Enviado por luisnassif, seg, 23/05/2011 - 11:18
Coluna Econômica
Há uma profunda dissintonia entre alguns grandes veículos de comunicação e a opinião pública.
Em países de instituições mais avançadas, o escândalo é o ápice do jornalismo. É aquele momento crítico, em que o jornal coloca em jogo sua credibilidade, seu discernimento, sua capacidade de apuração. E cada denúncia é uma pancada, que derruba governos, parlamentares, curva empresas e poderosos.
Por isso mesmo, é matéria rara. Escândalo não dá em árvore. Principalmente o grande escândalo, o que mexe com instituições e o poder.
Por aqui, a crise do grande jornalismo tornou-se endêmica. O jornalismo comporta inúmeras pautas nobres, o grande perfil, a grande matéria de negócios, a grande matéria econômica crítica, grandes temas culturais, temas relevantes de políticas públicas. Mas o escândalo, qualquer um que seja, tornou-se pauta única, samba de uma nota só.
***
Na chamada grande mídia, utiliza-se a escandalização para tudo e para nada. O diretor de redação do jornalão quer acertar contas com quem o criticou? Basta uma matéria tratando como escândalo um fato normal. Determinada fonte não atendeu ao pedido de entrevista da revista semanal? Pau nela. O editor não foi com a cara de determinado político? Denúncia nele.
Esse jornalismo de acerto de contas compromete a imagem do veículo, passa a ideia de mesquinharia, de desrespeito.
De poder respeitado para poder temido? É essa a legitimação que se pretende para a ação da velha mídia?
***
O grande fator de disciplinamento do jornalismo é o respeito aos fatos, o discernimento, o conhecimento especialmente em relação a temas ligados ao mercado financeiro e à Justiça – dois dos fóruns centrais dos escândalos e que exigem conhecimento especializado.
Por aqui abriu-se mão desse conhecimento. O repórter consulta o SIAFI (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal) pega qualquer informação sobre o personagem a ser atacado e escreve a matéria tratando como escândalo, como se o fato de estar no SIAFI fosse suspeito.
Vai-se além. Em nome da manchete diária escandalosa, matérias podem ser inventadas, pode-se mentir sobre a existência de gravações inexistentes, como prova da acusação, que nada acontece.
Tomem-se as principais capas da revista Veja no último trimestre do ano passado. A revista foi acusada frontalmente de estar mentindo nas principais denúncias formuladas. A defesa dos jornalistas consistia em alegar que dispunham de gravações comprovando as acusações. Desafiados a mostrá-las, jamais o fizeram. Porque as afirmações eram mentirosas.
***
Cria-se um terrível mundo do faz-de-conta que acaba comprometendo o próprio papel fiscalizador da mídia. A denúncia relevante acaba se perdendo no oceano de irrelevâncias que tem caracterizado esse festival diário de denúncias.
***
Em algum momento a ficha irá cair. As denúncias serão mais raras e mais consistentes. Não serão utilizadas como jogada política e acerto de contas com adversários, mas como instrumentos de controle público.
Mas ainda haverá uma grande jornada rumo ao amadurecimento. E, acredito, não se dará no campo da velha mídia.
Mostrando postagens com marcador NASSIF. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador NASSIF. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 23 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
Vige, na mídia, a ignorância linguística - blog do nassif -
Vige, na mídia, a ignorância linguística
Enviado por luisnassif, dom, 15/05/2011 - 13:45
Por Weden
O caso da condenação do livro didático (col. Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, de Heloísa Ramos et alii) pelo populismo midiático não é expressão somente de tomada de partido numa suposta querela entre linguistas e gramáticos.
Para esclarecer, chamo de "populismo jornalístico" o hábito próprio a alguns veículos e jornalistas de se acreditarem "justiceiros do povo", autorizando-se a cometerem assassinatos de reputação, a partir de condenações precipitadas sem base legal e/ou científica.
O caso é, sim, a expressão da ignorância linguística em sua versão mais perigosa: a de defesa consciente do preconceito.
Reverberada, acriticamente, por diversos veículos impressos, meios eletrônicos, e mídias de rede – entre portais, e blogs agressivos e leigos – a condenação ao livro, aos autores e ao próprio MEC, partiu de uma leitura pouco atenta e informada do texto da obra, chegando à prática perversa da boataria de difamação.
No Brasil, lidamos com a resistência de uma "prática tradicional e normativa" em ceder, na escola, espaço para a ciência. O que é gravíssimo.
Entre todas as disciplinas escolares com base científica (biologia, física, matemática, história etc.), os estudos de língua materna são os mais atrasados no país. Contribui para isso o fato de que a base científica destes estudos constantemente é alvo de ataques não somente de normativistas, como também e muitas vezes de personagens da mídia. Isso quando não se confundem.
À linguística, cabe trazer conhecimentos sobre a língua.
A gramática não é científica e não tem condições de trazer conhecimentos sobre a língua. Ela traz apenas normas, ou "etiquetas", como já designou o linguista Sírio Possenti.
Ora, não se pode esperar de especialistas em etiqueta social que tragam esclarecimentos sobre fenômenos antropológicos. Seria como esperar um debate sério entre Glória Kalil e Clifford Geertz.
Emparelhar gramática e linguística numa mesma discussão sobre a língua é tão absurdo quanto construir críticas a "teorias antropológicas" a partir de "dicas de etiqueta social".
A gramática deve cumprir seu papel: informar os alunos sobre "aquilo que é norma gramatical". Só isso. Nada a dizer sobre a língua em sua complexidade. Mas a gramática é parte (com alguma importância) e não o todo do saber sobre a língua.
Assim como antropólogos costumam dar algum valor à etiqueta social quando estão em jantares ou apresentações acadêmicas, mas sabem que a cultura não é somente isso; linguistas não desprezam a gramática, mas sua função, entre tantas outras, é alertar que a língua também não é somente isso.
Tudo bem: há quem acredite que indígenas são mal educados por andarem seminus. Mas não podemos levar estes juízos a sério.
O que linguistas tentam esclarecer à sociedade, com base em estudos científicos, aliás, bastante antigos, é que a língua é maior que uma lista de "acertos/erros". Ela é um sistema complexo, atravessado pela história, e por práticas extremamente complexas no corpo social.
Em pleno século XXI, o que alguns gramáticos e alguma mídia tentam dizer é que a língua não é um sistema complexo, não é atravessada pela história, e não é múltipla e maior que regras gramaticais. Convicções do século XVII, diga-se de passagem. Ou, de forma análoga, é como se tentassem convencer-nos de que indígenas são "mal educados" por andarem seminus, condenando e difamando os antropólogos por não concordarem com esta estupidez.
Em síntese: o que os autores do livro fizeram foi alertar aos alunos que o modo como alguns deles falam não é "incorreto linguisticamente", mas apenas "não autorizado gramaticalmente", pois que não existe propriamente língua portuguesa (francesa, espanhola, alemã etc.) certa ou errada.
O que a mídia está fazendo neste momento, em contrapartida, é defender "ardentemente" o preconceito - ato tão grave quanto alguém defender o racismo e o sexismo em nome de "normas de etiqueta
Enviado por luisnassif, dom, 15/05/2011 - 13:45
Por Weden
O caso da condenação do livro didático (col. Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, de Heloísa Ramos et alii) pelo populismo midiático não é expressão somente de tomada de partido numa suposta querela entre linguistas e gramáticos.
Para esclarecer, chamo de "populismo jornalístico" o hábito próprio a alguns veículos e jornalistas de se acreditarem "justiceiros do povo", autorizando-se a cometerem assassinatos de reputação, a partir de condenações precipitadas sem base legal e/ou científica.
O caso é, sim, a expressão da ignorância linguística em sua versão mais perigosa: a de defesa consciente do preconceito.
Reverberada, acriticamente, por diversos veículos impressos, meios eletrônicos, e mídias de rede – entre portais, e blogs agressivos e leigos – a condenação ao livro, aos autores e ao próprio MEC, partiu de uma leitura pouco atenta e informada do texto da obra, chegando à prática perversa da boataria de difamação.
No Brasil, lidamos com a resistência de uma "prática tradicional e normativa" em ceder, na escola, espaço para a ciência. O que é gravíssimo.
Entre todas as disciplinas escolares com base científica (biologia, física, matemática, história etc.), os estudos de língua materna são os mais atrasados no país. Contribui para isso o fato de que a base científica destes estudos constantemente é alvo de ataques não somente de normativistas, como também e muitas vezes de personagens da mídia. Isso quando não se confundem.
À linguística, cabe trazer conhecimentos sobre a língua.
A gramática não é científica e não tem condições de trazer conhecimentos sobre a língua. Ela traz apenas normas, ou "etiquetas", como já designou o linguista Sírio Possenti.
Ora, não se pode esperar de especialistas em etiqueta social que tragam esclarecimentos sobre fenômenos antropológicos. Seria como esperar um debate sério entre Glória Kalil e Clifford Geertz.
Emparelhar gramática e linguística numa mesma discussão sobre a língua é tão absurdo quanto construir críticas a "teorias antropológicas" a partir de "dicas de etiqueta social".
A gramática deve cumprir seu papel: informar os alunos sobre "aquilo que é norma gramatical". Só isso. Nada a dizer sobre a língua em sua complexidade. Mas a gramática é parte (com alguma importância) e não o todo do saber sobre a língua.
Assim como antropólogos costumam dar algum valor à etiqueta social quando estão em jantares ou apresentações acadêmicas, mas sabem que a cultura não é somente isso; linguistas não desprezam a gramática, mas sua função, entre tantas outras, é alertar que a língua também não é somente isso.
Tudo bem: há quem acredite que indígenas são mal educados por andarem seminus. Mas não podemos levar estes juízos a sério.
O que linguistas tentam esclarecer à sociedade, com base em estudos científicos, aliás, bastante antigos, é que a língua é maior que uma lista de "acertos/erros". Ela é um sistema complexo, atravessado pela história, e por práticas extremamente complexas no corpo social.
Em pleno século XXI, o que alguns gramáticos e alguma mídia tentam dizer é que a língua não é um sistema complexo, não é atravessada pela história, e não é múltipla e maior que regras gramaticais. Convicções do século XVII, diga-se de passagem. Ou, de forma análoga, é como se tentassem convencer-nos de que indígenas são "mal educados" por andarem seminus, condenando e difamando os antropólogos por não concordarem com esta estupidez.
Em síntese: o que os autores do livro fizeram foi alertar aos alunos que o modo como alguns deles falam não é "incorreto linguisticamente", mas apenas "não autorizado gramaticalmente", pois que não existe propriamente língua portuguesa (francesa, espanhola, alemã etc.) certa ou errada.
O que a mídia está fazendo neste momento, em contrapartida, é defender "ardentemente" o preconceito - ato tão grave quanto alguém defender o racismo e o sexismo em nome de "normas de etiqueta
Marcadores:
Linguística,
Linguística e mídia,
NASSIF
sexta-feira, 29 de abril de 2011
blog do nassif - A blogosfera nas eleições de 2010 -
Enviado por luisnassif, sex, 29/04/2011 - 13:35
Na próxima semana, durante o IV Congresso de Opinião Pública da WAPOR (do World Association for Public Opinion Research) em Belo Horizonte, um dos trabalhos apresentados será o paper “Informação e contra-informação: o papel dos blogs no debate político das eleições presidencias de 2010”, de Rafael de Paula Aguiar Araujo (Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Claudio Luis de Camargo Penteado (Professor da Universidade Federal do ABC; pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUC-SP )e Marcelo Burgos Pimentel dos Santos (Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP; pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUC-SP)
A análise se concentra no nosso blog aqui e no Viomundo, do Luiz Carlos Azenha.
Aqui, trechos do trabalho:
As acusações contra Dilma provocaram uma imediata reação de seus partidários e simpatizantes, que acusavam os grandes meios de comunicação de fazer uma campanha sistemática para desestabilizar a candidatura petista e servir aos interesses de José Serra. Esse embate, encontrou no universo digital da Internet, um campo de contestação das informações publicadas,promovendo um intenso debate que foi além da disputa partidária, colocando em oposição os críticos das grandes empresas de comunicação e os representantes desses setores.
(…) Alguns outros, com uma postura mais radical, chegavam a chamar os grandes veículos de comunicação de PIG – Partido da Imprensa Golpista, termo que se espalhou com rápida velocidade na Internet. O segundo grupo, encabeçado pelas grandes empresas de mídia tradicional, representados pelos profissionais da área, acusava o governo de censura, afirmando que os petistas eram contra a liberdade de imprensa, patrocinando “pseudojornalistas” para defenderem o governo. Existe uma relação conflituosa entre a mídia tradicional e a Internet sob diferentes aspectos.
(…)Os jornalistas que atuam na blogosfera, na maioria das vezes, passaram por vários veículos de comunicação tradicionais e possuem credibilidade assegurada, são, portanto, portadores de um capital simbólico dentro do jornalismo, inclusive os dois blogueiros que analisaremos neste artigo. Há, entretanto, blogueiros e usuários que atuam no espaço da Internet sem a formação jornalística e realizam um trabalho mais semelhante ao de uma militância.
(…) A disputa entre veículos tradicionais e NTICs chamou a atenção para o poder da Internet no debate político contemporâneo, em que o aumento do número de acessos e a importância nas relações sociais possibilitaram a criação de um espaço alternativo de informação, quebrando o monopólio do processo informacional, centrado nos grandes meios de comunicação tradicionais.
(…) Entre esses episódios podemos destacar três que merecem menção especial por serem bem significativos no embate entre as forças majoritárias do pleito presidencial, a saber: a acusação de tráfico de influência na Casa Civil envolvendo a ex-assessora de Dilma, Erenice Guerra. Outro caso significativo foi o evento conhecido como o “caso da bolinha de papel” e, por fim, a denúncia de quebra de sigilo de pessoas ligadas ao candidato José Serra, entre eles sua esposa e filha.
O caso da bolinha de papel
O “caso da bolinha de papel” corresponde a uma situação em que o candidato tucano José Serra, durante uma caminhada de campanha, é atingido por um objeto lançado por supostos manifestantes petistas.
Esse acontecimento recebeu diferentes coberturas nos noticiários, cabendo destacar as reportagens do Jornal Nacional e do Jornal da Record.
O primeiro mostra o confronto entre os militantes e, em seguida, imagens de Serra com a mão na cabeça indo para um hospital receber tratamento médico e realizar exames.
O segundo identifica o objeto como uma bolinha de papel e mostra cenas em que o candidato tucano somente coloca a mão na cabeça, local onde foi atingido, depois de receber um telefonema.
A reportagem do Jornal da Record teve uma ampla repercussão na Internet, porque os apoiadores de Dilma logo fizeram circular suas imagens da reportagem na Web.
No dia seguinte, o Jornal Nacional levou ao ar uma nova reportagem sobre o evento, com novas imagens em que o candidato Serra também teria sido atingido por um outro “objeto”, que justificaria a necessidade de atendimento médico. Para confirmar essa nova versão, convidaram o “perito” José Molina1, que afirmou na reportagem que provavelmente o que atingiu a cabeça do candidato foi um rolo de fita crepe.
Em reação a essa reportagem, a blogosfera circulou diversas informações questionando a veracidade das imagens. Com análise das imagens, quadro-aquadro, os blogs procuram demonstrar, com a participação de outros peritos, que o vídeo exibido no Jornal Nacional foi montado2.
O dossiê
Contudo, o acontecimento mais emblemático foi aquele denominado como o caso da “quebra de sigilo” de pessoas ligadas à José Serra, que o noticiário da mídia tradicional relacionou à campanha petista, acusando-a de fazer um dossiê contra o candidato tucano.
Nesse caso, houve dois momentos em que a notícia ganhou destaque, durante o primeiro turno, quando Dilma Roussef já aparecia em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, e, posteriormente, no segundo turno, com o vazamento do resultado da investigação da Polícia Federal sobre o caso.
Em ambos os momentos, as reportagens vinculavam a quebra do sigilo à campanha petista, havendo indícios de que o dito dossiê teria sido produzido em Minas Gerais por pessoas ligadas ao também tucano Aécio Neves. Nesse caso, o dossiê seria fruto de uma disputa interna dentro do próprio PSDB.
(…)É possível dizer que a venda de dados sigilosos da Receita Federal não era algo novo naquele momento e já era de conhecimento público. Mais ainda, a emissora SBT já havia feito uma reportagem, em que tratava da compra e venda de dados sigilosos em São Paulo.
O programa SBT Brasil fez a reportagem intitulada Senhas do Crime, pela qual entrevistou o então presidente do Superior Tribunal Federal, Gilmar Mendes, além do então governador de São Paulo, José Serra.
Na reportagem Serra chega a afirmar que já sabia dessa possibilidade e reitera que também era possível encontrar os dados das suas esposa e filha, além de seus próprios dados pessoais. Além disso, citava a possibilidade de quebra de sigilo do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, dos ministros da Fazenda e da Justiça, Guido Mantega e Tarso Genro, respectivamente, além do próprio Presidente da República.
Dessa forma, é possível dizer que no momento em que o caso do dossiê ganha espaço nos noticiários, não era novidade ser possível comprar informações sigilosas de qualquer cidadão do país. E, mais ainda, os fatos permitem dizer que as vendas não tinham interesses partidários ou ideológicos específicos, pois atingiam várias pessoas de diversas matizes ideológicas e políticas.
Blogs e mídia tradicional
Diferentemente dos meios de comunicação tradicionais que são conhecidos por serem uma fonte de informação de mão única, ou seja, dos emissores para os receptores, as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTICs) possuem uma característica diferente pois também permitem aos receptores participarem dos processos de produção de informações.
Assim, através do desenvolvimento tecnológico, atualmente, há uma nova relação de força na produção de informações (políticas ou não) que pode ser considerada como mais horizontalizada, em detrimento da relação mais verticalizada produzida pela mídia tradicional.
Em outras palavras, já são notórios no Brasil os coletivos de blogs pelos quais diversos blogueiros se reúnem para formalizar uma rede de troca de informações e notícias independente dos grandes veículos de comunicação tradicionais.
Na mídia tradicional, a informação, até ser veiculada, passa por diversos filtros hierárquicos em sua edição, os chamados gatekeepers, que podem ocasionar, inclusive, uma edição final completamente diferente daquela que foi imaginada por seu autor inicialmente.
Com as NTICs, em especial os blogs, isso dificilmente acontece. Os indivíduos têm maior liberdade para publicar o material que desejam, pois as informações não precisam passar pelo crivo de um editor. Cada autor é seu próprio editor, de forma que os filtros hierárquicos acabam por se tornar muito mais fluidos ou mesmo obsoletos.
(…) Ou seja, diferentemente do que ocorria no século anterior, o ativismo político hoje se realiza na e pela mídia, na ágora virtual, ao invés da ágora real e concreta das cidades, transformando aos poucos os mecanismos da ação e participação política. Todo esse ativismo via Internet pôde se desenvolver graças ao número de acessos de banda larga no Brasil e no mundo, que permite maior rapidez na obtenção e troca de informações, sobretudo quando são circulados fotos e vídeos pela rede com o intuito de produzir novos conteúdos informacionais.
(…)Antes do surgimento das NTICs, a mediação entre Estado e sociedade ocorria através da representação institucional dos partidos políticos e órgãos da administração pública. Depois essa mediação passou ao controle dos grandes conglomerados de mídia, que passaram a influenciar diretamente a opinião pública, o que limitou o cidadão à condição de expectador da luta política e a um consumidor de políticas.
As NTICs permitiram, por exemplo, uma dinâmica inovadora na execução das práticas políticas, estabelecendo uma interação mais direta entre o Estado e os cidadãos sustentada por um aparato tecnológico de comunicação em rede. Atualmente, no Brasil, é possível a participação via Internet de discussões no desenvolvimento do ciclo de políticas públicas, como é o caso do Ministério da Cultura durante o governo Lula, que se empenhou na construção de espaços de deliberação e pesquisa em seu site9.
A quebra do sigilo
No Viomundo houve um equilíbrio entre posts com enquadramento informativo indireto e avaliativo crítico. Os textos informativos indiretos se caracterizam por trazer informações de outras fontes, isto é, o blogueiro replica em seu site reportagens de outros meios de informação. O blogueiro nesse caso faz uma seleção das informações que acha mais importantes. Nesse episódio, Azenha buscou desconstruir o noticiário oficial da mídia tradicional, questionando o comportamento da mesma e o resultado dessas ações na corrida eleitoral. Os posts com enquadramento avaliativo crítico se posicionaram sobre a atuação da grande imprensa, analisando e denunciando o comportamento parcial favorável à campanha de José Serra.
No blog Luis Nassif Online o enquadramento dos posts também foi muito semelhante. A maior parte teve um enquadramento informativo indireto, havendo a postagem direta das notícias dos grandes veículos de comunicação tradicionais, principalmente dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e da revista Veja, seguidos, muitas vezes, de um comentário irônico do blogueiro, além de uma análise argumentativa crítica.
Foi verificado o enquadramento informativo indireto em 78,5% dos posts, a presença de ironia em 30,5% dos posts e de uma avaliação crítica em 36,5% dos textos postados.
No início da cobertura do caso, o blogueiro apresentou sua postura crítica frente a maneira como a mídia tradicional estava realizando seu enquadramento. Isso estabeleceu o blog como espaço de contra-informação, de tal forma que os próprios usuários passaram a colaborar com a apresentação de novos dados, reafirmando dessa maneira uma nova prática do jornalismo colaborativo que existe na rede mundial de computaores.
Em muitos posts, Nassif apenas postou a reportagem publicada pela “velha mídia” deixando as conclusões para os leitores. Vale também dizer que em alguns casos, Nassif trouxe uma informação direta, valendo-se de seu prestígio e credibilidade, como foi o caso do post em que o jornalista divulga a vontade de Luiz Lanzetta, dono da empresa Lanza Comunicações, ligada ao caso, em ser convocado para depor no Congresso ou em praça pública.
A informação foi obtida através de telefonema de Lanzetta ao próprio Nassif, o que reforça a idéia de que os blogs são também espaços privilegiados de informação, fornecendo novos elementos que estão ausentes na mídia tradicional. Essa característica contribui para a atração de boa parte dos leitores. Não é à toa que o número de acessos a blogs informacionais aumenta em períodos eleitorais11.
Na composição de seus textos, Azenha utilizou de diversas fontes (tabela 02), tanto da mídia tradicional, como das novas mídias (blogs e portais da Internet). A recorrência aos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e ao portal do UOL (pertencente ao mesmo grupo jornalístico que mantém a Folha de São Paulo) foi feita para ilustrar como esses meios distorciam ou escondiam as informações do acontecimento, ou para divulgar resultados de pesquisas avaliando o impacto da denúncia. O destaque da mídia tradicional foi para a replicação de reportagens da revista Carta Capital, escrita por Leandro Fortes, que teve um papel essencial nesse episódio, mas que somente teve repercussão na Internet, sendo praticamente ignorada pela grande mídia. Em relação às novas mídias podemos destacar os posts retransmitidos do Luis Nassif Online, Conversa Afiada (do jornalista Paulo Henrique Amorim) e Observatório da Imprensa (portal dedicado a fazer uma avaliação crítica do funcionamento da imprensa). Os textos de Nassif e Amorim foram centrais no processo de desconstrução do noticiário da grande mídia, trazendo informações que questionavam o conteúdo veiculado por esses meios.
No blog do jornalista Luis Nassif existe uma diferença no que diz respeito ao uso de fontes. Nassif parece ter reconhecido seu papel no caso pelo pioneirismo no tratamento das informações. Ele foi fonte para outros blogs, como é o caso do Viomundo, mas não citou nenhum outro blog de grande repercussão em seus posts. Exceção para o Conversa Afiada, citado uma vez e, ainda assim, por um leitor em um comentário.
Ao analisarmos a tabela 03, é possível ver que Nassif se utiliza mais das fontes tradicionais do que das novas mídias, mas com uma perspectiva semelhante a de Azenha. Os textos são publicados seguidos de comentários críticos e irônicos, com o intuito de desconstruir a credibilidade desses meios tradicionais e evidenciar seus posicionamentos políticos.
Vale destaque para o fato de Nassif se valer com freqü.ncia de participações de seus colaboradores, algumas vezes pessoas que lhe passam informações pessoalmente, que em seguida são publicadas pelo blogueiro, outras vezes os próprios leitores colaboram com novas análises e interpretações, como foi o caso do vídeo publicado no Youtube com a entrevista da candidata Dilma Roussef discutindo com Sérgio Dávila sobre o suposto dossiê.
Quando surge a denúncia do caso da quebra de sigilo e o suposto “dossiê”, Azenha retransmite em seu blog post de Nassif indicando que esse era um caso antigo, antes do início da campanha (início de 2008 e que já comentamos aqui), e que se referia a um livro a ser lançado pelo jornalista Amaury Ribeiro Junior, sobre denúncias de irregularidades no processo de privatização no governo Fernando Henrique Cardoso.
Simpatizantes e militantes da campanha petista circularam essa abordagem nos mais variados fóruns da Internet (blogs, Twitter, redes sociais, e-mails etc). Azenha também postou o texto de Paulo Henrique Amorim em que o autor acusa a “grande mídia” de ajudar o candidato Serra, criando factóides contra a campanha de Dilma, além de disponibilizar um link para ter acesso a um capítulo do livro de Ribeiro Junior. Em um segundo momento, quando foi “vazado” o resultado das investigações da Polícia Federal sobre o caso da quebra de sigilo, a mídia tradicional buscou identificar Ribeiro Junior como participante de uma equipe de “inteligência” da campanha de Dilma. Em reação, Azenha publicou em seu blog informações e avaliações ligando Amaury, que na época trabalhava no jornal O Estado de Minas, com o ex-governador mineiro Aécio Neves. Segundo as análises exibidas no blog Viomundo, como reportagem de Leandro Fortes para a revista Carta Capital (divulgada no blog), a “quebra do sigilo de tucanos é fruto da guerra Serra-Aécio”, isto é, uma disputa interna pela indicação do partido para a candidatura a presidência. Contudo, a cobertura do noticiário enfatizou a ligação de Amaury Ribeiro Júnior com Luiz Lanzetta, responsável, até então, pela coordenação de comunicação da campanha de Dilma Rousseff à Presidência da República
Um outro evento importante que revela o papel de contra-informação da blogosfera foi a repercussão da reportagem da mesma Carta Capital sobre o envolvimento de empresa ligada a Verônica Allende Serra e Verônica Dantas Rodenburg, filhas de José Serra, e do mega-investidor Daniel Dantas, como responsável por disponibilizar em seu site o sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros12.
Apesar de não ter repercussão nos noticiários da mídia tradicional, essa reportagem ganhou destaque dentro da Internet, principalmente em alguns blogs e no Twitter, possibilitando que o caso fosse utilizado pelos simpatizantes e militantes da campanha de Dilma.
No blog Luis Nassif Online pôde-se observar um comportamento parecido, principalmente na crítica à grande mídia. O blogueiro teve um papel ainda mais atuante pois participou diretamente na desconstrução do caso, questionando as informações publicadas e a forma do enquadramento desse acontecimento. Como se pode observar no trecho abaixo:
A notícia sobre o suposto dossiê, que ninguém sabe dizer se existe de fato, veio a público em uma reportagem confusa da revista Veja e ganhou lentamente as páginas dos jornais durante a semana até ser brindada com uma forte reação do PSDB e de Serra. Na quarta-feira 2, o pré-candidato tucano acusou Dilma Rousseff de estar por trás da “baixaria” e cobrou explicações. A petista disse que a acusação era uma “falsidade” e o presidente do partido, José Eduardo Dutra, informou que a cúpula da legenda havia decidido interpelar Serra na Justiça por conta das declarações13.
Nassif, em seu blog, assumiu uma posição crítica ao que ele chamou de “velha mídia”, acusando-a de favorecer a campanha de Serra e distorcer as informações em favor de tal candidatura.
Até hoje a noite, esconderam o jornalista da história, pois o conteúdo de seu livro era (e é) destruidor para a candidatura de Serra. Pois bem: a estratégia suja desta velha imprensa e dos serristas é chamar o livro de Amaury Jr. de "livro-dossiê", acusá-lo de fazer parte da campanha de Dilma e afirmar que o PT sabia da existência deste material contido no "livro-dossiê" desde 2009. Esta obra de pesudo-jornalismo merece 12 A reportagem da revista Carta Capital foi praticamente ignorada pela grande mídia, que acusou a revista de estar a serviço do governo federal (jornalismo “chapa-branca”), produzindo informações favoráveis a candidata petista.
Enquadramento comentários:
Foi possível notar um número significativo de comentários nos dois blogs. É preciso alertar que, diferente do Blog do Noblat e do Blog do Josias, como já evidenciado em outros momentos15, os blogs do Azenha e Nassif possuem um perfil mais analítico, mais crítico, enquanto os outros primam por serem mais informativos.
Seus usuários têm uma argumentação um pouco mais sofisticada, ou seja, utilizam-se de dados e outras fontes para uma construção lógica de raciocínio, enquanto em outros blogs as participações ficam constantemente nas impressões pessoais e “achismos”. De tal forma que naqueles blogs o número de comentários, em geral, é muito maior que nesses, mas a qualidade crítica também é menor.
O debate, por se tratar de um período eleitoral, de uma forma ou de outra evidenciava posicionamentos políticos dos usuários, mas isso não foi significativo ao ponto de se verificar embates ideológicos e comentários avaliativos morais em que se desqualificam a discussão.
De maneira geral a grande contribuição dos comentários dos posts foi no sentido de evidenciar o papel dos blogs como espaço de contra-informação. Nesse sentido, os enquadramentos dos comentários são, na sua maioria, informativos diretos, avaliativos críticos e irônicos, e em alguns casos é possível encontrar textos informativos indiretos, seguindo um mesmo padrão dos posts dos blogueiros. Isto significa que os leitores destes blogs também estão preocupados com um conteúdo mais transparente de informação.
Avaliação geral:
Os blogs estudados tiveram um papel importante ao criticarem a parcialidade da cobertura da mídia tradicional, durante o processo eleitoral de 2010, mais especificamente no caso da “quebra de sigilo”. Assumiram, dessa maneira, uma postura mais questionadora e investigativa.
Os blogueiros buscaram trazer uma nova interpretação para os acontecimentos, com o fornecimento de novos dados, análises e interpretações, chamando a atenção para as distorções das reportagens publicadas na grande mídia, evidenciando o seu posicionamento contrário à candidatura de Dilma Rousseff.
Nassif se diferenciou por atuar mais diretamente no questionamento da cobertura da Folha de São Paulo. Logo após a repercussão da reportagem da Veja, o blogueiro buscou elucidar que o caso se referia a um livro (como citado acima) e não a composição de um dossiê, e que a “velha mídia” estava tentando relacionar esse fato a um trabalho de “espionagem” do comitê de campanha petista contra a candidatura tucana.
Por outro lado, Azenha também teve um papel importante, principalmente na repercussão e ampliação deste debate. O blogueiro utilizou seu espaço para divulgar as análises de Nassif, publicar informações de outros meios, da mídia tradicional ou mesmo de outros blogs, ou então, realizando uma avaliação crítica do evento, buscando elucidar o “escândalo”. Essa atuação possibilitou que na web as denúncias fossem “neutralizadas”, minimizando possíveis impactos na corrida eleitoral, pois na medida em que as notícias eram depuradas pela Internet, ganhavam um “coro dos contrários”, que era veiculado na imprensa escrita e televisiva. Naquilo que Pierre Bourdieu (1997) denominava de “mecanismo de circulação circular” da informação, ou seja, aquilo que é retratado por um meio, logo deverá ser tratado por outro, sob risco de ficar desatualizado ou à margem do sistema de informações. É preciso lembrar que isso também ocorre porque muitas vezes, as fontes são as mesmas e os jornalistas também são os mesmos.
Um outro fator que merece destaque é a formação de uma rede colaborativa interligada pela rede mundial de computadores, que começou a ganhar maior espaço no debate político, enfraquecendo o monopólio do controle da produção, divulgação e circulação de informações da mídia tradicional, ampliando o debate para a participação de outros atores. Percebe-se que alguns jornalistas, como no caso estudado, tem um papel de centralização nesse processo comunicativo, exercendo a função do nó da rede, destacando no episódio Luis Nassif, Luiz Carlos Azenha e também Paulo Henrique Amorim, que por possuírem maior credibilidade (capital simbólico) e visibilidade atraem um número muito grande de leitores e participantes, que contribuem com material para incrementar os debates. A blogosfera tem o papel de ampliar o debate e circular a informação para além desses fóruns, atuando de forma interativa e colaborativa, criando uma nova dinâmica no processo político contemporâneo, que tem no universo digital da Internet um novo
Na próxima semana, durante o IV Congresso de Opinião Pública da WAPOR (do World Association for Public Opinion Research) em Belo Horizonte, um dos trabalhos apresentados será o paper “Informação e contra-informação: o papel dos blogs no debate político das eleições presidencias de 2010”, de Rafael de Paula Aguiar Araujo (Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Claudio Luis de Camargo Penteado (Professor da Universidade Federal do ABC; pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUC-SP )e Marcelo Burgos Pimentel dos Santos (Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP; pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUC-SP)
A análise se concentra no nosso blog aqui e no Viomundo, do Luiz Carlos Azenha.
Aqui, trechos do trabalho:
As acusações contra Dilma provocaram uma imediata reação de seus partidários e simpatizantes, que acusavam os grandes meios de comunicação de fazer uma campanha sistemática para desestabilizar a candidatura petista e servir aos interesses de José Serra. Esse embate, encontrou no universo digital da Internet, um campo de contestação das informações publicadas,promovendo um intenso debate que foi além da disputa partidária, colocando em oposição os críticos das grandes empresas de comunicação e os representantes desses setores.
(…) Alguns outros, com uma postura mais radical, chegavam a chamar os grandes veículos de comunicação de PIG – Partido da Imprensa Golpista, termo que se espalhou com rápida velocidade na Internet. O segundo grupo, encabeçado pelas grandes empresas de mídia tradicional, representados pelos profissionais da área, acusava o governo de censura, afirmando que os petistas eram contra a liberdade de imprensa, patrocinando “pseudojornalistas” para defenderem o governo. Existe uma relação conflituosa entre a mídia tradicional e a Internet sob diferentes aspectos.
(…)Os jornalistas que atuam na blogosfera, na maioria das vezes, passaram por vários veículos de comunicação tradicionais e possuem credibilidade assegurada, são, portanto, portadores de um capital simbólico dentro do jornalismo, inclusive os dois blogueiros que analisaremos neste artigo. Há, entretanto, blogueiros e usuários que atuam no espaço da Internet sem a formação jornalística e realizam um trabalho mais semelhante ao de uma militância.
(…) A disputa entre veículos tradicionais e NTICs chamou a atenção para o poder da Internet no debate político contemporâneo, em que o aumento do número de acessos e a importância nas relações sociais possibilitaram a criação de um espaço alternativo de informação, quebrando o monopólio do processo informacional, centrado nos grandes meios de comunicação tradicionais.
(…) Entre esses episódios podemos destacar três que merecem menção especial por serem bem significativos no embate entre as forças majoritárias do pleito presidencial, a saber: a acusação de tráfico de influência na Casa Civil envolvendo a ex-assessora de Dilma, Erenice Guerra. Outro caso significativo foi o evento conhecido como o “caso da bolinha de papel” e, por fim, a denúncia de quebra de sigilo de pessoas ligadas ao candidato José Serra, entre eles sua esposa e filha.
O caso da bolinha de papel
O “caso da bolinha de papel” corresponde a uma situação em que o candidato tucano José Serra, durante uma caminhada de campanha, é atingido por um objeto lançado por supostos manifestantes petistas.
Esse acontecimento recebeu diferentes coberturas nos noticiários, cabendo destacar as reportagens do Jornal Nacional e do Jornal da Record.
O primeiro mostra o confronto entre os militantes e, em seguida, imagens de Serra com a mão na cabeça indo para um hospital receber tratamento médico e realizar exames.
O segundo identifica o objeto como uma bolinha de papel e mostra cenas em que o candidato tucano somente coloca a mão na cabeça, local onde foi atingido, depois de receber um telefonema.
A reportagem do Jornal da Record teve uma ampla repercussão na Internet, porque os apoiadores de Dilma logo fizeram circular suas imagens da reportagem na Web.
No dia seguinte, o Jornal Nacional levou ao ar uma nova reportagem sobre o evento, com novas imagens em que o candidato Serra também teria sido atingido por um outro “objeto”, que justificaria a necessidade de atendimento médico. Para confirmar essa nova versão, convidaram o “perito” José Molina1, que afirmou na reportagem que provavelmente o que atingiu a cabeça do candidato foi um rolo de fita crepe.
Em reação a essa reportagem, a blogosfera circulou diversas informações questionando a veracidade das imagens. Com análise das imagens, quadro-aquadro, os blogs procuram demonstrar, com a participação de outros peritos, que o vídeo exibido no Jornal Nacional foi montado2.
O dossiê
Contudo, o acontecimento mais emblemático foi aquele denominado como o caso da “quebra de sigilo” de pessoas ligadas à José Serra, que o noticiário da mídia tradicional relacionou à campanha petista, acusando-a de fazer um dossiê contra o candidato tucano.
Nesse caso, houve dois momentos em que a notícia ganhou destaque, durante o primeiro turno, quando Dilma Roussef já aparecia em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, e, posteriormente, no segundo turno, com o vazamento do resultado da investigação da Polícia Federal sobre o caso.
Em ambos os momentos, as reportagens vinculavam a quebra do sigilo à campanha petista, havendo indícios de que o dito dossiê teria sido produzido em Minas Gerais por pessoas ligadas ao também tucano Aécio Neves. Nesse caso, o dossiê seria fruto de uma disputa interna dentro do próprio PSDB.
(…)É possível dizer que a venda de dados sigilosos da Receita Federal não era algo novo naquele momento e já era de conhecimento público. Mais ainda, a emissora SBT já havia feito uma reportagem, em que tratava da compra e venda de dados sigilosos em São Paulo.
O programa SBT Brasil fez a reportagem intitulada Senhas do Crime, pela qual entrevistou o então presidente do Superior Tribunal Federal, Gilmar Mendes, além do então governador de São Paulo, José Serra.
Na reportagem Serra chega a afirmar que já sabia dessa possibilidade e reitera que também era possível encontrar os dados das suas esposa e filha, além de seus próprios dados pessoais. Além disso, citava a possibilidade de quebra de sigilo do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, dos ministros da Fazenda e da Justiça, Guido Mantega e Tarso Genro, respectivamente, além do próprio Presidente da República.
Dessa forma, é possível dizer que no momento em que o caso do dossiê ganha espaço nos noticiários, não era novidade ser possível comprar informações sigilosas de qualquer cidadão do país. E, mais ainda, os fatos permitem dizer que as vendas não tinham interesses partidários ou ideológicos específicos, pois atingiam várias pessoas de diversas matizes ideológicas e políticas.
Blogs e mídia tradicional
Diferentemente dos meios de comunicação tradicionais que são conhecidos por serem uma fonte de informação de mão única, ou seja, dos emissores para os receptores, as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTICs) possuem uma característica diferente pois também permitem aos receptores participarem dos processos de produção de informações.
Assim, através do desenvolvimento tecnológico, atualmente, há uma nova relação de força na produção de informações (políticas ou não) que pode ser considerada como mais horizontalizada, em detrimento da relação mais verticalizada produzida pela mídia tradicional.
Em outras palavras, já são notórios no Brasil os coletivos de blogs pelos quais diversos blogueiros se reúnem para formalizar uma rede de troca de informações e notícias independente dos grandes veículos de comunicação tradicionais.
Na mídia tradicional, a informação, até ser veiculada, passa por diversos filtros hierárquicos em sua edição, os chamados gatekeepers, que podem ocasionar, inclusive, uma edição final completamente diferente daquela que foi imaginada por seu autor inicialmente.
Com as NTICs, em especial os blogs, isso dificilmente acontece. Os indivíduos têm maior liberdade para publicar o material que desejam, pois as informações não precisam passar pelo crivo de um editor. Cada autor é seu próprio editor, de forma que os filtros hierárquicos acabam por se tornar muito mais fluidos ou mesmo obsoletos.
(…) Ou seja, diferentemente do que ocorria no século anterior, o ativismo político hoje se realiza na e pela mídia, na ágora virtual, ao invés da ágora real e concreta das cidades, transformando aos poucos os mecanismos da ação e participação política. Todo esse ativismo via Internet pôde se desenvolver graças ao número de acessos de banda larga no Brasil e no mundo, que permite maior rapidez na obtenção e troca de informações, sobretudo quando são circulados fotos e vídeos pela rede com o intuito de produzir novos conteúdos informacionais.
(…)Antes do surgimento das NTICs, a mediação entre Estado e sociedade ocorria através da representação institucional dos partidos políticos e órgãos da administração pública. Depois essa mediação passou ao controle dos grandes conglomerados de mídia, que passaram a influenciar diretamente a opinião pública, o que limitou o cidadão à condição de expectador da luta política e a um consumidor de políticas.
As NTICs permitiram, por exemplo, uma dinâmica inovadora na execução das práticas políticas, estabelecendo uma interação mais direta entre o Estado e os cidadãos sustentada por um aparato tecnológico de comunicação em rede. Atualmente, no Brasil, é possível a participação via Internet de discussões no desenvolvimento do ciclo de políticas públicas, como é o caso do Ministério da Cultura durante o governo Lula, que se empenhou na construção de espaços de deliberação e pesquisa em seu site9.
A quebra do sigilo
No Viomundo houve um equilíbrio entre posts com enquadramento informativo indireto e avaliativo crítico. Os textos informativos indiretos se caracterizam por trazer informações de outras fontes, isto é, o blogueiro replica em seu site reportagens de outros meios de informação. O blogueiro nesse caso faz uma seleção das informações que acha mais importantes. Nesse episódio, Azenha buscou desconstruir o noticiário oficial da mídia tradicional, questionando o comportamento da mesma e o resultado dessas ações na corrida eleitoral. Os posts com enquadramento avaliativo crítico se posicionaram sobre a atuação da grande imprensa, analisando e denunciando o comportamento parcial favorável à campanha de José Serra.
No blog Luis Nassif Online o enquadramento dos posts também foi muito semelhante. A maior parte teve um enquadramento informativo indireto, havendo a postagem direta das notícias dos grandes veículos de comunicação tradicionais, principalmente dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e da revista Veja, seguidos, muitas vezes, de um comentário irônico do blogueiro, além de uma análise argumentativa crítica.
Foi verificado o enquadramento informativo indireto em 78,5% dos posts, a presença de ironia em 30,5% dos posts e de uma avaliação crítica em 36,5% dos textos postados.
No início da cobertura do caso, o blogueiro apresentou sua postura crítica frente a maneira como a mídia tradicional estava realizando seu enquadramento. Isso estabeleceu o blog como espaço de contra-informação, de tal forma que os próprios usuários passaram a colaborar com a apresentação de novos dados, reafirmando dessa maneira uma nova prática do jornalismo colaborativo que existe na rede mundial de computaores.
Em muitos posts, Nassif apenas postou a reportagem publicada pela “velha mídia” deixando as conclusões para os leitores. Vale também dizer que em alguns casos, Nassif trouxe uma informação direta, valendo-se de seu prestígio e credibilidade, como foi o caso do post em que o jornalista divulga a vontade de Luiz Lanzetta, dono da empresa Lanza Comunicações, ligada ao caso, em ser convocado para depor no Congresso ou em praça pública.
A informação foi obtida através de telefonema de Lanzetta ao próprio Nassif, o que reforça a idéia de que os blogs são também espaços privilegiados de informação, fornecendo novos elementos que estão ausentes na mídia tradicional. Essa característica contribui para a atração de boa parte dos leitores. Não é à toa que o número de acessos a blogs informacionais aumenta em períodos eleitorais11.
Na composição de seus textos, Azenha utilizou de diversas fontes (tabela 02), tanto da mídia tradicional, como das novas mídias (blogs e portais da Internet). A recorrência aos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e ao portal do UOL (pertencente ao mesmo grupo jornalístico que mantém a Folha de São Paulo) foi feita para ilustrar como esses meios distorciam ou escondiam as informações do acontecimento, ou para divulgar resultados de pesquisas avaliando o impacto da denúncia. O destaque da mídia tradicional foi para a replicação de reportagens da revista Carta Capital, escrita por Leandro Fortes, que teve um papel essencial nesse episódio, mas que somente teve repercussão na Internet, sendo praticamente ignorada pela grande mídia. Em relação às novas mídias podemos destacar os posts retransmitidos do Luis Nassif Online, Conversa Afiada (do jornalista Paulo Henrique Amorim) e Observatório da Imprensa (portal dedicado a fazer uma avaliação crítica do funcionamento da imprensa). Os textos de Nassif e Amorim foram centrais no processo de desconstrução do noticiário da grande mídia, trazendo informações que questionavam o conteúdo veiculado por esses meios.
No blog do jornalista Luis Nassif existe uma diferença no que diz respeito ao uso de fontes. Nassif parece ter reconhecido seu papel no caso pelo pioneirismo no tratamento das informações. Ele foi fonte para outros blogs, como é o caso do Viomundo, mas não citou nenhum outro blog de grande repercussão em seus posts. Exceção para o Conversa Afiada, citado uma vez e, ainda assim, por um leitor em um comentário.
Ao analisarmos a tabela 03, é possível ver que Nassif se utiliza mais das fontes tradicionais do que das novas mídias, mas com uma perspectiva semelhante a de Azenha. Os textos são publicados seguidos de comentários críticos e irônicos, com o intuito de desconstruir a credibilidade desses meios tradicionais e evidenciar seus posicionamentos políticos.
Vale destaque para o fato de Nassif se valer com freqü.ncia de participações de seus colaboradores, algumas vezes pessoas que lhe passam informações pessoalmente, que em seguida são publicadas pelo blogueiro, outras vezes os próprios leitores colaboram com novas análises e interpretações, como foi o caso do vídeo publicado no Youtube com a entrevista da candidata Dilma Roussef discutindo com Sérgio Dávila sobre o suposto dossiê.
Quando surge a denúncia do caso da quebra de sigilo e o suposto “dossiê”, Azenha retransmite em seu blog post de Nassif indicando que esse era um caso antigo, antes do início da campanha (início de 2008 e que já comentamos aqui), e que se referia a um livro a ser lançado pelo jornalista Amaury Ribeiro Junior, sobre denúncias de irregularidades no processo de privatização no governo Fernando Henrique Cardoso.
Simpatizantes e militantes da campanha petista circularam essa abordagem nos mais variados fóruns da Internet (blogs, Twitter, redes sociais, e-mails etc). Azenha também postou o texto de Paulo Henrique Amorim em que o autor acusa a “grande mídia” de ajudar o candidato Serra, criando factóides contra a campanha de Dilma, além de disponibilizar um link para ter acesso a um capítulo do livro de Ribeiro Junior. Em um segundo momento, quando foi “vazado” o resultado das investigações da Polícia Federal sobre o caso da quebra de sigilo, a mídia tradicional buscou identificar Ribeiro Junior como participante de uma equipe de “inteligência” da campanha de Dilma. Em reação, Azenha publicou em seu blog informações e avaliações ligando Amaury, que na época trabalhava no jornal O Estado de Minas, com o ex-governador mineiro Aécio Neves. Segundo as análises exibidas no blog Viomundo, como reportagem de Leandro Fortes para a revista Carta Capital (divulgada no blog), a “quebra do sigilo de tucanos é fruto da guerra Serra-Aécio”, isto é, uma disputa interna pela indicação do partido para a candidatura a presidência. Contudo, a cobertura do noticiário enfatizou a ligação de Amaury Ribeiro Júnior com Luiz Lanzetta, responsável, até então, pela coordenação de comunicação da campanha de Dilma Rousseff à Presidência da República
Um outro evento importante que revela o papel de contra-informação da blogosfera foi a repercussão da reportagem da mesma Carta Capital sobre o envolvimento de empresa ligada a Verônica Allende Serra e Verônica Dantas Rodenburg, filhas de José Serra, e do mega-investidor Daniel Dantas, como responsável por disponibilizar em seu site o sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros12.
Apesar de não ter repercussão nos noticiários da mídia tradicional, essa reportagem ganhou destaque dentro da Internet, principalmente em alguns blogs e no Twitter, possibilitando que o caso fosse utilizado pelos simpatizantes e militantes da campanha de Dilma.
No blog Luis Nassif Online pôde-se observar um comportamento parecido, principalmente na crítica à grande mídia. O blogueiro teve um papel ainda mais atuante pois participou diretamente na desconstrução do caso, questionando as informações publicadas e a forma do enquadramento desse acontecimento. Como se pode observar no trecho abaixo:
A notícia sobre o suposto dossiê, que ninguém sabe dizer se existe de fato, veio a público em uma reportagem confusa da revista Veja e ganhou lentamente as páginas dos jornais durante a semana até ser brindada com uma forte reação do PSDB e de Serra. Na quarta-feira 2, o pré-candidato tucano acusou Dilma Rousseff de estar por trás da “baixaria” e cobrou explicações. A petista disse que a acusação era uma “falsidade” e o presidente do partido, José Eduardo Dutra, informou que a cúpula da legenda havia decidido interpelar Serra na Justiça por conta das declarações13.
Nassif, em seu blog, assumiu uma posição crítica ao que ele chamou de “velha mídia”, acusando-a de favorecer a campanha de Serra e distorcer as informações em favor de tal candidatura.
Até hoje a noite, esconderam o jornalista da história, pois o conteúdo de seu livro era (e é) destruidor para a candidatura de Serra. Pois bem: a estratégia suja desta velha imprensa e dos serristas é chamar o livro de Amaury Jr. de "livro-dossiê", acusá-lo de fazer parte da campanha de Dilma e afirmar que o PT sabia da existência deste material contido no "livro-dossiê" desde 2009. Esta obra de pesudo-jornalismo merece 12 A reportagem da revista Carta Capital foi praticamente ignorada pela grande mídia, que acusou a revista de estar a serviço do governo federal (jornalismo “chapa-branca”), produzindo informações favoráveis a candidata petista.
Enquadramento comentários:
Foi possível notar um número significativo de comentários nos dois blogs. É preciso alertar que, diferente do Blog do Noblat e do Blog do Josias, como já evidenciado em outros momentos15, os blogs do Azenha e Nassif possuem um perfil mais analítico, mais crítico, enquanto os outros primam por serem mais informativos.
Seus usuários têm uma argumentação um pouco mais sofisticada, ou seja, utilizam-se de dados e outras fontes para uma construção lógica de raciocínio, enquanto em outros blogs as participações ficam constantemente nas impressões pessoais e “achismos”. De tal forma que naqueles blogs o número de comentários, em geral, é muito maior que nesses, mas a qualidade crítica também é menor.
O debate, por se tratar de um período eleitoral, de uma forma ou de outra evidenciava posicionamentos políticos dos usuários, mas isso não foi significativo ao ponto de se verificar embates ideológicos e comentários avaliativos morais em que se desqualificam a discussão.
De maneira geral a grande contribuição dos comentários dos posts foi no sentido de evidenciar o papel dos blogs como espaço de contra-informação. Nesse sentido, os enquadramentos dos comentários são, na sua maioria, informativos diretos, avaliativos críticos e irônicos, e em alguns casos é possível encontrar textos informativos indiretos, seguindo um mesmo padrão dos posts dos blogueiros. Isto significa que os leitores destes blogs também estão preocupados com um conteúdo mais transparente de informação.
Avaliação geral:
Os blogs estudados tiveram um papel importante ao criticarem a parcialidade da cobertura da mídia tradicional, durante o processo eleitoral de 2010, mais especificamente no caso da “quebra de sigilo”. Assumiram, dessa maneira, uma postura mais questionadora e investigativa.
Os blogueiros buscaram trazer uma nova interpretação para os acontecimentos, com o fornecimento de novos dados, análises e interpretações, chamando a atenção para as distorções das reportagens publicadas na grande mídia, evidenciando o seu posicionamento contrário à candidatura de Dilma Rousseff.
Nassif se diferenciou por atuar mais diretamente no questionamento da cobertura da Folha de São Paulo. Logo após a repercussão da reportagem da Veja, o blogueiro buscou elucidar que o caso se referia a um livro (como citado acima) e não a composição de um dossiê, e que a “velha mídia” estava tentando relacionar esse fato a um trabalho de “espionagem” do comitê de campanha petista contra a candidatura tucana.
Por outro lado, Azenha também teve um papel importante, principalmente na repercussão e ampliação deste debate. O blogueiro utilizou seu espaço para divulgar as análises de Nassif, publicar informações de outros meios, da mídia tradicional ou mesmo de outros blogs, ou então, realizando uma avaliação crítica do evento, buscando elucidar o “escândalo”. Essa atuação possibilitou que na web as denúncias fossem “neutralizadas”, minimizando possíveis impactos na corrida eleitoral, pois na medida em que as notícias eram depuradas pela Internet, ganhavam um “coro dos contrários”, que era veiculado na imprensa escrita e televisiva. Naquilo que Pierre Bourdieu (1997) denominava de “mecanismo de circulação circular” da informação, ou seja, aquilo que é retratado por um meio, logo deverá ser tratado por outro, sob risco de ficar desatualizado ou à margem do sistema de informações. É preciso lembrar que isso também ocorre porque muitas vezes, as fontes são as mesmas e os jornalistas também são os mesmos.
Um outro fator que merece destaque é a formação de uma rede colaborativa interligada pela rede mundial de computadores, que começou a ganhar maior espaço no debate político, enfraquecendo o monopólio do controle da produção, divulgação e circulação de informações da mídia tradicional, ampliando o debate para a participação de outros atores. Percebe-se que alguns jornalistas, como no caso estudado, tem um papel de centralização nesse processo comunicativo, exercendo a função do nó da rede, destacando no episódio Luis Nassif, Luiz Carlos Azenha e também Paulo Henrique Amorim, que por possuírem maior credibilidade (capital simbólico) e visibilidade atraem um número muito grande de leitores e participantes, que contribuem com material para incrementar os debates. A blogosfera tem o papel de ampliar o debate e circular a informação para além desses fóruns, atuando de forma interativa e colaborativa, criando uma nova dinâmica no processo político contemporâneo, que tem no universo digital da Internet um novo
Marcadores:
internet e eleições 2010,
NASSIF,
PIG ELEIÇÕES
domingo, 17 de abril de 2011
Para entender o ataque do Estadão - nassif -
Para entender o ataque do Estadão
Enviado por luisnassif, sab, 16/04/2011 - 09:09
Post de 12/02/2011
Nos tempos em que os Mesquita dirigiam o Estadão, seria impensável engavetar grandes matérias de escândalo.
Desde que assumiu a direção editorial do jornal, Ricardo Gandour vem atropelando um a um os princípios jornalísticos que fizeram do Estadão um jornal respeitado inclusive pelos adversários. O jornal era intransigente até demais em suas convicções, mas jamais brigava com os fatos ou abría mão das grandes matérias jornalísticas.
O histórico de Gandour inclui a demissão de Maria Rita Khel, a escandalização de fatos normais ou banais para atingir jornalistas que ele considerava adversários. E a censura - inédita no caso do Estadão - a grandes reportagens.
A matéria abaixo foi escrita em 24 de setembro de 2009. Era um furo jornalístico dos maiores: as investigações da Polícia Federal mostrando que um dossiê divulgado por Diogo Mainardi na Veja era (mais uma vez) falso e fruto de jogadas de lobbies. Como se recorda, durante semanas o falso dossiê foi apresentado como fruto de investigações da PF, com ampla repercussão nos jornais, no Jornal Nacional. Sabia-se que havia grandes interesses financeiros por trás, jogadas de lobistas pesados.
O Estadão deu a primeira matéria sobre a falsificação. Pelo visto, o repórter tinha o fio da meada para uma reportagem candidata a Esso.
Houve claro veto da direção do jornal à continuidade da matéria - já que não se leu mais nenhuma linha sobre o assunto. Ou irá se supor que o repórter abriu mão do seu furo. Gandour atropelou o jornalismo e princípios consagrados de atuação da família Mesquita.
Polícia acusa agente de criar falso dossiê - versaoimpressa - Estadao.com.br
O material tinha como alvo Victor de Souza irmão do ministro Franklin
24 de setembro de 2009 | 0h 00
Marcelo Auler, RIO - O Estadao de S.Paulo
O agente federal aposentado Wilson Ferreira Pinna, lotado na Agência Nacional de Petróleo (ANP), foi apontado pela Polícia Federal como o autor do falso dossiê contra o diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do ministro da Comunicação Social, Franklin Martins.
O material acusou Victor de Souza de aumentar os royalties das prefeituras que contratavam a empresa Análise Consultoria, que ele tem em sociedade com a mulher, Joseana Seabra. Pinna foi denunciado na 2ª Vara Federal Criminal do Rio pelos crimes de interceptação telefônica ilegal e quebra de sigilo fiscal dos irmãos de Vitor, inclusive do ministro.
Após a revista Veja divulgar o dossiê em abril, o Ministério Público Federal constatou que o documento não estava no inquérito da Delegacia Fazendária, que apura corrupção nos repasses de royalties. A inexistência do dossiê levou o superintendente da PF no Rio, Angelo Gioia, a abrir novo inquérito.
Em maio, a PF descobriu um pendrive com o falso dossiê, as declarações de renda obtidas ilegalmente e as transcrições de gravações telefônicas. Não se sabe quem recebeu o pendrive, mas os policiais identificaram Pinna como o autor.
Por meio de representação à juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal , onde tramita o inquérito, foi pedida a prisão do agente, além de busca e apreensão na sua casa e na ANP.
O pedido foi para as mãos do juiz Rodolfo Kronemberg Hartmann, da 2ª Vara Federal, que não analisou o caso, provocando um conflito de competência. Tudo parou até 15 de julho, quando o Tribunal Regional Federal (TRF) decidiu que a competência é da 2ª Vara. Após negar pedido de prisão, Hartmann intimou Pinna a apresentar sua defesa, antes de decidir se aceita a denúncia.
Ontem, procurado pelo Estado, Pinna reclamou da divulgação do caso por conta do segredo de Justiça e depois se apegou na rejeição do pedido de prisão para se defender. Vitor repetiu o que falou na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados: "Quero justiça, saber quem fez essa investigação criminosa, a mando de quem, quem pagou e com qual objetivo."
Para entender o ataque do Estadão - 2
Enviado por luisnassif, sab, 16/04/2011 - 09:12
Histórias de um grande jornalista
de 08/02/2011
História 1
Ruyzito Mesquita, acionista mas sem participação editorial no Estadão, planejou uma coleção de cinco volumes sobre sustentabilidade. Apresentou à Secretaria da Educação de São Paulo. A coleção foi aprovada para o sistema de compras de livros didáticos.
Nesse ínterim, Paulo Renato de Souza foi indicado Secretário da Educação. Depois do episódio do Bradesco - um email com um artigo que ele submetia à apreciação do presidente do banco - Paulo Renato havia perdido espaço na Folha e tornou-se articulista do Estadão. Indicado Secretário, seria normal que pedisse demissão da função. Não o fez, obrigando Ruy Mesquita, pai, a demiti-lo.
O troco veio em seguida: a Secretaria voltou atrás e rejeitou a coleção de Ruyzito.
José Serra foi informado da retaliação, mas nada fez. Mesmo não gostando de Serra - por seu hábito de pedir cabeça de jornalistas - o velho Ruy manteve-se firme na mesma linha do Estadão de apoio à sua candidatura.
História 2
Nos anos 70, o ex-deputado (cassado) e correspondente do Estadão em Londres, Hermano Alves, escreveu uma série de matérias que descontentou profundamente Ruy Mesquita, então dirigindo o Jornal da Tarde. Não foi proibido de continuar. Apenas diariamente Dr. Ruy fazia um editorial rebatendo os artigos de Hermano - mas indicando a página do artigo para os leitores.
Nas últimas eleições, quando Maria Rita Khel foi demitida por Ricardo Gandour, dr. Ruy virou o bicho. Chamou o rapaz na sua sala e lhe deu uma espinafrada que ecoou pelos corredores do jornal
- 3
Enviado por luisnassif, dom, 17/04/2011 - 09:03
O Desenho da Mídia, de 23/03/2011
A pesquisa da CDN sobre os hábitos de leituras dos executivos brasileiros consolida percepções já antigas sobre o tema.
Considere-se que os executivos eram o público preferencial dos jornais, provavelmente os mais habituados às colunas dos jornais - daí talvez a preferência por blogs. Considere-se também que, pela pesquisa, continuam sendo majoritariamente leitores de jornais.
A pesquisa comprova algumas análises que já publiquei aqui e acrescenta ingredientes novos à discussão midiática.
Tempos atrás escrevi que, dos grupos da velha mídia, sobreviveriam as Organizações Globo e a Folha, através da UOL; que o Estadão era um grupo à venda; e que a Abril não conseguiria se colocar nesse novo mundo virtual.
Como a blogosfera é um universo múltiplo, distribuído, obviamente não dá para tratar da mesma maneira que um portal ou um jornal. É um grande bolo, mas dividido por milhares de blogs. E muitos desses blogs estão ancorados em portais jornalísticos.
Na pesquisa, alguns pontos chamam a atenção:
1.O predomínio dos portais variados sobre os portais exclusivamente jornalísticos. UOL (42%) e Terra (36%) se destacam vindo, a seguir, o iG (19%), acima do G1 (17%), mesmo este contando com o aparato de vídeo das Organizações Globo. Até a era Caio Túlio o iG encostava no Terra, na disputa pelo segundo lugar, mas por audiência total. Como a pesquisa, agora, é com executivos atrás de notícias, não sei se reflete a audiência total dos portais.
2.A pesquisa consagra a visão pioneira de Luiz Frias, quando convenceu o pai a apostar na UOL. A consolidação se deu em cima de uma série de operações habilidosas, da compra da parte da Abril à associação com a Portugal Telecom, a maneira como resolveu seus problemas com o ICMS paulista e a operação de IPO conduzida pelo Banco Pactual, o desenvolvimento de tecnologia própria. Em meio ao terremoto da última década, manteve o barco à tona e consolidou a posição de liderança. Ele e Rodrigo Mesquita, do Estadão, são os herdeiros que melhor entenderam os novos tempos.
3.Um capítulo curioso é o caso Nizan Guanaes. Quando lançou o iG, escrevi algumas vezes que o modelo de negócios (em cima da internet gratuita) não se sustentaria, porque baseado em uma distorção – o pagamento pelas teles aos portais que redirecionassem o tráfego para elas. De fato, não se sustentou. Mas Nizan estava certo em apostar em um modelo que dependesse de publicidade. Acontece que o iG surgiu muito antes da publicidade chegar maciçamente à internet. Foi salvo por manobras envolvendo controladores e sócios, mas se consolidou no terceiro lugar. Roberto Campos tinha uma maneira de definir erros estratégicos: quando se começa muito depois ou quando se começa muito antes. Nizan viu. O problema é que foi muito antes.
4.Chama atenção a total inexpressividade do Portal do Estadão – que não aparece sequer na pesquisa. Já a Agência Estado tem a leitura de apenas 2% dos executivos, justamente seu público-alvo. O grupo jogou tudo no Portal. É dos mais completos, com melhor conteúdo. Mas perdeu-se provavelmente na organização do conteúdo, que acabou reproduzindo, em um espaço que deveria ser organizado e hierarquizado, a própria desorganização e horizontalização da Internet. Sequer há separações claras sobre a ordem cronológica de entrada das notícias no portal. Não há uma porta de entrada simplificada, que permita visualizar todo o conteúdo. A própria versão online da Folha impressa, simplesinha, sem nenhuma firula, permite com dois cliques saber de todo conteúdo do jornal. No Estadão, é impossível.
5.Apesar do pesado investimento no seu Portal, Veja sequer aparece com 1% de indicações. A Abril perdeu o barco lá atrás, quando se desfez da BOL e, depois, da TVA. Está fora do jogo.
6.Com pouco tempo no ar, o R7 – embora ainda em pequenos 3% - suplantou a Agência Estado junto ao público-alvo da Agência.
7.Embora o jornal tenha passado por uma crise que quase liquidou com sua circulação, o site de O Dia ainda tem 2% de audiência dos executivos. Aliás, foi dos pioneiros, com alta qualidade inicial. Infelizmente a morte do Ary Carvalho interrompeu o planejamento para dar o upgrade ao jornal.
O caso Estadão
É curiosa a saga do Estadão.
Quando começou a era da informação online, foi dos primeiros a entender os novos tempos. Está certo, que à custa do pioneiro Dinheiro Vivo, que foi a primeira empresa a lançar serviços online. Na época, Rodrigo Mesquita convenceu a família a comprar o sistema de transmissão da Broadcast e contratou praticamente toda a minha equipe. Depois disso, fez um trabalho de gente grande na consolidação da Agência.
Quando sobreveio a crise do grupo, as disputas internas acabaram levando de roldão todos os membros da família que trabalhavam na empresa. E com isso o grupo perdeu sua cabeça estratégica.
Como o único setor dinâmico do grupo era a Agência, na impossibilidade de manter Rodrigo o Conselho decidiu promover seu segundo homem, Sandro Vaia. Só que Sandro tinha funções operacionais. Nunca foi estrategista dos novos tempos, nem chefe de redação dos velhos tempos.
Depois, resolveu trazer alguém de fora, Ricardo Gandour, com carreira bem sucedida no Publifolha. Em vez de coloca-lo para tocar novos negócios, como um publisher clássico, conferiu-se a ele a direção de conteúdo de todo o grupo. E seu perfil não é de jornalista de redação.
Com isso o jornal entrou na fase de maior ebulição da mídia brasileira, com o terremoto editorial acabando com a estratificação de leitura, sem um desenho claro de conteúdo.
A linha política foi mantida pela tradição da família Mesquita e da marca Estadão. Mas Gandour trouxe para dentro do jornal o vezo da Opus Dei (essa informação é de colegas ligados à própria família Mesquita, não de críticos do jornal), de instrumentalizar a cobertura. Manipulou manchetes, criou falsos escândalos, repercutiu as maluquices da Veja, cometeu ataques contra colegas, entrou no pool de mídia que se formou a partir de 2005. E, com isso, perdeu a oportunidade de firmar o jornal como alternativa de informação objetiva – embora ainda seja o jornalisticamente mais sólido dos veículos da velha mídia.
Agora, o Estadão está no seguinte dilema.
O jornalão está zero a zero – não gera mais lucros para financiar as novas plataformas; a rádio é superavitária mas de pequena expressão (embora o movimento de associação à ESPN seja promissor); a Agência Estado continua sendo a parte mais rentável.
Mas a grande aposta, o Portal, não vingou
Enviado por luisnassif, sab, 16/04/2011 - 09:09
Post de 12/02/2011
Nos tempos em que os Mesquita dirigiam o Estadão, seria impensável engavetar grandes matérias de escândalo.
Desde que assumiu a direção editorial do jornal, Ricardo Gandour vem atropelando um a um os princípios jornalísticos que fizeram do Estadão um jornal respeitado inclusive pelos adversários. O jornal era intransigente até demais em suas convicções, mas jamais brigava com os fatos ou abría mão das grandes matérias jornalísticas.
O histórico de Gandour inclui a demissão de Maria Rita Khel, a escandalização de fatos normais ou banais para atingir jornalistas que ele considerava adversários. E a censura - inédita no caso do Estadão - a grandes reportagens.
A matéria abaixo foi escrita em 24 de setembro de 2009. Era um furo jornalístico dos maiores: as investigações da Polícia Federal mostrando que um dossiê divulgado por Diogo Mainardi na Veja era (mais uma vez) falso e fruto de jogadas de lobbies. Como se recorda, durante semanas o falso dossiê foi apresentado como fruto de investigações da PF, com ampla repercussão nos jornais, no Jornal Nacional. Sabia-se que havia grandes interesses financeiros por trás, jogadas de lobistas pesados.
O Estadão deu a primeira matéria sobre a falsificação. Pelo visto, o repórter tinha o fio da meada para uma reportagem candidata a Esso.
Houve claro veto da direção do jornal à continuidade da matéria - já que não se leu mais nenhuma linha sobre o assunto. Ou irá se supor que o repórter abriu mão do seu furo. Gandour atropelou o jornalismo e princípios consagrados de atuação da família Mesquita.
Polícia acusa agente de criar falso dossiê - versaoimpressa - Estadao.com.br
O material tinha como alvo Victor de Souza irmão do ministro Franklin
24 de setembro de 2009 | 0h 00
Marcelo Auler, RIO - O Estadao de S.Paulo
O agente federal aposentado Wilson Ferreira Pinna, lotado na Agência Nacional de Petróleo (ANP), foi apontado pela Polícia Federal como o autor do falso dossiê contra o diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do ministro da Comunicação Social, Franklin Martins.
O material acusou Victor de Souza de aumentar os royalties das prefeituras que contratavam a empresa Análise Consultoria, que ele tem em sociedade com a mulher, Joseana Seabra. Pinna foi denunciado na 2ª Vara Federal Criminal do Rio pelos crimes de interceptação telefônica ilegal e quebra de sigilo fiscal dos irmãos de Vitor, inclusive do ministro.
Após a revista Veja divulgar o dossiê em abril, o Ministério Público Federal constatou que o documento não estava no inquérito da Delegacia Fazendária, que apura corrupção nos repasses de royalties. A inexistência do dossiê levou o superintendente da PF no Rio, Angelo Gioia, a abrir novo inquérito.
Em maio, a PF descobriu um pendrive com o falso dossiê, as declarações de renda obtidas ilegalmente e as transcrições de gravações telefônicas. Não se sabe quem recebeu o pendrive, mas os policiais identificaram Pinna como o autor.
Por meio de representação à juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal , onde tramita o inquérito, foi pedida a prisão do agente, além de busca e apreensão na sua casa e na ANP.
O pedido foi para as mãos do juiz Rodolfo Kronemberg Hartmann, da 2ª Vara Federal, que não analisou o caso, provocando um conflito de competência. Tudo parou até 15 de julho, quando o Tribunal Regional Federal (TRF) decidiu que a competência é da 2ª Vara. Após negar pedido de prisão, Hartmann intimou Pinna a apresentar sua defesa, antes de decidir se aceita a denúncia.
Ontem, procurado pelo Estado, Pinna reclamou da divulgação do caso por conta do segredo de Justiça e depois se apegou na rejeição do pedido de prisão para se defender. Vitor repetiu o que falou na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados: "Quero justiça, saber quem fez essa investigação criminosa, a mando de quem, quem pagou e com qual objetivo."
Para entender o ataque do Estadão - 2
Enviado por luisnassif, sab, 16/04/2011 - 09:12
Histórias de um grande jornalista
de 08/02/2011
História 1
Ruyzito Mesquita, acionista mas sem participação editorial no Estadão, planejou uma coleção de cinco volumes sobre sustentabilidade. Apresentou à Secretaria da Educação de São Paulo. A coleção foi aprovada para o sistema de compras de livros didáticos.
Nesse ínterim, Paulo Renato de Souza foi indicado Secretário da Educação. Depois do episódio do Bradesco - um email com um artigo que ele submetia à apreciação do presidente do banco - Paulo Renato havia perdido espaço na Folha e tornou-se articulista do Estadão. Indicado Secretário, seria normal que pedisse demissão da função. Não o fez, obrigando Ruy Mesquita, pai, a demiti-lo.
O troco veio em seguida: a Secretaria voltou atrás e rejeitou a coleção de Ruyzito.
José Serra foi informado da retaliação, mas nada fez. Mesmo não gostando de Serra - por seu hábito de pedir cabeça de jornalistas - o velho Ruy manteve-se firme na mesma linha do Estadão de apoio à sua candidatura.
História 2
Nos anos 70, o ex-deputado (cassado) e correspondente do Estadão em Londres, Hermano Alves, escreveu uma série de matérias que descontentou profundamente Ruy Mesquita, então dirigindo o Jornal da Tarde. Não foi proibido de continuar. Apenas diariamente Dr. Ruy fazia um editorial rebatendo os artigos de Hermano - mas indicando a página do artigo para os leitores.
Nas últimas eleições, quando Maria Rita Khel foi demitida por Ricardo Gandour, dr. Ruy virou o bicho. Chamou o rapaz na sua sala e lhe deu uma espinafrada que ecoou pelos corredores do jornal
- 3
Enviado por luisnassif, dom, 17/04/2011 - 09:03
O Desenho da Mídia, de 23/03/2011
A pesquisa da CDN sobre os hábitos de leituras dos executivos brasileiros consolida percepções já antigas sobre o tema.
Considere-se que os executivos eram o público preferencial dos jornais, provavelmente os mais habituados às colunas dos jornais - daí talvez a preferência por blogs. Considere-se também que, pela pesquisa, continuam sendo majoritariamente leitores de jornais.
A pesquisa comprova algumas análises que já publiquei aqui e acrescenta ingredientes novos à discussão midiática.
Tempos atrás escrevi que, dos grupos da velha mídia, sobreviveriam as Organizações Globo e a Folha, através da UOL; que o Estadão era um grupo à venda; e que a Abril não conseguiria se colocar nesse novo mundo virtual.
Como a blogosfera é um universo múltiplo, distribuído, obviamente não dá para tratar da mesma maneira que um portal ou um jornal. É um grande bolo, mas dividido por milhares de blogs. E muitos desses blogs estão ancorados em portais jornalísticos.
Na pesquisa, alguns pontos chamam a atenção:
1.O predomínio dos portais variados sobre os portais exclusivamente jornalísticos. UOL (42%) e Terra (36%) se destacam vindo, a seguir, o iG (19%), acima do G1 (17%), mesmo este contando com o aparato de vídeo das Organizações Globo. Até a era Caio Túlio o iG encostava no Terra, na disputa pelo segundo lugar, mas por audiência total. Como a pesquisa, agora, é com executivos atrás de notícias, não sei se reflete a audiência total dos portais.
2.A pesquisa consagra a visão pioneira de Luiz Frias, quando convenceu o pai a apostar na UOL. A consolidação se deu em cima de uma série de operações habilidosas, da compra da parte da Abril à associação com a Portugal Telecom, a maneira como resolveu seus problemas com o ICMS paulista e a operação de IPO conduzida pelo Banco Pactual, o desenvolvimento de tecnologia própria. Em meio ao terremoto da última década, manteve o barco à tona e consolidou a posição de liderança. Ele e Rodrigo Mesquita, do Estadão, são os herdeiros que melhor entenderam os novos tempos.
3.Um capítulo curioso é o caso Nizan Guanaes. Quando lançou o iG, escrevi algumas vezes que o modelo de negócios (em cima da internet gratuita) não se sustentaria, porque baseado em uma distorção – o pagamento pelas teles aos portais que redirecionassem o tráfego para elas. De fato, não se sustentou. Mas Nizan estava certo em apostar em um modelo que dependesse de publicidade. Acontece que o iG surgiu muito antes da publicidade chegar maciçamente à internet. Foi salvo por manobras envolvendo controladores e sócios, mas se consolidou no terceiro lugar. Roberto Campos tinha uma maneira de definir erros estratégicos: quando se começa muito depois ou quando se começa muito antes. Nizan viu. O problema é que foi muito antes.
4.Chama atenção a total inexpressividade do Portal do Estadão – que não aparece sequer na pesquisa. Já a Agência Estado tem a leitura de apenas 2% dos executivos, justamente seu público-alvo. O grupo jogou tudo no Portal. É dos mais completos, com melhor conteúdo. Mas perdeu-se provavelmente na organização do conteúdo, que acabou reproduzindo, em um espaço que deveria ser organizado e hierarquizado, a própria desorganização e horizontalização da Internet. Sequer há separações claras sobre a ordem cronológica de entrada das notícias no portal. Não há uma porta de entrada simplificada, que permita visualizar todo o conteúdo. A própria versão online da Folha impressa, simplesinha, sem nenhuma firula, permite com dois cliques saber de todo conteúdo do jornal. No Estadão, é impossível.
5.Apesar do pesado investimento no seu Portal, Veja sequer aparece com 1% de indicações. A Abril perdeu o barco lá atrás, quando se desfez da BOL e, depois, da TVA. Está fora do jogo.
6.Com pouco tempo no ar, o R7 – embora ainda em pequenos 3% - suplantou a Agência Estado junto ao público-alvo da Agência.
7.Embora o jornal tenha passado por uma crise que quase liquidou com sua circulação, o site de O Dia ainda tem 2% de audiência dos executivos. Aliás, foi dos pioneiros, com alta qualidade inicial. Infelizmente a morte do Ary Carvalho interrompeu o planejamento para dar o upgrade ao jornal.
O caso Estadão
É curiosa a saga do Estadão.
Quando começou a era da informação online, foi dos primeiros a entender os novos tempos. Está certo, que à custa do pioneiro Dinheiro Vivo, que foi a primeira empresa a lançar serviços online. Na época, Rodrigo Mesquita convenceu a família a comprar o sistema de transmissão da Broadcast e contratou praticamente toda a minha equipe. Depois disso, fez um trabalho de gente grande na consolidação da Agência.
Quando sobreveio a crise do grupo, as disputas internas acabaram levando de roldão todos os membros da família que trabalhavam na empresa. E com isso o grupo perdeu sua cabeça estratégica.
Como o único setor dinâmico do grupo era a Agência, na impossibilidade de manter Rodrigo o Conselho decidiu promover seu segundo homem, Sandro Vaia. Só que Sandro tinha funções operacionais. Nunca foi estrategista dos novos tempos, nem chefe de redação dos velhos tempos.
Depois, resolveu trazer alguém de fora, Ricardo Gandour, com carreira bem sucedida no Publifolha. Em vez de coloca-lo para tocar novos negócios, como um publisher clássico, conferiu-se a ele a direção de conteúdo de todo o grupo. E seu perfil não é de jornalista de redação.
Com isso o jornal entrou na fase de maior ebulição da mídia brasileira, com o terremoto editorial acabando com a estratificação de leitura, sem um desenho claro de conteúdo.
A linha política foi mantida pela tradição da família Mesquita e da marca Estadão. Mas Gandour trouxe para dentro do jornal o vezo da Opus Dei (essa informação é de colegas ligados à própria família Mesquita, não de críticos do jornal), de instrumentalizar a cobertura. Manipulou manchetes, criou falsos escândalos, repercutiu as maluquices da Veja, cometeu ataques contra colegas, entrou no pool de mídia que se formou a partir de 2005. E, com isso, perdeu a oportunidade de firmar o jornal como alternativa de informação objetiva – embora ainda seja o jornalisticamente mais sólido dos veículos da velha mídia.
Agora, o Estadão está no seguinte dilema.
O jornalão está zero a zero – não gera mais lucros para financiar as novas plataformas; a rádio é superavitária mas de pequena expressão (embora o movimento de associação à ESPN seja promissor); a Agência Estado continua sendo a parte mais rentável.
Mas a grande aposta, o Portal, não vingou
sexta-feira, 25 de março de 2011
Extinção do jornalismo como uma profissão - blog do nassif
Enviado por luisnassif, qui, 24/03/2011 - 19:22
Autor: http://bit.ly/gLiuT4
Por Adir Tavares
Tradução do Google.
Dois bits de informação me chamou a atenção esta semana. A primeira foi publicada pela AFP e remetido à chamada união forte de 26 mil trabalhadores da imprensa dos EUA, O Sindicato dos Jornalistas, em contribuintes para o Huffington Post a parar de oferecer conteúdo gratuito para o site (!).
"Assim como gostaríamos de pedir que os escritores firmes e não cruzar uma linha de piquete física, pedimos que honram este piquete eletrônico", a guilda disse em um comunicado.
"Nós sentimos que é antiético esperar profissionais treinados e qualificados para contribuir com conteúdo de qualidade para nada", disse a guilda. "Trabalhar de graça não é beneficiar os trabalhadores e prejudica um jornalismo de qualidade".
Uau. Eles devem realmente começar a sentir como os dinossauros, revertendo a medidas desesperadas para defender seu território jornalístico. Para quem não ouviu falar sobre o Huffington Post , é uma coleção de blogs gratuitamente, em uma variedade de tópicos, que atraem um grande público em todo o mundo o que permite a monetização do conteúdo com publicidade on-line - isso funciona no mesmo princípio básico como qualquer jornal, mas em um ambiente online. Recentemente, foi adquirida pela AOL por US $ 315 milhões.
Não me interpretem mal. Eu realmente sinto para as pessoas que podem ter sido envolvido na indústria por muitos anos e agora enfrentam rápidas mudanças no ambiente em que eles não sabem como adaptar. O modelo de negócio dos seus patrões estão em execução está sob a ameaça extrema e isso pode significar muitos terão que deixar a indústria e procurar outro trabalho. Triste, mas na verdade esse é o preço do progresso e do que aconteceu a muitas profissões no passado.
Esta notícia passou relativamente despercebida, mas destaca a atitude que a indústria de mídia, como um todo, tem em relação aos outros participantes na mídia / área editorial: dividindo-as em "verdadeiros jornalistas" e os impostores. E, novamente, demonstrando uma incapacidade de compreender que as mudanças são o resultado da globalização e mudanças estruturais subjacentes - o que resulta em redução na rentabilidade e níveis de receita em comparação com o passado.
O jornalismo está se tornando um pouco de uma mercadoria - a palavra não descreve uma ocupação, mas sim uma atividade que qualquer pessoa pode fazer em um tempo de reposição. (Qualquer um que tenha uma opinião! E não necessariamente esperar qualquer recompensa monetária para fazê-lo).
Então, o que é realmente uma definição de jornalismo? O dicionário Webster define o jornalismo como: "o trabalho de coleta, redação, edição e publicação ou divulgação de notícias, como através de jornais e revistas, ou por rádio e televisão". O American Heritage Dictionary de Inglês tem uma definição muito semelhante. Webster segue o mesmo padrão. Australiano Macquarie Dictionary não é diferente ... Mas Dicionário Inglês Collins coloca uma perspectiva mais ampla, um pouco sobre o termo: "1. (Comunicação Artes / Jornalismo e Editoração) da profissão ou exercício da reportagem sobre, fotografar, ou as notícias em edição de um dos meios de comunicação de massa ". Isso significa que, se estender a definição de meios de comunicação social para incluir a internet , o jornalismo pode se relacionar a publicação online também.
E essa visão mais ampla do jornalismo está ganhando o reconhecimento ao mais alto nível, pelo menos na Austrália, o que me leva à segunda notícia de significância. Conforme relatado por Mumbrella , A Casa dos Representantes leis apoiado a assegurar que qualquer pessoa envolvida na produção de notícias - independentemente do local onde trabalho - pode procurar uma fonte para evitar ser identificado. Em outras palavras, "leis de proteção" dará blogueiros e tweeters dos mesmos direitos que jornalistas profissionais para proteger suas fontes. E o mais importante, a notícia foi bem recebida por jornalistas, o sindicato, os Media, Entertainment & Arts Alliance, como "inovador". Podemos ser "para baixo", mas no topo em termos de pensamento progressista. É uma indicação de que a indústria local parece ser muito melhor em sintonia com o meio ambiente emergentes do que seus colegas no exterior. Também suscita alguma esperança de que o sector da comunicação social local tem uma boa chance de se adaptar às novas condições do mercado e encontrar um modelo de negócio rentável para assegurar o seu futuro a longo prazo. É verdade, com a recente aquisição de Alojamento portais reserva Fairfax pode ter exagerou um pouco na sua busca de diversificação para serviços transacionais ( isto . o que faz reserva de alojamento tem a ver com jornalismo?), mas pelo menos eles estão tentando ativamente idéias diferentes para encontrar o modelo certo para um negócio de mídia sustentável
Autor: http://bit.ly/gLiuT4
Por Adir Tavares
Tradução do Google.
Dois bits de informação me chamou a atenção esta semana. A primeira foi publicada pela AFP e remetido à chamada união forte de 26 mil trabalhadores da imprensa dos EUA, O Sindicato dos Jornalistas, em contribuintes para o Huffington Post a parar de oferecer conteúdo gratuito para o site (!).
"Assim como gostaríamos de pedir que os escritores firmes e não cruzar uma linha de piquete física, pedimos que honram este piquete eletrônico", a guilda disse em um comunicado.
"Nós sentimos que é antiético esperar profissionais treinados e qualificados para contribuir com conteúdo de qualidade para nada", disse a guilda. "Trabalhar de graça não é beneficiar os trabalhadores e prejudica um jornalismo de qualidade".
Uau. Eles devem realmente começar a sentir como os dinossauros, revertendo a medidas desesperadas para defender seu território jornalístico. Para quem não ouviu falar sobre o Huffington Post , é uma coleção de blogs gratuitamente, em uma variedade de tópicos, que atraem um grande público em todo o mundo o que permite a monetização do conteúdo com publicidade on-line - isso funciona no mesmo princípio básico como qualquer jornal, mas em um ambiente online. Recentemente, foi adquirida pela AOL por US $ 315 milhões.
Não me interpretem mal. Eu realmente sinto para as pessoas que podem ter sido envolvido na indústria por muitos anos e agora enfrentam rápidas mudanças no ambiente em que eles não sabem como adaptar. O modelo de negócio dos seus patrões estão em execução está sob a ameaça extrema e isso pode significar muitos terão que deixar a indústria e procurar outro trabalho. Triste, mas na verdade esse é o preço do progresso e do que aconteceu a muitas profissões no passado.
Esta notícia passou relativamente despercebida, mas destaca a atitude que a indústria de mídia, como um todo, tem em relação aos outros participantes na mídia / área editorial: dividindo-as em "verdadeiros jornalistas" e os impostores. E, novamente, demonstrando uma incapacidade de compreender que as mudanças são o resultado da globalização e mudanças estruturais subjacentes - o que resulta em redução na rentabilidade e níveis de receita em comparação com o passado.
O jornalismo está se tornando um pouco de uma mercadoria - a palavra não descreve uma ocupação, mas sim uma atividade que qualquer pessoa pode fazer em um tempo de reposição. (Qualquer um que tenha uma opinião! E não necessariamente esperar qualquer recompensa monetária para fazê-lo).
Então, o que é realmente uma definição de jornalismo? O dicionário Webster define o jornalismo como: "o trabalho de coleta, redação, edição e publicação ou divulgação de notícias, como através de jornais e revistas, ou por rádio e televisão". O American Heritage Dictionary de Inglês tem uma definição muito semelhante. Webster segue o mesmo padrão. Australiano Macquarie Dictionary não é diferente ... Mas Dicionário Inglês Collins coloca uma perspectiva mais ampla, um pouco sobre o termo: "1. (Comunicação Artes / Jornalismo e Editoração) da profissão ou exercício da reportagem sobre, fotografar, ou as notícias em edição de um dos meios de comunicação de massa ". Isso significa que, se estender a definição de meios de comunicação social para incluir a internet , o jornalismo pode se relacionar a publicação online também.
E essa visão mais ampla do jornalismo está ganhando o reconhecimento ao mais alto nível, pelo menos na Austrália, o que me leva à segunda notícia de significância. Conforme relatado por Mumbrella , A Casa dos Representantes leis apoiado a assegurar que qualquer pessoa envolvida na produção de notícias - independentemente do local onde trabalho - pode procurar uma fonte para evitar ser identificado. Em outras palavras, "leis de proteção" dará blogueiros e tweeters dos mesmos direitos que jornalistas profissionais para proteger suas fontes. E o mais importante, a notícia foi bem recebida por jornalistas, o sindicato, os Media, Entertainment & Arts Alliance, como "inovador". Podemos ser "para baixo", mas no topo em termos de pensamento progressista. É uma indicação de que a indústria local parece ser muito melhor em sintonia com o meio ambiente emergentes do que seus colegas no exterior. Também suscita alguma esperança de que o sector da comunicação social local tem uma boa chance de se adaptar às novas condições do mercado e encontrar um modelo de negócio rentável para assegurar o seu futuro a longo prazo. É verdade, com a recente aquisição de Alojamento portais reserva Fairfax pode ter exagerou um pouco na sua busca de diversificação para serviços transacionais ( isto . o que faz reserva de alojamento tem a ver com jornalismo?), mas pelo menos eles estão tentando ativamente idéias diferentes para encontrar o modelo certo para um negócio de mídia sustentável
Marcadores:
imprensa,
Internet,
JORNALISTAS,
NASSIF
quarta-feira, 23 de março de 2011
O desenho da mídia - luisnassif
Enviado por , qua, 23/03/2011 - 12:40
A pesquisa da CDN sobre os hábitos de leituras dos executivos brasileiros consolida percepções já antigas sobre o tema.
Considere-se que os executivos eram o público preferencial dos jornais, provavelmente os mais habituados às colunas dos jornais - daí talvez a preferência por blogs. Considere-se também que, pela pesquisa, continuam sendo majoritariamente leitores de jornais.
A pesquisa comprova algumas análises que já publiquei aqui e acrescenta ingredientes novos à discussão midiática.
Tempos atrás escrevi que, dos grupos da velha mídia, sobreviveriam as Organizações Globo e a Folha, através da UOL; que o Estadão era um grupo à venda; e que a Abril não conseguiria se colocar nesse novo mundo virtual.
Como a blogosfera é um universo múltiplo, distribuído, obviamente não dá para tratar da mesma maneira que um portal ou um jornal. É um grande bolo, mas dividido por milhares de blogs. E muitos desses blogs estão ancorados em portais jornalísticos.
Na pesquisa, alguns pontos chamam a atenção:
1.O predomínio dos portais variados sobre os portais exclusivamente jornalísticos. UOL (42%) e Terra (36%) se destacam vindo, a seguir, o iG (19%), acima do G1 (17%), mesmo este contando com o aparato de vídeo das Organizações Globo. Até a era Caio Túlio o iG encostava no Terra, na disputa pelo segundo lugar, mas por audiência total. Como a pesquisa, agora, é com executivos atrás de notícias, não sei se reflete a audiência total dos portais.
2.A pesquisa consagra a visão pioneira de Luiz Frias, quando convenceu o pai a apostar na UOL. A consolidação se deu em cima de uma série de operações habilidosas, da compra da parte da Abril à associação com a Portugal Telecom, a maneira como resolveu seus problemas com o ICMS paulista e a operação de IPO conduzida pelo Banco Pactual, o desenvolvimento de tecnologia própria. Em meio ao terremoto da última década, manteve o barco à tona e consolidou a posição de liderança. Ele e Rodrigo Mesquita, do Estadão, são os herdeiros que melhor entenderam os novos tempos.
3.Um capítulo curioso é o caso Nizan Guanaes. Quando lançou o iG, escrevi algumas vezes que o modelo de negócios (em cima da internet gratuita) não se sustentaria, porque baseado em uma distorção – o pagamento pelas teles aos portais que redirecionassem o tráfego para elas. De fato, não se sustentou. Mas Nizan estava certo em apostar em um modelo que dependesse de publicidade. Acontece que o iG surgiu muito antes da publicidade chegar maciçamente à internet. Foi salvo por manobras envolvendo controladores e sócios, mas se consolidou no terceiro lugar. Roberto Campos tinha uma maneira de definir erros estratégicos: quando se começa muito depois ou quando se começa muito antes. Nizan viu. O problema é que foi muito antes.
4.Chama atenção a total inexpressividade do Portal do Estadão – que não aparece sequer na pesquisa. Já a Agência Estado tem a leitura de apenas 2% dos executivos, justamente seu público-alvo. O grupo jogou tudo no Portal. É dos mais completos, com melhor conteúdo. Mas perdeu-se provavelmente na organização do conteúdo, que acabou reproduzindo, em um espaço que deveria ser organizado e hierarquizado, a própria desorganização e horizontalização da Internet. Sequer há separações claras sobre a ordem cronológica de entrada das notícias no portal. Não há uma porta de entrada simplificada, que permita visualizar todo o conteúdo. A própria versão online da Folha impressa, simplesinha, sem nenhuma firula, permite com dois cliques saber de todo conteúdo do jornal. No Estadão, é impossível.
5.Apesar do pesado investimento no seu Portal, Veja sequer aparece com 1% de indicações. A Abril perdeu o barco lá atrás, quando se desfez da BOL e, depois, da TVA. Está fora do jogo.
6.Com pouco tempo no ar, o R7 – embora ainda em pequenos 3% - suplantou a Agência Estado junto ao público-alvo da Agência.
7.Embora o jornal tenha passado por uma crise que quase liquidou com sua circulação, o site de O Dia ainda tem 2% de audiência dos executivos. Aliás, foi dos pioneiros, com alta qualidade inicial. Infelizmente a morte do Ary Carvalho interrompeu o planejamento para dar o upgrade ao jornal.
O caso Estadão
É curiosa a saga do Estadão.
Quando começou a era da informação online, foi dos primeiros a entender os novos tempos. Está certo, que à custa do pioneiro Dinheiro Vivo, que foi a primeira empresa a lançar serviços online. Na época, Rodrigo Mesquita convenceu a família a comprar o sistema de transmissão da Broadcast e contratou praticamente toda a minha equipe. Depois disso, fez um trabalho de gente grande na consolidação da Agência.
Quando sobreveio a crise do grupo, as disputas internas acabaram levando de roldão todos os membros da família que trabalhavam na empresa. E com isso o grupo perdeu sua cabeça estratégica.
Como o único setor dinâmico do grupo era a Agência, na impossibilidade de manter Rodrigo o Conselho decidiu promover seu segundo homem, Sandro Vaia. Só que Sandro tinha funções operacionais. Nunca foi estrategista dos novos tempos, nem chefe de redação dos velhos tempos.
Depois, resolveu trazer alguém de fora, Ricardo Gandour, com carreira bem sucedida no Publifolha. Em vez de coloca-lo para tocar novos negócios, como um publisher clássico, conferiu-se a ele a direção de conteúdo de todo o grupo. E seu perfil não é de jornalista de redação.
Com isso o jornal entrou na fase de maior ebulição da mídia brasileira, com o terremoto editorial acabando com a estratificação de leitura, sem um desenho claro de conteúdo.
A linha política foi mantida pela tradição da família Mesquita e da marca Estadão. Mas Gandour trouxe para dentro do jornal o vezo da Opus Dei (essa informação é de colegas ligados à própria família Mesquita, não de críticos do jornal), de instrumentalizar a cobertura. Manipulou manchetes, criou falsos escândalos, repercutiu as maluquices da Veja, cometeu ataques contra colegas, entrou no pool de mídia que se formou a partir de 2005. E, com isso, perdeu a oportunidade de firmar o jornal como alternativa de informação objetiva – embora ainda seja o jornalisticamente mais sólido dos veículos da velha mídia.
Agora, o Estadão está no seguinte dilema.
O jornalão está zero a zero – não gera mais lucros para financiar as novas plataformas; a rádio é superavitária mas de pequena expressão (embora o movimento de associação à ESPN seja promissor); a Agência Estado continua sendo a parte mais rentável.
Mas a grande aposta, o Portal, não vingou.
A pesquisa da CDN sobre os hábitos de leituras dos executivos brasileiros consolida percepções já antigas sobre o tema.
Considere-se que os executivos eram o público preferencial dos jornais, provavelmente os mais habituados às colunas dos jornais - daí talvez a preferência por blogs. Considere-se também que, pela pesquisa, continuam sendo majoritariamente leitores de jornais.
A pesquisa comprova algumas análises que já publiquei aqui e acrescenta ingredientes novos à discussão midiática.
Tempos atrás escrevi que, dos grupos da velha mídia, sobreviveriam as Organizações Globo e a Folha, através da UOL; que o Estadão era um grupo à venda; e que a Abril não conseguiria se colocar nesse novo mundo virtual.
Como a blogosfera é um universo múltiplo, distribuído, obviamente não dá para tratar da mesma maneira que um portal ou um jornal. É um grande bolo, mas dividido por milhares de blogs. E muitos desses blogs estão ancorados em portais jornalísticos.
Na pesquisa, alguns pontos chamam a atenção:
1.O predomínio dos portais variados sobre os portais exclusivamente jornalísticos. UOL (42%) e Terra (36%) se destacam vindo, a seguir, o iG (19%), acima do G1 (17%), mesmo este contando com o aparato de vídeo das Organizações Globo. Até a era Caio Túlio o iG encostava no Terra, na disputa pelo segundo lugar, mas por audiência total. Como a pesquisa, agora, é com executivos atrás de notícias, não sei se reflete a audiência total dos portais.
2.A pesquisa consagra a visão pioneira de Luiz Frias, quando convenceu o pai a apostar na UOL. A consolidação se deu em cima de uma série de operações habilidosas, da compra da parte da Abril à associação com a Portugal Telecom, a maneira como resolveu seus problemas com o ICMS paulista e a operação de IPO conduzida pelo Banco Pactual, o desenvolvimento de tecnologia própria. Em meio ao terremoto da última década, manteve o barco à tona e consolidou a posição de liderança. Ele e Rodrigo Mesquita, do Estadão, são os herdeiros que melhor entenderam os novos tempos.
3.Um capítulo curioso é o caso Nizan Guanaes. Quando lançou o iG, escrevi algumas vezes que o modelo de negócios (em cima da internet gratuita) não se sustentaria, porque baseado em uma distorção – o pagamento pelas teles aos portais que redirecionassem o tráfego para elas. De fato, não se sustentou. Mas Nizan estava certo em apostar em um modelo que dependesse de publicidade. Acontece que o iG surgiu muito antes da publicidade chegar maciçamente à internet. Foi salvo por manobras envolvendo controladores e sócios, mas se consolidou no terceiro lugar. Roberto Campos tinha uma maneira de definir erros estratégicos: quando se começa muito depois ou quando se começa muito antes. Nizan viu. O problema é que foi muito antes.
4.Chama atenção a total inexpressividade do Portal do Estadão – que não aparece sequer na pesquisa. Já a Agência Estado tem a leitura de apenas 2% dos executivos, justamente seu público-alvo. O grupo jogou tudo no Portal. É dos mais completos, com melhor conteúdo. Mas perdeu-se provavelmente na organização do conteúdo, que acabou reproduzindo, em um espaço que deveria ser organizado e hierarquizado, a própria desorganização e horizontalização da Internet. Sequer há separações claras sobre a ordem cronológica de entrada das notícias no portal. Não há uma porta de entrada simplificada, que permita visualizar todo o conteúdo. A própria versão online da Folha impressa, simplesinha, sem nenhuma firula, permite com dois cliques saber de todo conteúdo do jornal. No Estadão, é impossível.
5.Apesar do pesado investimento no seu Portal, Veja sequer aparece com 1% de indicações. A Abril perdeu o barco lá atrás, quando se desfez da BOL e, depois, da TVA. Está fora do jogo.
6.Com pouco tempo no ar, o R7 – embora ainda em pequenos 3% - suplantou a Agência Estado junto ao público-alvo da Agência.
7.Embora o jornal tenha passado por uma crise que quase liquidou com sua circulação, o site de O Dia ainda tem 2% de audiência dos executivos. Aliás, foi dos pioneiros, com alta qualidade inicial. Infelizmente a morte do Ary Carvalho interrompeu o planejamento para dar o upgrade ao jornal.
O caso Estadão
É curiosa a saga do Estadão.
Quando começou a era da informação online, foi dos primeiros a entender os novos tempos. Está certo, que à custa do pioneiro Dinheiro Vivo, que foi a primeira empresa a lançar serviços online. Na época, Rodrigo Mesquita convenceu a família a comprar o sistema de transmissão da Broadcast e contratou praticamente toda a minha equipe. Depois disso, fez um trabalho de gente grande na consolidação da Agência.
Quando sobreveio a crise do grupo, as disputas internas acabaram levando de roldão todos os membros da família que trabalhavam na empresa. E com isso o grupo perdeu sua cabeça estratégica.
Como o único setor dinâmico do grupo era a Agência, na impossibilidade de manter Rodrigo o Conselho decidiu promover seu segundo homem, Sandro Vaia. Só que Sandro tinha funções operacionais. Nunca foi estrategista dos novos tempos, nem chefe de redação dos velhos tempos.
Depois, resolveu trazer alguém de fora, Ricardo Gandour, com carreira bem sucedida no Publifolha. Em vez de coloca-lo para tocar novos negócios, como um publisher clássico, conferiu-se a ele a direção de conteúdo de todo o grupo. E seu perfil não é de jornalista de redação.
Com isso o jornal entrou na fase de maior ebulição da mídia brasileira, com o terremoto editorial acabando com a estratificação de leitura, sem um desenho claro de conteúdo.
A linha política foi mantida pela tradição da família Mesquita e da marca Estadão. Mas Gandour trouxe para dentro do jornal o vezo da Opus Dei (essa informação é de colegas ligados à própria família Mesquita, não de críticos do jornal), de instrumentalizar a cobertura. Manipulou manchetes, criou falsos escândalos, repercutiu as maluquices da Veja, cometeu ataques contra colegas, entrou no pool de mídia que se formou a partir de 2005. E, com isso, perdeu a oportunidade de firmar o jornal como alternativa de informação objetiva – embora ainda seja o jornalisticamente mais sólido dos veículos da velha mídia.
Agora, o Estadão está no seguinte dilema.
O jornalão está zero a zero – não gera mais lucros para financiar as novas plataformas; a rádio é superavitária mas de pequena expressão (embora o movimento de associação à ESPN seja promissor); a Agência Estado continua sendo a parte mais rentável.
Mas a grande aposta, o Portal, não vingou.
quinta-feira, 3 de março de 2011
mídia,internet e poder - Manuel Castells: as revoltas e a internet
Enviado por luisnassif, qua, 02/03/2011 - 10:48
Por jc.pompeu
Do Outras Palavras
Castells, sobre Internet e Rebelião: “É só o começo”
BY ADMIN – 01/03/2011 POSTED IN: CAPA
Por Jordi Rovira, Universitad Oberta de Catalunya | Tradução: Cauê Seigne Ameni
Os meios de comunicação passaram semanas centrando sua atenção na Tunísia, no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi, terminaram em poucos dias com a ditadura de Bem Ali e na sequência, como peças enfileiradas de dominó, com a “presidência” de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrain e Omã.
Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial — em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Ante esse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sob o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação ao seu alcance.
Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países, em sua mobilização?
g>NaveNa verdade não. No meu livro Comunicação e Poder, dediquei muitas paginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente.
As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas”.
Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como conseqüência lógica, ainda de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?
As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade. E talvez a mais importante das muitas transformações que a internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.
A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares, graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõem de acesso a internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha – usando suas próprias palavras, entre “conectados” e “desconectados” – ainda maior que a que se da nos países desenvolvidos?
O dado já esta antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à internet — se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%.
Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana esta conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas uma número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos, e pudessem derrotar o ditador.
A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa hoje em dia e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.
Até que ponto o poder dispõe de ferramentas necessárias para sufocar as insurreições promovidas desde a rede?
Não as tem. No Egito, inclusive, tentaram desconectar toda a rede e não conseguiram. Houve mil formas, incluindo conexões fixas de telefone a numero no exterior, que transformavam automaticamente as mensagens em twetts e fax no país. E o custo econômico e funcional da desconexão da internet é tão alta que tiveram que restaurá-la rapidamente.
Hoje em dia, um apagão da rede é como um elétrico. Bem Ali não caii tão rápido, houve um mês de manifestações e massacres. O Irã não pode se desconectar a rede: os manifestantes estiveram sempre comunicando-se e expondo suas ações em vídeos no Youtube. A diferença é que ali, politicamente, o regime teve força para reprimir selvagemente sem que interviesse o exército. Porém as sementes da rebelião estão plantadas e os jovens iranianos, 70% da população, estão agora maciçamente contra o regime. É questão de tempo.
A mobilização popular através dos meios digitais criou heróis da cibernéticos no Egito — como Weal Ghonim, o jovem executivo do Google. Que papel podem desempenhar esses novos lideres no futuro de seus países?
O importante das “wikirrevoluções” (as que se auto-geram e se auto-organizam) é que as lideranças não contam, são puros símbolos.
Símbolos que não mandam nada, pois ninguém os obedeceria, eles tampouco tentariam impor-se. Pode ser que, uma vez institucionalizada, a revolução coopte se algumas destas pessoas como símbolos de mudanças — ainda que eu duvide muito que Ghonim queira ser político. Cohn Bendit era também um símbolo, não um líder. Foi estudante e amigo meu em 68, ele era um autêntico anarquista: Rechaçava as decisões dos líderes e utilizava seu carisma (foi o primeiro a ser reprimido) para ajudar a mobilização espontânea.
Walesa foi diferente, um vaticanista do aparato sindical. Por isso, tornou-se político rapidamente. Cohn Bendit tardou muito mais e ainda assim é, fundamentalmente um verde, que mantém valores de respeito às origens dos movimentos sociais.
A aliança entre meios de comunicação convencional e novas tecnologias é o caminho a seguir no futuro, para enfrentar com êxito os grandes desafios?
Os grande meios de comunicação não têm escolha. Ou aliam-se com a internet e com o jornalismo cidadão, ou irão se marginalizando e tornando-se economicamente insustentáveis. Mas hoje, essa aliança ainda é decisiva para a mudança social. SemAl Jazeera não teria havido revolução na Tunísia.
Em um artigo intitulado “Comunicação e Revolução”, você recordou que em 5 de fevereiro a China havia proibido a palavra Egito na Internet. Acredita que existem condições para que possa ocorrer, no gigante asiático, um movimento popular parecido com o que esta percorrendo o mundo árabe?
Não, porque 72% do chineses apoiam seu governo. A classe média urbana, sobretudo os jovens, estão muito ocupados enriquecendo-se. Os verdadeiros problemas do campesinato e operários — ou seja, os verdadeiros problemas sociais da China — encontram se muito longe. O governo resguarda-se demais, porque a censura antagoniza muita gente que não está realmente contra o regime. Na China, a democracia não é, hoje, um problema para a maioria das pessoas, diferente do que ocorria na Tunísia e no Egito.
Esse novo tipo de comunicação, globalizada, atomizada e que se nutre se da colaboração de milhões de usuários, pode chegar a transformar nossa maneira de entender a comunicação interpessoal? Ou é apenas uma ferramenta potente a mais, à nossa disposição?
Já tranformou. Ninguém que esta inserido diariamente nas rede sociais (este é o caso de 700 dos 1,2 milhões de usuários) segue sendo a mesma pessoa. Mas não é um mundo exotérico: há uma inter-relação online/off-line.
Como esta comunicação mudou, e muda a cada dia, é uma questão que se deve responder por meio de investigação acadêmica, não através de especialistas em fofocas. E por isso empreendemos o Projeto Internet Catalunha na UOC.
Podemos dizer que os ciber-ataques serão a guerra do futuro?
Na realidade, esta guerra já faz parte do presente. Os Estados Unidos consideram prioritária a ciberguerra. Destinaram a este tama um orçamento dez vezes maior que todos os demais países juntos. Na Espanha, as Forças Armadas também estão se equipando rapidamente na mesma direção. A internet é o espaço do poder e da felicidade, da paz e da guerra.
É o espaço social do nosso mundo, um lugar hibrido, construído na interface entre a experiência direta e a mediada pela comunicação, e sobretudo, pela comunicação na internet
Por jc.pompeu
Do Outras Palavras
Castells, sobre Internet e Rebelião: “É só o começo”
BY ADMIN – 01/03/2011 POSTED IN: CAPA
Por Jordi Rovira, Universitad Oberta de Catalunya | Tradução: Cauê Seigne Ameni
Os meios de comunicação passaram semanas centrando sua atenção na Tunísia, no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi, terminaram em poucos dias com a ditadura de Bem Ali e na sequência, como peças enfileiradas de dominó, com a “presidência” de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrain e Omã.
Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial — em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Ante esse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sob o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação ao seu alcance.
Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países, em sua mobilização?
g>NaveNa verdade não. No meu livro Comunicação e Poder, dediquei muitas paginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente.
As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas”.
Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como conseqüência lógica, ainda de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?
As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade. E talvez a mais importante das muitas transformações que a internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.
A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares, graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõem de acesso a internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha – usando suas próprias palavras, entre “conectados” e “desconectados” – ainda maior que a que se da nos países desenvolvidos?
O dado já esta antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à internet — se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%.
Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana esta conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas uma número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos, e pudessem derrotar o ditador.
A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa hoje em dia e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.
Até que ponto o poder dispõe de ferramentas necessárias para sufocar as insurreições promovidas desde a rede?
Não as tem. No Egito, inclusive, tentaram desconectar toda a rede e não conseguiram. Houve mil formas, incluindo conexões fixas de telefone a numero no exterior, que transformavam automaticamente as mensagens em twetts e fax no país. E o custo econômico e funcional da desconexão da internet é tão alta que tiveram que restaurá-la rapidamente.
Hoje em dia, um apagão da rede é como um elétrico. Bem Ali não caii tão rápido, houve um mês de manifestações e massacres. O Irã não pode se desconectar a rede: os manifestantes estiveram sempre comunicando-se e expondo suas ações em vídeos no Youtube. A diferença é que ali, politicamente, o regime teve força para reprimir selvagemente sem que interviesse o exército. Porém as sementes da rebelião estão plantadas e os jovens iranianos, 70% da população, estão agora maciçamente contra o regime. É questão de tempo.
A mobilização popular através dos meios digitais criou heróis da cibernéticos no Egito — como Weal Ghonim, o jovem executivo do Google. Que papel podem desempenhar esses novos lideres no futuro de seus países?
O importante das “wikirrevoluções” (as que se auto-geram e se auto-organizam) é que as lideranças não contam, são puros símbolos.
Símbolos que não mandam nada, pois ninguém os obedeceria, eles tampouco tentariam impor-se. Pode ser que, uma vez institucionalizada, a revolução coopte se algumas destas pessoas como símbolos de mudanças — ainda que eu duvide muito que Ghonim queira ser político. Cohn Bendit era também um símbolo, não um líder. Foi estudante e amigo meu em 68, ele era um autêntico anarquista: Rechaçava as decisões dos líderes e utilizava seu carisma (foi o primeiro a ser reprimido) para ajudar a mobilização espontânea.
Walesa foi diferente, um vaticanista do aparato sindical. Por isso, tornou-se político rapidamente. Cohn Bendit tardou muito mais e ainda assim é, fundamentalmente um verde, que mantém valores de respeito às origens dos movimentos sociais.
A aliança entre meios de comunicação convencional e novas tecnologias é o caminho a seguir no futuro, para enfrentar com êxito os grandes desafios?
Os grande meios de comunicação não têm escolha. Ou aliam-se com a internet e com o jornalismo cidadão, ou irão se marginalizando e tornando-se economicamente insustentáveis. Mas hoje, essa aliança ainda é decisiva para a mudança social. SemAl Jazeera não teria havido revolução na Tunísia.
Em um artigo intitulado “Comunicação e Revolução”, você recordou que em 5 de fevereiro a China havia proibido a palavra Egito na Internet. Acredita que existem condições para que possa ocorrer, no gigante asiático, um movimento popular parecido com o que esta percorrendo o mundo árabe?
Não, porque 72% do chineses apoiam seu governo. A classe média urbana, sobretudo os jovens, estão muito ocupados enriquecendo-se. Os verdadeiros problemas do campesinato e operários — ou seja, os verdadeiros problemas sociais da China — encontram se muito longe. O governo resguarda-se demais, porque a censura antagoniza muita gente que não está realmente contra o regime. Na China, a democracia não é, hoje, um problema para a maioria das pessoas, diferente do que ocorria na Tunísia e no Egito.
Esse novo tipo de comunicação, globalizada, atomizada e que se nutre se da colaboração de milhões de usuários, pode chegar a transformar nossa maneira de entender a comunicação interpessoal? Ou é apenas uma ferramenta potente a mais, à nossa disposição?
Já tranformou. Ninguém que esta inserido diariamente nas rede sociais (este é o caso de 700 dos 1,2 milhões de usuários) segue sendo a mesma pessoa. Mas não é um mundo exotérico: há uma inter-relação online/off-line.
Como esta comunicação mudou, e muda a cada dia, é uma questão que se deve responder por meio de investigação acadêmica, não através de especialistas em fofocas. E por isso empreendemos o Projeto Internet Catalunha na UOC.
Podemos dizer que os ciber-ataques serão a guerra do futuro?
Na realidade, esta guerra já faz parte do presente. Os Estados Unidos consideram prioritária a ciberguerra. Destinaram a este tama um orçamento dez vezes maior que todos os demais países juntos. Na Espanha, as Forças Armadas também estão se equipando rapidamente na mesma direção. A internet é o espaço do poder e da felicidade, da paz e da guerra.
É o espaço social do nosso mundo, um lugar hibrido, construído na interface entre a experiência direta e a mediada pela comunicação, e sobretudo, pela comunicação na internet
Marcadores:
Comunicação,
MANUEL CASTELLS,
Mídia e Internet,
NASSIF
blog do miro - O fim do domínio absoluto da Globo
Luis Nassif, publicado em seu blog:
Há uma frase de Churchill: "Não se consegue a vitória apenas com recuos bem sucedidos". Vale para a manobra da Globo para anular o Clube dos 13 e negociar diretamente com os clubes os direitos de transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro, quando percebeu que seria derrotada pela Record em um leilão. Fez o recuo. E, agora, cadê o avanço?
*****
Durante 40 anos a Globo consolidou um domínio na audiência da TV aberta, em cima de alguns pilares centrais: a rotina nas novelas e o controle absoluto sobre as transmissões de futebol, sustentado por práticas anticoncorrenciais..
Para consolidar essa distorção, a Globo sempre procurou se posicionar acima dos partidos políticos. Era como se fosse o quarto poder da República.
*****
Quando Roberto Marinho saiu de cena e terminou a era Evandro Carlos de Andrade, cedendo lugar à inexperiência truculenta de Ali Kamel, o modelo começou a ruir.
A proverbial habilidade política da Globo cedeu lugar a fantasias de derrubar presidentes, eleger presidentes e atuar como partido político. Perdeu o status institucional. E aí aparentemente o CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) foi liberado para fazer valer a lei, obrigando a uma disputa limpa pelos direitos de transmissão
*****
Ao longo de décadas a Globo montou uma rede de relacionamento informal, não com os clubes mas com os dirigentes, fechando os olhos para seus negócios paralelos.
Obviamente a proteção trazia implícita a mensagem de que dependeria das relações de lealdade.
A Record entrou no jogo com a ingenuidade de achar que poderia montar relacionamentos com os clubes da noite para o dia e confiar na palavra dada pelos dirigentes. Quando percebeu a extensão do jogo, e a puxada de tapete de alguns dirigentes, começou a preparar matérias de denúncias. Soou mal.
Só que o acordo com a Record – R$ 550 milhões para o Clube dos 13 – renderia R$ 42 milhões para o Corinthians. Com a proposta da Globo, cairá para R$ 20 milhões. Como os presidentes irão se explicar?
No contrato assinado com o Clube dos 13, a Record se dispôs até a dar uma vantagem de 10% para a Globo: ou seja, com até 10% de diferença, o lance da Globo poderia ser vendedor. A Globo não aceitou: queria 30%.
*****
Mesmo assim, não haverá como a Globo justificar a perda de receita dos clubes, caso fechem com ela.
Antes, a Globo comprava todo o conteúdo do campeonato. Agora, o Clube dos 13 decidiu que o conteúdo é dele, que o revenderá de forma segmentada, para emissoras abertas, para TV a cabo, para Internet.
Só o Portal Terra – do grupo Telefonica – parece disposto a pagar R$ 100 milhões pelos direitos na Internet; a Record mais R$ 550 milhões apenas pelos direitos para TV aberta., por apenas dois jogos por semana: um às 20:30 de quarta-feira, outro aos sábados ou domingos. E a Globo pretende pagar apenas R$ 250 milhões por todo o conteúdo, para todas as mídias.
Seja qual for o resultado, o episódio marca o fim de uma era de predomínio das Organizações Globo. Continuarão influentes, mas não mais com o poder absoluto. E cada dia de vida, pelo visto, será um dia a mais para a Record. E um dia a menos para a Globo.
Há uma frase de Churchill: "Não se consegue a vitória apenas com recuos bem sucedidos". Vale para a manobra da Globo para anular o Clube dos 13 e negociar diretamente com os clubes os direitos de transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro, quando percebeu que seria derrotada pela Record em um leilão. Fez o recuo. E, agora, cadê o avanço?
*****
Durante 40 anos a Globo consolidou um domínio na audiência da TV aberta, em cima de alguns pilares centrais: a rotina nas novelas e o controle absoluto sobre as transmissões de futebol, sustentado por práticas anticoncorrenciais..
Para consolidar essa distorção, a Globo sempre procurou se posicionar acima dos partidos políticos. Era como se fosse o quarto poder da República.
*****
Quando Roberto Marinho saiu de cena e terminou a era Evandro Carlos de Andrade, cedendo lugar à inexperiência truculenta de Ali Kamel, o modelo começou a ruir.
A proverbial habilidade política da Globo cedeu lugar a fantasias de derrubar presidentes, eleger presidentes e atuar como partido político. Perdeu o status institucional. E aí aparentemente o CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) foi liberado para fazer valer a lei, obrigando a uma disputa limpa pelos direitos de transmissão
*****
Ao longo de décadas a Globo montou uma rede de relacionamento informal, não com os clubes mas com os dirigentes, fechando os olhos para seus negócios paralelos.
Obviamente a proteção trazia implícita a mensagem de que dependeria das relações de lealdade.
A Record entrou no jogo com a ingenuidade de achar que poderia montar relacionamentos com os clubes da noite para o dia e confiar na palavra dada pelos dirigentes. Quando percebeu a extensão do jogo, e a puxada de tapete de alguns dirigentes, começou a preparar matérias de denúncias. Soou mal.
Só que o acordo com a Record – R$ 550 milhões para o Clube dos 13 – renderia R$ 42 milhões para o Corinthians. Com a proposta da Globo, cairá para R$ 20 milhões. Como os presidentes irão se explicar?
No contrato assinado com o Clube dos 13, a Record se dispôs até a dar uma vantagem de 10% para a Globo: ou seja, com até 10% de diferença, o lance da Globo poderia ser vendedor. A Globo não aceitou: queria 30%.
*****
Mesmo assim, não haverá como a Globo justificar a perda de receita dos clubes, caso fechem com ela.
Antes, a Globo comprava todo o conteúdo do campeonato. Agora, o Clube dos 13 decidiu que o conteúdo é dele, que o revenderá de forma segmentada, para emissoras abertas, para TV a cabo, para Internet.
Só o Portal Terra – do grupo Telefonica – parece disposto a pagar R$ 100 milhões pelos direitos na Internet; a Record mais R$ 550 milhões apenas pelos direitos para TV aberta., por apenas dois jogos por semana: um às 20:30 de quarta-feira, outro aos sábados ou domingos. E a Globo pretende pagar apenas R$ 250 milhões por todo o conteúdo, para todas as mídias.
Seja qual for o resultado, o episódio marca o fim de uma era de predomínio das Organizações Globo. Continuarão influentes, mas não mais com o poder absoluto. E cada dia de vida, pelo visto, será um dia a mais para a Record. E um dia a menos para a Globo.
Marcadores:
blog do miro,
futebol,
NASSIF,
TV GLOBO
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
política - A esquerda e o capitalismo, por Gourevitch - blog do nassif
Enviado por luisnassif, sex, 18/02/2011 - 11:26
Por JB Costa
Entrevista muito boa com um pensador que traduz bem a atual perplexidade acerca da dicotomia capital-trabalho, um dos últimos baluartes que teima em sobreviver para justificar o embate ideológico esquerda-direita.
Do Valor
"Governo de esquerda atrai mais o capital"
Cristian Klein | De São Paulo
18/02/2011
"Os capitalistas não necessariamente lêem meus artigos". A frase do cientista político Peter Gourevitch vem em tom de brincadeira, quando questionado se os temores do mercado foram demasiadamente injustificáveis e irracionais em relação à possibilidade de chegada ao poder no Brasil do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Tudo que viria depois, a manutenção dos cânones da política econômica, um governo afável ao capital, Gourevitch já previa.
Professor da Universidade da Califórnia, ele analisou a economia de 85 países, entre 1975 a 2004, e chegou à conclusão que vai contra a visão tradicional: a de que governos de esquerda espantam os investidores estrangeiros. Nesta entrevista, Gourevitch mostra por que não. Autor de um clássico sobre a relação entre política e grandes crises econômicas ("Politics in Hard Times", de 1986), ele é um dos convidados da conferência "Whatever Happened to North-South?", organizada pela Associação Internacional de Ciência Política (IPSA), pelo European Consortium for Political Research (ECPR) e pela Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), e que termina amanhã, na USP. Hoje, às 15h30, Gourevitch falará sobre os impactos da crise econômica de 2008.
Valor: O senhor defende que os governos de esquerda são os mais atraentes para os investidores. Isso contraria a tese tradicional de que o "capital vota com os pés", ou seja, de que a reação do grande capital é se retirar quando um governo de esquerda chega ao poder. Esse senso comum está errado?
Peter Gourevitch: Sim, é exatamente ao contrário. Mas o meu argumento é que os governos de esquerda são bons para os investidores estrangeiros. O capital doméstico é refratário a ele. Há mais tensão entre o capital doméstico e o trabalho do que entre este e o capital estrangeiro. O trabalhador quer que haja investimento que lhe proporcione a criação de mais empregos. O argumento tradicional da esquerda, de que capital e trabalho estão sempre em conflito, nem sempre é verdade. Depende de qual tipo de capital estamos falando e de qual tipo de trabalho.
Valor: Qual é a lógica que explica seu achado?
Gourevitch: É que o capital doméstico não quer o capital estrangeiro. A grande tensão em muitos países, especialmente da América Latina, é que o que é bom para a nação nem sempre é bom para o capital doméstico, que não quer a concorrência estrangeira. É protecionismo. No México, por exemplo, Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, controla totalmente as telecomunicações e o que resulta disso é que há pouca competição, os preços são altos e há dificuldade em absorver investimentos externos. O capital nacional, no mundo inteiro, não gosta de competição. E usa o nacionalismo para proteger seus interesses. A esquerda segue a mesma linha.
Valor: De que modo?
Gourevitch: A esquerda propaga a ideia de que "não gostamos do mercado e por isso apoiamos políticas regulatórias" que restringem a competição. Não acho que isso seja bom para a esquerda. Ela poderia fazer bem melhor se apoiasse mais os investimentos estrangeiros, a competição, que levariam a mais empregos, a mais prosperidade. A esquerda também é protecionista. Isso é ruim, mas também não ocorre em todas as situações, não é um comportamento uniforme. A esquerda, na verdade, fica muito feliz quando o capital estrangeiro investe e cria empregos.
Valor: Apesar disso, o que vemos é que os partidos de direita se associam à defesa de uma maior liberalização dos mercados.
Gourevitch: Sim, mas não é verdade. Eles flertam. Mas o que eles realmente fazem? Os partidos de direita se dividem entre aqueles que acreditam que a competição e o capital estrangeiro são uma boa coisa, e aqueles que não os querem. Há muitas situações que países como o Brasil enfrentam e cujas escolhas não se encaixam em dicotomias como esquerda e direita e capital e trabalho.
Valor: Por exemplo?
Gourevitch: Lula é o maior exemplo do que estou falando. Quis agradar os trabalhadores, os mais pobres, mas também assumiu uma estratégia de atrair investimentos estrangeiros.
Valor: O senhor afirma que os governos de esquerda contribuem para reduzir a influência e a concentração dos grupos econômicos nacionais, pela proteção a acionistas minoritários, e isso atrai os investimentos. Como isso se dá?
Gourevitch: Mais uma vez, depende de quem estamos falando, de que tipo de investidor estrangeiro. Os fundos de pensão do exterior são muito favoráveis às proteções aos acionistas porque não querem investir em grandes empresas familiares nas quais não têm proteção. As grandes empresas familiares, que são a maioria na maior parte da América Latina, não querem dar proteções aos minoritários. Bancos privados podem gostar, mas não investidores institucionais.
Valor: O capital nacional, no entanto, nem sempre é refratário a investimentos estrangeiros...
Gourevitch: Sim, depende. Não, necessariamente. Se você é dono de uma mina, de uma fonte de recursos naturais, pode, por exemplo, ficar muito feliz com a chegada de investimentos externos que melhorem a malha de transportes para você escoar sua produção.
Valor: Há alguma outra tendência geral, além da atratividade dos governos de esquerda para o capital externo?
Gourevitch: Acho que a distinção entre esquerda e direita não dá conta dos conflitos. Porque você tem uma aliança - na maior parte dos países, incluindo os da América Latina - entre o capital doméstico e o trabalho que busca proteger de forma obsessiva a nação. O nacionalismo é a forma pela qual esta aliança se expressa.
Valor: Em 2002, o mercado brasileiro entrou em polvorosa, com a expectativa da eleição de Lula. A reação foi irracional?
Gourevitch: Eles estavam com medo. Lula surgiu na política com um discurso mais radical. E os capitalistas não necessariamente leem meus artigos (risos). Mas eu me lembro que essa expectativa da chegada dele ao poder gerou um debate grande. No entanto, lá fora, não foram poucos os que se perguntavam por que tanto medo se Lula era um político moderado. E eu mesmo alertava: as condições são seguras, Lula não é Hugo Chávez.
Valor: Logo, o seu argumento não serve para qualquer governo de esquerda.
Gourevitch: Exato. Não dá para dizer esquerda é ruim e direita é bom. Há um tipo de esquerda que os investidores não gostam assim como há um tipo de direita que eles também não querem.
Valor: De que esquerda eles não gostam?
Gourevitch: Hugo Chávez, porque ele não está promovendo empreendimentos privados para desenvolver o país. Ele usa o poder estatal para objetivos políticos e pessoais e não respeita o que os homens de negócio querem fazer. Eles acham que há muito personalismo ali. Eles não gostam de [Fidel] Castro, Chávez, mas gostam de governos de esquerda moderados, como a Bachelet, no Chile, os Kirchner, na Argentina, e Lula.
Valor: E de quais governos de direita eles não gostam?
Gourevitch: Os corruptos e igualmente personalistas, como o de [Ferdinando] Marcos, nas Filipinas, há alguns anos.
Valor: Uma tese bastante difundida é a de quando o capital externo investe em países ricos em recursos naturais, como o petróleo, ele não tem como sair e precisa ficar e lutar, aumentando a chance de quebra de regime e autoritarismo. Como isso se encaixa em seu argumento?
Gourevitch: É verdade. Isso é muito comum. É a maldição do petróleo. Países ricos em óleo não têm um desempenho muito bom no longo prazo porque eles não desenvolvem seu sistema político na mesma proporção de suas riquezas econômicas. É muito fácil retirar petróleo e fazer com ele o que se bem entende. É o que acontece com Hugo Chávez. Se ele tivesse menos óleo teria que se comportar mais cuidadosamente. Teria que se preocupar com o que as pessoas querem, com o que os homens de negócio querem, que é treinamento educacional, infraestrutura etc.
Valor: Quais são as políticas mais típicas que os governos de esquerda fazem para atrair o capital externo?
Gourevitch: Eles tentam estabilizar a economia, criar políticas decentes para o mercado, mostrar que também investem em educação, tentam facilitar a vida econômica, reforçam o investimento social, em infraestrutura, em comunicações, estradas, treinamento. Tentam fazer o país atraente.
Valor: E os governos de direita, como agem?
Gourevitch: Para a direita o importante é que o Estado não crie mais impostos e que tudo mais se resolva pela iniciativa privada
Por JB Costa
Entrevista muito boa com um pensador que traduz bem a atual perplexidade acerca da dicotomia capital-trabalho, um dos últimos baluartes que teima em sobreviver para justificar o embate ideológico esquerda-direita.
Do Valor
"Governo de esquerda atrai mais o capital"
Cristian Klein | De São Paulo
18/02/2011
"Os capitalistas não necessariamente lêem meus artigos". A frase do cientista político Peter Gourevitch vem em tom de brincadeira, quando questionado se os temores do mercado foram demasiadamente injustificáveis e irracionais em relação à possibilidade de chegada ao poder no Brasil do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Tudo que viria depois, a manutenção dos cânones da política econômica, um governo afável ao capital, Gourevitch já previa.
Professor da Universidade da Califórnia, ele analisou a economia de 85 países, entre 1975 a 2004, e chegou à conclusão que vai contra a visão tradicional: a de que governos de esquerda espantam os investidores estrangeiros. Nesta entrevista, Gourevitch mostra por que não. Autor de um clássico sobre a relação entre política e grandes crises econômicas ("Politics in Hard Times", de 1986), ele é um dos convidados da conferência "Whatever Happened to North-South?", organizada pela Associação Internacional de Ciência Política (IPSA), pelo European Consortium for Political Research (ECPR) e pela Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), e que termina amanhã, na USP. Hoje, às 15h30, Gourevitch falará sobre os impactos da crise econômica de 2008.
Valor: O senhor defende que os governos de esquerda são os mais atraentes para os investidores. Isso contraria a tese tradicional de que o "capital vota com os pés", ou seja, de que a reação do grande capital é se retirar quando um governo de esquerda chega ao poder. Esse senso comum está errado?
Peter Gourevitch: Sim, é exatamente ao contrário. Mas o meu argumento é que os governos de esquerda são bons para os investidores estrangeiros. O capital doméstico é refratário a ele. Há mais tensão entre o capital doméstico e o trabalho do que entre este e o capital estrangeiro. O trabalhador quer que haja investimento que lhe proporcione a criação de mais empregos. O argumento tradicional da esquerda, de que capital e trabalho estão sempre em conflito, nem sempre é verdade. Depende de qual tipo de capital estamos falando e de qual tipo de trabalho.
Valor: Qual é a lógica que explica seu achado?
Gourevitch: É que o capital doméstico não quer o capital estrangeiro. A grande tensão em muitos países, especialmente da América Latina, é que o que é bom para a nação nem sempre é bom para o capital doméstico, que não quer a concorrência estrangeira. É protecionismo. No México, por exemplo, Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, controla totalmente as telecomunicações e o que resulta disso é que há pouca competição, os preços são altos e há dificuldade em absorver investimentos externos. O capital nacional, no mundo inteiro, não gosta de competição. E usa o nacionalismo para proteger seus interesses. A esquerda segue a mesma linha.
Valor: De que modo?
Gourevitch: A esquerda propaga a ideia de que "não gostamos do mercado e por isso apoiamos políticas regulatórias" que restringem a competição. Não acho que isso seja bom para a esquerda. Ela poderia fazer bem melhor se apoiasse mais os investimentos estrangeiros, a competição, que levariam a mais empregos, a mais prosperidade. A esquerda também é protecionista. Isso é ruim, mas também não ocorre em todas as situações, não é um comportamento uniforme. A esquerda, na verdade, fica muito feliz quando o capital estrangeiro investe e cria empregos.
Valor: Apesar disso, o que vemos é que os partidos de direita se associam à defesa de uma maior liberalização dos mercados.
Gourevitch: Sim, mas não é verdade. Eles flertam. Mas o que eles realmente fazem? Os partidos de direita se dividem entre aqueles que acreditam que a competição e o capital estrangeiro são uma boa coisa, e aqueles que não os querem. Há muitas situações que países como o Brasil enfrentam e cujas escolhas não se encaixam em dicotomias como esquerda e direita e capital e trabalho.
Valor: Por exemplo?
Gourevitch: Lula é o maior exemplo do que estou falando. Quis agradar os trabalhadores, os mais pobres, mas também assumiu uma estratégia de atrair investimentos estrangeiros.
Valor: O senhor afirma que os governos de esquerda contribuem para reduzir a influência e a concentração dos grupos econômicos nacionais, pela proteção a acionistas minoritários, e isso atrai os investimentos. Como isso se dá?
Gourevitch: Mais uma vez, depende de quem estamos falando, de que tipo de investidor estrangeiro. Os fundos de pensão do exterior são muito favoráveis às proteções aos acionistas porque não querem investir em grandes empresas familiares nas quais não têm proteção. As grandes empresas familiares, que são a maioria na maior parte da América Latina, não querem dar proteções aos minoritários. Bancos privados podem gostar, mas não investidores institucionais.
Valor: O capital nacional, no entanto, nem sempre é refratário a investimentos estrangeiros...
Gourevitch: Sim, depende. Não, necessariamente. Se você é dono de uma mina, de uma fonte de recursos naturais, pode, por exemplo, ficar muito feliz com a chegada de investimentos externos que melhorem a malha de transportes para você escoar sua produção.
Valor: Há alguma outra tendência geral, além da atratividade dos governos de esquerda para o capital externo?
Gourevitch: Acho que a distinção entre esquerda e direita não dá conta dos conflitos. Porque você tem uma aliança - na maior parte dos países, incluindo os da América Latina - entre o capital doméstico e o trabalho que busca proteger de forma obsessiva a nação. O nacionalismo é a forma pela qual esta aliança se expressa.
Valor: Em 2002, o mercado brasileiro entrou em polvorosa, com a expectativa da eleição de Lula. A reação foi irracional?
Gourevitch: Eles estavam com medo. Lula surgiu na política com um discurso mais radical. E os capitalistas não necessariamente leem meus artigos (risos). Mas eu me lembro que essa expectativa da chegada dele ao poder gerou um debate grande. No entanto, lá fora, não foram poucos os que se perguntavam por que tanto medo se Lula era um político moderado. E eu mesmo alertava: as condições são seguras, Lula não é Hugo Chávez.
Valor: Logo, o seu argumento não serve para qualquer governo de esquerda.
Gourevitch: Exato. Não dá para dizer esquerda é ruim e direita é bom. Há um tipo de esquerda que os investidores não gostam assim como há um tipo de direita que eles também não querem.
Valor: De que esquerda eles não gostam?
Gourevitch: Hugo Chávez, porque ele não está promovendo empreendimentos privados para desenvolver o país. Ele usa o poder estatal para objetivos políticos e pessoais e não respeita o que os homens de negócio querem fazer. Eles acham que há muito personalismo ali. Eles não gostam de [Fidel] Castro, Chávez, mas gostam de governos de esquerda moderados, como a Bachelet, no Chile, os Kirchner, na Argentina, e Lula.
Valor: E de quais governos de direita eles não gostam?
Gourevitch: Os corruptos e igualmente personalistas, como o de [Ferdinando] Marcos, nas Filipinas, há alguns anos.
Valor: Uma tese bastante difundida é a de quando o capital externo investe em países ricos em recursos naturais, como o petróleo, ele não tem como sair e precisa ficar e lutar, aumentando a chance de quebra de regime e autoritarismo. Como isso se encaixa em seu argumento?
Gourevitch: É verdade. Isso é muito comum. É a maldição do petróleo. Países ricos em óleo não têm um desempenho muito bom no longo prazo porque eles não desenvolvem seu sistema político na mesma proporção de suas riquezas econômicas. É muito fácil retirar petróleo e fazer com ele o que se bem entende. É o que acontece com Hugo Chávez. Se ele tivesse menos óleo teria que se comportar mais cuidadosamente. Teria que se preocupar com o que as pessoas querem, com o que os homens de negócio querem, que é treinamento educacional, infraestrutura etc.
Valor: Quais são as políticas mais típicas que os governos de esquerda fazem para atrair o capital externo?
Gourevitch: Eles tentam estabilizar a economia, criar políticas decentes para o mercado, mostrar que também investem em educação, tentam facilitar a vida econômica, reforçam o investimento social, em infraestrutura, em comunicações, estradas, treinamento. Tentam fazer o país atraente.
Valor: E os governos de direita, como agem?
Gourevitch: Para a direita o importante é que o Estado não crie mais impostos e que tudo mais se resolva pela iniciativa privada
Marcadores:
economia política,
Filosofia,
NASSIF,
POLITICA
domingo, 21 de novembro de 2010
DILMA E A TRANSIÇÃO - A mudança de guarda em Brasília, segundo Coimbra
BLOG
luisnassif, dom, 21/11/2010 - 16:00
Vida normal em Brasília
Portal ClippingMP
Marcos Coimbra - Correio Braziliense - 21/11/2010
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Os temores de muitas pessoas sobre Dilma começam a se dissipar. Nada do que ela disse e fez depois de eleita os justifica: não está “escondida” sob a sombra de Lula, mostra ter iniciativa e capacidade de liderar
Com notável rapidez, a vida política brasileira se normalizou depois das eleições. Há apenas três semanas, o clima era de intensas emoções. Hoje, tudo está calmo.
Se Serra tivesse vencido, o quadro seria, com certeza, diferente. Os Três Poderes da República teriam entrado em compasso de espera, ninguém sabendo como ficariam e qual seria o jogo entre eles. O mais afetado seria o Executivo, por razões evidentes. O Planalto e a Esplanada estariam no meio de um turbilhão.
Para dizer uma coisa óbvia, a facilidade com que a rotina voltou a Brasília é um sinal de nosso amadurecimento democrático. Vivemos quase o século 20 inteiro atravessando instabilidades, golpes, contragolpes e ditaduras. Nas poucas eleições mais livres que fizemos até 1964, ainda era possível dizer que “se Fulano disputar a eleição, não vence; se vencer, não toma posse; se tomar, não governa”.
Após a volta das eleições diretas, já passamos por quatro transições presidenciais, algumas traumáticas, outras pacíficas. A passagem do poder de Sarney para Collor teve o imenso simbolismo do reencontro com a democracia, depois da mais longa ditadura de nossa história. Tudo naquele momento era extraordinário.
A posse de Itamar tampouco se compara às seguintes, pois aconteceu no auge da crise do impeachment. Ali, as jovens instituições da nova democracia brasileira se tornaram adultas.
De Itamar para Fernando Henrique, houve apenas uma mudança de guarda, sem sobressaltos. Embora entre os dois as coisas nunca tivessem sido tranquilas, para fins externos tudo parecia simples: um presidente saía e entrava outro, os dois farinha do mesmo saco, pois Fernando Henrique era o ex-ministro que Itamar havia indicado para sucedê-lo. À primeira vista, seria apenas uma continuidade ortodoxa, mas ela nada tinha de trivial, pois representava a bem-sucedida conclusão de um longo processo de recuperação da normalidade institucional.
Já a transição de Fernando Henrique para Lula teve mais drama. A biografia e a trajetória do eleito faziam com que a perspectiva de sua chegada ao poder deixasse o sistema político e a sociedade sob tensão. A incerteza sobre como seria seu governo levantou o valor do dólar e fez com que a inflação disparasse, mesmo depois da Carta aos Brasileiros e de sua garantia de que honraria os contratos e os compromissos assumidos.
Mas o mais importante era o sentimento da originalidade daquela transição, com o primeiro líder popular que chegava à Presidência. Tudo nela despertava a curiosidade e atraía a atenção do país.
Este ano, as coisas andam tão tranquilas em Brasília que o assunto da passagem de governo ocupa espaço relativamente pequeno na imprensa. Especulações a respeito do ministério, dúvidas quanto a mudanças de prioridades, fofocas sobre quem sobe e quem desce nas apostas relativas à composição do futuro governo continuam a existir, mas estão longe de ser a maior preocupação do momento.
Os temores de muitas pessoas sobre Dilma começam a se dissipar. Nada do que ela disse e fez depois de eleita os justifica: não está “escondida” sob a sombra de Lula, mostra ter iniciativa e capacidade de liderar, coordena (sem precisar de avalistas) o processo de montagem e de formulação das metas de sua administração.
Parece que Dilma será uma presidente diferente. Agora mesmo, na hora em que seus antecessores dedicavam a maior parte do tempo a conversações a respeito de nomes para integrar o governo, ela prefere se concentrar na discussão de programas. Em vez de tratar as promessas de campanha como águas passadas, tem cobrado dos assessores projetos que assegurem que sejam cumpridas.
Enquanto isso, a vida também segue normal no Congresso. As movimentações de alguns peemedebistas para fazer o “blocão” com outros partidos da base nada têm de novo e não significam que Dilma terá mais dificuldades que Lula para dialogar com senadores e deputados. São apenas brigas por espaço no próprio Congresso, que lá dentro serão resolvidas.
Por mais que alguns torçam para que a presidente enfrente problemas desde o início do governo, não é isso que a maioria da sociedade deseja. (O que é mais um fator favorável para que ela comece bem seu mandato.)
luisnassif, dom, 21/11/2010 - 16:00
Vida normal em Brasília
Portal ClippingMP
Marcos Coimbra - Correio Braziliense - 21/11/2010
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Os temores de muitas pessoas sobre Dilma começam a se dissipar. Nada do que ela disse e fez depois de eleita os justifica: não está “escondida” sob a sombra de Lula, mostra ter iniciativa e capacidade de liderar
Com notável rapidez, a vida política brasileira se normalizou depois das eleições. Há apenas três semanas, o clima era de intensas emoções. Hoje, tudo está calmo.
Se Serra tivesse vencido, o quadro seria, com certeza, diferente. Os Três Poderes da República teriam entrado em compasso de espera, ninguém sabendo como ficariam e qual seria o jogo entre eles. O mais afetado seria o Executivo, por razões evidentes. O Planalto e a Esplanada estariam no meio de um turbilhão.
Para dizer uma coisa óbvia, a facilidade com que a rotina voltou a Brasília é um sinal de nosso amadurecimento democrático. Vivemos quase o século 20 inteiro atravessando instabilidades, golpes, contragolpes e ditaduras. Nas poucas eleições mais livres que fizemos até 1964, ainda era possível dizer que “se Fulano disputar a eleição, não vence; se vencer, não toma posse; se tomar, não governa”.
Após a volta das eleições diretas, já passamos por quatro transições presidenciais, algumas traumáticas, outras pacíficas. A passagem do poder de Sarney para Collor teve o imenso simbolismo do reencontro com a democracia, depois da mais longa ditadura de nossa história. Tudo naquele momento era extraordinário.
A posse de Itamar tampouco se compara às seguintes, pois aconteceu no auge da crise do impeachment. Ali, as jovens instituições da nova democracia brasileira se tornaram adultas.
De Itamar para Fernando Henrique, houve apenas uma mudança de guarda, sem sobressaltos. Embora entre os dois as coisas nunca tivessem sido tranquilas, para fins externos tudo parecia simples: um presidente saía e entrava outro, os dois farinha do mesmo saco, pois Fernando Henrique era o ex-ministro que Itamar havia indicado para sucedê-lo. À primeira vista, seria apenas uma continuidade ortodoxa, mas ela nada tinha de trivial, pois representava a bem-sucedida conclusão de um longo processo de recuperação da normalidade institucional.
Já a transição de Fernando Henrique para Lula teve mais drama. A biografia e a trajetória do eleito faziam com que a perspectiva de sua chegada ao poder deixasse o sistema político e a sociedade sob tensão. A incerteza sobre como seria seu governo levantou o valor do dólar e fez com que a inflação disparasse, mesmo depois da Carta aos Brasileiros e de sua garantia de que honraria os contratos e os compromissos assumidos.
Mas o mais importante era o sentimento da originalidade daquela transição, com o primeiro líder popular que chegava à Presidência. Tudo nela despertava a curiosidade e atraía a atenção do país.
Este ano, as coisas andam tão tranquilas em Brasília que o assunto da passagem de governo ocupa espaço relativamente pequeno na imprensa. Especulações a respeito do ministério, dúvidas quanto a mudanças de prioridades, fofocas sobre quem sobe e quem desce nas apostas relativas à composição do futuro governo continuam a existir, mas estão longe de ser a maior preocupação do momento.
Os temores de muitas pessoas sobre Dilma começam a se dissipar. Nada do que ela disse e fez depois de eleita os justifica: não está “escondida” sob a sombra de Lula, mostra ter iniciativa e capacidade de liderar, coordena (sem precisar de avalistas) o processo de montagem e de formulação das metas de sua administração.
Parece que Dilma será uma presidente diferente. Agora mesmo, na hora em que seus antecessores dedicavam a maior parte do tempo a conversações a respeito de nomes para integrar o governo, ela prefere se concentrar na discussão de programas. Em vez de tratar as promessas de campanha como águas passadas, tem cobrado dos assessores projetos que assegurem que sejam cumpridas.
Enquanto isso, a vida também segue normal no Congresso. As movimentações de alguns peemedebistas para fazer o “blocão” com outros partidos da base nada têm de novo e não significam que Dilma terá mais dificuldades que Lula para dialogar com senadores e deputados. São apenas brigas por espaço no próprio Congresso, que lá dentro serão resolvidas.
Por mais que alguns torçam para que a presidente enfrente problemas desde o início do governo, não é isso que a maioria da sociedade deseja. (O que é mais um fator favorável para que ela comece bem seu mandato.)
Marcadores:
DILMA ROUSSEFF,
Marcos Coimbra,
NASSIF
MIDIA E DTADURA - O caráter na formação da imagem jornalística
BLOG
luisnassif, sab, 20/11/2010 - 22:49
Autor da primeira matéria da Folha sobre a ficha de Dilma Rousseff na Justiça Militar, o repórter Matheus Leitão poderia colher depoimentos em casa sobre a tortura. Poderia entrevistar sua mãe Mirian Leitão, que falaria sobre as torturas que sofreu na prisão, de como quase deu à luz seu primeiro filho na cadeia.
Seria uma maneira de humanizar o relato e de convencer Otávio Frias Filho de que se o jornalismo é o exercício do caráter - como dizia Cláudio Abramo - jamais um jornal poderá moldar o seu caráter em cima da exploração abjeta de temas fundamentais, como a tortura.
Por mais que existam divergências políticas, há limites civizilatórios que não podem ser ultrapassados. Sob pena do caráter do jornal ficar indelevelmente marcado pela chaga da vilania.
luisnassif, sab, 20/11/2010 - 22:49
Autor da primeira matéria da Folha sobre a ficha de Dilma Rousseff na Justiça Militar, o repórter Matheus Leitão poderia colher depoimentos em casa sobre a tortura. Poderia entrevistar sua mãe Mirian Leitão, que falaria sobre as torturas que sofreu na prisão, de como quase deu à luz seu primeiro filho na cadeia.
Seria uma maneira de humanizar o relato e de convencer Otávio Frias Filho de que se o jornalismo é o exercício do caráter - como dizia Cláudio Abramo - jamais um jornal poderá moldar o seu caráter em cima da exploração abjeta de temas fundamentais, como a tortura.
Por mais que existam divergências políticas, há limites civizilatórios que não podem ser ultrapassados. Sob pena do caráter do jornal ficar indelevelmente marcado pela chaga da vilania.
sábado, 13 de novembro de 2010
As mudanças na mídia
BLOG
luisnassif, sex, 12/11/2010 - 09:15
Coluna Econômica
O anúncio da visita de Rupert Murdoch ao presidente Lula traz à tona as profundas mudanças que deverão ocorrer proximamente na mídia.
Murdoch é um empresário australiano que inaugurou a era da globalização na mídia. Com apoio do mercado de capitais avançou sobre o mercado britânico, depois sobre o norte-americano e suas empresas – Fox News à frente – se tornou ator político relevante nas eleições locais.
Essa mesma estratégia político-partidária foi adotada pelo grupo sul-africana Naspers – sócio da Editora Abril.
***
Trata-se de uma mudança de enfoque no papel convencional da mídia ao longo da história. Historicamente jornais sempre se aliaram a partidos políticos, na oposição ou na situação, mas como papel auxiliar.
Em geral, esses grupos tinham posição consolidada em seus respectivos mercados. A convergência digital derrubou as barreiras de entrada (necessidade de investimento em máquinas, capital de giro, papéis etc), permitiu a entrada de novos atores no mercado, como as teles e os grupos de entretenimento.
O caminho escolhido por alguns grupos – especialmente donos de TV aberta (que têm maior abrangência) – foi o de utilizar o espaço preservado para passar a atuar politicamente, não mais como coadjuvante, mas como protagonista.
***
Murdoch abriu o caminho ao empregar vários candidatos republicanos e liderar um pesado movimento conservador – que acabou influenciando a mídia em geral.
No Brasil, esse movimento foi imitado pelo pacto entre quatro grandes grupos de mídia – Globo, Abril, Estadão e Folha – que, de 2005 até agora comandaram a oposição política, inclusive tendo papel decisivo na indicação de José Serra à presidência, em detrimento de Aécio Neves – que teria mais possibilidade de vitória.
***
O reverso desse movimento é o desabrochar da sociedade civil na Internet: blogs, ONGs, OSCIPs, sindicatos, movimentos sociais, todo esse conjunto disputando dentro da mesma plataforma tecnológica dos grandes grupos.
Nos dois casos, haverá a disputa pela audiência e pelas opiniões políticas – os grandes grupos dispondo de estrutura profissional, as organizações sociais somando esforços com o chamado trabalho em rede. Os demais grupos dedicando-se ao entretenimento, a atender às demandas de seus leitores/ouvintes, ora pendendo para uma ideia ou outra.
***
É em cima desse movimento global que se darão as mudanças na radiodifusão brasileira, inclusive a proposta de mudança na legislação prometida por Lula antes de deixar o poder.
A ideia central será, de um lado, defender os atuais grupos de mídia da competição com as teles – muito mais poderosas financeiramente. De outro lado, abrir espaço para uma melhor competição no setor.
Em breve deverão ocorrer transformação de monta no setor. Nas TVs abertas, o aparecimento de novas redes, provavelmente com capital externo. A crise do Banco Panamericano deverá precipitar a venda do SBT. A rede Mais TV está sendo assediada por grupos portugueses. No cabo, as teles começam a competir com a Net. E na Internet, blogs e sites ganharam a maioridade.
luisnassif, sex, 12/11/2010 - 09:15
Coluna Econômica
O anúncio da visita de Rupert Murdoch ao presidente Lula traz à tona as profundas mudanças que deverão ocorrer proximamente na mídia.
Murdoch é um empresário australiano que inaugurou a era da globalização na mídia. Com apoio do mercado de capitais avançou sobre o mercado britânico, depois sobre o norte-americano e suas empresas – Fox News à frente – se tornou ator político relevante nas eleições locais.
Essa mesma estratégia político-partidária foi adotada pelo grupo sul-africana Naspers – sócio da Editora Abril.
***
Trata-se de uma mudança de enfoque no papel convencional da mídia ao longo da história. Historicamente jornais sempre se aliaram a partidos políticos, na oposição ou na situação, mas como papel auxiliar.
Em geral, esses grupos tinham posição consolidada em seus respectivos mercados. A convergência digital derrubou as barreiras de entrada (necessidade de investimento em máquinas, capital de giro, papéis etc), permitiu a entrada de novos atores no mercado, como as teles e os grupos de entretenimento.
O caminho escolhido por alguns grupos – especialmente donos de TV aberta (que têm maior abrangência) – foi o de utilizar o espaço preservado para passar a atuar politicamente, não mais como coadjuvante, mas como protagonista.
***
Murdoch abriu o caminho ao empregar vários candidatos republicanos e liderar um pesado movimento conservador – que acabou influenciando a mídia em geral.
No Brasil, esse movimento foi imitado pelo pacto entre quatro grandes grupos de mídia – Globo, Abril, Estadão e Folha – que, de 2005 até agora comandaram a oposição política, inclusive tendo papel decisivo na indicação de José Serra à presidência, em detrimento de Aécio Neves – que teria mais possibilidade de vitória.
***
O reverso desse movimento é o desabrochar da sociedade civil na Internet: blogs, ONGs, OSCIPs, sindicatos, movimentos sociais, todo esse conjunto disputando dentro da mesma plataforma tecnológica dos grandes grupos.
Nos dois casos, haverá a disputa pela audiência e pelas opiniões políticas – os grandes grupos dispondo de estrutura profissional, as organizações sociais somando esforços com o chamado trabalho em rede. Os demais grupos dedicando-se ao entretenimento, a atender às demandas de seus leitores/ouvintes, ora pendendo para uma ideia ou outra.
***
É em cima desse movimento global que se darão as mudanças na radiodifusão brasileira, inclusive a proposta de mudança na legislação prometida por Lula antes de deixar o poder.
A ideia central será, de um lado, defender os atuais grupos de mídia da competição com as teles – muito mais poderosas financeiramente. De outro lado, abrir espaço para uma melhor competição no setor.
Em breve deverão ocorrer transformação de monta no setor. Nas TVs abertas, o aparecimento de novas redes, provavelmente com capital externo. A crise do Banco Panamericano deverá precipitar a venda do SBT. A rede Mais TV está sendo assediada por grupos portugueses. No cabo, as teles começam a competir com a Net. E na Internet, blogs e sites ganharam a maioridade.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
O Seminário Convergência de Mídia
BLOG
luisnassif, ter, 09/11/2010 - 16:54
Futuro da convergência está na fibra, diz especialista
Por Bruno de Pierro
Do Brasilianas.org
Durante o Seminário Internacional - Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias, que ocorre entre hoje e amanhã, em Brasília, o chefe da Divisão de Informação, Comunicação e Política do Consumidor da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Dimitri Ypsilanti, afirmou, a pouco, que a organização que representa espera que o Brasil participe de reuniões, como observador, e que o governo envie representante a Paris.
Para Ypsilanti, a infraestrutura é importante para a questão da convergência e que, tratando-se de alta velocidade, a fibras são boas opções. Hoje, os novos atores do mercado estão fornecendo conteúdo também, o que muda a configuração da economia. "A maioria dos fornecedores estão entre 50 e 100 canais de TV e nós estamos analisando como as pessoas estão obtendo seus meios de comunicação", disse.
Segundo o representante da OCDE, há migração da TV para as mídias da Internet, e todas as capacidades tecnológicas são importantes e relevantes para a economia. "De acordo com nossa perspectiva, vemos que a informação e as tecnologias de comunicação e informação estão tendo implicações nas atividades macroeconômicas". Nesse sentido, a converg~encia não quer dizer apenas questões de transmissão, pois há várias oportunidades para a educação e para a economia.
Ypsilanti explicou também que o Brasil já está numa estapa avançada, em que, assim como alguns países membros da OCDE, foram criados mercados competitivos, separando os correios das telecomunicações. Mas, com a crescente integração de serviços, deve-se optar por tecnologias que favoreçam a competitividade no mercado.
Os países da OCDE adotaram marcos reguladores semelhantes para promover a concorrência e a interconexão, asism como modelos parecidos para, assim, assegurar mercados transparentes e o acesso a serviços que não eram monopolizados. Ypsilanti acredita que o mercado hoje está coeso, "onde as coisas agora mudam de maneira significativa". Essas mudanças estimulam o crescimento da banda larga - entre 1997 e 2009, o crescimento de intensificou.
Sobre o uso de fibras, Ypsilanti comparou com o uso do trem bala em alguns países, como a França. "Os governos tem escolhido tecnologias em alguns setores, mas aqui falamos de um mercado mais concorrido. E algumas tecnologias não dão suporte para criar competitividade, não facilitam a criação de concorrência", avaliou.
Em Cingapura, por exemplo, há investimento alto para instalação de fibras em 90% das casas, com 7% tendo acesso a internet sem fio. Na Austrália, terá uma cooperação estatal e depois todas as outras empresas irão comprar acesso no atacado, assim como no Reino Unido e na Suécia. No caso da Itália, há a separação operacional.
Com relação à topologia das fibras, há a de ponto-a-ponto, que é um sistema mais fácil para a concorrência, pois simplesmente puxa a fibra do servidor para uma casa. Já a tecnologia de ponto para multiplos pontos é mais difícil e exige mais investimentos, pois, neste caso, a fibra vai para um centro de distribuição. Sempre que um novo assinante surge, e se conecta, o cabo deve ser dividido para três, gerando maiores desafios.
Ypsilanti ainda disse que o sistema Very-high-bit-rate Digital Subscriber Line (VDSL) não é uma opção economicamente viável para o longo prazo. Quanto à fibra à domicílio, muitas pessoas gostam, mas há limitações no custo; um dos desafios é tentar decidir quais são as melhores práticas para isso e quais as opções válidas. O especialista também afirmou que a crise econômica de 2008 acabou fazendo com que os países da OCDE incluíssem fundos para tecnologia. Os franceses criaram novas portas de acesso e estabeleceram acordos com operadoras para ter acesso a apartamentos (o ocupante do apartamento pela primeira vez libera acesso para futuros moradores).
Ypsilanti concluiu alertando que a fibra é a base para as redes futuras e para o desenvolvimento da convergência. Para isso, a concorrência deve ser estimulada.
luisnassif, ter, 09/11/2010 - 16:54
Futuro da convergência está na fibra, diz especialista
Por Bruno de Pierro
Do Brasilianas.org
Durante o Seminário Internacional - Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias, que ocorre entre hoje e amanhã, em Brasília, o chefe da Divisão de Informação, Comunicação e Política do Consumidor da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Dimitri Ypsilanti, afirmou, a pouco, que a organização que representa espera que o Brasil participe de reuniões, como observador, e que o governo envie representante a Paris.
Para Ypsilanti, a infraestrutura é importante para a questão da convergência e que, tratando-se de alta velocidade, a fibras são boas opções. Hoje, os novos atores do mercado estão fornecendo conteúdo também, o que muda a configuração da economia. "A maioria dos fornecedores estão entre 50 e 100 canais de TV e nós estamos analisando como as pessoas estão obtendo seus meios de comunicação", disse.
Segundo o representante da OCDE, há migração da TV para as mídias da Internet, e todas as capacidades tecnológicas são importantes e relevantes para a economia. "De acordo com nossa perspectiva, vemos que a informação e as tecnologias de comunicação e informação estão tendo implicações nas atividades macroeconômicas". Nesse sentido, a converg~encia não quer dizer apenas questões de transmissão, pois há várias oportunidades para a educação e para a economia.
Ypsilanti explicou também que o Brasil já está numa estapa avançada, em que, assim como alguns países membros da OCDE, foram criados mercados competitivos, separando os correios das telecomunicações. Mas, com a crescente integração de serviços, deve-se optar por tecnologias que favoreçam a competitividade no mercado.
Os países da OCDE adotaram marcos reguladores semelhantes para promover a concorrência e a interconexão, asism como modelos parecidos para, assim, assegurar mercados transparentes e o acesso a serviços que não eram monopolizados. Ypsilanti acredita que o mercado hoje está coeso, "onde as coisas agora mudam de maneira significativa". Essas mudanças estimulam o crescimento da banda larga - entre 1997 e 2009, o crescimento de intensificou.
Sobre o uso de fibras, Ypsilanti comparou com o uso do trem bala em alguns países, como a França. "Os governos tem escolhido tecnologias em alguns setores, mas aqui falamos de um mercado mais concorrido. E algumas tecnologias não dão suporte para criar competitividade, não facilitam a criação de concorrência", avaliou.
Em Cingapura, por exemplo, há investimento alto para instalação de fibras em 90% das casas, com 7% tendo acesso a internet sem fio. Na Austrália, terá uma cooperação estatal e depois todas as outras empresas irão comprar acesso no atacado, assim como no Reino Unido e na Suécia. No caso da Itália, há a separação operacional.
Com relação à topologia das fibras, há a de ponto-a-ponto, que é um sistema mais fácil para a concorrência, pois simplesmente puxa a fibra do servidor para uma casa. Já a tecnologia de ponto para multiplos pontos é mais difícil e exige mais investimentos, pois, neste caso, a fibra vai para um centro de distribuição. Sempre que um novo assinante surge, e se conecta, o cabo deve ser dividido para três, gerando maiores desafios.
Ypsilanti ainda disse que o sistema Very-high-bit-rate Digital Subscriber Line (VDSL) não é uma opção economicamente viável para o longo prazo. Quanto à fibra à domicílio, muitas pessoas gostam, mas há limitações no custo; um dos desafios é tentar decidir quais são as melhores práticas para isso e quais as opções válidas. O especialista também afirmou que a crise econômica de 2008 acabou fazendo com que os países da OCDE incluíssem fundos para tecnologia. Os franceses criaram novas portas de acesso e estabeleceram acordos com operadoras para ter acesso a apartamentos (o ocupante do apartamento pela primeira vez libera acesso para futuros moradores).
Ypsilanti concluiu alertando que a fibra é a base para as redes futuras e para o desenvolvimento da convergência. Para isso, a concorrência deve ser estimulada.
sábado, 6 de novembro de 2010
O negócio da mídia e a sociedade, por Paulo Nogueira
BLOG
luisnassif, sab, 06/11/2010 - 09:52
Por Otto
Não consegui abrir o "Fora de pauta". Vai aqui.
QUEM FISCALIZA O FISCAL?
Paulo Nogueira, do blog Diário do centro do mundo
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/
Há, na Inglaterra, uma guerra fria entre os políticos e os jornalistas que cobrem política. Os políticos entendem que os jornalistas não receberam mandato da sociedade – votos, em suma – que lhes dê legimitidade nos comentários ou nos debates.
Em seu bom livro sobre jornalismo, My Trade, ou Meu Ofício, Andrew Marr, editor de política da BBC, detém-se longamente nesta discussão. Há alguma coisa nela, feitas as devidas adaptações, que vale para o Brasil.
Quais os limites do jornalismo e dos jornalistas?
Vejamos a Folha de S. Paulo, por exemplo. Ela procura se colocar, em editoriais e em publicidade, como uma espécie de fiscal sagrado dos governos. Tudo bem. Mas é preciso não perder de vista que ela não recebeu essa incumbência da sociedade.
o foi votada. Não foi eleita.
Fora isso, existe fiscal que não é fiscalizado?
Jornalismo é, como todos os outros, um negócio. Em geral, quem investe em jornalismo não está atrás de dinheiro. Os lucros não costumam ser grandes. O que o jornalismo dá é prestígio, influência. Empresários interessados em recompensas mais palpáveis fazem suas apostas em outras áreas. No começo da década de 2000, quando a internet já desaconselhava investimentos em papel no Reino Unido, um empresário russo comprou o jornal inglês The Evening Standard, em grave crise financeira, examente por isso: para ganhar respeitabilidade.
É um jogo antigo.
Na biografia semioficial de Octavio Frias de Oliveira, está publicado um episódio revelador. Nabantino, o antigo dono da Folha, estava desencantado porque se julgara traído pelos jornalistas que fizeram a greve de 1961. (Meu pai era um deles.) Decidiu vender o jornal. Um amigo comum de Nabantino e Frias sugeriu que ele comprasse. “Dinheiro você já tem da granja”, ele disse. “O jornal vai dar prestígio a você.” Na biografia, a coleção de fotos de Frias ao lado de personalidades mostra que o objetivo foi completamente alcançado. Um granjeiro não estaria em nenhuma daquelas fotos.
Sendo um negócio, o jornalismo não está acima do bem e do mal. É natural que prevaleçam, nele, as razões de empresa. Essas razões podem coincidir com as razões nacionais – ou não. Observe o mais carismático – não necessariamente o melhor ou mais escrupuloso – empresário de jornalismo da história do Brasil, Roberto Marinho, da Globo. Quem garante que o que era melhor para ele era o melhor para o país? Roberto Marinho era tão magnânimo a ponto de pôr os interesses nacionais à frente dos pessoais?
Como a sociedade não elegeu empresas jornalísticas, seus donos não têm que dar satisfação a ninguém sobre coisas como o uso dão ao dinheiro que retiram. Se decidem vender o negócio, nada os impede. Essa é a parte boa de você não ter um vínculo ou uma delegação direta da sociedade. Não existem amarras burocráticas para seus movimentos. Mas você não pode ficar com a parte boa e dispensar a outra – a que não lhe garante tratamento privilegiado apenas por ser da imprensa. Liberdade de expressão não é um conceito que tenha valor em si e sim dentro de um contexto. Na Inglaterra, você não pode publicar um artigo que exalte o terror islâmico, por exemplo. Mesmo no célebre Speaker’s Corner – o canto no Hyde Park tradicional por abrigar qualquer tipo de manifestação de gente que suba num caixote ou numa escada – se você louvar Bin Laden é preso assim que pisar no chão.
No Reino Unido, a mídia é acompanhada, como toda indústria. Há, por exemplo, um órgão regulador independente para a tevê e para o rádio, o Ofcom. A independência é vital. Se o Ofcom fosse manipulado por interesses políticos, seria um problema e não uma solução. Também não prestaria para nada se fosse controlado pelas próprias emissoras. Em poucas atividades há tanta autocomplacência como na auto-regulamentação. Outro fator relevante no acompanhamento da mídia entre os britânicos é a existência de grupos de pressão como o Mediawatcher, uma associação de espectadores que esperneia sempre que acha oportuno.
É curioso que não haja nada desse tipo no Brasil. As pressões do público são desogarnizadas, como vimos, por exemplo, no movimento que sugeriu a Galvão Bueno calar a boca.
Jornalismo é um negócio como todo outro. Apenas, em vez de vender sabão, você vende notícias e análises. Isso dá prestígio – mas não pode dar imunidade. Um modelo de acompanhamento semelhante ao britânico – em que não exista manipulação política do governo, como acontece em ditaduras – seria um avanço para o Brasil. Não se pode confundir acompanhamento com censura: os brasileiros ainda têm clara na memória a agressão ao noticiário sofrida na ditadura militar, e sabem o que aconteceu em países como a Rússia. Mas nada disso pode servir de impedimento para uma discussão adulta que eventualmente conduza da auto-regulamentação para uma regulamentação independente nos moldes da britânica.
Há dois grandes desafios aí. Um é vencer a resistência da mídia em sair da área de conforto da auto-regulamentação. Devem prevalecer aí não os interesses particulares e sim os do país. O outro é neutralizar a tentação dos governo de tomar a si um acompanhamento que só faz sentido se for genuinamente independente
luisnassif, sab, 06/11/2010 - 09:52
Por Otto
Não consegui abrir o "Fora de pauta". Vai aqui.
QUEM FISCALIZA O FISCAL?
Paulo Nogueira, do blog Diário do centro do mundo
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/
Há, na Inglaterra, uma guerra fria entre os políticos e os jornalistas que cobrem política. Os políticos entendem que os jornalistas não receberam mandato da sociedade – votos, em suma – que lhes dê legimitidade nos comentários ou nos debates.
Em seu bom livro sobre jornalismo, My Trade, ou Meu Ofício, Andrew Marr, editor de política da BBC, detém-se longamente nesta discussão. Há alguma coisa nela, feitas as devidas adaptações, que vale para o Brasil.
Quais os limites do jornalismo e dos jornalistas?
Vejamos a Folha de S. Paulo, por exemplo. Ela procura se colocar, em editoriais e em publicidade, como uma espécie de fiscal sagrado dos governos. Tudo bem. Mas é preciso não perder de vista que ela não recebeu essa incumbência da sociedade.
o foi votada. Não foi eleita.
Fora isso, existe fiscal que não é fiscalizado?
Jornalismo é, como todos os outros, um negócio. Em geral, quem investe em jornalismo não está atrás de dinheiro. Os lucros não costumam ser grandes. O que o jornalismo dá é prestígio, influência. Empresários interessados em recompensas mais palpáveis fazem suas apostas em outras áreas. No começo da década de 2000, quando a internet já desaconselhava investimentos em papel no Reino Unido, um empresário russo comprou o jornal inglês The Evening Standard, em grave crise financeira, examente por isso: para ganhar respeitabilidade.
É um jogo antigo.
Na biografia semioficial de Octavio Frias de Oliveira, está publicado um episódio revelador. Nabantino, o antigo dono da Folha, estava desencantado porque se julgara traído pelos jornalistas que fizeram a greve de 1961. (Meu pai era um deles.) Decidiu vender o jornal. Um amigo comum de Nabantino e Frias sugeriu que ele comprasse. “Dinheiro você já tem da granja”, ele disse. “O jornal vai dar prestígio a você.” Na biografia, a coleção de fotos de Frias ao lado de personalidades mostra que o objetivo foi completamente alcançado. Um granjeiro não estaria em nenhuma daquelas fotos.
Sendo um negócio, o jornalismo não está acima do bem e do mal. É natural que prevaleçam, nele, as razões de empresa. Essas razões podem coincidir com as razões nacionais – ou não. Observe o mais carismático – não necessariamente o melhor ou mais escrupuloso – empresário de jornalismo da história do Brasil, Roberto Marinho, da Globo. Quem garante que o que era melhor para ele era o melhor para o país? Roberto Marinho era tão magnânimo a ponto de pôr os interesses nacionais à frente dos pessoais?
Como a sociedade não elegeu empresas jornalísticas, seus donos não têm que dar satisfação a ninguém sobre coisas como o uso dão ao dinheiro que retiram. Se decidem vender o negócio, nada os impede. Essa é a parte boa de você não ter um vínculo ou uma delegação direta da sociedade. Não existem amarras burocráticas para seus movimentos. Mas você não pode ficar com a parte boa e dispensar a outra – a que não lhe garante tratamento privilegiado apenas por ser da imprensa. Liberdade de expressão não é um conceito que tenha valor em si e sim dentro de um contexto. Na Inglaterra, você não pode publicar um artigo que exalte o terror islâmico, por exemplo. Mesmo no célebre Speaker’s Corner – o canto no Hyde Park tradicional por abrigar qualquer tipo de manifestação de gente que suba num caixote ou numa escada – se você louvar Bin Laden é preso assim que pisar no chão.
No Reino Unido, a mídia é acompanhada, como toda indústria. Há, por exemplo, um órgão regulador independente para a tevê e para o rádio, o Ofcom. A independência é vital. Se o Ofcom fosse manipulado por interesses políticos, seria um problema e não uma solução. Também não prestaria para nada se fosse controlado pelas próprias emissoras. Em poucas atividades há tanta autocomplacência como na auto-regulamentação. Outro fator relevante no acompanhamento da mídia entre os britânicos é a existência de grupos de pressão como o Mediawatcher, uma associação de espectadores que esperneia sempre que acha oportuno.
É curioso que não haja nada desse tipo no Brasil. As pressões do público são desogarnizadas, como vimos, por exemplo, no movimento que sugeriu a Galvão Bueno calar a boca.
Jornalismo é um negócio como todo outro. Apenas, em vez de vender sabão, você vende notícias e análises. Isso dá prestígio – mas não pode dar imunidade. Um modelo de acompanhamento semelhante ao britânico – em que não exista manipulação política do governo, como acontece em ditaduras – seria um avanço para o Brasil. Não se pode confundir acompanhamento com censura: os brasileiros ainda têm clara na memória a agressão ao noticiário sofrida na ditadura militar, e sabem o que aconteceu em países como a Rússia. Mas nada disso pode servir de impedimento para uma discussão adulta que eventualmente conduza da auto-regulamentação para uma regulamentação independente nos moldes da britânica.
Há dois grandes desafios aí. Um é vencer a resistência da mídia em sair da área de conforto da auto-regulamentação. Devem prevalecer aí não os interesses particulares e sim os do país. O outro é neutralizar a tentação dos governo de tomar a si um acompanhamento que só faz sentido se for genuinamente independente
Assuntos pendentes: pós e pré eleitorais.
BLOG
luisnassif, sab, 06/11/2010 - 12:03
Autor: Frederico Ozanam Drummond
Dos Blogs do Brasilianas
Estes são alguns assuntos que ficaram pendentes durante o processo eleitoral que elegeu Dilma Presidente. Precisam voltar a pauta urgente:
1 - Quando será lançado o livro "Nos Porões da Privataria", do jornalista Amaury Ribeiro Jr? Como anda a investigação na Polícia Federal e o retorno às investigações das maracutaias descobertas na CPI do Banestado?
2 - Como estão as investigações sobre as denúncias da práticas administrativas nada ortodoxa do sr Paulo Preto, figura central das maioires obras em andamento em São Paulo?
3 - E as investigações sobre Erenice Guerra? O que se descobriu de fato em relação a tráficos de influência? O que é verdade e o que é mentira?
4 - Como ficaram as denúncias sobre o envolvimento de dirigentes do PSDB e do DEM nas maracutáias comandadas pelo ex-governador Arruda?
5 - Em que pé estão as investigações sobre o chamado mensalão, envolvendo integrantes do PT? E a sua versão mineira, com o envolvimento de dirigentes do PSDB?
Não vou aguardar apenas respostas. Garanto que vou atrás.
luisnassif, sab, 06/11/2010 - 12:03
Autor: Frederico Ozanam Drummond
Dos Blogs do Brasilianas
Estes são alguns assuntos que ficaram pendentes durante o processo eleitoral que elegeu Dilma Presidente. Precisam voltar a pauta urgente:
1 - Quando será lançado o livro "Nos Porões da Privataria", do jornalista Amaury Ribeiro Jr? Como anda a investigação na Polícia Federal e o retorno às investigações das maracutaias descobertas na CPI do Banestado?
2 - Como estão as investigações sobre as denúncias da práticas administrativas nada ortodoxa do sr Paulo Preto, figura central das maioires obras em andamento em São Paulo?
3 - E as investigações sobre Erenice Guerra? O que se descobriu de fato em relação a tráficos de influência? O que é verdade e o que é mentira?
4 - Como ficaram as denúncias sobre o envolvimento de dirigentes do PSDB e do DEM nas maracutáias comandadas pelo ex-governador Arruda?
5 - Em que pé estão as investigações sobre o chamado mensalão, envolvendo integrantes do PT? E a sua versão mineira, com o envolvimento de dirigentes do PSDB?
Não vou aguardar apenas respostas. Garanto que vou atrás.
Sociedade e poder na era da Internet
blog
luisnassif, sab, 06/11/2010 - 13:30
Por Luiz Horacio
O poder do tipo que se aparta da sociedade, a fim de criar um mito da dominação, e assim poder dominá-la, não sobrevive sem a interdição das informações, mesmo as mais triviais. Nas tantas vezes que se esclareceram os "segredos e razões de Estado", mundo fora, o que se viu é que, tirando informações realmente estratégicas, que são muito poucas, diga-se de passagem, as outras são informações triviais, porém, concernentes a um grupo que deseja o poder e a dominação sobre os outros. O represesamento da informação pode criar um caldo que se converte no mito da dominação e do dominado.
Isso já não é mais tanto assim, pois essa formas de poder estavam todas muito ligadas à acumulação de capitais, ou mesmo à mera apropriação deles, ainda que por métodos muito pouco recomendáveis. Mas hoje a cidadania tem uma visão mais madura do que seja a divisão de trabalho na sociedade e de quais são as suas perspectivas e opções. O mundo cada vez mais oferece outras alternativas, que não sejam ter um castelo, um exército e uma sala do tesouro. Os valores estão muito mais harmonizados e mesmo essas funções sociais destacadas, elas só fazem sentido se forem de fato necessidades sociais. Os mitos mais arcaicos se desfizeram ou pelo menos foram esclarecidos.
A Internet é de fato o paradoxo da dominação e do dominado. Os sistemas, o econômico, o poder político, nas formas pós-industriais, precisam da Internet, mas ao haver Internet, o dominado abre as portas de sua libertação. As "receitas" de poder já não fermentam mais, a ingenuidade se foi, e uma nova força gravitacional mais complexa passa a organizar as comunidades. Aquela coisa de castas, de ser superior, de raça superior, de sangue azul, tende a desaparecer na sociedade da informação, e os sistemas nacionais e internacionais não têm escolha, pois o próximo passo na produtividade é a sociedade da informação. Há uma igualdade intrínseca nesse novo mundo, o outro sabe que é igual a você, e que ninguém é melhor do que ninguém. Temos apenas diferenças, singularidades, pontos fortes e pontos fracos, características individuais ou grupais, e mesmo coletivas, valores que no final das contas são todos importantes, e nenhum deve ser subestimado e nem superestimado.
luisnassif, sab, 06/11/2010 - 13:30
Por Luiz Horacio
O poder do tipo que se aparta da sociedade, a fim de criar um mito da dominação, e assim poder dominá-la, não sobrevive sem a interdição das informações, mesmo as mais triviais. Nas tantas vezes que se esclareceram os "segredos e razões de Estado", mundo fora, o que se viu é que, tirando informações realmente estratégicas, que são muito poucas, diga-se de passagem, as outras são informações triviais, porém, concernentes a um grupo que deseja o poder e a dominação sobre os outros. O represesamento da informação pode criar um caldo que se converte no mito da dominação e do dominado.
Isso já não é mais tanto assim, pois essa formas de poder estavam todas muito ligadas à acumulação de capitais, ou mesmo à mera apropriação deles, ainda que por métodos muito pouco recomendáveis. Mas hoje a cidadania tem uma visão mais madura do que seja a divisão de trabalho na sociedade e de quais são as suas perspectivas e opções. O mundo cada vez mais oferece outras alternativas, que não sejam ter um castelo, um exército e uma sala do tesouro. Os valores estão muito mais harmonizados e mesmo essas funções sociais destacadas, elas só fazem sentido se forem de fato necessidades sociais. Os mitos mais arcaicos se desfizeram ou pelo menos foram esclarecidos.
A Internet é de fato o paradoxo da dominação e do dominado. Os sistemas, o econômico, o poder político, nas formas pós-industriais, precisam da Internet, mas ao haver Internet, o dominado abre as portas de sua libertação. As "receitas" de poder já não fermentam mais, a ingenuidade se foi, e uma nova força gravitacional mais complexa passa a organizar as comunidades. Aquela coisa de castas, de ser superior, de raça superior, de sangue azul, tende a desaparecer na sociedade da informação, e os sistemas nacionais e internacionais não têm escolha, pois o próximo passo na produtividade é a sociedade da informação. Há uma igualdade intrínseca nesse novo mundo, o outro sabe que é igual a você, e que ninguém é melhor do que ninguém. Temos apenas diferenças, singularidades, pontos fortes e pontos fracos, características individuais ou grupais, e mesmo coletivas, valores que no final das contas são todos importantes, e nenhum deve ser subestimado e nem superestimado.
Assinar:
Postagens (Atom)
