naciones. No está demás recordar que Internet también puede llevar a un mayor egocentrismo y a una mayor alienación, puede unir a la gente, pero también puede separar y enfrentar; ya se ha usado de modo agresivo, casi como un arma de guerra. De ahí que el mensaje propone un sentido distinto: "que la red no sea instrumento que reduce las personas a categorías, que intenta manipularlas emotivamente o que permite a los poderosos monopolizar las opiniones de los demás”. Por el contrario, se propone que la red tenga su contrapeso en la verdad, la autenticidad y la creación de relaciones positivas.
Carlos Ayala Ramírez
Director de Radio Ysuca
Adital
Durante la fiesta de San Francisco de Sales, patrono de los periodistas, el Papa Benedicto XVI dio a conocer el tema hilo conductor para la Jornada Mundial de las Comunicaciones Sociales 2011. En esta ocasión la temática es "Verdad, anuncio y autenticidad de vida en la era digital”. El mensaje comienza por la constatación de un hecho: la propagación de la comunicación a través de Internet con sus extraordinarias potencialidades y la complejidad de sus aplicaciones. Y en efecto, según datos difundidos por la Unión Internacional de Telecomunicaciones (ITU, por sus siglas en inglés), en la actualidad hay al menos tres celulares por cada cuatro personas en el mundo, mientras que 29% de la población (un poco más de 2,000 millones) es usuaria de Internet, sobre un total de 6,980 millones de habitantes que calculó la ONU el año pasado. Este hecho, según el mensaje, ha modificado no sólo el modo de comunicar, sino la comunicación en sí misma y exige con creciente urgencia una seria reflexión sobre el sentido de la comunicación en la era digital. Para tal propósito nos propone los siguientes elementos de análisis:
En primer lugar, nos presenta un criterio de carácter ético señalando que las nuevas tecnologías de comunicación deben ponerse al servicio del bien integral de la persona y de la humanidad entera. "Si esas tecnologías se usan con sabiduría, pueden contribuir a satisfacer el deseo de sentido, de verdad y de unidad que sigue siendo la aspiración más profunda del ser humano”, sostiene el mensaje del Papa. Este planteamiento hace referencia a una necesidad actual y con frecuencia descuidada: el carácter esencialmente humano de la comunicación. Una vez más debemos repetir que "el ser humano es el gran medio de comunicación, después vienen los medios”. Y la ética de la comunicación puede llevarnos a un paso más: no se trata sólo de buscar el bien de la persona considerada abstractamente, sino del bien de aquellos y aquellas cuya realidad y cuya palabra ha sido sometida a la inexistencia. Por eso, garantizar la centralidad de la persona en el uso de las nuevas tecnologías implica, por un lado, superar la brecha digital que todavía sigue existiendo entre grupos y naciones (las mayorías no tienen acceso a la red); y por otra parte, se hace necesario implementar reglamentaciones y autorregulaciones para evitar las conductas delictivas o contrarias a la dignidad humana.
La segunda reflexión del mensaje está relacionada con el acto de comunicar. "Transmitir información en el mundo digital significa cada vez más introducirla en una red social, en la que el conocimiento se comparte en el ámbito de intercambios personales. Se relativiza la distinción entre productor y el consumidor, y la comunicación ya no se reduce a un intercambio de datos, sino que se desea compartir”. Lo anterior es posible por las características propias que tiene Internet: es instantáneo, inmediato, mundial, descentralizado, interactivo, capaz de extender ilimitadamente sus contenidos y su alcance, flexible y adaptable en grado notable. Pero el mensaje también nos advierte de peligros sobre los cuales hay que estar vigilantes: "una interacción parcial, la tendencia a comunicar sólo algunas partes del propio mundo interior, el riesgo de construir una cierta imagen de sí mismos que suele llevar a la autocomplacencia”. Ciertamente Internet puede conectarnos con millones de personas sin que tengamos que encontrarnos con nadie. Se puede comprar, vender, realizar pagos, trabajar, pedir comida, etc. sin hablar con nadie. Por eso se afirma que el mundo virtual ha creado un nuevo habitat para el ser humano, caracterizado por el encapsulamiento en uno mismo. Para superar este peligro el mensaje nos exhorta a "recordar siempre que el contacto virtual no puede y no debe sustituir el contacto humano directo, en todos los aspectos de nuestra vida”.
En tercer lugar, se reconoce que la red está contribuyendo al desarrollo de nuevas y más complejas formas de conciencia intelectual y espiritual, de comprensión común. En ese contexto, se invita a los hombres y mujeres de fe a comunicar el Evangelio en dicha plataforma. Y eso significa no sólo poner contenidos abiertamente religiosos, sino también dar testimonio coherente en el propio perfil digital y en el modo de comunicar preferencias, opciones y juicios que sean profundamente concordes con el Evangelio, incluso cuando no se hable explícitamente de él. En este aspecto el mensaje propone que "la proclamación del Evangelio implica una forma de comunicación respetuosa y discreta, que incita el corazón y mueve la conciencia; una forma que evoca el estilo de Jesús resucitado cuando se hizo compañero de camino de los discípulos de Emaús (cf. Lc, 13-35)…”.
Ese estilo de Jesús ofrece grandes posibilidades para que la comunicación virtual sea una comunicación humanizadora, es decir, para que esté efectivamente al servicio de la comunicación, de la persona humana, de la verdad y de la solidaridad. Para que fomente la justicia y la paz, el crecimiento espiritual e intelectual, la participación ciudadana y el ejercicio de sus derechos, y la comprensión mutua entre pueblos y naciones. No está demás recordar que Internet también puede llevar a un mayor egocentrismo y a una mayor alienación, puede unir a la gente, pero también puede separar y enfrentar; ya se ha usado de modo agresivo, casi como un arma de guerra. De ahí que el mensaje propone un sentido distinto: "que la red no sea instrumento que reduce las personas a categorías, que intenta manipularlas emotivamente o que permite a los poderosos monopolizar las opiniones de los demás”. Por el contrario, se propone que la red tenga su contrapeso en la verdad, la autenticidad y la creación de relaciones positivas.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
mídia e poder - Los periodistas estamos en deuda con la sociedad- Pascual Serrano - Rebelión
Intervención en la presentación de la sección Mentiras y Medios del periódico Rebelión.org en la Facultad de Ciencias de la Información de la Universidad Complutense de Madrid
Volver después de diez años a la que fue mi facultad no deja de tener un especial valor sentimental para mi. Si además es para explicar un proyecto informativo por el que un grupo de apasionados trabajamos desde hace más de seis años, mi ilusión no puede ser mayor.
En principio Rebelión no es otra cosa que una página web con contenidos informativos diarios que la convierten en un periódico electrónico, una agencia de prensa e incluso una revista de prensa en la medida en que reflejamos informaciones procedentes de otros medios. Cuenta con las habituales secciones de Internacional, Movimientos Sociales, Cultura, Ecología, Derechos Humanos, etc... Así como especiales informativos sobre grandes acontecimientos de actualidad, en este momento, venezuela, la política militar de EEUU, la crisis argentina, la nueva era en Brasil... Y ahora también la sección Mentiras y Medios que venimos a presentar a esta facultad.
Rebelión nace del encuentro entre una propuesta informática y un proyecto periodístico. No olvidemos que seis años atrás en informática es hablar del neolítico, hasta la idea de una página web era innovadora, el número de personas que accedían entonces a internet era mínimo comparado con ahora.
El informático sugería la viabilidad de poder poner con coste económico cero un servicio de noticias disponible para el mundo entero, el periodista afirmaba que el uso del correo electrónico estaba permitiendo un fácil acceso a la información alternativa para los periodistas que estuviesen dispuestos a apostar por esa información.
El informático conocía toda la técnica necesaria para el proyecto, hace seis años, repito, esa técnica no estaba tan generalizada. El periodista, llevaba años ya trabajando en esa otra información.
Ambos coincidían en el silencio de los grandes medios sobre los atropellos que sufrían los pueblos, las denuncias de colectivos ecologistas o de derechos humanos, las luchas de importantes grupos de liberación. Existía todo otro modelo de noticias diferente al impuesto por los grandes emporios. Internet ya había conseguido inmediatizar con el correo electrónico la comunicación entre individuos, la pregunta es si podíamos ahora pensar en crear un soporte común para todos esos particulares, un tablón de anuncios mundial.
Ambos coincidían en que esas noticias podían ser un buen material válido para los medios alternativos más tradicionales: radios libres, boletines de barrio, etc... Somos conscientes que internet es un medio limitado a una elite tecnológica, en nuestra opinión el proceso de difusión se cumple verdaderamente cuando nuestras informaciones saltan de la pantalla a otro medio, digamos más popular: una radio, una humilde publicación escrita.
Rebelión nace así en el otoño de 1996, a mi vuelta de Colombia. Una de nuestras primeras informaciones fue publicar una propuesta de paz de las FARC, absolutamente silenciada en Colombia. Dos semanas después nos llegaba una amenaza de un alto mando militar colombiano. La prensa colombiana comenzó a publicar la existencia de una web de la guerrilla, y nos llovieron las amenazas de muerte. Después lo haría la prensa española. Cualquiera que entrase entonces en Rebelión podía ver que otro de los temas estrellas de nuestra sección de Internacional era la lucha de Timor por la independencia, no parecía que fuese un tema que tratase la guerrilla colombiana, lo que evidenciaba la falta de sustentación de las acusaciones.
Siguiendo las recomendaciones de amigos colombianos decidimos ocultar las identidades y los correos electrónicos, tampoco participamos públicamente en ningún tipo de actos.
Poco a poco, Rebelión iba desenvolviéndose con total naturalidad entre los colectivos y organizaciones que luchaban por otro mundo más justo.
Teníamos contacto directo y credibilidad con todos ellos, nos relacionábamos en tiempo real, nos confirmaban o desmentían lo que se decía de ellos. El acoso contra nosotros no cesaba: amenazas, insultos, intentos de infiltración.
Pero el número de lectores, colaboradores y corresponsales no cesaba de crecer. Cada acontecimiento de relevancia mundial multiplica los accesos a Rebelión: el asalto a la embajada japonesa en Lima, la guerra de Kosovo, la guerra de Ruanda, la llegada al poder de Kabila en el Congo, las manifestaciones de Seattle...
Los apoyos y ánimos son constantes, la mayoría de los intelectuales y firmas acreditadas de la izquierda nos mandan espontáneamente sus colaboradores desinteresadamente. Nadie, por prestigioso que sea, nos niega sus colaboraciones. Lo que, por otro lado, demuestra la voluntad de ayuda y desinterés de tantas y tantas personas. Recibimos una media de cuatrocientos correos diarios. Hace una semana, ante las peticiones de algunos lectores que nos solicitaban el envío de las informaciones porque no podían estar conectados mucho tiempo, pedimos la colaboración de voluntarios dispuestos a coger las informaciones y mandarlas a esos lectores. A las dos horas tuvimos que quitar el llamamiento porque habíamos recibido doscientos ofrecimientos.
A pesar de todo ello, seguimos fieles a nuestros proyecto original, en el que, entre otras cosas, no se contempla la existencia de publicidad.
Y no es por humildad, de verdad, pero creo que ese éxito de accesos, dos millones de páginas leídas el mes de noviembre, no es tanto un mérito de Rebelión, como la sensación y confirmación generalizada de los ciudadanos del mundo de que la información que les dan los grandes medios no es la verdadera.
Si media docena de tipos, sin dinero, sin recursos, con solamente su ordenador personal son capaces de ser un referente en la contrainformación en castellano es porque a toda esa banda de vasallos y mercenarios de los grandes emporios económicos, que se enriquecen engañando, mintiendo y ocultando desde sus medios de comunicación están absolutamente desacreditados.
Probablemente esta facultad siga intentando enviar ese mensaje de imparcialidad, independencia y objetividad del periodismo. Eso no se lo cree ya nadie, la información es una guerra, una guerra entre modelos sociales.
Entre apologetas de un mundo desigual, injusto, mandando por depravados y auténticos terroristas que imponen a sangre y fuego un modelo económico que condena a muerte a miles de personas en todo el mundo y los que apostamos por estar al servicio de los grupos, movimientos, intelectuales y luchadores que todos los días se juegan la vida por defender otro modelo de mundo posible. Los primeros informan de los oscar, el fútbol, las ruedas de prensa de los grandes conglomerados empresariales o las declaraciones de los grandes partidos políticos. Nosotros, y otros muchos, hemos decidido informar de los crímenes que cometen los paramilitares en Colombia, de cómo son perseguidas las minorías étnicas ahora en el Kosovo otanizado, de las cifras de pobreza de EEUU que todos ocultan, de cómo están conspirando para provocar un golpe de estado en Venezuela o de cómo se están levantando los indígenas en Bolivia o en Ecuador. Me temo que esta visión del periodismo es otra de las tantas cosas que no se enseñaba en la facultad.
Yo soy consciente de que estamos en una facultad donde los estudiantes aspiran a licenciarse en periodismo, trabajar de periodistas y vivir de ello.
Mucho me temo que el futuro laboral suele ser en esos gabinetes de comunicación al servicio de imágenes corporativas e instituciones, en medios de comunicación con instrucciones precisas de servir diligentemente a accionistas y anunciantes. Yo os pido que nunca olvidéis que los profesionales de la comunicación tenemos una obligación moral, la obligación moral de informar al mundo sobre tantas y tantas luchas de hombres y mujeres que lucha por su supervivencia y su dignidad. Ellos no organizan lujosas ruedas de prensa, ni invitan a cenar a los periodistas, ni ofrecen bonitos y esplendorosos dosiers de prensa en papel couché. Los jefes de las empresas que os darán trabajo no tienen ningún interés por llevar a la sociedad la verdad, ellos son dueños o asalariados al servicio de un proyecto económico. No van a denunciar las masacres del gobierno kuwaití si peligra la publicidad de las petroleras; ni van a informar de los despidos en El Corte Inglés en plena campaña de Navidad; ni de las condiciones laborales de los trabajadores del BBVA, si es una de las empresas accionistas de ese medio.
Vuelvo de nuevo a pediros que, cuando estéis atravesando la impoluta moqueta de un ministerio acudiendo a una rueda de prensa de un ministro de trabajo, os acordéis de que quizás los inmigrantes ilegales que trabajan en El Ejido, también tienen muchos asuntos laborales para informar en rueda de prensa.
Que cuando os llegue un dosier con brillantes gráficos de barras y quesos de una petrolera que opera en México, penséis en esos indígenas que han expulsado de sus tierras para que extraer el petróleo, ellos también podrían facilitar muchos datos para un buen dosier de prensa.
Esas gentes también tienen derechos a ser oídos, su voz también debe ser llevada a nuestras páginas, nuestras ondas o nuestras imágenes. Además, es un derecho de los ciudadanos del mundo escucharles.
Muchas gracias
Volver después de diez años a la que fue mi facultad no deja de tener un especial valor sentimental para mi. Si además es para explicar un proyecto informativo por el que un grupo de apasionados trabajamos desde hace más de seis años, mi ilusión no puede ser mayor.
En principio Rebelión no es otra cosa que una página web con contenidos informativos diarios que la convierten en un periódico electrónico, una agencia de prensa e incluso una revista de prensa en la medida en que reflejamos informaciones procedentes de otros medios. Cuenta con las habituales secciones de Internacional, Movimientos Sociales, Cultura, Ecología, Derechos Humanos, etc... Así como especiales informativos sobre grandes acontecimientos de actualidad, en este momento, venezuela, la política militar de EEUU, la crisis argentina, la nueva era en Brasil... Y ahora también la sección Mentiras y Medios que venimos a presentar a esta facultad.
Rebelión nace del encuentro entre una propuesta informática y un proyecto periodístico. No olvidemos que seis años atrás en informática es hablar del neolítico, hasta la idea de una página web era innovadora, el número de personas que accedían entonces a internet era mínimo comparado con ahora.
El informático sugería la viabilidad de poder poner con coste económico cero un servicio de noticias disponible para el mundo entero, el periodista afirmaba que el uso del correo electrónico estaba permitiendo un fácil acceso a la información alternativa para los periodistas que estuviesen dispuestos a apostar por esa información.
El informático conocía toda la técnica necesaria para el proyecto, hace seis años, repito, esa técnica no estaba tan generalizada. El periodista, llevaba años ya trabajando en esa otra información.
Ambos coincidían en el silencio de los grandes medios sobre los atropellos que sufrían los pueblos, las denuncias de colectivos ecologistas o de derechos humanos, las luchas de importantes grupos de liberación. Existía todo otro modelo de noticias diferente al impuesto por los grandes emporios. Internet ya había conseguido inmediatizar con el correo electrónico la comunicación entre individuos, la pregunta es si podíamos ahora pensar en crear un soporte común para todos esos particulares, un tablón de anuncios mundial.
Ambos coincidían en que esas noticias podían ser un buen material válido para los medios alternativos más tradicionales: radios libres, boletines de barrio, etc... Somos conscientes que internet es un medio limitado a una elite tecnológica, en nuestra opinión el proceso de difusión se cumple verdaderamente cuando nuestras informaciones saltan de la pantalla a otro medio, digamos más popular: una radio, una humilde publicación escrita.
Rebelión nace así en el otoño de 1996, a mi vuelta de Colombia. Una de nuestras primeras informaciones fue publicar una propuesta de paz de las FARC, absolutamente silenciada en Colombia. Dos semanas después nos llegaba una amenaza de un alto mando militar colombiano. La prensa colombiana comenzó a publicar la existencia de una web de la guerrilla, y nos llovieron las amenazas de muerte. Después lo haría la prensa española. Cualquiera que entrase entonces en Rebelión podía ver que otro de los temas estrellas de nuestra sección de Internacional era la lucha de Timor por la independencia, no parecía que fuese un tema que tratase la guerrilla colombiana, lo que evidenciaba la falta de sustentación de las acusaciones.
Siguiendo las recomendaciones de amigos colombianos decidimos ocultar las identidades y los correos electrónicos, tampoco participamos públicamente en ningún tipo de actos.
Poco a poco, Rebelión iba desenvolviéndose con total naturalidad entre los colectivos y organizaciones que luchaban por otro mundo más justo.
Teníamos contacto directo y credibilidad con todos ellos, nos relacionábamos en tiempo real, nos confirmaban o desmentían lo que se decía de ellos. El acoso contra nosotros no cesaba: amenazas, insultos, intentos de infiltración.
Pero el número de lectores, colaboradores y corresponsales no cesaba de crecer. Cada acontecimiento de relevancia mundial multiplica los accesos a Rebelión: el asalto a la embajada japonesa en Lima, la guerra de Kosovo, la guerra de Ruanda, la llegada al poder de Kabila en el Congo, las manifestaciones de Seattle...
Los apoyos y ánimos son constantes, la mayoría de los intelectuales y firmas acreditadas de la izquierda nos mandan espontáneamente sus colaboradores desinteresadamente. Nadie, por prestigioso que sea, nos niega sus colaboraciones. Lo que, por otro lado, demuestra la voluntad de ayuda y desinterés de tantas y tantas personas. Recibimos una media de cuatrocientos correos diarios. Hace una semana, ante las peticiones de algunos lectores que nos solicitaban el envío de las informaciones porque no podían estar conectados mucho tiempo, pedimos la colaboración de voluntarios dispuestos a coger las informaciones y mandarlas a esos lectores. A las dos horas tuvimos que quitar el llamamiento porque habíamos recibido doscientos ofrecimientos.
A pesar de todo ello, seguimos fieles a nuestros proyecto original, en el que, entre otras cosas, no se contempla la existencia de publicidad.
Y no es por humildad, de verdad, pero creo que ese éxito de accesos, dos millones de páginas leídas el mes de noviembre, no es tanto un mérito de Rebelión, como la sensación y confirmación generalizada de los ciudadanos del mundo de que la información que les dan los grandes medios no es la verdadera.
Si media docena de tipos, sin dinero, sin recursos, con solamente su ordenador personal son capaces de ser un referente en la contrainformación en castellano es porque a toda esa banda de vasallos y mercenarios de los grandes emporios económicos, que se enriquecen engañando, mintiendo y ocultando desde sus medios de comunicación están absolutamente desacreditados.
Probablemente esta facultad siga intentando enviar ese mensaje de imparcialidad, independencia y objetividad del periodismo. Eso no se lo cree ya nadie, la información es una guerra, una guerra entre modelos sociales.
Entre apologetas de un mundo desigual, injusto, mandando por depravados y auténticos terroristas que imponen a sangre y fuego un modelo económico que condena a muerte a miles de personas en todo el mundo y los que apostamos por estar al servicio de los grupos, movimientos, intelectuales y luchadores que todos los días se juegan la vida por defender otro modelo de mundo posible. Los primeros informan de los oscar, el fútbol, las ruedas de prensa de los grandes conglomerados empresariales o las declaraciones de los grandes partidos políticos. Nosotros, y otros muchos, hemos decidido informar de los crímenes que cometen los paramilitares en Colombia, de cómo son perseguidas las minorías étnicas ahora en el Kosovo otanizado, de las cifras de pobreza de EEUU que todos ocultan, de cómo están conspirando para provocar un golpe de estado en Venezuela o de cómo se están levantando los indígenas en Bolivia o en Ecuador. Me temo que esta visión del periodismo es otra de las tantas cosas que no se enseñaba en la facultad.
Yo soy consciente de que estamos en una facultad donde los estudiantes aspiran a licenciarse en periodismo, trabajar de periodistas y vivir de ello.
Mucho me temo que el futuro laboral suele ser en esos gabinetes de comunicación al servicio de imágenes corporativas e instituciones, en medios de comunicación con instrucciones precisas de servir diligentemente a accionistas y anunciantes. Yo os pido que nunca olvidéis que los profesionales de la comunicación tenemos una obligación moral, la obligación moral de informar al mundo sobre tantas y tantas luchas de hombres y mujeres que lucha por su supervivencia y su dignidad. Ellos no organizan lujosas ruedas de prensa, ni invitan a cenar a los periodistas, ni ofrecen bonitos y esplendorosos dosiers de prensa en papel couché. Los jefes de las empresas que os darán trabajo no tienen ningún interés por llevar a la sociedad la verdad, ellos son dueños o asalariados al servicio de un proyecto económico. No van a denunciar las masacres del gobierno kuwaití si peligra la publicidad de las petroleras; ni van a informar de los despidos en El Corte Inglés en plena campaña de Navidad; ni de las condiciones laborales de los trabajadores del BBVA, si es una de las empresas accionistas de ese medio.
Vuelvo de nuevo a pediros que, cuando estéis atravesando la impoluta moqueta de un ministerio acudiendo a una rueda de prensa de un ministro de trabajo, os acordéis de que quizás los inmigrantes ilegales que trabajan en El Ejido, también tienen muchos asuntos laborales para informar en rueda de prensa.
Que cuando os llegue un dosier con brillantes gráficos de barras y quesos de una petrolera que opera en México, penséis en esos indígenas que han expulsado de sus tierras para que extraer el petróleo, ellos también podrían facilitar muchos datos para un buen dosier de prensa.
Esas gentes también tienen derechos a ser oídos, su voz también debe ser llevada a nuestras páginas, nuestras ondas o nuestras imágenes. Además, es un derecho de los ciudadanos del mundo escucharles.
Muchas gracias
blog do miro - A mídia brasileira é corrupta?
Roni Chira, publicado no blog O que será que me dá?
Corromper ou subornar são verbos tão antigos como a própria história da humanidade. No Brasil, vão desde aquela singela cervejinha para o guarda de trânsito – mais conhecida como o “jeitinho brasileiro” – até o que Chico Buarque expressou genialmente em “Vai Passar”:
Dormia a nossa Pátria mãe
tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Os mecanismos de “subtração” aos quais Chico se referia florescem muito mais onde não há democracia, direitos humanos e justiça social. No Brasil, ganharam maior consistência nos bastidores da ditadura militar, onde a classe política foi imobilizada após o fechamento do congresso pelo AI-5 em 1968. Num cenário destes, qualquer “favorzinho” era negociado na base de propina. Do segundo escalão para baixo do governo militar, a corrupção corria solta enquanto a “Pátria mãe dormia”.
Muita gente usou deste recurso, muitas empresas cresceram quando tiveram “visão de mercado” aliando-se aos governos militares de forma pragmática. Falha e Globo são exemplos clássicos disso.
Quando recebeu das mãos dos militares a concessão pública para operar em território nacional, a Globo era associada ilegalmente ao grupo americano Time-Life. Significa que além de darem suporte logístico e até militar aos generais (frota marítima americana estacionada na costa brasileira pronta para qualquer intervenção que se fizesse necessária para garantir a “normalidade da ordem golpista”) – os americanos também atuaram na outra ponta do esquema.
Para sustentar-se, o governo militar precisava ter voz e apoio na mídia. Isso é fundamental em qualquer golpe (até o surgimento da Internet). Assim, associados à Time-Life que injetou o capital necessário, os militares e o jornalista Roberto Marinho vitaminaram o grupo Globo – Jornal e TV para tornaram-se a potência que são hoje. As diretrizes básicas: alinhamento e subordinação total do país aos interesses americanos na região.
Devemos lembrar que naquela época, os monopólios midiáticos ainda estavam engatinhando no Brasil. A Record – que era a vanguarda da TV brasileira – possuía uma única emissora e um auditório com estúdio na Rua da Consolação. Silvio Santos começava a engatinhar com seu Baú e o horário “nobre” da Globo era um pastelão de luta livre que apresentava Ted Boy Marino – o “galã” da emissora. Havia um enorme espaço a ser ocupado para quem incorporasse a ideologia de subserviência aos EUA. A Falha era um jornaleco provinciano. Ofereceu-se como uma prostituta barata à ditadura. O Estadão representava a ultradireita 100% nacionalista.
No ambiente de 64 e nos anos que se seguiram, os caminhos eram estreitos: hipocrisia ou clandestinidade. No prisma da hipocrisia formaram-se políticos como Maluf e Serra. Um lambeu muita botina de milico até adquirir “maioridade” e caminhar com as próprias pernas, recebendo verbas públicas através do voto popular. “Roubou mas fez” – como dizem os paulistas “espertos” que o fazem campeão de votos em cada eleição que participa. O outro chutou a UNE para o alto e deu no pé quando sentiu o cheiro de botina de milico. Só retornou para lamber os sapatos da elite paulista e através dela e de sua imprensa, conseguir eleger-se a cargos públicos.
O exemplo mais grave de corrupção no Brasil deu-se no final do primeiro mandato de FHC: a compra de votos parlamentares para aprovar a emenda constitucional que garantiria a reeleição do presidente. Foi um golpe de estado do colarinho branco. E, mais uma vez, precisava da mídia. Ou melhor, de sua omissão. O PIG não fez cerimônia: tratou o caso como um mexerico que não merecia mais do que algumas notas de rodapé em seus jornais. Há transgressão maior do que corromper para obter mais um mandato?
Já em 2005, as doações ao caixa dois do PT – que foram usadas para o financiamento de campanhas de diversos parlamentares e envolveram todos os partidos – foram um banquete para o PIG. A partir da denúncia de Roberto Jefferson (que embolsou R$ 4 milhões) armou-se um circo “nunca antes visto neste país”. Em seu embalo golpista, a imprensa amplificou e batizou o esquema de mensalão. Plantou a idéia de que as verbas do esquema eram roubadas dos cofres públicos através de um labirinto de factoides e personagens emaranhados em intermináveis conexões.
E essa percepção continua a ser alimentada ou, para se dizer o mínimo, nunca foi contestada. Até hoje não foi provado que o tal mensalão era um procedimento mensal. Muito menos que utilizava verbas públicas. Rendeu a cabeça de José Dirceu, e quase derrubou Lula. José Dirceu, aliás, não renunciou para garantir elegibilidade, como a maioria dos acusados fez na época. Preferiu submeter-se à cassação e perder seus direitos políticos convicto de que, mais tarde, provaria sua inocência. A conferir.
Enquanto FHC e os que o antecederam controlavam a mídia e a Polícia Federal, engavetando denúncias e processos de diversas falcatruas que “subtraiam a Pátria”, Lula fez o oposto: deu total autonomia à PF e não impediu nenhuma CPI. Isso gerou números bem contrastantes (veja aqui). E o PIG tratou de configurar estes números como uma avalanche de corrupção orquestrada pelo PT. Colou? Além de colar fácil nas cabeças preconceituosas que não admitiam um operário ser presidente, também criou uma legião de cães raivosos empesteando a sociedade com palavras de ordem fascistas.
O episódio do mensalão ainda aguarda julgamento para ser passado a limpo. É uma dívida que a justiça e o PT têm com a sociedade brasileira. E a imprensa corrupta e golpista? Continuará impune até quando?
Corromper ou subornar são verbos tão antigos como a própria história da humanidade. No Brasil, vão desde aquela singela cervejinha para o guarda de trânsito – mais conhecida como o “jeitinho brasileiro” – até o que Chico Buarque expressou genialmente em “Vai Passar”:
Dormia a nossa Pátria mãe
tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Os mecanismos de “subtração” aos quais Chico se referia florescem muito mais onde não há democracia, direitos humanos e justiça social. No Brasil, ganharam maior consistência nos bastidores da ditadura militar, onde a classe política foi imobilizada após o fechamento do congresso pelo AI-5 em 1968. Num cenário destes, qualquer “favorzinho” era negociado na base de propina. Do segundo escalão para baixo do governo militar, a corrupção corria solta enquanto a “Pátria mãe dormia”.
Muita gente usou deste recurso, muitas empresas cresceram quando tiveram “visão de mercado” aliando-se aos governos militares de forma pragmática. Falha e Globo são exemplos clássicos disso.
Quando recebeu das mãos dos militares a concessão pública para operar em território nacional, a Globo era associada ilegalmente ao grupo americano Time-Life. Significa que além de darem suporte logístico e até militar aos generais (frota marítima americana estacionada na costa brasileira pronta para qualquer intervenção que se fizesse necessária para garantir a “normalidade da ordem golpista”) – os americanos também atuaram na outra ponta do esquema.
Para sustentar-se, o governo militar precisava ter voz e apoio na mídia. Isso é fundamental em qualquer golpe (até o surgimento da Internet). Assim, associados à Time-Life que injetou o capital necessário, os militares e o jornalista Roberto Marinho vitaminaram o grupo Globo – Jornal e TV para tornaram-se a potência que são hoje. As diretrizes básicas: alinhamento e subordinação total do país aos interesses americanos na região.
Devemos lembrar que naquela época, os monopólios midiáticos ainda estavam engatinhando no Brasil. A Record – que era a vanguarda da TV brasileira – possuía uma única emissora e um auditório com estúdio na Rua da Consolação. Silvio Santos começava a engatinhar com seu Baú e o horário “nobre” da Globo era um pastelão de luta livre que apresentava Ted Boy Marino – o “galã” da emissora. Havia um enorme espaço a ser ocupado para quem incorporasse a ideologia de subserviência aos EUA. A Falha era um jornaleco provinciano. Ofereceu-se como uma prostituta barata à ditadura. O Estadão representava a ultradireita 100% nacionalista.
No ambiente de 64 e nos anos que se seguiram, os caminhos eram estreitos: hipocrisia ou clandestinidade. No prisma da hipocrisia formaram-se políticos como Maluf e Serra. Um lambeu muita botina de milico até adquirir “maioridade” e caminhar com as próprias pernas, recebendo verbas públicas através do voto popular. “Roubou mas fez” – como dizem os paulistas “espertos” que o fazem campeão de votos em cada eleição que participa. O outro chutou a UNE para o alto e deu no pé quando sentiu o cheiro de botina de milico. Só retornou para lamber os sapatos da elite paulista e através dela e de sua imprensa, conseguir eleger-se a cargos públicos.
O exemplo mais grave de corrupção no Brasil deu-se no final do primeiro mandato de FHC: a compra de votos parlamentares para aprovar a emenda constitucional que garantiria a reeleição do presidente. Foi um golpe de estado do colarinho branco. E, mais uma vez, precisava da mídia. Ou melhor, de sua omissão. O PIG não fez cerimônia: tratou o caso como um mexerico que não merecia mais do que algumas notas de rodapé em seus jornais. Há transgressão maior do que corromper para obter mais um mandato?
Já em 2005, as doações ao caixa dois do PT – que foram usadas para o financiamento de campanhas de diversos parlamentares e envolveram todos os partidos – foram um banquete para o PIG. A partir da denúncia de Roberto Jefferson (que embolsou R$ 4 milhões) armou-se um circo “nunca antes visto neste país”. Em seu embalo golpista, a imprensa amplificou e batizou o esquema de mensalão. Plantou a idéia de que as verbas do esquema eram roubadas dos cofres públicos através de um labirinto de factoides e personagens emaranhados em intermináveis conexões.
E essa percepção continua a ser alimentada ou, para se dizer o mínimo, nunca foi contestada. Até hoje não foi provado que o tal mensalão era um procedimento mensal. Muito menos que utilizava verbas públicas. Rendeu a cabeça de José Dirceu, e quase derrubou Lula. José Dirceu, aliás, não renunciou para garantir elegibilidade, como a maioria dos acusados fez na época. Preferiu submeter-se à cassação e perder seus direitos políticos convicto de que, mais tarde, provaria sua inocência. A conferir.
Enquanto FHC e os que o antecederam controlavam a mídia e a Polícia Federal, engavetando denúncias e processos de diversas falcatruas que “subtraiam a Pátria”, Lula fez o oposto: deu total autonomia à PF e não impediu nenhuma CPI. Isso gerou números bem contrastantes (veja aqui). E o PIG tratou de configurar estes números como uma avalanche de corrupção orquestrada pelo PT. Colou? Além de colar fácil nas cabeças preconceituosas que não admitiam um operário ser presidente, também criou uma legião de cães raivosos empesteando a sociedade com palavras de ordem fascistas.
O episódio do mensalão ainda aguarda julgamento para ser passado a limpo. É uma dívida que a justiça e o PT têm com a sociedade brasileira. E a imprensa corrupta e golpista? Continuará impune até quando?
domingo, 30 de janeiro de 2011
mídia e poder - Tucano comprando jornalista
Vários dos 41 suplentes de deputado federal que assumiram o mandato apenas no mês de janeiro, de férias legislativas, usaram a verba de custeio da atividade parlamentar. Até quinta, os "deputados de verão" já haviam consumido R$ 186 mil só nessa rubrica.
Apesar do Congresso fechado e da brevidade do mandato-tampão, há gastos elevados com consultorias, "divulgação do mandato", combustível, aluguel de carros, restaurantes e telegramas. O suplente Flávio Antunes (PSDB-PR), por exemplo, remunerou em R$ 5.000 um jornal de sua região. Sua assessoria diz que pelo acerto o veículo divulgava releases do deputado e destacava repórter para cobrir suas atividades.-Notinha da Renata Lo Prete
Apesar do Congresso fechado e da brevidade do mandato-tampão, há gastos elevados com consultorias, "divulgação do mandato", combustível, aluguel de carros, restaurantes e telegramas. O suplente Flávio Antunes (PSDB-PR), por exemplo, remunerou em R$ 5.000 um jornal de sua região. Sua assessoria diz que pelo acerto o veículo divulgava releases do deputado e destacava repórter para cobrir suas atividades.-Notinha da Renata Lo Prete
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
internet mídia e poder - Urgência da restrição à propriedade cruzada - Laurindo Lalo Leal Filho - Carta Maior
Urgência da restrição à propriedade cruzada
A mídia derrotada nas eleições presidenciais prossegue em campanha para pautar o novo governo segundo seus interesses. A última é do Estadão de quinta-feira (27), informando em manchete de primeira página que o governo desistiu de incluir a propriedade cruzada no projeto de regulação da mídia.
O blogueiro Eduardo Guimarães perguntou logo cedo ao ministro Paulo Bernardo, via twitter, se isso era verdade. Resposta: “Bom dia, meu caro! Basta ler a matéria para concluir que não decidimos nada. Quando houver decisão enviaremos ao Congresso”.
É verdade, não há nenhum dado concreto que confirme a manchete da capa: “Convergência de mídias leva governo a desistir de veto à propriedade cruzada”.
O texto, além disso estabelece uma confusão entre meios impressos e eletrônicos. Chega a dizer que “propriedade cruzada é o domínio, pelo mesmo grupo de comunicação, de concessões para operar diferentes plataformas (TV, jornal e portais)”.
Mistura na mesma frase meios que legalmente são concedidos pelo Estado em nome da sociedade (TV, e também o rádio) com aqueles que operam em circuitos privados, sem interferência direta do poder público, como jornais, revistas e portais na internet.
No Brasil uma nova lei de meios tem que dar conta, entre outras coisas, de dois tipos de regulação. Uma específica para o rádio e a TV cujos concessionários ocupam o espectro eletromagnético, escasso e finito. Outra dando conta da mídia em geral.
No primeiro caso, trata-se de um bem público (o espectro eletromagnético) utilizado por particulares que, por isso, devem se submeter a regras precisas de controle social.
Nada ilegal ou arbitrário. Ao se candidatarem a uma concessão os interessados deveriam deixar claro que tipo de serviço será prestado à sociedade e de que forma.
Assinariam um compromisso com o Estado, conhecido em alguns países como “caderno de encargos”, onde estariam detalhados seus direitos e deveres. Ao final, o contrato deveria ser avaliado pelo órgão regulador (hoje inexistente) podendo vir a ser renovado ou não.
A lei atual, benevolente, estabelece um período de dez anos para as concessões de rádio e de quinze para a televisão. E as renovações são praticamente automáticas passando por trâmites burocráticos, ainda que submetidas ao Congresso nacional.
O segundo caso, referente aos jornais e revistas não tem nada a ver com isso. São empreendimentos particulares que trafegam por canais privados. Não se submetem a concessões como sugere o Estadão.
Mas nem por isso podem deixar de se submeter à leis específicas, como a de imprensa que garantia o direito de resposta e foi suprimida.
E também aos limites da propriedade cruzada. O Estadão afirma que “o desenvolvimento tecnológico tornou a discussão (sobre propriedade cruzada) obsoleta” e que “o conceito de convergência de mídias, que consolidou o tráfego simultâneo de dados e noticiários em todas as plataformas - da impressa à digital -, pôs na mesa do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, um projeto de concessão única”.
Nada mais falacioso. Primeiro porque formas de produção e circulação de dados e noticiários em diferentes plataformas não tem nada a ver com a propriedade cruzada. Esta diz respeito a organização societária dos conglomerados e, o mais importante, a sua abrangência sobre a sociedade.
A lei atual, ainda que burlada, determina um máximo de cinco concessões de TV para o mesmo grupo, em cidades diferentes, sendo cinco em VHF e cinco em UHF. Mas não impede que esses concessionários sejam proprietários de jornais ou revistas, por exemplo.
Pela lei implacável do mercado, a tendência é que alguns grupos se tornem gradativamente hegemônicos em suas regiões e mesmo no país.
Com isso passam a monopolizar todas as formas de comunicação existentes, impedindo o confronto de idéias e restringindo a diversidade cultural.
Os limites à propriedade cruzada, portanto, devem ter como referência o tamanho do público atingido pelas empresas de comunicações, sejam ouvintes, leitores, telespectadores e até mesmo internautas. Junto com restrições mais rigorosas à propriedade de diferentes meios nas mesmas áreas geográficas.
É o que ocorre em países democráticos como forma de evitar que o pensamento único se consolide. Trata-se de garantir a liberdade através da multiplicação de vozes e não de restringi-la como alardeiam os interessados em manter tudo como está. Apelando algumas vezes, como se viu, para a confusão.
A mídia derrotada nas eleições presidenciais prossegue em campanha para pautar o novo governo segundo seus interesses. A última é do Estadão de quinta-feira (27), informando em manchete de primeira página que o governo desistiu de incluir a propriedade cruzada no projeto de regulação da mídia.
O blogueiro Eduardo Guimarães perguntou logo cedo ao ministro Paulo Bernardo, via twitter, se isso era verdade. Resposta: “Bom dia, meu caro! Basta ler a matéria para concluir que não decidimos nada. Quando houver decisão enviaremos ao Congresso”.
É verdade, não há nenhum dado concreto que confirme a manchete da capa: “Convergência de mídias leva governo a desistir de veto à propriedade cruzada”.
O texto, além disso estabelece uma confusão entre meios impressos e eletrônicos. Chega a dizer que “propriedade cruzada é o domínio, pelo mesmo grupo de comunicação, de concessões para operar diferentes plataformas (TV, jornal e portais)”.
Mistura na mesma frase meios que legalmente são concedidos pelo Estado em nome da sociedade (TV, e também o rádio) com aqueles que operam em circuitos privados, sem interferência direta do poder público, como jornais, revistas e portais na internet.
No Brasil uma nova lei de meios tem que dar conta, entre outras coisas, de dois tipos de regulação. Uma específica para o rádio e a TV cujos concessionários ocupam o espectro eletromagnético, escasso e finito. Outra dando conta da mídia em geral.
No primeiro caso, trata-se de um bem público (o espectro eletromagnético) utilizado por particulares que, por isso, devem se submeter a regras precisas de controle social.
Nada ilegal ou arbitrário. Ao se candidatarem a uma concessão os interessados deveriam deixar claro que tipo de serviço será prestado à sociedade e de que forma.
Assinariam um compromisso com o Estado, conhecido em alguns países como “caderno de encargos”, onde estariam detalhados seus direitos e deveres. Ao final, o contrato deveria ser avaliado pelo órgão regulador (hoje inexistente) podendo vir a ser renovado ou não.
A lei atual, benevolente, estabelece um período de dez anos para as concessões de rádio e de quinze para a televisão. E as renovações são praticamente automáticas passando por trâmites burocráticos, ainda que submetidas ao Congresso nacional.
O segundo caso, referente aos jornais e revistas não tem nada a ver com isso. São empreendimentos particulares que trafegam por canais privados. Não se submetem a concessões como sugere o Estadão.
Mas nem por isso podem deixar de se submeter à leis específicas, como a de imprensa que garantia o direito de resposta e foi suprimida.
E também aos limites da propriedade cruzada. O Estadão afirma que “o desenvolvimento tecnológico tornou a discussão (sobre propriedade cruzada) obsoleta” e que “o conceito de convergência de mídias, que consolidou o tráfego simultâneo de dados e noticiários em todas as plataformas - da impressa à digital -, pôs na mesa do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, um projeto de concessão única”.
Nada mais falacioso. Primeiro porque formas de produção e circulação de dados e noticiários em diferentes plataformas não tem nada a ver com a propriedade cruzada. Esta diz respeito a organização societária dos conglomerados e, o mais importante, a sua abrangência sobre a sociedade.
A lei atual, ainda que burlada, determina um máximo de cinco concessões de TV para o mesmo grupo, em cidades diferentes, sendo cinco em VHF e cinco em UHF. Mas não impede que esses concessionários sejam proprietários de jornais ou revistas, por exemplo.
Pela lei implacável do mercado, a tendência é que alguns grupos se tornem gradativamente hegemônicos em suas regiões e mesmo no país.
Com isso passam a monopolizar todas as formas de comunicação existentes, impedindo o confronto de idéias e restringindo a diversidade cultural.
Os limites à propriedade cruzada, portanto, devem ter como referência o tamanho do público atingido pelas empresas de comunicações, sejam ouvintes, leitores, telespectadores e até mesmo internautas. Junto com restrições mais rigorosas à propriedade de diferentes meios nas mesmas áreas geográficas.
É o que ocorre em países democráticos como forma de evitar que o pensamento único se consolide. Trata-se de garantir a liberdade através da multiplicação de vozes e não de restringi-la como alardeiam os interessados em manter tudo como está. Apelando algumas vezes, como se viu, para a confusão.
mídia e poder - Novo governo, novos rumos - REGULAÇÃO EM DEBATE - observatório da imprensa
Por Luciano Martins Costa em 27/1/2011
Comentário para o programa radiofônico do OI, 27/1/2011
Manchete da edição de quinta-feira (27/1) do Estado de S.Paulo coloca em outros padrões o debate sobre a regulação da mídia no Brasil. O ponto principal da reportagem é a notícia de que o governo teria decidido abandonar a questão da propriedade cruzada dos meios de comunicação, pelo fato de que o desenvolvimento das tecnologias tornou obsoleto esse tema.
O jornal lembra que a tendência de convergência das mídias, "que consolidou o tráfego simultâneo de dados e noticiário em todas as plataformas", conduz a uma proposta de concessão única. A constatação, que parece óbvia, abre um enorme leque de outras divergências. Por exemplo, como conciliar a regulamentação das emissoras de televisão e rádio, serviços de concessão pública, com a liberdade dos sites, portais e outros formatos da internet, e com os veículos de papel, regidos por normas comerciais simples?
Segundo a versão dada pelo Estadão, o ponto principal da mudança seria a determinação da presidente Dilma Rousseff para que a questão seja menos discutida em termos ideológicos e contemple mais os aspectos constitucionais e tecnológicos.
Ameaça irreal
Não há como escapar de uma comparação entre a atual presidente e seu antecessor e mentor, o ex-presidente Lula da Silva. Também entram no crivo os perfis do antigo ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social Franklin Martins e do atual ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, assim como a transferência das atribuições da regulamentação de um ministério para o outro.
Colocado no centro das discussões e do confronto com a mídia, Franklin Martins ficou marcado pelas acusações, feitas pela imprensa, de que pretenderia restringir a liberdade de informação. Embora nunca tenha havido um movimento real do governo anterior no sentido de estabelecer restrições para a imprensa, essa foi a imagem plantada pela mídia.
Os jornais destacam ultimamente o compromisso formal da atual presidente com a liberdade de informação, como se o ex-presidente Lula da Silva tivesse representado um perigo para a imprensa. Da mesma forma, estendem um tapete vermelho para o atual ministro das Comunicações, forçando um contraponto com Franklin Martins que está apenas nos artigos e editoriais da imprensa.
Nunca houve uma ameaça real à liberdade de imprensa durante o governo anterior.
A tecnologia liberta
As primeiras especulações sobre mudanças na legislação sobre as comunicações dão conta de que o atual governo pretende regulamentar o setor de forma abrangente. Assim, devem entrar em novo ciclo de debates a questão da propriedade de concessões de rádio e TV por parlamentares, as atribuições da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a limitação de capital estrangeiro na mídia.
Segundo o Estado de S.Paulo, a tendência é que essas questões sejam separadas entre si e tratadas isoladamente, para evitar desgastes para o governo. Existem ainda as questões da produção nacional, regional e independente, que o governo pretende estimular, e a regulamentação sobre a adequação de conteúdos.
Como se pode perceber, embora o Estadão esteja comemorando discretamente uma alteração de rumos, ainda não se sabe onde essa mudança vai dar. O jornalão paulista aposta, por exemplo, o governo vai defender a extensão aos meios digitais do limite de 30% de capital estrangeiro, que hoje vigora para a mídia impressa, televisão e rádio. No entanto, a mesma tecnologia apontada como razão para se considerar superado o debate sobre a convergência de mídias impõe um olhar mais cuidadoso sobre a questão do capital estrangeiro nos meios digitais.
Como impedir, por exemplo, que um portal noticioso seja criado na China, com conteúdo em português, com a mesma pauta dos jornais brasileiros?
Além disso, já que, segundo o jornal, o governo está dando um passo atrás para planejar um movimento mais amplo, o que pode impedir um debate aberto e sem preconceitos sobre os fundamentos da limitação do capital estrangeiro em qualquer espécie de mídia?
O mesmo argumento da tecnologia serve para o tema, uma vez que já existem aparelhos portáteis de comunicação capazes de acessar emissões multimídia, com som, imagem e texto, de qualquer lugar do mundo.
Se é para abrir o leque, tudo deve ser questionado?
Se a imprensa brasileira está pensando que a regulamentação vai consolidar privilégios, pode estar redondamente equivocada.
Comentário para o programa radiofônico do OI, 27/1/2011
Manchete da edição de quinta-feira (27/1) do Estado de S.Paulo coloca em outros padrões o debate sobre a regulação da mídia no Brasil. O ponto principal da reportagem é a notícia de que o governo teria decidido abandonar a questão da propriedade cruzada dos meios de comunicação, pelo fato de que o desenvolvimento das tecnologias tornou obsoleto esse tema.
O jornal lembra que a tendência de convergência das mídias, "que consolidou o tráfego simultâneo de dados e noticiário em todas as plataformas", conduz a uma proposta de concessão única. A constatação, que parece óbvia, abre um enorme leque de outras divergências. Por exemplo, como conciliar a regulamentação das emissoras de televisão e rádio, serviços de concessão pública, com a liberdade dos sites, portais e outros formatos da internet, e com os veículos de papel, regidos por normas comerciais simples?
Segundo a versão dada pelo Estadão, o ponto principal da mudança seria a determinação da presidente Dilma Rousseff para que a questão seja menos discutida em termos ideológicos e contemple mais os aspectos constitucionais e tecnológicos.
Ameaça irreal
Não há como escapar de uma comparação entre a atual presidente e seu antecessor e mentor, o ex-presidente Lula da Silva. Também entram no crivo os perfis do antigo ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social Franklin Martins e do atual ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, assim como a transferência das atribuições da regulamentação de um ministério para o outro.
Colocado no centro das discussões e do confronto com a mídia, Franklin Martins ficou marcado pelas acusações, feitas pela imprensa, de que pretenderia restringir a liberdade de informação. Embora nunca tenha havido um movimento real do governo anterior no sentido de estabelecer restrições para a imprensa, essa foi a imagem plantada pela mídia.
Os jornais destacam ultimamente o compromisso formal da atual presidente com a liberdade de informação, como se o ex-presidente Lula da Silva tivesse representado um perigo para a imprensa. Da mesma forma, estendem um tapete vermelho para o atual ministro das Comunicações, forçando um contraponto com Franklin Martins que está apenas nos artigos e editoriais da imprensa.
Nunca houve uma ameaça real à liberdade de imprensa durante o governo anterior.
A tecnologia liberta
As primeiras especulações sobre mudanças na legislação sobre as comunicações dão conta de que o atual governo pretende regulamentar o setor de forma abrangente. Assim, devem entrar em novo ciclo de debates a questão da propriedade de concessões de rádio e TV por parlamentares, as atribuições da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a limitação de capital estrangeiro na mídia.
Segundo o Estado de S.Paulo, a tendência é que essas questões sejam separadas entre si e tratadas isoladamente, para evitar desgastes para o governo. Existem ainda as questões da produção nacional, regional e independente, que o governo pretende estimular, e a regulamentação sobre a adequação de conteúdos.
Como se pode perceber, embora o Estadão esteja comemorando discretamente uma alteração de rumos, ainda não se sabe onde essa mudança vai dar. O jornalão paulista aposta, por exemplo, o governo vai defender a extensão aos meios digitais do limite de 30% de capital estrangeiro, que hoje vigora para a mídia impressa, televisão e rádio. No entanto, a mesma tecnologia apontada como razão para se considerar superado o debate sobre a convergência de mídias impõe um olhar mais cuidadoso sobre a questão do capital estrangeiro nos meios digitais.
Como impedir, por exemplo, que um portal noticioso seja criado na China, com conteúdo em português, com a mesma pauta dos jornais brasileiros?
Além disso, já que, segundo o jornal, o governo está dando um passo atrás para planejar um movimento mais amplo, o que pode impedir um debate aberto e sem preconceitos sobre os fundamentos da limitação do capital estrangeiro em qualquer espécie de mídia?
O mesmo argumento da tecnologia serve para o tema, uma vez que já existem aparelhos portáteis de comunicação capazes de acessar emissões multimídia, com som, imagem e texto, de qualquer lugar do mundo.
Se é para abrir o leque, tudo deve ser questionado?
Se a imprensa brasileira está pensando que a regulamentação vai consolidar privilégios, pode estar redondamente equivocada.
mídia e poder - escrevinhador - Globo e Estadão lideram ofensiva contra as centrais sindicais
publicada sexta-feira, 21/01/2011 às 10:46 e atualizada segunda-feira, 24/01/2011 às 09:37
Globo e Estadão lideram ofensiva contra as centrais sindicais
A reação das centrais sindicais ao valor do salário mínimo proposto pelo governo, não correção da tabela do IR dos assalariados e elevação das taxas de juros pelo Banco Central motivou comentários venenosos da mídia hegemônica, que revela uma atávica ojeriza às lutas e aos representantes da classe trabalhadora.
Por Umberto Martins, no Portal Vermelho
Na quarta-feira (19), ao comentar na rádio CBN (das Organizações Globo) as manifestações, pacíficas, realizadas no dia anterior pelo movimento sindical em 20 Estados por um salário mínimo de 580 reais, a jornalista Lúcio Hipólito (tucana de carteirinha e famosa pela análise embriagada e surrealista que fez sobre Lula e o Plano Nacional de Direito Humanos), acusou os líderes sindicais de truculentos, disse que estavam ameaçando a presidente e colocando o governo numa situação constrangedora.
Centrais ameaçam Dilma?
No mesmo diapasão, o jornal “O Estado de São Paulo”, porta-voz das forças conservadoras que na campanha presidencial teve a coragem de declarar abertamente seu apoio a José Serra, dedica seu principal editorial da edição desta quinta-feira (20) ao tema. O título é altamente sugestivo do conteúdo do texto: “As centrais ameaçam Dilma”.
Mas, afinal, onde está a ameaça? Rezem os costumes, leis e regras da democracia, e mesmo do bom senso, que é sagrado o direito do povo protestar de forma pacífica e levantar suas bandeiras, que em geral têm caráter progressista, nas praças, ruas e avenidas.
Isto nunca constituiu ameaça alguma a governos democráticos (como é o caso), muito embora as classes dominantes se incomodem diante de toda e qualquer manifestação dos trabalhadores, conscientes de que seus interesses estão quase sempre em contradição e choque com os do povo. E é este efetivamente o caso.
A hilariante e o carrancudo
Tanto a hilariante Hipólito como o carrancudo “Estadão” pinçaram algumas declarações mais enérgicas dos sindicalistas contra a atual política econômica (e seus juros altos, ajuste fiscal e câmbio flutuante), proferidas no calor da manifestação realizada terça-feira (18) em São Paulo (na Avenida Paulista), para incompatibilizá-los com a presidente. Quem não está informado sobre o tema é induzido a julgar que o jornalão da família Mesquita apoiou Dilma e os sindicalistas ficaram na oposição durante a campanha presidencial de 2010.
Ao longo da história brasileira, a direita e sua mídia nunca foram tolerantes com os movimentos sociais. Aparentemente, sentem a terra tremer sob seus pés quando se tem notícia de mobilização popular. Deram o golpe em 64 jurando que estavam destruindo a “república sindicalista” e só não repetiram o feito em 2005, durante o governo Lula, porque as condições eram outras e não lograram reeditar a sombria marcha da família com deus pela liberdade.
Valorização do trabalho e desenvolvimento
Mais que legítima e democrática, a manifestação do movimento sindical é orientada por uma causa justa, popular e progressista, identificada com os anseios nacionais traduzidos nos resultados do pleito presidencial de 2010, que rechaçaram a candidatura neoliberal de José Serra, apoiada pelo “Estadão” e pela hilariante Hipólito.
A valorização do salário mínimo não é uma ameaça para o Brasil, muito pelo contrário, está em sintonia com o projeto (defendido pelos sindicalistas) de desenvolvimento nacional com distribuição de renda. O mesmo se pode dizer em relação à correção da tabela do Imposto de Renda dos assalariados, a redução da jornada de trabalho e outras bandeiras.
Ao se analisar com isenção a evolução da economia durante os governos Lula, especialmente no segundo mandato, não é difícil enxergar os efeitos positivos da valorização do trabalho para o desenvolvimento nacional. O aumento real concedido ao salário mínimo, em particular, é apontado por muitos economistas como o grande atenuante da crise mundial do capitalismo. As exportações desabaram, mas o mercado interno, fortalecido pelo consumo acrescido dos trabalhadores e trabalhadoras, limitou os efeitos da recessão e assegurou uma rápida saída da crise.
Na contramão dos interesses nacionais
Os movimentos sociais, e as maiores centrais (sem exceção), apoiaram Dilma na expectativa de novas e maiores mudanças. Levantaram a bandeira do novo projeto nacional com soberania e valorização do trabalho e demonstram coerência com seus princípios ao mobilizar os trabalhadores em defesa das suas reivindicações e dos interesses maiores da nação, que não se realizam sem crescimento e justiça social e nem são compatíveis com a ideologia e a política neoliberais.
A verdadeira ameaça ao governo Dilma não provém das centrais sindicais, mas da velha direita, amarrada aos interesses da oligarquia financeira, que não esconde seu horror diante do protagonismo político da classe trabalhadora e insiste em demonizar e criminalizar as lutas sociais. Trata-se de uma oligarquia reacionária que caminha na contramão dos interesses nacionais.
Os representantes desta direita foram derrotados no pleito presidencial, mas querem manter o governo refém do capital financeiro, nacional e internacional, aprisionado a uma política econômica de viés neoliberal que, em passado recente, condenou a economia nacional a mais de duas décadas de estagnação. Aí é que reside o perigo, daí emana ameaça que ronda o governo Dilma e que pode levar ao estrangulamento da esperança de mudanças que alimenta o imaginário do povo brasileiro e as lutas dos movimentos sociais
Globo e Estadão lideram ofensiva contra as centrais sindicais
A reação das centrais sindicais ao valor do salário mínimo proposto pelo governo, não correção da tabela do IR dos assalariados e elevação das taxas de juros pelo Banco Central motivou comentários venenosos da mídia hegemônica, que revela uma atávica ojeriza às lutas e aos representantes da classe trabalhadora.
Por Umberto Martins, no Portal Vermelho
Na quarta-feira (19), ao comentar na rádio CBN (das Organizações Globo) as manifestações, pacíficas, realizadas no dia anterior pelo movimento sindical em 20 Estados por um salário mínimo de 580 reais, a jornalista Lúcio Hipólito (tucana de carteirinha e famosa pela análise embriagada e surrealista que fez sobre Lula e o Plano Nacional de Direito Humanos), acusou os líderes sindicais de truculentos, disse que estavam ameaçando a presidente e colocando o governo numa situação constrangedora.
Centrais ameaçam Dilma?
No mesmo diapasão, o jornal “O Estado de São Paulo”, porta-voz das forças conservadoras que na campanha presidencial teve a coragem de declarar abertamente seu apoio a José Serra, dedica seu principal editorial da edição desta quinta-feira (20) ao tema. O título é altamente sugestivo do conteúdo do texto: “As centrais ameaçam Dilma”.
Mas, afinal, onde está a ameaça? Rezem os costumes, leis e regras da democracia, e mesmo do bom senso, que é sagrado o direito do povo protestar de forma pacífica e levantar suas bandeiras, que em geral têm caráter progressista, nas praças, ruas e avenidas.
Isto nunca constituiu ameaça alguma a governos democráticos (como é o caso), muito embora as classes dominantes se incomodem diante de toda e qualquer manifestação dos trabalhadores, conscientes de que seus interesses estão quase sempre em contradição e choque com os do povo. E é este efetivamente o caso.
A hilariante e o carrancudo
Tanto a hilariante Hipólito como o carrancudo “Estadão” pinçaram algumas declarações mais enérgicas dos sindicalistas contra a atual política econômica (e seus juros altos, ajuste fiscal e câmbio flutuante), proferidas no calor da manifestação realizada terça-feira (18) em São Paulo (na Avenida Paulista), para incompatibilizá-los com a presidente. Quem não está informado sobre o tema é induzido a julgar que o jornalão da família Mesquita apoiou Dilma e os sindicalistas ficaram na oposição durante a campanha presidencial de 2010.
Ao longo da história brasileira, a direita e sua mídia nunca foram tolerantes com os movimentos sociais. Aparentemente, sentem a terra tremer sob seus pés quando se tem notícia de mobilização popular. Deram o golpe em 64 jurando que estavam destruindo a “república sindicalista” e só não repetiram o feito em 2005, durante o governo Lula, porque as condições eram outras e não lograram reeditar a sombria marcha da família com deus pela liberdade.
Valorização do trabalho e desenvolvimento
Mais que legítima e democrática, a manifestação do movimento sindical é orientada por uma causa justa, popular e progressista, identificada com os anseios nacionais traduzidos nos resultados do pleito presidencial de 2010, que rechaçaram a candidatura neoliberal de José Serra, apoiada pelo “Estadão” e pela hilariante Hipólito.
A valorização do salário mínimo não é uma ameaça para o Brasil, muito pelo contrário, está em sintonia com o projeto (defendido pelos sindicalistas) de desenvolvimento nacional com distribuição de renda. O mesmo se pode dizer em relação à correção da tabela do Imposto de Renda dos assalariados, a redução da jornada de trabalho e outras bandeiras.
Ao se analisar com isenção a evolução da economia durante os governos Lula, especialmente no segundo mandato, não é difícil enxergar os efeitos positivos da valorização do trabalho para o desenvolvimento nacional. O aumento real concedido ao salário mínimo, em particular, é apontado por muitos economistas como o grande atenuante da crise mundial do capitalismo. As exportações desabaram, mas o mercado interno, fortalecido pelo consumo acrescido dos trabalhadores e trabalhadoras, limitou os efeitos da recessão e assegurou uma rápida saída da crise.
Na contramão dos interesses nacionais
Os movimentos sociais, e as maiores centrais (sem exceção), apoiaram Dilma na expectativa de novas e maiores mudanças. Levantaram a bandeira do novo projeto nacional com soberania e valorização do trabalho e demonstram coerência com seus princípios ao mobilizar os trabalhadores em defesa das suas reivindicações e dos interesses maiores da nação, que não se realizam sem crescimento e justiça social e nem são compatíveis com a ideologia e a política neoliberais.
A verdadeira ameaça ao governo Dilma não provém das centrais sindicais, mas da velha direita, amarrada aos interesses da oligarquia financeira, que não esconde seu horror diante do protagonismo político da classe trabalhadora e insiste em demonizar e criminalizar as lutas sociais. Trata-se de uma oligarquia reacionária que caminha na contramão dos interesses nacionais.
Os representantes desta direita foram derrotados no pleito presidencial, mas querem manter o governo refém do capital financeiro, nacional e internacional, aprisionado a uma política econômica de viés neoliberal que, em passado recente, condenou a economia nacional a mais de duas décadas de estagnação. Aí é que reside o perigo, daí emana ameaça que ronda o governo Dilma e que pode levar ao estrangulamento da esperança de mudanças que alimenta o imaginário do povo brasileiro e as lutas dos movimentos sociais
mída golpista e poder - Mensalão do PT: a hora da verdade - escrevinhador -
publicada quinta-feira, 27/01/2011 às 09:51 e atualizada quinta-feira, 27/01/2011 às 09:31
Mensalão: a hora da verdade
por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania
Ao fim deste ano, o inquérito do “mensalão do PT” irá a julgamento no Supremo Tribunal Federal. Entre os 40 acusados em 2006 pelo ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza por supostamente terem operado um esquema de compra de votos de parlamentares para votarem a favor das proposições do governo Lula ao Congresso está o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, o personagem mais central do caso.
O ex-presidente Lula, ao final de seu mandato, manifestou publicamente, por reiteradas vezes, convicção de que jamais existiu um esquema de compra de votos de parlamentares capitaneado por Dirceu ou por qualquer outro, e de que órgãos de imprensa e oposição inventaram esse esquema visando derrubar seu governo.
Compartilho a visão do ex-presidente Lula sobre o “mensalão do PT”. E vou mais longe: talvez mais do que pretender o impeachment do ex-presidente, a oposição e a mídia se valeram da prática então amplamente disseminada entre todos os partidos de receberem doações para campanhas eleitorais sem registrá-las oficialmente para criarem uma acusação que visou destruir Dirceu politicamente, pois era visto como o candidato natural de Lula à sua sucessão em 2010.
É consensual entre a classe política e os que vêm estudando o processo que tramita no STF a expectativa de que será considerada improcedente a teoria de que o governo Lula organizou um esquema de pagamento de mensalidades a parlamentares usando dinheiro público ou privado. E mais: acredita-se que Dirceu deve ser inocentado, sendo condenados apenas os que pagaram ou receberam doações de campanha que não foram contabilizadas pelos partidos da base aliada daquele governo.
Enquanto isso, vai passando batido na mídia o início do julgamento do igualmente suposto “mensalão tucano”, cujo personagem principal é o ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, que recebeu doações de campanha do mesmo ex-publicitário Marcos Valério que também doou dinheiro para as campanhas de petistas e aliados
Mensalão: a hora da verdade
por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania
Ao fim deste ano, o inquérito do “mensalão do PT” irá a julgamento no Supremo Tribunal Federal. Entre os 40 acusados em 2006 pelo ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza por supostamente terem operado um esquema de compra de votos de parlamentares para votarem a favor das proposições do governo Lula ao Congresso está o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, o personagem mais central do caso.
O ex-presidente Lula, ao final de seu mandato, manifestou publicamente, por reiteradas vezes, convicção de que jamais existiu um esquema de compra de votos de parlamentares capitaneado por Dirceu ou por qualquer outro, e de que órgãos de imprensa e oposição inventaram esse esquema visando derrubar seu governo.
Compartilho a visão do ex-presidente Lula sobre o “mensalão do PT”. E vou mais longe: talvez mais do que pretender o impeachment do ex-presidente, a oposição e a mídia se valeram da prática então amplamente disseminada entre todos os partidos de receberem doações para campanhas eleitorais sem registrá-las oficialmente para criarem uma acusação que visou destruir Dirceu politicamente, pois era visto como o candidato natural de Lula à sua sucessão em 2010.
É consensual entre a classe política e os que vêm estudando o processo que tramita no STF a expectativa de que será considerada improcedente a teoria de que o governo Lula organizou um esquema de pagamento de mensalidades a parlamentares usando dinheiro público ou privado. E mais: acredita-se que Dirceu deve ser inocentado, sendo condenados apenas os que pagaram ou receberam doações de campanha que não foram contabilizadas pelos partidos da base aliada daquele governo.
Enquanto isso, vai passando batido na mídia o início do julgamento do igualmente suposto “mensalão tucano”, cujo personagem principal é o ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, que recebeu doações de campanha do mesmo ex-publicitário Marcos Valério que também doou dinheiro para as campanhas de petistas e aliados
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